quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ENCONTRO DE NATAL


Recolhes as melodias do Natal, guardando o pensamento engrinaldado pela ternura de harmoniosa canção...
Percebes que o Céu te chama a partilhar os júbilos da exaltação do Senhor nas sombras do mundo.
Entretanto, misturada ao regozijo que te acalenta a esperança, carregas a névoa sutil de recôndita angústia, como se trouxesse no peito um canteiro de rosas orvalhado de lágrimas!...
É que retratas no espelho da própria emoção o infortúnio de tantos outros companheiros que foram inutilmente convidados para a consagração da alegria. Levantaste no lar a árvore da ventura doméstica, de cujos galhos pendem os frutos do carinho perfeito; entretanto, não longe, cambaleiam seguidores de Jesus, suspirando por leve proteção que os resguarde contra o frio da noite; banqueteias-te, sob guirlandas festivas, mas, a poucos passos da própria casa, mães e crianças desprotegidas aguardando o socorro do Cristo, enlanguescem de fadiga e necessidade; repetes hinos comovedores, tocados pela serena beleza que dimana dos astros; no entanto, nas vizinhanças, cooperadores humildes do Mestre choram cansados de penúria e aflição; abraças os entes queridos, desfrutando excessos de reconforto; contudo, à pequena distância, esmorecem amigos de Jesus, implorando quem lhes dê a bênção de uma prece e o consolo de uma palavra afetuosa, nas grades dos manicômios ou no leito dos hospitais...
Sim, quando refletes na glória da Manjedoura, sentes, em verdade, a presença do Cristo no coração!
Louva as doações divinas que te felicitam a existência, mas não te esqueças de que o Natal é o Céu que se reparte com a Terra, através do eterno amor que se derramou das estrelas.
Agradece o dom inefável da paz que volta, de novo, enriquecendo-te a vida, mas divide a própria felicidade, realizando, em nome do Senhor, a alegria de alguém!...

Meimei
LIVRO ANTOLOGIA MEDIÚNICA DO NATAL
Psicografia: Francisco Cândido Xavier

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ESPÍRITA NÃO CONDENA NINGUÉM

1. Existe, na tradição forense, uma idéia segundo a qual os espíritas são os jurados que melhor atendem aos interesses da defesa, uma vez que, de acordo com a voz corrente, “espírita não condena ninguém”. Durante mais de trinta anos de atuação na tribuna do júri, não conseguimos comprovar o acerto dessa afirmativa. Constatamos, isto sim, uma grande tendência condenatória entre os seguidores das religiões reformadas, e uma acentuada indefinição entre os católicos, que ora pendem para um lado, ora para o outro.
Como constituem a maioria do universo religioso brasileiro, são, por conseguinte, os mais visados e os que mais sofrem as influências de toda sorte a que se acham sujeitos os jurados de um modo geral. Por isso, torna-se difícil uma conclusão mais concreta a respeito de suas tendências. O certo é que as mais absurdas decisões do Tribunal do Júri, tanto absolutórias como condenatórias, partem, geralmente, de conselhos de sentença dos quais não participam seguidores de outros credos religiosos. Atualmente, com crescimento da Igreja Universal, e de outras que guardam semelhança com ela, o fenômeno vem perdendo sua força, sobretudo no que tange à aceitação pela sociedade dos chamados “crentes”, o que nem sempre acontece com relação ao Espiritismo e aos espíritas.

2. Nenhum argumento sério autoriza a existência desse procedimento, a não ser o preconceito e o radicalismo religioso. Durante algum tempo, quando ainda não conhecíamos nada de Espiritismo, aceitamos tal entendimento sem maiores indagações e sem a menor preocupação de sondar a sua veracidade. Agimos, neste caso, com a tranqüilidade própria dos ignorantes. Mais tarde, já devidamente esclarecidos a seu respeito, constatamos que tudo não passava de mais um dos enormes equívocos que boa parte das pessoas alimenta quanto a ele, Espiritismo.
Verificamos, por outro lado, que os jurados espíritas condenavam ou absolviam, tanto quanto os demais.
É de se lamentar, no entanto, que essa falsa visão não se acha restrita apenas aos não-espíritas, porquanto é perfilhada por muitos que se dizem adeptos da Doutrina.
Trata-se de um dos muitos problemas que a perspicácia de Allan Kardec detectou, conforme se pode ver no capítulo XXIX, item 334, de O Livro dos Médiuns.
O termo espírita carrega, no entendimento vulgar, uma série de conotações eivada de erros e de preconceitos. Abrange um universo enorme, que vai desde os integrantes do sincretismo religioso, sob as suas variadas denominações, até aos seguidores dos cultos e das seitas em que o exotismo ocupa o lugar de maior destaque, passando, ainda, pelas inúmeras veredas de quantos se definem espiritualistas. Essas formas de religiosidade, embora merecedoras de respeito, não guardam nenhuma afinidade com a Doutrina dos Espíritos, e a confusão, consciente ou inconsciente, que se estabeleceu entre elas e o Espiritismo, enseja raciocínios e ilações inteiramente distantes da verdade, como a de se imputar aos espíritas uma conduta de alienação em face das questões sociais. Essa atitude os acompanharia também, quando convocados a julgar seus irmãos pelo cometimento de um ilícito penal, cujo julgamento se inscreve no rol dos que são da competência do Júri Popular, fixada pelo artigo 5o, XXXVIII, da Constituição Federal.

3. O raciocínio peca, contudo, pela total ausência de razão. Ao espírita não é vedado julgar, ainda que desse encargo advenha a inevitável aplicação de uma pena.
Ele, como qualquer outro cidadão, não pode fugir da responsabilidade que o Estado lhe delegou, ao convocá-lo para o serviço do júri. Seria ótimo se a sociedade moderna já não mais convivesse com a criminalidade e que, no lugar das penitenciárias e das cadeias, estivesse edificada uma escola. Todavia, esse grau de desenvolvimento e evolução ainda se acha muito distante de ser alcançado.
A pena, por isso mesmo, no estágio atual da Humanidade, permanece, teoricamente, como o instrumento mais eficaz de que a sociedade dispõe para restabelecer o equilíbrio social abalado pela ação do delinqüente.
A concepção de que o espírita, por uma questão de princípios, não condena ninguém não se harmoniza com o sentimento de responsabilidade que a ele cabe assumir diante de si, de Deus e da sociedade, sob pena de ser considerado, nos termos do magistério de Kardec, mais um “espírita de nome” (a respeito, Revista Espírita, novembro de 1861, p. 495).

4. O que Jesus proscreveu foi o julgamento apressado, afoito, impregnado de má-fé, no qual, muitas vezes, a verdadeira intenção do julgador permanece oculta, a exemplo do que ocorreu no episódio envolvendo a mulher adúltera.
No Sermão do Monte (Mateus, 7: 1 e 2), Ele nos adverte quanto a essa maneira de julgar. Ela é típica do chamado juízo temerário, caracterizado pela impiedade ou ditado pelas aparências que, costumeiramente, enganam.Uma interpretação exclusivamente literal e isolada desses dois versículos poderia levar à absurda conclusão de que toda e qualquer forma de julgamento é defesa aos cristãos. Os juízes de direito seriam, pois, vítimas de uma autêntica “injustiça divina”, porquanto nenhuma esperança teriam quanto à sua vida futura, em face de sua própria atividade profissional.
Não obstante, todos sabemos da sua importância dentro da sociedade, em virtude dos constantes e cada vez mais numerosos conflitos que afloram a todo instante em seu seio, e do elevado índice de criminalidade dos dias atuais.

5. O sentido da proibição se completa e se integra no contexto evangélico através dos versículos 3, 4 e 5 da mesma narrativa de Mateus: – “E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?
Ou como dirás a teu irmão:
Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu?
Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então, cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão”.
De mais a mais, durante o seu messiado, Jesus, em diversas oportunidades, estabeleceu juízos de valor, e, em conseqüência, julgou, contrariando, dessarte, os que sustentam a proibição absoluta do julgamento. Na sua explicação sobre a gravidade e a dimensão das ofensas feitas ao nosso irmão, foi de meridiana clareza ao não excluir do julgamento humano os autores dessas ofensas: “Ouvistes que foi dito aos antigos:
Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.
Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo, e qualquer que chamar a seu irmão de raca será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe chamar de louco será réu do fogo do inferno”. (Mateus. 5:21-23.)
A expressão réu de juízo significa os diversos graus da Justiça humana: a outra, réu do Sinédrio, se refere à Justiça de Deus. A primeira, contudo, não exclui a segunda, em virtude de sua inexorabilidade, traduzida pela regra imperativa do a cada um será dado de acordo com suas obras. Ninguém, mesmo quem já foi compelido a prestar conta de suas ações ao Judiciário terreno, está isento de ser julgado e sancionado pela Justiça Divina. Isso integra o seu mecanismo operacional, que jamais dispensa a “reparação pelo dano causado”, exigindo que, na execução de suas penas, “até o último jota e o último ponto” sejam fielmente cumpridos.
O episódio da interpelação do Cristo acerca da licitude, ou não, do pagamento dos impostos devidos a Roma ratifica inteiramente esse entendimento, uma vez que Ele fez questão de destacar a existência de duas espécies de jurisdição, a humana e a divina, mandando dar a Deus o que era de Deus e ao homem o que lhe pertencia.

6. A única conclusão razoável diante da posição evangélica quanto ao julgamento é a de que ela se reveste de caráter relativo, e não absoluto, não obstante as ratificações posteriores de Paulo e Tiago (Romanos, 14:13 e Epístola Universal, 4:12, respectivamente). Tomada ao pé da letra importaria em um verdadeiro caos para toda a Humanidade e nenhuma organização política conseguiria sobreviver à falência que provocaria.
Todo homem de bem, profitente de qualquer religião que seja, não deve, pois, julgar pelas aparências, movido pela simpatia ou antipatia, pelos interesses políticos, pelas rivalidades de qualquer espécie, pelas filiações religiosas, enfim, por todos os fatores que atuam na formação da opinião pública e que, na maioria das vezes, somente se prestam para conduzir ao passionalismo irracional e a injustiças inomináveis.
Qualquer julgamento, sobretudo aqueles da competência da Justiça Criminal, deve procurar sempre o amparo da verdade histórica, embora essa nem sempre se identifique com a verdade processual.
Nos casos duvidosos, mal esclarecidos ou tendenciosos, a consciência jurídica, calcada na noção do justo e do injusto que cada um traz dentro de si, não autoriza uma decisão condenatória. Não se trata, porém, de apanágio exclusivo de alguma confissão religiosa, porquanto nada mais é do que a simples aplicação de um brocardo jurídico de tradição milenar.
É o famoso in dubio pro reo do Direito Romano, ainda de uso corrente na atualidade, cuja existência é anterior ao Cristianismo e que, em face disso, não pode ser invocado para justificar a inverídica proibição de julgar e condenar imputada aos espíritas.

