sexta-feira, 31 de julho de 2009

SOCORRO DIVINO


O eco de vozes alvoroçadas e nervosas repercutia tia bem longe, chamando a atenção dos transeunte que passavam.
Gritos e palavras ofensivas, partidos de um lar quebravam a harmonia que pairava no bairro.
Em seguida acusações violentas eram proferi das, acompanhadas de ameaças terríveis, que evidenciavam visível perturbação emocional. A agres são física era iminente por parte de um dos cônjuges não fora o choro providencial desencadeado por Graça Divina, pela esposa aflita. Os filhos, traumatizados pela cena dramática e de exemplificação negativa, quedavam-se em um canto, imóveis e amedrontados.
O lar transformara-se em verdadeiro campo de batalha. A desolação, a incompreensão, a tristeza e a falta de amor imperavam. Tudo era caos; campo aberto para os Espíritos obsessores, que se alimentavam das energias negativas emanadas dos pensamentos dos presentes.
Entretanto, o socorro divino não se fez esperar, e eis que, entre o burburinho de vozes e choro, uma voz amiga e evangelizada se ouviu; era a mãe do marido que chegava de visita, e assim falou
- Meus filhos, porque permitis que a incompreensão e a discórdia envolvam esse lar?
Porque alimentais em vossos corações o rancor e a cólera transmitindo aos vossos filhos um legado de infelicidades ?
Procurai Jesus e ele vos ajudará. Orai com fé e tende o pensamento sempre voltado para Deus. Amai-vos uns aos outros. Perdoai aos vossos semelhantes e por certo a paz morará em vosso lar e em vossos corações.
Após essas palavras um silêncio profundo se fez, e, tocados pelo verbo manso e cheio de amor proferido pela bondosa senhora, os cônjuges irromperam em choro demorada e convulso. Instintivamente suas mãos se entrelaçaram, e nos seus olhos, se lia agora, o arrependimento que lhes residia na alma. A voz da gentil senhora se fez ouvir novamente, ao pronunciar a seguinte prece:
- Nosso Pai Celestial, tende piedade dos que desconhecem ainda a lei do amor ao próximo. Lançai um olhar de bondade e compaixão sobre todos os nossos sofrimentos e acendei em nossos corações a chama da concórdia, da compreensão e do amor.
Derramai por migalha do vosso amor, bênçãos de paz em todos os lares, a fim de que possa ser dada aos filhos a orientação sadia e segura, tão necessária para sua formação moral e cristã. Fortalecei por dádiva generosa, os nossos sentimentos, a fim de que não sejamos dominados pelo ódio, pelo ciúme, pela inveja e outros sentimentos negativos. Dai-nos forças para suportarmos sofrimentos e ingratidões com paciência e resignação. Que neste e em todos os lares possa reinar sempre um ambiente de paz, amor e alegria. Assim seja.
Reformador – Março de 1964.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A ALMA APÓS A MORTE

I - A VIDA E A MORTE
68. Qual é a causa da morte, nos seres orgânicos? - A exaustão dos órgãos.
68-a. Pode - se comparar a morte à cessação do movimento numa a máquina desarranjada?
- Sim, pois se a máquina estiver mal montada, a sua mola se quebra: se o corpo estiver doente, a vida se esvai.
69. Por que uma lesão do coração, mais que a dos outros órgãos, causa a morte?
- O coração é uma máquina de vida. Mas não é ele o único órgão em que uma lesão causa a morte; ele não é mais do que uma das engrenagens essenciais.
70. Em que se transformam a matéria e o princípio vital dos seres orgânicos, após a morte?
- A matéria inerte se decompõe e vai formar novos seres; o princípio vital retorna à massa.
Após a morte do ser orgânico, os elementos que o formaram passam por novas combinações, constituindo novos seres, que haurem na fonte universal o princípio da vida e da atividade, absorvendo-o e assimilando-o, para novamente o devolverem a essa fonte, logo que deixarem de existir.
Os órgãos estão, por assim dizer, impregnados de fluido vital. Esse fluido dá a todas as partes do organismo uma atividade que lhes permite comunicarem-se entre si, no caso de certas lesões, e restabelecerem funções momentaneamente suspensas. Mas quando os elementos essenciais do funcionamento dos órgãos foram destruídos, ou profundamente alterados, o fluido vital não pode transmitir-lhes o movimento da vida, e o ser morre.
Os órgãos reagem mais ou menos necessariamente uns sobre os outros; é da harmonia do seu conjunto que resulta essa reciprocidade de ação. Quando uma causa qualquer destrói esta harmonia, suas funções cessam, como o movimento de um mecanismo cujas engrenagens essenciais se desarranjaram; como um relógio gasto pelo uso, ou desmontado por um acidente, que a força motriz não pode pôr em movimento.
Temos uma imagem mais exata da vida e da morte num aparelho elétrico. Esse aparelho recebe a eletricidade e a conserva em estado potencial, como todos os corpos da Natureza. Os fenômenos elétricos, porém, não se manifestam enquanto o fluido não for posto em movimento por uma causa especial, e só então se poderá dizer que o aparelho está vivo. Cessando a causa da atividade, o fenômeno cessa: o aparelho volta ao estado de inércia. Os corpos orgânicos seriam, assim, como pilhas ou aparelhos elétricos nos quais a atividade do fluido produz o fenômeno da vida: a cessação dessa atividade ocasiona a morte.
II - A ALMA APÓS A MORTE
149. Em que se transforma a alma no instante da morte?
- Volta a ser Espírito, ou seja, retoma ao mundo dos Espíritos, que ela havia deixado temporariamente.
150. A alma conserva a sua individualidade após a morte?
- Sim, não a perde jamais. O que seria ela, se não a conservasse?
150-a. Como a alma constata a sua individualidade, se não tem mais o corpo material?
- Tem um fluido que lhe é próprio, que tira da atmosfera do seu planeta e que representa a aparência da sua última encarnação: seu perispírito.
150-b. A alma não leva nada deste mundo?
- Nada mais que a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor. Essa lembrança é cheia de doçura ou de amargor, segundo o emprego que tenha dado à vida. Quanto mais pura ela for, mais compreenderá a futilidade daquilo que deixou na Terra.
- 151. Que pensar da opinião de que a alma, após a morte, retorna ao todo universal?
- O conjunto dos Espíritos não constitui um todo? Quando estás numa assembléia, fazes parte integrante da mesma, e não obstante conservas a tua individualidade.
152. Que prova podemos ter da individualidade da alma após a morte?
- Não tendes esta prova pelas comunicações que obtendes? Se não estiverdes cegos, vereis; e se não estiverdes surdos, ouvireis; pois freqüentemente uma voz vos fala e vos revela a existência de um ser que está ao vosso redor.
Os que pensam que a alma, com a morte, volta ao todo universal estarão errados, se por isso entendem que ela perde a sua individualidade como uma gota d'água que caísse no oceano. Estarão certos, entretanto, se entenderem pelo todo universal o conjunto dos seres incorpóreos de que cada alma ou Espírito é um elemento.
Se as almas se confundissem no todo, não teriam senão as qualidades do conjunto, e nada as distinguiria entre si; não teriam inteligência nem qualidades próprias. Entretanto, em todas as comunicações elas revelam a consciência do eu e uma vontade distinta. A diversidade infinita que apresentam, sob todos os aspectos, é a conseqüência da sua individualização. Se não houvesse, após a morte, senão o que se chama o Grande Todo, absorvendo todas as individualidades, esse todo seria homogêneo, e então as comunicações recebidas do mundo invisível seriam todas idênticas. Desde que encontramos seres bons e maus, sábios e ignorantes, felizes e desgraçados, desde que há de todos os caracteres: alegres e tristes, levianos e sérios, etc., é evidente que se trata de seres distintos.
