sábado, 29 de novembro de 2008

LEMBRANÇA DA TERRA E DE JOANA D'ARC

Denis defendeu o Espiritismo nas tribunas e nos livros, mas nunca deixou de ser um homem do seu tempo, atento a tudo que o cercava.Era um nacionalista. Amava a França, particularmente a região de Lorena, onde nasceu. Sua terra natal tinha algo especial, que o fascinava: lá vivera Joana d'Arc, a heroína francesa que recebera, tanto quanto ele, a influência da cultura céltica.Desta vez, o francês Léon Denis nos traz lembranças de paisagens e pessoas da região de Lorena, onde nasceu:"Toda a minha infância foi embalada pelo relato das depredações causadas pelos exércitos inimigos. À sua aproximação, os habitantes das aldeias, levando o que tinham de mais importante, fugiam para os confins dos bosques, onde erguiam barracas, às pressas. (...) De todos esses fluxos e refluxos de exércitos, desses cercos e choques violentos, a Lorena sofreu mais do que qualquer outra província francesa. Isso motivou um patriotismo ardente que persiste através dos séculos."Muitos críticos apressados não entendem o patriotismo ardente de Denis. Após o relato acima, apenas perguntaríamos: como não ser um nacionalista, tendo passado a infância em tal lugar e sendo marcado por tais vivências?Continuemos a acompanhá-lo, agora que descreve detalhes da paisagem de sua terra:"Andei, frequentemente, por essas cristas e esses planaltos encrespados de carvalhos, de faias e negros abertos entre os rochedos de arenito vermelho e de ruínas de velhos burgos, pousados como ninhos de águia sobre os cumes".Que sensações experimentava o andarilho em meio a tal paisagem?"Quando um tremor passa sobre as massas de verde e faz ondular o cume das grandes árvores da floresta, quando a voz das torrentes e das cascatas se eleva do fundo dos vales, a alma iniciada compreende melhor a beleza eterna, a suprema harmonia das coisas e vibra em uníssono com a vida universal. É o que senti não somente sobre as alturas de Saint Odile, mas também sobre a maior parte dos cumes dos Vosges."Se a natureza remete Denis às lembranças desta vida, os monumentos, por sua vez, lhe trarão à memória vidas anteriores, passadas entre os celtas:"Pessoalmente pude observar em Lorena muitas dessas rochas arrumadas em altares, com cavidades circulares, espécie de pias de água-benta druídicas. (...) Preferimos os velhos altares em plena floresta, onde os romanos nunca entravam, ficando nas cidades e nos grandes vales abertos às rotas comerciais. Eu admiro os rochedos antigos na floresta onde nós, celtas, nos sentimos mais em casa."Quem era Léon Denis? Um ermitão, vivendo nas alturas, longe dos homens do seu tempo? Claro que não. Voltando a Lorena, através do seu relato, descobrimos algumas curiosidades."Gostava de conversar com os lenhadores e os carvoeiros da floresta de Vosges e constatei que se reencontra entre eles tudo o que caracteriza a raça céltica, a elevada estatura, a alegria, a hospitalidade, o amor à independência".Mas de todas as lembranças, a que mais emocionará Denis, em seus passeios e meditações, será sempre a de sua amada Joana d'Arc:"Mas é, sobretudo, o vale de Meuse que faz voltar minhas lembranças e afetos. Minha cidade natal, o lugar de meu último nascimento, está separado de Vancouleurs por uma floresta; minhas excursões a Domremy são incontáveis. Uma atração poderosa me reconduz a ela. A colina de Bermont, com os bosques densos, as fontes sagradas, a velha capela onde Jeanne d'Arc ia sempre orar, conservou todo seu encanto poético".Léon Denis evoca muitas dessas tradições para explicar a personalidade de Joana e o contexto em que ela viveu e cumpriu sua missão. Nas exaustivas pesquisas, recorreu também ao historiador Henri Martin, de quem colheu informações que lhe permitiram completar sua pesquisa sobre a influência céltica na vida de Joana.Assim descreve os arredores onde viveu a heroína francesa:"Próximo à casa de Joana, subia o outeiro, a cujo cimo, coberto de mata, era dado o nome de Bois Chesnu. À meia encosta, de sob grande faia isolada, borbotava uma fonte. Em suas águas claras, buscavam a cura os enfermos. Seres misteriosos, o gênios das águas, das pedras e dos bosques, as senhoras fadas frequentavam a cristalina fontes e a faia secular, que se chamava o Belo Maio".E acrescenta: "Ao entrar a primavera, vinham as donzelas dançar embaixo da árvore de Maio, bela como os lírios, e pendurar-lhe nos galhos, em honra das fadas, grinaldas que desapareciam durante a noite, segundo a voz geral".Léon Denis não se comentava com a leitura de biógrafos de Joana d'Arc. Ele voltou aos lugares onde ela viveu, a fim de deixar aflorar experiências mais sutis:"Como Joana, eu gostava de visitar os bosques, as fontes sagradas, as árvores seculares em volta das quais se desenvolvia o 'círculo das fadas'. Que eram essas fadas de que se trata um pouco por todas as partes de Lorena Sem dúvida, uma vaga e longínqua lembrança das druidisas de vestidos brancos, celebrando seu culto sob os raios prateados da lua."Antes que alguém estranhe, esclareço que as fadas fazem parte das tradições célticas do povo francês.Os relatos deste artigo estão no livro "O Gênio Céltico e o Mundo Invisível", de Léon Denis, traduzido por Cícero Pimentel e editado, pela primeira vez no Brasil, pelo Centro Espírita Léon Denis.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

MENSAGEM DE JOANA


Junho de 1909. Improviso no estado de transe
"A Igreja vai-se. São fictícias sua energia, sua orientação. A energia lhe vem da desorganização dos partidos que se lhe opõem. Só ela permanece de pé em face das escolas materialistas. Só ela representa a alma em face do materialismo e da Ciência. No momento em que a Ciência consagrar a alma, a Igreja desmoronará. A Igreja é um melhor relativo. Todos os que sentem o enlevo da vida da alma se refugiam nela, porque não têm outra coisa. Muitas almas não podem formar para si uma fé pessoal; pedem a outros a crença e acham mais cômodo dirigir-se à Igreja. Mais vale crer no Catolicismo, do que não crer em coisa alguma. Mas, no dia em que se constituir a filosofia científica, artística e literária, que há-de sintetizar o ideal, a Igreja atual desaparecerá. A Igreja recebeu em seu seio as artes e as letras, não a Ciência. Ela rejeita uma parte do saber; por isso mesmo, terá que ceder o passo a uma filosofia que abrangerá todo o saber humano. Dizemos filosofia - e não religião - porque esta última palavra tem hoje o sentido de seita.
A Reforma seduziu algumas almas, porque permitia unir a moral à religião. Tudo era então consentido pela Igreja, contanto que cada um soubesse obter o perdão pelo dinheiro. A venda das indulgências era pública.
Todo o mundo via, de um lado, a moral; de outro, a religião. A questão moral abalou a Igreja; hoje, será a Ciência quem acabará com ela. No momento em que os homens «souberem>>, a Igreja virá abaixo.
Não choramos o seu desaparecimento. Ela não representa, na História, mais do que uma das formas da idéia religiosa em marcha. Fez o bem e preferimos ver esse bem a notar o mal que causou; acima de tudo, apraz-nos ver nela a grande figura do Cristo, seu fundador. Veremos sempre, na missa, o Evangelho, que lhe é o ponto central e não a elevação da hóstia, como muitos acreditam. Amamos esse Evangelho; é ele que ainda hoje nos atrai a algumas catedrais. Amamos a Igreja, veneramo-la, como veneramos tudo o que haja proporcionado à Humanidade alguma coisa de grande.
Mais tarde, maior veneração consagraremos àquele que há-de trazer uma nova palavra de vida, ao Espírito de Verdade, anunciado desde longo tempo.
Será um homem de ciência, um sábio, um filósofo e, sobretudo, um homem de delicada sensibilidade. Os Maometanos o esperam também. Todas as religiões o prometeram. E' mister que todas as almas se sintam desorientadas, que todas experimentem a necessidade de sua vinda. A dissolução é mais profunda do que na época em que o Cristo apareceu e também o desejo de saber. Todos os povos se acham oprimidos pelos governos. A hora se aproxima.
Ninguém deve levantar-se contra os que se vão, contra a Igreja. O Cristo não clamou contra a religião. Lembrai-vos de que ele pronunciou estas palavras por demais esquecidas: "Aos Judeus, primeiramente!" Nós, também, por nossa vez, dizemos: "À Igreja, primeiramente!") pois é ela que encerra maior número de espiritualistas; é ela quem deles maior necessidade tem. A nova religião se elevará sobre as bases do Cristianismo, como o Cristianismo se elevou sobre o Judaísmo. A antiga Igreja, como a lei de Moisés, será renovada, melhorada.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

JOANA D'ARC E A IDEIA DE RELIGIÃO


Amo a Deus de todo o meu coração.