Setembro 2006 • Reformador

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O ESPIRITISMO E A MULHER

Encontram-se, em ambos os sexos, excelentes médiuns; é à mulher, entretanto, que parecem outorgadas as mais belas faculdades psíquicas. Daí o eminente papel que lhe está reservado na difusão do novo Espiritualismo.
Malgrado às imperfeições inerentes a toda criatura humana, não pode a mulher, para quem a estuda imparcialmente, deixar de ser objeto de surpresa e algumas vezes de admiração. Não é unicamente em seus traços pessoais que se realizam, em a Natureza e na Arte, os tipos da beleza, da piedade e da caridade; no que se refere aos poderes íntimos, à intuição e adivinhação, sempre foi ela superior ao homem. Entre as filhas de Eva é que obteve a antiguidade as suas célebres videntes e sibilas. Esses maravilhosos poderes, esses dons do Alto, a Igreja entendeu, na Idade Média, aviltar e suprimir, mediante os processos instaurados por feitiçaria. Hoje encontram eles sua aplicação, porque é sobretudo por intermédio da mulher que se afirma a comunhão com a vida invisível.
Mais uma vez se revela a mulher em sua sublime função de mediadora que o é em toda a Natureza. Dela provém a vida; e ela a própria fonte desta, a regeneradora da raça humana, que não subsiste e se renova senão por seu amor e seus ternos cuidados. E essa função preponderante que desempenha no domínio da vida, ainda a vem preencher no domínio da morte. Mas nós sabemos que a morte e a vida são uma, ou antes, são as duas formas alternadas, os dois aspectos contínuos da existência.
Mediadora também é a mulher no domínio das crenças. Sempre serviu de intermediária entre a nova fé que surge e a fé antiga que definha e vai desaparecendo. Foi o seu papel no passado, nos primeiros tempos do Cristianismo, e ainda o é na época presente.
O Catolicismo não compreendeu a mulher, a quem tanto devia. Seus monges e padres, vivendo no celibato, longe da família, não poderiam apreciar o poder e o encanto desse delicado ser, em quem enxergavam antes um perigo.
A antiguidade pagã teve sobre nós a superioridade de conhecer e cultivar a alma feminina. Suas faculdades se expandiam livremente nos mistérios. Sacerdotisa nos tempos védicos, ao altar doméstico, intimamente associada, no Egito, na Grécia, na Gália, às cerimônias do culto, por toda a parte era a mulher objeto de uma iniciação, de um ensino especial, que dela faziam um ser quase divino, a fada protetora, o gênio do lar, a custódia das fontes da vida. A essa compreensão do papel que a mulher desempenha, nela personificando a Natureza, com suas profundas intuições, suas percepções sutis, suas adivinhações misteriosas, é que foi devida a beleza, a força, a grandeza épica das raças grega e céltica.
Porque, tal seja a mulher, tal é o filho, tal será o homem. É a mulher que, desde o berço, modela a alma das gerações. É ela que faz os heróis, os poetas, os artistas, cujos feitos e obras fulguram através dos séculos. Até aos sete anos o filho permanecia no gineceu sob a direção materna. E sabe-se o que foram as mães gregas, romanas e gaulesas. Para desempenhar, porém, tão sagrada missão educativa, era necessária a iniciação no grande mistério da vida e do destino, o conhecimento da lei das preexistências e das reencarnações; porque só essa lei dá à vida do ser, que vai desabrochar sob a égide materna, sua significação tão bela e tão comovedora.
Essa benéfica influência da mulher iniciada, que irradiava sobre o mundo antigo como uma doce claridade, foi destruída pela lenda bíblica da queda original.
Segundo as Escrituras, a mulher é responsável pela proscrição do homem; ela perde Adão e, com ele, toda a Humanidade; atraiçoa Sansão. Uma passagem do Eclesiastes a declara “uma coisa mais amarga que a morte”. O casamento mesmo parece um mal: “Que os que têm esposas sejam como se não as tivessem” – exclama Paulo.
Nesse ponto, como em tantos outros, a tradição e o espírito judaico prevaleceram, na Igreja, sobre modo de entender do Cristo, que foi sempre benévolo, compassivo, afetuoso para com a mulher. Em todas as circunstâncias a escuda ele com sua proteção; dirige-lhe suas mais tocantes parábolas. Estende-lhe sempre a mão, mesmo quando decaída. Por isso as mulheres reconhecidas lhe formam uma espécie de cortejo; muitas o acompanharão até a morte.
A situação da mulher, na civilização contemporânea, é difícil, não raro dolorosa. Nem sempre a mulher tem para si os usos e as leis; mil perigos a cercam, se ela fraqueja, se sucumbe, raramente se lhe estende mão amiga. A corrupção dos costumes fez da mulher a vítima do século. A miséria, as lágrimas, a prostituição, o suicídio – tal é a sorte de grande número de pobres criaturas em nossas sociedades opulentas.
Uma reação, porém, já se vai operando. Sob a denominação de feminismo, um certo movimento se acentua legítimo em seu princípio, exagerado, entretanto, em seus intuitos; porque ao lado de justas reivindicações, enuncia propósitos que fariam da mulher, não mais mulher, mas cópia, paródia do homem. O movimento feminista desconhece o verdadeiro papel da mulher e tende a transvia-la do destino que lhe está natural e normalmente traçado. O homem e a mulher nasceram para funções diferentes, mas complementares. No ponto de vista da ação social, são equivalentes e inseparáveis.
O moderno Espiritualismo, graças às suas práticas e doutrinas, todas de ideal, de amor, de equidade, encara a questão de modo diverso e resolve-a sem esforço e sem estardalhaço. Restitui a mulher seu verdadeiro lugar na família e na obra social, indicando-lhe a sublime função que lhe cabe desempenhar na educação e no adiantamento da Humanidade. Faz mais, reintegra-a em sua missão de mediadora predestinada, verdadeiro traço de união que liga as sociedades da Terra às do Espaço.
A grande sensibilidade da mulher a constitui o médium por excelência, capaz de exprimir, de traduzir os pensamentos, as emoções, os sofrimentos das almas, os altos ensinos dos Espíritos celestes. Na aplicação de suas faculdades encontra ela profundas alegrias e uma fonte viva de consolações. A feição religiosa do Espiritismo a atrai e lhe satisfaz as aspirações do coração, as necessidades de ternura, que estendem, para além do túmulo, aos entes desaparecidos. O perigo para ela, como para o homem, está no orgulho dos poderes adquiridos, na suscetibilidade exagerada. O ciúme, suscitando rivalidades entre médiuns, torna-se muitas vezes motivo de desagregação para os grupos.
Daí a necessidade de desenvolver na mulher, ao mesmo tempo que os poderes intuitivos, suas admiráveis qualidades morais, o esquecimento de si mesma, o júbilo do sacrifício, numa palavra, o sentimento dos deveres e das responsabilidades inerentes à sua missão mediatriz.
O Materialismo, não ponderando senão o nosso organismo físico, faz da mulher um ser inferior por sua fraqueza e a impele à sensualidade. Ao seu contato, essa flor de poesia verga ao peso das influências degradantes, se deprime e envilece. Privada de sua função mediadora, de sua imaculada auréola, tornada escrava dos sentidos, não é mais um ser instintivo, impulsivo, exposto às sugestões dos apetites mórbidos. O respeito mútuo, as sólidas virtudes domésticas desaparecem; a discórdia e o adultério se introduzem no lar; a família se dissolve, a felicidade se aniquila. Uma nova geração, desiludida e céptica, surge do seio de uma sociedade em decadência.
Com o Espiritualismo, porém, ergue de novo a mulher a inspirada fronte; vem associar-se intimamente à obra de harmonia social, ao movimento geral das idéias. O corpo não é mais que uma forma tomada por empréstimo; a essência da vida é o espírito, e nesse ponto de vista o homem e a mulher são favorecidos por igual. Assim, o moderno Espiritualismo restabelece o mesmo critério dos Celtas, nossos pais; firma a igualdade dos sexos sobre a identidade da natureza psíquica e o caráter imperecível do ser humano, e a ambos assegura posição idêntica nas agremiações de estudo.
Pelo Espiritismo se subtrai a mulher ao vértice dos sentidos e ascende à vida superior. Sua alma se ilumina de clarão mais puro; seu coração se torna o foco irradiador de ternos sentimentos e nobilíssimas paixões. Ela reassume no lar a encantadora missão que lhe pertence, feita de dedicação e piedade, seu importante e divino papel de mãe, de irmã e educadora, sua nobre e doce função persuasiva.
Cessa, desde então, a luta entre os dois sexos. As duas metades da Humanidade se aliam e equilibram no amor, para cooperarem juntas no plano providencial, nas obras da Divina Inteligência.

Léon Denis

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

PASSAGEM E PAISAGEM DE NATAL

Em ligeiro encontro que tivemos com um amigo, perguntou-nos ele:
- Como é, você já está preparado para o Natal?
Respondemo-lhe:
- Meu caro, há muitos anos que nos vimos preparando para o Natal, mas até agora, lamentavelmente, não conseguimos ainda o preparo necessário.
Via de regra, o sentido da pergunta, tal como no-la fazem, diz respeito:
- à aquisição de vestimenta para estréia no dia de Nascimento do Senhor;
- à compra de guloseimas e bebidas finas para solenizar o acontecimento;
- à possível remodelação de nossas residências, com melhoramentos gerais, quer na decoração, quer no mobiliário;
- à realização de negócios vantajosos;
- à programação de fuga do burburinho da cidade para a quietude bucólica de um sítio;
- à apresentação de uma árvore de Natal, toda cheia de lantejoulas irisadas de luzes policrômicas;
- à armação de um presépio, reproduzindo o quadro da Manjedoura;
- à lembrança dos amigos para conosco, representada nos presentes ganhos ou à nossa retribuição a eles;
Não é assim que entendemos a passagem do Grande Dia do Senhor?
Geralmente, pensamos em como passar o Natal.
A questão em si não é todavia, de passagem do Natal e, sim, de paisagem do Natal.

Paisagem do Natal em nós mesmos:
- do pensamento alcandorado nas Alturas, tocando os cimos iluminados e luminosos da Espiritualidade;
- da mente em sintonia com o Alto, nimbada das claridades do Grande Além;
- dos sentimentos acrisolados nos ensinos e testemunhos cristãos;
- da vontade a serviço único e exclusivo dos desígnios do Altíssimo;
- do cérebro transformado em centro das mais nobres e formosas cogitações espirituais;
- do coração engrandecido nas mais profundas e sinceras manifestações do amor;
- dos olhos, visualizando tão-somente os quadros dignificantes da vida;
- dos ouvidos, captando, de todos os lados e pelas formas múltiplas sob que se apresentam, as mensagens silenciosas e abscônditas que nos vêm da alma das coisas, dos arcanos sagrados do Universo;
- das mãos em diligentes atividades de reconstrução espiritual do Homem e do Mundo;
- dos pés , em deslocamento para o Bem e pelo Bem, sem desfalecimentos nem recuos, sem paradas nem desvios ante os percalços do Caminho;
- da boca externando invariavelmente palavras de vida eterna, ajustadas ao diapasão evangélico, enquadrados nos ditames de uma consciência retilínea;
- de toda a instrumentalidade fisiológica elevada à condição de santuário, de “templo do Espírito Santo”, onde o oficiante possa celebrar o culto, de todas as horas e de todos os dias, da adoração ao Senhor através do serviço ativo de edificação de si mesmo.

