sábado, 28 de fevereiro de 2009

AO PÉ DO ALTAR


Marta

Eu vivia no Claustro,
Na sombra silenciosa dos mosteiros.

Mas um dia,
Quando as penitências mortifìcavam
O meu corpo alquebrado e dolorido
E a oração
Era o conforto do meu coração,
Disse-me alguém:

“Minha filha,
Juraste fidelidade só a Deus,
Mas se entrevês os Céus
E as suas maravilhas,
Se tens a Fé mais pura,
A Esperança mais linda,
Não te esqueças que a Caridade,
O anjo que nos abre as portas da Ventura,
Não permanece
No recanto das sombras, do repouso;
Se ama a prece e a pureza,
Não faz longas e inúteis orações:
Ela é a serva de Deus
E as suas preces fervorosas
São feitas com as suas mãos carinhosas,
Que pensam no coração da Humanidade
Todas as chagas abertas
Pelo egoísmo...
Está sempre em meio às tentações
Para vencê-las,
Esmagá-las com o Bem,
Destruí-las com Amor.
A solidão da cela é um crime;
Não te retires, pois, do mundo.

Darás a Deus, sem reserva, a tua alma
Amando o próximo,
Que contigo é seu filho dileto.
Será um hino constante subindo aos Céus;
Sê a mãe desvelada,
A irmã consoladora,
A companheira tema
De todos aqueles que te rodeiam
Na estrada longa dos destinos comuns;
Sê a abnegação e a bondade serena,
E a tua Fé
Será um hino constante subindo aos Céus;
A tua esperança em Deus
Será dilatada,
Para que vislumbres as felicidades celestes
Que esperam os justos na Mansão da Alegria...”

Meu corpo não resistiu
Aos cilícios que o martirizavam
E minhalma tomada de emoção
Abandonou-o, brandamente,
Atraída pela Verdade,
Desprezando o repouso e a soledade,
Sonhando com a luz do trabalho
Em outras vidas benfazejas;
Porque a verdadeira paz de espírito
É conquistada
No seio das lutas mais acerbas,
Dos mais rudes pesares.
E só a dor que nos crucia
Ou a dor que consolamos,
– Somente a Dor em sua essência pura
Nos desvia da amarga desventura,
Purificando os nossos corações
Na conquista das altas perfeições.

Do livro Parnaso de Além-Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

DISCIPLINA MENTAL



Memei
Não permitas que as circunstâncias da vida interfiram no teu caráter. Forma um modo de ser, firme, e não arredes pé dessa norma que estabeleceres. A tua conduta deve ser equilibrada, não sofrendo alteração alguma, quando as coisas tomarem rumo diferente daquele que desejarias.
Ser sempre igual faz com que as criaturas não sintam receio de lidar conosco. Aquele que ora apresenta uma face, ora outra, cuja voz é mansa, às vezes, e outras, agressiva; não convida a que o procuremos sem reservas. Receamos sempre não o encontrarmos num dos seus dias favoráveis.
É muito importante adquirirmos uma característica e nela permanecermos.
Nossa fisionomia deve manter-se sempre serene e inalterável, nossa voz mansa, ainda quando tivermos de tomar atitudes sérias e graves. Se conseguirmos aquietar dentro de nós os sentimentos, eles nos obedecerão e não teremos expansões exageradas nem na alegria, nem na dor. Fácil e aconselhar, dirão muitos; difícil é viver-se aquilo que se aconselha.
Não nos esqueçamos de que, para se embeber e encharcar uma esponja, temos que mergulhá-la várias vezes na água. Assim, tanto falamos aos outros, tanto aconselhamos que também nos convencemos a nos mesmos e passamos a viver aquilo que pregamos.
Não há necessidade de correr muito. "A Natureza não dá saltos." Com calma alcançaremos a meta.
A questão e não nos desviarmos da rota e não nos distrairmos no caminho. Caminhar sempre em linha reta faz com que em breve cheguemos ao nosso destino. Não te constranjas de levar a palavra de ensinamento aonde fores, se te solicitarem e sempre que for oportuno, ainda que não estejas em condições de viver tais ensinamentos.
Compenetra-te de que a palavra é mágica e; uma vez pronunciada, impressiona as mentes que a ouvem.
Tu também ouves a tua palavra. Por isso aprende a falar somente palavras positivas e bondosas, para que teu cérebro responda num eco, baixinho, e transmita a teu corpo a ordem de pôr em prática aquilo que falaste. Disciplina mental é importante. Pensar coisas boas e puras é preparar a palavra na mesma tônica, para levá-la a todos que necessitam da magia da voz.
Aprende a ser sempre a mesma pessoa, quer o tempo esteja sereno ou tempestuoso dentro de tua alma, e todos sentirão prazer e lucrarão com a tua companhia.

Médium: Francisco Cândido Xavier

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A VIDA É UMA COISA BELA

Um grande Espírito, La Rochefoucauld, disse numa de suas obras, que se devia tremer diante da vida e diante da morte! Certo, se se deve tremer é por ver sua existência incerta, perturbada, completamente falha; é por ter realizado um trabalho estéril, inútil para si e para outros; é por ter sido um falso amigo, um mau irmão, um conselheiro pernicioso; é por ser mau filho, pai irrefletido, cidadão injusto, desconhecedor de seus deveres, de seu país, das leis que vos regem, da sociedade e da solidariedade.
Quantos amigos vi, espíritos brilhantes, engenhosos, instruídos, muitas vezes faltar ao objetivo profundo da vida! Construíam hipóteses mais ou menos absurdas: aqui a negação; ali, a fé ardente; além, se faziam neófitos de tal ou qual sistema de governo, de filosofia e muitas vezes lançaram, ai de mim! suas belas inteligências num fosso, de onde não podiam mais sair senão abatidas e pisadas para sempre.
A vida com suas asperezas, seus maus gostos e suas incertezas, é entretanto uma coisa bela! Como! saís de um embrião, de um nada e trazer em torno de vós os beijos, os cuidados, o amor, o devotamento, o trabalho e isto não seria nada senão a vida! Como é, então, que para vós, seres fanados, sem força, sem linguagem, gerações inteiras tenham criado os campos, incessantemente explorados, da poupança humana? Poupais saber, filosofia, mecânica, ciências diversas; milhares de cidadãos corajosos gastaram os seus corpos e dispuseram de suas vigílias para vos criar mil elementos diversos de vossa civilização. Desde as primeiras letras até uma definição sábia, encontra-se tudo o que pode guiar e formar o espírito; hoje pode-se ver, porque tudo é luz. A sombra das idades sombrias desapareceu para sempre, e o adulto de dezesseis anos pode contemplar e admirar um nascer do sol e o analisar, pesar o ar e, como o auxílio da química, da física, da mecânica e da astronomia, se permitir mil gozos divinos. Com a pintura, reproduz uma paisagem; com a música, inscreve algumas dessas harmonias que Deus espalha em profusão nas harmonias infinitas! Com a vida, pode-se amar, dar, espalhar muito; por vezes pode-se ser sol e iluminar o seu interior, a sua família, as suas relações, ser útil, cumprir a sua missão. Oh! sim, a vida é uma coisa bela, fremente, cheia de fogo e de expansão, cheia de fraternidade e desses deslumbramentos que jogam os misérias para o último plano.
Ó vós todos, meus caros condiscípulos da rua Richelieu; vós meus fiéis de 14; vós todos que, tantas vezes, interrogastes a existência vos perguntando a palavra final; a vós que beijáveis a cabeça, incertos ante a última hora, diante da palavra Morte, que significa para vós: vazio, separação, desagregação, a vós eu venho dizer: Erguei a cabeça e esperai; não mais fraqueza, não mais terror; porque se os vossos estudos conscienciosos e as religiões de nossos pais não vos deixaram senão desgosto da vida, incerteza e incredulidade, é que, estéril em tudo, a ciência humana mal conduzida só atingia o nada. Vós todos, que amais a humanidade e resumis a esperança futura pelo estudo das ciências sociais, por sua aplicação séria, eu vos digo: Esperai, crede e procurai. Como eu, deixastes passar a verdade; nós a abandonávamos e ela batia à nossa porta, que obstinadamente lhe havíamos fechado. Daqui por diante amareis a vida, amareis a morte, essa grande consoladora; porque querereis, por uma vida exemplar, evitar recomeçar; querereis esperar no sólio da erraticidade todos aqueles que amais, não somente a vossa família, mas a geração inteira que guiastes, para lhes desejar as boas vindas e a emigração para mundos superiores.
Vedes que vivo e todos nós vivemos. A reencarnação, que tanto nos fez rir, é o problema resolvido que tanto procurávamos. Aí está este problema em vossas mãos, cheio de atrativos, de promessas ardentes; vossos pais, vossas esposas, vossos filhos, a multidão de amigos vos querem responder; estão todos reunidos, esses caros desaparecidos aos vossos olhos; falarão ao vosso espírito, à vossa razão; dar-vos-ão verdades e a fé é uma lei bem-amada. Mas, interrogai-os com perseverança. Ah! a morte nos causava medo e nós tremíamos! Entretanto eis-me, eu, Guillaumin, um incrédulo, um incerto, reconduzido à verdade. Milhares de Espíritos se apressam, esperam a vossa decisão; eles gostam da lembrança e da peregrinação pelos cemitérios! É uma baliza esse respeito aos mortos; mas esses mortos estão todos vivos; em vez de urnas funerárias e de epitáfios mais ou menos verdadeiros, eles vos pedem uma troca de idéias, de conselhos, um suave comércio de espírito, essa comunidade de idéias que gera a coragem, a perseverança, a vontade, os atos de dedicação e esse fortificante e consolador pensamento que a vida se retempera na morte e que se pode, de agora em diante, a despeito de La Rochefoucault e outros grandes gênios, nem tremer diante da vida, nem diante da morte. (Espírito de Guillaumin - R. E. 1868).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

RECEIOS E PROMESSAS


De todas as doutrinas e sistemas filosóficas o que faz um progresso mais vertiginoso foi que o espiritismo quando olhamos plano coletivo.
Quando nos atemos ao plano individual, encontramos muitas lacunas a preencher, daí o desalento de muitos confrades que não fizeram uso da relatividade apesar de terem lido as obras fundamentais, isto porque leram, conheceram e compreenderam que somos viajores da eternidade, e que não é em uma só existência terrena que completaremos todo o ciclo evolutivo. Em nosso meio temos como companheiros, espíritos de vários graus de evolução, colhendo cada um o que está ao seu alcance.
O espiritismo é para estes como o sol é para a planta, quando lançada a terra, a semente germina, é o sol que a faz crescer, frutificar e sazonar os frutos. Assim quando a humanidade conhecer as verdades que o espiritismo ensina conhecimento este que poderá ser comparado ao germinar de semente, depois vira o crescimento que poderá ser comparado a compreensão, da compreensão vem sentir que pode ser comparado com o desabrochar da flor e o fruto, e do sazonamento.
O Cristo, já disse que se a semente não morrer não pode germinar. Quando semeamos, a semente fica enterrada, e o viajor que passa não a vê o lavrador que a semeou, não se entristece por vê-la enterrada e sumida na terra, pacientemente espera a hora dela germinar, para dedicar-lhe os seus cuidados até colher os frutos.
Jesus, veio a terra fazer a sementeira do evangelho de amor, a quase dois mil anos, durante todo esse tempo tão preciosa semente tem estado sepultada no seio da humanidade, agora que está sendo aquecida com o sol do espiritismo, regada com a perseverança, com o restilo do alambique da dor ao fogo da incompreensão, do orgulho e egoísmo dos homens, está começando a germinar.
Quando consideramos a grandeza do evangelho do Cristo, em paralelo com as paixões humanas, num materialismo sem par, na corrida desenfreada das competições, sem atender aos meios, procurando não só pelas nações, contudo o que lhe diz respeito, mas, principalmente pelas religiões, destacando-se dentre elas, a romana, procurando tudo solapar, servindo-se da ignorância de uns, do fanatismo e falta de caráter de muitos, do materialismo da maior parte, no anseio de gozos e poderes imediatos, - desanimamos.
Urge, por tanto reagir a esse desalento, apoiados nos ensinos e promessas de Jesus, quando Ele disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai ao Pai a não ser por mim.
Este aviso, é a bússola pela qual devemos nortear nossas convicções, nunca nos afastamos dela, é o nosso dever a não ser que queiram ficar envolvido no caotismo gerado pela incerteza de parceria com interesses materiais a nossa maior parte das vezes malsãos.
Jesus, deixou-nos os sinais por onde conheceríamos a realização de suas promessas. Uma delas é o que hoje vos falo as ocultas, dia virá que nos será anunciado de cima dos telhados, aí temos o rádio, ocupando-se dos fenômenos espíritas e transmitindo explicações do evangelho, é a promessa de Jesus que se realiza ao pé da letra, cego, será aquele que não quiser ver esta verdade.
Jesus, também ensinou-nos que nada há oculto que não seja revelado.
Sem me referir ao vasto campo moral a que este aviso dá margem, vou ocupar-me, com uma comunicação dada mais ou menos em 1929, no centro Ismael, no Rio de Janeiro, e publicada no Reformador, Órgão da Federação Espírita Brasileira.
Esta comunicação foi dada pelo espírito de Julio Verni, dizia o seguinte: Na terra, todos tem mais ou menos uma missão a cumprir; a minha quando aí foi a de anunciarmos o surto de progresso que haveis de passar, e que está quase todo realizado.
Agora, fui novamente comissionado, para anunciar-vos que, em este século, na terra, será descoberta uma máquina que vai provar-nos que o pensamento é uma força mais poderosa e vertiginosa que a eletricidade.
Através desta máquina, podereis ver-nos, ouvir-nos, falar conosco, como também com os vossos parentes e amigos, por mais distantes que se encontrem.
Hoje, não resta a menor dúvida diante do progresso da radio televisão, da célula fotoelétrica.
Terminada que for a chacina da guerra, com a qual serão derrubadas dos velhos edifícios dos preconceitos, raças e crenças, surgirão as maravilhas que levarão o homem a tão grandiosas descobertas, através das quais teremos a certeza da imortalidade da alma.
Então, através dessa máquina, iremos ver o sofrimento em que se encontram as almas dos maus condutores de povos, as trevas em que se encontram os maus condutores religiosos, a pobreza dos ricos com fortunas mal adquiridas, o desapontamento dos hipócritas, e a felicidade dos que deixaram o seu conforto, para assistir aos seus irmãos em provas.
Essa, será a época do materialismo em que a humanidade se encontra, terá fim, e com ela a incerteza em que os homens vivem.
Será com essa visão direta do futuro que a partir daqui veremos nada levamos. Os reis deixam os tronos, os sábios as cátedras, os ricos suas fortunas, diplomas, posições, conceitos, formalidades, ritualismos, dogmas, tudo perde o valor, só o saber sem vaidade, as virtudes positivas, outorgarão a cada um, o mérito adquirido. Será também o fim das religiões interesseiras, cheias de dogmas, ritos, camufladas com os ensinos de Jesus. Digo fim, porque o princípio dessa derrocada já começou, desde a hora em que a igreja de Roma retornou infalível, e as outras igrejas começaram a se dividir por questões de mera formalidade, presidida pela vaidade, orgulho e interesse.
A luta que ora travam as religiões dominantes, são a introdução da sua derrocada.
Quantas vezes tenho visto derrubar árvores seculares, aos golpes de pequenos machados. Nessa ocasião, o que ouvimos e vemos na queda, é um gemido como um grito pedindo socorro, na queda, esmaga tudo o que está ao seu alcance, todavia, depois de derrubada ainda os galhos ficam cheios de leiva, que o sol pouco a pouco, vai extinguindo, é esse o estado atual das religiões camufladas com o nome de cristianismo.
Seus curifeus, procuravam aparecer erguendo suntuosos edifícios, ocupando um lugar de destaque na política, comparecendo com grande pompa em todas as festividades, fazendo congressos eucarísticos, com faustosa pompa, sendo os bispos carregados em andares como divindades. Tudo isto para aparentar autoridade e supremacia, procurando deter o triste fim que ele já sente.
Ao espectador superficial, as religiões marcham vitoriosas, mas para o observador prudente e cauteloso, todo este barulho são os últimos extortores. Os espectadores superficiais, não souberam ver, porque ainda estão contaminados por certos interesses, acompanhando-os não por crença religiosa, mas para defender interesses, o que leva a muitos duvidarem do estado gangrenoso que já tomou conta das religiões mercenárias.
Daí o desânimo e o desespero das religiões ao verem a caminhada do progresso no espiritismo, que está fazendo adeptos, até mesmo no meio dos componentes dessas religiões.
Serenos, calmos, confiantes, tudo isto vemos e sabemos que, quem governa o mundo, não são os homens, mas Deus.
Não nos resta a menor dúvida nas promessas de Jesus, nem nos atinge o desânimo dos que não sabem ver.
Então, quando chegarmos ao fim, será a hora de saber o que quer dizer: - O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras serão cumpridas até o último til, e o último i, ou por outra forma: não passarão até que tudo o que ensinei seja posto em prática.
Precisamos ver as coisas não pela limitada craveira humana, mas pela craveira da relatividade, dentro da qual obteremos os reais conhecimentos.
O maior dos Mestres deixou-nos o roteiro seguro: o seu evangelho, quando aplicado em nossa conduta.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

