quinta-feira, 30 de abril de 2009

NÃO VIM TRAZER A PAZ, MAS A ESPADA


EM HOMENAGEM AOS 145 ANOS DE LANÇAMENTO DO “EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO” OCORRIDO EM 30 DE ABRIL DE 1864 EM PARIS.

Não julgueis que vim trazer paz a Terra; não vim trazer-lhe paz, mas espada; porque vim separar o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e os inimigos do homem serão os seus mesmos domésticos. (Mateus, X: 34-36).
Eu vim trazer fogo à Terra, e que quero eu, senão que ele se acenda? Eu, pois, tenho de ser batizado num batismo, e quão grande não é a minha angústia, até que ele se cumpra? Vós cuidais que eu vim trazer paz à Terra? Não, vos digo eu, mas separação; porque de hoje em diante haverá, numa mesma casa, cinco pessoas divididas, três contra duas e duas contra três. Estarão divididas: o pai contra o filho, e o filho contra seu pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra sua nora, e a nora contra sua sogra. (Lucas, XII: 49-53)
Foi mesmo Jesus, a personificação da doçura e da bondade, ele que não cessava de pregar o amor do próximo, quem disse estas palavras: Eu não vim trazer a paz, mas a espada; vim separar o filho do pai, o marido da mulher, vim lançar fogo na Terra e tenho pressa que ele se acenda? Essas palavras não estão em flagrante contradição com o seu ensino? Não é uma blasfêmia atribuir-se a linguagem de um conquistador sanguinário e devastador? Não, não há blasfêmia nem contradição nessas palavras, porque foi ele mesmo quem as pronunciou, e elas atestam a sua elevada sabedoria. Somente a forma, um tanto equívoca, não exprime exatamente o seu pensamento, o que provocou alguns enganos quanto ao seu verdadeiro sentido. Tomadas ao pé da letra, elas tenderiam a transformar a sua missão, inteiramente pacífica, numa missão de turbulências e discórdias, conseqüência absurda, que o bom senso rejeita, pois Jesus não podia contradizer-se. (Ver cap. XIV, nº 6).
Toda idéia nova encontra forçosamente oposição, e não houve uma única que se implantasse sem lutas. A resistência, nesses casos, está sempre na razão da importância dos resultados previstos, pois quanto maior ela for, maior será o número de interesses ameaçados. Se for uma idéia notoriamente falsa, considerada sem conseqüências, ninguém se perturba com ela, e a deixam passar, confiantes na sua falta de vitalidade. Mas se é verdadeira, se está assentada em bases sólidas, se é possível entrever-lhe o futuro, um secreto pressentimento adverte os seus antagonistas de que se trata de um perigo para eles, para a ordem de coisas por cuja manutenção se interessam. E é por isso que se lançam contra ela e os seus adeptos. A medida da importância e das conseqüências de uma idéia nova nos é dada, portanto, pela emoção que o seu aparecimento provoca, pela violência da oposição que desperta, e pela intensidade e a persistência da cólera dos seus adversários.
Jesus vinha proclamar uma doutrina que minava pelas bases a situação de abusos em que viviam os fariseus, os escribas e os sacerdotes do seu tempo. Por isso o fizeram morrer, julgando matar a idéia com a morte do homem. Mas a idéia sobreviveu, porque era verdadeira; desenvolveu-se, porque estava nos desígnios de Deus; e nascida numa pequena vila da Judéia, foi plantar a sua bandeira na própria capital do mundo pagão, em face dos seus inimigos mais encarniçados, daqueles que tinham o maior interesse em combatê-la, porque ela subvertia as crenças seculares, a que muitos se apegavam, mais por interesse do que por convicção. Era lá que as lutas mais terríveis esperavam os seus apóstolos; as vítimas foram inumeráveis; mas a idéia cresceu e saiu triunfante, porque superava, como verdade, as suas antecessoras.
Observe-se que o Cristianismo apareceu quando Paganismo declinava, debatendo-se contra as luzes da razão. Convencionalmente ainda o praticavam, mas a crença já havia desaparecido, de maneira que apenas o interesse pessoal o sustinha. Ora, o interesse é tenaz, não cede nunca à evidência, e irrita-se tanto mais, quanto mais peremptórios são os raciocínios que se lhe opõem e que melhor demonstram o seu erro. Bem sabe que está errado, mas isso pouco lhe importa, pois a verdadeira fé não lhe interessa; pelo contrário, o que mais o amedronta é a luz que esclarece os cegos. O erro lhe é proveitoso, e por isso a ele se aferra, e o defende.
Sócrates não formulara também uma doutrina, até certo ponto, semelhante à do Cristo? Por que, então, não prevaleceu naquela época, no seio de um dos povos mais inteligentes da Terra? Porque os tempos ainda não haviam chegado. Ele semeou em terreno não preparado: o paganismo não estava suficientemente gasto. Cristo recebeu a sua missão providencial no tempo devido. Nem todos o homens do seu tempo estavam à altura das idéias cristãs, mas havia um clima geral de aptidão para assimilá-las, porque já se fazia sentir o vazio que as crenças vulgares deixavam na alma. Sócrates e Platão abriram o caminho e prepararam os Espíritos. (Ver na Introdução, parágrafo IV: Sócrates e Platão, precursores da idéia cristã e do Espiritismo).
Os adeptos da nova doutrina, infelizmente, não se entenderam sobre a interpretação das palavras do Mestre, na maioria veladas por alegorias e expressões figuradas. Daí surgirem, desde o princípio, as numerosas seitas que pretendiam, todas elas, a posse exclusiva da verdade, e que dezoito séculos não conseguiram pôr de acordo. Esquecendo o mais importante dos preceitos divinos, aquele de que Jesus havia feito a pedra angular do seu edifício e a condição expressa da salvação: a caridade, a fraternidade e o amor do próximo, essas seitas se anatematizaram reciprocamente, arremeteram-se umas contra as outras, as mais fortes esmagando as mais fracas, afogando-as em sangue, ou nas torturas e nas chamas das fogueiras. Os cristãos vencedores do paganismo, passaram de perseguidos a perseguidores. Foi a ferro e fogo que plantaram a cruz do cordeiro sem mácula nos dois mundos. É um fato comprovado que as guerras de religião foram mais cruéis e fizeram maior número de vítimas que as guerras políticas, e que em nenhuma outra se cometeram tantos atos de atrocidade e de barbárie.
Seria a culpa da doutrina do Cristo? Não, por certo, pois ela condena formalmente toda violência. Disse ele em algum momento aos seus discípulos: Ide matar, queimar, massacrar os que não acreditarem como vós? Não, pois que lhes disse o contrário: Todos os homens são irmãos, e Deus é soberanamente misericordioso; amai o vosso próximo; amai os vossos inimigos; fazei bem aos que vos perseguem. E lhes disse ainda: Quem matar com a espada perecerá pela espada. A responsabilidade, portanto, não é da doutrina de Jesus, mas daqueles que a interpretaram falsamente, transformando-a num instrumento a serviço das suas paixões, daqueles que ignoram estas palavras: O meu Reino não é deste mundo.
Jesus, na sua profunda sabedoria, previu o que devia acontecer. Mas essas coisas eram inevitáveis, porque decorriam da própria inferioridade da natureza humana, que não podia ser transformada subitamente. Era necessário que o Cristianismo passasse por essa prova demorada e cruel, de dezoito séculos, para demonstrar toda a sua pujança: porque, apesar de todo o mal cometido em seu nome, ele saiu dela puro, e jamais esteve em causa. A censura sempre caiu sobre os que dele abusaram, pois a cada ato de intolerância sempre se disse: Se o Cristianismo fosse melhor compreendido e melhor praticado, isso não teria acontecido.
Quando Jesus disse: Não penseis que vim trazer a paz, mas a divisão – seu pensamento era o seguinte:
“Não penseis que a minha doutrina se estabeleça pacificamente. Ela trará lutas sangrentas, para as quais o meu nome servirá de pretexto. Porque os homens não me haverão compreendido, ou não terão querido compreender-me. Os irmãos, separados pelas suas crenças, lançarão a espada um contra o outro, e a divisão se fará entre os membros de uma mesma família, que não terão a mesma fé. Vim lançar o fogo na Terra, para consumir os erros e os preconceitos, como se põe fogo num campo para destruir as ervas daninhas, e anseio porque se acenda, para que a depuração se faça mais rapidamente, pois dela sairá triunfante a verdade. A guerra sucederá a paz; ao ódio dos partidos, a fraternidade universal; às trevas do fanatismo, a luz da fé esclarecida” .
“Então, quando o campo estiver preparado, eu vos enviarei o Consolador, o Espírito da Verdade, que virá restabelecer todas as coisas, ou seja, que dando a conhecer o verdadeiro sentido das minhas palavras, que os homens mais esclarecidos poderão enfim compreender, porá termo à luta fratricida que divide os filhos de um mesmo Deus. Cansados, afinal, de um combate sem solução, que só acarreta desolação e leva o distúrbio até mesmo ao seio das famílias, os homens reconhecerão onde se encontram os seus verdadeiros interesses, no tocante a este e ao outro mundo, e verão de que lado se acham os amigos e os inimigos da sua tranqüilidade. Nesse momento, todos virão abrigar-se sob a mesma bandeira: a da caridade, e as coisas serão restabelecidas na Terra, segundo a verdade e os princípios que vos ensinei”.
O Espiritismo vem realizar, no tempo determinado, as promessas do Cristo. Não o pode fazer, entretanto, sem destruir os erros. Como Jesus, ele se defronta com o orgulho, o egoísmo, a ambição, a cupidez, o fanatismo cego, que, cercados nos seus últimos redutos, tenta ainda barrar-lhe o caminho, e levantam contra ele entraves e perseguições. Eis por que ele também é forçado a combater. Mas a época das lutas e perseguições sangrentas já passou, e as que ele tem de suportar são todas de ordem moral, sendo que o fim de todas elas se aproxima. As primeiras duraram séculos; as de agora durarão apenas alguns anos, porque a luz não parte de um só foco, mas irrompe de todos o ponto do globo, e abrirá mais depressa os olhos aos cegos.
Aquelas palavras de Jesus devem ser entendidas, portanto, como referentes à cólera que, segundo previa, a sua doutrina iria suscitar; aos conflitos momentâneos, que surgiram como conseqüência; às lutas que teria de sustentar, antes de se firmar, como aconteceu com os hebreus antes de sua entrada na Terra Prometida; e não como um desígnio premeditado, de sua parte, de semear a desordem e a confusão. O mal devia provir dos homens, e não dele. A sua posição era a do médico que veio curar, mas cujos remédios provocam uma crise salutar, revolvendo os humores malignos do enfermo.

domingo, 26 de abril de 2009

CONTROLE UNIVERSAL DO ENSINO DOS ESPÍRITOS


Esta é a base em que nos apoiamos, para formularmos um princípio da Doutrina.
Não é por concordar ele com as nossas idéias, que o damos como verdadeiro.
Não nos colocamos, absolutamente, como árbitro supremo da verdade, e não dizemos a ninguém: "Crede em tal coisa, porque nós vo-la dizemos." Nossa opinião não é, aos nossos próprios olhos, mais do que uma opinião pessoal, não pode ser justa ou falsa, porque não somos mais infalíveis do que os outros.
E não é também porque um princípio nos foi ensinado que o consideraremos verdadeiro, mas porque ele recebeu a sanção da concordância.
Na nossa posição, recebendo as comunicações de cerca de mil centros espíritas sérios, espalhados pelos mais diversos pontos do Globo, estamos em condições de ver quais os princípios sobre que essa concordância se estabelece.
É essa observação que nos tem guiado até hoje, e é igualmente ela que nos guiará através dos novos campos que o Espiritismo está convocado a explorar.
É assim que, estudando atentamente as comunicações recebidas de diversos lugares, tanto da França como do exterior, reconhecemos, pela natureza toda especial das revelações, que há uma tendência para entrar numa nova via, e que chegou o momento de se dar um passo à frente.
Essas revelações, formuladas às vezes com palavras veladas, passaram quase sempre desapercebidas para muitos daqueles que as obtiveram, e muitos outros acreditaram tê-las recebido sozinhos.
Tomadas isoladamente, elas seriam para nós sem valor; somente a coincidência lhes confere gravidade.
Depois, quando chega o momento de publicá-las, cada um se lembrará de haver recebido instruções no mesmo sentido.
É esse o movimento geral que observamos e estudamos, com a assistência dos nossos guias espirituais, e que nos ajuda a avaliar a oportunidade de fazermos uma coisa ou de nos abstermos.