Não sabemos em que sentido aquele nosso amigo nos teria feito a sua pergunta, mesmo porque tão rápido fora nosso encontro, que não nos deu tempo para outras indagações. Mas temos a impressão, quase certeza, de que se tivéssemos entrado em maiores considerações, pelo menos nós passaríamos por não tê-lo entendido, quando bem poderia ser ele quem, talvez, não nos entendesse.
De qualquer sorte, ficamos-lhe sumamente agradecidos pela feliz oportunidade que nos ensejou de poder ressaltar a diferença existente entre passagem de Natal e paisagem de Natal.

Diferença que se resume nisto:

Passagem de Natal.

- Nós dentro de exterioridades, que se findam poucos dias depois;

Paisagem de Natal.

- Interioridade no âmago de nossas almas que perduram por todo o sempre, no infinito do espaço e na eternidade do Tempo.

Diferença que se explica por isto Natal é Jesus no coração. Ele nascido em nós; nós nascidos n’Ele.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

REFLEXÕES SOBRE A MORAL DIVINA.

Não é raro conhecermos pessoas que, apesar de viverem em condições adversas, em ambientes viciosos, conseguem furtar-se às influências negativas do meio e se destacam na sociedade como homens e mulheres dignos. Há outras que, mesmo depois de terem experimentado uma vida de transgressões, crimes, prostituição e drogas, conseguem se recuperar, tornando- se referência para muitos outros indivíduos. Esses exemplos de superação mostram do que o ser humano é capaz, quando tem fé.

No conhecido livro do escritor francês Victor Hugo (1802-1885), Os Miseráveis, também retratado em filme, encontramos a história de um ex-presidiário (Jean Valjean) que, ante um dilema moral, originado de um furto por ele praticado após ganhar a liberdade, foi inocentado pela própria vítima, o caridoso bispo Charles Myriel, atitude que causou um profundo impacto no ex-condenado, motivando-o, daí por diante, a se tornar um homem de bem. Esta obra, embora seja um romance de ficção social, é inspirada na realidade e nos faz refletir sobre a questão filosófica da moral, tratada em O Livro dos Espíritos. 1

A crença inata em um ser superior, comum a todos nós, sugere a existência de uma constituição divina insculpida na alma. Toda vez que infringimos as leis naturais, um juízo secreto nos diz que estamos no caminho errado. Dominados pelas paixões, nem sempre seguimos os ditames desse tribunal interior, ficando sujeitos, depois, ao arrependimento, à expiação e à reparação dos erros cometidos.

Do ponto de vista espírita, “a moral é a regra de bem proceder, isto é, a distinção entre o bem e o mal. Funda-se na observância da Lei de Deus. O homem procede bem quando faz tudo pelo bem de todos, porque então cumpre a Lei de Deus”. 2 A infração das leis morais resulta numa sanção imposta pela própria consciência, que se traduz no remorso, sem prejuízo da eventual condenação imposta pela sociedade e suas instituições. O bem e o mal estão relacionados ao comportamento humano ditado pelo livre-arbítrio, pois “a noção de moralidade é inseparável da de liberdade”. 3 Procedendo corretamente, o homem dá mostras de que sabe distinguir o bem do mal. O bem é tudo o que é compatível com a lei de Deus e o mal é tudo aquilo que não se harmoniza com ela. Em resumo: quando fazemos o bem, procedemos conforme a lei de Deus, e quando fazemos o mal estamos infringindo essa lei.

Nem todos, porém, se comprazem em fazer o bem, dependendo da evolução do indivíduo e dos valores que cultua. Quando o homem procura agir acertadamente, utilizando a razão e a reflexão, encontra meios de distinguir, por si mesmo, o que é bem do que é mal. Ainda que esteja sujeito a enganar- se, em vista de sua falibilidade, possui uma bússola que o guiará no caminho certo, que é o de colocar-se na posição do outro, analisando o resultado de sua decisão: aprovaria eu o que estou fazendo ao próximo, se estivesse no lugar dele?

Esse método de pôr-se no lugar do outro para medir a qualidade de nossos atos é bem eficiente, quando nos habituamos a utilizá-lo, porque o metro de cada um está na lei natural, que estabelece o limite de nossas próprias necessidades, razão por que experimentamos o sofrimento toda vez que ultrapassamos essa fronteira. Por isso, se ouvíssemos mais a voz da consciência, estaríamos a salvo de muitos males que atribuímos a fatores externos ou à Natureza.

Deus poderia se quisesse, ter feito o Espírito pronto e acabado, mas o criou simples e ignorante, dando-lhe, assim, a oportunidade de progredir pelo próprio esforço, para que tenha a ventura de chegar ao cume da jornada e exclamar, satisfeito: eu venci!

Com o advento tanto do progresso e a consequente proliferação dos grupos sociais, caracterizados por sua diversidade cultural, como também das novas necessidades criadas pela modernidade e pelo avanço da tecnologia, somos tentados a pensar que a lei natural não é uma regra uniforme para a coletividade. Todavia, este modo de raciocinar é equivocado, uma vez que a lei natural possui tantas gradações quantas necessárias para cada tipo de situação, sem perder a unidade e a coerência, cabendo a cada um distinguir as necessidades reais das artificiais ou convencionais.

A lei de Deus é a mesma para todos, independentemente da posição evolutiva do homem, que tem a liberdade de praticar o bem ou o mal. A diferença que existe está no grau de responsabilidade, como no caso do selvagem que, outrora, sob domínio dos instintos primitivos, considerava normal alimentar-se de carne humana, a saber: o homem é tanto mais culpado quanto melhor sabe o que faz. À medida que o Espírito adquire experiência, em sucessivas encarnações, alcança estágios superiores que lhe permitem discernir melhor as coisas. Portanto, a responsabilidade do ser humano é proporcional aos meios de que dispõe para diferenciar o bem do mal. Apesar disso, não se pode dizer que são menos repreensíveis as faltas que comete, embora decorrentes da posição que ocupa na sociedade.

O mal desaparece à medida que a alma se depura. É então que, senhor de si, o homem se torna mais culpado quando comete o mal, porque tem melhor compreensão da existência deste. A culpa pelo mal praticado recai sobre quem deu causa a ele, porém, aquele que foi compelido, levado ou induzido a praticar o mal por outrem, é menos culpado do que aquele que lhe deu causa.

Outrossim, o fato de se achar num ambiente desfavorável ou nocivo à moral, devido às influências dos vícios e dos crimes, não quer dizer que a criatura esteja isenta de culpa, se, deixando-se levar por essas influências, também praticar o mal. Em primeiro lugar, porque dispõe de um instrumento poderoso para superar as circunstâncias infelizes: a vontade. Em segundo, porque, antes de encarnar, pode ter escolhido essa prova, submetendo-se à tentação para ter o mérito da resistência. De outras vezes, o Espírito renasce em um meio hostil com a missão de exercer influência positiva sobre seus semelhantes, retardatários.

Por outro lado, aquele que, mesmo não praticando diretamente o mal, se aproveita da maldade feita por outrem, age como se fosse o autor, isso porque talvez não tivesse coragem de cometê-lo, mas, encontrando o mal feito, tira partido da situação, o que significa que o aprova e o teria praticado, se pudesse ou tivesse ousadia para tanto. Enquanto Espíritos, quase todos nos equiparamos, na Terra, a condenados em regime de liberdade condicional, sujeitos, graças à misericórdia divina, a diversas restrições que, muitas vezes, nos são impostas para nos proteger das próprias fraquezas. Assim, podemos dizer que muitos de nós só não praticamos o mal por falta de oportunidade, considerando que nem sempre temos vontade forte o bastante para resistir a determinadas conjunturas, em virtude da ausência de autocontrole.

O desejo de praticar o mal pode ser tão repreensível quanto o próprio mal, contudo, aquele que resiste às tentações, com a finalidade de superar-se, tem grande mérito, sobretudo quando depende apenas de sua vontade para tomar essa ou aquela decisão. Não basta, porém, que deixe de praticar o mal. É preciso que faça o bem no limite de suas forças, pois cada um responderá por todo mal que resulte de sua omissão em praticar o bem. Os Espíritos superiores são taxativos em dizer que ninguém está impossibilitado de fazer o bem, independentemente de sua posição, pois que todos os dias da existência nos oferecem oportunidades de ajudar o próximo, ainda que seja por meio de uma singela oração.

O grande mérito de se fazer o bem reside na dificuldade que se tem de praticá-lo. Quanto maiores forem os obstáculos para a realização do bem, maior é o merecimento daquele que o executa. Contrário senso, não existe tanta valia em se fazer o bem sem esforço ou quando nada custa, como no caso do afortunado que dá um pouco aos pobres do que lhe sobra em abundância. A parábola do óbolo da viúva, contida em o Novo Testamento, 4 retrata bem tal circunstância.

Finalizando, a essência da moral divina pode ser encontrada na máxima do amor ao próximo, ensinada por Jesus, porque abarca todos os deveres que os homens têm uns para com os outros, razão pela qual temos necessidade de vivenciar essa lei constantemente, porquanto o bem é a lei suprema do Universo que nos conduz a Deus “e o mal será sempre representado por aquela triste vocação do bem unicamente para nós mesmos [...]”. 5

Christiano Torchi
Reformador Junho 2010


1 – Kardec. O livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2 ed. Rio de Janeiro: FEB 2010. Q.629-646
2 – Idem, ibidem. Q.629
3 – Denis, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 2. reimp. Rio de Janeiro. FEB, 2009. 3, As potências da Alma, item 22, p.477.
4 – Lucas, 21:1-4
5 – Xavier, Francisco C. Ação e Reação. 28. Ed. 2. Reimp. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro. FEB, 2009. Cap. 7, p.110.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O PERISPÍRITO