A individualização ainda se evidencia quando estes seres provam a sua identidade por meio de sinais incontestáveis, de detalhes pessoais relativos à vida terrena, e que podem ser constatados; ela não pode ser posta em dúvida quando eles se manifestam por meio das aparições. A individualidade da alma foi teoricamente ensinada como um artigo de fé, mas o Espiritismo a torna patente e, de certa maneira, material. (As teorias psicológicas, metapsíquicas e outras, sobre as aparições são hipóteses pessoais e parciais, que não abrangem a totalidade dos fatos e bastaria isso para provar a sua fragilidade e insustentabilidade científicas. (N. do T.))
153. Em que sentido se deve entender a vida eterna?
- É a vida do Espírito que é eterna: a do corpo é transitória, passageira. Quando o corpo morre, a alma retorna à vida eterna.
153-a. Não seria mais exato chamar vida eterna a dos Espíritos puros, que tendo atingido o grau de perfeição, não têm mais provas a sofrer?
- Essa é a felicidade eterna. Mas tudo isto é uma questão de palavras: chamai as coisas como quiserdes, desde que vos entendais.
III - SEPARAÇÃO DA ALMA E DO CORPO
154. A separação da alma e do corpo é dolorosa?
- Não; o corpo, freqüentemente, sofre mais durante a vida que no momento da morte; neste, a alma nada sente. Os sofrimentos que às vezes se provam no momento da morte são um prazer para o Espírito, que vê chegar o fim do seu exílio.
Na morte natural, que se verifica pelo esgotamento da vitalidade orgânica, em conseqüência da idade, o homem deixa a vida sem o perceber: é uma lâmpada que se apaga por falta de energia.
155. Como se opera a separação da alma e do corpo ?
- Desligando-se os liames que a retinham, ela se desprende.
155-a. A separação se verifica instantaneamente, numa transição brusca? Há uma linha divisória bem marcada entre a vida e a morte?
- Não; a alma se desprende gradualmente e não escapa como um pássaro cativo que fosse libertado. Os dois estados se tocam e se confundem, de maneira que o Espírito se desprende pouco a pouco dos seus liames; estes se soltam e não se rompem.
Durante a vida, o Espírito está ligado ao corpo pelo seu envoltório material ou perispírito; a morte é apenas a destruição do corpo, e não desse envoltório, que se separa do corpo quando cessa a vida orgânica. A observação prova que no instante da morte o desprendimento do Espírito não se completa subitamente; ele se opera gradualmente, com lentidão variável, segundo os indivíduos. Para uns é bastante rápido e pode dizer-se que o momento da morte é também o da libertação, que se verifica logo após. Noutros, porém, sobretudo naqueles cuja vida foi toda material e sensual, o desprendimento é muito mais demorado, e dura às vezes alguns dias, semanas e até mesmo meses, o que não implica a existência no corpo de nenhuma vitalidade, nem a possibilidade de retorno à vida, mas a simples persistência de uma afinidade entre o corpo e o Espírito, afinidade que está sempre na razão da preponderância que, durante a vida, o Espírito deu à matéria. É lógico admitir que quanto mais o Espírito estiver identificado com a matéria, mais sofrerá para separar-se dela. Por outro lado, a atividade intelectual e moral e a elevação dos pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida corpórea, e quando a morte chega é quase instantânea. Este é o resultado dos estudos efetuados sobre os indivíduos observados no momento da morte. Essas observações provam ainda que a afinidade que persiste, em alguns indivíduos, entre a alma e o corpo, é às vezes muito penosa, porque o Espírito pode experimentar o horror da decomposição. Este caso é excepcional e peculiar a certos gêneros de morte, verificando-se em alguns suicidas.
156. A separação definitiva entre a alma e o corpo pode verificar-se antes da cessação completa da vida orgânica?
-Na agonia, às vezes, a alma já deixou o corpo, que nada mais tem do que a vida orgânica. O homem não tem mais consciência de si mesmo, e não obstante ainda lhe resta um sopro de vida. O corpo é uma máquina que o coração põe em movimento. Ele se mantém enquanto o coração lhe fizer circular o sangue pelas veias e, para isso, não necessita da alma.
157. No momento da morte a alma tem às vezes uma aspiração ou êxtase que lhe faz entrever o mundo para o qual regressa?
- A alma sente, muitas vezes, que se desatam os liames que a prendem ao corpo e então emprega todos os seus esforços para os desligar de uma vez. Já parcialmente separada da matéria, vê o futuro desenrolar-se ante ela e goza por antecipação do estado de Espírito.
158. O exemplo da larva que primeiro se arrasta pela terra, depois se fecha na crisálida, numa morte aparente, para renascer numa existência brilhante, pode dar -nos uma idéia da vida terrena, seguida do túmulo e por fim de uma nova existência?
- Uma pálida idéia. A imagem é boa, mas é necessário não tomá-la ao pé da letra, como sempre fazeis.
159. Que sensação experimenta a alma no momento em que se reconhece no mundo dos Espíritos?
- Depende. Se fizeste o mal com o desejo de fazê-lo, estarás, no primeiro momento, envergonhado de o haver feito. Para o justo, é muito diferente: ele se sente aliviado de um grande peso, porque não receia nenhum olhar perquiridor.
160. O Espírito encontra imediatamente aqueles que conheceu na Terra e que morreram antes dele?
- Sim, segundo a afeição que tenham mantido reciprocamente. Quase sempre eles o vêm receber na sua volta ao mundo dos Espíritos e o ajudam a libertar-se das faixas da matéria. Vê também a muitos que havia perdido de vista durante a passagem pela Terra; vê os que estão na erraticidade, bem como os que se encontram encarnados, que vai visitar.
161. Na morte violenta ou acidental, quando os órgãos ainda não se debilitaram pela idade ou pelas doenças, a separação da alma e a cessação da vida se verificam simultaneamente ?
- Geralmente é assim; mas, em todos os casos, o instante que os separa é muito curto.
162. Após a decapitação, por exemplo, o homem conserva por alguns instantes a consciência de si mesmo?
- Freqüentemente ele a conserva por alguns minutos, até que vida orgânica se extinga de uma vez. Mas muitas vezes a preocupação da morte lhe faz perder a consciência antes do instante do suplício.
Não se trata, aqui, senão da consciência que o supliciado pode ter de si mesmo como homem, por meio do corpo, e não como Espírito. Se não perdeu essa consciência antes do suplício, ele pode conservá-la por alguns instantes, mas de duração muito curta, e a perde necessariamente com a vida orgânica do cérebro. Isso não quer dizer que o perispírito esteja inteiramente desligado do corpo, mas, pelo contrário, pois em todos os casos de morte violenta, quando esta não resultada da extinção gradual das forças vitais, os liames que unem o corpo ao perispírito são mais tenazes, e o desprendimento completo é mais lento.
A quantidade de fluído vital não é a mesma em todos os seres orgânicos: varia segundo as espécies e não é constante no mesmo indivíduo, nem nos vários indivíduos de uma mesma espécie. Há os que estão, por assim dizer, saturado de fluído vital, enquanto outros o possuem apenas em quantidade suficiente. É por isso que uns são mais ativos, mais enérgicos e, de certa maneira, de vida superabundamente.
A quantidade de fluído vital se esgota. Pode tornar-se incapaz de entreter a vida, se não for renovada pela absorção e assimilação de substâncias que o contém. O fluído vital se transmite de um indivíduo a outro. Aquele que o tem em maior quantidade pode dá-lo ao que tem menos, e em certos casos fazer voltar uma vida prestes a extinguir-se.
Allan Kardec - O Livro dos Espíritos

