sábado, 30 de janeiro de 2010

DEFINIÇÃO

Disse alguém que a permanência na Terra é semelhante a um baile de máscaras, em que alguns entram, enquanto outros saem.
Para mim, no entanto, que me consagrei ao teatro na última romagem por aí, suponho mais razoável a comparação do mundo a velho e sempre novo cenário, onde representamos nossos papéis, ensaiando para exercer funções gloriosas de almas conscientes na eternidade.
Cada existência é uma parte no drama evolutivo. Cada corpo é um traje provisório, e cada profissão uma experiência rápida.
A vida é a peça importante.
O período de tempo, que medeia entre uma entrada pelo berço e uma saída pelo túmulo, é precisamente um ato para cada um de nós no conjunto.
Muito imporante é a arte de viver cada qual o seu próprio papel.
Há lamentáveis distúrbios, no elenco e na platéia, sempre que um dos artistas invada as atribuições do colega no argumento a ser vivido no palco, sobrevindo verdadeiras calamidades, com desagradável perda de tempo, em todas as ocasiões em que se despreze aquela norma.
A representação reclama inteligência, fidelidade, firmeza, emoção e eficiência, com aproveitamento integral dos lances psicológicos, e alta capacidade de autocrítica.
Nunca chorar no instante de rir e jamais sorrir no momento da lágrimas.
PROVIDENCIAR TUDO A TEMPO.
Tonalizar a voz e medir os gestos, para não converter a tragédia em truanice; respeitar as convenções estabelecidas, a fim de que o artista não desça da galeria do astro ao terreiro do bufão.
Segundo o parecer dos sensatos homens da antiguidade, o sapateiro não se deve exceder no salão do pintor, e o pintor, a seu turno, precisa comedir-se na tenda do sapateiro.
Encarnando um juiz, um político, um sacerdote, um beletrista, um negociante ou um operário, não será aconselhável apresentarmos obra muito diferente do trabalho daqueles que nos precederam, investidos em obrigações idênticas: correríamos o risco da excentricidade e do apedrejamento.
Compete ao nosso bom senso talhar o figurino, tendendo para o melhor, sem escandalizar, contudo, os moldes anteriores.
O comerciante não deve absorver o papael do filósofo, embora o admite e lhe siga as regras. O homem de idéias, por sua vez, não deve furtar o papel do mercador, apesar de convidá-lo à meditação.
Atulhando o edifício em que funciona o teatro, há sempre grande massa de bonecos, no almoxarifado da instituição. É a turba compacta de pessoas que nada fazem pela própria cabeça, constituída por ociosos de todos os feitios, a formarem o “grand-guignol” da vida comum, habitualmente manejados por hábeis ventríloquos da inteligência.
E, enchendo o subterrâneo ou cercando as gambiarras e os tangões, temos o exéercito dos que arrastam escadas e pedras, móveis e cortinas, na qualidade de tecelões do verdadeiro urdimento para as mutações necessárias. São eles os espíritos acovardados ou preguiçosos, que renunciam ao ato de escolher o próprio caminho e que abominam o conhecimento, a elevação e a aventura, entronizando o comodismo em ídolo de suas paixões enfermiças. Demoram-se longo tempo na imbecilidade e na teimosia, suportando pesos atrozes pela compreensão deficiente.
No proscênio, focalizados por luzes de grande efeito, movimentam-se os atores e as atrizes da ação principal. São pessoas que se impõem no palco vivo. Discutem. Apaixonam-se. Gritam. Criam emoções para os outros e para si mesmos. Agitam-se, imponentes, na grandeza ou na miséria, na glória ou na decadência. Respiram, consciêntes da missão que lhes cabe.
São geralmente calmos na direção e persistentes na ação. Transitam, através dos bastidores, obstinados e serenos, com segurança matemática. Pronunciam frases bem meditadas, usam guarda-roupa adequado e não traem a mímica que lhes compete.