"Há corpo animal e há corpo espiritual" diz São Paulo (1 Cor. 15:44). Com efeito, esse corpo espiritual de São Paulo é o perispírito dos espíritas de hoje. O perispírito, aliás, não é coisa nova.
No Antigo Egito os sacerdotes ensinavam que além do ka", o Espírito, emanação divina, havia uma forma imaterial "sahu", o fantasma propriamente, que reproduzia exatamente os traços do corpo físico e que se manifestava aos encarnados.
Na Grécia antiga, a doutrina inspirada pelos hinos órficos ensinava: "Amai a luz, e não as trevas. Lembrai-vos da finalidade da vossa viagem. Quando as almas voltam ao mundo espiritual trazem marcadas sobre os seus corpos etéreos, em manchas horrendas, todas as faltas da sua vida e, para as apagar, é necessário voltar à Terra. Mas os puros e os fortes se vão para o sol de Dionísio".
Na Índia se fala também desse corpo espiritual, porque ele próprio se impõe como uma realidade incontestável.
Mas não desejamos deter-nos em detalhes nem em considerações dos antigos filósofos. Preferimos abordar rapidamente as importantes funções do perispírito no plano material, assim como as suas conseqüências no plano espiritual.
O corpo espiritual, isto é, o perispírito está em cada. um de nós intimamente ligado ao corpo físico e é tanto mais sutil quanto mais elevado se acha o ser na escala da perfectibilidade. Vaporoso para nós encarnados é, no entanto, bem grosseiro ainda para os desencarnados; contudo, os Espíritos purificados podem elevar-se com ele na atmosfera e transportar-se aonde queiram.
As suas funções no corpo físico são múltiplas e preside a todos os fenômenos fisiológicos da respiração, da alimentação e assimilação dos alimentos, extraindo toda a matéria aproveitável, afeiçoando-a a cada órgão e eliminando do corpo todos os elementos que lhe sejam inúteis ou nocivos. Com efeito, o nosso organismo é uma complicada máquina que funciona à nossa revelia, sem que, nem de leve, suspeitemos da sua complexidade.
Um elevado Espírito, respondendo numa sessão a um jornalista inglês que lhe perguntara sobre o perispírito, disse: "Tenho um corpo que é uma reprodução do que tive na Terra: as mesmas mãos, pernas e pés, que se movem como o fazem os vossos. Na Terra eu tinha o corpo físico interpenetrado do corpo etéreo que ora tenho. O etéreo é o corpo real e é cópia perfeita do corpo terreno. Por ocasião da morte, emergimos de nossa cobertura de carne e continuamos a nossa vida no mundo etéreo, funcionando aqui por meio do corpo etéreo, exatamente como funcionávamos na Terra, metidos no corpo físico. O corpo etéreo é aqui tão substancial para nós como o era o corpo físico quando vivíamos na Terra. Temos as mesmas sensações. Sentimos e vemos como na Terra. Embora não sejam materiais, conforme entendeis esta palavra, os nossos corpos têm forma, aspecto e expressão".
É ainda no perispírito que ficam registradas as nossas ações e os nossos atos, bons ou maus. De fato, todos os acontecimentos da nossa vida são maravilhosamente registrados em nosso perispírito, nos seus mínimos detalhes; nada se perde.
Segundo recente declaração do Dr. Wilder Penfield, diretor do Instituto de Neurologia de1 Montreal, Canadá, o nosso perispírito grava, como num filme, todos os acontecimentos da nossa vida. A recordação é de tal modo viva que é como se o indivíduo voltasse a reviver as mesmas cenas, os mesmos fatos.
Pelos fatos registrados nas obras espíritas já sabíamos que em momentos críticos, como nos acidentes graves, nas quedas perigosas, na asfixia por afogamento, etc., o indivíduo pode rever, com incrível nitidez, a sua vida até aquele momento, como se assistisse a um filme no qual ele próprio tomasse parte.
Naturalmente os seus atos bons são motivos de satisfação para o seu Espírito, enquanto os atos maus são motivo de tristeza e arrependimento. Por aí se pode avaliar a situação dolorosa de certos Espíritos libertos da carne, tendo diante de si, permanentemente, os acontecimentos deploráveis que desejariam esquecer.
Eis um fato significativo que comprova as afirmações do Dr. Penfield. O almirante Beaufort, quando ainda jovem, caiu de um navio à água do porto de Portsmouth. Antes que fosse possível ir em seu socorro, desapareceu; ia morrer afogado.
Depois de algumas considerações sobre a angústia do primeiro momento, diz ele:

"Com o enfraquecimento dos sentidos coincidiu uma superexcitação extraordinária da atividade intelectual; as idéias sucediam-se com rapidez prodigiosa. O acidente que acabara de dar-se, o descuido que o motivara, o tumulto que se lhe deveria ter seguido, a dor que iria alcançar meu pai e outras circunstâncias intimamente ligadas ao lar doméstico, foram o objeto das minhas primeiras reflexões. Depois, veio-me à memória o último cruzeiro, viagem acidentada por um naufrágio; a seguir, a escola, os progressos que nela fizera e também o tempo perdido, finalmente, as minhas ocupações e aventuras de criança. Em suma, a subida de todo o rio da vida, e quão pormenorizada e precisa"! E acrescenta: "Cada incidente da minha vida atravessava-me sucessivamente a memória, não como simples esboço, mas com as particularidades e acessórios de um quadro completo! Por outras palavras, toda a minha existência desfilava diante de mim numa espécie de vista panorâmica, cada fato com a sua apreciação moral ou reflexões sobre suas causas e efeitos. Pequenos acontecimentos sem conseqüências, há muito tempo esquecidos, se acumulavam em minha imaginação como se tivessem passado na véspera. E tudo isso sucedeu em dois minutos"
(Léon Denis, "O Problema do Ser", pág. 173)

Com efeito, todos os atos da nossa vida e são maravilhosamente registrados em nosso perispírito. Os menores detalhes são cuidadosamente guardados para, no momento preciso, na aflorarem nítidos, inconfundíveis - Eis porque Jesus, estabelecendo a nossa responsabilidade diante da vida, diz: "Até os cabelos da vossa da cabeça estão contados."

Fonte: Reformador - julho/1970 - pg. 161

terça-feira, 23 de novembro de 2010

UM ESTRANHO CASO DE OBSESSÃO

De um jovem que se assinou J.S.P., em carta que nos escreveu, recebemos a seguinte interrogação:
“Será condenável um homem se tornar noivo de uma jovem, marcar a data do casamento e depois verificar que é a outra que ama, e, por isso, desejar romper o compromisso com a primeira? Este é o meu problema. Que devo fazer? Sinto que ambas gostam de mim, embora de minha parte já existe uma definição.”

Isso faz-me lembrar o episódio ocorrido com Jesus, citado pelo evangelista Lucas, no capítulo 12, vv. 13 e 14:
“Então , no meio da turba, um homem lhe disse:
“Mestre, dize ao meu irmão que divida comigo a herança que nos tocou.”
Ao que Jesus respondeu: “Ó homem! Quem me designou para vos julgar, ou para fazer as vossas partilhas?”

Não acreditamos que esse gentil correspondente esteja dizendo a verdade. Deve tratar-se apenas de uma curiosidade, uma investigação que ele faz, a fim de obter resposta, à luz do critério doutrinário, para casos a que, infelizmente, tantas vezes assistimos em nossa vida de relação. Não nos sentimos, aliás, no direito de opinar sobre ocorrência tão melindrosa, na hipótese de se tratar de uma realidade que o amigo J.S.P. viva no momento.
Não obstante, o bom senso indica que o fato de jogar com os sentimentos do nosso próximo é grave, e pode resultar em conseqüências muito desagradáveis, mesmo dramáticas. Muitas vezes, a leviandade praticada por alguém, em casos de amor, pode refletir-se em além-túmulo e arrastar a uma obsessão aquele que feriu um coração com a traição ou o desprezo. A lei de caridade manda-nos respeitar o coração amigo que se nos devota, e procurar não iludi-lo com falsas promessas ou atitudes levianas.
Uma solicitação de casamento deve ser refletida, amadurecida, antes de realizada, observando o pretendente se, com efeito, o seu sentimento de amor é sincero, é fiel para enfrentar um compromisso de tal responsabilidade. Porque tal compromisso não é apenas social, mas também moral, e o homem de bem deve honrá-lo, consultando a si próprio antes de tomar a resolução.
Este, vale dizer, é um problema exclusivamente de consciência, o qual, por isso mesmo, não foge às necessárias buscas de inspiração na prece sincera e vibrada.
Uma ingratidão, uma traição de qualquer natureza, assim como a hipocrisia diante de um coração que ama, é erro que poderá reverter sobre quem o pratica, senão de momento, mais tarde, e, mesmo, em futuro remoto. Responderemos, no entanto, narrando um fato típico de traição de amor, por nós assistido há cerca de quarenta anos, fato real e não fantasia de romance, que se passou em certa pequena cidade do Estado do Rio de Janeiro, a qual era por nós visitada periodicamente. E o nosso correspondente, se, realmente, estiver envolvido pela própria leviandade, compreenderá que necessita muita cautela do modo de agir, recorrendo ao Evangelho, a fim de orientar-se.