segunda-feira, 27 de julho de 2009

OS MÉDIUNS E O MUNDO


“A nossa reunião pública foi antecedida de acalorados debates em torno da situação dos médicos. Alguns companheiros que nos visitavam traziam interpelações diversas e outras perguntas surgiram, numerosas.
Devem os médiuns ser encerrados em retiros ou colégios de consagração absoluta ao Mundo Divino, como as ventais e os sacerdotes da Antigüidade? Se os médiuns guardarem a obrigação da vida em êxtases espirituais permanentes, no intercâmbio exclusivo com os planos divinos, como viverem a existência que lhes foi concedida na reencarnação, na qual precisam trabalhar para se alimentarem, vestirem, para se instruírem e viver à própria custa?
Se os médiuns necessitam de estar na Terra, como acontece com as outras pessoas que se casam ou não se casam; se não podem trabalhar sem apoio de alguém; se precisam de motivação para aprender a servir; se não conseguem, de modo algum, essa ou aquela realização vivendo ou caminhando sozinhos – como conciliar tarefa mediúnica e reclusão sistemática?
Se os médiuns devem dar com desinteresse os resultados do trabalho que prestam, seja aos Bons Espíritos ou seja aos irmãos em humanidade, dispendendo o tempo e a força que Deus lhes deu, como igualmente deu às outras pessoas, como impedir-lhes o relacionamento com os outros, de modo a encontrarem trabalho e recursos para se sustentarem e sustentarem os seres a que se vinculam, a fim de não serem cargas pesadas no grupo social a que pertencem?
Devem os médiuns ser criaturas angélicas na Terra ou seres humanos naturais, procurando o aperfeiçoamento próprio através de erros e acertos, como sucede a qualquer um?
Nesse clima de indagações foi iniciada a nossa reunião pública. E O Evangelho Segundo o Espiritismo nos ofereceu para estudo o item 10 do capítulo XIX, sendo que, no término das nossas tarefas, o nosso caro Emmanuel escreveu a “Página aos Médiuns” que muitos de nossos amigos presentes e nós mesmos desejaríamos ver acrescida com suas anotações e estudos, sempre valiosos para nós todos.”

PÁGINA AOS MÉDIUNS

Emmanuel

Médiuns espíritas!
Quando vos conscientizais relativamente à distância entre a vossa condição humana e a espiritualidade sublime da Doutrina de Luz e Amor que abraçastes, muitos de vós outros recuais ante as lutas por sustentar.
Compreendamos, no entanto, que quase todos nós, os companheiros encarnados e desencarnados, trazidos às tarefas do Espiritismo, somos seres endividados de outras épocas, empenhados ao trabalho de aperfeiçoamento gradativo com o amparo de Jesus.
***
Tiranos de ontem, somos agora convocados a exercícios de obediência e tolerância para as aquisições de humildade.
Autoridades absorventes que dilapidávamos os bens que se nos confiavam, em benefício de todos, vemo-nos induzidos, na atualidade, a servir em regime de carência a fim de aprendermos moderação à frente da vida.
Inteligências despóticas que abusávamos da frase escrita ou falada, prejudicando multidões, estamos hoje entre inibições e dificuldades, nos domínios da expressão verbal, de modo a reconhecermos quanto respeito se deve à palavra.
Criaturas que infelicitávamos outras muitas, deteriorando-lhes a existência em nome do coração, achamo-nos presentemente em longos calvários do sexo a fim de aprimorarmos os impulsos do próprio amor.
***
Incluímo-nos em vossos problemas, conquanto desenfaixados provisoriamente dos laços físicos, porquanto as vossas lutas de hoje foram as nossas de ontem, tanto quanto os vossos conflitos de hoje serão talvez nossos amanhã, quando, pela reencarnação, estivermos na posição que atualmente ocupais.
***
A despeito, no entanto, de todos os obstáculos, espose-mos na construção do bem o caminho da sombra para a luz.
Natural tropeceis, através de quedas e desilusões, moí vezes necessárias à formação de nossas melhores experiências. Entretanto, não vos marginalizeis na estufa da ociosidade ou na furna da autocompaixão.
***
Trabalhemos compreendendo e sigamos servindo.
***
Fraquezas e imperfeições temo-ias ainda conosco e talvez por longo tempo, de vez que burilamento espiritual não é assunto de mágica..
Convençamo-nos, porém, de que unicamente com a doação do melhor de nós mesmos, na edificação do bem de todos, é que descobriremos a senda traçada à nossa melhoria e elevação.
***
Recordemos.
O ouro não se desentranha da ganga simplesmente porque leiamos algum compêndio de mineração diante do cascalho que o segrega, conquanto o compêndio de mineração favoreça as atividades relacionadas com a extração e acrisolamento do ouro.
Purificar-se-á o metal, em verdade, tão-somente no clima do cadinho esfogueante.
Um médico reterá consigo a ciência de curar, mas isso não quer dizer esteja ele inacessível à doença, embora o dever que lhe cabe na preservação do equilíbrio orgânico.
***
Um dia Jesus nos afirmou que os obreiros do Evangelho serão conhecidos pelos frutos. E Allan Kardec, no item 10 do capítulo XIX de O Evangelho Segundo o Espiritismo vos comparou às árvores proveitosas. Não nos será lícito esquecer que todas as árvores da Terra, por mais preciosas, se lançam frondes, flores e frutos na direção dos Céus, nenhuma delas produzirá se não tiver as raízes vinculadas aos ingredientes no chão.

