terça-feira, 3 de novembro de 2009

OS ESPÍRITOS DURANTES OS COMBATES


O tema que ilustra o título deste artigo é uma sequência do ensino dos orientadores da Codificação a respeito da intervenção dos Espíritos no mundo corporal, especificamente sobre o comportamento deles nos combates.1 Influem os Espíritos no ânimo dos homens em guerra? Em caso positivo, como isso acontece?
Os Espíritos constantemente nos rodeiam e exercem incessante ação sobre o mundo físico e o espiritual, atuando sobre a matéria e o pensamento. Tudo o que se passa no plano visível reflete no invisível, que é o mundo causal. As duas humanidades (física e espiritual) encontram-se unidas por laços indissolúveis, como se fossem duas faces da mesma moeda, em que funcionam as leis de afinidade entre os seres pensantes: “[...] tudo o que ligardes na terra, terá sido ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra, terá sido desligado no céu”.2
Por isso, não é de se estranhar que haja Espíritos influenciando os combates e amparando cada um dos lados em duelo, como ocorre em qualquer situação corriqueira, na convivência em sociedade, sobretudo nas grandes concentrações urbanas, que não prescindem das leis humanas para disciplinar o relacionamento entre os indivíduos.
Cada pessoa reage de forma diferente, quando seus interesses conflitam com os de seus semelhantes. Conforme a elevação de cada um, desses impasses pode sair uma solução espontânea, negociada ou o confronto direto ou indireto. Nos tempos primitivos, quando o homem vivia no estado de natureza, prevalecia a lei do mais forte. Com a evolução, surgiu o Direito, objetivando mediar os conflitos de forma civilizada, encaminhando-os para uma solução pacífica e evitando, assim, que o homem faça justiça com as próprias mãos. Apesar disso, as estatísticas da violência urbana e rural demonstram que deixamos falar mais alto dentro de nós os instintos primitivos, dos quais ainda não nos libertamos totalmente.
O comportamento de dois indivíduos que entram em litígio é padrão entre os Espíritos de evolução mediana: cada um supõe que a justiça esteja do seu lado. Os Espíritos inferiores, atraídos pelos contendores, quando influenciam os encarnados em confronto, nem sempre estão preocupados com qual lado está a justiça: desejam que prevaleça o direito daqueles com os quais se afinizam ou apoiam, com vistas a algum interesse que beneficiará a si mesmos, como resultado do embate.
Assim, é perfeitamente natural que os Espíritos envolvidos em uma batalha procurem intuir os comandantes dos oponentes, que têm poder de decisão sobre os rumos da campanha. Ademais, os líderes e os combatentes podem ser guiados por uma espécie de segunda vista,3 que é a faculdade de o Espírito se desdobrar do corpo físico, durante a vigília, circunstância em que a pessoa vê, ouve e sente além dos limites dos sentidos humanos.
A história das guerras está repleta de fatos dessa natureza. Caso clássico e bem difundido é o de Joana d’Arc (1412-1431), heroína francesa que, na condição de médium, recebeu dos Espíritos orientações importantes que influíram para a vitória da França em algumas batalhas acontecidas na chamada “Guerra dos Cem Anos” contra a Inglaterra. Entretanto, todos sabemos que a vitória, em uma guerra, por mais justa que pareça, tem um gosto amargo, em virtude dos efeitos colaterais provocados.
O comportamento de alguns Espíritos que, mesmo depois de perderem o corpo físico, durante o combate, continuam interessados no conflito, confirma o que já aprendemos sobre a imortalidade do ser: o vaso físico é apenas o invólucro do Espírito. Ao desencarnar, conservamos nossa individualidade, porém, a morte não é igual para todos. Depende do estágio evolutivo de cada um. Por isso, há Espíritos que continuam a se interessar pela batalha, lutando renhidamente, como se encarnados estivessem, enquanto outros se afastam, por variados motivos.
Kardec entrevistou um Espírito, que perdera o corpo físico em combate travado durante a guerra da independência italiana contra a Áustria, a chamada “Batalha de Magenta”, ocorrida em 4 de junho de 1859, da qual participou o exército francês. O diálogo deu-se na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 10 de junho de 1859, tendo sido publicado na Revista Espírita, da qual reproduzimos pequeno trecho:
12.No momento da morte percebestes logo que havíeis morrido?
Resp. – Não; eu estava tão atordoado que não podia acreditar.
Observação – Isto concorda com o que temos observado nos casos de morte violenta; não se dando conta imediatamente de sua situação, o Espírito não se julga morto. [...] Para ele a morte é sinônimo de destruição, de aniquilamento. Ora, desde que vê, sente e raciocina, julga não ter morrido. É necessário certo tempo para poder reconhecer-se.4