Homens e mulheres, acordados para a vida e para o mundo, caminham para os objetivos que traçaram a si mesmos. Entre eles vemos príncipes e sábios, rainhas e fadas, ricaços e pobretões, poetas e músicos, comendadores e caravaneiros, noivas e bruxas, artífices e palhaços. Com diferenças na máscara e no coração, cada um deles funciona dentro da posição que a peça lhes designa. Cada qual responde pela tarefa que lhe é peculiar.
O espírito, que, durante alguns dias, desempenhou com maldade e aspereza a função da governança, volta à mesma paisagem na situaçãi do dirigido. O juiz que interferiu, indebitamente, no destino de muitas pessoas, regressa ao palco nlagum caso complicado, para conhecer, com mais precisão, o tribunal onde colaborou vestindo a toga, depressa restituída a outros julgadores. O operário inconformado, que se entrega à indisciplina e à rebelião, volta, às vezes, ao grande teatro da vida, exibindo o título de administrador, a fim de conhecer quantas aflições custa o ato de responsabilizar-se e dirigir. O médico distraído na ambição do lucro efêmero volve em algum catre de paralítico, de modo a refletir na importância da Medicina. Sacerdotes indiferentes ao progresso das almas retornam curtindo a desventura dos órfãos da fé. Homens endemoninhados, que atravessam a cena quais faunos bulhentos, perturbando as ninfas da virtude e impossibilitando-lhes o ministério maternal, não raro se vestem com trajes femininos e comparecem, de novo, ao palco, sabendo, agora, quanto doem na mulher o abandono e o menosprezo, a ironia e a humilhação.
O papel mais pesado é sempre aquele que se reserva aos heróis e aos santos, porque esses atores infelizes vivem cercados pelas exigências do teatro inteiro, embora, no fundo, sejam também personalidades frágeis e humans.
O que conforta de maneira invariável é que há lugar e missão para todos. Cada criatura dá espetáculo para as demais. Entretanto, para a tranqüilidade de todos, ninguém se lembra disso. E a peça vai sendo admirávelmente representada, sob recursos de supervisão que estamos muito longe de aprender.
Eis-me, pois, amigo, nestas páginas, que estimularão entre as pessoas sensatas a certeza da sobrevivência da alma.
Não tenho qualquer mensagem valiosa a enviar-lhe. Digo-lhe apenas, usando a experiência pessoal que o tempo hoje me confere, que esse mundo é, realmente, um grande teatro. Represente o seu papel com serenidade e firmeza e, decerto, você receberá tarefa mais importante no ato seguinte.

Leopoldo Fróis
Texto extraído do livro "Falando à Terra" Francisco Cândido Xavier

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

MEDITAÇÕES A ACERCA DA INTELIGÊNCIA

Ninguém diria com maior autoridade que o próprio Kardec que o Espiritismo é doutrina essencialmente evolutiva, o que significa dizer que não nos foi trazida inteira acebada, cristalizada e dogmática. O Espiritismo é um corpo vivo de pensamento e, como tal, suscetível de desdobramentos cujos limites não temos condições de alcançar ou prever. É preciso observar bem, no entanto, onde e quando, como e porque devemos e podemos trabalhar as suas inúmeras sínteses a fim de que, movidos pela intenção de desenvolver certos aspectos doutrinários, não cometamos o desacerto de deformá-los irreparavelmente. E isto é fácil de ilustrar, quando nos lembramos de que toda a complexa teologia moderna cita cristã não é mais do que o “desdobramento” dos simples e luminoso conceitos evangélicos formulados pelo Cristo. Como foi possível partir de afirmativas como “... não busco minha vontade e sim a vontade daquele que me enviou”, para chegar-se, por exemplo, à formulação da divindade de Jesus? Por onde entrou, nessa teologia, o dogma do pecado original? Como nasceu a doutrina das penas eternas? Ou o conceito de uma só existência para o ser humano, com um julgamento final e irrecorrível?