JEHANNE
As crenças de Joana são as do seu tempo: Sou boa cristã e boa cristã morrerei, respondia aos juizes, sempre que a interrogavam sobre sua fé. Nem podia ser de outra maneira. Só nas convicções e esperanças dos homens da época podia ela haurir as energias, os impulsos necessários à salvação da França. Assistia-a o mundo invisível, que se lhe revelava sob as formas e aparências familiares à religião da Idade Média. Aliás, que importam as formas! Variam e mudam com os séculos. Quanto ao alicerce da idéia religiosa, esse, sim, é eterno, pois que toca as fontes divinas.
A idéia religiosa, em seus diversos aspectos, penetra profundamente toda a História, toda a vida intelectual e moral da Humanidade. Freqüentemente se extravia e engana, podendo seus ensinamentos e manifestações ser contestados.
Sempre, porém, se apóia em realidades invisíveis, de ordem permanente, imutáveis, que o homem só entrevê gradualmente no curso de sua lenta e trabalhosa evolução.
As sociedades humanas não podem dispensar um ideal religioso. Desde que o tentam rechaçar ou destruir, logo a desordem moral aumenta e a anarquia alça ameaçadora a cabeça. Não o vemos na quadra atual?
As leis terrenas são impotentes a refrear o mal. Para se comprimirem as paixões, indispensáveis são a força interior e o sentimento das responsabilidades que a noção do Além faculta.
A idéia religiosa não pode perecer. Se por instantes um véu a encobre, é unicamente para que ressurja debaixo de outras formas mais bem adequadas às necessidades dos tempos e dos meios.
Eram os mais elevados, dissemos, os sentimentos religiosos de Joana.
Absoluta a fé em Deus que a enviou; ilimitada a confiança que deposita em seus guias invisíveis. Observa fielmente os ritos e práticas do culto de então; mas, quando afirma sua fé, sobrepõe-se a todas as autoridades estabelecidas neste mundo.
As crenças ardentes da heroína se inspiram diretamente nas coisas do Alto e embebem as raízes na sua consciência. Efetivamente, a quem sobretudo ela obedece? Às vozes que escuta e não à Igreja. De nenhum intermediário se socorre para comunicar com o Céu. A poderosa inspiração traz-lhe um sopro que lhe bafeja a fronte e essa inspiração lhe domina a vida inteira e preside a todos os atos.
Relembremos a cena de Ruão, quando o bispo de Beauvais, acompanhado de sete padres, a interroga na prisão:
-Joana, diz o bispo, queres submeter-te à Igreja?
Ela responde:
-Reporto-me a Deus em todas as coisas, a Deus que sempre me inspirou!
P. - Aí está uma palavra bastante grave. Entre ti e Deus, há a Igreja. Queres, sim ou não, submeter-te à Igreja ?
R. - Vim ao encontro do rei para salvar a França, guiada por Deus e por seus santos Espíritos. A essa Igreja, à de lá do Alto, me submeto com relação a tudo que tenho feito e dito!
P. - Assim, recusas submeter-te à Igreja; recusas renegar tuas visões diabólicas?
R. - Reporto-me a Deus somente. Pelo que respeita às minhas visões, não aceito o julgamento de homem algum!
A razão íntegra lhe diz que aquela Igreja não é a de Deus. A potência eterna absolutamente não toma parte nas iniqüidades humanas. Não lhe sendo possível demonstrar esta verdade com o auxílio de argumentos sutis e eruditos, exprime-a em frases breves, claras, brilhantes, como os lampejos de uma lâmina de polido aço. Ela obedecerá à Igreja, mas com a condição de serem suas exigências conformes às vontades do Alto: Servir a Deus em primeiro lugar.
Nas concepções religiosas de Joana d'Arc prima a comunhão pelo pensamento e pelos atos com o mundo invisível, com o mundo divino. Por meio dessa comunhão é que se operam os grandes feitos, dela se originam as profundas intuições. Para que estas, porém, se possam verificar, são precisas certas condições de elevação moral, que Joana preenchia no mais alto grau.
Por consegui-Ia naqueles em cujo meio vivia, despertava-lhes os sentimentos religiosos, obrigando-os a se confessarem e a comungarem. Expulsava do acampamento as mulheres de vida desregrada. Não marchava contra o inimigo, senão ao som das preces e dos cânticos. Tudo isto é de molde a causar surpresa ao cepticismo de nossa época; mas, na realidade, por outros quaisquer meios ela não lograria, num século de fé cega, obter daqueles homens grosseiros a necessária exaltação. Apenas cessa esse adestramento moral, assim que se completa a obra de intriga dos cortesãos e dos despeitados, logo que os hábitos viciosos e os maus instintos de novo preponderam, recomeçam os desastres e os reveses.
As potências superiores nada importam a forma do culto e o aparato religioso. Exigem tão somente dos homens elevação da alma e pureza de sentimentos, o que se pode conseguir em todas as religiões e mesmo fora e acima das religiões. E' o que muito claramente sentimos, nós espíritas, que, por entre zombarias e dificuldades sem conta, vamos pelo mundo a proclamar a
verdade, tendo como único apoio a ajuda, que nunca nos faltou, das Entidades do Além.
O que, sobretudo, caracteriza Joana é a confiança, confiança no êxito, confiança em suas vozes, confiança em Deus. No momento da luta, nas horas indecisas da batalha, incute-a em todos os que a seu lado combatem. A fé que tem na vitória é tão grande, que constitui um dos elementos essenciais do definitivo triunfo.
Sua vida inteira se nos apresenta impregnada dessa confiança. Seja na prisão, seja na presença dos juízes, ela acredita sempre na libertação final; afirma-o continuadamente com segurança. As vozes lhe disseram que seria libertada -por uma grande vitória-. Nestas palavras, havia apenas uma figura de linguagem; tratava-se, realmente, do martírio. Joana, a princípio, não o entendendo assim, contou por muito tempo com o socorro dos homens. Notemos a necessidade de tal erro. A promessa das vozes lhe serviu de supremo alento nos dias dolorosos do processo. Era donde lhe vinha o desassombro que manteve diante do tribunal. Fez mesmo com que, chegado o momento do sacrifício, ela caminhasse confiante para a morte. O derradeiro grito que solta dentre as chamas vorazes ainda é uma afirmação da sua crença: - Não, minhas vozes não me enganaram!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

