sábado, 29 de agosto de 2009

EM HOMENAGEM AOS 178 ANOS DE NASCIMENTO DO DR. ADOLFO BEZERRA DE MENEZES CAVALCANTI

A CASA DE DEUS
Bezerra de Menezes
A CASA DE DEUS, filhos, é o universo inteiro, porque Deus está em toda parte, a revelar-se para que as fôrças do mal não conduzam para as trevas os que buscam a luz, para orientar-lhes a caminhada pela estrada da vida, em roteiro seguro para a perfeita união com o Pai, que é o supremo amor, a suprema alegria, tão bem representado pelo espelho sublime que sua imagem reflete: JESUS.
O nosso Mestre amado ensina-nos em seu Evangelho de amor o caminho da Verdade, fazendo de nossos corações, alimentados por pensamentos puros de mentes já iluminadas para orientar as atitudes fraternas de paz e amor à serviço do Cristo de Deus, esclarecem as ovelhas a fim de que não se desviem do caminho verdadeiro, fazendo das casas de oração casas de comércio. Pois, onde as almas se reunem para o maravilhoso encontro com Deus, não se permite nem um só gesto que identifique qualquer transação comercial, porque o ouro traz a ambição e a ambição pelo ouro é que perde as almas, interrompendo a caminhada para Deus.
O Mestre Jesus nos adverte quanto a isso de forma bem concisa, que não deixa nem uma dúvida. Mas certos orientadores religiosos é que não querem entender a Divina Mensagem do Mestre.
Quando Jesus fez sua entrada triunfal em Jerusalém, o povo veio alegremente para as ruas para recebê-lo, bradando em vozes fortes e cheias de entusiasmo: Viva Deus nas alturas e Jesus entre os homens!
Jesus foi ao Templo. Pelos pátios, pelos arredores e dentro do Templo, se fazia mercado de animais, cereias e tudo quanto aquela gente possuía para vender, com o consentimento dos sacerdotes. Então, Jesus mandou que se retirassem dali com suas súplicas das criaturas a seu Criador. Foi para terem aquele recanto reservado, onde pudessem falar com Deus e seus anjos(ou Espíritos), que os homens construíram seus templos. É ali que as almas se abrem, cheias de fé, porque lá estão as vibrações puríssimas do Amor do Pai para suas criaturas.
Ali é famosa escada de Jacó, por onde sobem as preces, as súplicas, as manifestações de amor e gratidão, e por onde descem, em catadupas de amor, as bênçãos e as respostas que os céus enviam às almas da Terra. Profanar um templo é grande crime. Por isso o Divino Senhor espantou daquele lugar sagrado os que o maculavam com sua cobiça e egoismo.
Naquele acumulado de vibrações de amor, de prece, de perdão, na explosão da sua fé e confiança em Deus, as criaturas achavam-se em Jesus. Ele estava ali na manifestação da mais alcandorada efusão de amor para com Deus; e, por isso Ele disse: “A minha casa é casa de oração”. Sim ali, e onde quer se faça oração, está unido com o Cristo, porque Ele disse: “Eu e meu Pai soms um”. Assim, bem claro ficou seu pensamento, quando disse a João: “Não proibais que curem em meu nome, esses não são contra mim”.
E para que estejamos com Cristo, necessário se faz cumpramos seus ensinamentos evangélicos, não desobedecendo as suas determinações e procurando estar com Ele tanto quanto Ele está conosco.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

FRAGMENTOS DE UMA MENSAGEM A UM IRMÃO DE CRIAÇÃO

Stig Roland Ibsen
Para a maior parte dos Seres os tempos que sobrevêm à morte não existem. Para outros, estes tempos são de alçada Divina ou Juízo final de um Senhor supremo cujas decisões estão interditas à apreciação comum. No entanto, a todos importa sejam compreendidas as Leis que nos regem, ainda neste arcabouço, se possível, antes que a natureza o reclame, terminada a motivação principal de permanência do espírito; pois a realidade é totalmente diversa para aquele que expira e adentra na dimensão da espiritualidade.
Julgamos, portanto, oportuno o entendimento sobre o postulado da continuidade, da evolução pela Lei Moral, não a de salvação eterna de sua alma, que escapa a qualquer atribuição alheia. O mérito real é elaboração particular a que responde sintonia que determina: “a cada um segundo as suas obras”. Assim, qualquer localização postumária definitiva, segundo disposição absolutória é inaplicável, agora e sempre. Céu e Inferno são figurações de muitos, poucos efeitos à verdade, pois a vida é elaboração contínua da qual uma só existência é átimo sem poder de plena realização. A existência é algo mais que um processo de respiros até que se esgote a capacidade de usufruto e retenção da vida física!
Lembramos que a vivencia no plano físico, face à evolução, independe do tempo de criação e serve a qualquer, em qualquer lugar e tempo, de aperfeiçoamento. Se os valores extrínsecos a muitos confundem pelas rotulações humanas, atribuídas ou herdadas, só o espírito, submetido aos transes da vida e deles vitorioso pelo bem, possui o coração puro, acessório natural para o curso superior ai, aqui ou além.
Viver é sobreviver, não só pela utilização das Leis naturais, e sim de Leis Morais, o que determina o domínio espiritual, e é nesta relação que tem origem a nossa evolução.
Já de remotas eras vemos a conduta do Ser e as reversões acionadas pela maneira pré-figurada de sobreviver e realçamos que é necessário diferenciar e desassociar da perfeição, a paixão pela glória, sob todos os aspectos.
Ressaltamos desde já, embora o passado ignorado, que não existe algo a atribuir de um pecado original, pré – determinação de sofrimento; e, sim, algo que nos falta exigindo aperfeiçoamento. O porvir é conseqüencial do curso livre da tendência e arbítrio de nosso espírito, sempre sobrevivente. Inferimos que muitos se surpreendem nos acontecimentos sem causa lógica de que são testemunhas. A qualquer duvida resultante, das motivações, causas e efeitos desconhecidos, recorram ao princípio da continuidade, compreendendo que a ação e a reação é que combinam coerentemente os sucedimentos. Ao relacionar nos acontecimentos de ontem a nossa participação consciente, valorizemos agora o tempo em obras de amor, pois o progresso do Ser depende dela, da evolução, que é da criação toda, e ninguém librará justificado sem o cumprimento da Lei Moral.
Esgotar nossas tendências menos dignas pela prática da benquerença é procedimento exclusivo que permite não nos surpreendermos novamente no trânsito da espiritualidade da qual somos primeiros viajores.
Podemos, portanto, suprimir desde já do curso existencial o grosseiro fatalismo com o qual se imprime as coisas obscuras e adversas do caminho evolutivo. O sofrimento é o sinal da Lei de entramos na reação de nossas ações que representam analogia relativa por nós criada alhures. O entendimento de sua ação regenerativa atende a paz do espírito que reconhece: “a semeadura é livre mas a colheita é sempre obrigatória”.
Se até hoje o Ser confunde os valores dos bens materiais com os bens espirituais, é porque não realizou este último para avaliação do primeiro. Temos encontrado, por isso, objeções sérias, sobre a conduta do Ser que declina dos favores materiais quando estes significam rompimento da conduta moral. Esta atitude nasce exatamente por serem os bens materiais de valor transitório e os bens espirituais estáveis e eternos. O Ser espiritualizado nada mais fez do que aplicar-se ao que vale mais. Se a moral sugere ser difícil a um rico entrar no mérito, é porque se reconheceu que a riqueza tem o poder de obnubilar as tendências ascensionais que a virtude obriga. Não foi condenada a riqueza em si mesma, mas o Ser que sendo rico, salvo as raras exceções, dela se prevalece para dominar e aviltar. O tempo o surpreende pobre de recursos morais p[ara os benefícios da riqueza espiritual. Assim, muito embora se justifique a obtenção dos bens essenciais, sem o que passaríamos todos à condição de mendigos dos valores alheios, sabemos que o manuseio e a obtenção desses valores se regem por uma Lei, a moral, e a sua reversão nos será extremamente ruinosa e, preferivelmente, a esse preço, não os devemos adquirir. Como a miséria em qualquer tempo é resultante dos desvios de valores de bem comum (pelo jogo econômico para círculos egocêntricos ), assim a riqueza é a miséria espiritual. Encontramo-nos na vida física com uma média de vivência, cujo tempo de duração não vale a enormidade de sofrimento, em busca só de bens perecíveis. A quem atende o conseguimento moral senão a nós mesmos? A quem foi realçada a prática do: “amai-vos uns aos outros”senão a nós mesmos? Temos o poder de retificar, agora, desvios praticados há milênios, mas preferimos a reação compulsória da Lei, que nos entreva por séculos, pela nossa obstinação. Tendo em conta a eternidade de nossa existência, os múltiplos estados físicos e espirituais nos mais diversos planos do universo, é extremamente importante participar desta continuidade em harmonia com as leis que as regem. Iniciar pela reforma íntima é um passo decisivo na conquista do mérito. Manter-se fiel aos propósitos que o “querer bem”indica, perpetua o Ser na faixa dos benfeitores da humanidade. Esta reforma é extremamente difícil e a sua aplicação contínua ainda mais. Proponha-se, no entanto, a viver por este ideal maior que não exige rotulações humanas. A reforma íntima nada tem a ver com o do próximo e a ausência desta nos demais não desculpa a nossa. Assim, também não obriga resultados segundo padrões humanos, e quem consegue divisar a trajetória do Ser além da morte entende de que benefícios falamos. Aos que não alcançam esta verdade por falta de convicção íntima torna-se difícil aquilatar o sentido desta assertiva. Nós sabemos que a sobrevivência é lei da vida; determinadas expectativas não se esgotam ao primeiro impulso ascensional. O Ser pretende, sem o cumprimento do dever moral, participar dos benefícios da lei perfeccional de que tantos anunciaram a existência. Embora estejamos no respiro desta, dela só participaremos em perfeita harmonia de nossos sentimentos. Em vista às dificuldades de relacionar as benesses próprias desta conduta, o Ser se apega ao conjunto dos bens materiais, nem sempre equacionando os valores de ordem moral que estão em jogo, atraindo para si sofrimento segundo a ordem de idéia, poder e domínio, utilizados para a sua obtenção.
Não se lembra, nem cogita, de que seus alicerces já foram destruídos muitas vezes nesses milênios, com o sopro do desalento alheio!
O Ser é capaz de estarrecer um animal e seu pruridos de bondade não eliminaram ainda a miséria. A humanidade aplaude, ainda, o valor da força sobre a beleza; então, se no conjunto há tanto que fazer, por que aceitar que isso seja dever do próximo? No caminho percorrido até agora, foste o “Bom Samaritano”? Ora, enquanto não atingires este estado d’alma, indicativo do individuo integrado no bem, a Lei te debitará as reversões conseqüentes; ela te alcançará num ou noutro plano de vivência, em qualquer tempo onde esteja a tua consciência.
Temos, no entanto, como certo que todo Ser é levado ao seu plano de ação pelo processo evolutivo, de aspecto individual e coletivo, cujo principio de baseia no amor, a fim de ativar a solidariedade dele emanante. Assim, na análise da sucessão dos acontecimentos de livre escolha, esperamos que o Ser compreenda a sua evolução pela pluralidade existencial, e os conflitos, que se geram, a cada um, como uma advertência de que estamos colocados na faixa de ação-reação-reparação solicitada, situações essas que possuímos o poder de ativar, bem como de abreviar.
Muitos que analisam a existência levando em conta a sua pluralidade e as suas metas perfeccionais, encontram sérias objeções ao sofrimento que atinge o Ser no nascimento ou pela idiotia. Onde o processo regenerativo, evolutivo principalmente, daqueles que nem conseguem discernir? Como sentir que a vida, neste aspecto da sua manifestação, represente a justiça verdadeira? Não seria mil vezes mais lógico se aguardasse a plenitude física e racional para açoitar as inconseqüências da imaturidade do espírito? E, em que foi útil este período do sofrimento à ação da Lei? Vemo-los em posição infra-terrestre e sub-humana de vivência, incapazes sequer de captar os motivos do seu desterro, a expiar com dores atrozes em atitudes repelentes, entrevados física e espiritualmente!
Do ângulo em que nos colocamos, realizamos o tempo no espaço de nossas ascensões passadas e futuras, e abrimos a porta do entendimento da vida presente. A visão, exposta diretamente sobre a manifestação da Lei, não abona o sentimento de que Ela, ao realçar a prática do “amai-vos uns aos outros”, não a utiliza por sua vez na correção de nossas deficiências. Temos exposto que a sua vontade determina as situações do porvir, e que a Lei do relativo perfeccional aguarda a sua decisão agora. Se o amanhã é hoje assentado pela decisão superior do livre arbítrio, onde se cria a reação, causa e efeito da ação, devemos levar tudo desta ordem como sendo produto de nossas obras. Tanto o nascituro como o demente possuem no espírito noções de valores morais, e, distanciados da matéria, sentem e refletem sobre as motivações pessoais na experiência que passam. Embora a pluralidade da existência e de uma Lei ascensional geral, no sentido perfeccional, pela ação da Lei moral para o equilíbrio harmônico do sentimento, devemos ter em conta o produto de nossas obras que criamos pelo livre arbítrio, segundo nossa vontade, pelas quais somos os únicos responsáveis, e lhe pagamos o tributo devido até o ultimo ceitil.
Quando, então, vemos o Ser em atividade consciente, mas inconsciente quanto à reação da Lei, destruir, matar, torturar, roubar, mentir, enfim, assenhorear-se da vida e bens alheios, e dela dispondo com requintes de ferocidade, utilizando todos os meios aos fins mais escusos da luxúria, poder, soberba, domínio, dispondo quando oportuno de toda a capacidade para prejudicar ao próximo, então, quando retorna, o que o espera...
Mesmo o mais atroz dos sofrimentos representa, no tempo e na intensidade, a sua vontade. Assim, a Lei de que trata o sofrimento que lhe deprime o raciocínio é coisa sua e, se esgota no devido tempo de ajuste de contas solicitado. É imperioso, no entanto, amar o Ser em sofrimento. Trata-se de um irmão que buscou resgatar a dívida, perpassando-a em si mesmo, e, possivelmente dentro do grandioso declínio, surgirá a luz que nos iluminará a todos. Essa forma de resgate desejado permite a nossa sensibilidade conclusões errôneas, mas, antes do definitivo assentimento de opiniões sobre as Leis que nos regem, penetra no campo de expiação de cada um e encontrará justiça verdadeira em toda a amplitude onde alcança o raciocínio, desde que ultrapasse o átimo da vida presente e revele o passado obscuro e a radiosa oportunidade do tempo que chama AGORA!
O Ser participa dos planos habitacionais, quer físicos, quer espirituais, do universo, nas suas respectivas vibrações e dimensões, consoante a sua própria capacidade de sintonia. Encontramo-nos, por isso mesmo, uma imitação ditada pela própria evolução do Ser e das razões porque ele aí se encontra. Podemos acenar-lhe os benefícios da conduta puramente espiritualizada, sabendo, embora, que ele para o seu tributo á Lei moral, que lhe exige o devido atendimento. No entanto, numa visão mais ampla, encontramos que o plano físico é interligado ao espiritual, não importando onde estejamos, já que o espírito é sobrevivente numa ou noutra dimensão. Daí, o nascimento e a morte significarem somente a passagem de um para outro plano de criação, e, em cada plano há leis,ambientes e meios conseqüentes de adaptação. O plano espiritual, de dimensões mais complexas, e vibrações mais sutis, estabelecidas segundo faixas harmônicas, possui a faculdade de interligar-se, coexistindo no mesmo tempo-espaço com outros planos físicos o que a muitos confunde. Certos fenômenos visam exatamente levar o Ser a cogitar da existência em outras dimensões, conseqüentemente em vibrações diferentes. Assim, encontramo-nos na continuidade de nossa existência além do plano físico e, portanto, além do termo morte. O Ser, independentemente de crer nisso, participa dessa continuidade naturalmente.
Só na esfera espiritual pode funcionar o agrupamento dos afins, nas vibrações e faixas correspondentes, pelos aspectos intrínsecos dos valores morais conquistados. No plano físico essas vibrações coexistem na matéria condensada que as encerra. No entanto, o agrupamento familiar e coletivo indica plenamente a sintonia relativa que rotula o trânsito do espírito. O universo está, portanto, à disposição do viajor da vida, e, a Terra, situando-se na faixa de causa e efeito, ação-reação-reparação que lhe coube, é escola da alma, a cujo curso evolutivo recorremos desde o entendimento primário. No trato com as finalidades da vida, encontramo-nos nas incomensuráveis dimensões do nosso progredimento espiritual ao infinito.Certa sintonia intencional, com as outras faixas da espiritualidade, permitira ao nosso entendimento relacionar as objetivações da vida e perceber o que lhe falta. Neste intercâmbio, forçoso é lembrar: a permuta de valores se rege sempre pelas nossas preferências, pois as obrigações a cumprir se resumem no apelo milenar : “amai-vos uns aos outros de coração puro”.
Não podem provar aqui suas assertivas, mas elas estão nos inúmeros fatos que a história registra há milênios. Raros, no entanto, procuram a perfeição pelo trabalho ininterrupto no bem. Mas, a título de absolvição, buscam os vendilhões dos tempos, cuja mercadoria há muito não se valoriza no santuário das consciências livres. Não será, a evidência que permitirá ao Ser acreditar na sobrevivência e, sim, o seu entendimento, pois temos encontrado tremendas imposturas, face à prova, desvios esses que condicionamos à irresponsabilidade que caracteriza a muitos.
Não desejamos nesta mensagem limitar as realizações que a bondade atuante encerra, e nem mesmo excluir formas de entendimento outros que levam ao mesmo destino perfeccional, no que concerne ao poder do bem. Ao cogitar -mos que o Ser procura livremente se encerar na vida física, aspirando à liberdade do espírito, move-nos o desejo de ampara -lo.
Realçamos que existem nossos Irmãos, resplandecentes de luzes, e miríades de Seres que os acompanham, cada qual com a sua obra traçada, dispostos ao serviço de auxílio, que requer a graça do amor e da sabedoria. Aproximam-se de nós, sabendo do nosso destino comum, candidatos à humanidade desde milênios, após o conseguimento da forma elementar para abrigar o raciocínio. Eles, dispõem de há muito do entendimento, e sabem que a primeira obrigação é reverte-lo ao próximo. Eles nos identificam irmãos de criação carecendo de virtude, motivo principal de sua retórica, e sabem que estaremos em campos opostos a um certo tempo, já que a convicção íntima que os anima pode nos faltar. Não lhes interessa, e não os inspira outro desejo, senão o de servir e, se ao fim verificarem que o entendimento se fez, estarão gratos à oportunidade que lhe demos de pagar os tributos devidos a um irmão de criação.
Um irmão de criação.
Rio- São Paulo, Abril de 1952
Corrigido pelo Autor Espiritual em maio de 1992