JESUS É O ESPÍRITO DA VERDADE

Qualquer estudo reclama perseverança, máxime no âmbito da doutrina espírita. Não há razões para hesitarmos no que respeita à individualidade e à identidade do Espírito de Verdade. A obra de Kardec é a fonte impoluta a que devemos recorrer para dirimir quaisquer dúvidas em matéria de espiritismo. Assim também deve ser neste caso.
Necessário considerarmos primeiramente que o Espírito de Verdade não é uma falange. Esse conceito, aliás, não é da codificação. Para Kardec, em definitiva, o Espírito de Verdade é “inspirador” e “presidente” do “ensino” de uma “doutrina soberanamente consoladora”, personificada no Evangelho segundo João sob o nome de “Consolador”. (Cf. A gênese, XVII:39 e 40. O evangelho segundo o espiritismo, VI:4.)
Portanto, trata-se de um espírito, não de vários. A tal respeito, o mestre de Lyon assim se exprimiu: “A qualificação de Espírito de Verdade não pertence senão a um e pode ser considerada como nome próprio; ela é especificada no Evangelho. De resto, esse espírito se comunica raramente, e somente em circunstâncias especiais; deve-se manter em guarda contra aqueles que se apoderam indevidamente desse título”. (Revista espírita. Julho de 1866. Qualificação de santo aplicada a certos espíritos. IDE, Tomo IX, p. 222.)
O Espírito de Verdade, ao demais, assina O livro dos espíritos juntamente com outras individualidades espirituais; fosse ele o nome de uma coletividade de espíritos e tornaria inúteis as demais assinaturas. (Cf. Exposição Preliminar, ou Prolegômenos.)
Superada esta questão da individualidade do Espírito de Verdade, elucidemos o problema crucial de sua identidade.
Em 25 de março de 1856, o guia espiritual do mestre lionês disse-lhe: “Para ti chamar-me-ei a Verdade”. (Cf. Obras póstumas.) Evidente, para nós, que é Jesus, o único espírito que se pode declarar dessa forma sem prejuízo à sua honestidade. (Cf. João 14:6.) Mas, a fim de confirmarmos isso em termos rigorosamente kardecianos, basta uma consulta ao item 48 de O livro dos médiuns, no qual, ao refutar o sistema unispírita, o codificador trata Jesus por “o Espírito da Verdade”, “o Espírito do bem por excelência”, “santo entre todos”. Este texto não permite ambigüidades. É inapelável. Não podemos desmenti-lo sem desmentir o próprio Allan Kardec. Poderíamos encerrar aqui este assunto. O Espírito de Verdade é Jesus!
Porém, na mesma obra, devemos perscrutar ainda a nota do mestre lionês à dissertação IX do capítulo XXXI. Tal dissertação, que em O livro dos médiuns aparece assinada por “Jesus de Nazaré”, figura em O evangelho segundo o espiritismo (VI:5) como de autoria de “o Espírito de Verdade”, o que constitui prova inconcussa de que ambos são a mesma individualidade.
Diz Kardec que o espiritismo “é obra do Cristo, que preside, conforme também o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra”. (O evangelho segundo o espiritismo, I:7.) Ao mesmo tempo, afirma também o codificador, indistintamente, que “o Espírito de Verdade preside ao grande movimento da regeneração”, e que esse espírito “é o verdadeiro Consolador” (A gênese, I:42), decerto, o mesmo “Cristo Consolador” do capítulo VI de O evangelho segundo espiritismo.
Se ainda hesitarmos, é só conferirmos o que é dito ao mestre quando escreve, em Ségur, O evangelho segundo o espiritismo: “Acaba a tua obra e conta com a proteção do teu guia, guia de todos nós (...) Conta conosco e conta sobretudo com a grande alma do mestre de todos nós, que te protege de modo muito particular”. (Obras póstumas, 9 de agosto de 1863.)
Além destas provas, há outras ainda.
Na Revista espírita de outubro de 1861, o prudentíssimo Erasto revela em sua epístola aos espíritas lioneses: “(...) o Espírito de Verdade, nosso mestre bem-amado (...)”. (IDE, Tomo IV, p. 303.) Já na Revista espírita de janeiro de 1864, o sábio Hahnemann afirma: “(...) o Espírito de Verdade, que dirige este Globo (...)”. (Um caso de possessão. Senhorita Julie. IDE, Tomo VII, p. 16.)
Em maio de 1864, o Espírito de Verdade comunicou-se em termos reveladores, dizendo, entre outras coisas, o seguinte: “Há dezoito séculos eu vim, por ordem de meu Pai (...). Hoje, por ordem do Eterno, os bons espíritos, seus mensageiros, vêm sobre todos os pontos do globo fazer ouvir a trombeta retumbante. Escutai as suas vozes; são aquelas destinadas a vos mostrar o caminho que conduz aos pés do Pai celeste. Sede dóceis aos seus ensinos; os tempos preditos são chegados; todas as profecias serão cumpridas (...)”. (Revista espírita. Dezembro de 1864. Comunicação espírita. A propósito de A Imitação do Evangelho. IDE, Tomo VII, p. 399.)
Em sua nota à citada comunicação, Kardec mostra a circunspecção, a cautela e a modéstia que sempre o caracterizaram, ressaltando, porém, que, descartadas as evidentemente apócrifas, em muitas comunicações que trazem o nome Espírito de Verdade, ou o nome Jesus, “(...) embora obtidas por médiuns diferentes e em épocas diferentes, nota-se entre elas uma analogia evidente de tom, de estilo e de pensamentos que acusa uma fonte única.” (Ibidem, p. 400.)
Numa comunicação de 9 de abril de 1856, o guia espiritual de Kardec dizia ao então futuro codificador do espiritismo, entre outras coisas: “Nesse mundo, a vida material é muito de ter-se em conta; não te ajudar a viver seria não te amar”. Em nota que bem mais tarde apôs a essa comunicação, o próprio mestre lionês demonstra ter vindo a saber quem era esse guia, e demonstra ainda ter-se surpreendido bastante com isso: “A proteção desse espírito, cuja superioridade eu então estava longe de imaginar, jamais, de fato, me faltou”. (Obras póstumas. 25 de março de 1856.)
Ora! Em termos rigorosamente kardecianos está dirimida esta dúvida quanto à individualidade e à identidade do Espírito de Verdade. Ele é único! Ele é Jesus! A menos que não confiemos em Kardec e nos espíritos da codificação.
Resta então apenas o problema da exegese escriturística, e esse é outro departamento, mas que também pode ser elucidado pela aplicação adequada do conhecimento espírita.
Quando Jesus disse que enviaria o Consolador, o Espírito de Verdade, se referiu simbolicamente à doutrina, nada obstante a, por outro lado, afirmar: “A vós convém que eu vá, porque, se eu não for, não virá a vós o paráclito (...) Não vos deixarei órfãos, voltarei a vós outros (...) Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora (...) Estas cousas vos tenho dito por meio de figuras; vem a hora em que não vos falarei por meio de comparações, mas vos falarei claramente a respeito do Pai”. (João 14:18; 16:7,12 e 25.) Isto já nos convida ao entendimento de que o próprio Jesus se encarregaria, mais tarde, de ensinar espiritualmente aquilo que não pudera quando encarnado.
Não há contradição. Há simbologia. Não nos informou João Evangelista que, pela compreensão do espiritismo, explicados, os “erros” se tornariam verdades? (Cf. O evangelho segundo o espiritismo, VIII:18.)
Por ser o Espírito de Verdade o próprio Jesus e por esse fato constituir o cumprimento das profecias acima citadas é que o mestre lionês assegurou, convicto: “Jesus reservou para si a completação ulterior de seus ensinamentos”. (A gênese, XVII:37.) Claro que o Cristo não estava sozinho, fez-se acompanhar de numerosa coletividade superior, a qual, por ter o seu comando direto, foi chamada “falange do Espírito de Verdade”, ou “do Consolador”. O Espírito de Verdade (segundo Kardec, “o verdadeiro Consolador”) não é, portanto, a falange em si, mas o comandante dela, o que é muito diferente.
Se o Espírito de Verdade fosse uma coletividade de espíritos, razão não haveria para que a promessa de sua vinda não houvesse sido cumprida no dia de pentecostes, como afirmam as igrejas ter acontecido, pois o que ocorreu naquele dia foi justamente um encontro mediúnico entre o apostolado cristão primitivo e uma excelsa coletividade de espíritos. (Cf. Atos, 2.)
Allan Kardec, porém, diz em A gênese (cf. XVII:42) que, no pentecostes, não se cumpriu o que Jesus profetizara do Consolador. E por quê? Porque as características declinadas pelo Cristo não se referiam propriamente a uma coletividade de espíritos, mas a uma doutrina; a chefia dessa coletividade e a responsabilidade maior pelo advento de tal doutrina é do Espírito de Verdade: inapelavelmente, Jesus. Kardec e os espíritos superiores é que o asseguram.
Ora! Se a codificação a define tão claramente, não podemos considerar esta verdade como simples conjectura. Ou será que estamos nos esforçando em cumprir aquela profecia do Espírito de Verdade, a qual adverte para o fato de que as melhores instruções de Kardec seriam desprezadas e falseadas? (Cf. Obras póstumas, 12 de junho de 1856.)
Ouçamos, por fim, o que nos diz o instrutor espiritual Alexandre, em Missionários da luz, obra ditada por André Luiz ao médium Francisco Cândido Xavier: “Por que audácia incompreensível imaginais a realização sublime sem vos afeiçoardes ao Espírito de Verdade, que é o próprio Senhor?”. (Cf. 21ª ed., FEB, 1988, p. 99). Alguma dúvida, leitor amigo?
No que tange às objeções ao fato de ser Jesus o Espírito de Verdade, nós as respeitamos enquanto expressão das possibilidades de estudo e compreensão daqueles que as utilizam... Entretanto, repetimos a frase com que iniciamos este artigo: Qualquer estudo reclama perseverança, máxime no âmbito da doutrina espírita.
Revista Internacional de Espiritismo - Março/2000

domingo, 22 de fevereiro de 2009

ANTE O DIVÓRCIO


Toda perturbação no lar, frustando-lhe a viagem no tempo, tem causa específica. Qual acontece ao comboio, quando estaca indebitamente ou descarrila, é imperioso angariar a proteção devida para que o carro doméstico prossiga adiante.
No transporte caseiro, aparentemente ancorado na estação do cotidiano (e dizemos aparentemente, porque a máquina familiar está em movimento e transformação incessantes), quase todos os acidentes se verificam pela evidência de falhas diminutas que, em se repetindo indefinidamente, estabelecem, por fim, o desastre espetacular.
Essas falhas, no entanto, nascem do comportamento dos mais interessados na sustentação do veículo ou, propriamente, do marido e da mulher, chamados pela ação da vida a regenerar o passado ou a construir o futuro pelas possibilidades da reencarnação no presente, falhas essas que se manifestam de pequeno desequilíbrio, até que se desencadeie o desequilíbrio maior.
Nesse sentido, vemos cônjuges que transfiguram conforto em pletora de luxo e dinheiro, desfazendo o matrimônio em facilidades loucas, como se afoga uma planta por excesso de adubo, e observamos aqueles outros que o sufocam por abuso de sovinice; notamos os que arrasam a união conjugal em festas sociais permanentes e assinalamos os que a destroem por demasia de solidão; encontramos os campeões da teimosia que acabam com a paz em família, manejando atitudes do contra sistemático, diante de tudo e de todos, e identificamos os que a exterminam pelo silêncio culposo, à frente do mal; surpreendemos os fanáticos da limpeza, principalmente muitas de nossas irmãs, as mulheres, quando se fazem mártires de vassoura e enceradeira, dispostas a arruinar o acordo geral em razão de leve cisco nos móveis, e somos defrontados pelos que primam no vício de enlamear a casa, desprezando a higiene.
Equilíbrio e respeito mútuo são as bases do trabalho de quantos se propõem garantir a felicidade conjugal, de vez que, repitamos, o lar é semelhante ao comboio em que filhos, parentes, tutores e afeiçoados são passageiros.
Alguém perguntará como situaremos o divórcio nestas comparações. Divorciar, a nosso ver, é deixar a locomotiva e seus anexos. Quem responde pela iniciativa da separação decerto que larga todo esse instrumental de serviço à própria sorte e cada consciência é responsável por si. Não ignoramos que o trem caseiro corre nos trilhos da existência terrestre, com autorização e administração das Leis Orgânicas da Providência Divina e, sendo assim, o divórcio, expressando desistência ou abandono de compromisso, é decisão lastimável, conquanto às vezes necessária, com raízes na responsabilidade do esposo ou da esposa que, a rigor, no caso, exercem as funções de chefe e maquinista.