JOANA D'ARC E A IDEIA DE HUMANIDADE



NUNCA MATEI NINGUÉM

JEHANNE

Não pretenderemos que Joana d'Arc tenha sido quem nos trouxe a primeira noção de humanidade. Muito antes dela, em todos os tempos, os gemidos dos que sofrem despertaram nas almas sensíveis os sentimentos de piedade, de compaixão, de solidariedade. Estas qualidades, porém, no decurso da guerra de Cem Anos, se haviam tornado raríssimas, particularmente entre os que cercavam Joana, entre aqueles soldados embrutecidos, que fizeram da guerra uma obra de rapina e de banditismo. E' numa época assim, férrea e sanguinária, que a virgem Lorena nos faz ouvir a cariciosa linguagem da comiseração, da bondade.
Não há dúvida de que ela se armou para salvar a França, mas, passada a hora da luta, volve a ser a mulher de terno coração, o anjo de meiguice e da caridade. Por toda parte, opõe-se aos massacres e sempre oferece a paz antes de atacar. Três vezes, diante de Orleães, reitera propostas deste gênero. Socorre os feridos e mesmo os feridos ingleses. Aos desgraçados leva o conforto e sofre por todos os sofrimentos humanos.
Na escura noite feudal, o décimo quinto século se mostra mais tenebroso, ainda mais sinistro do que os outros. E' o século em que se vê um rei de Aragão matar o filho e um conde de Gueldre assassinar o pai; em que um duque da Bretanha se faz assassino do irmão, e uma condessa de Foix o carrasco da irmã. Através da densa nuvem sangrenta que envolve homens e coisas, Joana nos aparece qual visão do Alto. Fitando-a, encontramos repouso para a vista e nos consolamos do espetáculo dos morticínios. São dela estas dulcíssimas palavras: «Jamais vi correr sangue de francês, sem que os cabelos se me eriçassem».
Na corte de Carlos VII não se praticava somente toda sorte de roubos e de atos de banditismo. Os assassínios também eram freqüentes. O senhor de Giac, camarista-mor e mais tarde favorito do rei, assassinara a mulher, Joana de Naillac, para casar com a opulenta condessa de Tonnerre, Catarina de 1'Isle-Bouchard, e pereceu, ele próprio, afogado, por instigações não só do condestável de Richemont, a cuja política se constituíra um embaraço, como de La Trémoille, que lhe cobiçava a esposa, depois de ter, à força de maus tratos, dado a morte àquela com quem se casara. Um outro favorito de Carlos VII, Le Camus de Beaulieu, morre assassinado na presença do monarca. O conde d'Armagnac seqüestra o marechal de Séverac, arranca-lhe um testamento a seu favor e em seguida manda matá-lo.
Num meio assim monstruoso é que à boa Lorena cumpre intervir. Essa circunstância lhe tornará ainda mais penosa a tarefa e multiplicará, para a sua sensibilidade, as causas de sofrimento.
Alguns escritores quiseram ver em Joana d'Arc uma espécie de virago, de virgem guerreira exaltada pelo gosto dos combates. Nada mais falso; desmentem semelhante opinião as ações e palavras da heroína. E' certo que ela sabe afrontar os perigos e expor-se aos golpes do inimigo; mas, quer nos acampamentos, quer no ardor das refregas, jamais se despojou da doçura e da modéstia peculiares à mulher. Era bondosa e pacífica de natureza. Nunca trava combate com os ingleses, sem que previamente os convide a se afastarem.
Quando os adversários se retiram sem lutar, como a 8 de maio, junto de Orleães, ou quando cedem ao embate dos franceses, ordena que os poupem:
«Deixai-os ir, dizia, não os mateis. A mim me basta que se retirem.»
Nos interrogatórios de Ruão perguntam-lhe: «Que era o a que mais querias, ao estandarte, ou à espada?» Ela responde: «Amava muito mais, mesmo quarenta vezes mais ao meu estandarte, do que à minha espada. Nunca matei ninguém!».
Para se preservar dos arrastamentos da luta, estava sempre com a bandeira empunhada, porque, dizia ainda: «Não quero servir-me da espada.» Não raro surgia onde mais violenta era a peleja, em risco de ser morta ou presa.
Nesses momentos, referem seus companheiros d'armas, deixava de ser a mesma.
Passado, porém, o perigo, voltavam a predominar nela a doçura e a simplicidade. Ainda durante a ação, sua sentimentalidade acorda, reaparece a mulher: «Ao sentir-se ferida, consta no texto, teve medo e chorou.» Depois, decorrido algum tempo, disse: «Estou consolada.» Seus temores. suas lágrimas a tornam mais tocante aos nossos olhos, pois que lhe emprestam ao caráter esse encanto, essa força misteriosa, que constituem um dos maiores atrativos de seu sexo.
Joana, dizíamos, tinha um coração sensível. As injúrias dos inimigos feriam-na fundo: «Quando os ingleses lhe chamavam ribalta, refere uma testemunha, rompia em pranto.» Mas, logo, por meio da prece, que dirigia a Deus, purificava a alma de todo ressentimento e perdoava.
No cerco de Orleães, um dos principais chefes ingleses, Glasdale, assim que a divisava, cobria-a de invectivas. De cima do parapeito do forte das Tourelles, pos, no dia do ataque, a vociferar contra ela. Dali a pouco tempo, ao ser o bastião tomado de assalto, caía, completamente armado, no Liger e se afogava. «Joana - acrescenta a testemunha -, cedendo à piedade, entrou a chorar copiosamente pela alma de Glasdale e dos outros que, em grande número, também se afogaram».
Joana, portanto, não é unicamente a virgem dos combates. Mal cessa a batalha, ei-la que se transforma no anjo de misericórdia. Vimos que, ainda criança, já socorria os pobres e cuidava dos enfermos. Investida no comando do exército, consegue inflamar a coragem na hora do perigo; mas, findo o reecontro, comove-a o infortúnio dos vencidos e seus esforços convergem para lhes minorar os malefícios da guerra. Em oposição aos costumes do tempo, na medida que o interesse predominante da França lho permite, empenha-se, com risco da própria vida, na defesa dos prisioneiros e dos feridos votados à decapitação. Tudo faz por tornar menos cruel a morte dos moribundos.
Na Idade Média, era de regras não dar quartel aos vencidos. <>.
Como Joana, sejamos equânimes e não odiemos os inimigos. Saibamos render homenagem ao merecimento, trate-se embora de um adversário. Defendamos nossos direitos, nosso patrimônio, quando for preciso, porém não provoquemos os outros.
A esta luz, a virgem Lorena nos dá mais do que uma lição de patriotismo, dá-nos uma lição viva de humanidade. Armando-se, fê-lo muito menos em nome da lei de guerra, do que em nome da lei de amor, muito menos para atacar, do que para defender e salvar. Ainda quando revestida da armadura, revela as mais belas qualidades da mulher: o espírito de desprendimento, espontânea e absoluta de si mesma, a compaixão de todos os que sofrem, o apego, levado ao sacrifício, aos entes amados, à família, à pátria, o engenho do senso prático e das intuições para lhes advogar os interesses numa palavra - a dedicação, até à morte, a tudo que lhe é caro. Neste sentido, Joana d'Arc sintetiza e personifica o que há de mais nobre, de mais delicado e de mais belo na alma das mulheres da França.


trecho do livro JOANNA D'ARC de Leon Denis

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O ESPIRITUALISMO MODERNO


JOANA D'ARC
AS MISSÕES DE JOANA
Se a fé. costume, leis em treva divisa. A Joana, claro sol que fulge no horizonte.As vozes e o olhar erguer todos saibamos A Gália não foi o único teatro das manifestações do Além. Toda a antiguidade conheceu os fenômenos ocultos. Eles constituíam um dos principais elementos dos mistérios gregos. As primeiras décadas do Cristianismo se nos mostram férteis de visões, de aparições, de vozes, de sonhos premonitórios (27_5), onde os iniciados e os crentes hauriam a força moral que lhes
comunicava à vida incomparável impulso e lhes permitia afrontar sem desfalecimentos is provações e os suplícios. Desde os mais remotos tempos, a humanidade invisível entreteve sempre relações com a nossa. De contínuo, uma corrente de vida espiritual se difundia sobre a humanidade terrestre, por meio dos profetas e dos médiuns. Esta corrente, este influxo vital, manando das fontes eternas, foi que deu nascimento às grandes religiões. Todas, em sua origem, imergem as raízes nessas águas lustrais e, enquanto nelas se banham, conserva o viço, o prestígio, a vitalidade. Enfraquecem e morrem, quando se afastam daqueles reservatórios e lhes menosprezam as forças encobertam.
E' o que sucede ao Catolicismo, por haver desapreciado, esquecido a caudal abundante de força espiritual que fecundava a idéia cristã em seu nascedouro. Queimou aos milhares os agentes do mundo invisível, rejeitou-lhes as lições, abafou-lhes as vozes. Os processos por feitiçaria e as fogueiras da Inquisição levantaram uma barreira entre os dois mundos e interromperam por séculos a comunhão dos Espíritos, que longe de ser um acidente, é, ao contrário, lei fundamental da Natureza.
Em derredor de nós se patenteiam os desastrosos efeitos de semelhante proceder. As religiões não são mais do que ramos secos de um tronco baldam de seiva, porque suas raízes não mais mergulham nos mananciais vivos. Elas ainda nos falam da sobrevivência do ser e da vida futura, mas se denunciam impotentes para dar dessas verdades a menor prova sensível. O mesmo se verifica com os sistemas filosóficos. Se a fé está cambaleante, se o materialismo e o ateísmo têm avançado a passos de gigante, se a dúvida, as ardentes paixões e o suicídio causam tantas devastações, é que as ondas da vida superior já não refrigeram o pensamento humano, é que a idéia da imortalidade carece de demonstração experimental. O desenvolvimento dos estudos científicos e do espírito crítico tornou o homem cada vez mais exigente. Hoje, as afirmações já lhe não bastam. Ele reclama provas e fatos.
Considerai qual seria a importância, no momento atual, de uma ciência,de uma revelação baseada num conjunto de fenômenos e de experiências, que nos demonstrassem positivamente a sobrevivência e, ao mesmo tempo, nos dessem a prova de que a lei de justiça não é uma vã palavra, de que a cada um de nós se depara no Além uma situação correspondente a seus méritos.
Ora, é precisamente o que o moderno espiritualismo nos vem facultar. Ele contém os germens de uma verdadeira revolução: revolução nas idéias, nas crenças, nas opiniões e nos costumes. Daí a necessidade do estudo, da classificação e da análise metódica dos fenômenos e dos ensinamentos que deles resultam.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