domingo, 23 de agosto de 2009

ANIMOSIDADE

Viceja, ao lado da simpatia, no sentimento humano, a animosidade.
Reação psíquica, vinculada a vários fatores, atormenta a quem lhe padece o cerco e aflige a quem se lhe faz vítima, conduzindo-a n'alma.
Pode originar-se na competição inconsciente, quanto na inveja dissimulada, imiscuindo-se em várias expressões do comportamento, que envenena, a cada passo.
Toma a si a tarefa malsã de fiscal impenitente, perseguindo, à socapa, no disfarce da maledicência constante ou da crítica mordaz, não raro investindo com rigor em constante acusação.
Não desculpa os que lhe caem sob o talante, quando estes erram, nem permite que eles acertem, seguindo em paz.
Ante a atitude correta, dissemina a dúvida; em face do erro agride, insensata, quando de todos é o dever de ajudar.
Nunca te subordines às suas amarras.
Jamais a apliques contra alguém.
* * *
A animosidade é fator de desequilíbrio, sendo, já, manifestação alienadora.
Se lhe sentes as farpas, arrojadas por alguém que te antipatiza, luta para não revidar à agressão.
Não te deixes sintonizar nas faixas mentais em que se demoram os que se te apresentam animosos.
Procura ser gentil com eles, sem que te atormentes por conquistá-los.
Eles estão contra ti, impedindo-se cordialidade para contigo.
Não intentes vencê-los no tentame, a fim de que não te detenhas com eles.
Usa da afabilidade sem ser pusilânime.
O tempo logrará despertá-los, conduzindo-os corretamente.
* * *
Ninguém pretenda a simpatia geral.
Sempre há alguém que postula noutros conhecimentos, comportando-se de forma diversa ou que prefere, simplesmente, a atitude contrária.
Mesmo nas fileiras dos ideais que esposas, defrontá-los-ás.
Alguns não se dão conta que estão teledirigidos por outras mentes atormentadas interessadas no programa do divisionalismo, da perturbação.
Prossegue, porém, no teu caminho, vinculado ao compromisso que abraças, sem valorizar em demasia a animosidade dos insensatos.
Se souberes retirar a parte melhor do problema, a antipatia deles te ajudará a errar menos, porque, perseguido e vigiado, procurarás produzir com mais estímulo para o bem e para melhor.
* * *
A Sócrates, os adversários deram o vaso de cicuta, não porque ele necessitasse de punição, mas porque não o podiam submeter aos seus caprichos.
A Jesus, que também não se furtou à animosidade da sua época nem dos seus contemporâneos, ofereceram a cruz, numa tentativa de aniquilá-lo, sem, no entanto, perceberem que a trave horizontal fora transformada em asa de vitória e a vertical, em apoio para todos os ideais de enobrecimento da Humanidade como símbolo de perene vitória para quem almeja a glória espiritual.
De “Oferenda”, de Divaldo Pereira Franco, pelo Espírito Joanna de Ângelis

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A HISTÓRIA DE JOANA D'ARC DITADA POR ELA MESMA


Trecho do livro A HISTÓRIA DE JOANA D'ARC DITADA POR ELA MESMA, psicografia de Ermance Dufaux (médium de Kardec)