O jovem Sr. A.G. tornara-se noivo de uma jovem de excelentes qualidades morais, muito delicada de sentimentos e leal aos afetos íntimos, mas de condições sociais muito modestas. Era uma boa filha para sua mãe, a qual, por sua vez, era viúva e adorava a filha única entre ternura infinita. Chamava-se Elisa a jovem noiva, e, sua mãe, Madalena. O noivado corria normalmente, e o casamento fora marcado para seis meses depois. Elisa entregava-se ao seu amor com todas as forças da alma, o coração repleto de esperanças e confiança no futuro. O noivo, por sua vez, mostrava-se dedicado e atencioso. Não passava um único dia sem visitar a noiva, e o idílio fazia crer a nossa Madalena que a filha seria felicíssima no casamento.
Um dia, no entanto, o Sr. A.G., que era comerciante e lutava a fim de prosperar, necessitou viajar a uma cidade próxima - a cidade de A.R. -, lá passando três dias. Em um baile, a que fora convidado por um colega de comércio, conheceu uma jovem por nome Terezinha. Dançou prazerosamente com ela, reconheceu-a educada, alegre, amável, elegante, muito sociável, e enamorou-se. Voltando a sua cidade natal, meditou em que Elisa era bem inferior a Terezinha, pois não freqüentava a sociedade, vestia-se modestamente, e nem possuía aquela irradiante personalidade da outra. Elisa notou-o silencioso e triste, falando o mínimo, demorando-se menos em suas visitas, mas de nada desconfiou, porque seu coração era puro e não podia acalentar suspeitas contra aquele que lhe merecia toda a confiança. Na semana seguinte, A.G. voltou à cidade de A.R., e Terezinha pareceu-lhe mais sedutora do que no primeiro dia. Prosseguiu o namoro, com a moça a corresponder-lhe ternamente, com imensa alegria. Finalmente, passoua viajar para a velha cidade de A.R. todos os sábados., pretextando negócios, e lá ficava também aos domingos, deixando a casa comercial ao cuidado do sócio. Mas, não confessava a Terezinha que era comprometido em sua cidade natal nem rompia o noivado com Elisa. Faltava-lhe coragem para esclarecer a ambas a própria situação.
Chegara, no entanto, a época indicada para o consórcio com Elisa. Mas A.G. desculpou-se, e pedira mais dois meses de espera. Os negócios não iam bem... enquanto continuavam as visitas à cidade vizinha, e Elisa, fiel e confiante, e sua mãe continuavam preparando o modesto enxoval. Até que, de uma das visitas a A.R., o jovem Sr. A.G. voltou casado com a graciosa Terezinha, sem jamais haver desfeito o noivado com Elisa.
Numa cidade pequena como aquela, tais acontecimentos, há quarenta ou cinqüenta anos passados, repercutiam como raios que explodissem entre a população. Elisa soubera do fato logo após o desembarque do casal, que vinha ali mesmo residir. Mas não pôde, não quis acreditar no que amigos lhe vieram informar. Mas, investigando, logo se inteirou da realidade, e adoeceu. Adoeceu de paixão, de surpresa, d e choque nervoso, de humilhação, de desespero, de decepção, de desilusão, de vergonha, de traumatismo moral. Adveio embolia cerebral e, um mês depois, Elisa morria nos braços de sua inconsolável mãe. Nesse dia, houve revolta entre as pessoas afeiçoadas a Elisa e sua mãe, e Terezinha foi por elas informada do procedimento desleal do homem que a desposara. Confessou ela, então ignorar o compromisso de A.G. com alguém daquela cidade, e não se sentir culpada pelo passamento da jovem. Discutiu calorosamente com o marido nesse dia. Mas tudo passou logo depois, e não mais tocaram no assunto. A hora em que, porém, saía o féretro de Elisa, sua mãe, desolada, em desespero, exclamou – e suas palavras repercutiram tão tragicamente pelo ambiente mortuário da sua pobre sala de visitas que as pessoas presentes estremeceram de impressão e pavor:
“Minha filha, vai em paz para junto de Deus, porque eras um anjo que mereceu o Céu! E fica descansada, porque o miserável que causou a tua morte há de me pagar! Ele não será feliz, porque eu não o deixarei ser feliz!”
E, três meses depois, Madalena, sempre inconsolável, inconformada, morria também. A pobre mulher era cardíaca e não resistiu à dor de perder a filha naquelas circunstâncias.
Cerca de três ou quatro meses depois após o passamento de Madalena, Terezinha começou a beber e embriagar-se. Das primeiras vezes que o fato se verificou, o marido repreendeu-a energicamente. Houve discussões graves, cenas lamentáveis. A.G. acusava-a de Ter o vício desde o tempo de solteira, e encobri-lo hipocritamente; que aquela alegria permanente dos seus modos, aquela vivacidade que todos lhe conheciam, outra coisa não era senão reflexo do álcool ingerido às ocultas. Chorando, Terezinha afirmava que jamais bebera, que somente agora uma necessidade irresistível de beber levava-a a procurar, em qualquer arte, algo com que aplacar aquele terrível desejo que a prostrava. Os melhores médicos da cidade, e até facultativos de São Paulo e do Rio de Janeiro, trataram dela. O marido gastava o que certamente não possuía, a fim de libertá-la do nefando vício. Mas, era tudo em vão. Terezinha continuava a beber, e cada vez embrenhava-se no vício com mais ardor. Mas não era vinho, não era cerveja que a atraíam. Era a cachaça, a cachaça! O terrível veneno que os obsessores preferem para sugerir aos seus desafetos. Terezinha, dIante tão graciosa, agora se embebedava até sair à rua, na ausência do marido, e fazer tolices, e dizer inconveniências, até cair na calçada e entrar em coma alcoólico, como os ébrios comuns. A.G. passava pela vergonha de ser avisado, por qualquer transeunte, de que sua mulher se encontrava caída, completamente bêbada, numa calçada ou numa esquina de rua.
Vieram quatro filhos desde malogrado matrimônio. E Terezinha não deixou de beber, e não atendia aos deveres para com os mesmos. Era preciso, então, que o marido se repartisse entre os próprios negócios e as atenções aos filhos, auxiliado por criadas. Os filhos cresciam verificando a desgraça em que caíra a própria mãe. A.G. arruinou-se como comerciante, sendo necessário submeter-se a um modesto emprego de administrador do cemitério local. E, finalmente, Terezinha já não usava a cachaça pura, mas temperada em cravo e a canela. No ano de 1940, as circunstâncias da vida levaram-me à dita cidade. Visitei o casal, convidou-me a uma conversa particular, já embriagada, e falou-me, debulhada em lágrimas:
“Sr. Frederico, sei que o senhor é espírita e conhece muitas coisas que os outros desconhecem... Pelo amor de Deus, liberte-me desse desejo de beber... é uma força indomável que me arrasta para a bebida! Eu não quero beber! Mas sou forçada a beber!”
Nessa visita, contemplei, então, um casal desajustado, filhos infelizes, um homem vencido pela adversidade, uma mulher arruinada por uma desgraça inconcebível!
Regressando à minha terra, orei durante algum tempo, e, nas reuniões que fazíamos no nosso templo espírita, suplicávamos ao Alto socorro para ela. Mas Terezinha continuou a beber durante mais cinco anos, da mesma forma. Bebeu durante quatorze anos, sem um só dia de trégua!
Certo dia em que o Sr. A.G. se lamentava numa roda de amigos, um deles aconselhou:
“Por que você não leva sua esposa ao Centro Espírita Bittencourt Sampaio? O Sr. Z, seu diretor, é um grande médium, apóstolo do Bem, tem curado muita gente, de variadas doenças...”
A.G. não era espírita, mas, impelido pelo desespero, levou a esposa ao Sr. Z, e explicou-lhe o que acontecia.
Reunidos os três em gabinete apropriado, o médium Z, que, de imediato, compreendeu o que se passava, orou e suplicou a Jesus a presença de um de seus mensageiros a fim de socorrer a paciente. Apresentou-se, então, à sua vidência, o grande, o iluminado espírito de Bittencourt Sampaio, que lhe disse, através da intuição:
“Chama o teu médium... Trata-se de uma obsessão... e faremos o que o senhor permitir.”
Veio o médium – a própria esposa de Z -. Este, incorporado pelo generoso Protetor presente, espalmou uma das mãos sobre a cabeça de Terezinha e a outra sobre o médium. Qual uma faísca elétrica, o obsessor apresentou-se, incorporando-se na médium. Era Madalena, a mãe da pobre Elisa, noiva atraiçoada de A.G.. Conversaram os dois, como de praxe em tais reuniões, sob a assistência de Bittencourt, sempre incorporado em Z. Madalena terminou por submeter-se, não ainda convertida, a perdoar, mas à irresistível autoridade de Bittencourt. Abandonou a presa, que subjugara durante quatorze anos! Terezinha ficou radicalmente curada da embriaguez em uma semana, pois fora necessário ainda fortificá-la através de passes, que Z lhe aplicava, ainda sob influência curativa de Bittencourt Sampaio.
Mas... perguntará o leitor: Por que o Espírito Madalena não obsidiou antes A.G., que foi o traidor de Elisa, e não Terezinha, que ignorava o compromisso por ele mantido com aquela?
E nós ousamos confessar que não sabemos. É possível, porém, que a pobre Madalena, despeitada, odiando aquela que roubara o coração do prometido de sua filha, preferisse ferir Terezinha, para que a dor de A.G. fosse mais cruel. É possível que Terezinha, de modo algum, tivesse tendência para a bebida, sem o saber; e, certamente, se esta foi, realmente, inocente da ação reprovável de A.G., devia, por alguma remota falta, à lei de Deus e, por isso teria mais possibilidade de “dar passividade” a um, obsessor, por ser, com certeza, frágil, além de ser médium, assim expiando um erro do passado, enquanto o marido expiava um crime cometido no presente. Porque foi um crime o que ele praticara contra Elisa. Madalena, certamente, errou. Mas... “quem estiver sem pecado atire a primeira pedra” nessa pobre entidade que, sob o cuidado do grande e iluminado Bittencourt Sampaio, encontrou, sem sombra de dúvida, o verdadeiro caminho a seguir, a fim de redimir-se.

FONTE: Reformador – abril de 1976 – Frederico Francisco

terça-feira, 16 de novembro de 2010

TITANIC

"Caros amigos, uma sombra feliz vem até vós. Desconhecendo-lhe a pessoa, não lhe ignorais, entretanto, o nome, nem a morte trágica no naufrágio do Titanic. Sou Stead. Amigos comuns, entre os quais a duquesa de P..., me trouxeram aqui para que me manifestasse por intermédio de Mme. Hervy, sua amiga. Talvez vos cause admiração que meus Espíritos familiares não me tenham avisado da fatalidade que pesava sobre o Titanic. É que nada pode prevalecer contra o destino, quando irremediável, e eu devia morrer sem que a nenhuma potência humana ou espiritual fosse possível retardar a minha derradeira hora. A agonia do Titanic teve alguma coisa de horrível, mas também de sublime. Houve desesperos loucos e manifestações covardes e brutais do egoísmo humano. Mas, quantos, por outro lado, medindo toda a extensão da coragem, se sentiram maiores diante da morte, mais nobres e mais santos, mais perto de DEUS! Saber que se vai morrer na plenitude da vida, na exuberância da força, pela ação dessas potências da Natureza, indomadas sob a aparência da submissão; morrer ao cintilar das estrelas impassíveis; morrer na calma fúnebre do mar gelado, em meio de uma solidão infinita, que angústia para a pobre criatura humana! e que apelo desvairado ela dirige a esse DEUS, cujo poder repentinamente descobre!... Oh! as preces daquela noite, as preces, os desprendimentos, as consciências a se iluminarem por súbitos relâmpagos e a fé a se elevar nos corações por entre as harmonias do belo cântico: “Mais perto de ti, meu DEUS".

Agonia de centenas de seres, sim, mas agonia que para muitos era a aurora de um novo dia. Há, para os que viveram, pensaram, sofreram, como também para os que muito gozaram das falazes alegrias que a fortuna dispensa às suas vítimas, um alívio interior e como que um arroubo de esperança, ao reconhecerem que dentro de alguns instantes tudo estará acabado. A alma freme na carne e a subjuga, malgrado os sobressaltos inconscientes da animalidade.
E quantos dentre nós, proferindo as palavras do cântico: “Mais perto de ti, meu DEUS!” se sentiram bem perto do SER inefável que nos envolve com a sua onipotente serenidade!
Pelo que me toca, vi, cheio de estranha doçura, aproximar-se a morte, sentindo-me amparado pelos meus amigos invisíveis, penetrado de um misterioso magnetismo que galvanizava os que iam morrer e que tirava à morte todo o horror. Os que morreram sofreram pouco, menos do que os que sobreviveram. Os escolhidos já estavam a meio no mundo espiritual, onde em tudo rebrilha uma vida etérea. A maior amargura não era a deles, mas a dos que, presos à matéria, enchiam os barcos de socorro, que os levavam para continuarem nesse mundo a peregrinação da dor, de que ainda se não haviam libertado”.

Espírito W. H. Stead (Publicista inglês), morto na catástrofe do Titanic - mensagem de 21/5/1912 -
Obra: O Além e a Sobrevivência do Ser - Léon Denis

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

IMAGENS DIVINAS

É a ti, ó Potência Suprema! qualquer que seja o nome que te dêem e por mais imperfeitamente que sejas compreendida; é a ti, fonte eterna da vida, da beleza, da harmonia, que se elevam nossas aspirações, nossa confiança, nosso amor.
Onde estás, em que céus profundos, misteriosos, tu te escondes? Quantas Almas acreditaram que bastaria, para te encontrar, o deixar a Terra! Mas tu te conservas invisível no mundo espiritual, quanto no mundo terrestre, invisível para aqueles que não adquiriram ainda a pureza suficiente para refletir teus divinos raios.
Tudo revela e manifesta, no entanto, tua presença. Tudo quanto na Natureza e na Humanidade canta e celebra o amor, a beleza, a perfeição, tudo que vive e respira é mensagem de Deus. As forças grandiosas que animam o Universo proclamam a realidade da Inteligência divina; ao lado delas, a majestade de Deus se manifesta na História, pela ação das grandes Almas que, semelhantes a vagas imensas, trazem às plagas terrestres todas as potências da obra de sabedoria e de amor.
E Deus está, assim, em cada um de nós, no templo vivo da consciência. É aquele o lugar sagrado, o santuário em que se encontra a divina centelha.
Homens! aprendei a imergir em vós mesmos, a esquadrinhar os mais íntimos recônditos do vosso ser; interrogai-vos no silêncio e no retiro. E aprendereis a reconhecer-vos, a conhecer o poder escondido em vós. É ele que leva e faz resplandecer no fundo de vossas consciências as santas imagens do bem, da verdade, da justiça, e é honrando essas imagens divinas, rendendo-lhes um culto diário, que essa consciência, ainda obscura, se purifica e se ilumina.
Pouco a pouco, a luz se engrandece em nós outros. De igual modo que gradualmente, de maneira insensível, as sombras dão lugar à luz do dia, assim a Alma se ilumina das irradiações desse foco que reside nela e faz desabrochar, em nosso pensamento e em nosso coração, formas sempre novas, sempre inesgotáveis de verdade e de beleza. E essa luz é também harmonia penetrante, voz que canta na alma do poeta, do escritor, do profeta, e os inspira e lhes dita as grandes e fortes obras, nas quais eles trabalham para elevação da Humanidade. Mas, sentem essas coisas apenas aqueles que, tendo dominado a matéria, se tornaram dignos dessa comunhão sublime, por esforços seculares, aqueles cujo senso íntimo se abriu às impressões profundas e conhecem o sopro potente que atiça os clarões do gênio, sopro que passa pelas frontes pensativas e faz estremecer os envoltórios humanos.