JERÔNIMO DE PRAGA

Julho de 1909, pela escrita mediúnica:

«A Igreja está muitas vezes em contradição com seus ensinamentos. Exige das almas que se purifiquem e melhorem, que abandonem seus erros e ao mesmo tempo declara ter o privilégio da onisciência e da onipotência. Não admite que seus conhecimentos de outrora já não possam bastar hoje; acredita que o mundo parou debaixo das naves das catedrais góticas. Em realidade, não há como pedir ao homem instruído e céptico de vosso século o que se podia exigir daqueles que se aterrorizavam com os castigos eternos. Os tempos fizeram sua obra: amontoaram as ruínas. As almas se renovaram; só a Igreja se obstinou em escorar o seu velho edifício, em reconstruir continuamente a temível fortaleza. Foi assim pouco a pouco se separando do mundo. Comprazendo-se na
satisfação do poder e do orgulho, esqueceu a história das civilizações.
As exigências da evolução que as almas experimentam são tão fortes, que renovam a fé e a ciência. As antigas crenças são esquecidas por outras e a Igreja, por sua vez, deveria subir para a luz. Deveria ser o caminho natural das almas que se dirigem para Deus e oferecer-lhes todos os recursos reclamados por inteligências enamoradas de beleza, de grandeza, de verdade mais perfeita.
Ela impõe ao homem adulto os mesmos preceitos que à criança. Suas explicações, seus mandamentos são os mesmos para todos. Leva por toda a parte o desejo de unidade e a vontade de fixar as almas na contemplação de seus dogmas.
A preocupação constante de sua vida e de sua existência deveria fazer-lhe compreender que fora hábil e forte abandonar, no momento preciso, os processos que haviam bastado para governar o mundo antigamente. Não se atrai o homem usando das mesmas palavras com que se seduz a criança, e o que dava bom resultado, em relação aos povos dos séculos idos, é hoje insuficiente.
Hábeis espíritos o perceberam e tentaram emprestar um sentido místico e espiritual aos dogmas, apresentá-los como símbolos de algum grande pensamento. Mas, a Igreja, como instituição, não é acessível à reflexão sublime. As mediocridades se apossaram do poder e o que se viu foi a dura repressão daqueles ensaios inúteis, porquanto, se tal reforma se realizasse no tocante à fé, teria que se operar também com relação à conduta a seguir.
Era preciso ter a coragem de simbolizar tudo, de mostrar que a Igreja conduzira os povos e os reis, porque uns e outros estavam ainda na infância; era preciso reprovar os erros, castigar o passado e renegar altamente tudo o que não estivesse de acordo com as novas vistas. Teria sido político A Igreja, efetivamente, não mais representa hoje uma religião, no sentido próprio do termo: não procura unir as almas e sim governar os corpos, por todos os meios. Porém, para governar os corpos, precisava tornar-se senhora das almas e fora acertado atraí-las pelo emprego de alguns gestos hábeis, pela glorificação de algumas almas veneradas por todos.
Nestes tempos perturbados, em que ela parece sustentar o supremo combate, quer ter um poderoso auxiliar na pessoa de Joana. Seria necessário acusar explicitamente de impostura os juízes e apontá-los como agentes de uma autoridade não reconhecida. A Igreja tão desazadamente repeliu de seu seio tantos grandes homens, que facilmente pudera ter feito algumas vítimas a mais e assim encontraria a ocasião melhor indicada de colocar entre seus santos algumas de suas outras vítimas, sobre as quais se estende a piedade das próprias almas crentes.
Como instituição, podia fazê-lo. Durante longo tempo, defendeu os juízes de Joana e agora procura justificar a antiga herética, mas muitos crentes inquirem onde está então o culpado da triste tragédia de Ruão.
Hoje, sabendo perfeitamente que Joana é uma santa, o povo a colocou entre as protetoras da pátria, mas a Igreja pretendeu, esgueirando-se por trás do seu pedes tal, substituir-se à virgem, dando-lhe um lugar entre suas eleitas. Ninguém pode negá-lo: Joana é mais amada do que a Igreja e esta, que a condenou, não logrará desfigurá-la. Nós, porém, não podemos aceitar semelhante beatificação, que é uma manobra da Igreja, porquanto é mais um dos muitos atos que a celebrizaram justamente uma semicovardia, originada de um cálculo, em que o interesse se mascara com o desejo da verdade.»
mensagem constante no livro "JOANNA D'ARC"

BENFEITORES DESENCARNADOS

Emmanuel

Reunião pública de 12-12-60

- Questão n° 267 - LM


Perceberás, sem dificuldade, a presença deles.

Onde as vozes habituadas a escarnecer se mostram a ponto de condenar, eles falam a palavra da compaixão e do entendimento.

Onde as cruzes se destacam, massacrando ombros doridos, eles surgem, de inesperado, por cerídeos silenciosos, amparando os que caíram em desagrado e abandono.

Onde os problemas repontam, graves, prenunciando falência, eles semeiam a fé, cunhando valores novos de trabalho e esperança.

Onde as chagas se aprofundam, dilacerando corpo e alma, eles se convertem no remédio que sustenta a força e restaura a vida.

Onde o enxurro da ignorância cria a erosão do sofrimento, no solo do espírito, eles plantam a semente renovadora da elevação, regenerando o destino.

Onde os homens desistem de auxiliar, eles encontram vias diferentes de ação para a vitória do Amor Infinito.



Anseias pela convivência dos benfeitores desencarnados, com residência nos Planos Superiores, e tê-los-ás contigo, se quiseres.

Guarda, porém, a convicção de que todos eles são agentes do bem para todos e com todos, buscando agir através de todos em favor de todos.

Disse Jesus:

-"Quem me segue não anda em trevas."