Do Livro "O Evangelho Segundo O Espiritismo " Allan Kardec

sábado, 25 de abril de 2009

SEMENTES DA CORRUPÇÃO



Dia desses um garoto chegou em casa e perguntou à mãe quanto ela lhe pagaria se ele tirasse nota dez na prova.
A proposta surpreendeu a genitora, acostumada a educar os filhos com lucidez e bom senso.
"Por que eu deveria lhe pagar por isso, meu filho?" Perguntou com tranqüilidade.
"Ora, mãe, o pai do meu amigo vai pagar cem reais se ele tirar um dez na prova de inglês."
"E você acha isso correto, filho?"
"Ah, eu acho que cem reais dá para comprar uma porção de coisas...," respondeu o menino, entusiasmado.
A sábia educadora aproveitou o momento para um diálogo esclarecedor com o filho amado. "Filho, você acha correto o que esse pai está fazendo, pagando para o filho fazer o que é apenas a sua obrigação?"
O garoto respondeu que não sabia se era certo ou não, e a mãe continuou:
"Você já ouviu falar em corrupção?"
"Sim", disse o menino.
"E você acha direito uma pessoa cobrar para fazer a sua obrigação?"
"Não, eu não acho."
"Estudar é sua obrigação, não é filho?"
"Sim, é minha obrigação."
"Pois bem, seu pai e eu fazemos a nossa parte, que é lhe dar oportunidade de aprender para que seja um homem instruído e possa ser útil à sociedade da qual faz parte.
Mas não desejamos que seja apenas instruído.
Queremos, acima de tudo, que seja um homem de bem, um homem moralizado, um homem digno e justo.
É por isso que você nunca irá receber dos seus pais qualquer compensação para fazer a sua parte."
O garoto concordou com a mãe, mas, ainda interessado no assunto questionou:
"Quer dizer que isso é corrupção, mãe?"
"Sim. Pagar alguém para fazer ou deixar de fazer a sua obrigação é corrupção.
Existem funcionários que recebem um salário para fazer o seu trabalho mas costumam pedir um valor a mais, uma ´gratificação´ para ´agilizar´ o processo. Isso significa que estão prejudicando aqueles que não têm dinheiro para pagar esse ´favor´ ou que não compactuam com essa prática."
Talvez para deixar o ensinamento mais claro para o filho, a mãe continua:
"E a corrupção não está relacionada exclusivamente com o dinheiro, filho. Quando um juiz, por exemplo, que julga uma causa e favorece um amigo ou outro interesse qualquer, sem considerar a verdadeira justiça, está se corrompendo e corrompendo o sistema. Qualquer pessoa, enfim, que age em desacordo com sua própria consciência, é corruptora dos bons costumes."
Se o garoto entendeu tudo não se sabe, mas abandonou a idéia de receber um pagamento para tirar boas notas e foi estudar para a prova que iria fazer no dia seguinte.
.................................
Felizmente nem todos os cidadãos da nossa sociedade são corruptos ou corruptores.
Mas se você já sofreu algum tipo de extorsão, sabe o quanto é amargo o sabor desse tipo de violência.
Se você já sofreu qualquer tipo de injustiça por parte de quem deveria representar a sã justiça, sabe o quanto isso gera desgosto e infelicidade.
Pense nisso e faça a sua parte para eliminar essas sementes nocivas de corrupção e desamor.
Aja com honestidade e eduque seus filhos para serem cidadãos dignos e incorruptíveis.
Não se corrompa e não corrompa ninguém, pois é só assim que veremos o sol da plena justiça despontar num futuro próximo.
Autor:Equipe de Redação do Momento Espírita.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

VISÃO ESPÍRITA DO HOMEM

NO DIA 24 DE ABRIL DE 1984 DESENCARNAVA NO RIO DE JANEIRO. DEOLINDO AMORIM, JORNALISTA E ESCRITOR DE IDEALIZOU OS CONGRESSOS DOS JORNALISTAS E ESCRITORES ESPÍRITAS, A ABRAJEE E O INSTITUTO DE CULTURA ESPÍRITA DO BRASIL.

Já se sabe que o perispírito não é uma invenção do Espiritismo, como não é um conceito abstrato. É um elemento real, que tem propriedades e toma formas visíveis. Com o Espiritismo, entretanto, em virtude das experiências mediúnicas que já se acumularam até hoje, o estudo desse “corpo intermediário” necessariamente se tornou mais específico, permitindo que se lhe reconheçam propriedades relevantes no mecanismo psico-fisiológico. Além de outros autores, considerados clássicos na literatura espírita, Gabriel Delanne dedicou boa parte de seus trabalhos ao perispírito, e trouxe, por isso mesmo, uma contribuição significativa e ainda válida em toda a plenitude. Estudou ele, por exemplo, as “Provas da existência do perispírito - sua utilidade - seu papel”, no alentado livro O Espiritismo perante a Ciência. E, assim, em toda a obra de Delanne, realmente portentosa, há o que se estudar e pensar a respeito do perispírito. Não se precisaria fazer referência a outros, aliás bastante conhecidos no meio espírita, porque não temos objetivo de erudição nesta breve crônica jornalística. Queremos acentuar, sim, o perispírito ou mediador fluídico tem funções próprias no composto humano, não é uma criação imaginária...
Na antigüidade oriental, como na grega, como entre doutores da Igreja, admitiu-se claramente a existência de uma “substância”, um corpo, um elemento equivalente, afinal de contas, entre as duas realidades fundamentais: a matéria e o Espírito. Os nomes são diversos e, por isso, há uma infinidade de expressões para traduzir a significação do perispírito (terminologia do Espiritismo) no conjunto psicossomático. Existem até uns tantos preciosismos de linguagem, verdadeiras sutilezas verbais para dizer o que seja, no fundo, esse “corpo bioplásmico”, segundo a moderníssima denominação resultante de experiências realizadas na Rússia. Há contextos espiritualistas em que se encontra o perispírito, dividido ou apresentado sob outras rubricas, com as especificações que lhe são atribuídas. Mas o que é fundamental no caso é a existência, necessária, de um elemento que se interpõe no binômio corpo-espírito. A Doutrina Espírita prefere chamá-lo simplesmente de perispírito, com explicações acessíveis a todos os níveis de instrução.
Sob o ponto de vista histórico, entretanto, além do que já se encontra em velhas fontes orientais, como noutros ramos da literatura antiga, convém considerar que na Escolástica primitiva, muito influenciada por Platão e Agostinho, também se admitiu a constituição trinária do ser humano:
1) a alma habita numa casa que lhe é essencialmente estranha; o corpo é o albergue, o hábito, o recipiente, o invólucro da alma; além de semelhante imagem, é também usada a do matrimônio.
2) o corpo e a alma estão unidos por um “spiritus physucys”, que serve de intermediário;
3) corpo e alma estão unidos pela personalidade como em uma espécie de união hipostática.
(Barnarco Bartmann - “Teologia Dogmática” - I vol., Edições Paulinas)

Tão forte lhe parece a união da alma com o corpo, com a intercalação desse - “spiritus physucus”, que funciona como intermediário, que o Autor chega a compará-la a uma espécie de união hipostática, isto é, união do Verbo divino com a natureza humana. A idéia de um “invólucro” ou “intermediário”, uma vez que o Espírito precisa de um revestimento para que possa conviver com o corpo, faz parte dos contextos espíritas, sejam quais forem os nomes que se lhe dêem. É o persipírito, sem tirar nem por.
Como o perispírito, a reencarnação, por sua vez, também já teve adeptos na Igreja, embora contra ela se tenha pronunciado e firmado sentença o Concílio de Constantinopla. Mas o certo é que Orígenes, teólogo e exegeta, defendeu a tese da preexistência, o que, aliás, é fato muito citado. Outros teólogos, como se sabe, adotaram a tese “criacionista”, isto é, a criação da alma com o corpo ou para o corpo. Justamente nesse ponto, um dos maiores doutores de sua época - Santo Agostinho - se defrontou com dificuldades para conciliar a criação da alma com o “pecado original”. Quem o diz é ainda Bartmann, na mesma obra (já referida), e ele próprio, o autor de “Teologia Dogmática”, também encontra obscuridade. Vejamos: Se é incompreensível que a alma derive do ato corpóreo da geração, todavia também o criacionismo apresenta não pequenas dificuldades. Já Santo Agostinho não sabia explicar como a alma, criada por Deus, podia nascer com o pecado original. A dificuldade conserva seu valor também para nós. Outra dificuldade pode surgir da consideração de uma criação contínua até o fim do mundo, de um número incalculável de atos diretos de Deus. mas o ponto-chave do problema, como denuncia o Autor, está justamente nesta decorrência da tese “criacionista”: Pareceria, por fim, necessário admitir uma cooperação imediata de Deus, nas numerosas gerações manchadas pela culpa. Não se pode responder à primeira dificuldade senão recorrendo ao mistério do pecado original. E no mistério esbarra tudo, não há mais saída para o raciocínio...
Contrapondo-se à idéia da criação do Espírito juntamente com o corpo, a Doutrina Espírita propõe outra análise do problema, nestes termos:
“Donde vem a aptidão extranormal que muitas crianças em tenra idade revelam, para esta ou aquela arte, para esta ou aquela ciência, enquanto outras se conservam inferiores ou medíocres durante a vida toda?”
“Donde, em certas crianças, o instinto precoce que revelam para os vícios ou para as virtudes, os sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza, contrastando com o meio em que elas nasceram?” (O Livro dos Espíritos - questão 222).
Se, realmente, o Espírito fosse criado por Deus no ato do nascimento, seria o caso de admitir, ainda que por absurdo, criação de indivíduos que nascem com tendências para a perversão ou para a delinqüência. Seria obra de Deus?!...
A tese da preexistência explica as inclinações inatas para o bem ou para o mal, embora a Doutrina Espírita não negue a influência fortíssima da educação, do meio social, da cultura e de outros fatores contingentes. Mas o Espírito, ao voltar à Terra, pela reencarnação, traz certa bagagem de conhecimentos, virtudes ou vícios, responsáveis pelo curso de sua existência, com todos os altos e baixos deste mundo. Deus não iria criar para a vida um Espírito que já estivesse marcado com as paixões inferiores. Todos começam “simples e ignorantes” - ensina a Doutrina - mas o próprio arbítrio, que é indispensável à experiência individual, pode desviar o Espírito da rota mais justa e levá-lo aos despenhadeiros morais. “Simples e ignorantes” é a expressão textual da Doutrina “O Livros dos Espíritos - questões 115-121-133-634. É o ponto de partida. Daí por diante, cada qual adquire sua experiência através das vidas sucessivas. É um princípio que nos faz compreender a responsabilidade individual, ao passo que, se admitíssemos a criação juntamente com o corpo, chegaríamos a esta conclusão a fatal: se a criatura é má, se abusa de suas faculdades ou de seus recursos para dar expansão a tendências viciosas, não é responsável por seu procedimento, uma vez que nasceu assim, foi criada assim por Deus, colocada no corpo, ao nascer, com todas as suas mazelas morais. No entanto, o princípio da responsabilidade individual é válido no tempo e no espaço, segundo o Espiritismo.
Outra, portanto, é a perspectiva da reencarnação, que já teve defensores no seio da Igreja, embora condenada, mais tarde, como heresia. O desenvolvimento do Espírito modifica o perispírito, e este, pela ação plasmadora, tem influência sobre o corpo. Como já vimos, não apenas Platão, luminar da constelação grega da antigüidade, esposou a concepção trinária do homem, mas entre escolásticos também houve partidários dessa concepção. O homem tríplice não desagrega a unidade básica do EU. Com esta visão antropológica, a Doutrina Espírita situa o homem na Terra, em relação ao presente e ao passado, apontando-lhe o caminho do futuro, sem ilusões nem quimeras.