Léon Denis - O Grande Enigma.

domingo, 14 de novembro de 2010

MEDICINA E SENTIMENTOS

A medicina verdadeira não pode separar-se dos sentimentos elevados, que têm a capacidade de afigurá-la como esperança, fé, e alegria para todos os desesperados. E esses sentimentos dos representantes da ciência têm um veículo por excelência grandioso: a palavra. O enfermo, nas circunstâncias em que se encontra, é todo ouvidos. Está, por assim dizer, com as sensibilidades afloradas, principalmente em relação ao clínico. Eis aí a hora exata de uma palavra certa, de um verbo benfeitor, para que os medicamentos possam desempenhar o seu papel de restabelecimento do equilíbrio orgânico, porque a palavra já abriu o caminho no mundo psíquico, no fabuloso mundo da mente.

Não é de bom alvitre que o terapeuta cerre seus lábios perante o doente. Este precisa ouvi-lo, e a sua voz será um comando de grandes poderes no mundo endócrino, no sistema nervoso, assim como no metabolismo celular, qual a voz do comandante para uma divisão militar.

Se queres curar, aliviar e consolar, não esqueças a boca antes de tudo: começa por ela, depois continua pela seqüência do que aprendeste nos bancos da universidade e na experiência própria. A medicina é um apostolado, é um ministério divino, mas procura envolver-te em sentimentos de fraternidade e de amor para com o próximo. Trata-o como se ele fosse tu mesmo estirado em um leito, e vai para a frente, que mãos invisíveis te ajudarão na sagrada tarefa de curar. Alguém que te acompanha no mundo espiritual fará o que porventura te faltar na ciência de restabelecer os outros.

Falar com decência é preparar-se para ouvir com carinho. Busquemos, pois, policiar o nosso intercâmbio com quem quer que seja, sem, todavia, anunciar este nosso dever, para que a nossa reforma não fique desvalorizada pela vaidade.

Se gostas imensamente de coisas científicas, na verdade te dizemos que a palavra, a sua estrutura, o seu todo, é uma ciência. Para educá-la, é necessário conhecer, mas conhecer muito! Somente o sábio, que se santificou por dentro, sabe dominá-la em toda a sua gama de sons e vibrações, de ondas e de magnetismo superior. Porém, não deves colocar-te muito distante desse domador da voz, pois podes ser um deles se começares com bom ânimo, se não esmoreceres com os primeiros obstáculos, que certamente aparecerão para te testar como aluno da verdade. Quem não está disposto a lutar, como poderá vencer? Em muitos casos, ao iniciares a reforma da palavra em tua boca, as pedras cairão em teu caminho. A tua própria natureza íntima, acostumada aos velhos e decadentes assuntos inferiores, criarão barreiras, para que venha em ti o esmorecimento. Mas, se fores daquele tipo que quando cai torna a levantar-se e seguir viagem, serás beneficiado por Deus e Cristo, através dos teus próprios esforços.

Há pessoas que gostam muito de ouvir quem fala com decência, quem já educou a voz no certame do amor, quem pronuncia com o perfume da alegria elevada; não obstante, esquece-se de seguir o exemplo, fazendo o mesmo para o seu próprio bem. Vamos analisar o que fala o apóstolo Tiago sobre isso: “Tornai-vos, pois, praticante da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”.

Poderás ser um médico da palavra, sem com isso ostentar um diploma acadêmico. Depende do domínio que já alcançaste, do amor armazenado no teu coração e da facilidade com que a alegria jorra dos teus lábios, harmonizando os que te ouvem, doando saúde e paz às criaturas. Podes ser um cientista, se os sons da tua boca representarem uma orquestra divina, se a tua fala construir por onde transitares nesse universo sem limites. Mas, antes dessa operação maior, examina o que vais falar, e se vierem à mente coisas desagradáveis, corta-as, movendo a tua língua somente com a pureza que procede de Deus, nosso Pai. Comecemos, que muitos já começaram e seguiram, estando felizes com a experiência de falar bem.

Espírito de Miramez - Obra: Horizontes da Fala - Médium: João Nunes Maia.

sábado, 13 de novembro de 2010

O ESPIRITISMO OBRIGA

O Espiritismo é uma ciência essencialmente moral. Então os que se dizem seus adeptos não podem, sem cometer uma grave inconseqüência, subtrair-se às obrigações que impõe.

Essas obrigações são de duas sortes.

A primeira concerne o indivíduo que, ajudado pelas claridades intelectuais, que a doutrina espalha, pode melhor compreender o valor de cada um de seus atos, melhor sondar todos os retalhos de sua consciência, melhor apreciar a infinita bondade de Deus, que não quer a morte do pecador mas que se converta e viva e, para lhe deixar a possibilidade de erguer-se de suas quedas, lhe deu a longa série de existências sucessivas, a cada uma das quais, levando o peso de suas faltas passadas, pode adquirir novos conhecimentos e novas forças, fazendo-o evitar o mal e praticar o que é conforme à justiça, à caridade. Que dizer daquele que, assim esclarecido quanto aos seus deveres para com Deus, para com os irmãos, fica orgulhoso, cúpido, egoísta? Não parece que a luz o tenha esquecido, porque não estava preparado para a receber? Desde então marcha nas trevas, posto esteja em meio à luz. Só é Espírita de nome. A caridade fraterna dos que vêem realmente deve esforçar-se por curá-lo dessa cegueira intelectual. Mas para muitos dos que lhe parecem, será preciso a luz que o túmulo traz, porque seu coração está muito ligado aos prazeres materiais e seu espírito não está maduro para receber a verdade. Numa nova encarnação compreenderão que os planetas inferiores, como a Terra, não passam de uma espécie de escola mútua, onde a alma começa a desenvolver suas faculdades, suas aptidões, para em seguida as aplicar ao estudo dos grandes princípios da ordem, da justiça, do amor e da harmonia, que regem as relações das almas entre si, e as funções que desempenham na direção do Universo. Eles sentirão que, chamada a uma tão alta dignidade, qual a de se tornar mensageira do Altíssimo, a alma humana não deve aviltar-se, degradar-se ao contato dos prazeres imundos da volúpia; das ignóbeis tentações da avareza, que subtrai a alguns filhos de Deus o gozo dos bens que deu a todos; compreenderão que o egoísmo, nascido do orgulho, cega a alma e a faz violar os direitos da justiça, da humanidade, desde que gera todos os males que fazem da terra um lugar de dores e de expiações. Instruídos pelas duras lições da adversidade, seu espírito será amadurecido pela reflexão, e seu coração, depois de ter sido ralado pela dor, tornar-se-á bom e caridoso. É assim que o que vos parece um mal, por vezes é necessário para reconduzir os endurecidos. Esses pobres retardatários, regenerados pelo sofrimento, esclarecidos por esta luz interior, que se pode chamar o batismo do Espírito, velarão com cuidado sobre si mesma, isto é, sobre os movimentos do coração e o emprego de suas faculdades. Compreenderão que não são apenas obrigados a eles próprios se melhorarem, cálculo egoísta que impede atingir o objetivo visado por Deus, mas que a segunda ordem de obrigação do Espírita, decorrendo necessariamente da primeira e a completando, é a do exemplo, que é o melhor dos meios de propagação e de renovação.
Com efeito, aquele que está convencido da excelência dos princípios que lhe são ensinados, e devem, se a eles conforme a sua conduta, lhe proporcionar uma felicidade duradoura, não pode, se estiver verdadeiramente animado desta caridade fraterna, que está na essência mesma do Espiritismo, senão desejar que sejam compreendidos por todos os homens. Daí, a obrigação moral de conformar sua conduta com a sua crença e ser um exemplo vivo, um modelo, como o Cristo o foi para a humanidade.
Vós, fracas centelhas partidas do eterno foco do amor divino, certamente não podeis pretender uma tão vasta radiação quando a do Verbo de Deus encarnado na Terra, mas cada um, na vossa esfera de ação, podeis espalhar os benefícios do bom exemplo. Podeis fazer amar a virtude, cercando-a do encanto dessa benevolência constante, que atrai, cativa e mostra, enfim, que a prática do bem é coisa fácil, faz a felicidade íntima da consciência que se colocou sob sua lei, pois ela é a realização da vontade divina, que nos fez dizer por seu Cristo: Sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.
Ora, o Espiritismo não é senão a aplicação verdadeira dos princípios de moral ensinada por Jesus, porque não é senão com o objetivo de a fazer por todos compreendida, a fim que por ela todos progridam mais rapidamente, que Deus permite esta universal manifestação do Espírito, vindo vos explicar o que vos parecia obscuro e vos ensinar toda a verdade. Vem, como o cristianismo bem compreendido, mostrar ao homem a absoluta necessidade de sua renovação interior pelas conseqüências mesmas que resultam de cada um de seus atos, de cada um de seus pensamentos. Porque nenhuma emanação fluídica, boa ou má, escapa do coração ou do cérebro do homem sem deixar um sinal em qualquer parte. O mundo invisível que vos cerca á para vós esse Livro de vida, onde tudo se inscreve com uma incrível fidelidade, e a Balança da Justiça divina não é senão uma figura, exprimindo que cada um dos vossos atos, cada um dos vossos sentimentos é, de certo modo, o peso que carrega a vossa alma e a impede de se elevar, ou que traz o equilíbrio entre o bem e o mal.
Feliz aquele cujos sentimentos partem de um coração puro: espalha em seu redor como uma suave atmosfera, que faz amar a virtude e atrai os bons Espíritos; seu poder de radiação é tanto maior quanto mais humilde for, isto é, mais desprendido das influências materiais que atraem a alma e a impedem de progredir.
As obrigações impostas pelo Espiritismo são, pois, de uma natureza essencialmente moral; são uma conseqüência da crença; cada um é juiz e parte em sua própria causa; mas as claridades intelectuais que traz a quem realmente quer conhecer-se a si mesmo e trabalhar em seu melhoramento são tais que amedrontam os pusilânimes e, por isto, ele é rejeitado por tão grande número. Outros tratam de conciliar a reforma que sua razão lhes demonstra ser uma necessidade, com as exigências da sociedade atual. Daí uma mistura heterogênea, uma falta de unidade, que faz da época atual um estado transitório. É tão difícil à vossa pobre natureza corporal se despojar de suas imperfeições para revestir o homem novo, isto é, o homem que vive segundo os princípios de justiça e de harmonia queridos por Deus. Com esforços perseverantes, nada obstante, lá chegareis, porque as obrigações impostas à consciência, quando suficientemente esclarecida, têm mais força que jamais terão as leis humanas, baseadas no constrangimento de um obscurantismo religioso que não suporta o exame. Mas se, graças às luzes do alto, fordes mais instruídos e compreenderdes mais, também deveis ser mais tolerantes e não empregar, como meio de propagação, senão o raciocínio, porque toda crença sincera é respeitável. Se vossa vida, for um belo modelo em que cada um possa achar bons exemplos e sólidas virtudes, onde a dignidade se alia a uma graciosa amenidade, rejubilai-vos, porque tereis, em parte, compreendido a que obriga o Espiritismo.