"Essa negociação logo começou a se arrastar; por um lado, o conde de Ligny não conseguia se decidir a me entregar aos meus inimigos e aos carniceiros da Inquisição; por outro lado, Carlos VII tentava obter, junto ao duque de Borgonha, uma autorização para pagar meu resgate. Esses atrasos aumentavam ainda mais o ódio de meus inimigos, que o descarregavam em todos os que se interessavam por mim, mesmo nos que guardavam um silêncio prudente. Uma bretã, chamada Pierrone, foi queimada por ter afirmado que eu era boa e que tudo o que eu fazia era bem feito, aos olhos de Deus. Para que fosse punida com alguma aparência de justiça, alegou-se que ela havia blasfemado, dizendo que Deus lhe aparecia freqüentemente, vestido com uma longa vestimenta branca, coberta por uma túnica vermelha. Mesmo que ela estivesse cometendo o delito de mentir, bastaria que fosse internada em um hospício.O conde de Ligny começou a vacilar; só foi contido pelos apelos de sua mulher, que se jogou a seus pés, por diversas vezes, para lhe suplicar que não me enviasse para a morte. Apesar dos cuidados que minhas nobres hospedeiras tomavam para me esconder as notícias, eu não deixava de tomar conhecimento delas. O que me causava mais sofrimento era estar impossibilitada de socorrer Compiègne. O desejo de levantar o cerco à cidade fora um dos maiores motivos de minha tentativa de evasão do castelo de Beaulieu. Meus inimigos se aproveitavam de minhas preocupações. Os guardas me davam, todos os dias, falsas informações, dando conta de derrotas dos franceses, ou de novas desgraças que teriam se abatido sobre eles. Vendo como isso me afligia, um deles chegou ao ponto de me dizer que todos os habitantes de Compiègne, a partir da idade de sete anos, seriam massacrados. Essa notícia me provocou uma dor tão grande que quase enlouqueci; muitas vezes eu gritava, em minha perturbação e agitação: Como Deus deixaria perecer as boas pessoas de Compiègne, tão fiéis a seu mestre?
A notícia de que eu fora vendida aos ingleses acabou por me fazer perder a cabeça. Decidi que iria tentar de tudo para não cair nas mãos dos inimigos, o que me deixaria completamente sem esperanças de socorrer os habitantes de Compiègne. Minhas santas protetoras tentaram, em vão, acalmar meu nervosismo. Só me restava uma oportunidade de escapar, mas era arriscada: teria que me atirar do alto da torre onde estava encerrada, que não tinha menos de 30 metros de altura. Não me ocorreu, entretanto, o pensamento de que eu pudesse me matar, ou mesmo me ferir. A execução desse projeto era bastante difícil para mim, vigiada como era. São Miguel, Santa Margarida e Santa Catarina, principalmente, fizeram de tudo para que eu mudasse de idéia. Santa Catarina me dizia, quase todos os dias, que não seria preciso que eu saltasse; que Deus viria me ajudar, assim como aos habitantes de Compiègne. Eu lhe respondi que, já que Deus iria socorrê-los, eu queria estar lá.
- Joana - respondeu ela -, é preciso que tu suportes com paciência o que acontecerá; tu não serás libertada antes que vejas o rei-menino da Inglaterra.
- Pois é - respondi eu. - Mas eu não quero vê-lo, nem cair nas mãos dos ingleses.
Quando chegou o momento propício, encomendei-me a Deus e a Nossa Senhora; fechei os olhos e tomei impulso. Primeiro, senti que percorria o espaço com rapidez; depois, tive a impressão de que minha queda se tornava mais lenta, como se braços estivessem me sustentando. Entretanto, quando toquei o solo, minha cabeça bateu com força contra uma pedra; a dor que senti me fez desmaiar. Os guardas acorreram; vendo-me imóvel, pensaram que estava morta. Logo recobrei os sentidos e lhes perguntei, completamente atônita, por que eu estava lá. Eles me disseram que eu tinha me jogado da torre. Perdera completamente a memória do que ocorrera.
Enquanto me desesperava por estar impossibilitada de correr em socorro dos habitantes de Compiègne, escutei a voz de Santa Catarina, que me dizia:
- Joana, tem coragem! Tu ficarás boa e o povo de Compiègne será socorrido.
Mas essa promessa não foi o suficiente para me tranqüilizar sobre o destino dos moradores daquela fiel cidade; fiquei tão abalada pela minha impotência em ajudá-los que passei três dias me recusando a ingerir qualquer tipo de alimento.Minha desobediência às determinações dos santos me causava muito desgosto. Santa Catarina, vendo que eu lamentava amargamente esse erro, disse-me que me confessasse e pedisse perdão a Deus. Obedeci. Ela me garantiu que Deus tinha me atendido e que, até a festa de São Martinho, do inverno, Ele socorreria os habitantes de Compiègne.
Minhas boas amigas, a senhora de Beaurevoir e a senhorita de Luxembourg, não me abandonaram; cercaram-me de cuidados constantes e não demorei a me restabelecer completamente. Uma nova provação me aguardava: teria que deixar essas amigas tão queridas, que Deus me concedera durante meu infortúnio. O momento do adeus foi muito doloroso; parecia a nós três que aquela seria a última vez em que nos veríamos na terra; um vago pressentimento me fazia temer infelicidades mais terríveis; mas a religião me deu apoio. Deixei-as levando no coração a esperança de revê-las em uma vida melhor.
Fui levada a Arras, lugar onde os oficiais nomeados pelos conselheiros do rei-menino deveriam me buscar. Logo me conduziram ao castelo do Crotoy, na Picardia. Lá fui tratada com muito mais rigor do que em Beaurevoir; mas também tive o consolo de uma amizade: um padre de Deus, homem cheio de mérito e virtudes, estava preso na mesma prisão. Era Nicolas Quenville, chanceler da igreja de Amiens, doutor em direito canônico e direito civil. Quase todos os dias, ele celebrava a santa missa em uma sala do calabouço que tinha essa finalidade. Como era muito devota, eu assistia sempre a essa missa e recebia quase todos os dias os sacramentos da eucaristia. Os santos me apareciam sempre, especialmente São Miguel. Ele fizera para mim diversas previsões a respeito da França; eu repetira a Carlos VII as que lhe diziam respeito, em particular. Todas se cumpriram. Os santos também me haviam feito grandes revelações sobre o duque Charles d'Orléans, então prisioneiro na Inglaterra; disseram-me, entre outras coisas, que seu filho único, que nasceu muitos anos após minha morte, subiria ao trono depois do neto de Carlos VII, e que sua memória seria venerada entre os franceses. Outras revelações importantes me foram feitas naquela época; mas repeti-las seria uma divagação inútil e tediosa.
Enquanto definhava resignadamente em uma triste prisão, as promessas de meus celestes protetores se realizavam: os franceses obtiveram diversas vitórias e Compiègne fora libertada. Gourmay-sur-Aronde, Pont-Sainte-Maxence, Longueuil e muitas outras cidades haviam permanecido sob domínio francês. Meus inimigos me ocultavam cuidadosamente essas notícias; mas os santos as contavam para mim e eu sentia mais alegria do que se tivessem anunciado minha libertação. Poton de Xaintrailles e seus bravos companheiros terminavam minha obra com dignidade, graças à sua bravura e à proteção dos Céus. Mas os ingleses me viram como a causadora de suas derrotas e sua raiva contra mim aumentou. Em altos brados, até os soldados mais rasos exigiam minha morte. Embora fosse sua prisioneira, eles me temiam tanto que se recusavam a participar de qualquer incursão, pensando que, enquanto eu vivesse, só poderiam obter derrotas.
Os ingleses subalternos se comportavam como tiranos em relação aos franceses, que suportavam o jugo com impaciência. Tiravam as mulheres de seus maridos e as filhas, de seus pais; subtraíam de infelizes pais de família, muitas vezes, os frutos de seu trabalho, para dissipá-los em orgias. Nada se podia comparar à horrenda miséria dos franceses. Muitos procuravam no suicídio um remédio para os males, que eram mais terríveis que a morte. Mas, em sua grande maioria, tornavam-se escravos dóceis e covardes aduladores de seus cruéis perseguidores. A Universidade de Paris, que tantas vezes dera exemplos de sabedoria, era então composta inteiramente por esse tipo de gente. Essa instituição escreveu duas cartas no dia 2 de novembro; uma delas, dirigida a Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, lamentava a lentidão deste, dizendo-lhe que, se ele tivesse agido com a presteza necessária, meu processo já teria começado; e que, longe disso, eu ainda nem estava em suas mãos. A carta terminava lhe fazendo um convite para me julgar em Paris. A outra missiva era destinada ao menino-rei, ou seja, aos seus conselheiros. Tinha por finalidade convencê-los a me entregar ao bispo de Beauvais e à Inquisição. O duque de Bedford e o cônsul inglês esperavam que essa medida jogasse sobre a nação francesa a desonra pública de uma morte que, afinal, seria útil aos interesses ingleses.
Novos reveses vieram agravar minha situação, aumentando o terror supersticioso de meus inimigos. Decidiram então me transferir para Rouen, onde estavam o rei-menino e seus conselheiros. Durante a viagem de Crotoy até a capital normanda, fizemos algumas paradas. Na última delas, enquanto me preparava para montar no cavalo, um inglês que estava perto de mim, achando que eu não montava com rapidez suficiente, deu-me um golpe de lança na parte do corpo que entra em contato com a sela. Embora o ferimento não fosse profundo, não deixou de me provocar dores insuportáveis.
Fui encarcerada na grande torre do castelo de Rouen. Haviam forjado, para mim, uma espécie de gaiola de ferro, dentro da qual me puseram. Fiquei em um espaço bastante estreito; puseram-me uma grossa corrente no pescoço, outra na cintura e outras nos pés e nas mãos. Teria sucumbido a esse terrível infortúnio se Deus e minhas santas protetoras não tivessem me trazido consolo. O anjo Gabriel, o mesmo que anunciou à Virgem Maria sua divina missão, veio me visitar diversas vezes. Nada pode descrever a tocante solicitude e o incrível conforto que me deram. Morrendo de fome, vestida pela metade, cercada de imundícies e machucada pelos ferros, eu tirava da religião a coragem para perdoar meus carrascos.
A duquesa de Bedford, irmã do duque de Borgonha, logo soube como eu estava sendo tratada; tocada pela piedade, tanto se aplicou em meu favor junto ao duque, seu marido, que fui transferida para um aposento bastante amplo, iluminado por uma janela que se abria para um campo. Minha situação foi um pouco amenizada. Durante o dia, eu era acorrentada pelos pés; mas as correntes eram bastante longas para me permitir andar um pouco na cela. Durante a noite, eu era presa pelos pés por um par de correntes presas firmemente em uma grande peça de madeira. Outra corrente era posta ao redor de minha cintura; de tal forma que eu não podia me mover. Cinco ingleses, escolhidos entre as camadas mais baixas da população, foram encarregados de me vigiar. Três deles dormiam de noite em minha cela, enquanto os dois restantes vigiavam a porta. Diariamente, atormentavam-me com as injúrias mais sórdidas; divertiam-se me acordando durante a noite, dizendo-me que eu iria morrer e que iriam me conduzir à fogueira. Apesar disso, eu não conseguia acreditar que os ingleses quisessem me matar, pois não cometera nenhum crime que pudesse me valer a pena capital. Achava que me devolveriam em troca de dinheiro; e que, se eu ainda não estava livre, era porque Carlos VII não terminara as negociações pelo meu resgate.
Eu era extremamente casta, mas essa virtude foi para mim uma fonte de novas provações. Meus guardas, sabendo que detestava os maus costumes, divertiam-se repetindo canções obscenas e trocando palavras indecentes. Não satisfeitos com as palavras, tentaram por diversas vezes me violentar. Isso acontecia tanto por vontade deles mesmos quanto por obediência ao bispo, que lhes prometera uma grande recompensa se conseguissem tirar minha virgindade. Caso tivessem conseguido, Cauchon poderia facilmente obter minha condenação como bruxa. A salvação do gênero humano saíra de uma virgem. Acreditava-se quase universalmente, no mundo cristão, que Satã nutria pela mulher imaculada uma aversão insuperável e respeitosa, o que tornava essa qualidade incompatível com a magia e a bruxaria. Certa vez, os guardas foram tão longe que, se o conde de Warwick, atraído por meus gritos, não tivesse vindo em meu socorro, eu estaria perdida. Graças a este senhor, os guardas foram trocados por outros, que me respeitaram mais. Os perigos desse tipo, que eu correra desde que saíra do castelo de Beaurevoir, fizeram-me sentir um profundo reconhecimento por minhas santas protetoras. Com meus trajes de homem, ficava menos expostas às indignidades. Se tivesse cedido à insistência das senhoras de Beaurevoir, ao sair da casa delas, teria perdido a segurança que agora me davam essas roupas.
Algumas pessoas vinham me observar, embora isso fosse um favor dificilmente concedido; o que era uma felicidade para mim, pois as perguntas de uns, as zombarias de outros e a curiosidade de todos, juntamente com uma enorme indiferença, eram-me extremamente penosas. Nas grandes desgraças, o isolamento é uma graça que todos os desafortunados sabem apreciar. Pelo menos podemos chorar à vontade, sem medo de olhares indiscretos e indiferentes.
Meu processo custou muito dinheiro aos ingleses; além da enorme soma que gastaram para me obter, pagaram todas as custas; fizeram também pagamentos consideráveis a todos os que nele tomaram parte.
O bispo não podia exercer seu poder na diocese de Rouen sem o consentimento do capítulo investido da autoridade arquiepiscopal, já que a sede de Rouen ainda não fora ocupada. Então solicitou a autorização aos religiosos, que obteve sem dificuldade. Os documentos que lhe concediam território e jurisdição para instruir meu processo em toda a região da diocese foram redigidos prontamente.
Os documentos promulgados pelo menino-rei surgiram logo depois. Em seu nome, os conselheiros autorizavam que eu fosse levada a julgamento. Mas enquanto concediam ao bispo de Beauvais o direito de instruir o processo, juntamente com a Inquisição, davam a entender que só me entregavam à justiça eclesiástica com certa repugnância. Os conselheiros se reservavam o direito de contestação, em nome do jovem Henrique, caso eu não fosse condenada à morte. Com isso, não restava para mim nenhuma oportunidade de salvação.
Cauchon tomou todas as precauções para seguir escrupulosamente os procedimentos utilizados pela Inquisição, de modo que o julgamento que iria presidir usufruísse da mesma validade infalível. Para isso, julgava indispensável a presença do inquisidor; portanto, envidou todos os esforços para convencê-lo a tomar parte no processo. Mas se ele desejava ardentemente que o irmão Jacques Graverand estivesse entre os juízes, este não desejava de forma nenhuma figurar no caso. Presentes, promessas, até ameaças de morte, nada foi poupado para vencer seus escrúpulos; por bem ou por mal, ele teve que se envolver em meu processo. Para a diocese de Rouen, ele indicou Jean Le Maistre, um dominicano, a quem não agradava muito a missão que lhe fora confiada. Ele levantou milhares de obstáculos e conseguiu participar apenas como testemunha e douto consultor. Mais tarde, entretanto, teve que aceitar o papel de juiz.
O bispo de Beauvais realizou uma conferência com oito doutores diplomados e mestres em ciências humanas, para combinar as primeiras medidas a serem tomadas. Jean Le Maistre não participou; no entanto, figurou como juiz no processo verbal dessa sessão. Nela foram levantados todos os detalhes necessários sobre minha pessoa, sobre minha captura e sobre meus pretensos crimes. Foram lidas todas as formalidades que diziam respeito ao meu processo, tais como os documentos que o autorizavam e as permissões territoriais concedidas ao bispo de Beauvais. Após a exposição de motivos da conferência, o bispo instruiu os colegas sobre as informações que já existiam sobre mim e, de comum acordo, decidiram que coletariam novas informações, mais amplas e precisas. Procedeu-se, então, à eleição dos oficiais do tribunal e ao estabelecimento de todas as preliminares do processo.
Quase todos os doutores sugeriram que eu deveria ser transferida, conforme o costume, para uma prisão eclesiástica; mas o bispo fez pé firme e declarou que não seria ele quem iria me tirar do castelo de Rouen. Essa resposta provocou muitos murmúrios. Mas Cauchon tomou tanto conhecimento do descontentamento dos doutores consultados quanto de minhas reclamações.
Numa segunda sessão, realizada em sua casa, o bispo leu o processo verbal da assembléia anterior e, em seguida, distribuiu aos conselheiros e aos juízes assistentes as informações obtidas a meu respeito, tanto em Domrémy quanto em Vaucouleurs, assim como nos lugares mais freqüentados por mim.
Tinham lhe informado que eu era boa filha, casta, modesta, paciente, moderada, prudente, muito meiga, trabalhadora, temente a Deus, e que gostava de cuidar de doentes; que era bem-educada, de acordo com meu nível social, e dotada de boas maneiras; que eu tinha uma conversa tranqüila e honesta; que nunca praguejava, que obedecia aos meus pais e que procurava a companhia das mulheres e moças mais virtuosas; que quando terminava os trabalhos domésticos, que me ocupavam desde o nascimento até a época em que deixei a região, em vez de perambular pelas ruas ou ir dançar com as outras jovens, eu ia me ajoelhar na igreja para rezar, com reverência e fervor; que eu era tão tímida que a menor palavra me perturbava; e tão caridosa que, freqüentemente, repartia meu pão com os pobres; enfim, tão hospitaleira que meu pai, muitas vezes, teve que usar de sua autoridade para me impedir de ceder meu leito a pobres desabrigados; que assistia regularmente às missas e recebia os sacramentos com a disposição de uma boa cristã; minhas ocupações, diziam, eram as de todas as crianças do vilarejo: o trabalho de colheita, juntamente com os outros moradores, e os cuidados com a casa, divididos com minha mãe e minha irmã. Meus divertimentos eram tão inocentes quanto minhas ocupações. De vez em quando, fazia peregrinações e acendia velas diante das imagens de Nossa Senhora e dos santos. No verão, trançava guirlandas de flores com minhas amigas, para decorar as capelas campestres. Costumava, também, ir com minhas amigas cantar sob a árvore das fadas; era uma grande faia, de notável beleza, que ficava próxima a uma fonte. Já falei dela no começo deste relato. A árvore servia de ponto de reunião para todo o povoado; moças e rapazes iam dançar lá, acompanhados de seus pais; lá fazíamos refeições campestres, alegradas pelos trovadores itinerantes ou pelas histórias contadas pelas boas mulheres do vilarejo; os castelãos de Domrémy não deixavam de se misturar a esses folguedos. Catherine de la Roche, senhora de Domrémy, esposa de Jean de Boulermon, sempre comparecia, acompanhada de suas filhas. Nas procissões, os galhos da árvore venerável, repletas de guirlandas, transformavam-se em um pequeno santuário florido, onde era depositada a imagem do Salvador do mundo.
Não havia nisso nada de repreensível. Cauchon decidiu então falsificar os depoimentos que compunham a investigação, que transmitiu à assembléia da maneira que achou melhor."