Deolindo Amorim
Obreiros do Bem - Agosto de 1976

quinta-feira, 23 de abril de 2009

PERANTE OS PROBLEMAS PATERNAIS


I

Dentro da tranqüilidade possível, conservemos as nossas paternais emoções na confiança em Jesus que, por Seus Mensageiros, nos estenderá corações queridos que, no momento, se encontram associados no mesmo esforço de reajuste espiritual.
Abençoemos as dificuldades e, igualmente, lembremo-nos das bênçãos que o nosso grupo doméstico vem recebendo do amparo do Senhor.

II

Os filhos são originariamente de Deus e em nossa condição de zeladores deles, façamos quanto se nos faça possível para auxiliá-los, no limite de nossos recursos.
Os deveres bem cumpridos do coração paternal sempre nos farão tranqüilos perante Jesus.

III

Os corações paternos ajustados à “lei do Bem” devem guardar a tranqüilidade que sempre lhes iluminam a vida, a fim de agirem com acerto.
Esforcemo-nos ao máximo para sustentar os filhos queridos no clima da paz com o regresso à calma edificante do lar, entretanto se os filhos não puderem responder positivamente ao carinho dos nossos apelos, respeitemo-los na estrada que escolham trilhar e peçamos a Jesus a todos nos fortaleça.

IV

O dever cumprido corretamente é a ficha moral do homem. Tranquilizemo-nos, assim, na consciência equilibrada pela noção de nossas obrigações escrupulosamente atendidas.

Do livro Apelos Cristãos. Espírito Bezerra de Meneses. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

terça-feira, 21 de abril de 2009

SEJA VOLUNTÁRIO


Caibar Schutel
Seja voluntário na evangelização infantil.
Não aguarde convite para contribuir em favor da Boa Nova no coração das crianças.
Auxilie a plantação do futuro.
Seja voluntário no culto do evangelho.
Não espere a participação de todos os companheiros do lar para iniciá-lo, se preciso, faça-o sozinho.
Seja voluntário no templo espírita.
Não aguarde ser eleito diretor para cooperar. Colabore sem impor condições, em algum setor, hoje mesmo.
Seja voluntário no estudo edificante.
Não espere que os outros lhe chamem a atenção. Estude por conta própria.
Seja voluntário na mediunidade.
Não aguarde o desenvolvimento mediúnico sistematicamente sentado à mesa das sessões. Procure a convivência dos Espíritos superiores, amparando os infelizes.
Seja voluntário na assistência social.
Não espere que lhe venham puxar o paletó, rogando auxílio. Busque os irmãos necessitados e ajude como puder.
Seja voluntário na propaganda libertadora.
Não aguarde riqueza para divulgar os princípios da fé. Dissemine, desde já, livros e publicações doutrinárias.
Seja voluntário na imprensa espírita.
Não espere de braços cruzados a cobrança da assinatura. Envie o seu concurso, ainda que modesto, dentro das suas possibilidades.
Sim meu amigo. Não se sinta realizado.
Cultive espontaneidade nas tarefas do bem.
“A sementeira é grande e os trabalhadores são poucos”.
Vivemos os tempos da renovação fundamental.
Atravessemos, portanto, em serviço o limiar da Era do Espírito!
Ressoam os clarins da convocação geral para as fileiras do Espiritismo.
Há mobilização de todos.
Cada qual pode servir a seu modo.
Aliste-se enquanto você se encontra válido.
Assuma iniciativa própria.
Apresente-se em alguma frente de atividade renovadora e sirva sem descansar.
Quase sempre, espírita sem serviço é alma a caminho de tenebrosos labirintos do Umbral.
Seja voluntário na seara de Jesus, Nosso mestre e Senhor!

O Redenção, Março de 2001.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

DEPOIS DA MORTE

Apenas dor no mundo inteiro eu via,
E tanto a vi, amarga e inconsolável,
Que num véu de tristeza impenetrável
Multiplicava as dores que eu sofria.

Se vislumbrava o riso da alegria
Fora dessa amargura inalterável
Esse prazer só era decifrável
Sob a ilusão da eterna fantasia.

Ao meu olhar de triste e de descrente,
Olhar de pensador amargurado,
Só existia a dor, ela somente.

O gozo era a mentira dum momento,
Os prazeres, o engano imaginado
Para aumentar a mágoa e o sofrimento.

II

Misantropo da ciência enganadora,
Trazia em mim o anseio irresistível
De conhecer o Deus indefinível,
Que era na dor, visão consoladora.

Não O via e, no entanto, em toda hora,
Nesse anelo cruciante e intraduzível,
Podia ver, sentindo o Incognoscível
E a sua onisciência criadora.

Mas a insídia do orgulho e da descrença
Guiava-me a existência desolada,
Recamada de dor profunda e intensa;

Pela voz da vaidade, então, eu cria
Achar na morte a escuridão do Nada,
Nas vastidões da terra úmida e fria.

III

Depois de extravagâncias de teoria,
No seio dessa ciência tão volúvel,
Sobre o problema trágico, insolúvel,
De ver o Deus de Amor, de quem descria,

Morri, reconhecendo, todavia,
Que a morte era um enigma solúvel,
Ela era o laço eterno e indissolúvel,
Que liga o Céu à Terra tão sombria!

E por estas regiões onde eu julgava
Habitar a inconsciência e a mesma treva
Que tanta vez os olhos me cegava,

Vim, gemendo, encontrar as luzes puras
Da verdade brilhante, que se eleva,
Iluminando todas as alturas.


Antero de Quental
Do livro Parnaso de Além-Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

DEPOIS DA MORTE

Apenas dor no mundo inteiro eu via,
E tanto a vi, amarga e inconsolável,
Que num véu de tristeza impenetrável
Multiplicava as dores que eu sofria.

Se vislumbrava o riso da alegria
Fora dessa amargura inalterável
Esse prazer só era decifrável
Sob a ilusão da eterna fantasia.

Ao meu olhar de triste e de descrente,
Olhar de pensador amargurado,
Só existia a dor, ela somente.

O gozo era a mentira dum momento,
Os prazeres, o engano imaginado
Para aumentar a mágoa e o sofrimento.

II

Misantropo da ciência enganadora,
Trazia em mim o anseio irresistível
De conhecer o Deus indefinível,
Que era na dor, visão consoladora.

Não O via e, no entanto, em toda hora,
Nesse anelo cruciante e intraduzível,
Podia ver, sentindo o Incognoscível
E a sua onisciência criadora.

Mas a insídia do orgulho e da descrença
Guiava-me a existência desolada,
Recamada de dor profunda e intensa;

Pela voz da vaidade, então, eu cria
Achar na morte a escuridão do Nada,
Nas vastidões da terra úmida e fria.

III

Depois de extravagâncias de teoria,
No seio dessa ciência tão volúvel,
Sobre o problema trágico, insolúvel,
De ver o Deus de Amor, de quem descria,

Morri, reconhecendo, todavia,
Que a morte era um enigma solúvel,
Ela era o laço eterno e indissolúvel,
Que liga o Céu à Terra tão sombria!

E por estas regiões onde eu julgava
Habitar a inconsciência e a mesma treva
Que tanta vez os olhos me cegava,

Vim, gemendo, encontrar as luzes puras
Da verdade brilhante, que se eleva,
Iluminando todas as alturas.


Antero de Quental
Do livro Parnaso de Além-Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

sábado, 18 de abril de 2009


18 de Abril de 1857, 152 anos de “O Livro dos Espíritos”
Lei natural, perfeita e estável, impera soberana em todos os fenômenos detectados ou não pela percepção humana. A ignorância das leis que regem os mecanismos causais de certos fenômenos levou homens a crerem no sobrenatural e a persistirem em interpretações incompatíveis com o avanço científico e cultural de nossa época.
O cristianismo nascente não foi plenamente compreendido e sofreu, com o passar do tempo, a inclusão de adereços estranhos que vararam os séculos, sombreando o sentimento religioso, inato no ser humano. O filósofo espírita Leon Denis assevera que a adoração de imagens, os cânticos, a crença no inferno e em satanás, são heranças pagãs incorporadas à doutrina cristã. Os dogmas, as penas eternas, o culto
exterior, as pompas cerimoniais e outras enxertias foram contaminando a mensagem de Jesus, que viu-se afastada da simplicidade, clareza e profundidade que lhe são próprias.
Na plenitude do século das luzes, num período de paradoxos entre a fé e a razão emergiu a nova doutrina a partir de 18 de abril de 1857, com o lançamento d’O Livro dos Espíritos.
O sábio pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail mergulhava na luz da espiritualidade maior para resplandecer no bom senso invulgar de Allan Kardec, pseudônimo com que se imortalizou na tarefa da codificação do Espiritismo.
Com a simplicidade característica das coisas verdadeiras, assentavam-se as bases da Ciência do Espírito derribando os preconceitos do academicismo materialista e abalando os alicerces do obscurantismo religioso: eliminam a visão reducionista acerca do Criador, viabilizam o entendimento do mundo espiritual e das relações dele com o mundo corporal; revelam que a evolução anímica é norma universal, que a reencarnação se insere no estágio temporal que experienciamos dentro do processo da evolução infinita. Descortinam as leis que regem os fenômenos mediúnicos; proclamam que a justiça misericordiosa do criador é incompatível com penas irremissíveis e condenações eternas; informam que o ser humano, dotado de livre-arbítrio a expandir-se à medida em que progride, constrói, com sua ação ou inação, o futuro individual e coletivo que o aguarda.
N’O Evangelho segundo Espiritismo, obra lançada em abril de 1864, o Espírito de Verdade afirma que “no Cristianismo se encontram todas as verdades, sendo de origem humana os erros que nele se enraizaram”.
A Doutrina Espírita é de origem divina. Foi escrita por ordem e mediante ditado de Espíritos superiores, para estabelecer os fundamentos de uma filosofia racional.
Os livros sagrados das antiqüíssimas religiões orientais contêm as regras que nortearem vidas através do tempo. O Antigo Testamento sintetiza o pensamento judaico sobre a religião monoteísta.
O Evangelho de Jesus encerra o mais valioso e belo código moral conhecido pelos homens, com base no Amor Soberano. “O Livro dos Espíritos” é uma nova síntese para os tempos atuais. Nele estão contidas verdades antiqüíssimas, sob nova roupagem, que fazem da Doutrina dos Espíritos a atualização de idéias e realidades que ao lado de revelações descortinam um Novo Mundo, o Mundo dos Espíritos.

SÍNTESE
Esse livro-síntese não é somente a rememoração de verdades antigas como a doutrina das vidas sucessivas, os mandamentos maiores da lei mosaica, relativos ao amor a Deus e ao próximo, e a todos os ensinos morais do Cristo resumidos nas leis de Amor, Justiça e Caridade. Descerra, também, realidades novas, que os homens não tinham condições de conhecer por si mesmo, e que os Espíritos mostraram como fazendo parte da ordem natural das coisas.
Allan Kardec, o sistematizador das revelações provindas do Mundo Espiritual Superior, ao organizar a obra básica da colocou em seu frontispício – “Filosofia Espiritualista – princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade – segundos os ensinos dados por Espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns”.
Neste livro básico, a Religião e a Ciência, em sentido lato, interpenetram-se e conciliam-se, já que não pode haver incompatibilidade na criação divina da qual ambas se originam.
A linguagem utilizada abordando difíceis e transcendentes questões, é simples e direta, ao alcance do homem comum.
A primeira edição de “O Livro dos Espíritos” continha 501 perguntas e respostas e a segunda, definitiva, publicada a 16 de março de 1860, da qual derivam as demais obras da Codificação Espírita contém 1 019 questões.

DESDOBRAMENTOS
Dessas diversas partes derivam-se e desdobram-se as demais obras da Codificação Espírita, “O Livro dos Médiuns”, “O Evangelho segundo o Espiritismo”, “O Céu e o Inferno” e “A Gênese”.
Observa-se que os princípios fundamentais da Doutrina permanecem íntegros e exatos após os 152 anos de seu surgimento. O progresso das ciências, apesar de dominadas pelo materialismo, caminha no sentido dos princípios espíritas. Como por exemplo na Física, com a concepção da matéria como energia concentrada. Daí à percepção da existência de diversos estados da matéria, como demonstra a Doutrina Espírita.
O caráter filosófico evidencia-se pela sua própria natureza e pelas matérias que trata, embora vazado em linguagem simples, mas não vulgar.
O caráter científico é ressaltado não como ciência do mundo, dominada pelo materialismo, mas como ciência do Espírito, com seu objeto e métodos próprios.