Se acompanhas os Bons Espíritos que, em tudo e por tudo, se revelam companheiros fiéis do Cristo, deixarás para sempre as sombras da retaguarda e avançarás para Deus, sob a glória da luz.
Do livro Seara dos médiuns. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

MENSAGEM ESPIRITUAL DE JOANA EM 15 DE JULHO DE 1909



«Doce me é a comunhão com os que, como eu, amam a Nosso Senhor e Pai - e não me dói à visão do passado, por isso que ela me aproxima de vós e a lembrança de minhas comunicações com os mortos e os santos me faz irmã e amiga de todos aqueles a quem Deus concedeu o favor de conhecer o segredo da vida e da morte.
«Rendo graças a Deus por me permitir transmitir-vos minha crença e minha fé e por poder ainda dizer, aos que sabem um pouco, que as vidas que o Senhor nos dá devem ser utilizadas santamente, a fim de estarmos em sua graça. Devem ser-nos gratas às vidas em que possamos desempenhar a tarefa que o todo poderoso Juiz e Pai nos assinou e devemos bendizer o que de suas mãos recebemos.
Ele sempre escolheu os fracos para realizar seus desígnios, porquanto sabe dar força ao cordeiro, conforme o prometeu; mas, este não deve misturarse com os lobos e a alma inflamada pela fé deve guardar-se das ciladas e sofrer com paciência todas as provações e castigos que ao Senhor apraza darlhe.
«Ele nos ministra a sua verdade sob as mais variadas formas, porém nem todos penetram a sua vontade. Submissa às suas leis e procurando respeitálas, mais acreditei do que compreendi. Eu sabia que conselhos tão salutares não podiam ser obra de inimigo e o reconforto que me deram foi para mim um arrimo e a mais doce das satisfações. Jamais soube qual era a vontade remota do Senhor. Ele me ocultou, por seus enviados, o fim doloroso que tive, compadecido da minha fraqueza e do medo que o sofrimento me causava; porém, chegada à hora, recebi, por intermédio daqueles enviados, toda a força e toda a coragem.
«Ê-me doce e delicioso volver aos momentos em que primeiramente ouvi minhas vozes. Não posso dizer que me amedrontei. Fiquei grandemente admirada e mesmo um pouco surpreendida de me ver objeto da misericórdia divina. Senti subitamente, antes que as palavras me houvessem chegado, que elas vinham de servos de Deus e grande doçura experimentou em meu coração, que afinal se aquietou quando a voz do santo ressoou aos meus ouvidos. Dizer-vos o que se passava então em mim não é possível, porque eu não vos poderia descrever a minha alegria calma e intensa; mas, senti tão grande paz que, ao partirem os mensageiros, me julguei órfã de Deus e do Céu. Compreendi um pouco que à vontade deles devia ser a minha; porém, desejando imensamente que me
visitassem, admirei-me das ordens que me davam e receei um pouco ver realizados os desejos que exprimiam. Parecia-me, certamente, uma bela obra tornar-me eu a salvaguarda da França; mas, uma donzela não vai para o meio de homens d'armas. Finalmente, na doce e habitual companhia dos seres que me falavam, cheguei a ter mais confiança em mim própria e o amor que sempre consagrei a Deus me indicou a conduta a seguir, pois que não é decorosa a rebelião contra a vontade de um pai.
«Foi-me penoso, embora também motivo de alegria, o obedecer e, enfim, fiz primeiramente à vontade de Deus. Por essa obediência sou feliz e nisto também acho uma razão para fazer o que Deus quer, para perdoar aos que foram o instrumento de minha morte, crente de que não tinham ódio à minha alma, tanto que lhe deram a liberdade, mas sim à obra que era por mim executada.
«Tendo sido essa obra abençoada por Deus, eles eram grandemente culpados; também nenhum ódio lhes tenho às almas. Sou inimiga de tudo o que Deus reprova, da falta e da maldade. A obra que fizeram é que está fora da graça. Todos reentrarão na graça de Deus, mas a lembrança do passado não se lhes apagará. Choro o ódio que plantaram entre seus irmãos, o mau grão que semearam no campo da Igreja e que levou esta mãe que tanto amei a procurar mais a fé do que o amor do perdão. 2-me grato, entretanto, vê-los emendar-se a confessar um pouco o erro que cometeram; porém, não o fizeram como eu desejara e a minha afeição à Igreja se desligará cada vez mais desta antiga
reitora das almas, para se dar tão somente ao nosso doce e gracioso Senhor.»

Jehanne

sábado, 15 de novembro de 2008

QUE FIZESTE DA VIDA?

Olhai os pássaros de nosso país durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta com um branco manto de neve, agarrados uns aos outros, na borda de um telhado, eles se aquecem mutuamente, em silêncio. A necessidade os une. Contudo, nos belos dias, com o sol resplandecendo e a provisão abundante, eles piam quanto podem, perseguem-se, batem-se e se machucam. Assim é o homem. Dócil, afetuoso para com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse dos bens materiais muitas vezes o torna esquecido e insensível.
Uma condição modesta faz mais bem ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias para seu progresso moral. Longe do turbilhão dos prazeres fugazes, ele julgará melhor a vida, dará à matéria o que é necessário para a conservação de seus órgãos, porém evitará cair em hábitos perniciosos, tornar-se presa das inúmeras necessidades factícias(1) que são o flagelo da humanidade. Ele será sóbrio e laborioso, contentando-se com pouco, apegando-se aos prazeres da inteligência e às alegrias do coração.
Fortificado assim contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da Razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido quanto ao objetivo da vida e ao porquê das coisas, ficará firme e resignado diante da dor, que ele aproveitará para sua depuração e seu progresso.
Enfrentará a provação com coragem, sabendo que ela é salutar, que ela é o choque que rasga nossas almas e que só por este rasgão se derrama tudo quanto de fel e de amargura há em nós.
E se os homens se riem dele, se ele é vítima da intriga e da injustiça, ele aprenderá a suportar pacientemente seus males, lançando seus olhares para vós; oh! nossos irmãos mais velhos, para Sócrates bebendo a cicuta, para Jesus crucificado e para Joana na fogueira. Haverá consolação no pensamento que os maiores, os mais virtuosos e os mais dignos sofreram e morreram pela humanidade.
Após uma existência bem preenchida, chegará a hora solene e é com calma, sem desgostos que virá a morte, a morte que os homens cercam com um sinistro aparato, a morte, espantalho dos poderosos e dos sensuais e que, para o pensador austero, é a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos espíritos.
Esse pórtico das regiões extraterrestres será penetrado com serenidade se a consciência, separada da sombra da matéria, erguer-se como um juiz, representante de Deus, perguntando: “Que fizeste da vida?” e ele responder: “Lutei, sofri, amei! Ensinei o Bem, a Verdade e a Justiça; dei a meus irmãos o exemplo do correto e da doçura; aliviei as dores dos que sofrem e consolei os que choram. Agora, que o Eterno me julgue, pois estou em suas mãos!”
Homem, meu irmão, tem fé em teu destino, porque ele é grande. Confia nas amplas perspectivas porque ele põe em teu pensamento a energia necessária para enfrentar os ventos e as tempestades do mundo. Caminha, valente lutador, sobe a encosta que conduz a esses cimos que se chamam Virtude, Dever e Sacrifício. Não pares no caminho para colher as florezinhas do campo, para brincar com os calhaus dourados. Para frente, sempre adiante.
Olha nos esplêndidos céus esses astros brilhantes, esses sóis incontáveis que carregam em suas evoluções prodigiosas, brilhantes cortejos de planetas. Quantos séculos acumulados foram precisos para formá-los e quantos séculos serão precisos para dissolvê-los.
Pois bem, chegará um dia em que todos esses sóis serão extintos, ou esses mundos gigantescos desaparecerão para dar lugar a novos globos e a outras famílias de astros emergindo das profundezas. Nada o que vês hoje existirá. O vento dos espaços terá varrido para sempre a poeira desses mundos, porém tu viverás sempre, prosseguindo tua marcha eterna no seio de uma criação renovada incessantemente. Que serão então, para tua alma depurada e engrandecida, as sombras e os cuidados do presente? Acidentes fugazes de nossa caminhada que só deixarão, no fundo de nossa memória, lembranças tristes e doces.
Diante dos horizontes infinitos da imortalidade, os males do passado e as provas sofridas serão qual uma nuvem fugidia no meio de um céu sereno.
Considera, portanto, no seu justo valor, as coisas da Terra. Não as desdenhes porque, sem dúvida, elas são necessárias ao teu progresso, e tua obra é contribuir para o seu aperfeiçoamento, melhorando a ti mesmo, mas que tua alma não se agarre exclusivamente a eles e que busque, antes de tudo, os ensinamentos nelas contidos.
Graças a eles compreenderás que o objetivo da vida não é o gozo, nem a felicidade, porém o desenvolvimento por meio do trabalho, do estudo e do cumprimento do dever, dessa alma, dessa personalidade que encontrarás além do túmulo, tal como a tenhas feito, tu mesmo, no curso dessa existência terrestre. (Léon Denis - Obra: O Progresso).

Factícias = artificiais, convencionais. Que não são naturais (nota do compilador).