Emmanuel
Extraído do livro "Luz no Lar"- Francisco Cândido Xavier

sábado, 21 de fevereiro de 2009

RESPEITA A QUEM TE OUVE


Se falas, vê quem está ouvindo e respeita a audição daquele que te tolera.
A educação manda dividir o tempo de falar e de ouvir. Não sejas imprudente com o teu próximo.
Não estás precisando dele para te ouvir? Por que abusar?
Nós todos precisamos uns dos outros na seqüência da própria vida. O professor que não valoriza o aluno, fica no esquecimento e retarda os seus conhecimentos. O patrão que se esquece dos seus empregados perde seus tesouros. Uma nação que não cuida dos seus filhos, passa a pedir auxílio às outras que cumprem o dever para com aqueles que trabalham. O nosso próximo é a nossa primeira meta de vida.
Se desrespeitas as leis que regulam o próprio corpo físico em que habitas, este vai se reduzindo na capacidade de viver e sofre as conseqüências. Voltamos a dizer da necessidade da harmonia em tudo e em todo lugar em que estivermos.
A mecânica do Universo está em plena harmonia com o Criador. Se tu somente falas e exiges, desagradas a teu companheiro e ele, insatisfeito, foge da tua presença, propagando esse teu desequilíbrio. Será que não dá para veres e sentires teu procedimento de imposição?
Pensa bem no que fazes durante o dia, analisa passo a passo os teus feitos e corrige os maus hábitos, herança antiga de más companhias e de ausência de educação dos teus impulsos, que desconhecem a disciplina. Quando teus amigos forem desaparecendo, desconfia do fenômeno e passa a estudar a ti mesmo, nas variadas modalidades em que vives.
Conserta o que estiver errado, apara as arestas e opera as tuas imprudências, como se fossem tumores malignos. Quem dá o primeiro alarme de teu desrespeito para com os outros são teus familiares, depois os que não te toleram. Os que te dedicam amizade mais profunda sempre se calam para não te ferir porque o Amor cobre a multidão dos pecados.
Faze a auto-análise do que pensas, do que fazes, do que falas todos os dias e jamais deixes de trabalhar por teu aprimoramento. A iluminação interna é a chave da tua própria paz. Não procures o céu fora do teu peito, pois ele mora contigo, se já não o transformaste em zonas inferiores. A tua felicidade depende de ti, porque a parte de Deus já foi feita. A luz existe tanto dentro do coração do santo quanto do teu, dependendo da tua vontade para acendê-la.
Somente tu és teu próprio benfeitor, no verdadeiro termo da palavra. Confia em Deus e parte para o trabalho em todas as diretrizes que o Amor determinar que os resultados não falharão. Se achas difícil modificar o que está feito, és uma alma que está morrendo na pauta da existência cósmica, mas é bom que te lembres de que não há morte permanente. Terás que acordar com a presença da dor, que carrega em seu carro inúmeros infortúnios e problemas sem conta para que cuides da tua própria vida, como cuidaram os que estão vivos em Cristo, na plenitude de Deus.
Quem está conscientizado do modo de viver bem, tem o maior respeito pelos que viajam com ele no mesmo caminho. Esse é o querer para nós o que desejamos para os outros, inspirado no amor a Deus sobre todas as coisas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

GANHANDO RESISTÊNCIA



Reconhece você que a sua resistência precisa aumentar; por isso mesmo não despreze o esforço no bem algum tanto a mais além do nível.
Se o trabalho parece estafante, suporte mais um pouco as dificuldades em que se lhe envolvem os encargos.
Onde lhe pareça já haver exercitado o máximo de humildade, apague-se um tanto mais em favor de outrem para que seu grupo alcance a segurança ideal.
Demonstre um pouco mais de paciência nos momentos de inquietação e evitará desgostos incalculáveis.
Abstenha-se algo mais de reclamações mesmo justas, no que se reporta aos seus interesses pessoais e observará quanta simpatia virá ao seu encontro.
Mostre um pouco mais de serenidade nos instantes de crise e você se transformará no apoio providencial de muita gente.
Confie algo mais na proteção da Bondade Divina e conseguirá superar obstáculos que se lhe figuravam intransponíveis.
Nos dias de enfermidade agüente um tanto mais as dificuldades e você apressará as suas próprias melhoras de maneira imprevisível.
Tolere um tanto mais as intrigas que, por ventura, lhe assediem o campo de ação, sem lhes oferecer qualquer importância e defenderá a sua própria felicidade, com inesperado brilhantismo.
Você vive no mundo em meio de provas e lutas, desafios e necessidades, ao modo de aluno entre as lições de que precisa na escola, em favor do próprio aproveitamento; aprenda a suportar os
convites ao bem dos outros e você ganhará os melhores valores da resistência.
André Luiz - Respostas da Vida (Francisco Cândido Xavier)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

AGRADECER


Tudo o que cerca as criaturas na Terra, tudo é dado por Deus. Quando o homem chega para a vida, ele já encontra tudo pronto a esperá-lo: o leite, o berço, as frutas, os alimentos, as conduções, as ferramentas, todos os utensílios domésticos, todo o instrumental cirúrgico, os panos, tudo, tudo o que envolve a criatura, foi dado por Deus ou concedido, com sua permissão, para que o ser humano possa usufruir. Ele preparou a Terra e a deu para o homem habitar, beneficiar-se de tudo que nela contém, sabendo que, nessa mesma Terra, tudo iria ficar para aqueles que chegarem após usufruírem também.O homem recebe tudo, mas, quem é capaz de agradecer o pão que amanhece na mesa, o arroz, o feijão que o alimenta, o animal que foi sacrificado para que ele tenha proteína, os braços que o sustentaram desde o nascer? Quem se lembra daquele espírito guardião, anônimo, que acompanha a criatura desde o berço até depois do túmulo, para que possa, em segurança, nascer, viver, viver e caminhar no além? Muito poucos. A maioria das criaturas só pede. Pedem, exigem, são ingratos, são irresponsáveis no pedir, não aceitam as provas, se revoltam com as lutas redentoras e se rebelam contra a vontade de Deus, em provas que essas mesmas criaturas escolheram para si. A prece de louvor, a prece de gratidão que brota nos corações sensíveis, esse "pai nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome...", muito poucos são aqueles que começam o seu dia orando e, dentro da oração, procurando sustentar aqueles que sofrem. Em geral, estamos tão preocupados com os nossos problemas, com o nossos haveres, com as nossas vontades, com as nossas preferências que não temos tempo para aquele que nos criou, não temos tempo para aqueles que fizeram de sua vida um permanente caminhar ao nosso lado, para que tivéssemos proteção, para que caminhássemos numa linha reta, buscando melhores sendas.Em época de tanto horror, de tanta violência, em época de tanta separação, de tanto desamor, sejam vocês a chama acesa no coração, em fé, em sentimento, em amor. Lembrem-se de começar seus dias agradecendo, terminem seus dias agradecendo e saberão que é muito fácil viver, se tivermos como escudo a proteção da prece, que nos liga a planos superiores e nos faz suportar as situações inferiores que a vida nos proporciona. Se nós buscarmos o céu, o céu virá de encontro a nós. Se nós buscarmos a Terra, a Terra nos sufocará as melhores sementes e seremos um solo inóspito, onde ficarão somente os espinhos que nós mesmos semeamos no ontem e no hoje.
Bezerra de Menezes

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A TRAJETÓRIA DAS ALMAS

“Sobrevivência e Comunicabilidade dos Espíritos”, lançamento do Departamento Editorial da Federação Espírita Brasileira poucos meses depois de «Reencarnação e Imortalidade», no final de 1976, é deste o natural seguimento e, segundo to­das as indicações, terá do nosso público ledor a mesma favorável acolhida.
O que disse o prefaciador no seu A Guisa de Prefácio ao volume «Reencarnação e Imortalidade» é extensivo a este, integrantes ambos, a rigor, de uma só e mesma obra.
Os escritos de Hermínio C. Miranda refletem aspectos importantes da vida real dos seres humanos, seres eternos e imortais, que sobrevivem ao fenômeno da morte e tornam a reencarnar, evoluindo nos planos visível e invisível do planeta, intercomunicantes e solidários entre si. Além disso, provam, sem margem a quaisquer sofismas, a comunicabilidade dos mesmos seres hoje, entre os dois planos referidos, como há milênios, do que são atestados inconfundíveis as escrituras de todos os séculos e de diferentes povos.
Explica o Espírito Emmanuel que, “isoladamente, cada um tem no planeta o mapa das suas lutas e dos seus serviços”, sendo «o berço de todo homem o princípio de um labirinto de tentações e de dores, inerentes à própria vida na esfera terrestre, labirinto por ele mesmo traça­do e que necessita palmilhar com intrepidez moral». E conclui: «Qualquer alma tem o seu destino traçado sob o ponto de vista do trabalho e do sofrimento, e, sem paradoxos, tem de combater com o seu próprio destino, porque o homem não nasceu para ser vencido; todo Espírito labora para dominar a matéria e triunfar dos seus impulsos inferiores. »
Militando nas colunas de «Reformador», o mensário quase centenário da Casa de Ismael, uma atividade perseverante ao longo de mais de dois decênios, o autor deste livro, e de outros que estão sendo examinados ou programados pelo osso Departamento Editorial, tem sido invariavelmente o estudioso que ajuda, com a sua palavra de serenidade, lógica e fé, os caminheiros que se embrenham pelo «labirinto» das provas e expiações, dando-lhes as indicações que lhes facilitem a identificação da saída da sombra para a luz.
É ainda Emmanuel quem declara, a propósito da trajetória das almas: «Da irritabilidade à sensação, da sensação à percepção, da percepção ao raciocínio, quantas distâncias preenchidas de lutas, dores e sofrimentos!... Todavia, desses combates necessários promana o cabedal de experiências do Espírito em sua evolução gloriosa. A racionalidade do homem é a suprema expressão do progresso anímico que a Terra lhe pode prodigalizar; ela simboliza uma auréola de poder e de liberdade que aumenta naturalmente os seus deveres e responsabilidades. A conquista do livre-arbítrio compreende as mais nobres obrigações. Chegado a esse ponto, o homem se encontra no limiar da existência em outras esferas, onde a matéria rarefeita oferece novas modalidades de vida, em outras mais sublimes manifestações...
Foi por entender da maior conveniência que os trabalhos de Hermínio O. Miranda, já publica­dos em nosso periódico, se tornassem acessíveis a todos os espíritas e estudiosos em geral, que lhe sugerimos a elaboração das duas coletâneas, dentre os estudos dados à luz nesse período. Organizadas com o devido cuidado, não sem serem antes submetidos os respectivos textos a minuciosa re­visão e atualização, podem elas representar nas estantes de todos nós uma síntese de variadas e vastas obras, verdadeira biblioteca especializada, de interesse permanente e sempre ao alcance para consulta ou simples leitura.
(Prefácio de Francisco Thiesen, Presidente da Federação Espírita Brasileira, ao livro “Sobrevivência Comunicabilidade dos Espíritos”, o mais recente lançamento do Departamento Editorial da FEB).
Francisco Thiesen
Fonte: Reformador – maio, 1977

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

CARNAVAL E ESPIRITISMO


Para se entender o carnaval e outras festas populares, é necessário lembrar que a Terra ocupa o segundo lugar na escala evolutiva enquanto um planeta de provas e expiações.
Para se entender o carnaval e outras festas populares, é necessário lembrar que a Terra ocupa o segundo lugar na escala evolutiva enquanto um planeta de provas e expiações. Aqui, e em mundos semelhantes, encarnam espíritos recém saídos da barbárie, dando os primeiros passos na sua história evolutiva e esses espíritos trazem consigo um grupo de sensações ou pulsões que precisam ser extravasadas para que não se voltem contra a sociedade em que encarnaram. Não foi a toa que Freud nos defendeu a tese de que a cultura nasce da repressão. Em verdade, estamos encarnados para reprimirmos as más tendências e adquirir elementos espirituais positivos como o amor, a solidariedade, o respeito ao próximo e as diferenças, em uma palavra, desenvolver as faculdades positivas do espírito.
A festa é o momento em que o espírito tem a oportunidade de pôr para fora, não necessariamente, o que ele tem de pior mas as suas emoções mais profundas. Como somos espíritos altamente imperfeitos as nossas festas quase sempre explicitam emoções do tipo primário. Nos tempos da Grécia antiga, as bacanais, festas dedicadas ao deus Dioniso ou Baco tornaram-se tão perigosas para o equilíbrio da polis (cidade) que teve de ser transformada em teatro como uma forma de "domesticação" do conteúdo nocivo da alma humana. A Festa do deus Líber em Roma; a Festa dos Asnos que acontecia na igreja de Ruan no dia de Natal e na cidade de Beauvais no dia 14 de janeiro entre outras inúmeras festas populares em todo o mundo e em todos tempos, têm esta mesma função.
O carnaval é uma dessas festas que costuma ser chamada de folia que vem do francês folle que significa loucura ou extravagância sem que tenha existido perda da razão. No caso do carnaval a palavra significa desvio, anormalidade, fantasia descontração ou mesmo alegria. Assim, a festa carnavalesca é o momento em que o espírito humano pode extrojetar o que há de mais profundo de mais primitivo em si mesmo. O poeta Vinicius de Morais deixou isto muito claro ao dizer: " Tristeza não tem fim, felicidade sim / A felicidade parece a grande ilusão do carnaval/ ? a gente trabalha um ano inteiro / por um momento de sonho/ pra fazer a fantasia de rei ou de pirara ou jardineira / Pra tudo se acabar na quarta-feira."
Qual a posição do espírita ante o carnaval?
Sem querer ditar normas, apenas dando a minha opinião, o espírita, em primeiro lugar, deve compreender o carnaval; não ser muito severo, não ter medo dele por acreditá-lo uma expressão do mal e do diabólico da alma humana; não fugir dele por medo de sua sedução. Não deve, como fazem algumas religiões criar blocos ou escolas-de-samba para brincar um carnaval cristão. Pode ser um observador comedido, se gosta da festa, ir ao sambódromo ou às ruas para ver os foliões e, se não gosta, pode aproveitar o feriadão para descansar, meditar ou estudar espiritismo sozinho ou em conjunto; em resumo seguir o conselho de Paulo: "Viver no Mundo sem ser do mundo."