A RELIGIÃO E O PROGRESSO


Muito geralmente se pensa que hoje a Igreja admite o fogo do inferno como um fogo moral e não como um fogo material. Tal é, pelo menos, a opinião da maioria dos teólogos e de muitos padres esclarecidos. Contudo, não passa de opinião individual; não é uma crença adquirida pela ortodoxia. Do contrário seria universalmente professada. Pode julgar-se pelo quadro abaixo, que um pregador traçou do inferno, durante a última quaresma, em Montreuil-sur-Mer:
"O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da terra; e se um dos corpos que ali se queimam sem se consumir viesse a ser atirado ao nosso planeta, empestiá-lo-ia de ponta a ponta!
"O inferno é uma vasta e sombria caverna herissada de pregos pontiagudos, de lâminas de espadas afiadas, de navalhas bem cortantes, onde são precipitadas as almas dos danados!"
Seria supérfluo refutar esta descrição. Contudo, poder-se-ia perguntar ao orador onde colheu um conhecimento tão preciso do lugar que descreve. Certo não foi no Evangelho, onde não se trata de pregos, nem de espadas ou navalhas. Para saber se essas lâminas são bem amoladas e bem afiadas, é preciso tê-las visto e experimentado. Será que, novo Enéas ou Orfeu, ele próprio teria descido a essa caverna sombria, que aliás tem um grande traço de família com o Tártaro dos pagãos? Além disso, deveria ele ter explicado a ação que pregos e navalhas podem ter sobre as almas e a necessidade de serem bem afiados e de boa têmpera. Desde que ele conhece tão bem os detalhes interiores do local, também deveria ter dito onde está situado. Não é no centro da Terra, pois supõe o caso de um desses corpos que ela encerra ser lançado em nosso planeta. Então é no espaço? Mas a astronomia aí lançou o seu olhar muito antes, sem nada descobrir. É verdade que não olhou com os olhos da fé.
Seja como for, o quadro é feito para atrair os incrédulos? É mais que duvidoso, pois é mais próprio para diminuir o número dos crentes.
Em contrapartida, citaremos o seguinte fragmento de uma carta escrita de Riom, e referida pelo jornal la Vérité, no número de 20 de março de 1864:
"Ontem, para minha grande surpresa e grande satisfação, ouvi em pessoa esta confissão positiva sair da boca de um eloqüente pregador, em presença de numeroso auditório admirado: Não há mais inferno... o inferno não existe mais... foi substituído por uma admirável substituição: os fogos da caridade, os fogos do amor resgatam as nossas faltas!
"Nossa divina doutrina (o Espiritismo) não está encerrada inteiramente nestas poucas palavras?"
É inútil dizer qual dos dois teve mais simpatias do auditório: mas o segundo poderia, até, ser acusado de heresia pelo primeiro. Outrora teria expiado, infalivelmente, na fogueira ou numa prisão, a audácia de haver proclamado que Deus não faz queimar as suas criaturas.
Esta dupla citação nos sugere as seguintes reflexões:
Se uns acreditam na materialidade das penas, e outros, não, necessariamente uns têm razão, e outros não a têm.
Este ponto é mais capital do que parece à primeira vista, porque é o caminho aberto às interpretações numa religião fundada na unidade absoluta da crença e que, em princípio, repele a interpretação.
É bem certo que até hoje a materialidade das penas fez parte das crenças dogmáticas da Igreja. Porque, então, nem todos os teólogos nelas acreditam? Como nem uns, nem outros o verificaram por si mesmos, que é o que leva alguns a ver apenas uma imagem onde outros vêem a realidade, senão a razão que, nestes, supra a fé cega? Ora, a razão é o livre exame.
Eis, pois, a razão e o livre exame entrando na Igreja pela força da opinião. Poder-se-ia dizer, sem metáfora, ter entrado pela porta do inferno; a mão posta no santuário dos dogmas, não pelos leigos, mas pelo próprio clero.
Não se julgue esta uma questão de mínima importância; ela contém em si o germe de toda uma revolução religiosa e de um imenso cisma, muito mais radical que o protestantismo, porque não ameaça apenas o catolicismo, mas o protestantismo, a Igreja grega e todas as seitas cristãs. Com efeito, entre a materialidade das penas e as penas puramente morais, há toda a distância do sentido próprio ao sentido figurado, da alegoria à realidade. Desde que se admitam as chamas do inferno como alegoria, torna-se evidente que as palavras de Jesus: "Ide ao inferno eterno" têm um sentido alegórico. Daí a conseqüência de que o mesmo deve dar-se com muitas outras de suas palavras.
Mas a conseqüência mais grave é esta: Do momento em que se admita a interpretação deste ponto, não há motivo para a rejeitar sobre outros; é, pois, como dissemos, a porta aberta à a livre discussão, um golpe mortal no princípio absoluto da fé cega. A crença na materialidade das penas liga-se inteiramente a outros artigos de fé, que lhes são corolários; transformada essa crença, as outras transformar-se-ão pela força das coisas e, assim, pouco a pouco.
Eis, já, uma explicação. Há poucos anos ainda, o dogma Fora da Igreja não há salvação, estava em toda a sua força; o batismo era condição tão imperiosa, que bastava que o filho de um herético o recebesse clandestinamente e mau grado a vontade dos pais, para ser salvo, porque tudo quanto fosse rigorosamente ortodoxo era irremissivelmente condenado. Mas se tendo levantado a razão humana ao pensamento nos milhões de almas votadas às torturas eternas, quando não tinha dependido deles ser esclarecidas na verdadeira fé, inúmeras crianças que morrem antes de adquirir a consciência de seus atos e que, por isso, não são menos danadas, se a negligência ou a fé religiosa de seus pais as privou do batismo, a Igreja, a esse respeito, separou-se de seu absolutismo. Hoje, ela diz, ou, pelo menos, dizem os seus teólogos em maioria, que essas crianças não são responsáveis pelas faltas dos pais; que a responsabilidade só começa no momento em que, tendo a possibilidade de se esclarecerem, o recusam e que, desde então, essas crianças não são danadas por não haverem recebido o batismo; que o mesmo se dá com os selvagens e os idólatras de todas as seitas. Alguns vão mais longe: reconhecem que, pela prática das virtudes cristãs, isto é, a humildade e a caridade, pode-se ser salvo em todas as religiões, porque depende, também, da vontade de um indu, de um judeu, de um muçulmano, de um protestante, quanto de um católico, viver cristãmente; que aquele que vive assim está na Igreja pelo Espírito, mesmo que não o esteja pela forma. Não está aí o princípio Fora da Caridade não há salvação? É precisamente o que ensina o Espiritismo, e é exatamente por isto que ele é declarado obra do demônio. Porque essas máximas seriam antes o sopro do demônio na boca dos Espíritas do que na dos ministros da Igreja? Se a ortodoxia da fé está ameaçada, então não é pelo Espiritismo, mas pela própria Igreja, porque esta sofre, mau grado seu, a pressão da opinião geral e porque, entre os seus membros, alguns se encontram que vêem mais alto e nos quais a força da lógica supera a fé cega.
Sem dúvida pareceria temerário dizer que a Igreja marcha ao encontro do Espiritismo; é, entretanto, uma verdade que reconhecerão mais tarde. Mesmo marchando para o combater, nem por isso deixa de, pouco a pouco, assimilar os seus princípios, sem o suspeitar.
Esta nova maneira de encarar o problema da salvação é grave. Posto acima da forma, o Espírito é um princípio eminentemente revolucionário na ortodoxia. Sendo reconhecida possível a salvação fora da Igreja, a eficácia do batismo é relativa, e não absoluta: torna-se um símbolo. Não trazendo a criança não batizada a pena da negligência, ou da má vontade dos pais, em que se torna a incorrida por todo o gênero humano pela falta do primeiro homem? em que se torna o pecado original, tal qual o entende a Igreja?
O maiores efeitos por vezes decorrem de pequenas causas. O direito de interpretação e de livre exame, uma vez admitido na questão, aparentemente pueril, da materialidade das penas futuras, é um primeiro passo cujas conseqüências são incalculáveis, porque uma brecha na imutabilidade dogmática e uma pedra arrancada arrasta outras. A posição da Igreja é embaraçosa, temos que convir. Contudo, só há um dos dois partidos a tomar: ficar estacionária, a despeito de tudo, ou ir para a frente. Mas então não poderá escapar deste dilema: se se imobilizar de modo absoluto nos erros do passado, será infalivelmente superada, como já o é, pelo fluxo das idéias novas, depois isolada e, por fim, desmembrada, como o seria hoje, se tivesse persistido em expulsar de seu seio os que crêem no movimento da terra, nos períodos geológicos da criação; se entrar na via da interpretação dos dogmas, transforma-se e aí entra pelo simples fato de renunciar à materialidade das penas e à necessidade absoluta do batismo.
O perigo de uma transformação, aliás, está clara e energicamente formulado na seguinte passagem de uma brochura publicada pelo Pe. Marin de Boylesve, da Companhia de Jesus, sob o título de O Milagre do Diabo, em resposta à Revue des Deux-Mondes.
"Há, entre outras, uma questão que, para a religião cristã, é de vida ou de morte, a questão do milagre. A do diabo não o é menos. Tirai o diabo, e o cristianismo desaparece. Se o diabo não passar de um mito, a queda de Adão e o pecado original entrarão nas regiões da fábula. Por conseguinte a redenção, o batismo, a Igreja, o cristianismo, numa palavra, não têm mais razão de ser. Assim, a ciência não se poupa para apagar o milagre e suprimir o diabo".
De sorte que se a ciência descobrir uma lei da natureza, que faça entrar nos fatos naturais um fato que é reputado miraculoso; se ela provar a anterioridade da raça humana e a multiplicidade de suas origens, todo o edifício se esboroa. Uma religião é muito frágil quando uma descoberta científica é para ela uma questão de vida e morte. Eis uma confissão desajeitada. Por nossa conta estamos longe de partilhar das apreensões do Pe. Boylesve em relação ao cristianismo. Dizemos que o cristianismo, tal qual saiu da boca de Jesus, mas apenas tal qual saiu, é invulnerável, porque é a lei de Deus.
A conclusão é esta: Nenhuma concessão, sob pena de morrer. O autor esquece de examinar se há mais chances de viver na imobilidade. Nossa opinião é que há menos e que ainda é melhor viver transformado do que não viver mesmo.
Num caso, como no outro, a cisão é inevitável. Pode, até, dizer-se que já existe; a unidade doutrinária está rompida, desde que não há acordo perfeito no ensino; desde que uns aprovam o que outros censuram; uns absolvem o que outros condenam. Assim, vêem-se fiéis indo de preferência àqueles cujas idéias mais lhes convêm. Dividindo-se os pastores, o rebanho igualmente se divide. Dessa divergência à separação a distância não é grande; um passo a mais e os que estão à frente serão tratados como heréticos pelos que ficarem na retaguarda. Ora, eis o cisma estabelecido; aí está o perigo da imobilidade.
A religião, ou melhor, todas as religiões sofrem, mau grado seu, a influência do movimento progressivo das idéias. Uma necessidade fatal as obriga a se manter no nível do movimento ascencional, sob pena de serem submergidas. Assim, todas têm sido constrangidas, de tempos em tempos, a fazer concessões à ciência, fazer dobrar o sentido literal de certas crenças, ante a evidência dos fatos. A que repudiasse as descobertas da ciência e as suas conseqüências, do ponto de vista religioso, mais cedo ou mais tarde perderia sua autoridade e o seu crédito e aumentaria o número dos incrédulos. Se uma religião qualquer pode ser comprometida pela ciência, a falta não é da ciência, mas da religião fundada sobre dogmas absolutos, em contradição com as leis da natureza, que são leis divinas. Repudiar a ciência é, pois, repudiar as leis da natureza e, por isto mesmo, renegar a obra de Deus. Fazê-lo em nome da religião seria pôr Deus em contradição consigo mesmo e fazê-lo dizer: Eu estabeleci leis para reger o mundo; mas não acrediteis nessas leis.
Em todas as idades, o homem não foi capaz de conhecer todas as leis da natureza; a descoberta sucessiva dessas leis constitui o progresso. Daí, para as religiões, a necessidade de pôr suas crenças e os seus dogmas em harmonia com o progresso, sob pena de receberem o desmentido dos fatos constatados pela ciência. Só com esta condição a religião é invulnerável. Em nosso entender, a religião deveria fazer mais do que se pôr a reboque do progresso, que apenas acompanha constrangida e forçada: deveria ser uma sentinela avançada porque proclamar a grandeza e a sabedoria de suas leis é honrar a Deus.
A contradição existente entre certas crenças religiosas e as leis naturais fez a maioria dos incrédulos, cujo número aumenta à medida que se populariza o conhecimento dessas leis. Se fosse impossível o acordo entre a ciência e a religião, não haveria religião possível. Proclamamos altamente a possibilidade e a necessidade desse acordo porque, em nossa opinião, a ciência e a religião são irmãs para a maior glória de Deus e se devem completar reciprocamente, em vez de se desmentirem mutuamente. Estender-se-ão as mãos, quando a ciência não vir na religião nada de incompatível com os fatos demonstrados e a religião não mais tiver que temer a demonstração dos fatos. Pela revelação das leis que regem as relações entre o mundo visível e o invisível, o Espiritismo será o traço de união que lhes permitirá olhar-se face a face, uma sem rir, a outra sem tremer. É pela concordância da fé e da razão que diariamente tantos incrédulos são trazidos a Deus.
(Allan Kardec-Revista Espírita - julho - 1864)