PELOS ESPÍRITOS OBSESSORES

Senhor ! Pai Amantíssimo ! Nós vos imploramos misericordia para o espírito que obseda o nosso irmão .... Fazei-lhe, Senhor, antever as vossas divinas luzes para que ele compreenda o falso caminho em que se embrenhou.
Bons Espíritos, ajudai-nos a fazer-lhe compreender que tudo tem a perder, fazendo o mal, e tudo a ganhar, praticando o bem. Espírito que vos ocupais em atormentar ...., escutai-nos ! É em nome de Deus Todo-Poderoso que vos falamos. Se refletirdes, compreendereis que o mal jamais pode vencer o bem, e, consequentemente, não podeis ser mais poderoso do que os bons Espíritos. Estes podem livrar a vítima da vossa influência, e se não fizerem é porque ..... tem de sofrer esta provação, mas quando chegar o seu termo, os bons Espíritos vos tirarão a influência que sobre ele exerceis e o mal que lhe tende feito, longe de o prejudicar, servirá para o seu adiantamento e será, por isso, feliz, tornando-se a vossa maldade em pura perda para vós e sobre vós recairá.
Deus, que é onipotente, e os bons Espíritos, seus delegados, que mais poderoso são do que vós, poderão por termo a essa obsessão e, perante sua autoridade, a vossa obstinação se anulará. Mas, porque Deus é bom, deixa-vos o mérito de vós próprios reconhecerdes o mal que fazeis e por vossa vontade cessar semelhante perseguição. É uma dilação que vos é concedida; se não a aproveitardes, passareis por deploráveis consequências, pois que grandes castigos e cruéis sofrimentos vos advirão da vossa persistência do mal, e então vos vereis forçado a implorar piedade à vossa vítima, que já vos perdoou e que por vós ora, - o que apressará a sua libertação.
Refleti, portanto, enquanto é tempo, pois a justiça divina cairá sobre vós, como sobre todos os espíritos rebeldes. Lembrai-vos que o mal que fazeis terá forçosamente um termo e, enquanto nele persistirdes, em vós próprios ireis gravando os germes da angústias e sofrimentos futuros que mais se irão acumulando. Quanto na terra, não sacrificaste, de certo, uma satisfação efêmera por um benefício duradouro? Pois hoje, como espírito, com mais razão o deveis fazer.
Qual o lucro que tirais do vosso procedimento? O triste prazer de atormentar alguém, sem que a vossa razão anteveja a infelicidade que assim preparais para o futuro. A par de tudo isso, se quiserdes, poderei ver a sorte dos bons Espíritos, em tudo preferível à vossa, e então compreendereis o que perdeis. Todavia, dela podeis participar quando vos aprouver. Basta para isso, elevar o vosso pensamento a Deus, pedir-lhe que permita que os Bons Espíritos vos auxiliem a praticar o bem e a fugir do mal.
Esforçai-vos, pois, em entrar no bom caminho e sereis auxiliado. Fazei com que, em breve possamos recitar convosco a prece dos Espíritos arrependidos. Não mais vos coloqueis entre os maldosos, e Deus permitirá que possais ser contado entre os bons, que o servem e o amam.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

SEDE UNIDOS, PORQUE SOIS IRMÃOS



A hora presente é ainda uma hora de lutas; lutas das nações para a conquista do Globo, luta das classes para a conquista do bem-estar e do poder. Em redor de nós agitam-se forças cegas e profundas, forças que, ontem, não se conheciam e que, hoje, se organizam e entram em ação. Uma sociedade agoniza; outra nasce. O ideal do passado vem à Terra. Qual será o de amanhã?

Abriu-se um período de transição; uma fase diferente de evolução humana, fase obscura, cheia, ao mesmo tempo, de promessas e ameaças, começou. Na alma das gerações que sobem, jazem os germens de novas florescências. Flores do mal ou flores do bem?

Muitos se alarmam, muitos se espantam. Não duvidamos do futuro da Humanidade, de sua ascensão para a luz e derramamos em volta de nós, com a coragem e perseverança incansáveis, as verdades que asseguram o dia de amanhã e fazem as sociedades fortes e felizes.

Os defeitos de nossa organização social provêm principalmente de que nossos legisladores, em suas acanhadas concepções, abrangem somente o horizonte de uma vida material. Não compreendendo o fim evolutivo da existência e o encadeamento de nossas vidas terrenas, estabeleceram um estado de coisas incompatível com os fins reais do homem e da sociedade.

A conquista do poder pelo maior número não é própria para ampliar este ponto de vista. O povo segue o instinto surdo que o impele. Incapaz de aquilatar o mérito e o valor de seus representantes, leva muitas vezes ao poder os que desposam suas paixões e participam de sua cegueira. A educação popular precisa ser completamente reformada; porque só o homem ilustrado pode colaborar com inteligência, coragem e consciência na renovação social.

Nas reivindicações atuais, a noção de direito é objeto de excessivas especulações, sobreexcitam-se os apetites, exaltam-se os espíritos. Esquece-se de que o direito é inseparável do dever e até que é simplesmente sua resultante. Daí, uma ruptura de equilíbrio, uma inversão das relações de causa para efeito, isto é, do dever para o direito na repartição das vantagens sociais, o que constitui uma causa permanente de divisão e ódio entre os homens. O indivíduo que encara somente seu interesse próprio e seu direito pessoal, ocupa lugar inferior, ainda, na escala da evolução.

O direito, como disse Godin, fundador do familistério de Guise, é feito do dever cumprido. Sendo os serviços prestados à Humanidade a causa, o direito vem a ser o efeito. Numa sociedade bem organizada, cada cidadão classificar-se-á de acordo com seu valor pessoal e grau de sua evolução e em proporção com sua cota social.

O indivíduo só deve ocupar a situação merecida; seu direito está em proporção equivalente à sua capacidade para o bem. Tal é a regra, tal é a base da ordem universal, e a ordem social, enquanto não for sua contraprova, sua imagem fiel, será precária e instável.

Cada membro de uma coletividade deve, por força desta regra, em vez de reivindicar direitos fictícios, tornar-se digno deles, aumentando o próprio valor e sua participação na obra comum. O ideal social transforma-se, o sentido da harmonia desenvolve-se, o campo do altruísmo dilata-se; mas, no estado atual das coisas, no seio de uma sociedade onde fermentam tantas paixões, onde se agitam tantas forças brutais, no meio de uma civilização feita de egoísmo e cobiça, de incoerência e má vontade, de sensualidade e sofrimentos, são de temer muitas convulsões.

Às vezes ouve-se o bramido da onda que sobe. O queixume dos que sofrem transforma-se em brados de cólera. As multidões contam-se; interesses seculares são ameaçados. Levanta-se, porém, uma nova fé, iluminada por um raio do Alto e assente em fatos, em provas sensíveis. Diz a todos: “Sede unidos, porque sois irmãos, irmãos neste mundo, irmãos na imortalidade. Trabalhai em comum para tornardes mais suaves as condições da vida social, mais fácil o desempenho de vossas tarefas futuras. Trabalhai para aumentar os tesouros de saber, de sabedoria, de poder, que são a herança da Humanidade. A felicidade não está na luta, na vingança; está na união dos corações e das vontades!”. (Léon Denis - O Problema do Ser, do Destino e da Dor).

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

JOANA A VIRGEM DE LORENA


Como explicaremos os contrastes que dão à pulcra figura de Joana d’Arc tão forte brilho: a pureza de uma virgem e a intrepidez de um capitão; o recolhimento com que ora no templo e a viveza jovial nos acampamentos; a simplicidade de uma campônia e os gostos delicados de uma dama de alta estirpe; a graça, a bondade, de par com a audácia, a força, o gênio? Que pensar da complexidade de traços que lhe compõem uma fisionomia sem precedente na História?

Explicá-lo-emos de três maneiras: primeiro, pela sua natureza e sua origem. Sua alma, temo-lo dito, vinha de muito alto. Demonstra-o a circunstância de que, desprovida de toda e qualquer cultura terrestre, sua inteligência se elevava às mais sublimes concepções. Em seguida, pelas inspirações de seus guias. Em terceiro lugar, pelas riquezas que acumulara no decurso de suas vidas anteriores, vidas que ela própria nos fez conhecer.