MEDIUNIDADE E SERVIÇO

Irmão Saulo

Agora, que as clausuras religiosas começam a se abrir e o isolamento sacerdotal se converte em vivência social, seria curioso se os espíritas instituíssem um sistema de segregação para os médiuns. Tanto mais que o Espiritismo é uma doutrina aberta, só comparável ao Cristianismo primitivo dos tempos em que Jesus e os seus discípulos viviam no meio do povo, servindo a Deus no serviço aos homens.
A mediunidade não é privilégio, não é concessão especial, mas faculdade humana natural. Todos a possuímos, em maior ou menor grau, conforme as nossas necessidades. Assim como devemos empregar a nossa inteligência e as nossas habilidades ao serviço do próximo, assim também devemos utilizar a nossa mediunidade na boa orientação das relações sociais. O médium isolado seria um contra-senso, como a lâmpada sob o alqueire de que nos fala o Evangelho. Sua função não é esconder a luz que possui, mas irradiá-la em benefício de todos.
A missão mediúnica é semelhante a todas as demais missões que o espírito, ao encarnar, traz para a Terra. A natureza social da mediunidade condiciona o médium a todas as exigências das relações humanas. Na verdade, a sociabilidade atinge na mediunidade o seu mais alto grau, pois o médium é o indivíduo colocado a serviço de duas coletividades, a visível e a invisível. Sua função social transcende o plano horizontal das relações existenciais, estabelecendo as relações do plano vertical entre os homens e os espíritos. E essas relações, até ontem consideradas sobrenaturais, são hoje reconhecidas como naturais, comuns a todas as criaturas.
Como acentua Emmanuel, os médiuns, por mais elevados que sejam, não passam de criaturas em resgate dos erros do passado. Isolá-los, negar-lhes o direito à vida normal dos homens, furtá-los a experiência da vida, seria regredirmos no tempo, esquecendo os princípios fundamentais do Espiritismo para cairmos de novo no conceito errôneo dos privilégios espirituais. Mediunidade é serviço, mas sobretudo serviço fraterno – que só pode ser realizado com proveito no ombro a ombro da vida comum.

Do livro “Na Era do Espírito”. Psicografia de Francisco C. Xavier e Herculano Pires. Espíritos Diversos

domingo, 26 de julho de 2009

O VÉU SE LEVANTA

O véu se levanta à medida em que o homem cresce espiritualmente. A natureza tem seus segredos em toda a conjuntura da sua ação benfeitora e eles não foram feitos para ficarem eternamente escondidos das criaturas; revelar-se-ão no momento certo, em que o Espírito puder alcançar e suportar a luz da revelação.
Os caminhos da vida são eternos aprendizados; cada passo que damos corresponde a uma lição. Nada se perde, mesmo o tempo que chamamos de perdido. Atrás de todo acontecimento existem leis revelando sabedoria, de que o Espírito se certificará por processos de osmose espiritual, que por vezes escapam ao nosso entendimento. Os véus se levantam em todas as direções do saber, pelos esforços de cada um, entretanto, ele também é obediente à força do próprio progresso.
A nossa participação acelera a evolução, para que o despertamento surja com mais eficiência e fique em tudo, em relação ao nosso bem-estar, a nossa marca, como sendo a nossa conquista. Isso é muito interessante na pauta das nossas obrigações e compromissos.
Não podemos nos esquecer daquilo que nos toca como co-criadores dos nossos destinos, na influência de Deus pelas mãos do Cristo. À medida em que os véus vão se abrindo aos nossos olhos espirituais, se formará um campo de conhecimento apropriado na consciência e o coração passará a trabalhar em plena concordância com a inteligência. Os dois, juntos, determinam o uso de todos os poderes adquiridos, na formação da própria personalidade.
Ninguém pode crescer sem subir, nem subir sem esforço e sacrifício juntamente com a dor, pelo menos na área evolutiva a que pertencemos, no ambiente da Terra, e no grau que nos encontramos na escala dos valores espirituais. As experiências nos condicionam conhecimentos indispensáveis a nossa libertação. Isso também são leis que nos regulam o crescimento espiritual e moral. Mesmo que queiramos ficar para trás e não aprender, não conseguimos. É a mesma coisa que alguém, que nunca tivesse visto o Sol, desacreditasse, por isso, da sua eficácia. Ele, o Sol, sempre iria existir e, ainda mais, continuaria ajudando, mesmo os que o negassem.
Existem dois tipos de evolução: aquela que obedece às leis do automatismo espiritual, que impulsiona a natureza física e animal para o progresso, sem a participação da vontade, e aquela que recebe como coadjuvante os esforços dos homens, onde a inteligência tem sua grande participação. As faculdades dos Espíritos vão se desabrochando na esteira infinita do tempo e se apurando de acordo com o seu despertamento, quando o oculto vai sendo conhecido.
Diante dos mistérios desvendados, surgirá, no mundo da alma, um ambiente diferente, onde floresce uma alegria apoiada pelas forças do amor. E a alma amadurecida passa a conhecer a si mesma e a cuidar das suas próprias deficiências, como o médico que trata dos seus próprios desequilíbrios. Porém, é bom que nos cientifiquemos de que sempre encontraremos véus para serem desvendados e segredos para serem conhecidos. Não constitui uma grande esperança termos sempre lições para recebermos da bondade divina? O conhecimento total pertence a Deus, e conhecer a sua natureza íntima somente Ele o pode, por ser Onisciente.
O nosso maior empenho deve ser o conhecimento do como ser melhor, trabalhando na fraternidade universal; é preciso levantar o véu que empana a harmonia e sentir a vibração da paz de Deus no coração, conhecer os segredos do amor e passar a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Torna-se importante descobrir a fonte da alegria pura e
conquistá-la na sua plenitude. Com os véus se levantando nesse ritmo, seremos felizes.
Pelo espírito Miramez

terça-feira, 21 de julho de 2009

ESPIRITISMO



"...Que te importa a ti? Segue-me tu."
Jesus (João, 21:22).


É muito comum ouvirmos de pessoas que não conhecem o Espiritismo que fulano freqüenta o "espiritismo de terreiro", sicrano é da linha do "espiritismo de umbanda", ou ainda que beltrano pratica o "baixo espiritismo."
Espiritismo não é, como muita gente pensa, uma religião onde os adeptos dedicam-se unicamente a receber comunicações daqueles que os precederam na viagem do além-túmulo, para sanar curiosidades ou resolver problemas materiais. Aliás, para o seguidor dessa doutrina isto é o que menos importa. O que mais preocupa os espíritas é a evolução integral do homem espiritual, embora não sejam alheios às necessidades do homem material.
O espírita não aceita pagamentos por "favores" conseguidos por seu intermédio. Ele cumpre à risca o "Daí de graça o que de graça recebestes." Tudo isso porque existe dentro dele a vontade insaciável de ajudar aos irmãos menos favorecidos. E é com este procedimento que vamos mais e mais correligionários engrossando a fileira dos trabalhadores que dão o seu testemunho a esta seara cristã.
Sempre que ouvir, caro leitor, referências que dividam o Espiritismo em "baixo" ou "alto", de "mesa branca" ou "escura" procure esclarecer, lembrando que os rituais, imagens e alegorias são objetos do plano material e que não têm razão de existir em uma doutrina que oferece ensinamentos profundos, porém acessíveis a todos os níveis culturais. Acrescente que o Espiritismo é filosofia que proporciona a maneira exata de encarar a vida, respondendo-nos os porquês de nossos problemas, é ciência que vem mostrar quem é a causa primária de tudo e é religião quando ensina que "Fora da caridade não há salvação".
Acreditamos não ser demais registrar aqui que: "O Espiritismo cresce porque leva o homem ao estudo, ao raciocínio e á prática dos ensinamentos evangélicos e que: O Espiritismo é fortaleza, segurança, equilíbrio, paz, convicção, orientação, prudência, serenidade, solidariedade, trabalho e, para os que o negam, (ou confundem com outras doutrinas) convinha, por obrigação e dever de todos, estudá-lo para poderem falar de um assunto com conhecimento próprio e inclusive contradizê-lo".
Pretender esconder os benefícios que o Espiritismo tem dado para o aperfeiçoamento e progresso do homem é a mesma coisa que querer esconder a luz solar com uma peneira.
Poderemos voltar um pouco à história e lembrar que Moisés, no cumprimento de sua tarefa, conseguiu abrandar os rudes costumes do homens da época, fazendo reinar entre eles a lei da justiça. Jesus com sua bondade trouxe através da exemplificação ensinamentos que calaram fundo nos corações humanos. O Espiritismo, sendo a Terceira Revelação, vem nos trazer a verdade do Espírito. Ele é a semente latente que brota no solo arado pelo rude "Olho por olho, dente por dente" e adubado pelas leis do Amor do Mestre dos mestres para esclarecer a Humanidade sequiosa por estes ensinamentos.
Porém, caro leitor, se você não conseguir esclarecer todos aqueles que vivem dividindo a Doutrina Consoladora não se preocupe com sua integridade. Acredite em Kardec que certa feita disse: "O Espiritismo sobreviverá com os homens, sem os homens e apesar dos homens".