domingo, 16 de agosto de 2009

O QUE É REFORMA ÍNTIMA

A Reforma Íntima é um processo contínuo de auto conhecimento da nossa intimidade espiritual, modelando-nos progressivamente na vivência evangélica, em todos os sentidos da nossa existência. É a transformação do homem velho, carregado de tendências e erros seculares, no homem novo, atuante na implantação dos ensinamentos o Divino Mestre, dentro e fora de si.

Por que a Reforma Íntima?
Porque é o meio de nos libertarmos das imperfeições e de fazermos objetivamente o trabalho de burilamento dentro de nós, conduzindo-nos compativelmente com as aspirações que nos levam ao aprimoramento do nosso espírito.

Para que a Reforma Íntima?
Para transformar o homem e a partir dele, toda a humanidade, ainda tão distante das vivências evangélicas. Urge enfileirarmo-nos ao lado dos batalhadores das ultimas horas, pelos nossos testemunhos, respondendo aos apelos do Plano Espiritual e integrando-nos na preparação cíclica do Terceiro Milênio.

Onde fazer a Reforma Íntima?
Primeiramente dentro de nós mesmos, cujas transformações se refletirão depois em todos os campos de nossa existência, no nosso relacionamentos com familiares, colegas de trabalho, amigos e inimigos e, ainda, nos meios em que colaborarmos desinteressadamente com serviços ao próximo.

Quando fazer a Reforma Íntima?
O momento é agora e já; não há mais o que esperar. O tempo passa e todos os minutos são preciosos para as conquistas que precisamos fazer no nosso íntimo.

Como fazer a Reforma Íntima?
Ao decidirmos iniciar o trabalho de melhorar a nós mesmos, um dos meios mais efetivos é uma Escola de Aprendizes do Evangelho, cujo objetivo central é exatamente esse. Com a orientação dos dirigentes, num regime disciplinar, apoiados pelo próprio grupo e pela cobertura do Plano Espiritual, conseguimos vencer as naturais dificuldades de tão nobre empreendimento, e transpomos as nossas barreiras. Daí em diante o trabalho continua de modo progressivo, porem com mais entusiasmo e maior disposição. Mas, também, até sozinhos podemos fazer a nossa Reforma Íntima, desde que nos empenhemos com afinco e denodo, vivendo coerentemente com os ensinamentos de Jesus.
Extraído do manual Prático do Espírita