domingo, 15 de fevereiro de 2009

CONHECIMENTO DO PASSADO

Meditando nas salutares revelações procedentes da Espiritualidade, assomavam-te ondas de tristeza, em considerando o olvido que se te fazia habitual, de referência às reencarnações passa­das ...
Ao lado daqueles que te narravam eventos com eles mesmos acontecidos e que lhes foram elucidados, situavas o espírito em compreensível melancolia, face à tua total ignorância quanto às tuas vidas pretéritas....
Diante dos que exibiam ilações fascinantes entre o hoje e o ontem, comentando, entusiasmados, os sucessos transatos, doía-te a alma, tendo em vista ignorares os acontecimentos idos que te diziam respeito...
Desejavas qualquer referência que te desse maior força e coragem para a luta, de modo a situares vidas pregressas, graças à justiça das reencarnações...
Ante as dores da soledade, renteando com os que pareciam contemplados, almejavas identificar amigos, amores antigos...
A Lei Divina, na sua sabedoria, quando concede o esquecimento temporário das vidas que ficaram na noite dos tempos, fá-lo por misericórdia e justiça, pois nem todos os homens estão em condições de sabê-lo.
Todavia, desejavas, e, agora, paulatinamente, chegam-te retalhos, informações, peças que se ajustam, fragmentos que se unem, formando um todo... Amigos, afetos, mas igualmente adversários, se destacam dos painéis da sombra e se avolumam...
Pensas, então, em refazer o caminho, ao encontrá-lo em desalinho.
Da mesma forma, ambicionas revi­ver emoções, ora impossíveis, reconquistar corações que seguem noutra direção, unir-te aos seres junto aos quais chegaste tardiamente... E sofres!
As animosidades persistem sem diminuir. Ao inverso; tais antipatias não são combatidas, mas açuladas.
Lamentavelmente, unes-te com aqueles que se afinam contigo e te afastas daqueles a cujos fluidos reages.
Onde o esforço da sublimação?
Qual a cartilha de exercício de morigeração e eqüidade, em prol da paz de agora e da felicidade futura?
Silencia ansiedades.
Trabalha, luta afervorado, insistindo quando outros desistem.
A floração não precede a sementeira, nem o fruto antecipa a flor.
Realiza a tua parte, gentilmente, sem modelo próximo além de Jesus, a quem segues, e, se o tormento do passado chegar-te como espinho, pensa no futuro e, utilizando-te do presente, faze o melhor ao teu alcance, guardando a certeza de que o porvir te responderá conforme o construas desde agora.
JOANNA DE ÂNGELIS
(Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, na sessão de 09/02/1972, no Centro Espírita “Caminho da Redenção”, em Salvador, Bahia.)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

REFLEXÕES SOBRE O PAI NOSSO

“... O Pai Nosso Desperta o coração para o amor e a mente para o conhecimento...”
Jesus consagra, no Pai Nosso, a oração universal, nele gravando, com a inconteste autoridade de guia supremo da humanidade, preceitos que sustentam e iluminam, perenemente, povos e religiões que se inspiram nas suaves e aquecedoras fontes do Cristianismo, que suprem as carências e necessidades humanas.
Como oração definidora de anseios e objetivos universais, o Pai Nosso desperta o coração para o amor e a mente para o conhecimento, honorificados por abnegados missionários que transitaram, no passado, e transitam, no presente, incansavelmente, pelos renovativos e límpidos caminhos do Senhor.
Ensinado pelo mestre da compaixão e da sabedoria aos queridos discípulos e afetuosos companheiros de apostolado, tornou-se fúlgido astro, luminosa bandeira para os que, em prodigioso esforço renovativo, envergam a túnica alvinitente de servos fiéis da compreensão maior e da razão enobrecedora, atributos que “a fé sublima e a razão ilumina”, segundo assertiva de amigos espirituais, mencionada alhures, em psicografia de Francisco Cândido Xavier, que tem como orientador o espírito Emmanuel, amado e respeitado.
Emérito divulgador do Evangelho, código-síntese do amor que redime, as lições do iluminado orientador do médium fazem resplender o bem e a verdade, vitalizando o ideal de misericórdia profanado de Deus, criador e pai, facultando à Terra efetivo entendimento da lei do amor, na fé silenciosa, no trabalho substancial.
A exortação inicial, “Pai Nosso que estás no Céu” e a complementação “santificado seja o teu nome”, revelam e proclamam, dando-lhes o sentido de eternização, a universalidade e onipresença de Deus em todos os tempos e paragens cósmicas, sublimes vias de acesso ao saber, pela escola, que instrui e educa; pela dignidade que enobrece; pelo trabalho, que é vida em ascensão; pela espiritualização, que nos livra do mal, hoje, amanhã e sempre, sob as bênçãos de Jesus, no processo interativo do homem ao Criador.
Nas determinações “Venha o teu Reino”, “Faça-se a tua Vontade, assim na Terra como no Céu” e no “Dá-nos o pão de cada dia”, o mestre excelso concita-nos à humildade no cumprimento dos sábios dispositivos do Pai, que, inclusive, proporciona o pão do espírito e do corpo – Pai compassivo que nos ama e deseja nossa felicidade.
Nas exortações “Perdoa as nossas dívidas, como perdoamos as que nos devem”, e “Perdoa as nossas ofensas, como perdoamos aos que nos ofenderam”, clara é a multimisericórdiosa recomendação, que retrata nosso perfil de almas milenarmente devedoras, que almejam os altiplanos aprimoritários, compativelmente com as disposições geridas pela ordem e pela justiça e sustentadas pelo infinito amor de Deus.Na rogativa “Não nos deixeis entregues à tentação, mas livra-nos do mal”, identificamos o emblema do respeito e obediência à ordem divina. Por fim, a conclusiva afirmação: Pai Nosso – oração universal. Assim seja!.
J. Martins Peralva
Extraído do Jornal Estado de Minas, de 02/08/99

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

REMÉDIO PARA AS ALMAS


Antigamente, em época não muito remota, o ser humano vivia relativamente pouco. Não havia a bênção do antibiótico, tínhamos que tratar com parcos recursos as enfermidades.
Era, às vezes, o quinino o que mais nós usávamos, e trazia tantas descobertas que para nós eram tão atuais: o carro, o telefone, o telégrafo, tanta coisa importante.
E, no entanto, pensávamos na Medicina, tão pouco adiantada. Hoje, a medicina aí está, avançando a largos passos.
Cada dia, uma descoberta nova e, no entanto a idade média de grande número das pessoas que partem está na faixa de trinta anos., Por que? Acidentes e acidentes, partidas violentas em “overdose”.
O número daqueles que chegam à idade avançada, para nós do plano espiritual, que observamos o mundo de cima, é muito menor do que aqueles que aportam muito antes, por antecipação, por não cumprimento do traçado cármico de suas vidas.
Lamentavelmente, os jovens estão partindo em larga escala para o plano espiritual. Não chegam a atingir a idade madura, pela insensatez, pelos princípios tão inferiores dolorosamente abraçados, pela falta de objetivos cristãos, pela imaturidade, pela viciação. E nós perguntamos:
“Quando será que aprenderão a servir a si mesmos servindo ao próximo?
Quando aprenderão a valorizar a saúde, a bênção da vida, a bênção de ter um corpo perfeito?
Por que tantos têm que ser aprisionados em leitos de deformações físicas pelos acidentes cada vez mais constantes? Por que essa velocidade na estrada?
Por que essa velocidade imensa, buscando a morte”? Fala-se à juventude, mostram-se espetáculos dantescos, diante dos olhos dos jovens desfilam cenas e cenas dolorosas, mas nem assim eles se previnem...
E colônias e colônias são abertas para colher esses farrapos espirituais que, na verdade, foram rapazes e moças belos, cheios de juventude, de inteligência.
Para onde vai caminhando o nosso mundo? Lamentavelmente, nós temos que ver, sentir e prever o pior...
Por isso, meus filhos, aquele que é cristão, o quanto puder divulgue a página esclarecedora, divulgue o livro que é um alimento completo, um banquete de luz, divulgue as palavras sensatas, os exemplos dignificantes, pratique a caridade. Não se deixem cansar pela ociosidade dos outros, porque aquele que está trabalhando encontrará sempre alguém para pedir: “DÊ-me a sua enxada. Deixe eu encostá-la ali para você descansar.” Esses são os que mais devem e são os que menos fazem. Meus filhos, privilegiados vocês são e serão sempre, quando escolherem a melhor parte, que é a parte do bem, a parte da luz, a parte da renúncia e do amor. Porque o que mais ouvimos é gritarem pelos quatro rincões da Terra: “Senhor, Senhor!” Tantas seitas, tantas religiões de corações vazios e mãos vazias.. Vocês preencham o coração e transbordem as mãos no trabalho caritativo, porque Deus é por todos vocês!
Bezerra de Menezes

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

JORNADA ACIMA

Não consideres secas e amargas as trilhas da romagem com Jesus, quando a viagem da fé, por alongar-se no tempo, alcança as regiões dos testemunhos incessantes do amor, sem alegrias imediatas.
É certo que te sentes, por vezes, na condição da criatura lesada nos mais íntimos sentimentos, qual sucedeu com ele próprio.
Quantos amigos ficaram para trás, imobilizados nos encantamentos da Galiléia!
Entretanto, se acompanhas o Divino Amigo, vencendo barreiras e suportando desafios, já conheces, talvez, quando doem a injustiça e a compreensão, nos conflitos e problemas, que te impõem duras veredas de suor e de lágrimas.
De quando a quando, interrompes os próprios passos, a fim de refletir nos sonhos desfeitos que as circunstâncias te compeliram a deixar na retaguarda.
A jornada parece agora pesada marcha sobre espinhos e pedras, que é preciso transpor, junto dele, o Eterno Amigo que te aceitou a companhia.
Inegavelmente, difícil é a estrada para a conquista do amor sem retribuição.... As intimidações da Terra afiguram-se cutiladas no coração e as dificuldades do caminho parecem nuvens petrificadas que se transformam em aguaceiros de pranto.
Ainda assim, segue com Jesus e abençoa os percalços da senda de elevação.
Silencia agravos recebidos; esquece mágoas ou possíveis ofensas; auxilia para o bem a quantos te abordem a experiência; lança as sementes do amor e da harmonia, além da órbita de tua própria influenciação e aceita a cruz que a vida te ofereça, porque, além do sacrifício supremo, se segues com Ele, o Companheiro da Humanidade, encontrar-lhe-ás a moradia da benção, onde o trabalho se te fará perfeita alegria, entretecida de paz e vida, ascensão e esplendor.

Do Livro DEUS AGUARDA - Meimei – Chico Xavier

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

COMUNIDADE


“Porque com o juízo quê julgardes, sereis julgados e a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.¨
- JESUS; MATEUS, 7: 2.

“A caridade o a fraternidade não se decretam em leis.
Se uma e a outra não estiverem no coração, o egoísmo ai sempre imperará.
Cabe ao Espiritismo faze-los, penetrar nele. ” Cap. 25, 8.

Sempre que possas, lança um gesto de amor àqueles que se apagam no dia-a-dia, para que te não faltem segurança e conforto.
Vértice não se empina sem base.
Banqueteias-te, selecionando iguarias.
Legiões de pessoas se esfalfam nas tarefas do campo ou nas lides da indústria para que o pão te não falhe.
Resides no lar, onde restauras as forças.
Dezenas de obreiros sofreram duras provas ao levantá-lo.
Materializas o pensamento na página fulgurante que o teu nome chancela.
Multidões de operários atendem ao serviço, para que o papel te obedeça.
Ostentas o cetro da autoridade.
Milhares de companheiros suportam obscuras atividades para que o poder te brilhe nas mãos.
Quanto puderes, como puderes e onde puderes, na pauta da consciência tranqüila, cede algo dos bens que desfrutas, em favor dos companheiros anônimos que te garantem os bens.
Protege os braços que te alimentam.
Ajuda aos que te sustentam a moradia.
Escreve em auxílio dos que te favorecem a inteligência.
Ampara os ~que te asseguram o bem-estar.
Ninguém consegue ser ou ter isso ou aquilo, sem que alguém lhe apóie os movimentos naquilo ou nisso.
Trabalha a beneficio dos outros, considerando o esforço que os outros realizam por ti.
Não há rio sem fontes, como não existe frente sem retaguarda.
Na terra, o astrônomo que define a luz das estrelas é também constrangido a sustentar- se com os recursos do chão.

Extraído do livro " O Livro da Esperança" - Psicografado por FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O ESPIRITISMO E A MULHER