Livro: "Reflexos das Atitudes" Ed. Espírita Mensagem de Esperança
Transcrito do Redenção - Outubro l999 - Boletim Informativo Mensal do Grupo Espírita Redenção

domingo, 19 de julho de 2009

A HORA FINAL



Que se passa no momento da morte e como se desprende o Espírito da sua prisão material? Que Impressões, que sensações o esperam nessa ocasião temerosa? É isso o que interessa a todos conhecer, porque todos cumprem essa jornada. A vida foge-nos a todo instante: nenhum de nós escapará à morte.
Ora, o que todas as religiões e filosofias nos deixaram ignorar os Espíritos, em multidão, no-lo vêm ensinar. Dizem-nos que as sensações que precedem e se seguem à morte são infinitamente variadas e dependentes sobretudo do caráter, dos méritos, da elevação moral do Espírito que abandona a Terra. A separação é quase sempre lenta, e o desprendimento da alma opera-se gradualmente. Começa, algumas vezes, muito tempo antes da morte, e só se completa quando ficam rotos os últimos laços fluídicos que unem o perispírito ao corpo. A impressão sentida pela alma revela-se penosa e prolongada quando esses laços são mais fortes e numerosos. Causa permanente da sensação e da vida, a alma experimenta todas as comoções, todos os despedaçamentos do corpo material.
Dolorosa, cheia de angústias para uns, a morte não é, para outros, senão um sono agradável seguido de um despertar silencioso. O desprendimento é fácil para aquele que previamente se desligou das coisas deste mundo, para aquele que aspira aos bens espirituais e que cumpriu os seus deveres. Há, ao contrário, luta, agonia prolongada no Espírito preso à Terra, que só conheceu os gozos materiais e deixou de preparar-se para essa viagem.
Entretanto, em todos os casos, a separação da alma e do corpo é seguida de um tempo de perturbação, fugitivo para o Espírito justo e bom, que desde cedo despertou ante todos os esplendores da vida celeste; muito longo, a ponto de abranger anos inteiros, para as almas culpadas, impregnadas de fluídos grosseiros. Grande número destas últimas crê permanecer na vida corpórea, muito tempo mesmo depois da morte. Para estas, o perispírito é um segundo corpo carnal, submetido aos mesmos hábitos e, algumas vezes, às mesmas sensações físicas como durante a vida terrena.
Outros Espíritos de ordem inferior se acham mergulhados em uma noite profunda, em um completo Insulamento no seio das trevas. Sobre eles pesa a Incerteza, o terror. Os criminosos são atormentados pela visão terrível e incessante das suas vítimas.
A hora da separação é cruel para o Espírito que só acredita no nada. Agarra-se como desesperado a esta vida que lhe foge; no supremo momento Insinua-se-lhe a dúvida; vê um mundo temível abrir-se para abismá-lo, e quer, então, retardar a queda. Daí, uma luta terrível entre a matéria, que se esvai, e a alma, que teima em reter o corpo miserável. Algumas vezes, ela fica presa até à decomposição completa, sentindo mesmo, segundo a expressão de um Espírito, “os vermes lhe corroerem as carnes”.
Pacífica, resignada, alegre mesmo, é a morte do justo, a partida da alma que, tendo muito lutado e sofrido, deixa a Terra confiante no futuro.
Para esta, a morte é a libertação, o fim das provas. Os laços enfraquecidos que a ligam à matéria, destacam-se docemente; sua perturbação não passa de leve entorpecimento, algo semelhante ao sono.
Deixando sua residência corpórea, o Espírito, purificado pela dor e pelo sofrimento, vê sua existência passada recuar, afastar-se pouco a pouco com seus amargores e ilusões; depois, dissipar-se como as brumas que a aurora encontra estendidas sobre o solo e que a claridade do dia faz desaparecer. O Espírito acha-se, então, como que suspenso entre duas sensações: a das coisas materiais que se apagam e a da vida nova que se lhe desenha à frente. Entrevê essa vida como através de um véu, cheia de encanto misterioso, temida e desejada ao mesmo tempo. Após, expande-se a luz, não mais a luz solar que nos é conhecida, porém uma luz espiritual, radiante, por toda parte disseminada. Pouco a pouco o inunda, penetra-o, e, com ela, um tanto de vigor, de remoçamento e de serenidade. O Espírito mergulha nesse banho reparador. Aí se despoja de suas incertezas e de seus temores. Depois, seu olhar destaca-se da Terra, dos seres lacrimosos que cercam seu leito mortuário, e dirige-se para as alturas. Divisa os céus Imensos e outros seres amados, amigos de outrora, mais jovens, mais vivos, mais belos que vêm recebê-lo, guiá-lo no seio dos espaços. Com eles caminha e sobe às regiões etéreas que seu grau de depuração permite
atingir. Cessa, então, sua perturbação, despertam faculdades novas, começa o seu destino feliz. A entrada em uma vida nova traz impressões tão variadas quanto o permite a posição moral dos Espíritos. Aqueles — e o número é grande — cujas existências se desenrolam indecisas, sem faltas graves nem méritos assinalados, acham-se, a princípio, mergulhados em um estado de torpor, em um acabrunhamento profundo; depois, um choque vem sacudir-lhes o ser. O Espírito sai, lentamente, de seu invólucro: como uma espada da bainha; recobra a liberdade, porém, hesitante, tímido, não se atreve a utilizá-la ainda, ficando cerceado pelo temor e pelo hábito aos laços em que viveu. Continua a sofrer e a chorar com os entes que o estimaram em vida. Assim corre o tempo, sem ele o medir; depois de muito, outros Espíritos auxiliam-no com seus conselhos, ajudando a dissipar sua perturbação, a libertá-lo das últimas cadeias terrestres e a elevá-lo para ambientes menos obscuros.
Em geral, o desprendimento da alma é menos penoso depois de uma longa moléstia, pois o efeito desta é desligar pouco a pouco os laços carnais. As mortes súbitas, violentas, sobrevindo quando a vida orgânica está em sua plenitude, produzem sobre a alma um despedaçamento doloroso e lançam-na em prolongada perturbação. Os suicidas são vítimas de sensações horríveis.
Experimentam, durante anos, as angústias do último momento e reconhecem, com espanto, que não trocaram seus sofrimentos terrestres senão por outros ainda mais vivazes.
O conhecimento do futuro espiritual, o estudo das leis que presidem à desencarnação são de grande importância como preparativos à morte. Podem suavizar os nossos últimos momentos e proporcionar-nos fácil desprendimento, permitindo mais depressa nos reconhecermos no mundo novo que se nos desvenda.
O JULGAMENTO
- Uma lei tão simples em seus princípios quanto admirável em seus efeitos preside à classificação das almas no espaço.
Quanto mais sutis e rarefeitas são as moléculas constitutivas do perispírito tanto mais rápida é a desencarnação, tanto mais vastos são os horizontes que se rasgam ao Espírito. Devido ao seu peso fluídico e às suas afinidades, ele se eleva para os grupos espirituais que lhe são similares.
Sua natureza e seu grau de depuração determinam-lhe nível e classe no meio que lhe é próprio.
Com alguma exatidão tem-se comparado a situação dos Espíritos no espaço à dos balões cheios de gases de densidades diferentes que, em virtude de seus pesos específicos, se elevam a alturas diversas. Mas, cumpre que nos apressemos em acrescentar que o Espírito é dotado de liberdade e, portanto, não estando imobilizado em nenhum ponto, pode, dentro de certos limites, deslocar-se e percorrer os páramos etéreos.
Pode, em qualquer tempo, modificar suas tendências, transformar-se pelo trabalho ou pela prova, e, conseguintemente, elevar-se à vontade na escala dos seres.
É, pois, uma lei natural, análoga às leis da atração e da gravidade, a que fixa a sorte das almas depois da morte. O Espírito impuro, acabrunhado pela densidade de seus fluídos materiais, confina-se nas camadas inferiores da atmosfera, enquanto a alma virtuosa, de envoltório depurado e sutil, arremessa-se, alegre, rápida como o pensamento, pelo azul infinito.
É também em si mesmo — e não fora de si, é em sua própria consciência que o Espírito encontra sua recompensa ou seu castigo. Ele é seu próprio juiz. Caído o vestuário de carne, a luz penetra-o e sua alma aparece nua, deixando ver o quadro vivo de seus atos, de suas vontades, de seus desejos. Momento solene, exame cheio de angústia e, muitas vezes, de desilusão. As recordações despertam em tropel e a vida inteira desenrola-se com seu cortejo de faltas, de fraquezas, de misérias. Da infância à morte, tudo, pensamentos, palavras, ações, tudo sai da sombra, reaparece à luz, anima-se e revive. O ser contempla-se a si mesmo, revê, uma a uma, através dos tempos, suas existências passadas, suas quedas, suas ascensões, suas fases inumeráveis. Conta os estágios franqueados, mede o caminho percorrido, compara o bem e o mal realizados. Do fundo do passado obscuro, surgem, a seu apelo, como outros tantos fantasmas, as formas que revestiu através das vidas sucessivas. Em uma visão clara, sua recordação abraça as longas perspectivas das Idades decorridas; evoca as cenas sanguinolentas, apaixonadas, dolorosas, as dedicações e os crimes; reconhece a causa dos processos executados, das expiações sofridas, o motivo da sua posição atual. Vê a correlação que existe, unindo suas vidas passadas aos anéis de uma longa cadeia desenrolando-se pelos séculos. Para si, o passado explica o presente e este deixa prever o futuro. Eis para o Espírito a hora da verdadeira tortura moral. Essa evocação do passado traz-lhe a sentença temível, a increpação da sua própria consciência, espécie de julgamento de Deus. Por mais lacerante que seja, esse exame é necessário porque pode ser o ponto de partida de resoluções salutares e da reabilitação.
O grau de depuração do Espírito, a posição que ocupa no espaço representam a soma de seus progressos realizados e dão a medida do seu valor moral. É nisto que consiste a sentença infalível que lhe decide a sorte, sem apelo. Harmonia profunda! Simplicidade maravilhosa que as instituições humanas não poderiam reproduzir; o princípio de afinidade regula todas as coisas e fixa a cada qual o seu lugar. Nada de julgamento, nada de tribunal, apenas existe a lei imutável executando-se por si própria, pelo jogo natural das forças espirituais e segundo o emprego que delas faz a alma livre e responsável.
Todo pensamento tem uma forma, e essa forma, criada pela vontade, fotografa-se em nós como em um espelho onde as imagens se gravam por si mesmas. Nosso envoltório fluídico reflete e guarda, como em um registro, todos os fatos da nossa existência. Esse registro está fechado durante a vida, porque a carne é a espessa capa que nos oculta o seu conteúdo. Mas, por ocasião da morte, ele abre-se repentinamente e as suas páginas distendem-se aos nossos olhos.
O Espírito desencarnado traz, portanto, em si, visível para todos, seu céu ou seu inferno. A prova irrecusável da sua elevação ou da sua inferioridade está inscrita em seu corpo fluídico.
Testemunhas benévolas ou terríveis, as nossas obras, os nossos desígnios justificam-nos ou acusam-nos, sem que coisa alguma possa fazer calar as suas vozes. Daí o suplício do mau que, acreditando estarem os seus pérfidos desejos, os seus atos culpáveis profundamente ocultos, os vê, então, brotar aos olhos de todos; daí os seus remorsos quando, sem cessar, repassam diante de si os anos ociosos e estéreis, as horas impregnadas no deboche e no crime, assim como as vítimas lacrimosas, sacrificadas a seus instintos brutais. Daí também a felicidade do Espírito elevado, que consagrou toda a sua vida a ajudar e a consolar seus irmãos.
Para distrair-se dos cuidados, das preocupações morais, o homem tem o trabalho, o estudo, o sono. Para o Espírito não há mais esses recursos. Desprendido dos laços corporais, acha-se incessantemente em face do quadro fiel e vivo do seu passado. Assim, os amargores e pesares contínuos, que então decorrem, despertam-lhe, na maior parte dos casos, o desejo de, em breve, tomar um corpo carnal para combater, sofrer e resgatar esse passado acusador.