Espírito de Luís de França - Revista Espírita de 1866

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A VIDA É COMO UM ROSEIRAL


Amigo e irmão.
A vida aí é como um roseiral.
O cultivador vê do roseiral a terra que cultiva, o observador aprecia que as plantas são tanto mais viçosas e lindas quanto mais bem tratada e adubada está a terra; os tristes, os sonhadores, encontram só os espinhos das roseiras; os utilitaristas consideram só o valor mercantil do produto botânico; os homens bons e de coração procuram extrair só as essências para beneficiarem os que sofrem; os epicuristas e os felizes apreciam só a flor pela beleza e olor que os delicia; os poetas e os namorados pela metáfora que lhes proporciona; os simples e os crentes amam o roseiral no seu conjunto, com a sua utilidade e a sua podridão, com a sua beleza e com os seus espinhos, com a sua cor e com os seus perfumes, porque tudo constitui a poderosa harmonia da magnífica obra de Deus.
Quem apreciar o roseiral só sob o ponto de vista que o interessa, cometerá erro.
O que só vir que para se obterem lindas flores é preciso adubo, enausear-se-á; o que só lhe apreciar a parte prática e utilitária, tornar-se-á egoísta e mau; o que só lhe encontrar os espinhos, volver-se-á amargo e maldizente; os que só o admiram nas suas essências olorantes e benéficas, serão uns simples, uns bons e uns abnegados; e os que o amarem no seu conjunto, admirando o que tem de bom, aceitando o que tem de útil, perdoando o que tem de mau, esses serão os santos.

(Espírito de João de Deus).

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

UMA TELHA

Um homem passa pela rua. Uma telha lhe cai aos pés. Ele diz: “Que sorte! um passo mais e eu estaria morto.” Em geral é o único agradecimento que envia a Deus. Entretanto esse mesmo homem, pouco tempo depois, adoece e morre na cama. Por que foi preservado da telha, para morrer alguns dias após, como a maioria das pessoas? Foi o acaso, dirá o incrédulo, como ele próprio disse: Que sorte! Para que, então lhe serviu escapar ao primeiro acidente, se sucumbiu ao segundo? em todo o caso, se a sorte o favoreceu, o favor não durou muito.
A essa pergunta o Espírita responde: A cada instante escapamos de acidentes que, como se costuma dizer, nos deixam a dois dedos da morte. Não vedes nisso um aviso do céu, para vos provar que a vida está por um fio, que jamais temos certeza de viver amanhã e que, assim, devemos sempre estar preparados para partir? Mas, que fazeis quando ides empreender uma longa viagem? Tomais disposições, arranjais os negócios, muni-vos de provisões e de coisas necessárias para o caminho; desembaraçai-vos de tudo quanto pudesse atrapalhar e retardar a marcha. Se conheceis a terra para onde ides, se lá tendes amigos e conhecidos, partis sem receio, certos de serdes bem recebidos. Caso contrário, estudais o mapa da região, e arranjais cartas de recomendação. Suponde que sejais obrigados a empreender essa viagem no dia seguinte, que não tendes tempo de fazer preparativos, ao passo que se estivésseis prevenidos com bastante antecedência, teríeis disposto todas as coisas para vossa utilidade e vossa conveniência.
Então! todos os dias estais expostos a empreender a maior, a mais importante das viagens, a que deveis fazer inevitavelmente; e, contudo, não pensais nisto mais do que se tivésseis de viver perpetuamente na Terra! Em sua bondade, Deus cuida de vós, advertindo-vos por numerosos acidentes, aos quais escapais, e só lhe tendes esta expressão: Que sorte!
Espíritas! sabeis quais os preparativos a fazer para essa grande viagem, que tem para vós conseqüências muito mais importantes que todas as que empreendeis aqui na Terra, porque da maneira por que ela se realizar depende a vossa felicidade futura. O mapa que vos dará a conhecer o país onde ides entrar é a iniciação nos mistérios da vida futura. Por ela o país não será desconhecido para vós; vossas provisões são as boas ações que tiverdes realizado e que vos servirão de passaporte e de cartas de recomendação. Quanto aos amigos que lá encontrareis, vós os conheceis. É dos maus sentimentos que vos devereis desembaraçar, pois infeliz é aquele a quem a morte surpreende com ódio no coração como alguém que caísse na água com uma pedra atada ao pescoço, e que o arrastaria para o fundo. Os negócios que deveis pôr em ordem é o perdão àqueles que vos ofenderam; são os erros cometidos para com o próximo e que urge reparar, a fim de conquistardes o perdão, pois os erros são dívidas, de que o perdão é a quitação. Apressai-vos, pois, que a hora da partida pode soar de um momento para outro e não vos dar tempo para reflexão.
Em verdade vos digo, a telha que cai aos vossos pés é o sinal a vos advertir para estardes sempre prontos a partir ao primeiro sinal, a fim de não serdes tomados de surpresa.

(O Espírito de Verdade - R. E. 1862)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

OS ATALHOS E O DEVER ESPÍRITAS

"... E farão grandes prodígios e maravilhas tais, que enganarão a muitos".

Assistimos, nos dias que correm, numa confirmação do que está previsto nos Evangelhos, e com maior lucidez nas obras codificadoras do Espiritismo, ao desfilar dos escândalos em torno de certos fenômenos que nem sempre podem ser levados à conta de mediúnicos. Em nome da Mediunidade, quantos exploradores da fé cometem aventuras, expondo ao ridículo um dom concedido por Deus para que o Homem pudesse se aprimorar na trilha do cristianismo redivivo, principalmente pela prática da caridade verdadeira.

Em "O Livro dos Médiuns" Allan Kardec refere-se claramente aos sistemas de charlatanismo, alertando-nos sobre as parvoíces que adviriam. E aduz que "abusa-se de tudo, mesmo das coisas santas, porque não se abusaria do Espiritismo?" Rivail lembra, a seguir, que o mau uso que se pode fazer de uma coisa não pode fazer prejulgar nada contra esta própria coisa, "pois o controle que se pode ter quanto à boa fé das pessoas, está nos motivos que as fazem agir". E arremata sabiamente: "onde não há especulação, o charlatanismo nada tem a fazer".

Evidentemente, toda esta gama de acontecimentos lastimáveis rotulados de Espíritas pela falta de vigilância da imprensa, nada têm de Espíritas. A morte de um médium desviado, por exemplo, que se deslocava quinzenalmente para a Guanabara ou São Paulo e de onde regressava ao seu Estado com alguns milhões na valise, resultado das operações (dizendo que mantinha obras filantrópicas), está rendendo nos jornais ávidos pela multiplicação dos leitores. E envolvendo irresponsavelmente a Doutrina Espírita no balaio-de-gatos em que se constitui a mediunidade destes cidadãos. O Espiritismo também não tem culpa pela exploração que se faz do espírito do Dr. Fritz, atualmente "baixando" aqui, ali e acolá, como "guia" dos mais anímicos "cavalos", em ambientes revestidos do primitivismo que aquele Dr. Adolf Fritz verdadeiro de Congonhas do Campo condenava, recomendando a todos as obras de Kardec.

E tudo isto vai ocorrendo numa escala cada vez mais assustadora, principalmente porque os desesperados, os afligidos pelas doenças correm logo para os curandeiros, esquecendo-se de que a cura pode vir com o simples e poderoso recurso da prece sincera dirigida ao Alto de coração. O desconhecimento do que seja realmente o Espiritismo corrobora para este quadro desolador, em que os inescrupulosos empresários das imagens que sangram o ano todo e dos "professores" que operam, estabelecem verdadeiro mercantilismo com a dor alheia. Se muitos tivessem paciência para folhearem mesmo esparsamente as obras espíritas, desde Kardec a Chico Xavier, encontrariam o roteiro seguro a seguir. A afoita busca de milagres, entretanto, os conduzem aos becos sem saídas dos charlatães. Quantos não se dizem até possuídos pelo Espírito da Verdade para a substituição do Espiritismo pelas suas vaidosas e confusas fórmulas de despotismo e enriquecimento, enquanto outros vêm com revelações obsessoras e grotescas também apregoando que "o Espiritismo nada mais tem a fazer", ilaqueando os desavisados que lhes compram livros vazios, onde a irracionalidade pinta de "Racional Superior", nova barafunda surgida no mercado?

A mediunidade curadora tem sido pedra de toque de muitos escândalos por aí afora. Em virtude da proliferação dos charlatães que costumam alugar palacetes para as "consultas", cercados de um assessoramento bem remunerado e receitando medicamentos fora de série (porque de fato não figuram nas séries da farmacologia) - os médiuns verdadeiros, apóstolos da mediunidade, e numerosas instituições espíritas, se vêem vez por outra perturbados pelos equívocos de autoridades constituídas ou das citações da imprensa. Lembra muito bem o confrade Dr. Noraldino de Melo Castro: "o médium espírita, imbuído do amor ao semelhante, tem plena consciência da divindade do mandato apostólico e o exerce por meio da mediunidade curadora, com devoção e sacrifício. Não anuncia a cura de ninguém, nem recorre à propaganda para esse fim. Não explora a boa fé pública na acepção vulgar, e tampouco distribui drogas e as expõe à venda, apregoando-lhes as virtudes". (Abrimos aqui um parêntesis para lembrar aos confrades de doutrina a imperiosa necessidade de se imprimir e distribuir as mensagens espíritas, sistematicamente, onde reinem a dor, o desespero, a dúvida, a confusão, a sede de verdades libertadoras).