Encontram-se, em ambos os sexos, excelentes médiuns; é à mulher, entretanto, que parecem outorgadas as mais belas faculdades psíquicas. Daí o eminente papel que lhe está reservado na difusão do novo Espiritualismo.
Malgrado às imperfeições inerentes a toda criatura humana, não pode a mulher, para quem a estuda imparcialmente, deixar de ser objeto de surpresa e algumas vezes de admiração. Não é unicamente em seus traços pessoais que se realizam, em a Natureza e na Arte, os tipos da beleza, da piedade e da caridade; no que se refere aos poderes íntimos, à intuição e adivinhação, sempre foi ela superior ao homem. Entre as filhas de Eva é que obteve a antiguidade as suas célebres videntes e sibilas. Esses maravilhosos poderes, esses dons do Alto, a Igreja entendeu, na Idade Média, aviltar e suprimir, mediante os processos instaurados por feitiçaria. Hoje encontram eles sua aplicação, porque é sobretudo por intermédio da mulher que se afirma a comunhão com a vida invisível.
Mais uma vez se revela a mulher em sua sublime função de mediadora que o é em toda a Natureza. Dela provém a vida; e ela a própria fonte desta, a regeneradora da raça humana, que não subsiste e se renova senão por seu amor e seus ternos cuidados. E essa função preponderante que desempenha no domínio da vida, ainda a vem preencher no domínio da morte. Mas nós sabemos que a morte e a vida são uma, ou antes, são as duas formas alternadas, os dois aspectos contínuos da existência.
Mediadora também é a mulher no domínio das crenças. Sempre serviu de intermediária entre a nova fé que surge e a fé antiga que definha e vai desaparecendo. Foi o seu papel no passado, nos primeiros tempos do Cristianismo, e ainda o é na época presente.
O Catolicismo não compreendeu a mulher, a quem tanto devia. Seus monges e padres, vivendo no celibato, longe da família, não poderiam apreciar o poder e o encanto desse delicado ser, em quem enxergavam antes um perigo.
A antiguidade pagã teve sobre nós a superioridade de conhecer e cultivar a alma feminina. Suas faculdades se expandiam livremente nos mistérios. Sacerdotisa nos tempos védicos, ao altar doméstico, intimamente associada, no Egito, na Grécia, na Gália, às cerimônias do culto, por toda a parte era a mulher objeto de uma iniciação, de um ensino especial, que dela faziam um ser quase divino, a fada protetora, o gênio do lar, a custódia das fontes da vida. A essa compreensão do papel que a mulher desempenha, nela personificando a Natureza, com suas profundas intuições, suas percepções sutis, suas adivinhações misteriosas, é que foi devida a beleza, a força, a grandeza épica das raças grega e céltica.
Porque, tal seja a mulher, tal é o filho, tal será o homem. É a mulher que, desde o berço, modela a alma das gerações. É ela que faz os heróis, os poetas, os artistas, cujos feitos e obras fulguram através dos séculos. Até aos sete anos o filho permanecia no gineceu sob a direção materna. E sabe-se o que foram as mães gregas, romanas e gaulesas. Para desempenhar, porém, tão sagrada missão educativa, era necessária a iniciação no grande mistério da vida e do destino, o conhecimento da lei das preexistências e das reencarnações; porque só essa lei dá à vida do ser, que vai desabrochar sob a égide materna, sua significação tão bela e tão comovedora.
Essa benéfica influência da mulher iniciada, que irradiava sobre o mundo antigo como uma doce claridade, foi destruída pela lenda bíblica da queda original.
Segundo as Escrituras, a mulher é responsável pela proscrição do homem; ela perde Adão e, com ele, toda a Humanidade; atraiçoa Sansão. Uma passagem do Eclesiastes a declara “uma coisa mais amarga que a morte”. O casamento mesmo parece um mal: “Que os que têm esposas sejam como se não as tivessem” – exclama Paulo.
Nesse ponto, como em tantos outros, a tradição e o espírito judaico prevaleceram, na Igreja, sobre modo de entender do Cristo, que foi sempre benévolo, compassivo, afetuoso para com a mulher. Em todas as circunstâncias a escuda ele com sua proteção; dirige-lhe suas mais tocantes parábolas. Estende-lhe sempre a mão, mesmo quando decaída. Por isso as mulheres reconhecidas lhe formam uma espécie de cortejo; muitas o acompanharão até a morte.
A situação da mulher, na civilização contemporânea, é difícil, não raro dolorosa. Nem sempre a mulher tem para si os usos e as leis; mil perigos a cercam, se ela fraqueja, se sucumbe, raramente se lhe estende mão amiga. A corrupção dos costumes fez da mulher a vítima do século. A miséria, as lágrimas, a prostituição, o suicídio – tal é a sorte de grande número de pobres criaturas em nossas sociedades opulentas.
Uma reação, porém, já se vai operando. Sob a denominação de feminismo, um certo movimento se acentua legítimo em seu princípio, exagerado, entretanto, em seus intuitos; porque ao lado de justas reivindicações, enuncia propósitos que fariam da mulher, não mais mulher, mas cópia, paródia do homem. O movimento feminista desconhece o verdadeiro papel da mulher e tende a transvia-la do destino que lhe está natural e normalmente traçado. O homem e a mulher nasceram para funções diferentes, mas complementares. No ponto de vista da ação social, são equivalentes e inseparáveis.
O moderno Espiritualismo, graças às suas práticas e doutrinas, todas de ideal, de amor, de equidade, encara a questão de modo diverso e resolve-a sem esforço e sem estardalhaço. Restitui a mulher seu verdadeiro lugar na família e na obra social, indicando-lhe a sublime função que lhe cabe desempenhar na educação e no adiantamento da Humanidade. Faz mais, reintegra-a em sua missão de mediadora predestinada, verdadeiro traço de união que liga as sociedades da Terra às do Espaço.
A grande sensibilidade da mulher a constitui o médium por excelência, capaz de exprimir, de traduzir os pensamentos, as emoções, os sofrimentos das almas, os altos ensinos dos Espíritos celestes. Na aplicação de suas faculdades encontra ela profundas alegrias e uma fonte viva de consolações. A feição religiosa do Espiritismo a atrai e lhe satisfaz as aspirações do coração, as necessidades de ternura, que estendem, para além do túmulo, aos entes desaparecidos. O perigo para ela, como para o homem, está no orgulho dos poderes adquiridos, na suscetibilidade exagerada. O ciúme, suscitando rivalidades entre médiuns, torna-se muitas vezes motivo de desagregação para os grupos.
Daí a necessidade de desenvolver na mulher, ao mesmo tempo que os poderes intuitivos, suas admiráveis qualidades morais, o esquecimento de si mesma, o júbilo do sacrifício, numa palavra, o sentimento dos deveres e das responsabilidades inerentes à sua missão mediatriz.
O Materialismo, não ponderando senão o nosso organismo físico, faz da mulher um ser inferior por sua fraqueza e a impele à sensualidade. Ao seu contato, essa flor de poesia verga ao peso das influências degradantes, se deprime e envilece. Privada de sua função mediadora, de sua imaculada auréola, tornada escrava dos sentidos, não é mais um ser instintivo, impulsivo, exposto às sugestões dos apetites mórbidos. O respeito mútuo, as sólidas virtudes domésticas desaparecem; a discórdia e o adultério se introduzem no lar; a família se dissolve, a felicidade se aniquila. Uma nova geração, desiludida e céptica, surge do seio de uma sociedade em decadência.
Com o Espiritualismo, porém, ergue de novo a mulher a inspirada fronte; vem associar-se intimamente à obra de harmonia social, ao movimento geral das idéias. O corpo não é mais que uma forma tomada por empréstimo; a essência da vida é o espírito, e nesse ponto de vista o homem e a mulher são favorecidos por igual. Assim, o moderno Espiritualismo restabelece o mesmo critério dos Celtas, nossos pais; firma a igualdade dos sexos sobre a identidade da natureza psíquica e o caráter imperecível do ser humano, e a ambos assegura posição idêntica nas agremiações de estudo.
Pelo Espiritismo se subtrai a mulher ao vértice dos sentidos e ascende à vida superior. Sua alma se ilumina de clarão mais puro; seu coração se torna o foco irradiador de ternos sentimentos e nobilíssimas paixões. Ela reassume no lar a encantadora missão que lhe pertence, feita de dedicação e piedade, seu importante e divino papel de mãe, de irmã e educadora, sua nobre e doce função persuasiva.
Cessa, desde então, a luta entre os dois sexos. As duas metades da Humanidade se aliam e equilibram no amor, para cooperarem juntas no plano providencial, nas obras da Divina Inteligência.
Fonte: Páginas de Leon Denis ( No Invisível )

sábado, 7 de fevereiro de 2009

SEGUE ABENÇOANDO


Cada qual de nós trilha um caminho diferente para a união com Deus.
Agradece a estrada que o mundo te aponta e segue abençoando.
Abençoa o grupo de corações em que nasceste.
Dentro dele é que as forças da Criação te construíram os alicerces da existência.
Abençoa o corpo que te serve na condição de carro para a viagem.
Nele possuis a moradia temporária, na qual se te faz possível agir na conquista da evolução.
Abençoa o trabalho que te foi reservado.
Nas tarefas que executas é que assimilas os melhores valores da experiência.
Abençoa as tuas alegrias.
São elas as fontes de estimulo que te garantem o animo e a coragem, a fim de que não esmoreças na marcha.
Abençoa as provações que te visitem.
Nas dificuldades, é que te realizas no aprimoramento intimo.
Abençoa os problemas que te apareçam
Por intermédio dos desafios e obstáculos da senda é que te aperfeiçoas no raciocínio.
Abençoa os amigos.
São alavancas que te oferecem equilíbrio e segurança.
Abençoa os adversários.
Desempenham eles as funções de fiscais, a te mostrarem os perigos e riscos da jornada.
Abençoa os parentes difíceis.
São oportunidades para que se aprenda paciência e humildade, compreensão e tolerância.
Abençoa os que se te fazem instrumentos de tentação.
Enquanto no Plano Físico, temos neles os recursos que nos revelam as fragilidades e imperfeições que, porventura, ainda nos marquem, compelindo-nos a exercer bondade e perdão para com os outros.
Agradece o caminho que o mundo te oferece ao aperfeiçoamento e recorda que Deus te abençoa sempre.
Segue, pois, abençoando também.

Francisco Cândido Xavier, Da obra: Deus Aguarda. Ditado pelo Espírito Meimei

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A ESCRAVA DO SENHOR

Quando João, o discípulo amado, veio Ter com Maria, anunciando-lhe a detenção do Mestre, o coração materno, consternado, recolheu-se ao santuário da prece e rogou ao Senhor Supremo poupasse o filho querido. Não era Jesus o Embaixador Divino? Não recebera a notificação dos anjos, quanto à sua condição celeste? Seu filho amado nascera para a salvação dos oprimidos... Ilustraria o nome de Israel, seria o rei diferente, cheio de amoroso poder. Curava leprosos, levantava paralíticos sem esperança. A ressurreição de Lázaro, já sepultado, não bastaria para elevá-lo ao cume da glorificação?
E Maria confiou ao Deus de Misericórdia suas preocupações e súplicas, esperando-lhe a providência; entretanto, João voltou em horas breves, para dizer-lhe que o Messias fora encarcerado.
A Mãe Santíssima regressou à oração em silêncio. Em pranto, implorou o favor do Pai Celestial. Confiaria nEle.
Desejava enfrentar a situação, desassombradamente, procurando as autoridades de Jerusalém. Mas, humilde e pobre, que conseguiria dos poderosos da Terra? E, acaso, não contava com a proteção do Céu? Certamente, o Deus de Bondade Infinita, que seu filho revelara ao mundo, salvá-lo-ia da prisão, restituí-lo-ia à liberdade.
Maria manteve-se vigilante. Afastando-se da casa modesta a que se recolhera, ganhou a rua e intentou penetrar o cárcere; todavia, não conseguiu comover o coração dos guardas.
Noite alta, velava, súplice, entre a angústia e a confiança.
Mais tarde, João voltou, comunicando-lhe as novas dificuldades surgidas. O Mestre fora acusado pelos sacerdotes. Estava sozinho. E Pilatos, o administrador romano, hesitando entre os dispositivos da lei e as exigências do povo, enviara o Mestre à consideração de Herodes.
Maria não pôde conter-se. Segui-lo-ia de perto.
Resoluta, abrigou-se num manto discreto e tornou à via Pública, multiplicando as rogativas ao Céu, em sua maternal aflição. Naturalmente, Deus modificaria os acontecimentos, tocando a alma de Antipas. Não duvidaria um instante. Que fizera seu filho para receber afrontas? Não reverenciava a lei? Não espalhava sublimes consolações? Amparada pela convertida de Magdala, alcançou as vizinhanças do palácio do tretarca. Oh! Infinita amargura! Jesus fora vestido com uma túnica de ironia e ostentava, nas mãos, uma cana suja à maneira de cetro e, como se isso não bastasse, fora também coroado de libertar-lhe a fronte sangrenta e arrebatá-lo da situação dolorosa, mas o filho, sereno e resignado, endereçou-lhe o olhar mais significativo de toda a existência. Compreendeu que ele a induzia à oração e, em silêncio, lhe pedia confiança no Pai. Conteve-se, mas o seguiu em pranto, rogando a intervenção divina. Impossível que o Pai não se manifestasse. Não era seu filho o escolhido para a salvação? Lembrou-lhe a infância, amparada pelos anjos... Guardava a impressão de que a Estrela Brilhante, que lhe anunciara o nascimento, ainda resplandecia no alto!...
A multidão estacou, de súbito. Interrompera-se a marcha para que o governador romano se pronunciasse em definitivo.
Maria confiava. Quem sabe chegara o instante da ordem de Deus? O Supremo Senhor poderia inspirar diretamente o juiz da causa.
Após ansiedades longas, Pôncio Pilatos, num esforço extremo para salvar o acusado, convidou a turba farisaica a escolher este Jesus, o Divino Benfeitor, e Barrabás, o bandido. O povo ia falar e o povo devia muitas benções ao seu filho querido. Como equiparar o Mensageiro do Pai ao malfeitor cruel que todos conheciam? A multidão, porém, manifestou-se, pedindo a liberdade para Barrabás e a crucificação para Jesus. Oh! - pensou a mãe atormentada - onde está o Eterno que não me ouve as orações? Onde permanecem os anjos que me falavam em luminosas promessas?
Em copioso pranto, viu seu filho vergado ao peso da cruz. Ele caminhava com dificuldade, corpo trêmulo pelas vergastadas recebidas e, obedecendo ao instinto natural, Maria avançou para oferecer-lhe auxílio. Contiveram-na, todavia, os soldados que rodeavam o Condenado Divino.
Angustiada, recordou-se repentinamente de Abraão. O generoso patriarca, noutro tempo, movido pela voz de Deus, conduzira o filho amado ao sacrifício. Seguira Isaac inocente, dilacerado de dor atendendo a recomendação de Jeová, mas, eis que no instante derradeiro, o Senhor determinou o contrário, e o pai de Israel regressara ao santuário doméstico em soberano triunfo. Certamente, o Deus Compassivo escutava-lhe as súplicas e reservava-lhe júbilo igual. Jesus desceria do Calvário, vitorioso, para o seu amor, continuando no apostolado da redenção; no entanto, dolorosamente surpreendida, viu-o içado no madeiro, entre ladrões.
Oh! A terrível angústia daquela hora!! ... Por que não a ouvira o Poderoso Pai?? Que fizera para não lhe merecer a benção?
Desalentada, ferida, ouvia a voz do filho, recomendando-a aos cuidados de João, o companheiro fiel. Registrou-lhe, humilhada, as palavras derradeiras. Mas, quando a sublime cabeça pendeu inerte, Maria recordou a visita do anjo, antes do Natal Divino. Em retrospecto maravilhoso, escutou-lhe a saudação celestial. Misteriosa força assenhoreava-se-lhe do espírito.
Sim... Jesus era seu filho, todavia, antes de tudo, era o Mensageiro de Deus. Ela possuía desejos humanos, mas o Supremo Senhor guardava eternos e insondáveis desígnios. O carinho materno poderia sofrer, contudo, a Vontade Celeste regozijava-se. Poderia haver lágrimas em seus olhos, mas brilhariam festas de vitória no Reino de Deus. Suplicara aparentemente em vão, porquanto, certo, o Todo-Poderoso atendera-lhe os rogos, não segundo os seus anseios de mãe e sim de acordo com seu planos divinos.
Foi então que, Maria, compreendendo a perfeição, a misericórdia e justiça da Vontade do Pai, ajoelhou-se aos pés da cruz e, contemplando o filho morto, repetiu as inesquecíveis afirmações: - "Senhor, eis aqui a tua serva! Cumpra-se em mim, segundo a tua palavra!".
Irmão X.
Do livro Lázaro Redivivo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

AOS ENFRAQUECIDOS NA LUTA

Akmas enfraquecidas, que tendes, muitas vezes, sentido sobre a fronte o sopro frio da adversidade, que tendes vertido muito pranto nas jornadas difíceis, em estradas de sofrimento, buscai na fé os vossos imperecíveis tesouros.
Bem sei a intensidade de vossa angústia e sei da vossa resistência ao desespero.
Ânimo e coragem!
No fim de todas as dores, abre-se uma aurora de ventura imortal; dos amargores experimentados, das lições recebidas, dos ensinamentos conquistados à custa de insano esforço e de penoso labor, tece a alma a sua auréola de imortalidade luminosa; eis que os túmulos se quebram e da paz, além das cinzas e das sombras dos jazigos, emergem as vozes comovedoras dos supostos mortos.
Escutai-as!... Elas vos dizem da felicidade do dever cumprido, dos tormentos da consciência culpada, das obrigações que nos fazem necessárias.
Orai, trabalhai e esperai.
Palmilhai todos os caminhos da prova com destemor e serenidade.
As lágrimas que dilaceram, as mágoas que pungem, as desilusões que fustigam o coração, constituem elementos atenuantes das nossas imperfeições no Tribunal Augusto, onde pontifica o mais justo, magnânimo e íntegro dos juizes.
Sofrei e confiai que o silêncio da morte é o ingresso em outra vida, onde todas as ações estão contadas e gravadas com as menores expressões nos nossos pensamentos.
Amai muito, embora com amargos sacrifícios, porque o amor é a única moeda que assegura a paz e a felicidade no Universo.
Emmanuel
Livro: Visão Nova - Francisco Cândido Xavier - Autores Diversos

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

AFLITIVA LIÇÃO

Reunião de 23 de agosto de 1956.
Encaminhada ao recinto por Instrutores benevolentes, o Espírito Josefina, pobre companheira sofredora, manifestou-se, entre nós, biografando-se em lágrimas.
Conduzida por enfermeiros amigos para um leito de reencarnação, à maneira de mísera doente para uma cela de hospital, recomendam eles vos fale alguma coisa de minha angústia.
Entretanto, a boca humana foi feita para assuntos humanos e, para narrar-vos o meu infortúnio terrível, seria preciso que o pranto, o fogo e o sangue tivessem uma voz...