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

EM HOMENAGEM AOS 121 ANOS DE NASCIMENTO DE ANDRÉ LUIZ




ANDRÉ LUIZ
Em 19.5.04, distribuí texto pela internet sobre o espírito André Luiz, mostrando-lhe os olhos e informando que o médium Waldo Vieira identificara para um amigo dele (e meu) quem era realmente o famoso médico carioca. Naquele texto, voltei a explicar que, no início da década de 70, após extenuante pesquisa com 286 médicos desencarnados de 1926 a 1936 (68 foram categoricamente de doenças ou cirurgias gastro-intestinais), eu houvera chegado ao verdadeiro nome, que nada tem a ver com Carlos Chagas, Miguel Couto, Osvaldo Cruz ou Francisco de Castro, os mais citados. O médium Francisco Cândido Xavier me confirmara o nome, mas considerou que a identidade deveria ser mantida em segredo.
Durante minhas pesquisas aconteceu o menos esperado: a família soube dos meus passos e me procurou. Percebi então que o Chico tinha razão quanto a sermos cautelosos e disse àqueles familiares - que já sabiam de tudo - que, de minha parte, o público ainda nada saberia.
Guardei esse segredo até a recente distribuição do texto pela internet, quando divulguei junto os olhos de André Luiz, receoso de que a revelação do Waldo se espalhasse sem mais controle. Agora porém tudo mudou e não vejo mais motivo para qualquer reserva. Pretendo contar tudo e até publicar minha pesquisa em livro, pois não sei quem conheça mais detalhes dessa história do que eu; não apenas em relação às ponderações do Chico, mas também relativamente à conversa que tive com a família de André Luiz.
A pessoa a quem o Waldo passou a informação é meu amigo, Osmar Ramos Filho. Ele é o autor da extraordinária obra O Avesso de um Balzac Contemporâneo, análise de amplo espectro do livro Cristo Espera por Ti, de Honoré Balzac, psicografado pelo Waldo Vieira. Um estudo notável de corroboração da mediunidade do Waldo. Acertei com o Osmar que continuaríamos mantendo segredo, transferindo para meu filho Luciano dos Anjos Filho o encargo de fazer a identificação pública, quando as circunstâncias se mostrassem propícias, isto é, ao tempo em que a conduta terrena de André Luiz, narrada em Nosso Lar, pudesse ser melhor assimilada pelos descendentes.
Por que meu novo posicionamento? Afirmei certa vez que, após a precisão da minha pesquisa, o Chico havia passado para o Newton Boechat a identificação correta. Eles eram muito amigos, muito ligados. A atitude do Chico, portanto, nunca me surpreendeu, especialmente ao constatar que eu já havia chegado ao nome certo. Em qualquer circunstância acabaria ali o mistério. E - confesso hoje mais claramente - eu sabia que o Boechat sabia, pois a respeito disso conversamos várias vezes, sempre sem nenhuma testemunha.
Ocorre que o Newton Boechat achou por bem abrir uma exceção e estendeu a identificação, também em caráter confidencial, a uma outra pessoa. E esta, por motivos que ignoro, recentemente repassou a informação para mais alguém, num lamentável e inconseqüente deslize verbal. Bem, agora já se trata de segredo condominial. Estão querendo inclusive publicar um livro sobre a vida do verdadeiro André Luiz. Já tem até editora. A intenção é temerária, porque nem sabem da conversa que tive com os familiares. O levantamento dos dados está sendo feito às pressas e em sigilo, naturalmente para parecer que a identificação já era conhecida antes de mim. Como não sou tão ingênuo como os mais ingênuos supõem, estou agora abortando essa esperteza.Já relembrei que desde o início da década de 70 divulguei na imprensa, por mais de uma vez, minha pesquisa, embora sem revelar o resultado final. Não seria, pois, tão necessária essa minha decisão de agora, pois ninguém no movimento espírita desconhece meu trabalho. Mas já apareceu até quem dissesse que foi um velho amigo meu de Franca que me passou o segredo. Lorota de alto vôo e alta envergadura, seja lá de quem for a versão e diante da qual os que me conhecem preferem acreditar que os condores têm medo das alturas... Ninguém mais além de mim, do Newton Boechat, do Chico e do Waldo (estes dois obviamente) sabiam da verdadeira identidade de André Luiz. Incluo ainda a discreta e amorável Maria Laura Hermida de Salles Gomes (Mariazinha), que se relacionava com uma sobrinha de André Luiz e a qual teve papel importante na conexão com o Chico e o Waldo. Pouco depois, mais aquele amigo do Newton Boechat passou a saber também, em caráter excepcional. Foi ele que, aperaltando assunto tão sério, acabou contando para quem está agora esboçando o livro. Minimizar minha pesquisa fazendo dela fruto de mera informação do amigo francano é denunciar a si mesmo de oportunista, enquanto perambula pelo humorismo barato dos pobres de espírito, na tentativa de ignorar que uma lorota dessas só é degustável com sal de fruta.
Ora, nesse ritmo, logo outros, muitos outros, todos saberão e, se eu esperasse o tal livro aparecer, ninguém mais deixaria de saber, com todos os holofotes em quem tomou o bonde andando. Eis por que, nesta data, me antecipo e universalizo o segredo.
FAUSTINO ESPOSEL
André Luiz é Faustino Esposel.
Faustino Monteiro Esposel nasceu na rua dos Araújos nº 10, bairro do Engenho Velho, cidade do Rio de Janeiro (registro 14º 69), em 10.8.1888. Desencarnou no Rio de Janeiro, às 17 horas de 16.9.1931, residindo então na rua Martins Ferreira nº 23, no bairro nobre de Botafogo. Era filho de João Paiva dos Anjos Esposel e de Maria Joaquina Monteiro (filha reconhecida, ou seja, não registrada oficialmente).
Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 29.5.1847, conforme registro de batismo feito em 2.8.1847 (livro AP 1199, fls. 128 v.), na Catedral e Capela Imperial de Nossa Senhora do Monte Carmo. Desencarnou de tísica, no Rio de Janeiro, em Irajá, em 1º.5.1900, sendo sepultado no carneiro CP 1814 quadra 39 do cemitério de São João Batista. Foi a mulher dele, Maria Joaquina Monteiro, quem mandou fazer a sepultura. Ela desencarnou no Engenho Velho, no Rio de Janeiro, em 29.9.1910, portanto, dez anos depois dele. Casados no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro nº 6º, 35), em 7.12.1871.João Paiva dos Anjos Esposel e Maria Joaquina Monteiro tiveram os seguintes filhos:1. Oscar Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 8º 73). Casado com Orminda Monteiro Esposel. Moravam na rua Bambina (estou omitindo o número de propósito). Seu filho, Léo Esposel, em 1974 estava casado com Maria de Lourdes Ribeiro Esposel. Tinha também três filhas, Lívia Monteiro Esposel, que morava em 1974 na praia do Flamengo (idem, idem), Ida Esposel Neves e Elza Esposel. Orminda nasceu em 1884, no Rio de Janeiro, tendo desencarnado em novembro de 1978, quando morava na praia do Flamengo. Oscar e Orminda tinham sete netos (Luiz, Francisco, Nélida, Consuelo, Maria Cristina, Mônica e Patrícia) e oito bisnetos (Marcos André, Luiz, Guilherme, Marcelo, Ricardo, Luciana, Márcia e Camila).2. Noêmia Monteiro Esposel, nascida no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 10º v.).3. Mário Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 11º, 64). Era almirante. Em 1975 morava na rua Prudente de Morais (idem, idem).4. Adolfo Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, no Rio de Janeiro, em 30.11.1885. Desencarnou com apenas quatro meses, no Rio de Janeiro, em 13.4.1886, na rua dos Araújos nº 10, tendo sido sepultado no cemitério do Caju (4m.B.d.). (Em Nosso Lar aparece como menina, mas na verdade era um menino. Quando desencarnou, em 1886, Faustino ainda não era nascido, o que só vai acontecer dois anos depois, em 1888. André Luiz deslocou o acontecimento para depois do nascimento dele, quando ele era "pequenino".)
5. Carlos Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 12º 4v). Em 1974 morava na rua São Salvador (idem, idem). Mudou-se depois para a rua Paissandu (idem, idem). Acabou indo morar em Santa Catarina.6. Faustino Monteiro Esposel.
Eram avós paternos de Faustino Esposel: José Maria dos Anjos Esposel e Margarida Maria; e avós maternos: Isidro Borges Monteiro (desembargador) e Paulina Luísa de Jesus.
João Paiva dos Anjos Esposel, pai do Faustino, tinha um irmão chamado Joaquim Maria dos Anjos Esposel (1842-1897), casado com Maria José de Barros Carvalho (filha de Delfim Carlos de Carvalho, barão da Passagem, herói da primeira guerra do Paraguai, e de Ana Elisa de Mariz e Barros, filha do visconde de Inhaúma). O casamento foi celebrado na igreja de São José. Tiveram quatro filhos:
1. Alice Esposel (casada com Andrônico Tupinambá).
2. Dulce Esposel (casada primeiro com Sabino Elói Pessoa e, em segundasnúpcias, com Joaquim Bernardo da Cruz Secco).
3. Eponina Esposel (casada com Alberto da Costa Rodrigues).
4. Delfina Esposel.
(Há uma rua no Rio de Janeiro chamada Joaquim Esposel.)
Faustino Esposel tinha muitos sobrinhos, dentre os quais Lívia Monteiro Esposel, Elza, Ida Esposel Neves, Lúcia e Léo, casado com Maria de Lourdes Ribeiro Esposel (todos residentes no Rio de Janeiro). E sobrinhos-netos: Élcio (almirante), Carlos, Ronaldo (morava em 1974 na rua Prudente de Moraes, era comerciante de couro, casacos de couro, ligado ao Jockey Club Brasileiro). Todos pessoas de bem.
Outros parentes: Laís de Niemeyer Esposel, residente em 1974 na av. Vieira Souto, desencarnada em fevereiro de 1994; Jayme Carneiro de Campos Esposel, residente em 1974 na estrada do Joá, era capitão de fragata quando comandou o contratorpedeiro Ajurieda, de 16.10.56 a 29.11.1957; Marcello, residente em 1974 na rua Cândido Mendes. Nomes de respeitabilidade entre os que os conhecem.
Faustino Esposel casou com Odette Portugal Esposel, conhecida por Detinha. Era filha do médico José Teixeira Portugal, nascido em 1874 e desencarnado em 1927. Ela nasceu em 6.6.1900 e desencarnou em 5.2.1978. A missa foi rezada no dia 13 daquele mês, na igreja de Santa Margarida Maria, na Lagoa.Irmã da Odette Portugal Esposel: Olga Portugal, viúva de Gumercindo Loretti da Silva Lima, casada em segundas núpcias com o primo Arthur Machado Castro, que tinha uma irmã chamada Lygia. Odette e Olga tiveram uma filha: Regina, casada com Jorge C. Dodsworth. Gumercindo Loretti foi figura muito ligada aos ideais do escotismo e tinha um irmão, Jarbas Loretti da Silva Lima, diplomata e poeta, nascido em 1868, no Rio de Janeiro, autor de Vozes Andinas, 1918.
Faustino Monteiro Esposel e Odette Portugal Esposel moravam na rua Martins Ferreira nº 23, em Botafogo, cidade do Rio de Janeiro. A partir de 1954, a casa passou a ser propriedade da Associação de Educação Católica do Brasil, subordinada à Conferência dos Religiosos do Brasil e que permaneceu ali até 1981, quando se transferiu para Brasília. A casa passou a abrigar, então, a Creche Escola Favinho do Mel, patrocinada pela Associação e dirigida por três senhoras que ali residem até hoje (2005). O atual porteiro se chama “coincidentemente” André Luiz...
Faustino Esposel nasceu na capital federal, no dia 10 de agosto de 1888. Era professor substituto da seção de neurologia e psiquiatria da Faculdade de Medicina e reputado clínico, catedrático de neurologia na Faculdade Fluminense de Medicina. Foi ainda chefe do serviço da Policlínica de Botafogo e do Sanatório de Botafogo e médico da Associação dos Empregados do Comércio. E era também sanitarista, portador por concurso do título de docente de higiene da Escola Normal do Rio de Janeiro, na qual foi continuamente encarregado de cursos complementares. Fez os estudos primários na Escola Alemã, conhecia profundamente o idioma germânico, cursou durante alguns anos o externato Mosteiro de São Bento. Formou-se em 1910 em farmácia e em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde defendeu tese sobre "Arteriosclerose cerebral", em que recebeu a nota de distinção.
Durante o curso acadêmico, foi adido dos serviços clínicos da 7ª e da 18ª enfermarias da Santa Casa da Misericórdia, chefiadas respectivamente pelos mestres Miguel Couto e Paes Leme. Ainda nessa época, exerceu o internato oficial da Clínica Pediátrica dos professores Barata Ribeiro e Simões Corrêa.
Pouco após a formatura, candidatou-se a médico da Assistência de Alienados do Rio de Janeiro, classificando-se em primeiro lugar, pelo que foi nomeado assistente do Hospital Nacional de Alienados. Chegou a titular de livre docente da Faculdade de Medicina, exercendo ali o cargo de professor substituto de neurologia e psiquiatria. Nessa condição teve ensejo de integrar diversas bancas examinadoras de teses de doutoramento.
Foi ainda interno e assistente da clínica neurológica e médico adjunto do Hospital da Misericórdia. Deixou muitos trabalhos publicados sobre a especialidade, o que lhe permitiu ingressar em diversas sociedades científicas nacionais e estrangeiras. Em 1918 fez parte da missão médica brasileira que foi à Europa durante a I Grande Guerra. Como representante do Brasil participou de congressos na Europa e na América do Sul. Foi organizador e secretário-geral da Segunda Conferência Latino-Americana de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal. Sobre a epidemia de gripe no Hospital Brasileiro, em Paris, apresentou em 1919 substancioso relatório ao chefe da Missão Médica Brasileira. Recebeu honroso diploma do curso oficial de Pierre-Marie, assinado por este famoso professor e pelo decano da Faculdade de Paris, professor Roger.
Durante o impedimento do professor Antônio Austregésilo Rodrigues de Lima, catedrático de Clínica Neurológica (fora eleito para o Congresso Nacional), Faustino Esposel exerceu com brilho aquela função, conquistando grande renome como didata. Conseguiu elevado prestígio entre os seus colegas, gozando de justa projeção nos meios sociais. Aficionado dos esportes, criou largo círculo de amizades nas rodas desportivas, em época em que o futebol não era unanimidade nas elites do país.
Faustino Esposel desencarnou na capital federal, às 17 horas do dia 16 de setembro de 1931, com 43 anos 1 mês e 7 dias. O sepultamento foi numa quinta-feira, no dia 17, às 16:30h, no cemitério de São João Batista (registro 9817 – Quadra 12, Nº RG Livro 775 – p. 17). O corpo saiu da residência. Missa de 7º dia foi celebrada em 23.9.31, às 10 horas, na igreja da Candelária.
Antônio Austregésilo, amigo de infância, assinou o atestado de óbito, nele fazendo constar, como causa da morte, apenas uremia. Era portador de uma nefrite crônica. Entretanto, os familiares sabiam e alguns descendentes vivos sabem que ele desencarnou de câncer, o que foi omitido por todos os jornais da época, que apenas mencionaram, como era praxe nesses casos, "a violência da súbita enfermidade que o acometeu" sendo "todos os esforços impotentes no combate ao mal insidioso" (Diário de Notícias, 17.9.31); ou "acometido de moléstia aguda, que sobreveio inesperadamente" (Jornal do Commércio, 17.9.31). Quando do falecimento, o amigo Antônio Austregésilo fez um panegírico, inserido em Arquivo Brasileiro de Medicina, nº 8, de 1931 (Biblioteca Nacional).
Em 29.9.1927, Faustino Esposel inscreveu-se à vaga aberta na Academia Nacional de Medicina decorrente da passagem de Teófilo de Almeida Torres, membro titular da Seção de Medicina Geral, para a classe dos Membros Titulares Honorários. Apresentou juntamente com os seus trabalhos a memória intitulada "Em torno do sinal de Babinsky". Aprovado, a eleição teve lugar em 17.11.1927 e a cerimônia de posse na sessão de 24.5.1928, sob a presidência do acadêmico Miguel Couto, que designou os acadêmicos Antônio Austregésilo e J. E. da Silva Araújo para acompanhar o novo acadêmico ao recinto. Fez-lhe a saudação de paraninfo o acadêmico Joaquim Moreira da Fonseca. Com o seu falecimento, sua poltrona passou a ser ocupada pelo acadêmico Odilon Gallotti, eleito em 23.6.32 e empossado em sessão de 25.6.36. Na sessão de 30.6.32 a Academia promoveu uma homenagem a Faustino Esposel, discursando na ocasião o orador oficial Alfredo Nascimento. Tenho em meus arquivos todos os discursos pronunciados naquela instituição.
Faustino Esposel era católico. Militou na União Católica Brasileira. Foi congregado mariano. Comungava com freqüência, o que era hábito da maioria religiosa daquela época.
Tinha ficha de cadeira cativa do Clube de Regatas do Flamengo, dos anos de 1925 a 1930. Foi presidente do clube no biênio 1920-1922, depois de 1924 a 1927, ano este em que renunciou, assumindo Alberto Borgerth. Em 1928 voltara à presidência, não tendo completado o mandato em virtude da doença. Na assembléia de 23 de dezembro de 1920, quando o presidente já era Faustino Esposel, o Flamengo aprovou o seu novo uniforme, usado até hoje. Em 1926, os Guinle pediram a devolução do imóvel que estava arrendado ao clube. Fez-se então uma campanha de arrecadação junto ao quadro social para a aquisição de um local próprio. Desde 25 de março de 1925, Faustino Esposel havia reunido a diretoria comunicando a disposição do então prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Antônio Prado Jr., de ceder uma área de mais de 34 mil metros quadrados às margens da lagoa Rodrigo de Freitas. Após negociações que se sucederam com o prefeito Alaor Prata, o presidente Faustino Esposel obteve a desejada área na Gávea.
O primeiro jogo ali promovido, ainda sem muro e cercado por madeiras, aconteceu sob a presidência de Faustino Esposel, no dia 26 de novembro de 1926, entre a Liga de Amadores de Foot-Ball (São Paulo) e a Association de Amateurs de Argentina. Nesse período, Oscar Esposel, irmão de Faustino e conselheiro do clube, propôs a inauguração do estádio da Gávea em 15 de novembro de 1938, quando o Flamengo estaria completando 43 anos de fundação. Mas a festa acabou acontecendo antes, no dia 4 de setembro daquele ano com um jogo entre Flamengo e Vasco, vitória vascaína por 2 a 0 que, no entanto, não abafou a alegria rubro-negra, por estar com a nova casa concluída.Entusiasta dos esportes e da educação física, que sempre cultivou, pertenceu a muitas associações esportivas em que exerceu cargos técnicos e administrativos e de que foi presidente por diversas vezes, como a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos e a Federação Brasileira de Desportes.
Há dois retratos de Faustino Esposel na sede do Flamengo, na Gávea. Outro, de corpo inteiro, não está, como alguns parentes supunham, no gabinete do Deolindo Couto, de quem foi professor. Constatei que se encontrava no corredor escuro da Faculdade de Medicina, então na praia Vermelha (hoje não existe mais). Existe também um quarto quadro, em que ele está de meio-perfil, na residência da Maria Laura Hermida de Salles Gomes (Mariazinha), em Cambuquira, na rua Getúlio Vargas, 141.
Um último registro: Antônio Austregésilo, talvez o maior amigo do Faustino, chegou a presentear Odette com livros de André Luiz.
Bem, eis o que posso adiantar. Tenho muitas outras informações, mas meu acervo completo só pode ser aberto realmente em livro, dados os comentários e as explicações que o tema exige. Aí então farei a necessária análise comparativa com o livro Nosso Lar e outros da série. Devo salientar, desde logo, que André Luiz fez pequenas modificações para despistar o leitor, em obediência à preocupação exposta no prefácio de Emmanuel no sentido de ocultar sua verdadeira identidade, o que ele mesmo reafirma na mensagem de abertura ("Manifestamo-nos, junto a vós outros, no anonimato que obedece à caridade fraternal.") Noutras ocasiões deixou pistas insuspeitadas. Mas, num único ponto a modificação não foi pequena, ou melhor, foi radical: a família deixada na terra. Na verdade, Faustino Esposel não deixou filhos. Então, quem são aquelas pessoas referidas no livro? Segundo explicação do Chico, apresentada desde 1975, são todos membros de uma família de que o Faustino era membro em encarnação anterior. A fim de ilustrar os ensinamentos ele foi buscar a situação doméstica no seu passado mais remoto.Outros detalhes que posso antecipar:
- André Luiz informa que foi assistido na colônia Nosso Lar por um médico chamado Henrique de Luna. Na terra, De Luna (médico, com esse mesmo nome) era contemporâneo de Faustino Esposel.
- André Luiz narra em Nosso Lar que teve quinze anos de clínica. Formado em 1910, consta que a partir da segunda metade da década de 20 ele viveu muito mais para o magistério e trabalhos intelectuais ligados à medicina, além das atividades desportivas.
- Luísa, a irmã que André Luiz conta ter desencarnado cedo, quando ele era "pequenino", na verdade era um irmão (Adolfo Monteiro Esposel), desencarnado com apenas quatro meses, em 1886, dois anos portanto antes de ele nascer.
- Quem privou muito da proximidade de Faustino Esposel foi um porteiro que, até meados da década de 70, embora aposentado, ainda costumava freqüentar o Pinel. Disse-me conhecer toda a vida do professor Faustino Esposel, que ele atendia muitos doentes de graça e que era famoso de verdade. A par disso, aludiu a alguns fatos que se ajustam perfeitamente ao que está confessado nas páginas de Nosso Lar. E confirmou, inclusive, detalhes de comportamento que o próprio André Luiz também não escondeu no livro.
Rio de Janeiro, 1º de julho de 2005
LUCIANO DOS ANJOS

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

É PECADO SER HOMOSSEXUAL?