(LEON DENIS, "Depois da Morte", caps. 30 e 31)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A PRECE



Logo depois que despertou na consciência, o ser humano começou a sentir a necessidade de dirigir-se a um Ente Supremo, que, na verdade, inicialmente eram vários, pois, segundo a mentalidade primitiva, a cada fenômeno da Natureza e a tudo que se lhe afigurava extraordinariamente, era atribuído, como causa, a alguém que o produzia.
Muito cedo, já no alvorecer da vida espiritual, a criatura começou a falar com seus deuses, pedindo-lhes as coisas que desejava, solicitando-lhes proteção e ajuda, agradecendo-lhes as coisas que recebia e reclamando as que não recebia, estabelecendo acordos, etc. E cada qual se exprimia conforme o que lhe ditava a consciência.
Com o tempo, fundaram-se as religiões, e estas foram estabelecendo fórmulas de rezas e padronizando meios de comunicarem-se com os deuses. E muitos foram os modos idealizados para entrar em contacto com eles.
Mas a diante, quando a Humanidade já estava mais evoluída e chegou à compreensão de um Deus único, então as orações eram dirigidas ao Pai-Criador que está no céu, à “mãe de Deus” e também aos “santos” que foram canonizados. Originaram-se as rezas especiais para cada fim, bem como as miraculosas, destinadas a determinadas curas e a certos feitos.
Presentemente, a Humanidade já foi instruída pelos Mestres da Espiritualidade a respeito da oração, e sabe então, que o seu resultado não depende das palavras muitas vezes repetidas e ditadas em voz alta. As palavras são apenas fonemas emitidos como meio de comunicação entre os seres encarnados, que possuem como dispositivo receptor o sentido da audição. Mas o que traduz o sentido das coisas é sempre o pensamento. Quando dizemos alguma coisa, podemos dizê-la em quaisquer das línguas do Universo, que será sempre a mesma coisa, isto é, os diferentes fonemas articulados que dão forma à expressão não alteram a natureza da vibração que é emitida pelo espírito como pensamento que traduz o sentimento essencial.
Portanto, as orações que são dirigidas a Deus, ao Mestre Jesus, aos bons Espíritos, têm o seu efeito, quando vibradas com firmeza de pensamento e sinceramente sentidas, que então, em relação à elevação do espírito, á intensidade da emissão do potencial psíquico, á natureza intima da intenção e à pureza sentimental, será alcançado, quando é possível, o atendimento do que foi suplicado.
Sabemos então que não é pelo muito pedir, repetindo seguidamente o que se necessita, como que, querendo “convencer a Deus” nem pelo falar alto ou gritar, como que querendo forçar que “Deus nos ouça”, que seremos atendidos em nossas súplicas. Mas através do pedido sincero, feito com resignada devoção, sem a pretensiosa confiança de quem é merecedor de ser atendido, com a humildade e abnegação de quem sabe que não há efeito sem causa e que ninguém passa pelo sofrimento em vão, porque na vida nada acontece por casualidade, pois tudo tem a sua razão de ser.
Disse o Mestre dos mestres: “Pedi e dar-se-vos-á; buscai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á”. “E qual dentre vós é o homem que, pedindo pão o filho, lhe dará pedra?”; E, se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos seus filhos, quando mais o vosso Pai, que está nos céus, dará bens ao que lhos pedirem?
Mas acontece, como sabemos, que nem sempre somos atendidos no que pedimos, e assim, os que ainda não estão esclarecidos julgam que é um castigo de Deus o sofrimento por que passam as criaturas, apesar de rogarem constantemente ao criador para que as curem.
Porém, nem sempre pedimos o que é possível. A esse respeito esclareceu Jesus, quando disse; “não sabeis o que pedis”. Deus sabe o que é melhor para nós. Portanto, aquilo que é considerado como injusto castigo, que na verdade é sempre uma conseqüência provocada pelo próprio espírito, que muito o aborrece, o desagrada, e o induz a reclamar, pedindo a Deus que o liberte de tal sofrimento, é uma desejada prova, cuja experiência resultante, redunda em seu benefício e concorre para o seu bem.
Solicitado por um dos seus discípulos para que os ensinasse a orar, o Mestre, advertindo para que não fizessem como os “hipócritas que se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens”. Recomendou o seu clássico e imorredouro “Pai Nosso”, que é singelo, mas traduz muita sabedoria e um profundo sentido.
Com referência à prece, alguns entendem que é desnecessária, porque, dizem eles, ela não pode modificar a natureza das coisas, porquanto não pode ser evitado o que a criatura deverá passar como prova ou regate. Baseados no nosso entendimento, então poderíamos ir mais longe e pensarmos que pedir as coisas a Deus é contraproducente porque é Ele Onisciente. Ora se é Onisciente, tudo sabe, e se é infinitamente Justo e Bom, por que pedir o de que precisamos?
Por esse raciocínio chegaríamos ao ponto de nos encontrarmos diante de um dilema, pois teríamos que admitir assim pensando, que Deus não se preocupa com os que não se voltam a Ele, ou que não é Onisciente, e nesse caso, precisa ser advertido para que tome conhecimento do que se passa com as suas criaturas.
Porém, a verdade é que sempre que tentamos resolver os problemas transcendentais, condicionando-os aos limitados recursos do nosso entendimento, sem antes averiguar se realmente o que objetivamos está ao alcance da concepção humana, fazemos interpretações inadequadas e errôneas, o que nos faz pensar coisas completamente coisas completamente destituídas de fundamento.
Razão pela qual, quando pretendemos chegar à compreensão do que nada, analisar se o que estamos pensando a respeito de tal assunto está baseado em elementos já reconhecidos e comprovados, ou se estamos tentando, pelos meios do raciocínio, explicar o que ainda transcende ao atual entendimento.
A questão da prece (se devemos ou não pedir as coisas a Deus) interpretada, sem um prévio exame da origem das idéias em que se apóia o raciocínio, leva a falsas deduções.
Se antes, porém, de formularmos qualquer espécie de pensamentos a respeito do fato da prece, procurarmos reconhecer que nos encontramos ainda muito distantes do seu fundamento, compreenderemos, então, que o real sentido que sua verdadeira razão encerra não é aquele que, presentemente pensamos.
Precisamos compreender que quando nos referimos ao Criador, dizendo que nos “vê”, nos “ouve” e nos “entende”, estamos servindo-nos de expressões que se radicam nas ideologias do passado. Pensamentos ideológicos, através dos quais Deus é concebido antropomorficamente, o que induz a interpretação humana a julgar que Deus “sente”, “pensa”, “quer”, etc.
E, quando a ser Deus Onipresente, Onipotente e Onisciente, o que, sob o ponto de vista humano, fundamenta a razão de pensarmos que não se deve pedir-Lhe nada, pois sabe Ele melhor que nós as nossas reais necessidade, também precisamos reconhecer que é uma interpretação que é lógica para o nosso relativo e limitado alcance conceptual.
A esse respeito já observou Jesus, quando recomendou para orarmos em oculto, e não usarmos palavras vãs como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos; e acrescentou; “porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes”.
É evidente que os predicados que o ser humano atribui a Deus representam a tradução do máximo que lhe é possível conceder atualmente a Seu respeito. Mas, Deus-Criador é inconcebível, logo, é impossível ao ser humano, no seu presente estado evolutivo, interpretar, descrever, conceber, a Sua forma de Expressão.
Através da mais aprofundada concepção alcançada pelo entendimento contemporâneo, já chegamos à compreensão de que Deus é impessoal, portanto, Absoluto, e Está em toda parte. E, na mais alta forma humana de conceber, pensamos que é Ele a Alma do Todo, o Deus-Criador, a Causa da Vida, etc., mas , também já certos de que não nos é possível afirmar nada positivamente a respeito da Sua Real Natureza e Força de Ação nos Universos do Cosmo.
Nós, os habitantes do planeta Terra, estamos ainda infinitamente distantes da Verdade Fundamental da Existência, entretanto já temos comprovada certeza de que a Vida Universal é regida por Sábias Leis, e de que tudo na vida se movimenta numa perfeita e impecável harmonia de princípios invariáveis e constantes, o que nos faz ver Deus em toda parte e senti-Lo dentro de nós.
E na nossa vida, como no perfeito sistema do Organismo da Existência, também tudo se cumpre com infalível precisão, sem a mínima possibilidade de falha ou derrogação, e, de modo geral, indefectivelmente com inalterada determinação, o que torna evidente, não ser admissível que a vontade de alguém possa interferir de algum modo a fazer com que seja suprimido um efeito-conseqüência de uma causa-motivo.
Já sabemos hoje que o verdadeiro caráter da prece dirigida a Deus não é “forçar a Sua misericórdia”, “implorar a Sua caridade”, “despertar a Sua compaixão”, menos para que “Veja” isto ou aquilo, ou que “Tome conhecimento” desta ou daquela situação, mas pôr a criatura em contacto com a Fonte do Poder e do Amor. Mas, como a criatura humana ainda se encontra no nível evolutivo que não lhe permitiu superar as formas arcaicas de conceber as coisas espirituais, então nas suas necessidades, volta-se ao Criador, com expressões humanas do entendimento comum , tais como: “tende misericórdia de mim”, “olhai para os que sofrem”, “tende piedade deste inocente”, “tende compaixão deste pecador”, etc.
Embora a maioria dos seres humanos o faça inconscientemente, nas suas preces, colocam suas mentes, relativamente, em sintonia com os Planos Superiores e com as Forças do Bem, e, à medida do possível, são atendidos no que pedem; para serem ajudados, esclarecidos, aliviados, melhorados e curados.
Na prece, portanto, a criatura entra em comunicação com o Alto, estado de Alma que torna propício o recebimento de vibrações benéficas, emitidas em seu favor.
As súplicas de uma fervorosa prece não alteram o que por natureza tem que se cumprir, mas podem fazer com que seja suavizada a prova de uma criatura, bem como prevenir que aconteça o que não lhe está imperiosamente destinado.
Sem derrogar as Leis, sem alterar o ritmo do curso natural das coisas, uma prece vibrada com todas as forças do coração, pode amenizar o sofrimento de uma dura prova, quando se trata de casos em que a dor é reclamada como remédio para o espírito, e resolver situações difíceis, afastar espíritos sofredores, e até mesmo operar curas, quando se trata de casos em que o que atinge a criatura é uma conseqüência momentânea motivada pelas circunstâncias do meio, que, aliás, sempre tem a finalidade edificante de conduzi-la ao bom caminho, de adverti-la sobre algum erro cometido, de fazê-la compreender algo proveitoso para o seu adiantamento espiritual, de fazê-la passar por uma experiência necessária à sua evolução, etc.
Portanto, está enquadrado no rigoroso funcionamento das Leis da vida o surpreendente e, aparentemente, milagroso resultado de um pedido sincero e confiante, feito através de uma elevada prece ao Criador.
A prece, pois, em dados momentos, quando as negras nuvens de pensamentos negativos obscurecem o horizonte de nossa vida, é a chave de contacto que faz chegar até nós as luzes de que necessitamos, das Esferas Espirituais; quando debilitados, pelos excessos da materialidade, é o conduto, através do qual, do Alto, chegam até nós as requeridas forças restauradoras; quando caídos na estrada da dor, clamando para que nos ajudem, é o ecoante gemido que atrai o “bom samaritano”, que nos acode e nos trata com dedicação cristã; quando mos acoitados pelas tormentas dos duros golpes da adversidade, é o que nos achega à mão amiga que nos protege e nos conduz ao posto de salvamentos; quando acometidos por graves enfermidades, é a sineta que soa no espaço, chamando o socorro da assistência espiritual, que bondosa e abnegadamente nos atende com seus superiores recursos extraterrenos; quando desnorteados no labirinto dos reveses que sobrevêm nos círculos da existência, é a forma de ouvir a voz do céu, que nos dita como reencontrar o caminho; quando desgovernados no agitado mar das aflições e da incerteza, é o cabo invisível que nos une à firme âncora do além que nos garante a segurança, evitando que soçobremos; quando tristes e amargurados nas jornadas da expiação, é o extraordinário toque que vai às alturas, chamando o Consolador que, com seus fluídos balsâmicos e suas irradiações de amor, nos vem fortalecer e encorajar; quando em pleno deserto das provas terrenas, é a abençoada trilha que nos leva ao acolhedor oásis que contém a fresca e reconfortante água do espírito, que suaviza a alucinante sede do sofrimento; enfim, a prece é aqui na Terra, como em todos os planos de vida da Colméia Cósmica, o maravilhoso meio que faculta a criatura a entrar em comunicação com o Mundo Espiritual, e, em relação ao estado de consciência, com o Manancial da Existência.