Sou mãe criminosa, embora não chegasse a ser mulher pervertida.
Jovem ainda, mas abandonada pelo homem que me traíra a confiança, não tive coragem de enfrentar a maternidade, chamada ilegal diante dos homens.
Envergonhada de mim mesma e olvidando o brio que toda consciência deve cultivar diante da Lei de Deus, esperei o rebento de minha carne entre o ódio e a desconfiança, sentindo que labaredas de sofrimento me requeimavam a carne, retesando-me o ser.
Soube guardar o meu segredo...
Esperei o momento azado e, a sós comigo, quando a criança vagia no silêncio da noite, com as minhas próprias mãos asfixiei-a, tomada de frieza satânica.
Ergui-me do leito, não obstante enfraquecida, e consegui-lhe um túmulo improvisado, mas, em voltando aos lençóis que me resguardavam, o sangue borbotou-me em ondas insopitáveis, até que um sono pesado me tomou a cabeça, perdendo-se-me o raciocínio.
Não posso precisar quanto tempo gastei, entregue a semelhante torpor, contudo, lembro-me perfeitamente do horrível instante em que despertei, amolentada, experimentando o assédio de vibriões assassinos.
Achava-me, disforme, num leito estranho, pleno de sombra, enregelada, visitada por vermes asquerosos...
Agitei minhas mãos, tateei o meu corpo e notei que o sangue continuava a fluir do baixo ventre.
Sangue pestilencial, sangue podre...
Reergui-me horrorizada.
Caminhei vacilante.
Pisei detritos de carne, cujo fétido odor me impunha náuseas incoercíveis.
Consegui ensaiar alguns passos e vi-me no cemitério.
Gritei, aloucada, pelo socorro de meus parentes.
Vermes famintos atacavam-me, vigorosos.
Clamei por auxílio, até que uma voz igualmente chorosa me respondeu.
Aproximou-se alguém de mim.
Era outra mulher.
Aos meus olhos, trazia uma criança nos braços.
Diante dela, passei a ouvir os gemidos de meu filhinho assassinado.
Pusemo-nos ambas a gritar estentoricamente.
Entrelaçamo-nos uma à outra.
Abandonamos o sítio infeliz, para encontrar uma terceira mulher, não muito longe, que clamava também por socorro.
Depois de mais alguns passos, encontramos uma quarta companheira e, pelas ruas a fora, dentro da noite, na cidade dormente, outras mulheres se juntaram a nós.
Umas exibiam sinais arroxeados dos golpes que lhes haviam sido vibrados no seio, outras mostravam chagas abertas no colo exposto, outras traziam, como eu, o próprio ventre aberto...
Algumas ziguezagueavam no solo, rastejantes, outras tinham acessos de fúria, histéricas, indominadas, enlouquecidas e, de quando em quando, outras bailavam,
gargalhavam, gemiam, estertoravam, até que, formando extensa nuvem de loucura e de pranto, nos movemos tocadas por faunos desnudos, que mais se assemelhavam a demônios egressos de pavorosas regiões infernais.
Tentei desvencilhar-me de semelhante companhia, mas achava-me imantada àquele triste grupo, como se correntes férreas a ele me retivessem.
Tangidas quais se fôssemos varas de bestas, em gritos de pavor e requebros de demência, fomos apresadas numa casa de meretrício em que o álcool e o entorpecente surgiam a jorros...
E a estranha legião começou a gargalhar e bailar.
Cenas que vozes humanas, com todo o patético do mundo, seriam incapazes de definir, projetaram-se aos nossos olhos...
Implorei a bênção do Céu.
Roguei proteção à Mãe Santíssima, para que se compadecesse de mim, enviando-me leve gota dágua ao vulcão de dor que me devorava as entranhas...
Braços piedosos apartaram-me, então, do rebanho sinistro.
Fui internada num manicômio que não saberei descrever – naturalmente aprisionada, porque a loucura me invadira o espírito e o fogo da alienação mental me calcinava os nervos.
Ouvi preleções sobre a vida eterna, ouvi preces, rogativas, exortações, frases consoladoras, leituras edificantes, contudo, na cela que as minhas trevas de mãe delituosa povoavam de pesadelos amargos, eu apenas ouvia o choro de meu filhinho...
Cristalizara-se-me a aflição.
As minhas recordações, tomando consistência, os meus pensamentos, materializados, e todo o cortejo de remorsos que eu não podia alijar da mente, subjugavam-me o crânio, dominavam-me os sentimentos e, a falar verdade, nada compreendi, porque as chamas do sofrimento me crepitavam na alma toda...
Alucinada, humilhada e vencida, roguei à Mãe Santíssima novo acréscimo de piedade, e a Divina Estrela, Advogada de todos os pecadores e, muito particularmente, a Mãe Augusta de todas as pecadoras da Terra, compadeceu-se de minhas penas...
É assim que transito hoje do hospício que me albergava para o berço de provação que me aguarda no mundo.
Volto, hoje, a nova experiência terrena...
Que gênero de luta me espera?
Serei estrangulada ao nascer?
Terei, mirradas, as mãos assassinas?
Ou quem sabe exibirei na via pública as chagas de um corpo aleijado e infeliz?
Nada sei do futuro...
Sei, no entanto, que Nossa Mãe Celestial condoeu-se de minha sorte e que, amparada por nossa Divina Estrela, palmilharei o grande caminho da restauração.
Mãe Bendita, Mãe dos pecadores, Lírio de Nazaré, ajuda-me ainda; pois, em minha amargura, Mãe Amantíssima, não há senão justiça, não há senão harmonia, não há senão a misericórdia e a bênção da grande Lei.

Josefina
Do livro Vozes do Grande Além. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

FILHA REBELDE

- Minha filha – dizia Dona Matilde à Emilinha -, é preciso atender ao problema espiritual, orientar o sentimento à luz do Cristo. A existência terrestre oferece surpresas inúmeras e almas desprevenidas costumam cair, desastradamente. Não podemos prescindir da vigilância.
A jovem, depois de gargalhar ironicamente, replicava:
- Ora, mamãe, não necessito de sermões encomendados. Esteja tranqüila. Seus conselhos são muito antiquados e talvez desconheça a senhora as reviravoltas do mundo. Suas observações são descabidas e, além disto, sou dona de minha vontade, faço o que entendo.
- Sim, Emilinha – tornava a mãe paciente -, sei que você é senhora de si, mas o cuidado materno obriga-me a esclarecê-la, ainda que você, presentemente, não me possa aceitar as opiniões. Quem é mãe sofre muito por desvelar-se junto dos filhos...
- Por que teima em sofrer? – exclamava a interlocutora, cortando-lhe a palavra – estamos na época de aniquilamento do passadismo.
Como a nobre genitora enxugasse os olhos em pranto, observava, rebelde:
- Não precisará desfiar o rosário de lágrimas. Para quê?
Era assim a situação entre Dona Matilde e a moça altaneira. A generosa senhora, dedicada servidora do Cristo, já não sabia como proceder. Viúva, com três filhas solteiras, desvelava-se, carinhosa, para que lhes não faltasse o necessário. Sacrificava-se continuadamente pelo bem-estar delas. Privava-se de satisfações próprias, sujeitava-se ao trabalho mal remunerado, desequilibrava a saúde pelo excesso de atividade nas obrigações diárias, substituindo a falta do esposo e atendendo ao próprio dever. Se Eulália e Cassilda, as duas filhas mais novas, de alguma sorte lhe compreendiam os sacrifícios, Emilinha, a mais velha, tratava-a rudemente, sem a menor consideração. Criticava-lhe os mínimos gestos. Dona Matilde raramente se dava ao prazer de palestrar com as visitas. Eram tão ásperas as intromissões da filha, tão grosseiros os modos, ante a presença de estranhos, que a nobre senhora se mantinha em silêncio, humilhada. Se comentava o dever, referia-se Emilinha a conceitos modernos da vida; se aventurava uma opinião inocente em qualquer assunto, tratava a filha de se mostrar superior.
Quando voltava Dona Matilde das reuniões evangélicas, reportando-se às consolações e ensinamentos recolhidos, convertia-se a jovem num elemento escarnecedor.
- Ora, mamãe – dizia, sarcástica -, com que então a senhora se consagrou à teologia? Já não fala senão em assuntos de religião...
- Ah! Minha filha – replicava a genitora, cuidadosa na fé -, não sorrias da verdade para que ela, mais tarde, não venha a sorrir de ti. Lembra-te de nossos imperiosos deveres para com Jesus!
Após o riso mordaz, a filha revidava:
- A senhora adquiriu maneiras de sacerdote. Não concordo com as suas teorias de sobrevivência e reencarnação.
E lembrando, enfática, as revistas cientificas que costumava compulsar, por vaidade, concluía presunçosamente:
- Não passamos de experiência biológica da Natureza no campo da racionalidade humana. O resto é ilusão, que devemos relegar ao fanatismo religioso.
A viúva, a principio, discutia e argumentava, esclarecendo-a com a verdade espiritual, mas observando o endurecimento da filha, retraiu-se, pouco a pouco, dando-lhe o exemplo da própria ação e abstendo-se de muitas palavras.
E Emilinha fez no mundo o que lhe pareceu melhor, nos domínios do capricho e da irreflexão criminosa, contraindo pesados débitos e agravando responsabilidades, surda às advertências maternas.
O tempo, a dor e a morte, todavia, são os cobradores da realidade. Ao influxo desse trio implacável, tanto Dona Matilde quanto as filhas foram reconduzidas à vida nova, além do túmulo.
Emilinha, porém, agora afastada do grupo familiar, experimentava rudes provações em círculo de sombras. Era freqüentemente visitada pela mãezinha generosa, mas lhe identificava a presença, nem lhe ouvia a voz encorajadora, por trazer a mente absorvida por negras visões e vozes angustiadas.
Anos correram, quando Dona Matilde deliberou voltar à esfera carnal, em continuação do seu plano de serviço redentor. A filha penitente ficaria, doravante, sem o seu amparo direto. Meditando a situação, a devotada genitora implorou recursos novos. Não desejava mostrar-se insensível e, além do mais, Emilinha, sempre desajuizada, era a filha que mais necessitava dos desvelos maternais. E, ali, na paisagem tenebrosa, ante os padecimentos da ingrata, a nobre criatura intercedeu, fervorosa, empenhando o coração.
A resposta divina não se fez esperar. Emilinha, deslumbrada, reviu a mãezinha pela primeira vez. Indescritível o contentamento de ambas. Beijaram-se com júbilo das profundas ansiedades, longamente reprimidas.
Após confortar-lhe a alma ulcerada, Dona Matilde deu-lhe a conhecer o projeto em organização. Regressaria à Terra, recomeçaria as tarefas inacabadas do processo de redenção que lhe dizia respeito. Emilinha ouviu, inquieta, e considerou:
- Mamãe, a senhora me aceitaria, de novo, ao seu lado?
- Como não, minha filha? – replicou a entidade amorosa – se permitir o Senhor, reconstituiremos o nosso velho lar, voltando à paisagem de ouro tempo.
- Prometo compreendê-la – acrescentou a filha em pranto.
- Rogaremos essa bênção – falou a genitora, beijando-a, carinhosa.
Nesse instante, fez-se visível o generoso diretor espiritual daquela região de sofrimento retificador. Cumprimentou Dona Matilde atenciosamente, enquanto Emilinha se lhe rojava aos pés, rogando, comovida:
- Emissário de Jesus, que me conheceis os padecimentos, ajudai-me para que eu possa voltar à Terra, em companhia de minha mãe. Regressará ele aos círculos da carne e, se concordardes, poderei segui-la, prontificando-me a permanecer em serviço, até que ela me possa receber, novamente, nos braços maternais... Pelo amor de Deus, permiti a minha volta!
A sábia entidade contemplou-a, fraternalmente, e falou:
- No momento, minha irmão, não lhe será possível retirar-se daqui. Ainda precisará desgastar, por alguns anos, os envoltórios inferiores que criou em torno de si mesma. Seus atuais veículos de manifestação não lhe permitem, por enquanto, a vida em zona menos pesada que esta. No entanto, mais tarde, poderá voltar, viver ao lado de Matilde, receber-lhe o verbo carinhoso e ouvir-lhe os conselhos cristãos.
Emilinha, que não cabia em si de contente, elevou as mãos ao céu e exclamou:
- Graças a Deus!
O diretor espiritual, contudo, retomou a palavra e terminou:
- Não poderá, todavia voltar à situação de parentesco que já passou. Não tem títulos de serviço prestado que a autorizem, agora, a regressar como filha de Matilde, mas retornará você ao mundo, como criada humilde da sua residência, para que, na verdadeira condição de obediência, aprenda a valorizar o tesouro que Deus lhe concedeu.
Irmão X
Livro: Pontos e Contos

