quarta-feira, 18 de novembro de 2009

NÃO SE DEIXE VENCER

- Seja bom, ajude as pessoas, mantenha-se honesto. Não só com o dinheiro, mas seja verdadeiro nas atitudes, nas amizades. Palavras que meus pais sempre me diziam.
Eu crescia, e, já nos primeiros anos, percebia como seria difícil viver como me ensinaram. Mas eu tinha de esforçar-me e ser bom filho. Valeria o céu !
Na disputa pelas primeiras namoradas, ficou claro o que me esperava. A sinceridade tinha de competir com a hipocrisia. Mas eu não desistiria.
Formei-me e saí em busca de trabalho. Sem amigos ou políticos que me recomendassem, fui pelo caminho normal. E começaram as desilusões ...
- Sem experiência não podemos contratá-lo. Desculpe.
- Só pagamos salário mínimo, porque você nunca trabalhou;
- No escritório não temos, se quiser como operário;
- Sei que tem diploma, mas outros também têm;
- O emprego que temos não é para o seu nível.
Lia jornais, falava com pessoas, procurava agências e nada! Qualquer coisa servia para começar, mas nada conseguia.
Certa tarde, cansado, sentei-me numa soleira, pensando nas injustiças do mundo, com fome e perdido na multidão. Carros, motos, pessoas, iam apressados.
Um "carinha" me olha e pergunta: - E ai, meu, tudo certo ?
Estranhei, mas que mal podia haver em falar com ele ! - Legal não tá. Tô procurando serviço e não acho. Faz quatro meses.
- É, emprego não tá fácil. Mas se quiser, posso arranjar um quebra galho, até "pintar" algo melhor. É coisa "manera", mas dá pra faturar uma "graninha".
Será que chegou o meu dia, pensei. Então lhe perguntei: - Você tem um serviço pra mim?
- Pode ser. Eu trabalho para uns "caras" que vendem um pó pra curar dor de cotovelo, briga de família, traição de amor ...É remédio barato ! A gente compra e revende. O lucro não é grande, mas dá pro arroz e feijão ...
- Remédio! Mas quem vende remédio é farmácia ...
- Esse não, meu. Esse a gente vende tête-à-tête, corpo-a-corpo. Em dinheiro vivo.. Toma lá, dá cá. Da fábrica ao consumidor, manjou ? E aí ? É pegar ou largar.
Quando me dei conta do que se tratava, lembrei das lutas pelo céu e agora estava ali à beira do inferno. Mas vou arriscar. Não tem emprego. Eu saio logo dessa ...
- Falou, cara. Dá a dica. Qual é o barato?
- É assim que se fala, irmão. Vamos nessa!
Semana passada completei vinte e oito anos. Não fiz carreira como vendedor, mas virei consumidor do tal remédio que cura tudo. E como nunca tenho dinheiro, para consegui-lo já roubei, matei e sei que logo parto desta pra melhor. Fazer o que? Eu bem que tentei ser honesto, mas não deu. Se eu pelo menos tivesse arranjado trabalho. E olhe que lutei muito para ter um diploma!
Nos poucos minutos que a minha cabeça me deixa pensar, eu vejo como é difícil alguém ganhar o céu. O ser humano da Terra não leva a sério essa coisa de amor ao próximo. Talvez haja algum planeta onde uns se preocupem com os outros, porque aqui não é assim. É cada um pra si.
- Sou escravo do maldito pó. Queria ser homem e hoje não passo de uma droga...
Uma história fictícia. Para muitos, infelizmente, um história real.

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