Enfim, os exemplos poderiam ser multiplicados, se a finalidade aqui não fosse apenas a de ilustrar uma idéia, ou seja, a diretiva de que os comentaristas da Doutrina Espírita precisam manter um elevado padrão de lucidez e de humildade intelectual para não contaminarem o Espiritismo com os seus preconceitos e não o retransmitirem sob uma ótica que, em lugar de ampliar determinados aspectos, o deformem grotescamente, a ponto de torná-lo irreconhecível. A Doutrina não é um cadáver sobre o qual poderemos, à vontade, realizar nossas experimentações mutiladoras, nem um aparelho, ao qual possamos substituir peças e adaptar a outras finalidades. Repitamos: é um organismo vivo e dever ser tratado como tal, ou seja, com todos os cuidados necessários e com o máximo respeito que toda manifestação de vida deve merecer-nos.
Não obstante, o Espiritismo não rejeita aqueles que se aproximam dele com o respeito a que acima nos referimos, dispostos a desdobrar aspectos que ainda lá estão em síntese, à espera dos trabalhadores qualificados que, por certo, andam por aí e ainda virão. É o caso da mediunidade, por exemplo, para citar apenas um entre muitos aspectos. Os estudos sobre essa faculdade começaram ainda com o próprio Kardec, em “O Livro dos Médiuns”, continuaram nas notáveis obras de Gabriel Delanne. Aksakof, Lombroso e tantos outros e, ainda em nossos dias, prosseguem em novos desdobramentos, com André Luiz. E estamos longe de veros limites do território e explorar, pois os seus contornos escapam à nossa percepção. Mas, que em todos esses cometimentos não percamos de vista os parâmetros de eferição e os marcos implantados nas obras básicas, a fim de que não percamos pelos domínios da fantasia ou do personalismo doutrinário, que fraccionaria o Espiritismo em ramos e seitas que muito teríamos a no futuro. Em suma: na frase felicíssima do confrade Jorge Andréa: é preciso dinamizar Kardec, não dinamitar Kardec.
Ainda há pouco, aqui mesmo em “Obreiros do Bem” (artigo sob o título “Centenário de uma Frase”, junho de 1976) propunhamos a formulação de modelos espíritas para a sociedade futura, em vez de nos demorarmos indefinidamente pelos caminhos, a tentar convencer da realidade do Espírito aqueles que não desejam ainda ser convencidos. Dizíamos, então, que não vemos muito sentido nesse esforço gigantesco de acumular provas que, de certa forma, não servem nem a nós, os que não mais precisamos elas, nem àqueles que não as desejam aceitar, porque se obstinam em defender suas fortalezas de opereta de ceticismo estéril.
Tentemos, porém, ser mais específicos quando mencionamos os tais modelos ou matrizes, pois é necessário, desde logo, relembrar um princípio inarredável em qualquer dessas inúmeras possibilidades de ampliação e aplicação dos conceitos doutrinários: O Espiritismo não é um movimento arregimentador de massas, nem se presta a servir de base para militâncias políticas de qualquer colaboração ou tendência. Sua filosofia de ação é aquela que se dirige ao homem, ou melhor, ao Espírito imortal reencarnado, pois entende que, como soma dos indivíduos, a sociedade não poderá, jamais ser melhor do que os seus componentes. Os cemitérios da História estão cheios de doutrinas que alimentaram a ilusão de arrumar a sociedade de baixo para cima, ou seja, cuidando do ser coletivo, quando o trabalho precisa ser feito no indivíduo, por meio do despertamento para a sua realidade espiritual interior. Somos Espíritos e não unidades de produção, votos, consumidores, massa de manobra, enfim.
Sejamos ainda mais específicos, na descida cautelosa aos pormenores, ao particular.
O capítulo quarto do “O Livro dos Espíritos”, ao referir-se à questão do princípio vital, cuida dos aspectos subsidiários dos conceitos de inteligência e instinto. (Questões 71 a 75, páginas 78 e 79 da 34ª edição da FEB). O que Kardec considerou prudente perguntar e o que os Espíritos decidiram suficiente ensinar na época está, pois resumido em apenas 5 questões. É óbvio que isto não esgota a temática suscitada, nem era esse o objetivo dos elaboradores da Doutrina. Quantas sugestões preciosas, no entanto, partem daqueles discretos comentários! A que amplos desdobramentos não se prestam as sínteses propostas pelos Espíritos e as observações adicionais de Kardec!