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

JOANA DE CUZA

Entre a multidão que invariàvelmente acompanhava a Jesus nas pregações do lago, achava-se sempre uma mulher de rara dedicação e nobre caráter, das mais altamente colocadas na sociedade de Cafarnaum. Tratava-se de Joana, consorte de Cuza, intendente de Antipas, na cidade onde se conjugavam interesses vitais de comerciantes e de pescadores.
Joana possuía verdadeira fé; entretanto, não conseguiu forrar-se às amarguras domésticas, porque seu companheiro de lutas não aceitava as claridades do Evangelho. Considerando seus dissabores íntimos, a nobre dama procurou o Messias, numa ocasião em que ele descansava em casa de Simão e lhe expôs a longa série de suas contrariedades e padecimentos. O esposo não tolerava a doutrina do Mestre. Alto funcionário de Herodes, em perene contato com os representantes do Império, repartia as suas preferências religiosas, ora com os interesses da comunidade judaica, ora com os deuses romanos, o que lhe permitia viver em tranqüilidade fácil e rendosa. Joana confessou ao Mestre os seus temores, suas lutas e desgostos no ambiente doméstico, expondo suas amarguras em face das divergências religiosas existentes entre ela e o companheiro.
Após ouvir-lhe a longa exposição, Jesus lhe ponderou:
– Joana, só há um Deus, que é o Nosso Pai, e só existe uma fé para as nossas relações com o seu amor. Certas manifestações religiosas, no mundo, muitas vezes não passam de vícios populares nos hábitos exteriores. Todos os templos da Terra são de pedra; eu venho, em nome de Deus, abrir o templo da fé viva no coração dos homens. Entre o sincero discípulo do Evangelho e os erros milenários do mundo, começa a travar-se o combate sem sangue da redenção espiritual. Agradece ao Pai o haver-te julgado digna do bom trabalho, desde agora. Teu esposo não te compreende a alma sensível? Compreender-te-á um dia. É leviano e indiferente? Ama-o, mesmo assim. Não te acharias ligada a ele se não houvesse para isso razão justa. Servindo-o com amorosa dedicação, estarás cumprindo a vontade de Deus. Falas-me de teus receios e de tuas dúvidas. Deves, pelo Evangelho, amá-la ainda mais. Os sãos não precisam de médico. Além disso, não poderemos colher uvas nos abrolhos, mas podemos amanhar o solo que produziu cardos envenenados, afim de cultivarmos nele mesmo a videira maravilhosa do amor e da vida.
Joana deixava entrever no brilho suave dos olhos a íntima satisfação que aqueles esclarecimentos lhe causavam; mas, patenteando todo o seu estado dalma, interrogou :
– Mestre, vossa palavra me alivia o espírito atormentado; entretanto, sinto dificuldade extrema para um entendimento recíproco no ambiente do meu lar. Não julgais acertado que lute por impor os vossos princípios? Agindo assim, não estarei reformando o meu esposo para o céu e para o vosso reino?
O Cristo sorriu serenamente e retrucou :
– Quem sentirá mais dificuldade em estender as mãos fraternas, será o que atingiu as margens seguras do conhecimento com o Pai, ou aquele que ainda se debate entre as ondas da ignorância ou da desolação, da inconstância ou da indolência do espírito? Quanto à imposição das idéias – continuou Jesus, acentuando a importância de suas palavras – por que motivo Deus não impõe a sua verdade e o seu amor aos tiranos da Terra? Por que não fulmina com um raio o conquistador desalmado que espalha a miséria e a destruição, com as forças sinistras da guerra? A sabedoria celeste não extermina as paixões : transforma-as. Aquele que semeou o mundo de cadáveres desperta, às vezes, para Deu", apenas com uma lágrima. O Pai não impõe a reforma a seus filhos : esclarece-os no momento oportuno. Joana, o apostolado do Evangelho é o de colaboração com o céu, nos grandes princípios da redenção. Sê fiel a Deus, amando ao teu companheiro do mundo, como se fora teu filho. Não percas tempo em discutir o que não seja razoável. Deus não trava contendas com as suas criaturas e trabalha em silêncio, por toda a Criação. Vai!... Esforça-te também no silêncio e, quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo doce ou enérgico da salvação, segundo as circunstâncias! Volta ao lar e ama ao teu companheiro como o material divino que o céu colocou em tuas mãos para que talhes uma obra de vida, sabedoria e amor!...
Joana do Cuza experimentava um brando alívio no coração. Enviando a Jesus um olhar de carinhoso agradecimento, ainda lhe ouviu as ultimas palavras :
– Vai, filha!... Sê fiel!

***
Desde êsse dia, memorável para a sua existência, a mulher de Cuza experimentou na alma a claridade constante de uma resignação sempre pronta ao bom trabalho e sempre ativa para a compreensão de Deus, como se o ensinamento do Mestre estivesse agora gravado indelevelmente em sua alma, considerou que, antes de ser esposa na Terra, já era filha daquele Pai que, do Céu, lhe conhecia a generosidade e os sacrifícios. Seu espírito divisou em todos os labores uma luz sagrada e oculta.
Procurou esquecer tôdas as características inferiores do companheiro, para observar somente o que possuía ele de bom, desenvolvendo, nas menores oportunidades, o embrião vacilante de suas virtudes eternas. Mais tarde, o céu lhe enviou um filhinho, que veio duplicar os seus trabalhos ; ela porém, sem olvidar as recomendações de fidelidade que Jesus lhe havia feito, transformava suas dores num hino de triunfo silencioso em cada dia.

Os anos passaram e o esforço perseverante lhe multiplicou os bens da fé, na marcha laboriosa do conhecimento e da vida. As perseguições políticas desabaram sobre a existência do seu companheiro. Joana, contudo, se mantinha firme. Torturado pelas idéias odiosas de vingança, pelas dívidas insolváveis, pelas vaidades feridas, pelas moléstias que lhe verminaram o corpo, o ex-intendente de Antipas voltou ao plano espiritual, numa noite de sombras tempestuosas. Sua esposa, todavia, suportou os dissabores mais amargos, fiel aos seus ideais divinos edificados na confiança sincera. Premida pelas necessidades mais duras, a nobre dama de Cafarnaum procurou trabalho para se manter com o filhinho, que Deus lhe confiara! Algumas amigas lhe chamaram a atenção, tomadas de respeito humano. Joana, no entanto, buscou e esclarecê-las, alegando que Jesus, igualmente, havia trabalhado, calejando as mãos nos serrotes de uma carpintaria singela e que, submetendo-se ela a uma situação de subalternidade no mundo, se dedicara primeiramente ao Cristo, de quem se havia feito escrava devotada.
Cheia de alegria sincera, a viúva de Cuza esqueceu o conforto da nobreza material, dedicou-se aos filhos de outras mães, ocupou-se com os mais subalternos afazeres domésticos, para que seu filhinho tivesse pão. Mais tarde, quando a neve das experiências do mundo lhe alvejou os primeiros anéis da fronte, uma galera romana a conduzia em seu bojo, na qualidade de serva humilde.

***
No ano 68, quando as perseguições ao Cristianismo iam intensas, vamos encontrar, num dos espetáculos sucessivos do circo, uma velha discípula do Senhor amarrada ao poste do martírio, ao lado de um homem novo, que era seu filho.
Ante o vozerio do povo, foram ordenadas as primeiras flagelações.
– Abjura!... – Exclama um executar das ordens imperiais, de olhar cruel e sombrio. Mas, a antiga discípula ao Senhor contempla o céu, sem uma palavra de negação ou de queixa. Então o açoite vibra sobre o rapaz seminu, que exclama, entre lágrimas: – “Repudia a Jesus, minha mãe!...
Não vês que nos perdemos?! Abjura!... por mim que sou teu filho!...”
Pela primeira vez, dos olhos da mártir corre a fonte abundante das lágrimas. As rogativas do filho são espadas de angústia que lhe retalham o coração.
– Abjura!... Abjura!
Joana ouve aqueles gritos, recordando a existência inteira. O lar risonho e festivo, as horas de ventura, os desgostos domésticos, as emoções maternais, os fracassos do esposo, sua desesperação e sua morte, a viuvez, a desolação e as necessidades mais duras... Em seguida, ante os apelos desesperados do filhinho, recordou que Maria também fora mãe e, vendo o seu Jesus crucificado no madeiro da infâmia, soubera conformar-se com os desígnios divinos. Acima de tôdas as recordações, como alegria suprema de sua vida, pareceu-lhe ouvir ainda o Mestre, em casa de Pedro, a lhe dizer: – “Vai filha! Sê fiel!” Então, possuída de força sobre-humana, a viúva de Cuza contemplou a primeira vítima ensangüentada e, fixando no jovem um olhar profundo e inexprimível, na sua dor e na sua ternura, exclamou firmemente:
– Cala-te, meu filho! Jesus era puro e não desdenhou o sacrifício. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de tôdas as felicidades transitórias do mando, é preciso ser fiel a Deus!
A êsse tempo, com os, aplausos delirantes do povo, os verdugos incendiavam, em derredor, achas de lenha embebidas em resina inflamável.Em poucos instantes, as labaredas lamberam-lhe o corpo envelhecido. João de Cuza contemplou, com serenidade, a massa de povo que lhe não entendia o sacrifício. Os gemidos de dor lhe morriam abafados no peito opresso. Os algozes da mártir cercaram-lhe de impropérios a fogueira:
– O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer? – Perguntou um dos verdugos.
A velha discípula, concentrando a sua capacidade de resistência, teve ainda forças para murmurar :
– Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...
Nesse instante, sentiu que a mão consoladora do Mestre lhe tocava suavemente os ombros, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquecível:
– Joana, tem bom ânimo!... Eu aqui estou! ...
Irmão X - Humberto de Campos
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.