DEUS
O caráter religioso sobressai nítido ao tratar de Deus e seus atributos como o Criador do Universo, a Inteligência Suprema, o Deus que não é antropomórfico como Deus bíblico, nem panteísta, como nas religiões orientais.
O Deus do Espiritismo é o Pai, é Amor, Justiça e Bondade.
A religião dos Espíritos mostra a vida do Espírito, livre, no Mundo Espiritual, ou ligado a um corpo material, na Terra, buscando sempre a evolução anímica através das vidas sucessivas.
Toda moral espírita fundamenta-se nos ensinos do Cristo. Demonstrando a inconsistência e incongruência do materialismo.
Além dos aspectos filosóficos, científico e religioso da Doutrina, é inegável os
princípios éticos, morais, educacionais e sociológicos, que a caracterizam como doutrina de educação.
Terminada e revisada a obra, Allan Kardec escreveu a monumental Introdução, que a precede e apresenta, apreciando-a sob múltiplos ângulos e resumindo a doutrina dela decorrente. É nessa introdução que o Codificador cria os neologismos espírita, espiritista e Espiritismo para definir as coisas novas surgidas com o livro.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

EM HOMENAGEM A SÓROR JUANA INÉS DE LA CRUZ PENÚLTIMA ENCARNAÇÃO DE JOANNA DE ÂNGELIS


SÓROR JUANA INÉS DE LA CRUZ
Joanna renasce em 1651 na pequenina San Miguel Nepantla, a uns oitenta quilômetros da cidade do México, com o nome de Juana de Asbaje Y Ramirez de Santillana, filha de pai basco e mãe indígena. Após 3 anos de idade, fascinada pelas letras, ao ver sua irmã aprender a ler e escrever, engana a professora e diz-lhe que sua mãe mandara pedir-lhe que a alfabetizasse. A mestra, acostumada com a precocidade da criança, que já respondia às perguntas que a irmã ignorava, passa a ensinar-lhe as primeiras letras.
Começou a fazer versos aos 5 anos. Aos 6 anos, Juana dominava perfeitamente o idioma pátrio, além de possuir habilidades para costura e outros afazeres comuns às mulheres da época. Soube que existia no México uma Universidade e empolgou-se com a idéia de no futuro, poder aprender mais e mais entre os doutores. Em conversa com o pai, confidenciou suas perspectivas para o futuro. Dom Manuel, como um bom espanhol, riu-se e disse gracejando: - "Só se você se vestir de homem, porque lá só os rapazes ricos podem estudar." Juana ficou surpresa com a novidade, e logo correu à sua mãe solicitando insistentemente que a vestisse de homem desde já, pois não queria, em hipótese alguma, ficar fora da Universidade.
Na Capital, aos 12 anos, Juana aprendeu latim em 20 aulas, e português, sozinha. Além disso, falava nahuatl, uma língua indígena. O Marquês de Mancera, querendo criar uma corte brilhante, na tradição européia, convidou a menina-prodígio de 13 anos para dama de companhia de sua mulher. Na Corte encantou a todos com sua beleza, inteligência e graciosidade, tornando-se conhecida e admirada pelas suas poesias, seus ensaios e peças bem-humoradas. Um dia, o Vice-rei resolveu testar os conhecimentos da vivaz menina e reuniu 40 especialistas da Universidade do México para interrogá-la sobre os mais diversos assuntos. A platéia assistiu, pasmada, àquela jovem de 15 anos responder, durante horas, ao bombardeio das perguntas dos professores. E tanto a platéia como os próprios especialistas aplaudiram-na, ao final, ficando satisfeito o Vice-rei. Mas, a sua sede de saber era mais forte que a ilusão de prosseguir brilhando na Corte.
A fim de se dedicar mais aos seus estudos e penetrar com profundidade no seu mundo interior, numa busca incessante de união com o divino, ansiosa por compreender Deus através de sua criação, resolveu ingressar no Convento das Carmelitas Descalças, aos 16 anos de idade. Desacostumada com a rigidez ascética, adoeceu e retornou à Corte. Seguindo orientação de seu confessor, foi para a ordem de São Jerônimo da Conceição, que possuia menos obrigações religiosas, podendo ali dedicar-se às letras e à ciência.
Nasceu ali a Sóror Juana Inés de La Cruz, nome religioso adotado pela jovem prodigiosa. Em sua confortável cela, cercada por inúmeros livros, globos terrestres, instrumentos musicais e científicos, Juana estudava, escrevia seus poemas, ensaios, dramas, peças religiosas, cantos de Natal e música sacra. Era freqüentemente visitada por intelectuais europeus e do Novo Mundo, intercambiando conhecimentos e experiências. A linda monja era conhecida e admirada por todos, sendo os seus escritos popularizados não só entre os religiosos, como também entre os estudantes e mestres das Universidades de vários lugares. Era conhecida como a "Monja da Biblioteca". Se imortalizou também por defender o direito da mulher de ser inteligente, capaz de lecionar e pregar livremente.
Em 1695 houve uma epidemia de peste na região. Juana socorreu durante o dia e a noite as suas irmãs religiosas que, juntamente com a maioria da população, estavam enfermas. Foram morrendo, aos poucos, uma a uma das suas assistidas e quando não restava mais religiosas, ela, abatida e doente, tombou vencida, em 17.04.1695, aos 44 anos de idade.

EM HONRA DA LIBERDADE



"Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo o Cristo.” –Paulo. (COLOSSENSES, 2:8.)

Se alcançaste um raio de luz do Evangelho, avança na direção do Cristo, o Divino Libertador.
Não julgues seja fácil semelhante viagem do espírito.
Encontrarás, em caminho, variados apelos à indisciplina e à estagnação.
Serás surpreendido a cada passo pelos sofistas da Religião, pelos falsários da Filosofia, pelos paranóicos da Ciência e pelos dilapidadores da História, empavesados nas engenhosas criações mentais em que encarceram a própria vida, buscando atrelar-te o pensamento ao carro da argumentação filauciosa a que se acolchetam, famintos de louvor e da vassalagem.
Mutilando a revelação divina, desfigurando preceitos da verdade, abusando da inteligência ou fantasiando episódios furtados ao registro fiel do tempo, armam ciladas ou levantam castelos teóricos, em que a sugestão menos digna te inclina a existência à rebelião e ao pessimismo, à viciação e à inutilidade.
Atendendo, quase sempre, a interesses excusos, lisonjeiam-te a insipiência, incensando-te o nome, quando não se desmandam na vaidade, aliciando-te a decisão para que lhes engrosses o séqüito de loucura.
Acompanhando-os, porém, não te farás senão presa deles, fâmulo desditoso das idéias desequilibradas que emitem, no temerário propósito de se anteporem ao próprio Deus.
Querem escravos para os sistemas falaciosos que mentalizam, quando Jesus deseja te faças livre para a conquista da própria felicidade.
Acautela-te no trato com todos os que tudo te pedem, no campo da independência espiritual, limitando-te a capacidade de sentir e pensar, empreender e construir, porquanto, em nos fazendo tributários da falsa glória em que se encasulam, relegam-nos a existência a planos de subnível, quando o Cristo de Deus, tudo nos dando em amor e sabedoria, nos ampliou a emoção e o conhecimento, a iniciativa e o trabalho, convertendo-nos em filhos emancipados da Criação, para que tenhamos não apenas a vida, mas Vida Santificada e Abundante.
Emmanuel
Do livro Palavras de Vida Eterna. Psicografia de Francisco Candido Xavier.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ESTUPRO E ABORTO NA VISÃO ESPÍRITA


Em diversas oportunidades, quando fizemos palestra sobre reencarnação e aborto, fomos questionados posteriormente sobre a dolorosa e delicada circunstância do estupro. Principalmente, ao se propiciar perguntas nos serem dirigidas por escrito viabilizava-se este questionamento.Embora o tema seja potencialmente polêmico e desagradável, não há como ignorá-lo no contexto de nossa situação planetária.
A grande discussão que se levanta é a legitimidade, ou não, do aborto,quando a gravidez é conseqüente a um ato de violência física. Mais uma vez, nos posicionamos em relação ao aspecto legal da questão nos abstendo de maiores comentários no campo jurídico pois leis e constituições os povos já tiveram inúmeras e tantas outras terão. Nossa abordagem será pelo ângulo transcendental e reencarnacionista considerando que são três (3) espíritos, no mínimo, envolvidos na tragédia em questão.
Igualmente, quanto ao aspecto da ética médica, a qual estamos submetidos por força da profissão que nesta reencarnação exercemos, lembramos ser esta ética diferente em cada país do planeta.
Numa escala de zero a 10, teremos todas as notas, conforme a nação e o continente que nos reportarmos.
Inicialmente, cumpre-nos esclarecer que o livre arbítrio é o maior patrimônio que nós, espíritos humanos, temos alcançado ao atingirmos a faixa evolutiva pensante.
Livre arbítrio que não legitima atitudes, mas oportuniza às criaturas decidir e se responsabilizar pelas conseqüências de seus atos posteriores.
Outra premissa que deveremos estabelecer é aquela da maior ou menor repercussão dos atos perante a Lei Universal, em função do nível de esclarecimento que possuímos. Importante também salientar que não há atos perversos que tenham sido planejados pela espiritualidade superior. Seria de uma miopia intelectualsem limites, a idéia de que alguém deve reencarnar a fim de ser estuprado.
A concepção do Deus punitivo e vingativo já não cabe mais no dicionário dos esclarecidos sobre a vida espiritual. Deus é a fonte inesgotável de amor.
É a Lei maior que a tudo preside, uma lei de amor que coordena as leis da natureza.
Como conceber a violência física? como enquadrar a onipresença divina em situações e sofrimentos que observamos? Deus estaria ausente nestas circunstâncias? Ou estaria presente? Para muitos indivíduos se estivesse presente já seria motivo para não crer na sua existência ou na sua infinita bondade e onisciência.
Outra questão importante: Quem é a "vítima"? Cada um de nós ao reencarnar trouxe todo o seu passado impresso indelevelmente em si mesmo, são os núcleos energéticos que trazemos em nossoinconsciente construídos no passado.
Espíritos que somos e pelas inúmeras viagens que percorremos, representadas pelas inúmeras vidas, possuímos no nosso "passaporte" inúmeros "carimbos" das pousadas onde estagiamos em vidas anteriores. Hoje, a somatória destas experiências se traduzem em manancial energético que irradia constantemente do nosso interior para a superfície desta vida.
Assim, é também a "vítima. A jovem que hoje se apresenta de forma diferente, traz em seu passado profunda marcas de atitudes prejudiciais a irmãos seus. Atitudes de desequilíbrio que são gravadas em si mesma.
Algumas delas participaram intelectualmente de verdadeiras emboscadas visando atingir de maneira dolorosa a intimidade sexual de criaturas; outras foram executoras diretas, pela autoridade que eram investidas, de crimes nesta área. enfim, são múltiplas as situações geradoras da desarmonia energética que agora pulsa constantemente nos arquivos vibratórios da nossa personagem neste drama.
Pela Lei Universal, a sintonia de vibrações, poderá ocorrer em um dado momento dependendo da facilitação criada por atitudes mentais da personagem apresentou como surpresa desagradável para a agredida.
Como orientar a vítima? Identificados dois dos protagonistas (mãe e filho) falemos acerca da entidade reencarnante Em certas ocasiões, o ser que mergulha na carne nesta dolorosa circunstância é alguém que vibra na mesma faixa de desequilíbrio.
Um espírito que pelo ódio se imantava magneticamente à aura da jovem como que pedindo-lhe contas pelos sofrimentos causados por ela, se vê preso às malhas energéticas do organismo biológico que se forma. O processo obsessivo que vinha se desenvolvendo já o fixara perifericamente à trama perispiritual materna e agora passa a aderir definitivamente naquele organismo feminino.
Apesar do momento cruel, a Lei maior pode aproveitar para retirar o perseguidor desta situação adormecendo-o. Acordará, talvez, embalado pelos braços de sua antiga algoz que aprenderá a perdoar e até amar em função do sábio esquecimento do passado. Lembramos, novamente, não foi em hipótese alguma programado o estupro, nem ele em qualquer circunstância teria justificativa. No entanto o crime existindo, a espiritualidade sempre fará o máximo para do "mal" poder resultar algum bem.
Mas, muitas vezes, a gestante pressionada pelos vínculos familiares opta por interromper a gravidez indesejada.
Somos contrários a teatralidade daqueles que exibem recursos chocantes de fragmentos ensangüentados de bebês em formação, jogados nos baldes frio da indiferença humana. A falta de argumento e conhecimento espírita do processo que se desencadeia, é que faz lançar mão destes métodos agressivos de exposição.
A visão espiritual da situação dispensa estes recursos dos quais podem se servir outras correntes religiosas que desconhecem a preexistência da alma o mecanismo da reencarnação, etc.
O espírito submetido à violência do aborto sofre intensamente no processo, conforme o seu grau de maturidade espiritual. Perante a Lei divina sabemos que o espírito reencarnado não deve receber a agressão arbitrária em face da violência cometida por outro. Violência que gera violência, um ciclo triste que necessita ser rompido com um ato de amor a um entezinho que muitas vezes aspira por uma oportunidade de evolução em nova vida.
O aborto provocado gera muitas vezes profundos traumas em todos os envolvidos exacerbando a dolorosa situação cármica da constelação familiar. Ninguém é mãe ou filho de outrem por casualidade. Há, sempre, um mecanismo sábio da lei que visa corrigir ou atenuar sofrimentos.
Há, também, espíritos afins e benfeitores que, visando amparar a futura mãe, optam pelo reencarne na situação surgida. A vítima do estupro, poderá ter ao seu lado toda luz de alguém que poderá vir a ser o seu arrimo e consolo na velhice. Irmãos cheios de ternura em seu coração, com projetos de dedicação e amparo, aproveitam o momento criado pelo crime para auxiliar, diretamente, na vida material, dando todo seu trabalho afetivo para aquela que amam. Renascem como seu filho.
A eliminação da gravidez, através do aborto provocado, nestes casos, irá anular este laborioso auxílio que o espírito protetor lamentará ter perdido.
Pelo exposto, a interrupção da gestação mesmo decorrente de violência, é sempre uma atitude arbitrária que só ampliará o sofrimento dos familiares.
Se a jovem for emocionalmente incapaz de atender os requisitos da maternidade, a adoção, preferencialmente por pessoas de vínculos próximos, deverá ser o remédio por nós indicado. Se não houver possibilidades psiquicamente aceitáveis de recepção por parte de familiares, encaminhe-se os trâmites da adoção para quem receberá aquela criatura com o amor necessário ao seu processo redentor e educativo.
O tempo se encarregará de cicatrizar os ferimentos da alma.
Ricardo Di Bernardi