Desejava o Codificador saber se inteligência a matéria são independentes, “porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas, a inteligência só por meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o Espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la”. (1) A fonte da inteligência é a inteligência universal, sendo, no entanto, “faculdade própria de cada ser, e constitui sua individualidade moral”. Advertiram, porém, neste ponto, que havia limites por aí, além dos quais o homem não poderia seguir, por enquanto.
Será que o instinto dependeria da inteligência? - desejou saber Kardec.
- “Precisamente, não, - respondem os Espíritos - por isso que o instinto é uma espécie de inteligência. É uma inteligência sem raciocínio. Por ele é que todos os seres provêem às suas necessidades”.
Instinto e inteligência acham-se tão intimamente ligados que muitas vezes se confundem. A força diretora do instinto é tão preciosa que os Espíritos acrescentaram que também ele “pode conduzir ao bem”. E mais ainda:
- “Ele quase sempre nos guia e algumas vezes com mais segurança do que a razão. Nunca se transvia”. (Os destaques são meus, evidentemente).
Ante o inusitado do ensinamento, Kardec desejou saber por que nem sempre a razão é guia infalível.
- “Seria infalível - respondem seus amigos invisíveis - se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo. O instinto não raciocina; a razão permite a escolha e dá ao homem o livre-arbítrio.
Aí está, pois, em apenas duas páginas, um mundo fascinante de sugestões para futura especulação.
Que interessante definição, por exemplo, essa de que o instinto é uma inteligência sem raciocínio, que funciona como instrumento através do qual os seres vivos atendem às suas necessidades. Podemos lembrar aqui as recentes e curiosas experiências do Prof. Bakster com as plantas, que confirmam com notável precisão os ensinamentos transmitidos pelos Espíritos há mais de um século. O instinto, que ele foi descobrir nas plantas, por meio de seus sensíveis aparelhos, é exatamente isso: uma inteligência sem raciocínio a serviço da integridade da planta. Que necessidade seria mais essencial do que a da conservação? As plantas reagem nitidamente tento às vibrações de afeto com as de ódio; àquele que cuida delas ou que procura destruí-las, informa da sua alegria ao serem confortadas, com um pouco de água ou da sua apreensão ao sentirem-se em terreno ressecado. Dentro do seu limitado círculo de recursos instintivos, a planta age realmente com inteligência, ainda que desprovida de razão, pois que, se a tivesse, disporia também de livre-arbítrio, como também ensinaram os Espíritos. A razão começa junto com a consciência de si mesmo, o que nem plantas nem animais possuem.
A reflexão nos levará a inferir que o instinto é a pré-história da inteligência racional e, por isso, tem que ser mais seguro na sua direção do que a fase subseqüente. Ainda sem dispor de razão, o ser vivo não pode errar, porque não teria como corrigir o erro. Por isso os Espíritos disseram que o instinto nunca se transvia. Nunca é uma expressão de tremenda força. A possibilidade de transviamento começa, pois, quando surge a razão que nos proporciona o livre arbítrio, ou seja, a capacidade de decidir entre duas ou mais alternativas. Por outro lado, novo aspecto digno de profundas meditações é o de que a razão seria orientadora infalível dos nossos atos, se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo”.
E, assim, com esta razão falseada que as inteligências transviadas montam complexas estruturas filosóficas, aparentemente muito racionais, mas totalmente falsas, porque a razão que lhes serviu de modelo estava contaminada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo.
Lembremos aqui à razão absoluta, purificada, é que se referia Kardec ao recomendar que a fé teria que, também ela, submeter-se, e isto é tão verdadeiro que vemos variedades espúrias de fé. Paixão e razão que se misturam. A razão é fria porque neutra, embora não insensível.