domingo, 1 de fevereiro de 2009

NÃO JULGUEIS

“Não julgueis, a fim de não serdes julgados; — por­quanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se-á convosco a mesma medida de que vos tenhais servido para com os outros.” (Mateus, 7: 1 e 2.)
Há, nos versículos transcritos de Mateus, um forte apelo ao sentido de justiça na conduta de cada um.
O julgamento de nossos semelhantes deve ser entendido espiritualmente, com abstração total do quadro em que se emoldura a Justiça humana, com suas leis, tribunais, sentenças, absolvições e condenações.
O significado espiritual de Justiça corresponde a pensa­mentos retos, ajustados à Lei Divina, gerando ações em consonância com o que se passa no íntimo do ser.
Em outras palavras, praticar a Justiça é exteriorizar o que há de correto e digno diante da Lei Natural, em nossa consciência íntima, abrangendo todos os assuntos e circunstâncias que se nos deparam.
Como toda a Lei Divina pode ser resumida no Amor, a Justiça verdadeira não pode prescindir do Amor Soberano, nele compreendida a Caridade.
Exteriorizamos o que está em nosso íntimo. As iniqüidades do mundo em que vivemos são expressões dos pensa­mentos imperfeitos das criaturas que o habitam.
Nossas imperfeições decorrem ora do desconhecimento da Lei, ora de seu errado entendimento, ora de uma vivência em desacordo com ela.
Criaturas imperfeitas, todos necessitamos de indulgência mútua, assim como devemos perdoar sempre, como ensinou o Mestre Divino.
Não julgar o semelhante é aceitá-lo na condição em que se apresenta. Cumpre, entretanto, não confundir a aceitação da pessoa com a repressão necessária a todo mal, que constitui dever permanente. No episódio da mulher adúltera Jesus não a condenou, mas advertiu-a que não mais pe­casse.
A prática da Justiça traz preocupação constante com o bem. Aquele que reprova o mal praticado por outrem não pode deixar de comprovar retidão em sua conduta e ações, sob pena de perda de toda autoridade em seu reproche. Todos os interesses individuais, familiares, grupais, devem subordinar-se ao sentimento do que é justo.
Diz Kardec, em comentário à Questão 918 de “O Livro dos Espíritos”, que
“homem de bem é o que pra­tica a lei de justiça, amor e caridade, na sua maior pureza”.
“E bondoso, humanitário e benevolente para com to­dos, porque vê irmãos em todos os homens, sem distinção de raças, nem de crenças.”
Homem de bem é o homem justo. E o Espírito que se ele­vou na hierarquia espiritual pela compreensão e prática da Lei de Deus.
Pela lei do progresso, abrangendo a tudo, todos os filhos de Deus, os Espíritos cria­dos por Ele tendem a aproximar-se da fonte geradora. O Espírito eterno, com a cons­ciência do bem e do mal, jamais pode fugir do determinismo da eterna evolução, quais­quer que sejam os transvios, os usos e abusos do livre-arbítrio de que goza desde que se reconhece como alma livre, individualizada.
Devemos conscientizar-nos de que nosso Pai e Criador não é um juiz na acepção do que conhecemos na Terra, apto a condenar ou absolver, de conformidade com as leis humanas.
“O Pai a ninguém julga.”
(João, 5: 22.)
A Justiça Divina transcende completamente às noções que temos da Justiça humana, com sentenças decretadas após discussões de erros e faltas, com acusações e defesas e final absolvição ou condenação a penas, que podem atingir à liberdade individual, aos bens e à própria vida do indivíduo.
O julgamento de Deus é um processo permanente em função de suas leis, eternas e imutáveis. Toda e qualquer transgressão já traz em seu bojo o mecanismo da retificação. Pode-se dizer que cada um julga a si mesmo por seus pensamentos e atos.
A Lei de Deus, perfeita em sua concepção e mecanismo, atinge a todos. Ninguém pode fugir ao seu alcance, assim co­mo os corpos celestes não podem furtar-se às leis da gravitação e da atração universais.
O livre-arbítrio de cada um permite-lhe pensar e agir nesse ou naquele sentido, ponderados todos os fatores externos, as influências boas ou más. Cada qual inscreve em sua consciência as boas ou más conseqüências de seus pensamentos e ações.
Eis o mecanismo do julga­mento.
Compete a cada um corrigir e reparar os próprios transvia­mentos. Progredirão mais rapidamente e mais felizes serão os que mais se aplicarem no bem, porque não sofrerão retardamentos em sua marcha ascensional, enquanto que os transgressores da Lei arcarão com a necessidade inarredável das retificações voluntárias ou compulsórias, que quase sempre resultam em sofrimentos e dores.
Portanto, o avanço progressivo ou o retardamento da marcha é obra de cada um.
A Justiça de Deus respeita a liberdade individual, distribuindo-se eqüitativamente a cada qual, segundo as próprias obras.
Não há exceções, nem privilégios, nem escolha pela graça. Deus é justo e bom para com todos. Sua graça e misericórdia são distribuídas equanimemente.
Também as influências exteriores não incidem arbitraria­mente sobre os pensamentos íntimos e as ações de cada indivíduo. A aceitação das in­fluências boas ou más depende de nossa vontade, de nossa disposição e inclinações. O campo Intimo determinará a adesão ou a rejeição às sugestões exteriores.
Uma obsessão simples ou grave só se instala porque encontra o campo próprio da simpatia, da tendência semelhante, dos objetivos comuns, da invigilância, da indiferença. A atração pode acontecer in­conscientemente, quando existe simpatia de sentimentos e pendores.
De outro lado, a influência espiritual benéfica precisa encontrar receptividade, afinidade, boa vontade, desejo de praticar o bem, fraternidade.
Em suma, as influências negativas ou positivas dependem da recepção do Espírito, de forma consciente, voluntária, ou de forma inconsciente. A in­diferença, a invigilância e a displicência facilitam as in­fluências inferiores.
Em quaisquer circunstâncias, a responsabilidade final é do próprio ser.
Estagnando, por sua omissão, agindo contrariamente à norma divina, que visa sempre ao bem, o Espírito automaticamente se compromete, submetendo-se à sanção da Lei imutável que impõe a reparação, cedo ou tarde.
Mundos materiais atrasados como o nosso, em que milhões de criaturas permanecem indiferentes ao progresso espiritual, são o habitat apropriado aos que tendem à maldade, à intemperança, à avareza, à inveja, à luxúria e aos crimes de variada natureza. Os sofrimentos e as dores são a resposta natural da Lei.
Expiações e provas são as características essenciais do nosso Mundo, pela condição de seus habitantes.
O Consolador vem para re­verter o triste quadro geral da Terra, em que predominam o egoísmo e o orgulho, conclamando os de boa vontade, os arrependidos, os dispostos ao trabalho no bem, os que aceitam o Cristo como Condutor e Salvador, a conjugarem esforços para que haja progresso efetivo do Orbe, possibilitando-lhe a transformação em mundo regenerado.
O juízo de Deus, segundo expressão humana corrente, deve ser entendido não mais como julgamento semelhante ao dos tribunais dos homens, mas como forma da Justiça Divina, proporcionando o progresso de todos, bons e maus, aqueles votados ao bem e estes transitoriamente nos transvios do mal.
Jesus tornou claro esse pensamento ao ensinar:
“Vós julgais segundo a carne, eu porém, a ninguém julgo.” (João, 8:15.)
Como expressão da vontade do Pai e, nesse sentido, uno com o Pai, também o Cristo a ninguém condena, cabendo ao Espírito o próprio julgamento.
Deixou, em sua passagem pela Terra, exemplos magníficos a respeito do entendimento e da aplicação da Lei.
Para simples ilustração, lembremos uma vez mais o episódio da mulher adúltera, antes referido.
Havia na lei hebraica disposição expressa sobre a sanção imposta à transgressão do adultério.
Os acusadores cercaram a mulher, apanhada em flagrante delito, exigindo o cumprimento da lei humana — a lapidação.
Jesus, interpelado pelos acusadores, dirige-se à cons­ciência Íntima de cada circunstante. Apela não à “justiça” in­senda na Lei humana, mas a Justiça como sentimento interior, que não pode prescindir de uma consciência que pesa sobre as próprias condições daquele que se arroga o direito de julgar.
Como todos nós somos devedores perante a Lei maior, não nos sentimos aptos a condenar, nem mesmo a julgar nosso semelhante.
Foi o que ocorreu naquele instante de claridade espiritual inspirada pelo Mestre a todos os que exigiam a lapidação da pecadora.
No entanto, chamados à razão justa, ninguém se aventurou a atirar a primeira pedra. Cada um se retirou silenciosa-mente, como narram os Evangelhos.
Também Jesus não condenou a mulher, que por si mesma já se havia julgado, limitando-se a exortá-la a que não mais pecasse.
Na Terra, o Cristo é o aplicador da Lei Divina. Esta estabelece, como torna claro o Consolador, que o Espírito culpa­do, vale dizer transgressor, é quem se julga a si mesmo. Nesse auto julgamento não há enganos como nos tribunais humanos, uma vez que a Lei Divina e seus mecanismos são perfeitos.
Em lugar do julgamento seguido de condenação dos culpados, dos rebeldes, dos que praticam o mal por sua escolha, os Espíritos transgressores, encarnados ou desencarnados, são conduzidos às retificações através das expiações. A lei da reencarnação funciona como instrumento da Justiça Divina, proporcionando aos que se desviaram os meios de ressarcimento dos prejuízos causados, ao mesmo tempo que torna possível o progresso individual do deve­dor.
Os que conseguem caminhar pelas sendas da Lei, sem se desviarem, obedecendo—a voluntariamente, realizam seu progresso em demanda da per­feição, submetendo-se a provações, que são as formas de aferição do aproveitamento do Espírito. Para esses não há expiações, reservadas aos que contraem débitos.
Há clara distinção entre provas e expiações. A população da Terra submete-se ora a provas, ora a expiações, ora a ambas.
Jesus não veio para julgar os homens, mas para os sal­var, ensinando-lhes como de­vem viver e morrer, tendo em vista a vida eterna da alma.
Para a regeneração de cada um e da Humanidade, fase que sucederá à de provas e expiações, em futuro imprevisível, deixou ensinos e exemplificações de todas as virtudes, que são os meios, os caminhos pa­ra todos de se entenderem fraternalmente, de compreenderem o verdadeiro sentido da vi­da, na prática de toda a Lei, que se resume em Amor, Justiça, Caridade.
Não Julgueis
Juvanir Borges De Souza
“Não julgueis, a fim de não serdes julgados; — por­quanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se-á convosco a mesma medida de que vos tenhais servido para com os outros.” (Mateus, 7: 1 e 2.)
Há, nos versículos transcritos de Mateus, um forte apelo ao sentido de justiça na conduta de cada um.
O julgamento de nossos semelhantes deve ser entendido espiritualmente, com abstração total do quadro em que se emoldura a Justiça humana, com suas leis, tribunais, sentenças, absolvições e condenações.
O significado espiritual de Justiça corresponde a pensa­mentos retos, ajustados à Lei Divina, gerando ações em consonância com o que se passa no íntimo do ser.
Em outras palavras, praticar a Justiça é exteriorizar o que há de correto e digno diante da Lei Natural, em nossa consciência íntima, abrangendo todos os assuntos e circunstâncias que se nos deparam.
Como toda a Lei Divina pode ser resumida no Amor, a Justiça verdadeira não pode prescindir do Amor Soberano, nele compreendida a Caridade.
Exteriorizamos o que está em nosso íntimo. As iniqüidades do mundo em que vivemos são expressões dos pensa­mentos imperfeitos das criaturas que o habitam.
Nossas imperfeições decorrem ora do desconhecimento da Lei, ora de seu errado entendimento, ora de uma vivência em desacordo com ela.
Criaturas imperfeitas, todos necessitamos de indulgência mútua, assim como devemos perdoar sempre, como ensinou o Mestre Divino.
Não julgar o semelhante é aceitá-lo na condição em que se apresenta. Cumpre, entretanto, não confundir a aceitação da pessoa com a repressão necessária a todo mal, que constitui dever permanente. No episódio da mulher adúltera Jesus não a condenou, mas advertiu-a que não mais pe­casse.
A prática da Justiça traz preocupação constante com o bem. Aquele que reprova o mal praticado por outrem não pode deixar de comprovar retidão em sua conduta e ações, sob pena de perda de toda autoridade em seu reproche. Todos os interesses individuais, familiares, grupais, devem subordinar-se ao sentimento do que é justo.
Diz Kardec, em comentário à Questão 918 de “O Livro dos Espíritos”, que
“homem de bem é o que pra­tica a lei de justiça, amor e caridade, na sua maior pureza”.
“E bondoso, humanitário e benevolente para com to­dos, porque vê irmãos em todos os homens, sem distinção de raças, nem de crenças.”
Homem de bem é o homem justo. E o Espírito que se ele­vou na hierarquia espiritual pela compreensão e prática da Lei de Deus.
Pela lei do progresso, abrangendo a tudo, todos os filhos de Deus, os Espíritos cria­dos por Ele tendem a aproximar-se da fonte geradora. O Espírito eterno, com a cons­ciência do bem e do mal, jamais pode fugir do determinismo da eterna evolução, quais­quer que sejam os transvios, os usos e abusos do livre-arbítrio de que goza desde que se reconhece como alma livre, individualizada.
Devemos conscientizar-nos de que nosso Pai e Criador não é um juiz na acepção do que conhecemos na Terra, apto a condenar ou absolver, de conformidade com as leis humanas.
“O Pai a ninguém julga.”
(João, 5: 22.)
A Justiça Divina transcende completamente às noções que temos da Justiça humana, com sentenças decretadas após discussões de erros e faltas, com acusações e defesas e final absolvição ou condenação a penas, que podem atingir à liberdade individual, aos bens e à própria vida do indivíduo.
O julgamento de Deus é um processo permanente em função de suas leis, eternas e imutáveis. Toda e qualquer transgressão já traz em seu bojo o mecanismo da retificação. Pode-se dizer que cada um julga a si mesmo por seus pensamentos e atos.
A Lei de Deus, perfeita em sua concepção e mecanismo, atinge a todos. Ninguém pode fugir ao seu alcance, assim co­mo os corpos celestes não podem furtar-se às leis da gravitação e da atração universais.
O livre-arbítrio de cada um permite-lhe pensar e agir nesse ou naquele sentido, ponderados todos os fatores externos, as influências boas ou más. Cada qual inscreve em sua consciência as boas ou más conseqüências de seus pensamentos e ações.
Eis o mecanismo do julga­mento.
Compete a cada um corrigir e reparar os próprios transvia­mentos. Progredirão mais rapidamente e mais felizes serão os que mais se aplicarem no bem, porque não sofrerão retardamentos em sua marcha ascensional, enquanto que os transgressores da Lei arcarão com a necessidade inarredável das retificações voluntárias ou compulsórias, que quase sempre resultam em sofrimentos e dores.
Portanto, o avanço progressivo ou o retardamento da marcha é obra de cada um.
A Justiça de Deus respeita a liberdade individual, distribuindo-se eqüitativamente a cada qual, segundo as próprias obras.
Não há exceções, nem privilégios, nem escolha pela graça. Deus é justo e bom para com todos. Sua graça e misericórdia são distribuídas equanimemente.
Também as influências exteriores não incidem arbitraria­mente sobre os pensamentos íntimos e as ações de cada indivíduo. A aceitação das in­fluências boas ou más depende de nossa vontade, de nossa disposição e inclinações. O campo Intimo determinará a adesão ou a rejeição às sugestões exteriores.
Uma obsessão simples ou grave só se instala porque encontra o campo próprio da simpatia, da tendência semelhante, dos objetivos comuns, da invigilância, da indiferença. A atração pode acontecer in­conscientemente, quando existe simpatia de sentimentos e pendores.
De outro lado, a influência espiritual benéfica precisa encontrar receptividade, afinidade, boa vontade, desejo de praticar o bem, fraternidade.
Em suma, as influências negativas ou positivas dependem da recepção do Espírito, de forma consciente, voluntária, ou de forma inconsciente. A in­diferença, a invigilância e a displicência facilitam as in­fluências inferiores.
Em quaisquer circunstâncias, a responsabilidade final é do próprio ser.
Estagnando, por sua omissão, agindo contrariamente à norma divina, que visa sempre ao bem, o Espírito automaticamente se compromete, submetendo-se à sanção da Lei imutável que impõe a reparação, cedo ou tarde.
Mundos materiais atrasados como o nosso, em que milhões de criaturas permanecem indiferentes ao progresso espiritual, são o habitat apropriado aos que tendem à maldade, à intemperança, à avareza, à inveja, à luxúria e aos crimes de variada natureza. Os sofrimentos e as dores são a resposta natural da Lei.
Expiações e provas são as características essenciais do nosso Mundo, pela condição de seus habitantes.
O Consolador vem para re­verter o triste quadro geral da Terra, em que predominam o egoísmo e o orgulho, conclamando os de boa vontade, os arrependidos, os dispostos ao trabalho no bem, os que aceitam o Cristo como Condutor e Salvador, a conjugarem esforços para que haja progresso efetivo do Orbe, possibilitando-lhe a transformação em mundo regenerado.
O juízo de Deus, segundo expressão humana corrente, deve ser entendido não mais como julgamento semelhante ao dos tribunais dos homens, mas como forma da Justiça Divina, proporcionando o progresso de todos, bons e maus, aqueles votados ao bem e estes transitoriamente nos transvios do mal.
Jesus tornou claro esse pensamento ao ensinar:
“Vós julgais segundo a carne, eu porém, a ninguém julgo.” (João, 8:15.)
Como expressão da vontade do Pai e, nesse sentido, uno com o Pai, também o Cristo a ninguém condena, cabendo ao Espírito o próprio julgamento.
Deixou, em sua passagem pela Terra, exemplos magníficos a respeito do entendimento e da aplicação da Lei.
Para simples ilustração, lembremos uma vez mais o episódio da mulher adúltera, antes referido.
Havia na lei hebraica disposição expressa sobre a sanção imposta à transgressão do adultério.
Os acusadores cercaram a mulher, apanhada em flagrante delito, exigindo o cumprimento da lei humana — a lapidação.
Jesus, interpelado pelos acusadores, dirige-se à cons­ciência Íntima de cada circunstante. Apela não à “justiça” in­senda na Lei humana, mas a Justiça como sentimento interior, que não pode prescindir de uma consciência que pesa sobre as próprias condições daquele que se arroga o direito de julgar.
Como todos nós somos devedores perante a Lei maior, não nos sentimos aptos a condenar, nem mesmo a julgar nosso semelhante.
Foi o que ocorreu naquele instante de claridade espiritual inspirada pelo Mestre a todos os que exigiam a lapidação da pecadora.
No entanto, chamados à razão justa, ninguém se aventurou a atirar a primeira pedra. Cada um se retirou silenciosa-mente, como narram os Evangelhos.
Também Jesus não condenou a mulher, que por si mesma já se havia julgado, limitando-se a exortá-la a que não mais pecasse.
Na Terra, o Cristo é o aplicador da Lei Divina. Esta estabelece, como torna claro o Consolador, que o Espírito culpa­do, vale dizer transgressor, é quem se julga a si mesmo. Nesse auto julgamento não há enganos como nos tribunais humanos, uma vez que a Lei Divina e seus mecanismos são perfeitos.
Em lugar do julgamento seguido de condenação dos culpados, dos rebeldes, dos que praticam o mal por sua escolha, os Espíritos transgressores, encarnados ou desencarnados, são conduzidos às retificações através das expiações. A lei da reencarnação funciona como instrumento da Justiça Divina, proporcionando aos que se desviaram os meios de ressarcimento dos prejuízos causados, ao mesmo tempo que torna possível o progresso individual do deve­dor.
Os que conseguem caminhar pelas sendas da Lei, sem se desviarem, obedecendo—a voluntariamente, realizam seu progresso em demanda da per­feição, submetendo-se a provações, que são as formas de aferição do aproveitamento do Espírito. Para esses não há expiações, reservadas aos que contraem débitos.
Há clara distinção entre provas e expiações. A população da Terra submete-se ora a provas, ora a expiações, ora a ambas.
Jesus não veio para julgar os homens, mas para os sal­var, ensinando-lhes como de­vem viver e morrer, tendo em vista a vida eterna da alma.
Para a regeneração de cada um e da Humanidade, fase que sucederá à de provas e expiações, em futuro imprevisível, deixou ensinos e exemplificações de todas as virtudes, que são os meios, os caminhos pa­ra todos de se entenderem fraternalmente, de compreenderem o verdadeiro sentido da vi­da, na prática de toda a Lei, que se resume em Amor, Justiça, Caridade.
Juvanir Borges De Souza
Fonte: Reformador – agosto, 1989