terça-feira, 14 de abril de 2009

O PACTO DE AMOR UNIVERSAL



Pede a evolução que você se faça veterano da experiência terrestre.
Não se amedronte diante do erro, mas não caminhe desprevenido.
A estrada humana conserva armadilhas, a cada passo, colhendo almas invigilantes, contudo, só na crosta planetária obterá você as conquistas que lhe melhorem o ser à luz da imortalidade.
Há espíritos que, por muitas vezes, partem da carne através da morte e à carne voltam através do berço, quais estátuas inermes que, depois de enterradas durante séculos, volvem ao exame de outrem, sem qualquer aspecto novo que lhes altere os esgares fixos.

Domine as próprias tendências inferiores que lhe pareçam insubjugáveis.
Você é soberanamente livre na intimidade do próprio espírito.
Apenas você decifrará enigmas que transporta na consciência.
Somente você distorcerá as meadas de sombra que lhe surjam no pensamento.

Não tente sufocar a sua sede de infinito, porém não se renda às ilusões da maioria.
Se a taça das espetaculares vitórias humanas quase sempre se destaca repleta de lágrimas alheias, a taça das legítimas vitórias do espírito transborda suor individual.

Você será sempre o principal sobrevivente de seus dias.
A sepultura é o nível das medidas terrenas, mas a vida é multiface, no Mais Além; à vista disso, na realidade substancial as suas atitudes e ações meritórias é que constituem a base de sua felicidade e a sua prédica irresistível.
Cale gemidos e suspiros frustrados, decidindo-se a realmente servir.
O amor puro é a síntese de todas as harmonias conhecidas.

A fraternidade é o pacto de Amor Universal entre todas as criaturas perante o Criador.
Nossa alegria somente viceja em conjunto com a alegria de muitos.
De que vale a alguém o título de herói numa tragédia? Onde o benefício de uma santidade que terá brilhado no deserto, sem ser útil a ninguém?

Com o Espiritismo nasceu na Terra a fé raciocinada.
Você, portanto, interiormente está livre para ajudar a você mesmo, consciente qual se encontra de que auxiliar com desinteresse aos outros é interpretar vivamente a filosofia do Cristo e consolidar a segurança do próprio bem.
André Luiz
Do Livro Ideal Espírita. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

domingo, 12 de abril de 2009

EM HOMENAGEM AOS 82 ANOS DO DESENCARNE DO MESTRE LÉON DENIS



Leon Denis
Léon Denis (lê-se: dení) nasceu numa aldeia chamada Foug, situada nos arredores de Tours, na França, em 1o de janeiro, de 1846, numa família humilde. Cedo conheceu, por necessidade, os trabalhos manuais e os pesados encargos da família. Desde os seus primeiros passos neste mundo, sentiu que os amigos invisíveis o auxiliavam. No lugar de participar em brincadeiras próprias da juventude, procurava instruir-se o mais possível. Lia obras sérias, conseguindo assim, com esforço próprio, desenvolver sua inteligência. Tomou-se um autodidata sério e competente.
Aos 18 anos, tomou-se representante comercial da empresa onde trabalhava, fato que o obrigava a viagens constantes, situação que se manteve até à sua reforma e manteve ainda depois por mais algum tempo. Adorava a música e sempre que podia assistia a uma ópera ou concerto. Gostava de dedilhar, ao piano, árias conhecidas e de tirar acordes para seu próprio devaneio. Não fumava, era quase exclusivamente vegetariano e não fazia uso de bebidas fermentadas. Encontrava na água a sua bebida ideal.
Era seu hábito olhar, com interesse, para os livros expostos nas livrarias. Um dia, ainda com 18 anos, o chamado acaso fez com que a sua atenção fosse despertada para uma obra de título inusitado. Esse livro era O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Dispondo do dinheiro necessário, comprou-o e, recolhendo-se imediatamente ao lar, entregou-se com avidez à leitura. O próprio Denis disse:
Nele encontrei a solução clara, completa e lógica, acerca do problema universal. A minha convicção tornou-se firme. A teoria espírita dissipou a minha indiferença e as minhas dúvidas.
O ano de 1882 marca, em realidade, o início do seu apostolado, durante o qual teve que enfrentar sucessivos obstáculos: o materialismo e o positivismo que olham para o Espiritismo com ironia e risadas e os crentes das demais correntes religiosas, que não hesitam em aliar-se aos ateus, para o ridicularizar e enfraquecer. Léon Denis, porém, como bom paladino, enfrenta a tempestade. Os companheiros invisíveis colocam-se ao seu lado para o encorajar e exortá-lo à luta. Coragem, amigo − diz-lhe o Espírito de Jeanne − estaremos sempre contigo para te sustentar e inspirar. Jamais estarás só. Meios ser-te-ão dados, em tempo, para bem cumprires a tua obra.
A 2 de novembro, de 1882, dia de Finados, um evento de capital importância produziu-se na sua vida: a manifestação, pela primeira vez, daquele Espírito que, durante meio século, havia de ser o seu guia, o seu melhor amigo, o seu pai espiritual − Jerônimo de Praga −, que lhe disse: Vai meu filho. Pela estrada aberta diante de ti. Caminharei atrás de ti para te sustentar.
A partir de 1910, a visão de Léon Denis foi, dia após dia, enfraquecendo. A operação a que se submetera, dois anos antes, não lhe proporcionara nenhuma melhora, mas suportava, com calma e resignação, a marcha implacável desse mal que o castigava desde a juventude. Aceitava tudo com estoicismo e resignação. Jamais o viram queixar-se. Todavia, é possível supor quão grande devia ser o seu sofrimento. Apesar disso, mantinha volumosa correspondência. Jamais se aborrecia; amava a juventude e possuía a alegria da alma. Era inimigo da tristeza. O mal físico, para ele, devia ser bem menor do que a angústia que experimentava pelo fato de não mais poder manejar a pena. Secretárias ocasionais substituíam-no nesse ofício. No entanto, a grande dificuldade para Denis, consistia em rever e corrigir as novas edições dos seus livros e dos seus escritos. Graças, porém, ao seu espírito de ordem e à sua incomparável memória, superava todos esses contratempos, sem molestar ou importunar os amigos.
Após a I Grande Guerra, aprendeu braille, o que lhe permitiu fixar no papel os elementos de capítulos ou artigos que lhe vinham ao Espírito, pois, nesta época da sua vida, estava, por assim dizer, quase cego.
Em março de 1927, com 81 anos de idade, terminara o manuscrito que intitulou de O Gênio Céltico e o Mundo Invisível. Neste mesmo mês, a Revue Spirite publicava o seu derradeiro artigo.
Terça-feira, 12 de Abril, de 1927, pelas 13 horas, respirava Denis com grande dificuldade. A pneumonia atacava-o novamente. A vida parecia abandoná-lo, mas o seu estado de lucidez era perfeito. As suas últimas palavras, pronunciadas com extraordinária calma, apesar da muita dificuldade, foram dirigidas à sua empregada Georgette: É preciso terminar, resumir e... concluir. Fazia alusão ao prefácio da nova edição biográfica de Kardec. Neste preciso momento, faltaram-lhe completamente as forças, para que pudesse articular outras palavras. Às 21h o seu Espírito alou-se. O seu semblante parecia ainda em êxtase.
As cerimônias fúnebres realizaram-se a 16 de abril. A seu pedido, o enterro foi modesto e sem o ofício de qualquer Igreja confessional. Está sepultado no cemitério de La Salle, em Tours.
Dentre os grandes apóstolos do Espiritismo, a figura exponencial de Léon Denis merece referência toda especial, principalmente em vista de ter sido o continuador lógico da obra de Allan Kardec. É possível afiançar mesmo que constitui tarefa sumamente difícil tentar biografar essa grande vida, dada a magnitude de sua missão terrena, na qual muito há para salientar: a sua personalidade contagiante, o bom senso de que era dotado, a operosidade no trabalho, a dedicação ímpar aos seus semelhantes e o depurado amor que devotava aos ideais que esposava.
Léon Denis foi o consolidador do Espiritismo. Não foi apenas o substituto e continuador de Allan Kardec, como geralmente se pensa. Denis tinha uma missão quase tão grandiosa quanto à do Codificador. Cabia-lhe desenvolver os estudos doutrinários, dar continuidade às pesquisas mediúnicas, impulsionar o movimento espírita na França e no Mundo, aprofundar o aspecto moral da Doutrina e, sobretudo, consolidá-la nas primeiras décadas do século. Nessa nova Bíblia ( o Espiritismo), o papel de Kardec é o sábio e o papel de Denis é o de filósofo. Léon Denis foi cognominado o Apóstolo do Espiritismo pela magnífica atuação desenvolvida, pela palavra escrita e falada, em favor da nova Doutrina. Ainda, foi o seu consolidador e, por isso, conhecido como o filósofo do Espiritismo. De acentuadas qualidades morais, dedicou toda uma longa vida à defesa dos postulados que Kardec transmitira nos livros do pentateuco espírita. O aspecto moral (religioso) da Doutrina, os princípios superiores da Vida, a instrução, a família, mereceram dele cuidados extremos e, por isso mesmo, sua vida de provações. Seu exemplo de trabalho, perseverança e fé, é um roteiro de luz para os espíritas, e mais, para os homens de bem de todos os tempos. Em palavras de confiança e fé, ele mesmo resumiu assim a missão que viera desempenharem favor de uma nobre causa: Consagrei esta existência ao serviço de uma grande causa, o Espiritismo ou Espiritualismo moderno, que será certamente a crença universal, a religião do futuro.
A sua bibliografia é bastante vasta e composta de obras monumentais que enriquecem as bibliotecas espíritas. Deve-se a ele a oportunidade ímpar que os espíritas tiveram de ver ampliados novos ângulos do aspecto filosófico da Doutrina Espírita, pois, as suas obras de um modo geral focalizam numerosos problemas que assolam os homens e também a sempre momentosa questão da sobrevivência da alma humana em seu laborioso processo evolutivo. Léon Denis imortalizou-se na gigantesca tarefa de dissecar problemas atinentes às aflições que acometem os seres encarnados, fornecendo valiosos subsídios no sentido de lançar novas luzes sobre a problemática das tribulações terrenas, deixou de lado os conceitos até então prevalecentes para apresentá-la aureolada de ensinamentos altamente consoladores, hauridos nas fontes inesgotáveis da Doutrina dos Espíritos.
Dedicando-se ao estudo aprofundado do Espiritismo, em seu tríplice aspecto de ciência, filosofia e religião, demorou-se com maior persistência na abordagem do seu aspecto filosófico. Concomitantemente com os seus profundos estudos nesse campo, também deu a sua contribuição, valiosa na abordagem e no estudo de assuntos históricos, fornecendo importantes subsídios no sentido de esclarecer as origens celtas da França e no tocante ao dramático episódio do martírio de Joana D'Arc, a grande médium francesa. Seus estudos não pararam aí; ele preocupou-se sobremaneira com as origens do Cristianismo e o seu processo evolutivo através dos tempos.
Dentre as suas múltiplas ocupações, foi presidente de honra da União Espírita Francesa, membro honorário da Federação Espírita Internacional, presidente do Congresso Espírita Internacional, realizado em Paris, no ano de 1925. Teve também a oportunidade de dirigir, durante longos anos, um grupo experimental de Espiritismo, na cidade francesa de Tours.
A sua atuação no seio do Espiritismo foi bastante diversa daquela desenvolvida por Allan Kardec. Enquanto o Codificador exerceu suas nobilitantes atividades na própria capital francesa, Léon Denis desempenhou a sua dignificante tarefa na província. A sua inusitada capacidade intelectual e o descortino que tinha das coisas transcendentais, fizeram com que o movimento espírita francês, e mesmo mundial, gravitasse em torno da cidade de Tours. Após a desencarnação de Allan Kardec, essa cidade tornou-se o ponto de convergência de todos os que desejavam tomar contato com o Espiritismo, recebendo as luzes do conhecimento, pois, inegavelmente, a plêiade de Espíritos que tinha por incumbência o êxito de processo de revelação do Espiritismo, levou ao grande apóstolo toda a sustentação necessária a fim de que a nova doutrina se firmasse de forma ampla e irrestrita.
Enquanto Kardec se destacou como uma personalidade de formação universitária, que firmou seu nome nas letras e nas ciências, antes de se dedicar às pesquisas espíritas e codificar o Espiritismo, Léon Denis foi um autodidata que se preparou em silêncio, na obscuridade e na pobreza material, para surgir subitamente no cenário intelectual e impor-se com conferencista o escritor de renome, tornando-se figura exponencial no campo da divulgação doutrinária do Espiritismo. Denis possuía uma inteligência robusta, era um Espírito ilustre, grande orador e escritor, desfrutando de apreciável grau de intuição. Referindo-se a ele, escreveu o seu contemporâneo Gabriel Gobron: Ele conheceu verdadeiros triunfos e aqueles que tiveram a rara felicidade de ouvi-lo falar a uma assistência de duas ou três mil pessoas, sabem perfeitamente quão encantadora e convincente era a sua oratória.
Denis jamais cursou uma academia oficial, entretanto, formou-se na escola prática da vida, na qual a dor própria e alheia, o trabalho mal retribuído, as privações heróicas ensinam a verdadeira sabedoria, por isso dizia sempre: Os que não conhecem dessas lições, ignoram sempre um dos mais comovedores lados da vida. Com o concurso de sua inteligência invulgar furtar-se-ia à pobreza, mas ele preferiu viver nela, pois em sua opinião era difícil acumular egoisticamente para si, aquilo que ele recebia para repartir com os seus semelhantes.
Com idade bastante avançada, cego e com uma constituição física relativamente fraca, vivia ainda cheio de tribulações. Nada disso, entretanto, mudava o seu modo de proceder. Apesar de todas essas condições adversas, a todos ele recebia obsequioso. Desde as primeiras horas da manhã ditava volumosa correspondência, respondendo aos apelos das inúmeras sociedades que fundara ou de que era presidente honorário. Onde quer que comparecesse, ali davam-lhe sempre o lugar de maior destaque, lugar conquistado ao preço de profunda dedicação, perseverança e incansável operosidade no bem.