De modo geral, a separação entre o corpo e o Espírito não ocorre instantaneamente. Morrer, biologicamente, é fácil; desencarnar já não é tão simples assim. O Espírito não toma consciência de si mesmo logo após a morte do corpo físico, visto que passa algum tempo em estado de perturbação, que também varia de acordo com o progresso de cada um: “A entrada em uma vida nova traz impressões tão variadas quanto o permite a posição moral dos Espíritos”.5 Nos casos de mortes violentas, que ocorrem com frequência nos combates, mais fortes são os laços que prendem o corpo ao perispírito, daí ser o indivíduo tomado de espanto, e, se ainda for muito apegado à matéria, não acredita estar morto, pois conserva “as ilusões da vida terrestre”.6
As leis divinas são perfeitas. As expiações coletivas, em que grande multidão sofre os efeitos das lutas fratricidas, dos trágicos acidentes, dos terremotos e da miséria social, entre outras catástrofes, podem representar resgates de faltas passadas, porque atinge grande número de pessoas, boas ou más. Ninguém sofre sem o merecer, em um planeta atrasado moralmente como o nosso, no qual a dor também serve de meio de purificação dos Espíritos, em processo de reequilíbrio e educação: “Ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecer”.7
Algumas das obras da Série André Luiz, psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier (1910-2002), trazem informações a respeito das repercussões, no mundo espiritual, das guerras entre os homens, e dos ataques de entidades inferiores contra as cidadelas do bem, situadas no plano espiritual, como, por exemplo, aquelas narradas nos livros Nosso Lar, Obreiros da Vida Eterna, Os Mensageiros, bem assim a investida frustrada contra a “Mansão Paz”, estampada no livro Ação e Reação.8 Agredidos, os Espíritos elevados se utilizam de eficientes recursos de defesa, sem descurar do auxílio a esses irmãos ignorantes, conscientes de que “as forças do Céu velam pelo inferno que, a rigor, existe para controlar o trabalho regenerativo na Terra” e de que “a paz não é conquista da inércia, mas sim fruto do equilíbrio entre a fé no Poder Divino e a confiança em nós mesmos, no serviço pela vitória do bem”.9 (Destaque nosso.)
A guerra é resultado das paixões exacerbadas do homem, em virtude da “predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual”, porém, ela desaparecerá da Terra, quando os homens compreenderem a justiça e praticarem as leis de Deus.10
Os flagelos destruidores provocados pelo ser humano representam grave infração às leis morais. Apesar disso, eles o têm impulsionado à ascensão, ainda que pelo sofrimento. Isso não quer dizer que estão isentos de culpa aqueles que lançam a Humanidade em combates sangrentos, por ambição. Neste caso, muitas existências lhes serão necessárias para expiar todos os crimes de que hajam dado causa.
Considerando todo esse panorama que ainda reina em muitos corações humanos, não é de surpreender que haja guerras no mundo:
Infelizmente, o ser humano ainda não está preparado para viver a paz, de forma que a guerra representa, ao lado das graves tragédias, um doloroso processo de conquista da liberdade e do progresso.11 (Grifo nosso.)
Esses contrastes que vemos são bem típicos de um mundo de provas e expiações, como é a Terra, em que o homem precisa da sombra, para valorizar a luz, da dor, para valorizar a saúde, da tristeza, para valorizar a alegria: “A dor é o aguilhão que o impele para a frente, na senda do progresso”.12
O orgulho e o egoísmo estão na raiz de muitos conflitos, sejam eles individuais ou coletivos. Quando o homem cultivar mais a temperança e utilizar melhor o seu livre-arbítrio, não terá necessidade do sofrimento para progredir. Se existem guerras, é porque elas ainda permanecem dentro de cada um de nós, daí a necessidade de nos espiritualizarmos para desfrutarmos de um mundo mais pacífico.

Christiano Torchi
Reformador Novembro09

1KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 91. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Q. 541 a 548.
2MATEUS, 18:18.
3KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 91. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Q. 447 a 454.
4KARDEC, Allan. O Zuavo de Magenta. In: Revista espírita: jornal de estudos psicológicos, ano 2, p. 277, jul. de 1859. Trad. de Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
5DENIS, Léon. Depois da morte. Ed. espec. 1. imp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. P. 4, cap. Além-túmulo, item 30, A hora final, p. 270.
6Idem. O problema do ser, do destino e da dor. 1. reimp.Rio de Janeiro: 2008.P. 1, cap.O problema do ser, item 11, A vida no Além, p. 205.
7MATEUS, 24:6.
8XAVIER, Francisco C. Ação e reação. Pelo Espírito André Luiz. 28. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 3.
9Idem, ibidem. p. 41 e 44.
10KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 91. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Q. 742 a 745.
11ROCHA, Cecília. (Responsável pela organização). Estudo sistematizado da doutrina espírita: programa fundamental. T. 2, 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. p. 109.
12KARDEC,Allan.A gênese. 52. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 3, item 5.

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