segunda-feira, 20 de abril de 2009

DEPOIS DA MORTE

Apenas dor no mundo inteiro eu via,
E tanto a vi, amarga e inconsolável,
Que num véu de tristeza impenetrável
Multiplicava as dores que eu sofria.

Se vislumbrava o riso da alegria
Fora dessa amargura inalterável
Esse prazer só era decifrável
Sob a ilusão da eterna fantasia.

Ao meu olhar de triste e de descrente,
Olhar de pensador amargurado,
Só existia a dor, ela somente.

O gozo era a mentira dum momento,
Os prazeres, o engano imaginado
Para aumentar a mágoa e o sofrimento.

II

Misantropo da ciência enganadora,
Trazia em mim o anseio irresistível
De conhecer o Deus indefinível,
Que era na dor, visão consoladora.

Não O via e, no entanto, em toda hora,
Nesse anelo cruciante e intraduzível,
Podia ver, sentindo o Incognoscível
E a sua onisciência criadora.

Mas a insídia do orgulho e da descrença
Guiava-me a existência desolada,
Recamada de dor profunda e intensa;

Pela voz da vaidade, então, eu cria
Achar na morte a escuridão do Nada,
Nas vastidões da terra úmida e fria.

III

Depois de extravagâncias de teoria,
No seio dessa ciência tão volúvel,
Sobre o problema trágico, insolúvel,
De ver o Deus de Amor, de quem descria,

Morri, reconhecendo, todavia,
Que a morte era um enigma solúvel,
Ela era o laço eterno e indissolúvel,
Que liga o Céu à Terra tão sombria!

E por estas regiões onde eu julgava
Habitar a inconsciência e a mesma treva
Que tanta vez os olhos me cegava,

Vim, gemendo, encontrar as luzes puras
Da verdade brilhante, que se eleva,
Iluminando todas as alturas.


Antero de Quental
Do livro Parnaso de Além-Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

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