sábado, 11 de abril de 2009

EM HOMENAGEM AOS 109 ANOS DO DESENCARNE DE ADOLFO BEZERRA DE MENEZES CAVALCANTI


Bondade e Renúncia

A companheira do abnegado médico já havia combinado com o amigo Cordeiro para cobrar aos que pudessem pagar à razão de cinco mil réis por consulente. O dinheiro não passaria pelas mãos de Bezerra e deveria ser encaminhado a D. Cândida. Bezerra sabia disto e concordou desde que recebesse apenas dos que estivessem em condições de pagar...
Certa vez, penetra no seu consultório da Farmácia Cordeiro uma pobre mulher com uma criança ao colo. Sentou-se e apresentou-lhe o filhinho para exame.
O aspecto da pobre mulher como o da criança traduzia miséria e fome.
Bezerra atendeu à criança. Sentiu-lhe o físico em mísero estado. E receitou, aconselhando à mão sofredora:
- Minha filha, dê a seu filho estes remédios de hora em hora. São remédios homeopáticos e, se desejar, pode comprá-los aqui mesmo...
- Comprá-los, doutor, com quê, se não tenho comigo nenhum níquel! Se eu e meu filho estamos até agora em jejum...
O bondoso médico olhou para a mãe sofredora. Seus olhos mansos e verdes, refletindo compaixão, encheram-se de pranto.
Ambos choravam!
O ambiente deveria ser tocante e vestido de luz e amor!
Abraçando-a, disse-lhe Bezerra: Não se apoquente, minha filha, vou ajudá-la. Confiemos no amor da Virgem, que vela por todos nós.
Procurou nos bolsos das calças e do paletó algum dinheiro e nada encontrou.
Pôs-se a pensar, olhando para cima, como se fizesse uma Prece muda e sentida.
De repente, fazendo-a sentar-se, sai e procura seu amigo Cordeiro, também manso e bom.
- Cordeiro, prometi-lhe não mexer no dinheiro das consultas, a fim de que você o encaminhe diretamente à minha esposa. Mas o caso de hoje é doloroso... Já rendeu alguma coisa?
- Nada, porque os doentes, até agora, são pobres e como sua ordem é para receber apenas dos que podem pagar...
- E o resultado de ontem, já o entregou?
- Não, está ainda comigo.
- Dê-me, então, este dinheiro e esperemos na proteção da Virgem, que há de nos mandar algum, mais tarde.
Cordeiro lhe atendeu. Bezerra penetra o consultório.
E, dirigindo-se à infeliz irmã em provas:
- Tome, minha filha, este envelope. Com o dinheiro que está aí, compre remédios, também leite e alimentos para seu filho.
A pobre mãe, de olhos surpresos, lacrimosos, lábios trêmulos, tartamudeia e nada pode dizer para lhe agradecer. Chora...
E Bezerra, abraçando-a:
- Nada de lágrimas, vamos, vá na santa Paz de Deus e que a Virgem a proteja e o seu filhinho. Ele há de ficar bom...
Assim atendida, a sofredora mãe deixa o consultório.
E, quando volta, da porta, para agradecer, ouve apenas a voz mansa e boa de Bezerra:
- Entre aquele que estiver em primeiro lugar.
Lindos Casos de Bezerra de Menezes

sexta-feira, 10 de abril de 2009

VISÃO ESPÍRITA DA PÁSCOA


Eis-nos, uma vez mais, às vésperas de mais uma Páscoa. Nosso pensamento e nossa emoção, ambos cristãos, manifestam nossa sensibilidade psíquica. Deixando de lado o apelo comercial da data, e o caráter de festividade familiar, a exemplo do Natal, nossa atenção e consciência espíritas requerem uma explicação plausível do significado da data e de sua representação perante o contexto filosófico-científico-moral da Doutrina Espírita.
Deve-se comemorar a Páscoa? Que tipo de celebração, evento ou homenagem é permitida nas instituições espíritas? Como o Espiritismo visualiza o acontecimento da paixão, crucificação, morte e ressurreição de Jesus? Em linhas gerais, as instituições espíritas não celebram a Páscoa, nem programam situações específicas para “marcar” a data, como fazem as demais religiões ou filosofias “cristãs”. Todavia, o sentimento de religiosidade que é particular de cada ser-Espírito, é, pela Doutrina Espírita, respeitado, de modo que qualquer manifestação pessoal ou, mesmo, coletiva, acerca da Páscoa não é proibida, nem desaconselhada.
O certo é que a figura de Jesus assume posição privilegiada no contexto espírita, dizendo-se, inclusive, que a moral de Jesus serve de base para a moral do Espiritismo. Assim, como as pessoas, via de regra, são lembradas, em nossa cultura, pelo que fizeram e reverenciadas nas datas principais de sua existência corpórea (nascimento e morte), é absolutamente comum e verdadeiro lembrarmo-nos das pessoas que nos são caras ou importantes nestas datas. Não há, francamente, nenhum mal nisso. Mas, como o Espiritismo não tem dogmas, sacramentos, rituais ou liturgias, a forma de encarar a Páscoa (ou a Natividade) de Jesus, assume uma conotação bastante peculiar. Antes de mencionarmos a significação espírita da Páscoa, faz-se necessário buscar, no tempo, na História da Humanidade, as referências ao acontecimento.
A Páscoa, primeiramente, não é, de maneira inicial, relacionada ao martírio e sacrifício de Jesus. Veja-se, por exemplo, no Evangelho de Lucas (cap. 22, versículos 15 e 16), a menção, do próprio Cristo, ao evento: “Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes da minha paixão. Porque vos declaro que não tornarei a comer, até que ela se cumpra no Reino de Deus.” Evidente, aí, a referência de que a Páscoa já era uma “comemoração”, na época de Jesus, uma festa cultural e, portanto, o que fez a Igreja foi “aproveitar-se” do sentido da festa, para adaptá-la, dando-lhe um novo significado, associando-o à “imolação” de Jesus, no pós-julgamento, na execução da sentença de Pilatos.
Historicamente, a Páscoa é a junção de duas festividades muito antigas, comuns entre os povos primitivos, e alimentada pelos judeus, à época de Jesus. Fala-se do “pesah”, uma dança cultural, representando a vida dos povos nômades, numa fase em que a vinculação à terra (com a noção de propriedade) ainda não era flagrante. Também estava associada à “festa dos ázimos”, uma homenagem que os agricultores sedentários faziam às divindades, em razão do início da época da colheita do trigo, agradecendo aos Céus, pela fartura da produção agrícola, da qual saciavam a fome de suas famílias, e propiciavam as trocas nos mercados da época. Ambas eram comemoradas no mês de abril (nisan) e, a partir do evento bíblico denominado “êxodo” (fuga do povo hebreu do Egito), em torno de 1441 a.C., passaram a ser reverenciadas juntas. É esta a Páscoa que o Cristo desejou comemorar junto dos seus mais caros, por ocasião da última ceia. Logo após a celebração, foram todos para o Getsêmani, onde os discípulos invigilantes adormeceram, tendo sido o palco do beijo da traição e da prisão do Nazareno.
Mas há outros elementos “evangélicos” que marcam a Páscoa. Isto porque as vinculações religiosas apontam para a quinta e a sexta-feira santas, o sábado de aleluia e o domingo de páscoa. Os primeiros relacionam-se ao “martírio”, ao sofrimento de Jesus – tão bem retratado neste último filme hollyodiano (A Paixão de Cristo, segundo Mel Gibson) –, e os últimos, à ressurreição e a ascensão de Jesus. No que concerne à ressurreição, podemos dizer que a interpretação tradicional aponta para a possibilidade da mantença da estrutura corporal do Cristo, no post-mortem, situação totalmente rechaçada pela ciência, em virtude do apodrecimento e deterioração do envoltório físico. As Igrejas cristãs insistem na hipótese do Cristo ter “subido aos Céus” em corpo e alma, e fará o mesmo em relação a todos os “eleitos” no chamado “juízo final”. Isto é, pessoas que morreram, pelos séculos afora, cujos corpos já foram decompostos e reaproveitados pela terra, ressurgirão, perfeitos, reconstituindo as estruturas orgânicas, do dia do julgamento, onde o Cristo, separá justos e ímpios.
A lógica e o bom-senso espíritas abominam tal teoria, pela impossibilidade física e pela injustiça moral. Afinal, com a lei dos renascimentos, estabelece-se um critério mais justo para aferir a “competência” ou a “qualificação” de todos os Espíritos. Com “tantas oportunidades quanto sejam necessárias”, no “nascer de novo”, é possível a todos progredirem. Mas, como explicar, então as “aparições” de Jesus, nos quarenta dias póstumos, mencionadas pelos religiosos na alusão à Páscoa? A fenomenologia espírita (mediúnica) aponta para as manifestações psíquicas descritas como mediunidades. Em algumas ocasiões, como a conversa com Maria de Magdala, que havia ido até o sepulcro para depositar algumas flores e orar, perguntando a Jesus – como se fosse o jardineiro – após ver a lápide removida, “para onde levaram o corpo do Raboni”, podemos estar diante da “materialização”, isto é, a utilização de fluido ectoplásmico – de seres encarnados – para possibilitar que o Espírito seja visto (por todos). Igual circunstância se dá, também, no colóquio de Tomé com os demais discípulos, que já haviam “visto” Jesus, de que ele só acreditaria, se “colocasse as mãos nas chagas do Cristo”.E isto, em verdade, pelos relatos bíblicos, acontece. Noutras situações, estamos diante de uma outra manifestação psíquica conhecida, a mediunidade de vidência, quando, pelo uso de faculdades mediúnicas, alguém pode ver os Espíritos.
A Páscoa, em verdade, pela interpretação das religiões e seitas tradicionais, acha-se envolta num preocupante e negativo contexto de culpa. Afinal, acredita-se que Jesus teria padecido em razão dos “nossos” pecados, numa alusão descabida de que todo o sofrimento de Jesus teria sido realizado para “nos salvar”, dos nossos próprios erros, ou dos erros cometidos por nossos ancestrais, em especial, os “bíblicos” Adão e Eva, no Paraíso. A presença do “cordeiro imolado”, que cumpre as profecias do Antigo Testamento, quanto à perseguição e violência contra o “filho de Deus”, está flagrantemente aposta em todas as igrejas, nos crucifixos e nos quadros que relatam – em cores vivas – as fases da via sacra. Esta tradição judaico-cristã da “culpa” é a grande diferença entre a Páscoa tradicional e a Páscoa espírita, se é que esta última existe. Em verdade, nós espíritas devemos reconhecer a data da Páscoa como a grande – e última lição – de Jesus, que vence as iniqüidades, que retorna triunfante, que prossegue sua cátedra pedagógica, para asseverar que “permaneceria eternamente conosco”, na direção bussolar de nossos passos, doravante.
Nestes dias de festas materiais e/ou lembranças do sofrimento do Rabi, possamos nós encarar a Páscoa como o momento de transformação, a Vera evocação de liberdade, pois, uma vez despojado do envoltório corporal, pôde Jesus retornar ao Plano Espiritual para, de lá, continuar “coordenando” o processo depurativo de nosso orbe. Longe da remissão da celebração de uma festa pastoral ou agrícola, ou da libertação de um povo oprimido, ou da ressurreição de Jesus, possa ela ser encarada por nós, espíritas, como a vitória real da vida sobre a morte, pela certeza da imortalidade e da reencarnação, porque a vida, em essência, só pode ser conceituada como o amor, calcado nos grandes exemplos da própria existência de Jesus, de amor ao próximo e de valorização da própria vida.
Nesta Páscoa, assim, quando estiveres junto aos teus mais caros, lembra-te de reverenciar os belos exemplos de Jesus, que o imortalizam e que nos guiam para, um dia, também estarmos na condição experimentada por ele, qual seja a de “sermos deuses”, “fazendo brilhar a nossa luz”. Comemore, então, meu amigo, uma “outra” Páscoa. A sua Páscoa, a da sua transformação, rumo a uma vida plena.
Marcelo Henrique
Diretor de Política e Metodologias de Comunicação, da Abrade (Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo) e Delegado da CEPA (Confederação Espírita Pan-Americana) para a Grande Florianópolis-SC.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