Ultimamente, temos recebido muitos e-mails, solicitando-nos esclarecimento acerca de como o Espiritismo encara as questões do homossexualismo e do pecado. Um deles, em especial, despertou a atenção, porque o amigo remetente, referindo-se à sua atração física por indivíduos do mesmo sexo, faz-nos as seguintes indagações:
"É pecado ser homossexual?"; "Por que sou isso?"; "Que pecado cometi para sê-lo?"; "Até quando serei assim?"; "Se olhar para um rapaz, com carinho, estarei pecando?"; "Se eu gostar de um rapaz, com amor verdadeiro, serei pecador?".
Na missiva eletrônica, ele acrescenta ter sido interno de um seminário, tempo em que andava sob forte depressão. E que teria abandonado a escola eclesiástica.
Dir-se-ia, pelas suas palavras sinceras e humildade, que o amigo foi um seminarista bom, mas não muito bom seminarista, porquanto não se fez clérigo nem sacerdote, e agora tornou-se espírita. Coisas do existir...
Diz-se que o pecado é a transgressão de preceito religioso (leia-se, dogma).
Sendo aquele que o pratica, pecador e ou pecante. O pecador, tem certos defeitos ou vícios; e o pecante, é aquele que peca habitualmente ou que tem baldas (manias). Podendo,um e outro, pelo arrependimento e confissão de sua culpa, e através do ritual da penitência (sacrifícios), conseguir a remissão dos pecados e a comutação da pena eterna. A julgar por esse catecismo, pelo procedimento das pessoas atualmente, muitas penitências serão necessárias para a transformação moral da Humanidade.
Ainda, segundo a "interessante" cartilha cristã, há pecados para todos os gostos, conquanto haja punições ao gosto de todos os confessores e procuradores divinos.
Há os pecados veniais, considerados leves, perdoados sem a necessidade da Santa Comunhão (confissão), bastando, tão somente, que se reze um Ato de Contrição.
Há os pecados capitais: a soberba, a avareza, a luxúria, a ira, a gula, a inveja e a preguiça, que têm dado muito suor e trabalho a São Miguel Arcanjo, no Purgatório, para levar as almas sofredoras para o Céu. Estes, dependendo da vontade firme do praticante, podem se transformar em pecados mortais, para alegria do Maligno.
Há, finalmente, os temíveis pecados mortais, aqueles que afastam o pecador da Graça Divina, sem direito a indulgências. Dando-lhe, de imediato, passaporte carimbado para o inferno, cujo fogo eterno o queima sem o consumir (?), e causam-lhe a "morte espiritual".
Cultuamos o hábito diário de ler a Bíblia há 35 anos. Ficamos impressionados com os pregadores da Bíblia como sendo a palavra de Deus, que a tudo condenam sem misericórdia. Parecem-nos molecotes analfabetos apregoando jornais, de cujo noticiário não se podem inteirar. O amor do próximo e a caridade não lhes interessam, a não ser como recurso extremo: a salvação.
Há hora em que devíamos ter o prazer pecaminoso de arremeter-nos contra eles a sapateá-los. Infelizmente, não podemos fazer sempre ao que aspiramos.
Parafraseando o imortal Tenório D'Albuquerque, perguntar não ofende: Em qual tabelionato foi reconhecida a firma, da assinatura de Deus, na procuração passada a esses pastores viperinos, para deliberarem sobre o destino das almas? Onde estarão aqueles religiosos que nos agrediram com gritos proclamadores da excelência desta ou daquela penitência? Extraordinária, a facilidade com que proferiram tantas tolices. Uma fertilidade incomparável!
Ignorância imaculada.
O nosso estimado confrade, Divaldo Franco, certa feita, asseverou com muita propriedade: "Proibir e condenar, é sempre uma forma contraproducente de examinar uma questão existente, que merece orientação, educação e esclarecimento."
Para a "Santa Igreja" e "evangélicos", o pecado mortal do homossexualismo é um dos "imperdoáveis", porque profana o corpo, que é o templo de Deus (1Cor, 3:9).
A palavra pecado tem origem no vocábulo grego "imartia", que significa afastar-se da meta. Portanto, bem diferente de como é concebida pelas igrejas ditas cristãs.
Nós, espíritos, somos seres perfectíveis, dotados de inteligência e livre arbítrio, porém responsáveis diretos pelas conseqüências de nossas atitudes.
Através da pluralidade das existências corpóreas, caminhamos rumo à meta imutável da lei divina: a perfeição. Quando nos afastamos do caminho, afastamo-nos dessa meta, gerando o que chamamos de mal. Todavia, quando retornamos ao caminho, pela mudança de conduta ou reparação das faltas cometidas, restabelece-se a harmonia e o mal deixa de existir. Onde haja o bem, o mal desaparece.
Muitos estudiosos afirmam que a homossexualidade é uma opção do ser humano. Alguns discordam, alegando que nenhuma pessoa se sentiria feliz por ser perseguida ou discriminada. Uns, asseveram que ela é orgânica, ou seja, a pessoa não teria outra alternativa. Já outros, apelam para o emocional: o homossexualismo seria efeito de algum trauma. E o Espiritismo, que diz?
O espírito não tem sexo. O mesmo espírito pode animar ora um corpo masculino, ora um corpo feminino. Cada sexo, como cada posição social, lhe proporciona o ensejo de adquirir experiência. O corpo não lhe é mais do que um invólucro perecível de que se serve para se esclarecer e se purificar.
Sempre de modo progressivo, jamais regressivo. Desde que cessa a vida do corpo, ele o abandona e retorna à pátria legítima, o mundo invisível, ou mundo espiritual. Em um desses estágios, como homem ou mulher, o abuso que faça do uso das funções sexuais, acarretará o seu reingresso na lide carnal, no sexo oposto.
"Quando o homem, em muitas ocasiões, tiraniza a mulher, furtando-lhe os direitos e cometendo abusos, em nome de sua pretensa superioridade, desorganiza-se ele próprio a tal ponto que, inconsciente e desequilibrado, é conduzido pelos agentes da Lei Divina a renascimento doloroso, em corpo feminino, para que, no extremo desconforto íntimo, aprenda a venerar na mulher sua irmã e companheira, filha e mãe, diante de Deus. Ocorrendo idêntica situação à mulher criminosa que, depois de arrastar o homem à devassidão e à delinqüência, cria para si mesma terrível alienação mental para além do sepulcro, requisitando, quase sempre, a internação em corpo masculino, a fim de que, nas teias do infortúnio de sua emotividade, saiba edificar no seu ser o respeito que deve ao homem, perante o Senhor."
Aparentemente, esse processo parece uma punição, mas não é. Deus não perdôa nem castiga. A iluminação dos sentimentos é que o exige.
"A Humanidade progride, por meio dos indivíduos que pouco a pouco se melhoram e instruem", já dissera Kardec.
A prática da homossexualidade não transforma o ser em pessoa abominável.
Conhecemos homossexuais que se distinguem pela inteligência apurada, pela cultura aprimorada, pela educação exemplar, pela fraternidade cristã e, principalmente, pelo caráter reto. Conhecemos, também, heterossexuais que mais parecem uma gruta vazia e sombria. Grande e florida por fora, por dentro, um deserto de qualidades.
O homossexual, de ambos os sexos, tem sido condenado ao esquartejamento moral e violentado, psicológica e fisicamente, por gente maldosa, sem qualquer fundamento sério. Para nós, espíritas, serão sempre nossos irmãos amados, tanto quanto os demais, credores do nosso maior respeito e carinho.
Dito isto, passamos a responder as indagações, do querido amigo:
"É pecado ser homossexual?"
R - Não. Também não é uma escolha ideal, mas o amigo não deve sujeitar-se ao jugo dogmático das igrejas.
"Por que sou isso?"
R - Por livre e espontânea vontade. Da mesma maneira que poderá deixar de ser.
"Que pecado cometi para sê-lo?"
R - Nenhum. O pecado, ou melhor, o sentimento de culpa só existe na consciência de quem se sente culpado.
"Até quando serei assim?"
R - Até quando quiser. Se dispuser-se e puder controlar seus impulsos carnais, transferindo as energias sexuais para um trabalho de auto reeducação, melhor. Sua indômita força de vontade poderá vencer todos os obstáculos, superar todos os problemas, possibilitando-lhe uma vida saudável. A felicidade conquistada será o galardão de seus esforços. Deus instituiu leis que nos favorecem a todos, já dizia o nosso saudoso Chico Xavier.
"Se olhar para um rapaz, com carinho, estarei pecando?"
R - Não. Desde que esse olhar não seja de modo lascivo. Um olhar carinhoso, uma palavra fraterna, um sorriso sincero, uma ação solidária, são ingredientes que alimentam as verdadeiras amizades, tornando-as indesuníveis.
"Se eu gostar de um rapaz, com amor verdadeiro, serei pecador?".
R - Já disséramos, anteriormente, que o pecado está condicionado à atitude mental de cada um, com base no sentimento de culpa. Quanto ao amor verdadeiro por outro alguém, requisitamos a palavra autorizada e benevolente do nosso irmão e Benfeitor Espiritual, cuja orientação bondosa serve para todos nós:
"Recomendar-lhe a castidade quando as pessoas se degradam em ligações clandestinas, nos braços de amantes, seria temeridade e hipocrisia. Você faria, dentro em pouco, o que elas fazem. Sobre a ignomínia da culpa, a ignomínia da mentira.
Daí,a audácia do meu conselho. Se puder resistir à sua carne, aos seus nervos rebeldes, aos seus sentidos alarmados, resista. Será heróico e sublime. A tranqüilidade de sua velhice será o prêmio dessa renúncia na mocidade.
Se, porém, não encontrar na própria alma energias para vencer o corpo, eleja um cônjuge. Faça-o, entretanto, publicamente. Nada de subterfúgios, de mistérios, de clandestinidade. Funde, com ele, um lar. A noção da responsabilidade assumida em público fá-los-á, a um e a outro, cautelosos na escolha, assegurando-lhes, assim, a honestidade e a duração da ventura.
Amores escondidos são amores transitórios. Amante que foge, é amante substituído. E quando alguém adota esse regime, o amor perdeu o seu nome.
Chama-se prostituição.
O meu conselho é, como se vê, prudente e humano. Você é livre e quer ser feliz. Faltam-lhe as grandes forças interiores, as poderosas energias mentais, que neutralizam os gritos da carne e dos nervos, e elevam a pessoa acima do seu sexo, purificada da animalidade comum. Evite, todavia, em quaisquer circunstâncias, a pessoa que não quiser, em público, assumir os encargos do seu destino. A casa de família em que se entra escondido, deixa de ser um lar para ser um prostíbulo. E a pessoa, que vai encontrar-se secretamente com outra, perde o seu título de honrada para tomar o de meretriz. Aquela pessoa que não fizer um sacrifício igual ao seu, abandonando tudo, e tudo afrontando, para viver ao seu lado, deve ser tomada, simplesmente, como sedutora vulgar e covarde, semelhante aos rufiões que exploram as mulheres na sombra, desfrutando as vantagens e fugindo às responsabilidades. Repila, em suma, o amante. E aceite o cônjuge.
Para doença tão grave, era este, o remédio menos venenoso que havia em minha farmácia.” Humberto de Campos.
Mais uma vez, parafraseando o grande Tenório: A beleza dos ensinamentos do Espiritismo é inexata, não se exprime por números, não se calcula matematicamente. É de tal magnitude que se torna incalculável, apenas a sentimos.
E, para encerrarmos, recomendamos a todos, permaneçamos no amor de Jesus, sem nos aventurarmos a discriminar ou denegrir o próximo. Permitir a liberdade plena é o fundamento maior do amor cristão, haurido na nossa Doutrina Espírita.
Muita paz.