Joana era uma missionária, uma enviada, um médium de Deus e, como em todos os missionários do Céu, para salvação dos povos, três grandes coisas nela preponderam: a inspiração, a ação e, por fim, a paixão, o sofrimento que é o fecho, a apoteose de toda existência digna.

Domremy, Orleães e Ruão foram os campos escolhidos para desabrolhar, expandir-se e consumar-se tão maravilhoso destino.

A vida de Joana d’Arc tem flagrantes analogias com a do Cristo. Como este, ela nasceu entre os pequeninos da Terra. O adolescente de Nazaré discutia com os doutores da lei no sinédrio; do mesmo modo, a virgem da Lorena confunde os de Poitiers, respondendo-lhes às insidiosas perguntas. Ao vê-la expulsar do acampamento as ribaldas, reconhecemos o gesto de Jesus expulsando do templo os mercadores. A paixão de Ruão não emparelha com a do Gólgota e a morte da Pucela não pode ser comparada ao fim trágico do filho de Maria? Como Jesus, Joana foi renegada e vendida. O preço da vítima retinirá nas mãos de João de Luxemburgo, como na de Judas. A exemplo de Pedro no pretório, o rei Carlos e seus conselheiros voltarão costas e fingirão não mais a conhecer, quando lhes noticiam que Joana se acha em poder dos ingleses, ameaçada de cruel morte. Até a cena de Sant-ouen muitas semelhanças apresenta com a do Jardim das Oliveiras.
Temos tratado longamente das missões de Joana d’Arc. Não haja equívoco sobre o sentido deste termo. Julgamos oportuno dizer aqui que, na realidade, cada alma tem a sua neste mundo. À maioria tocam em partilha as missões humildes, obscuras, apagadas; outras recebem encargos mais importantes, de acordo com as suas aptidões, com as qualidades que apuraram, evolvendo no perpassar das idades. Só às almas ilustres estão reservadas as grandiosas missões, que o martírio remata.

Cada vida terrena, sabemo-lo, é a resultante de uma imenso passado de trabalho e de provações. Do conhecimento da lei de ascensão no tempo e no espaço, que já expusemos, não havia mister Joana, no décimo quinto século, por isso que as condições intelectuais de sua época não o comportavam. A concepção do destino era muito limitada: as vastas perspectivas da evolução teriam perturbado, sem proveito, o pensamento dos homens, ainda muito atrasados para apreciarem e entenderem os magníficos desígnios de Deus a respeito das criaturas humanas. Entretanto, no espírito superior de Joana, sujeito, como todos, à lei do esquecimento durante a encarnação na Terra, um passado maravilhoso esplende; virtudes, faculdades, intuições, tudo demonstra que aquela alma percorrera dilatado ciclo e amadurecera para as missões providenciais. Pode-se mesmo, já o vimos, reconhecer nela, mais particularmente, um espírito céltico impregnado das qualidades daquela raça entusiástica e generosa, apaixonada pela justiça, sempre pronta a se consagrar às causas nobres. Familiarizada, desde os primeiros albores da História, com os mais transcendentes problemas, essa raça possuiu constantemente numerosos médiuns. Joana aparece-nos, por entre a caligem da Idade Média, como a reencarnação de alguma antiga vidente, ao mesmo tempo guerreira e profetisa.
O que na sua personalidade, porém, predomina, em todas as eras e meios em que viveu, é o espírito de sacrifício, é a bondade, o perdão, a caridade. No desempenho das tarefas que lhe foram confiadas, mostrou-se invariavelmente o que Henri Martin soube definir numa palavra: “a mulher de grande coração”. Essas tarefas, Joana não as tem por findas. Continua a considerar-se em obrigação para com aqueles que Deus colocou sob seu patrocínio. Conserva ardente, como no século XV, o amor que vota à França, e os que então lhe foram objeto de solicitude ainda são presentemente seus protegidos. Entre os que tiveram parte em sua vida heróica, quer benéfica, quer maleficamente, muitos revivem hoje na Terra em condições bem diversas.

Carlos VII, reencarnado num desconhecido burguês, acabrunhado de enfermidades, foi muitas vezes distinguido com a visita da “filha de Deus”. Iniciado nas doutrinas espiritualistas, pôde comunicar-se com ela, receber seus conselhos, seus incitamentos. Uma única palavra de censura lhe ouviu: “A nenhum, disse-lhe um dia Joana, me custou tanto perdoar como a ti.” Por meios e com o auxílio de influências que seria supérfluo indicar aqui, a virgem conseguira reunir em um só ponto do globo, há alguns anos, seus inimigos de outrora, até mesmo seus algozes, e, usando do ascendente que sobre eles exercia, procurava levá-los à luz, fazê-los defensores e propagandistas da nova fé. Era um espetáculo comovente para que, conhecedor daquelas personagens de uma outra época, podia perceber a maneira sublime por que ela se vingava, esforçando-se pelos transformar em agentes de renovação.

Porque me há de a verdade obrigar a dizer que os resultados foram medíocres? Todos, sem dúvida, a ouviam com uma deferência cheia de admiração, sentindo bem ser um Espírito de alto valor, quem os aconselhava. Mas, logo o peso dos cuidados mundanos, dos interesses egoístas, das preocupações de amor-próprio, oprimia aquelas almas. O sopro do Além que, por instantes, as sacudira, cessou. Joana jamais se revelou senão a poucos. Os outros não souberam adivinhá-la. Raros puderam compreendê-la. Sua linguagem era muito perfeita; vertiginosas as alturas a que tentava atraí-los. Esses estigmatizados da história, que se ignoram a si mesmos, ainda não estavam amadurecidos para semelhante papel. Todavia, o que não foi possível obter no correr de uma existência, ela o alcançará nas que se hão de suceder, porquanto nada conseguirá esgotar-lhe a paciência e a bondade. E as almas sempre se encontram, ao longo do caminho do destino. (L. Denis - Joana D’Arc, Médium).

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

JOANNA D'ARC - SEU SUPLÍCIO




Estamos em Ruão, a 30 de maio de 1431. O drama toca ao desenlace. São oito horas da manhã. Todos os sinos da grande cidade normanda dobram lugubremente. É o dobre fúnebre, o dobre a finados. Anunciam a Joana que sua última hora soara. “Ai! de mim! Exclama ela chorando, tratam-me horrível e cruelmente; é preciso até que meu corpo, intacto e puro, jamais conspurcado, seja hoje consumido e reduzido a cinzas! Ah! preferia que me decapitassem sete vezes a ser assim queimada... Oh! invoco a Deus por testemunha das grandes ofensas que me fazem!”.

Impressiona-a cruciantemente a idéia do suplício do fogo. Pensa nas chamas que se alteiam, na morte que se aproxima lentamente, na prolongada agonia de um ser vivo a sentir as mordeduras ardentes que lhe devoram as carnes. Tal gênero de morte era destinado aos piores criminosos e, no entanto, vai sofrê-la Joana, a virgem inocente, Joana - a libertadora de um povo!

Isto põe a nu a baixeza de seus inimigos, daqueles que ela tantas vezes vencera. Em lugar de lhe renderem à coragem, ao gênio, as homenagens que os soldados civilizados dispensam aos adversários que a má sorte lhes faz cair nas mãos, os ingleses reservam para Joana, depois dos mais atrozes maus tratos, ignominioso fim. Seu corpo será consumido e suas cinzas lançadas ao Sena. Não lhe permitiram repousar num túmulo, onde os que a amaram possam ir chorar, depositar flores, praticar o tocante culto da saudade.