Foi-se o tempo em que era fácil confundir o curandeiro com o médium cristão. Hoje, distingue-se um do outro sem dificuldade. Já no ano de 1934 o íntegro juiz Dr. Edgard Ribas Carneiro lavrara sentença impronunciando médiuns acusados do exercício ilegal da medicina. O sábio julgador, examinando os autos dos processos - que ele esmiuçava com segurança e maestria, lógica e precisão, punha por terra todas as indevidas imputações feitas aos réus. Adentrava mesmo na Doutrina Espírita, explanando-lhe as conceituações fundamentais e defendendo-lhe os direitos de manifestação contra preconceitos e interesses escusos. Naquele ano de 1934, em sentença admirável, o Dr. Ribas Carneiro afirmava: "O Espiritismo propriamente dito é um conjunto de condições que se firmam no mais alto conceito moral, ajustando-se, a rigor, com os mais respeitáveis interesses de ordem social, sendo, como religião, das que mais fielmente se articulam com os preceitos cristãos (o grifo é nosso). Assim, ele está garantido, na sua pureza, pelos princípios constitucionais que regem o Brasil. Praticar o Espiritismo é concitar os homens a que se irmanem, se respeitem, se auxiliem, é pregar a paz e a Justiça, é estimular as inteligências ao aperfeiçoamento pelo estudo e pela meditação, é elevar o pensamento à perfeição". E arremata o magistrado desencarnado em 1962, "o que é crime, o que constitui ato ilícito, sujeito às penas da lei, é o que a própria lei denomina baixo espiritismo, que se caracteriza por meio de magias, de bruxedos, de sortilégios, "cangerê", "macumba", todas aquelas feitiçarias africanas que fogem radicalmente dos altos princípios do altruísmo, pois criam estados mentais graves, perturbações que chegam a provocar a loucura".

Os mistificadores, na atualidade, vestem diferentes roupagens, e costumam se apegar muito à Parapsicologia para descrédito do Espiritismo, esquecidos de que "O Livro dos Espíritos", primeira obra de Allan Kardec, reúne as cabais explicações que eles, hoje em dia, prometem dar aos que comparecem aos cursos que lhes proporcionam excelentes resultados financeiros, e nos quais o público assiste tão-somente prestidigitação quevediana e achincalhe aos médiuns verdadeiros. A propósito, esquecem-se estes "parapsicólogos" com ou sem batina, de que quando no governo do Brasil, o sr. Jânio Quadros baixou o decreto de nº 51.009, de 22 de Julho de 1961, proibindo espetáculos ou números isolados de hipnotismo e letargia, de qualquer tipo ou forma, em clubes, auditórios, palcos ou estúdios de rádio e de televisão. Não nos consta ter sido referido diploma legal refogado, daí estranhamos a facilidade com que certos "cientistas" andam por aí afora oferecendo espetáculos deprimentes. E, quando um pesquisador da autoridade de um Hernani Guimarães Andrade enfrenta os trevosos embusteiros, derrubando-os do pedestal da farsa, o video-tape gravado pela TV-Cultura de São Paulo deixa de ser apresentado. Felizmente, depois de várias gestões, obteve-se a gravação daquele debate que hoje pode ser visto em qualquer parte do Brasil, de preferência antes que o derrotado, o sr. Quevedo, chegue para enrolar os incautos.

Estes atalhos - na linguagem predileta de Luciano dos Anjos, de quem discordamos em parte e concordamos noutra - são de fato um atentado à evolução espiritual das criaturas. Igualmente nos causa espécie a notícia de que em São Paulo as autoridades estariam pressionando contra os Hospitais Espíritas, proibindo-os de aplicarem nos seus hospitalizados a terapêutica própria de sua doutrina. E por acaso já houve (e não desejamos tal coisa) pressão contra os hospitais protestantes e católicos? Seus métodos têm sofrido restrições? Estarrecedor o fato paulista, pois a própria administração estadual, não faz muito, consagrou a terapêutica espírita, entregando aos nossos confrades os loucos do Juqueri, que eram tratados antes como feras, mas que agora encontram no Espiritismo a recuperação devida - ressalvando é claro o determinismo cármico. Lembre-se os facciosos e fanáticos, os "donos da verdade" do que disseram Marcos e Mateus em seus Evangelhos sobre as curas dos enfermos e endemoniados... A propósito do caso paulista: como teria agido a Associação dos Médicos Espíritas de SP? A atitude, seja de quem for, não passa de uma intromissão indevida.

Isolemos a mistificação e defendamos de peito aberto a verdade mediúnica. Sejamos Espíritas dando permanente testemunho pela Doutrina em todos os instantes, em todas as épocas, recordando-nos de Vianna de Carvalho, Bezerra de Menezes, Cairbar Schutel, Eurípedes Barsanulfo e outros paladinos. Revendo Lombroso nos lembramos de que não há força que destrua uma verdade universal e eterna que tem vencido todas as formas de prova e fiscalização em todos os tempos. Hoje, mais do que nunca, a era é a do Espiritismo, pois assim o exigem os enigmas que as demais escolas não conseguem elucidar, mas que a partir de Kardec deixaram de ser a lâmpada debaixo do alqueire. Os que elaboram os códigos legais do país devem se precaver contra as capciosas interpretações a respeito do Espiritismo, que jamais poderá ser confundido com curandeirismo. Este visa a retribuição, e esta gera o escândalo. Espiritismo é sinônimo de pureza cristã.

Revista Internacional de Espiritismo - Junho/1974

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

JESUS, O INCOMPARÁVEL

Vencendo os milênios que nos separam do Seu berço, ninguém que se Lhe equipare ou sequer apresente as características que O assinalaram.
Havendo nascido em um recinto modesto e quase desprezível, transformou-o num esplêndido reduto de luzes e de harmonias gloriosas.
Residindo mais tarde em uma aldeia desconhecida, tornou-a imortal na História, na literatura e na memória dos tempos.
Convivendo com as pessoas do Seu pequeno burgo, evitou destacar-se, mantendo-se simples e de relacionamento afável, de forma a não os perturbar ou provocar celeuma antes do momento.
Fiel servidor das Divinas Leis, trabalhou na pequena carpintaria do pai sem alarde ou demonstração inoportuna de superioridade.
Conhecendo a tarefa para a qual viera, não se precipitou, tampouco postergou a hora em que se deveria desvelar. E o fez de maneira natural, sem alarde nem provocação, quando tomou do texto de Isaías, inserto no Testamento Antigo e, em plena sinagoga, interpretou-o com inusitada acuidade, deixando-se identificar como o Messias.
Compreendeu a reação de surpresa dos Seus coevos e familiares que, tomados de espanto e ira, atiraram-se contra Ele, ameaçando-O de morte. Mas não reagiu, nem os agrediu com palavras ou ações que desmentissem o Seu ministério de amor, quando predominavam as sombras da ignorância e da perversidade.
Sem qualquer acusação, deixou aqueles sítios e partiu para a gentil Galiléia, onde as almas simples e desataviadas, sedentas de paz, cansadas de sofrimentos e humilhações, anelavam pela oportunidade de serem livres do jugo cruel da servidão e realmente felizes.
Entre os pobres e desafortunados, os sofredores e puros de coração, entoou o Seu hino de amor à Vida como dantes jamais alguém o fizera, e depois nunca mais se repetiria.
A Sua canção de misericórdia e de ação temperada pela sabedoria arrebatou as gentes de todos aqueles rincões, que abririam espaço para se alargarem pelas terras do futuro, dando início à Era da fraternidade que, embora ainda não vivida, já se encontra instalada desde aqueles inesquecíveis momentos.
A Sua revolução diferiu de todas as que a precederam e a sucederiam, porquanto, tratava-se de lutas contínuas nas paisagens do coração contra as más inclinações, as tendências primárias e as heranças asselvajadas do período primitivo.
Amando a todos sem distinção, até mesmo àqueles que obstinadamente O perseguiam e tentavam malsinar-Lhe as horas, Jesus permaneceu incomparável, ensinando compaixão e ternura, trabalho e confança irrestrita em Deus.
Ninguém jamais se Lhe equipararia!
*
Os grandes gênios da fé que O precederam e os nobres missionários do amor que O sucederam foram, respectivamente, Seus mensageiros que Lhe deveriam preparar o advento e continuadores insistindo na preservação dos Seus ensinamentos e atitudes.
Esse homem nascido em Belém e morador em Nazaré, dividiu os fastos históricos, assinalando a Sua trajetória com os incomparáveis testemunhos da Sua elevação.
Quando provocado pelo farisaísmo compreendia a fúria do despeito e da mesquinhez humana, lamentando o atraso moral daqueles que se Lhe apresentavam como adversários. Admoestava-os e esclarecia-os, embora eles não desejassem respostas honestas, porque os seus eram os objetivos perversos...
Visitado pelo sofrimento dos indivíduos e das massas, não obstante sabendo da transitoriedade do corpo físico, renovava os enfermos e curava-lhes as mazelas, advertindo-os quanto aos valores imperecíveis do Espírito.
Acusado de atitudes que se chocavam contra a Lei e os Profetas, informava que não os veio combater, mas vitalizá-los e dar-lhes cumprimento.
Tentado pela hipocrisia e envolvido nas malhas das insensatas ciladas, destrinchava os fios envolventes e devolvia-os aos sistemáticos perseguidores.
Jamais se escusou aos enfrentamentos promovidos pela perversidade dos pigmeus morais, mesmo conhecendo-lhes as artimanhas e propósitos nefastos. Também nunca se recusou a esclarecer qual era a Sua tarefa e quais as bases da Sua revolução, estruturadas no amor a Deus, ao próximo e a si mesmo.
Nunca desmentiu os postulados propostos nos Seus sermões, mediante uma conduta dúbia ante as ameaças e malquerenças que se Lhe apresentavam a cada momento.
Resistiu a todos os tipos de tentação na Sua humanidade, avançando sempre no rumo do holocausto sem qualquer tipo de revolta ou de insegurança quanto aos valores esposados e divulgados.
Profundo conhecedor da psicologia humana, jamais se utilizou desse recurso incomum para humilhar ou submeter quem quer que fosse ao Seu ministério. Pelo contrário, dele se utilizava para identificar as causas transatas geradoras dos sofrimentos que os aturdiam e para aplicar a terapêutica mais conveniente em relação aos múltiplos distúrbios que os afligiam.
Perfeitamente identificado com Deus, não fingiu ser-Lhe igual e jamais se Lhe equiparou, informando sempre ser o Filho, o Embaixador, o Caminho para a Verdade e para a Vida...
Confundido com os profetas que O precederam, revelou a própria procedência, informando que aqueles que vieram antes realizaram o seu mister com elevação, mas a Sua era a confirmação de tudo quanto ensinaram no seu tempo.
Incomparável, Jesus, o Homem libertador de todos os homens e mulheres!
*
A humanidade sempre recebeu no transcurso da História guias admiráveis, que vieram iluminar as sombras dominantes.
Em cada povo e em todos os tempos surgiram missionários incomuns, que demonstraram a vacuidade da vida física e a perenidade do ser espiritual, convidando à reflexão e à conquista da liberdade total.
Alguns tiveram a existência assinalada por muitos conflitos antes da revelação que os transformou; outros sentiram o impulso interno e romperam com os preconceitos e condicionamentos existentes, trazendo o conhecimento e a vivência do dever como essenciais, à conquista da paz.
Diversos se imolaram em testemunho do que ensinavam, mas só Jesus é o Modelo e Guia nunca ultrapassado ou sequer igualado.
Havendo chegado à Terra na condição de Espírito puro, por haver realizado o Seu processo de evolução em outra dimensão, permanece como o Homem incomparável para conduzir a humanidade na direção do inefável amor de Deus.

Franco, Divaldo P. Da obra: Nascente de Bençãos. Ditado pelo EspÍrito Joanna de Ângelis.