ONDE ESTÁ DEUS?

Oito e dez anos, dois irmãos "do barulho".
Qualquer confusão na pequena cidade invariavelmente envolvia os pirralhos.
A mãe, preocupada com o futuro dos encapetados rebentos, pediu ajuda ao pároco. O sacerdote recomendou que os levassem à igreja separadamente.
Primeiro o mais novo.
Fê-lo sentar-se na sacristia, sozinho, diante dele.
Tratou logo de intimidá-lo, trovejando:
- Onde está Deus?!
Encolhido na cadeira, o garoto o contemplava pasmo, olhos esbugálhados, boca escancarada, mãos trêmulas...
- Onde está Deus?!
Ante seu mutismo, o padre ergueu ainda mais a voz, e, dedo em riste, bradou, tonitruante:
- Onde está Deus?!
Pondo-se a gritar, apavorado o menino fugiu em desabalada carreira. Direto para casa. Escondeu-se no armário em seu quarto.
Quando o irmão mais velho o encontrou, pálido e agitado, perguntou o que acontecera.
O pobre, tentando recuperar o fôlego, gaguejou:
- Cara, desta vez estamos mesmo encrencados. Deus sumiu! O padre acha que a culpa é nossa!
Essa história evoca um problema atual.
O sumiço de Deus.
Bem sabemos que é impossível.
Cérebro criador, consciência cósmica do Universo, o Criador está sempre presente, aqui, além, acolá, dentro de nós mesmos...
O que anda sumida é a consciência de Sua presença imanente, o Senhor Supremo que tudo vê; que exercita infalível justiça, premiando os bons e corrigindo os maus.
As pessoas não duvidam de Sua existência, mas pensam e agem como se Deus estivesse de férias.
Crimes, roubos, vícios, mentiras, maldades, grandes e pequenos deslizes, em relação às leis divinas, são cometidos, incessantemente, sem que os autores se dêem conta de que estão sendo observados pelo Criador.
Daí a força do mal no mundo, embora sob controle do Supremo Bem.
Haverá substanciais mudanças no comportamento humano quando esse "sumiço" for resolvido.
Podemos fazer um teste em relação ao assunto.
Sugiro, leitor amigo, que durante todo um dia desenvolva suas atividades atento à presença divina.
Como agirá, considerando que Deus tudo vê, ante impulsos assim:
a.. pronunciar palavrões,
b.. alimentar devaneio lascivo,
c.. dizer mentira de conveniência,
d.. guardar inatividade indolente,
e.. revidar ofensas,
f.. pronunciar crítica ferina,
g.. divulgar fofocas,
h.. satisfazer vícios.
Não se trata apenas de ate: ao juiz que julga nossas ações. Há algo mais importante. Vejamos na presença divina:
a.. alento nas dificuldades,
b.. apoio nas lutas,
c.. consolo nas dores,
d.. solução de problemas,
e.. convite ao Bem.
Tirando Deus do ostracismo trazendo o Senhor para o nosso cotidiano, seremos mais comedidos, mais disciplinados, mais fortes, mais inspirados.
Então, amigo leitor, e o sumiço de Deus?
Richard Simonetti
Revista "Visão Espírita"

terça-feira, 7 de abril de 2009

VARIAÇÕES SOBRE MOMENTOSO TEMA DOUTRINÁRIO: A PENA DE MORTE


A pena de morte constitui momentoso tema doutrinário. Momentoso porque, além de grave e delicado, presentemente está incluído, para ampla discussão, na ordem do dia da problemática nacional. Doutrinário porque é especificamente abordado na Parte 3ê, Capítulo VI, de "O Livro dos Espíritos", onde, na Questão 760, somos informados de que tal castigo desaparecerá da face da Terra, e sua supressão assinalará um progresso da Humanidade.
Na atualidade política temos a pena de morte como objeto de caloroso debate público, apesar de se achar expressamente proibida pela Constituição Federal qualquer iniciativa objetivando o seu retomo à legislação vigente.
A imprensa, e sobretudo a mídia eletrônica, detentora de enorme poder sugestivo perante as massas populares, encarregaram-se nos derradeiros tempos de manter em foco o assunto que lhes é muito rendoso para faturamento de prestigio. Assim, eis agitado, na pauta de uma controvérsia perigosa, aquilo que se pode chamar de assassinato legal.
Sobre ele surgem pontos de vista dispares e contraditórios, ponderados e contundentes, provindos de todos os tipos de pessoas, o homem de rua e a autoridade governamental, o jovem imaturo e o provecto professor universitário, com o que são esquecidos os verdadeiros e magnos dramas do Pais: os bolsões de miséria, fontes primaciais geradoras da criminalidade, os desacertos e descontroles da Economia, o desentrosamento e a mediocridade dos esquemas administrativos, os resquícios de velhos processos de corrupção, os defeitos do sistema tributário, e outras coisas mais de permeio com a degradação dos costumes.
Nesse clima, enquanto apologistas da pena de morte propalam, exultantes, ter-se tornado a maioria da população brasileira favorável a ela, importa a n6s, espíritas, não cruzar os braços. Principalmente os jornais, revistas e outros órgãos de divulgação pertencentes ao nosso movimento ideológico devem tratar do assunto de maneira coerente e positiva, defendendo os princípios kardequianos, centrados no amor que o Evangelho inspira Para tanto, independentemente de escritos diversos, e explanações orais, de conteúdo estritamente doutrinário, sempre úteis e oportunos, convém utilizarmos ainda arrazoados e argumentos 1ógicos lastreados na cultura geral, e no exercício dialético da crítica construtiva, capazes de convencer seguidores das diversas filosofias, ou de filosofia nenhuma, indecisos sobre o meio de estancar, ou pelo menos reduzir, a ascendente escalada de crimes frios, cruéis e hediondos que vem traumatizando a sociedade.
Afinal, a possibilidade de um plebiscito para decidir sobre a implantação da pena de morte entre nós existe, a despeito do que estabelece a Constituição da República, porque esta pode ser reformada. E somente um trabalho de esclarecimento da opinião pública, em tal eventualidade, pode evitar que votos passionais caiam nas urnas, consagrando uma iniqüidade.
A seguir alinhamos as reflexões centrais que, em torno do tema, publicamos nesta mesma revista há mais de trinta anos (REFORMADOR de dezembro de 1959), ao lado de outras que recentemente expusemos ao representar a União Espirita Paraense em debate aberto à comunidade. do qual participou um deputado partidário da pena capital. Sem pretender que sejam pensamentos brilhantes, pois não somos jurista e nem sequer advogado, supomos que talvez sirvam como subsidio aos confrades menos versados na matéria, desejosos de se pronunciar sobre ela. Vejamos as referidas idéias, articulando-as com as seguintes premissas abonadoras da pena de morte:

1. Todo crime pede punição proporcional, compatível com a sua natureza.
— É a "pena de Talião ", olho por olho, dente por dente . Trata-se de una tese de tamanho primarismo que até dispensa comentário inteligente, porquanto não leva em conta fatores e circunstancias atenuantes do delito.

2. Se qualquer Código Penal reconhece ao cidadão o direito de matar em legitima defesa, o Estado, que vale mais que o indivíduo porque é a soma substancial de todos os indivíduos, igualmente tem o direito de matar em defesa da sociedade.
—Puro sofisma, pois que escamoteia um dado relevante da equação. Todo Código Penal reconhece o direito de alguém matar em legitima defesa apenas quando não disponha de outra alternativa. de outro recurso para se proteger. Como o Estado possui numerosos outros meios de proteger a sociedade, não tem o direito de matar alegando legitima defesa.

3. Que exemplo se poderia dar desses meios, sem recorrer às mutilações físicas, como cortar as mãos de quem rouba, castrar delinqüentes sexuais, etc.
—Prisão perpétua, que já é uma pena até demasiadamente rigorosa, se cumprida integralmente.