O LIVRE ARBÍTRIO



A liberdade é a condição necessária da atina humana que, sem ela, não poderia construir seu destino. É em vão que os filósofos e os teólogos têm argumentado longamente a respeito desta questão. À porfia têm-na obscurecido com suas teorias e sofismas, votando a Humanidade à servidão em vez de a guiar para a luz libertadora. A noção é simples e clara. Os druidas haviam-na formulado desde os primeiros tempos de nossa História. Está expressa nas "Tríades" por estes termos: Há três unidades primitivas - Deus, a luz e a liberdade.
À primeira vista, a liberdade do homem parece muito limitada no círculo de fatalidades que o encerra: necessidades físicas, condições sociais, interesses ou instintos. Mas, considerando a questão mais de perto, vêse que esta liberdade é sempre suficiente para permitir que a alma quebre este círculo e escape às forças opressoras.
A liberdade e a responsabilidade são correlativas no ser e aumentam com sua elevação; é a responsabilidade do homem que faz sua dignidade e moralidade. Sem ela, não seda ele mais do que um autômato, um joguete das forças ambientes: a noção de moralidade é inseparável da de liberdade.
A responsabilidade é estabelecida pelo testemunho da consciência, que nos aprova ou censura segundo a natureza de nossos atos. A sensação do remorso é uma prova mais demonstrativa que todos os argumentos filosóficos. Para todo Espírito, por pequeno que seja o seu grau de evolução, a Lei do dever brilha como um farol, através da névoa das paixões e interesses. Por isso, vemos todos os dias homens nas posições mais humildes e difíceis preferirem aceitar provações duras a se abaixarem a cometer atos indignos.
Se a liberdade humana é restrita, está pelo menos em via de perfeito desenvolvimento, porque o progresso não é outra coisa mais do que a extensão do livre-arbítrio no indivíduo e na coletividade. A luta entre a matéria e o espírito tem precisamente como objetivo libertar este último cada vez mais do jugo das forças cegas. A inteligência e a vontade chegam, pouco a pouco, a predominar sobre o que a nossos olhos representa a fatalidade. O livre-arbítrio é, pois, a expansão da personalidade e da consciência. Para serros livres é necessário querer sê-lo e fazer esforço para vir a sê-lo, libertando-nos da escravidão da ignorância e das paixões baixas, substituindo o império das sensações e dos instintos pelo da razão.
Isto só se pode obter por uma educação e uma preparação prolongada das faculdades humanas : libertação física pela limitação dos apetites; libertação intelectual pela conquista da verdade; libertação moral pela procura da virtude. É esta a obra dos séculos. Aias, em todos os graus de sua ascensão, na repartição dos bens e dos males da vida, ao lado da concatenação das coisas, sem prejuízo dos destinos que nosso passado nos inflige, há sempre lugar para a livre vontade do homem.
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Como conciliar nosso livre-arbítrio com a presciência divina? Perante o conhecimento antecipado que Deus tem de todas as coisas, pode-se verdadeiramente afirmar a liberdade humana? Questão complexa e árdua na aparência que fez correr rios de tinta e cuja solução é, contudo, das mais simples. Mas, o homem não gosta das coisas simples; prefere o obscuro, o complicado, e não aceita a verdade senão depois de ter esgotado todas as formas do erro.
Deus, cuja ciência infinita abrange todas as coisas, conhece a natureza de cada homem e as impulsões, as tendências, de acordo com as quais poderá determinar-se. Nós mesmos, conhecendo o caráter de uma pessoa, poderíamos facilmente prever o sentido em que, numa dada circunstância, ela decidirá, quer segundo o interesse, quer segundo o dever. Uma resolução não pode nascer de nada. Está forçosamente ligada a uma série de causas e efeitos anteriores de que deriva e que a explicam. Deus, conhecendo cada alma em suas menores particularidades, pode, pois, rigorosamente, deduzir, com certeza, do conhecimento que tem dessa atina e das condições em que ela é chamada a agir, as determinações que, livremente, ela tomará.
Notemos que não é a previsão de nossos atos que os provoca. Se Deus não pudesse prever nossas resoluções, não deixariam elas, por isso. de seguir seu livre curso.
É assim que a liberdade humana e a previdência divina conciliam-se e combinam, quando se considera o problema à luz da razão.
O círculo dentro do qual se exerce a vontade do homem, é, de mais a mais, excessivamente restrito e não pode, em caso algum, impedir a ação divina, cujos efeitos se desenrolam na imensidade sem limites. O fraco inseto, perdido num canto do jardim, não pode, desarranjando os
poucos átomos ao seu alcance; lançar a perturbação na harmonia do conjunto e pôr obstáculos à obra do Divino Jardineiro.
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A questão do livre-arbítrio tem uma importância capital e graves conseqüências para toda a ordem social, por sua ação e repercussão na educação, na moralidade, na justiça, na legislação, etc. Determinou duas correntes opostas de opinião - os que negam o livre-arbítrio e os que o admitem com restrição.
Os argumentos dos fatalistas e deterministas resumem-se assim: "O homem está submetido aos impulsos de sua natureza, que o dominam e obrigam a querer, a determinar-se num sentido, de preferência a outro; logo, não é livre." A escola adversa, que admite a livre vontade do homem, em face desse sistema negativo, exalta a teoria das causas indeterminadas. Seu mais ilustre representante, em nossa época, foi Ch. Renouvier.
As vistas desse filósofo foram confirmadas, mais recentemente, pelos belos trabalhos de Wundt, sobre a percepção, de Alfred Fouillée sobre a idéia-força e de Boutroux sobre a contingência da lei natural.
Os elementos que a revelação neo-espiritualista nos traz, sobre a natureza e o futuro do ser, dão à teoria do livre-arbítrio sanção definitiva. Vêm arrancar a consciência moderna à influência deletéria do materialismo e orientar o pensamento para uma concepção do destino, que terá por efeito, como dizia C. du Prel, recomeçar a vida interior da Civilização.
Até agora, tanto sob o ponto de vista teológico como determinista, a questão tinha ficado quase insolúvel. Nem doutro modo podia ser, pois que cada um daqueles sistemas partia do dado inexato de que o ser humano tem de percorrer uma única existência. A questão muda, Porém, inteiramente de aspecto se se alargar o círculo da vida e se se considerar o problema à luz que projeta a doutrina dos renascimentos.
Assim, cada ser conquista a própria liberdade no decurso da evolução que tem de perfazer.
Suprida, a princípio, pelo instinto, que pouco a pouco desaparece para dar lugar à razão, nossa liberdade é muito escassa nos graus inferiores e em todo o período de nossa educação primária. Toma extensão considerável, desde que o Espírito adquire a compreensão da lei. E sempre, em todos os graus de sua ascensão, na hora das resoluções importantes, será assistido, guiado, aconselhado por Inteligências superiores, por Espíritos maiores e mais esclarecidos do que ele.
O livre-arbítrio, a livre vontade do Espírito exerce-se principalmente na hora das reencarnações. Escolhendo tal família, certo meio social, ele sabe de antemão quais são as provações que o aguardam, mas compreende, igualmente, a necessidade destas provações para desenvolver suas qualidades, curar seus defeitos, despir seus preconceitos e vícios. Estas provações podem ser também conseqüência de um passado nefasto, que é preciso reparar, e ele aceita-as com resignação e confiança, porque sabe que seus grandes irmãos do Espaço não o abandonarão nas horas difíceis.
O futuro aparece-lhe então, não em seus pormenores, mas em seus traços mais salientes, isto é, na medida em que esse futuro é a resultante de atos anteriores. Estes atos representam a parte de fatalidade ou "a predestinação" que certos homens são levados a ver em todas as vidas. São simplesmente, como vimos, efeitos ou reações de causas remotas. Na realidade, nada há de fatal e, qualquer que seja o peso das responsabilidades em que se tenha incorrido, pode-se sempre atenuar, modificar a sorte com obras de dedicação, de bondade, de caridade, por um longo sacrifício ao dever.
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O problema do livre-arbítrio tem, dizíamos, grande importância sob o ponto de vista jurídico. Tendo, não obstante, em conta o direito de repressão e preservação social, é muito difícil precisar, em todos os casos que dependem dos tribunais, a extensão das responsabilidades individuais. Não é possível fazê-lo senão estabelecendo o grau de evolução dos criminosos. O neo-espiritualismo fornecer-nos-ia talvez os meios; mas, a justiça humana, pouco versada nestas matérias, continua a ser cega e imperfeita em suas decisões e sentenças.
Muitas vezes o mau, o criminoso não é, na realidade, mais do que um Espírito novo e ignorante em que a razão não teve tempo de amadurecer. "O crime, diz Duelos, é sempre o resultado dum falso juízo." Ê por isso que as penalidades infligidas deveriam ser estabelecidas de modo que obrigassem o condenado a refletir, a instruir-se, a esclarecer-se, a emendar-se. A sociedade deve corrigir com amor e não com ódio, sem o que se torna criminosa.
As almas, como demonstramos, são equivalentes em seu ponto de partida. São diferentes por seus graus infinitos de adiantamento : umas novas ; outras velhas, e, por conseguinte, diversamente desenvolvidas em moralidade e sabedoria, segundo a idade. Seria injusto pedir ao Espírito infantil méritos iguais aos que se podem esperar de um Espírito que viu e aprendeu muito. Daí uma grande diferenciação nas responsabilidades.
O Espírito só está verdadeiramente preparado para a liberdade no dia em que as leis universais, que lhe são externas, se tornem internas e conscientes pelo próprio fato de sua evolução. No dia em que ele se penetrar da lei e fizer dela a norma de suas ações, terá atingido o ponto moral em que o homem se possui, domina e governa a si mesmo.
Daí em diante já não precisará do constrangimento e da autoridade sociais para corrigir-se. E dá-se com a coletividade o que se dá com o indivíduo. Um povo só é verdadeiramente livre, digno da liberdade, se aprendeu a obedecer a essa lei interna, lei moral, eterna e universal, que não emana nem do poder de uma casta, nem da vontade das multidões, mas de um Poder mais alto. Sem a disciplina moral que cada qual deve impor a si mesmo, as liberdades não passam de um logro ; tem-se a aparência, mas não os costumes de um povo livre. A sociedade fica exposta pela violência de suas paixões, e a intensidade de seus apetites, a todas as complicações, a todas as desordens.
Tudo o que se eleva para a luz eleva-se para a liberdade. Esta se expande plena e inteira na vida superior. A alma sofre tanto mais o peso das fatalidades materiais, quanto mais atrasada e inconsciente é, tanto mais livre se torna quanto mais se eleva e aproxima do divino.
No estado de ignorância, é uma felicidade para ela estar submetida a uma direção. Mas, quando sábia e perfeita, goza da sua liberdade na luz divina.
Em tese geral, todo homem chegado ao estado de razão é livre e responsável na medida do seu adiantamento. Passo em claro os casos em que, sob o domínio de uma causa qualquer, física ou moral, doença ou obsessão, o homem perde o uso de suas faculdades. Não se pode desconhecer que o físico exerce, às vezes, grande influência sobre o moral; todavia, na luta travada entre ambos, as almas fortes triunfam sempre. Sócrates dizia que havia sentido germinar em si os instintos mais perversos e que os domara. Havia neste filósofo duas correntes de forças contrárias, uma orientada para o mal, outra para o bem. Era a última que predominava. Há também causas secretas, que muitas vezes atuam sobre nós. Às vezes a intuição vem combater o raciocínio, impulsos partidos da consciência profunda nos determinam num sentido não previsto. Não é a negação do livre-arbítrio; é a ação da alma em sua plenitude, intervindo no curso de seus destinos, ou, então, será a influência de nossos Guias invisíveis, que se exerce e nos impele no sentido do plano divino, a intervenção de uma Inteligência que, vindo de mais longe e mais alto, procura arrancar-nos às contingências inferiores e levar-nos para as cumeadas. Em todos estes casos, porém, é só nossa vontade que rejeita ou aceita e decide em última instância.
Em resumo, em vez de negar ou afirmar o livre-arbítrio, segundo a escola filosófica a que se pertença, seria mais exato dizer: "O homem é o obreiro de sua libertação." O estado completo de liberdade atinge-o no cultivo íntimo e na valorização de suas potências ocultas. Os obstáculos acumulados em seu caminho são meramente meios de o obrigar a sair da indiferença e a utilizar suas forças latentes. Todas as dificuldades materiais podem ser vencidas.
Somos todos solidários e a liberdade de cada um liga-se à liberdade dos outros.
Libertando-se das paixões e da ignorância, cada homem liberta seus semelhantes. Tudo o que contribui para dissipar as trevas da inteligência e fazer recuar o mal, torna a Humanidade mais livre, mais consciente de si mesma, de seus deveres e potências.
Elevemo-nos, pois, à consciência do nosso papel e fim, e seremos livres.
Asseguraremos com os nossos esforços, ensinamentos e exemplos a vitória da vontade assim como do bem e, em vez de formarmos seres passivos, curvados ao jugo da matéria, expostos à incerteza e inércia, teremos feito almas verdadeiramente livres, soltas das cadeias da fatalidade e pairando acima do mundo pela superioridade das qualidades conquistadas.
O Problema do Ser do Destino e da Dor – FEB
Léon Denis