Nome do Artigo – Autor: Bruno Bertocco – Fonte: Anuário Espírita – 1967

terça-feira, 14 de julho de 2009

LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE

EM HOMENAGEM AOS 220 ANOS DA QUEDA DA BASTILHA


LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE

Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Estas três palavras constituem, por si só, o programa de toda uma ordem social que realizaria o mais absoluto progresso da Humanidade, se os princípios que elas exprimem pudessem receber integral aplicação. Vejamos quais os obstáculos que, no estado atual da sociedade, se lhes opõem e, ao lado do mal, procuremos o remédio :
A fraternidade, na rigorosa acepção do termo, resume todos os deveres dos homens, uns para com os outros. Significa: devotamento, abnegação, tolerância, benevolência, indulgência. É, por excelência, a caridade evangélica e a aplicação da máxima: “Proceder para com os outros, como quereríamos que os outros procedessem para conosco.” O oposto do egoísmo. A fraternidade diz: “Um por todos e todos por um” O egoísmo diz: “Cada um por si.” Sendo estas duas qualidades a negação uma da outra, tão impossível é que um egoísta proceda fraternalmente para com os seus semelhantes, quanto a um avarento ser generoso, quanto a um indivíduo de pequena estatura atingir a de um outro alto. Ora, sendo o egoísmo a chaga dominante da sociedade, enquanto ele reinar soberanamente, impossível será o reinado da fraternidade verdadeira. Cada um a quererá em seu proveito; não quererá, porém praticá-la em proveito dos outros, ou, se o fizer, será depois de se certificar de que não perderá coisa alguma.
Considerada do ponto de vista da sua importância para a realização da felicidade social,: é a fraternidade está na primeira linha à base. Sem ela, não poderiam existir a igualdade, nem a liberdade séria. A igualdade decorre da fraternidade e a liberdade é a conseqüência das duas outras.
Com efeito, suponhamos uma sociedade de homens bastante desinteressados, bastante bons e benévolos para viveram fraternalmente, sem haver entre eles nem privilégios, nem direitos excepcionais, pois de outro modo não haveria fraternidade. Tratar a alguém de irmão é tratá-lo de igual para igual; é querer quem assim trate, para ele, o que para si próprio quereria. Num povo de irmãos, a igualdade será a conseqüência de seus sentimentos, da maneira de procederam, e se estabelecerá pela força mesma das coisas. Qual, porém, o inimigo da igualdade ? O orgulho, que faz queira o homem ter em toda parte a primazia e o domínio, que vive de privilégios e exceções, poderá suportar a igualdade social, mas não a fundará nunca e na primeira ocasião a desmantelará. Ora, sendo também o orgulho uma das chagas da sociedade, enquanto não for banido, oporá obstáculo à verdadeira igualdade.
A liberdade, dissemo-lo, é filha da fraternidade e igualdade. Falamos da liberdade legal e não da liberdade natural, que, de direito, é imprescritível para toda a criatura humana,, desde o selvagem até o civilizado. Os homens que viviam como irmãos, com direitos iguais, animados do sentimento de benevolência recíproca, praticarão entre si a justiça, não procurarão causar danos uns aos outros e nada, por conseguinte, terão que temer uns dos outros. A liberdade nenhum perigo oferecerá, porque ninguém pensará em abusar dela em prejuízo de seus semelhantes. Mas, como poderiam o egoísmo, que tudo quer para si, e o orgulho, que incessantemente quer dominar, dar a mão à liberdade que os destronaria ? O egoísmo e o orgulho são, pois, os inimigos da liberdade, como o são da igualdade e da fraternidade.
A liberdade pressupõe confiança mútua. Ora, não pode confiança entre pessoas dominadas pelo sentimento exclusivista da personalidade. Não podendo cada uma satisfazer-se a si própria senão à custa de outrem, todas estarão constantemente em guarda umas contra as outras. Sempre receosas de perderam o a que chamam seus direitos, a dominação constitui a condição mesma da existência de todas, pelo que armarão continuamente ciladas à liberdade e a coarctarão quanto puderem.
Aquele três princípios são, pois, conforme acima dissemos, solidários entre si e se prestam mútuo apoio; sem a reunião deles o edifício social não estaria completo. O da fraternidade não pode ser praticado em toda a pureza, com exclusão dos dois outros, porquanto, sem a igualdade e a liberdade, não há verdadeira fraternidade. A liberdade sem a fraternidade é rédea solta a todas as más paixões, que desde então ficam sem freio; com a fraternidade, o homem nenhum mau uso faz da sua liberdade: é a ordem, sem a fraternidade, usa a liberdade para dar curso a todas as suas torpezas: é a anarquia, a licença. Por isso é que as nações mais livres se vêem obrigadas a criar restrições à liberdade. A igualdade, sem a fraternidade, conduz aos mesmos resultados, visto que a igualdade reclama a liberdade; sob pretexto de igualdade. O pequeno rebaixa o grande, para lhe tomar o lugar, e se torna tirano por sua vez; tudo se reduz a um deslocamento de despostimo.
Seguir-se-á daí que, enquanto os homens não se acharem imbuídos do sentimento de fraternidade, será necessário tê-los em servidão ? Dar-se-á sejam inaptas às instituições fundadas sobre os princípios de igualdade e de liberdade ? Semelhante opinião fora mais que errônea; seria absurda. Ninguém espera que uma criança se ache com o seu crescimento completo para lhe ensinar a andar. Quem, ao demais, os tem sob tutela ? Serão homens de idéias elevadas e generosas, guiados pelo amor do progresso ? Serão homens que se aproveitem da submissão dos seus inferiores para lhes desenvolver o senso moral e elevá-los pouco a pouco à condição de homens livres ? Não; são, em sua maioria, os homens ciosos do seu poder, a cuja ambição e cupidez outros homens servem de instrumentos mais inteligentes do que animais e que, então, em vez de emancipá-los, os conservam, por todo o tempo que for possível, subjugados e na ignorância.
Mas, esta ordem de coisas muda de si mesma, pelo poder irresistível do progresso. A reação é não raro violenta e tanto mais terrível, enquanto o sentimento da fraternidade, imprudentemente sufocado, não logra interpor o seu poder moderador; a luta se empenha entre os que querem tomar e os que querem reter; daí um conflito que se prolonga às vezes por séculos. Afinal, um equilíbrio fictício se estabelece; há qualquer coisa de melhor. Sente-se, porém, que as bases sociais não estão sólidas; a cada passo o solo treme, por isso que ainda não reinam a liberdade e a igualdade, sob a égide da fraternidade, porque o orgulho e o egoísmo continuam empenhados em fazer se malogrem os esforços dos homens de bem.
Todos vós que sonhais com essa idade de ouro para a Humanidade trabalhai, antes de tudo, na construção da base do edifício, sem pensardes em lhe colocar a cúpula; ponde-lhe nas primeiras fiadas a fraternidade na sua mais pura acepção. Mas, para isso, não basta decretá-la e inscrevê-la numa bandeira; faz-se mister que ela esteja no coração dos homens e não se muda o coração dos homens por meio de ordenações. Do mesmo modo que para fazer que um campo frutifique, é necessário se lhe arranquem os pedrouços e os tocos aqui também é preciso trabalhar sem descanso por extirpar o vírus do orgulho e do egoísmo, pois que aí se encontra a causa de toda mal, o obstáculo real ao reinado do bem. Eliminai das leis, das instituições, das religiões, da educação até os últimos vestígios dos tempos de barbárie e de privilégios, bem como todas as causas que alimentam e desenvolvem esses eternos obstáculos ao verdadeiro progresso, os quais, por assim dizer, bebemos com o leite e aspiramos por todos os poros na atmosfera social. Somente então os homens compreenderão os deveres e os benefícios da fraternidade e também se firmarão por si mesmos, sem abalos, nem perigos, os princípios complementares, os da igualdade e da liberdade.
Será possível a destruição do orgulho e do egoísmo ? Responderemos alto e terminantemente: SIM. Do contrário, forçoso seria determinar um ponto de parada ao progresso da Humanidade. Que o homem cresce em inteligência, é fato incontestável; terá ele chegado ao ponto culminante, além do qual não possa ir ? Quem ousaria sustentar tão absurda tese ? Progride ele em moralidade ? Para responder e esta questão, basta se comparem as épocas de um mesmo país. Por que teria ele atingido o limite do progresso moral e não o do progresso intelectual ? Sua aspiração por uma melhor ordem de coisas é indício da possibilidade de alcançá-la. Aos que são progressistas cabe acelerar esse movimento por meio de estudo e da utilização dos meios mais eficientes.
Allan Kardec
Do livro “Obras Póstumas” 1890