4. A eliminação sumária do criminoso irrecuperável tem efeitos profiláticos, como advertência aos maus.
—Primeiro, é impossível determinar, cientificamente, que o pior criminoso seja irrecuperável, a menos que sofra de anomalia psíquica incurável, e nesse caso deixa de ser criminoso ganhando a condição de enfermo, pelo que a própria justiça prescreve a sua internação em asilo psiquiátrico, e não o seu extermínio. Segundo, as estatísticas desmentem o pressuposto de que a pena de morte diminui satisfatoriamente a taxa, ou índice, da criminalidade de categoria cruel, hedionda. Embora seja difícil de aceitar isso, o fato torna-se admissível quando se tem em vista que os delinqüentes passíveis de pena capital são pessoas que agem fora dos padrões de perfeita normalidade, sendo portanto insensíveis aos apelos dirigidos para a racionalidade.

5. O Estado precisa ser enérgico e implacável com sua justiça em beneficio da coletividade.
—Sim, mas em vão tentará coibir a criminalidade destruindo o agente e não as causas do crime.

6. Pelo menos pune exemplarmente quem merece ser punido.
—As vezes pune inocentes, o que é a mais condenável de todas as crueldades. Ninguém ignora os também hediondos erros judiciários comprovados posteriormente à aplicação da pena de morte, nos Países onde ela existe ou existiu, incluído entre eles o nosso. Aliás, mesmo quando o réu executado é culpado, a pena capital não pune exclusivamente a ele e sim, conjuntamente, considerável parcela da população, que acompanha o lento e torturante processo do seu extermínio em agudo desconforto sentimental.

7. Um indivíduo que cometeiria friamente um crime cruel, hediondo, não é só um delinqüente legal, é uma criatura moralmente falida. Logo, parece licito o Estado dar-lhe fim.
—Acontece que, sob o angulo da ética, tal licitude não se sustenta porque antes de o indivíduo falir, quem faliu foi o Estado, uma vez que foi incapaz tanto de educá-lo quanto de impedir seu ato criminoso.

8. E por que o Estado não pode matar ilicitamente se ele significa mais que o indivíduo e este também matou ilicitamente?
—Porque um erro não se corrige com outro erro, e porque o Estado, tendo mais poder que o indivíduo, consequentemente tem mais responsabilidade e menos direito de infringir a norma da justiça.
9. O Estado não é soberano diante dos indivíduos?
— Não, o Estado é soberano diante de outros Estados. Abstraindo-se a questão da existência de DEUS, único Senhor da Vida, com a qual o Estado moderno não se compromete, somente a Natureza é soberana para o indivíduo. A existência do ser humano constitui um bem indisponível para o Estado, pela simples razão de que, não podendo criar a vida, ele não tem o direito de destrui-la
10. Mesmo que, teoricamente, G implantação da pena de morte no Brasil seja uma medida injustificável, o que prova que o Poder Judiciário, na atual situação por que passa a sociedade, não saberia administrá-la correta e utilmente?
—O fato de que até hoje ele não fez isso com penas menores e mais facilmente administráveis.
11. Mas não é democrático o Estado consultar o povo sobre a pena de morte e institui-la se a maioria dos cidadãos quiserem ?
—Depende daquilo que se compreende por Democracia O regime democrático não é apenas aquele em que prevalece a vontade da maioria: é sobretudo aquele em que se respeitam os direitos fundamentais do ser humano, dos quais às vezes a minoria esclarecida tem mais nítida consciência.

12. E um plebiscito não é um instrumento válido de governo democrático?
—Unicamente quando os integrantes da sociedade se encontram em equilíbrio emotivo para apreciar judiciosamente a questão que lhe é proposta, meditando sobre ela com lucidez e prudência.
Não podemos esquecer o exemplo daquele governante romano em cidade estrangeira, que realizou um plebiscito supostamente democrático para sentenciar o destino de um operário de trinta e poucos anos, e com isso o entregou à pena de morte...
Nome do governante: Pôncio Pilatos.
Nome do operário, um carpinteiro: Jesus, também chamado o Cristo!

13. E qual então é o papel do governante, aliás de todo político, que aspira, autenticamente, a ser um líder democrático?
— Segundo a célebre Experiência de Yowa, efetuada em 1939 nos Estados Unidos da América do Norte, a liderança genuinamente democrática se distingue da liderança liberal porque nela o líder não se limita a encampar passivamente o que a maioria dos liderados reivindica em determinados momentos—o líder democrático não só exprime, como também imprime, isto é, não somente representa o grupo social como igualmente o influencia, orientando-o, a fim de que saiba escolher os melhores caminhos. Por ter suficiente honestidade para não silenciar sobre isto foi que, cento e vinte anos antes da famosa experiência de Yowa, Allan Kardec falou sobre a importância de uma aristocracia intelecto-moral, indispensável elemento de apoio para a edificação da verdadeira Democracia, aquela que promove o bem geral do povo em todos os sentidos, inclusive em sentido espiritual, pois o homem não é apenas uma unidade sócio-econômica, é um ser eterno que transcende a contextualidade histórica, onde se esgotam castigos da filosofia materialista como a pena de morte.

14. O que se está pleiteando para o Brasil é a pena de morte tão somente para os crimes bárbaros.
—E o que garante, aberto o precedente, que a pena de morte não será estendida para outros crimes, até mesmo os políticos?

15. Se a sua filha fosse violentada e estrangulada você seria contra a pena de morte?
—E se o criminoso fosse seu filho, você seria a favor?
16. Quem é a favor da pena de morte no fundo é a favor da vida porque deseja impedir que o criminoso continue matando.
—Esta é uma frase de efeito que mascara intenção de ódio ou revolta intima, revestindo-a de aparente humanitarismo, pois a prisão perpétua impede o criminoso de prosseguir matando.

17. Você, que é incapaz de cometer um crime bárbaro, sujeito à pena de morte, pode votar tranqüilamente nela.
—Não se fie muito nisso. O inventor da guilhotina foi guilhotinado...

18. Finalmente, a esta altura dos acontecimentos, com o alarmante aumento da criminalidade hedionda na sociedade brasileira, o que de melhor pode fazer o Governo, senão instituir democraticamente a pena de morte, através de um plebiscito ?
—Consulte os cidadãos competentes sobre o assunto, aqueles que estudam e praticam, com plenos conhecimentos técnico-profissionais, a Ciência do Direito. Quando necessita instituir novas leis para equacionar problemas de saúde, de economia, de educação, etc., não consulta o Governo os especialistas das respectivas áreas?
É público e notório que entre os cultores da Ciência do Direito qualquer proposta para a legalização da pena de morte (que, infelizmente, de forma extralegal, indireta e direta, já é praticada entre nós) será fragorosamente derrotada. E por quê? Porque eles sabem que a função de vindita da pena é um absurdo, e que as duas únicas outras funções que ela tem, segundo a doutrina clássica do Direito, não existem no caso da pena de morte: a função intimidativo-preventiva não existe pelo motivo já citado (as estatísticas comprovam que a taxa, ou índice, de criminalidade não diminui satisfatoriamente com a pena de morte) e a função recuperativo-regenerativa não existe por razões óbvias.
Não há dúvida de que ora nos defrontarnos com o perturbador problema social dos crimes hediondos, exigindo providências imediatas, urgentes. Deploravelmente, como disse alguém, para todo problema difícil há uma solução fácil: a solução errada... É o caso da pena de morte, para nós, espiritas, uma grande mentira, no mínimo uma desastrosa ilusão, pois sabemos que ela s6 faz libertar o criminoso da vestimenta carnal, ensejando-lhe uma atuação mais nociva junto à sociedade.
Lamentamos que os homens responsáveis pelo destino da nação, mormente os legisladores, desconheçam o pensamento de sábios como César Lombroso, o Pai da Antropologia Criminal. Ele estudou a gênese natural do deli to, relacionando-a ao atavismo, à degeneração e à neurose epiléptica, ofertando inestimável contribuição para que a ciência penal fosse humanizada. Ele documentou a sobrevivência da alma, por via de fenômenos mediúnicos ocorridos com Eusápia Paladino, demonstrando que a morte imposta pelo Estado como pena pode até ser um prêmio...
Em suma, essa polêmica que gira em torno da pena de morte não conduz a nada. E o pior, o mais paradoxal é que nela não faltam vozes de autoridades religiosas deslembradas do quinto mandamento da lei de DEUS, o não matarás, recebido por Moisés no Monte Sinai, e desatentas do ensino básico de Jesus, o amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei .

NAZARENO TOURINHO - Reformador junho 1993

domingo, 5 de abril de 2009

DE PÉ OS MORTOS

Senhor!
O Brasil é o coração do Mundo e o coração nunca dorme.
É a Pátria do Evangelho, é a Terra espiritual do testemunho.
Confiaste-lhe a Árvore de Teu Infinito Amor e no País da Fraternidade estenderam-se-lhe os ramos verdes e fartos, acolhendo as criaturas.
Abençoaste os que choram. O Brasil incorporou torturados e oprimidos de outras raças à sua família generosa.
Atendeste a injustiçados. O Brasil sempre abrigou os perseguidos, proporcionando-lhes vida nova.
Exaltaste os pacíficos. O Brasil exerceu, em todo tempo, a bondade e a tolerância, perdoando criminosos, anistiando rebeldes, esquecendo traições e calúnias, por acolher irmãos bem-amados.
Elevaste os limpos de coração. O Brasil nunca tingiu as mãos no sangue fratricida, nas horas culminantes de renovação política, aceitando-Te os desígnios nos instantes solenes de sua história.
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Determinaste que os homens se amem uns aos outros, como nos amaste. O Brasil abriu suas portas de oito mil quilômetros de extensão à frente do mar e recebeu fraternalmente os filhos de todos os povos do globo, sem preconceitos de cor, de sangue, de nacionalidade, de religião.
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Agora, Senhor, neste momento grave do mundo, o Teu grande Brasil, nossa Pátria, foi chamado à defesa da verdade contra a mentira e a impostura.
Não Te reclamamos a assistência necessária. Sabemos que Tuas mãos misericordiosas pousam no leme, guiando aqueles que governam o destino dos filhos do Cruzeiro; mas, neta hora de suprema determinação histórica, reafirmamos-Te confiança e pedimos derrames Tua luz em cada coração, em cada anseio materno, em cada recanto do lar, para que todo o Brasil compreenda que esta não é uma guerra de irmãos contra irmãos, porém, a da luz contra as sombras, da civilização contra a barbaria, do direito contra a força, do equilíbrio contra a demência.
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Sabemos que preservarás a Pátria do Evangelho, desde o vale do Amazonas às coxilhas do Rio Grande, envolvendo-a nas dobras do pendão auriverde, em que colocaste um coração azul enfeitado de estrelas, símbolo de Tuas sagradas esperanças; que irás de norte a sul, inspirando os que administram, orientando resoluções sábias, encorajando as mães, iluminando o conselho dos velhos, renovando energias da juventude, unificando o pensamento nacional. Entretanto, rogamos esclareças a todos os brasileiros, para que cada um se integre no espírito de serviço que dignifica o dever, a responsabilidade, o trabalho, a ordem e a disciplina. Auxilia-os a fazerem cessar neste momento as paixões, contendas, suspeitas, opiniões individualistas, interpretações políticas e sectarismos religiosos, a fim de que paire, acima das preocupações inferiores, a visão do Brasil imperecível, na integridade gloriosa dos bens que nos confiaste.
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Nós, os “mortos” da Pátria, estamos igualmente de pé.
Aqui nos encontramos para dizer aos nossos irmãos que a Vida Eterna resume as realidades sublimes e imortais, e que entrelaçaremos nossas mãos com as deles, nos testemunhos necessários.
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Jesus, acrescenta valores aos nossos valores, como tens acrescentado confiança à nossa fé; ensina-nos a transportar a flâmula auriverde, do topo radiante dos mastros aos nossos corações, a fim de a içarmos bem alto no cimo da consciência.
Senhor, o Brasil permanece contigo, por expulsar do templo da vida os vendilhões do direito e da paz, e cada brasileiro reconhece que Tu estás conosco, porque a Tua cruz é símbolo de resistência heróica e porque sabemos que combates, desde o primeiro dia do Evangelho, na guerra do bem contra o mal, que ainda não terminou.
Livro – Histórias e Anotações – Francisco Cândido Xavier – Irmão X