Fazem-na entrar na carreta sinistra e a tétrica procissão se encaminha para o local do suplício. Oitocentos soldados ingleses a escoltam. Imensa multidão consternada se comprime para vê-la passar. O cortejo desemboca na rua Écuyère, na praça do Vieux-Marché, onde se erguem três palanques. Os prelados e oficiais tomam lugar em dois deles. O cardeal de Winchester, revestido da púrpura romana, ocupa seu trono. Lá estão também o bispo de Beauvais e o de Bolonha, todos os juízes e os capitães ingleses. Entre os palanques, avulta a fogueira, de aterradora altura. É um monte de lenha, dominando toda a praça. Querem que o suplício seja longo, a fim de que a virgem, vencida pela dor, grite implorando graça, renegue de sua missão e de suas vozes.
Lêem o libelo acusatório, composto de 70 artigos, nos quais se acumulou tudo quanto o ódio mais venenoso pode imaginar para desnaturar os fatos, iludir a opinião e fazer da vítima um objeto de horror. Joana se ajoelha. Nesse solene momento, em presença da morte que se avizinha, sua alma se desprende das sombras terrenas e entrevê os esplendores eternos. Ora em voz alta. Profere uma prece extensa e fervorosa. Perdoa a todos, a seus inimigos, a seus algozes. Num sublime arroubo do pensamento e do coração, reúne dois povos, enlaça dois reinos. As inflexões de sua voz emocionam vivamente a multidão; de dez mil peitos ofegantes rebentam os soluços. Os próprios juízes, tigres de feições humanas, Cauchon, Winchester, todos choram. Pouco lhes dura, porém, a emoção. O cardeal faz um aceno e Joana é amarrada por fios de ferro ao poste fatal; passam-lhe à volta do pescoço pesada golilha.

Ela então se dirige a Isambard de la Pierre e diz: “Eu vos peço, vá buscar-me a cruz da igreja mais próxima; quero tê-la erguida bem defronte de meus olhos, até ao último instante”. Quando lhe apresentam a cruz, cobre-a de beijos e de pranto. No momento em que vai morrer de uma morte horrível, abandonada por todos, quer ter diante de si a imagem desse outro supliciado que, lá nos confins do Oriente, no cume de um monte, deu a vida em holocausto à verdade.

Naqueles minutos graves a heroína revê toda a sua vida, curta, mas brilhante. Evoca a lembrança dos entes que ama, recorda os dias serenos da sua infância em Domremy, o semblante meigo de sua mãe, a fisionomia austera do velho pai e as companheiras de sua meninice, Hauviette e Mengette, seu tio Durand Laxart, que a acompanhou a Vaucouleurs, e, finalmente, os homens dedicados, que lhe fizeram companhia até Chinon. Numa visão rápida, passa em revista as campanhas do Liger, os gloriosos combates de Orleães, de Jargeau, de Patay; escuta as fanfarras guerreiras e os gritos de alegria da multidão em delírio. Revê, ouve tudo isso na hora derradeira. Quis, por essa forma, num como supremo abraço, dizer o adeus final a todas aquelas coisas, a todos aqueles entes amados. Não tendo nenhum deles diante da vista, concretizou na imagem do Cristo crucificado suas lembranças, suas ternuras. Dirigiu-lhe o adeus que assim dizia à vida, nos extremos anseios de seu coração despedaçado.
Os carrascos põem fogo à lenha e turbilhões de fumaça se enovelam no ar. A chama cresce, corre, serpeia por entre as pilhas de madeira. O bispo de Beauvais acerca-se da fogueira e grita-lhe: “Abjura!”. Ao que Joana, já envolvida num círculo de fogo, responde: “Bispo, morro por vossa causa, apelo do vosso julgamento para Deus!”.

As labaredas rubras, ardentes, sobem, sobem mais e lambem-lhe o corpo virginal; suas roupas fumegam. Ei-la que se torce nas ataduras de ferro. Alguns minutos depois, em voz estridente, lança à multidão silenciosa, aterrorizada, estas retumbantes palavras: “Sim, minhas vozes vinham do Alto. Minhas vozes não me enganaram. Minhas revelações eram de Deus. Tudo que fiz fi-lo por ordem de Deus!”. Suas vestes incendiadas se tornam uma das centelhas da imensa pira. Ecoa um grito sufocado, supremo apelo da mártir de Ruão ao mártir do Gólgota: “Jesus!”.

E nada mais se ouviu, além dos estalidos que o crepitar do fogo produz...

Terá Joana sofrido muito? Ela própria nos assegura que não. “Poderosos fluidos, diz-nos, choviam sobre mim. Por outro lado, minha vontade era tão forte que dominava a dor”. Está morta a virgem da Lorena. O Espaço todo se ilumina. Ela se eleva e paira acima da Terra, deixando após si um rastro luminoso. Já não é um ser material, mas um puro Espírito, um ser ideal de pureza e de luz. Os Céus se lhe abriram até ao infinito. Legiões de Espíritos radiosos vêm-lhe ao encontro, ou lhe formam cortejo. É o hino do triunfo, o coro celestial das boas-vindas repercute nos espaços siderais: “Salve! Salve! aquela que o martírio coroou! Salve tu que, pelo sacrifício, conquistaste eterna glória!”.

Concentremo-nos; saudemos a nobre figura de virgem, a jovem de imenso coração, que, tendo salvado a França, pela França morreu antes dos vinte anos.

Sua vida resplandece como celeste raio de luz, na temerosa noite da Idade Média.

Com sua fé vigorosa, com sua confiança em Deus, veio trazer aos homens a coragem e a energia necessárias a transpor mil obstáculos; veio trazer à França traída, agonizante, a salvação e o renascimento. Por paga de tanta abnegação heróica, horror! só colheu mágoas, humilhações, perfídias e, como coroamento de sua breve, porém maravilhosa carreira, uma paixão e uma morte tão dolorosa, como iguais só houve as do Cristo. (Léon Denis - Joana D’arc, Médium).

domingo, 9 de novembro de 2008

JOANNA D'ARC



por: Joana D'Arc, médium - Léon Denis

A França era um país curvado ao poderio inglês. Não era propriamente um país como hoje é conhecido. Constituía-se de vários feudos.
E foi numa aldeia ignorada até então que, em 1412 nasceu uma criança que se tornaria célebre e célebre faria Domremy.
Filha de pobres lavradores, aprendeu a fiar a lã junto com sua mãe e guardava o rebanho de ovelhas. Teve três irmãos e uma irmã. Não aprendeu a ler, nem a escrever, pois cedo o trabalho lhe absorveu as horas.
A aldeia era bastante afastada e os rumores da guerra demoravam a chegar. Finalmente, um dia, Joana d'Arc tomou contato com os horrores da guerra, quando as tropas inglesas se aproximaram e toda a família precisou fugir e se esconder.
Aos 12 anos começou a ter visões. Era um dia de verão, ao meio-dia. Joana orava no jardim próximo à sua casa, quando escutou uma voz que lhe dizia para ter confiança no Senhor. A figura que ela divisou, identificou como sendo a do arcanjo São Miguel. As duas mensageiras espirituais que o acompanhavam , como Catarina e Margarida, santas conforme a Igreja que ela freqüentava.
Eles lhe falam da situação do país e lhe revelam a missão. Ela deve ir em socorro do Delfim e coroá-lo rei de França.
Durante 4 anos , ela hesitou e a história de suas visões começou a se espalhar. Ao alvorecer de um dia de inverno, ela se levanta. Está decidida. Prepara uma ligeira bagagem, um embrulhozinho, um bastão de viagem, murmura adeus aos seus pais e parte. Nunca mais aquela aldeia da Lorena a verá.
Igreja, de conviver com homens nos campos de batalha, de manejar a espada.
O objetivo era provar que Joana era uma enviada do demônio. Consequentemente, se desmoralizaria o rei Carlos VII. Afinal, que espécie de rei era aquele que se deixara enganar por uma bruxa ?
Durante 6 meses ela é submetida a uma verdadeira tortura moral. Os interrogatórios são longos , cansativos. Finalmente, a execução se dá na praça central de Roeun, no dia 30 de maio de 1431.
Seu cabelo foi raspado e, por temerem a reação do povo, 120 homens armados a escoltam até o local. Ela é atada a um poste e a fogueira é acesa.
Quando as chamas a envolvem e lhe mordem as carnes, ela exclama: "Sim, minhas vozes eram de Deus! Minhas vozes não me enganaram."
Era a prova inequívoca da mediunidade que lhe guiara a trajetória terrena.
No capítulo XXXI de O livro dos médiuns, vindo a lume no ano de 1861, quando o Codificador reúne Dissertações Espíritas, confere à de Joana D'Arc o número 12, onde ela se dirige aos médiuns, em especial, concitando-os ao exercício do mediunato.
Recomenda-lhes, ainda, que confiem em seu anjo guardião e que lutem contra o escolho da mediunidade que é o orgulho.
Conselhos que ela, em sua vida terrena , na qualidade de médium, muito bem seguira.