MATERIALIZAÇÕES


Ismael Gomes Braga
No começo de 1964 a apreciada revista "O Cruzeiro" pôs em discussão pública os fenômenos de materialização de Espíritos. Pela revista, pelo jornal, pelo rádio, pela televisão, esses fenômenos entraram em calorosa e benéfica discussão perante o grande público, quando em via de regra esses fenômenos são estudados somente em pequenas rodas de iniciados. Esta discussão é utilíssima, porque mais cedo ou mais tarde a verdade vence toda a oposição, e a materialização de Espíritos é verdade demonstrada durante cem anos de estudos de sábios.
Como já assistimos a longas séries de sessões de materialização, aproveitamos . a oportunidade para mencionar algumas observações inéditas e que talvez possam interessar aos estudiosos, não aos negadores sistemáticos.
Em todas as nossas sessões os Espíritos que dirigiam os trabalhos exigiam que o médium ficasse bem ligado à poltrona e manietado, alegando que ele correria perigo durante o transe, e quase sempre no fim da sessão nós o encontrávamos exatamente como o deixáramos antes„ porém certa vez houve uma exceção muito chocante.
Deixam0os o médium muito bem ligado pelo tronco, pelos braços e pelas pernas à poltrona, na cabina escura. A sessão correu bem.
Dentro da cabina escura havia uma vitrola com duas pilhas de discos fonográficos. Quando se iniciava a sessão, falando em voz direta de dentro da cabina, o Espírito nos perguntava que disco desejávamos ouvir. Cada um de nós dizia o nome de um disco e ele o procurava nas pilhas, punha na vitrola e o executava, demonstrando assim que via perfeitamente bem no escuro absoluto.
Apareceram diversos Espíritos materializados, todos iluminados, uns mais, outros menos, por sua própria luz. Quando recebemos ordem de fazer a prece final, foi-nos advertido:
"Abreviem o encerramento, porque o médium vai despertar e sentir dores; tivemos que modificar o controle que vocês fizeram."
Abreviamos a prece e corremos para a cabina, porque o médium começara a soltar dolorosos gemidos. Fomos encontrá0lo numa posição incrível: com o tronco dobrado como se não tivesse espinha dorsal; a cabeça entre os joelhos, fortemente atada às pernas, e estas à cadeira. Pela cintura, estava ligado ao espaldar da cadeira. A corda lhe entrava pela carne no pescoço e nos dificultava cortá-la ou desatar os nós.
Ele sofria e gemia profundamente, em grande ansiedade. Finalmente conseguimos cortar a corda do pescoço e libertá-lo daquele sofrimento. Ele não se lembrava de nada que se passara estava em sono profundo quando foi mudado o controle.
As cordas eram as mesmas que havíamos empregado, mas todo o controle que havíamos feito tinha sido substituído por outro, mais apertado e bárbaro.
Ninguém entrara na cabina. Todos eram companheiros honestos, estudiosos sérios. A sessão se realizava num lar amigo, de toda a nossa confiança.
Mesmo admitido que alguém houvesse entrado na cabina, ninguém poderia dobrar assim um corpo humano. Só o puderam fazer os Espíritos, em sono profundo e em parte desmaterializado o corpo do médium.
A desmaterialização parcial ou total do corpo do médium é bem conhecida e foi observada com Miss d'Esperance, Centurione Scotto, Dona Ana Prado e outros médiuns.
Os desconhecedores dos fenômenos se limitam a negar esses fatos, mas, apesar de todas as negações, eles são verdadeiros.
Noutra sessão e com outro médium, o controle era mais severo. A poltrona do médium estava aparafusada ao soalho e ele algemado e fortemente ligado a ela.
Materializou-se um índio gigantesco, com uma força hercúlea. Com sua mão enorme pegou-me na cabeça e a torceu, quase a deslocando do pescoço. Tomou de cima da mesa uma estatueta de gesso duríssimo, recoberta de uma substância fosforescente, para ser vista no escuro, e quebrou-a toda entre os dedos, como se fosse casca de pão.
Depois de outras demonstrações de força, arrancou do soalho a poltrona com o médium e colocou-a brutalmente em cima da mesa, fora da cabina. Nem dois ou três homens fortes poderiam realizar essa proeza, tão idiota e sem gosto.
Os pesquisadores de fraudes podem negar à vontade, porque o fato é verdadeiro e de certa forma inexplicável.
Ao lado desses fatos grosseiros, assistimos a outros de grande beleza.
Cecília era um Espírito de belíssima jovem que aparecia ricamente iluminada, vestida de noiva, com um belo ramalhete de flores no braço esquerdo.
A uma sessão compareceu um assistente cego, guiado pela esposa. Quando Cecília se aproximou do casal, a Senhora exclamou
"Que pena você não poder vê-Ia! Não é uma noiva, é um anjo descido do céu!"
Nesse momento - coisa incrível! - o ramalhete de flores desapareceu, e Cecília, com as duas mãos livres, tomou as mãos do cego e levou-as ao seu próprio rosto, depois à cabeleira, fazendo que ele pelo tato lhe percebesse as formas.
O cego exclamou, comovido
"Obrigado, Cecília! O cego vê pelo tato: tua bondade me permite ver-te! Deus te pague!"
Depois, ela lhe aplicou passes magnéticos sobre os olhos e nós víamos partirem de suas mãos centelhas de luz azul.
Nosso grupo de estudiosos não procurava fraudes, só procurava fatos positivos para estudar e aprender, e obtivemos os mais variegados fenômenos. Mas houve igualmente sessões negativas, sem nenhum fenômeno e sem explicação alguma do insucesso.
Há também quem não procura fenômenos, só procura fraudes, e estes igualmente recebem o que procuram: fraudes por toda à parte, reais ou imaginárias!
Sua má fé os sintoniza com Espíritos que sentem prazer em decepcioná-los e em fazê-los ver mistificações e fraudes em todas as sessões.
Os semelhantes se atraem mutuamente: quem busca a verdade, com humildade e paciência, termina por encontrá-la; mas quem só imagina mistificação e fraude, em seus irmãos, encontra o que procura: sofre mistificações e fraudes.
Os fenômenos inteligentes são mais convincentes do que os físicos.
Um livro cheio de sabedoria, escrito harmoniosamente por um só Espírito e pelas mãos de dois médiuns, como "Sexo e Destino", ou um livro de belos versos, escritos por cento e dez poetas espirituais, em seus estilos próprios, e pelas mãos de dois médiuns de graus de cultura muito diferentes, como "Antologia dos Imortais", tem muito mais força de convencer do que uma longa série de sessões de efeitos físicos.
No Brasil já temos uma rica literatura mediúnica à disposição dos estudiosos. Quem realmente deseje aprender, deve estudar nossa literatura, começando de Allan Kardec até chegar aos nossos dias.
Essa multidão de espíritas que existe hoje no Brasil e que vão realizando uma obra social digna de todos os louvores, foi, toda ela, convencida pelos fenômenos inteligentes, não por efeitos físicos.
Esperemos que esta ampla discussão das materializações desperte maior atenção para nossa literatura, para algumas centenas de bons livros que existem em nossa língua e que o Espiritismo faça novas conquistas.
A discussão será benéfica para muitos.
Reformador – Março de 1964.

domingo, 5 de julho de 2009

ESPÍRITO LIVRE



A ciência vem trabalhando, pelos meios de que dispõe, para encontrar o Espírito. Ela já sentiu a sua presença em muitas das suas pesquisas, e é por essa verdade que o procura.
Notamos o grande interesse de todo o mundo científico e filosófico na busca de mistérios, cujos fenômenos têm beneficiado todos os povos, desde os fatos sociais mais puros à fé humana e divina.
O Espírito é força, dentro da força maior, Deus, que o alimenta e sustenta em todos os rumos, condicionando valores e desatando luzes em todos os corações. A alma, mesmo presa à matéria, é livre na sua essência.
Ela tanto cede aos processos inferiores, quanto se interliga com o bem, dando forma à energia, para trabalhar no campo imenso da expansão das qualidades elevadas, que vibra em tudo, pelo amor que irradia em todas as substâncias.
Pelo pensamento podemos deduzir que somos individualidade separada da matéria, e que a matéria é uma substância separada do Espírito, porém, no caso do Espírito encarnado, é forçoso compreender a necessidade da alma progredir e fazer com que a matéria avance com o progresso, desfazendo-se da sua própria letargia. Quanto mais estudamos, mais vamos tomando conhecimento dos segredos da natureza, compatíveis aos segredos do Espírito, e esses conhecimentos nos trazem certa luz e força, de maneira a nos libertar, ou ajudar na nossa libertação espiritual.
Podemos conhecer o Espírito sem a matéria. A experiência do momento pelo qual passamos nos dá meios para este conhecimento, não somente pelas experiências próprias, como pelas anotações e vivência dos outros. Cada trabalhador deste campo dar-nos-á uma parcela de confirmações da existência da alma livre da matéria. Os irmãos que carregam no coração a infelicidade de negar a sua própria existência como Espírito livre que sobrevive depois do túmulo, estão mentindo para si mesmos, esforçando-se para apagar a chama de verdade, acesa no coração pela mão divina.
Ninguém consegue contrariar as leis espirituais. A força de Deus as sustenta e dá vida. Negar o próprio Pai é desmantelo da consciência, e desajuste dos próprios sentimentos.
Não existe uma família, uma criatura sequer na Terra, que já não tenha constatado um fenômeno de ordem espiritual. Cada vez que o tempo avança, mais visíveis vão ficando as comunicações dos desencarnados com os que transitam na carne, trocando idéias, estimulando sentimentos e inspirando escritores em todos os campos do saber. Negar os fatos tão comuns entre os homens é torcer uma verdade que está desabrochando como o Sol do meio dia.
O Espírito é livre e comunica onde quer que seja, fazendo a vontade de Deus na instrução e no amparo a todas as criaturas da Terra. Quem nega o Espírito está recebendo seus benefícios pela água que bebe, pelas vestes que usa, pela comida que o alimenta, pelo ar que respira e pela paz que desfruta, porque os Espíritos do Senhor, em falanges do bem, têm ação em todos os reinos da natureza, para que surja a harmonia na criação. Se a própria ciência, nos dias que correm, já nos mostra muitas coisas que estavam antes invisíveis, e, se já desfrutamos destes véus que se suspenderam, como não crer no mais além?
A carne é um dos véus inúmeros na escala infinita dos segredos de Deus. Se estudarmos profundamente os fundamentos filosóficos, encontraremos verdadeiramente o Espírito envolvido em outros corpos, que lhe garantem a grande viagem evolutiva para Deus, o seu Criador. Entretanto, ele não depende do corpo para continuar a sua vida em outra faixa, o corpo é que depende dele para lhe garantir a forma que usa como homem.
Procuremos trabalhar para maior liberdade, que nesse esforço, sendo uma prece, os Céus nos atenderão, fazendo-nos cada vez mais livres.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

ANJOS DESCONHECIDOS

Há guardais espirituais que te apóiam a existência no plano físico e há tutores da alma que te protegem a vida mesmo na Terra.
Freqüentemente centralizas a atenção nos poderosos do dia, sem ver os companheiros anônimos que te ajudam na garantia do pão. Admiras os artistas renomados que dominam nos cartazes da imprensa e esquecem facilmente os braços humildes que te auxiliam a plasmar, no santuário da própria alma, as obras-primas da esperança e da paciência. Aplaudes os heróis e tribunos que se agigantam nas praças;todavia, não te recordas daqueles que te sustentaram a infância, de modo a desfrutares as oportunidades que hoje te felicitam. Ouves, em êxtase, a biografia de vultos famosos e quase nunca te dispões a conhecer a grandeza silenciosa de muitos daqueles que te rodeiam, na intimidade doméstica, invariavelmente disposta a te estenderem generosidade e carinho.
*
Homenageia, sim, os que te acenam dos pedestais que conquistaram merecidas mente, à custa de inteligência e trabalho; contudo, reverenciam também aqueles que talvez nada te falem e que muito fizeram e ainda fazem por ti, muitas vezes ao apreço de sacrifícios pungentes.
São eles pais e mães que te guardaram o berço, professores que te clarearam o entendimento, amigos que te guiaram à fé e irmãos que te ensinaram a confiar e servir... Vários deles jazem agora, na retaguarda, acabrunhados e encanecidos, experimentando agoniada carência de afeto ou sentindo o frio do entardecer; alguns prosseguem obscuros e devotados, no amparo às gerações que retomam a lide terrestre, enquanto outros muitos embora enrugados e padecentes, quais cerídeos do caminho, carregam as cruzes dos semelhantes.
Pensas nesses anjos desconhecidos que se ocultam na armadura da carne, e, de quando em quando, unge-lhes o coração de reconhecimento e alegria. Para isso, não desejam transfigurar-se em fardos nos teus ombros. Quase sempre, esperam de ti, simplesmente, leve migalha das sobras que atiras pela janela ou uma frase de estímulo, uma prece ou uma flor.

Emmanuel
Livro “Justiça Divina”-Psicografia Francisco Cândido