Mas, nestas reflexões, por mais atraentes que sejam, nos afastamos um pouco do nosso tema. Ou não?
Retomemos o conceito de inteligência e experimentemos projetá-lo um pouco mais longe. Após os ensinamentos trazidos pelos Espíritos a Kardec, como se desenvolveu no meio científico a especulação em torno da inteligência? Que é inteligência em termos de ciência?
Uma pesquisa histórica revela que a palavra em ai foi utilizada pela primeira vez por Cícero, ao transpor a expressão dia-noesis, criada por Aristóteles, sendo útil aqui lembrar que noesis é entendimento, compreendido.
A incipiente psicologia escolástica medieval, derivada, em grande parte, dos conceitos aristotélicos, acabou cristalizando a “definição”, se assim podemos chamá-la, de que inteligência era a qualidade abstrata comum e característica dos processos intelectuais. Isso, como se vê, corresponde a declarar que a água é molhada, mas, enfim, tal era a escolástica...
Com a decadência dessa corrente filosófica, o termo entrou em desuso e só foi retomado por Herbert Spencer, já no século 19, que, no entanto, deu-lhe uma interpretação meramente biológica, ou seja, materialista e que praticamente perdura até hoje. Sem poder explicá-la em termos precisos, e desapoiado de qualquer suporte espiritualista, Spencer achava que a inteligência explicava-se pela presença dos pais na formação do ser, o que vale dizer que ele apenas transferia o problema para a geração anterior e o desta para a imediatamente anterior e assim por diante, sem chegar às raízes da questão.
Seja como for , as especulações de Spencer permitiram conceituar psicologicamente a inteligência como capacidade de resolver, com êxito, situações novas, entendimento aceitável que, ao que eu saiba, prevalece até hoje.
Inegavelmente, porém, as pesquisas em torno da inteligência ainda não se libertaram das amarras e das vendas materialistas, e ao campo da ciência ortodoxa não chegou ainda a iluminação que se irradia a partir das informações colhidas no mundo espiritual, nem das eu decorrem de todo o acervo de fatos documentados pelos investigadores da fenomenologia espírita.
Ainda se pensa que inteligência é uma questão basicamente genética colorida por influências mesológicas, ou seja, hereditária e desenvolvida sob forte pressão do meio ambiente. Para sermos justos, é preciso reconhecer que alguma influência realmente exercem a hereditariedade e o meio, mas não tanto quanto julgam os cientistas acadêmicos, e não propriamente sobre a inteligência em si, mas sobre suas manifestações.
Vamos tentar compreender melhor isso. Um casal de criaturas marcadas pela debilidade mental pode gerar uma criança também prejudicada mentalmente mas isso não significa que este novo ser seja espiritualmente um débil mental. Na verdade, pode ser um gênio que apenas não conseguiu criar no corpo físico, em gestação sob condições tão adversas, um instrumento adequado de manifestação de seu potencial. Não são raros, porém, os casos de filhos altamente inteligentes nascidos de pais deficientes. A recíproca também é válida: pais inteligentes gerando filhos retardados.
Por outro lado, o ambiente em que se desenvolve a criança exerce sobre sua inteligência uma influência que não pode ser desprezada, mas não deve ser exagerada, porque sob as condições mais hostis podem desenvolver-se inteligências brilhantes.
Isso tudo tem demonstrado à saciedade que a inteligência não é um fator basicamente genético ou mesológico, mas uma faculdade do Espírito preexistente, que traz para a sua nova existência os recursos intelectuais que já tenha conseguido desenvolver no passado, dentro, porém, das condicionantes criadas pelo seu comportamento moral, ou seja, pelo bom ou mau uso que deu à sua inteligência.
Voltemos, por um instante, ao ensinamento dos Espíritos.
- ... “a inteligência - dizem eles, em resposta à pergunta 72 - é uma faculdade própria de cada ser e constitui a sua individualidade moral”.
Não é exatamente isso o que provam as observações? Ou seja, que cada ser se encontra no estágio que lhe é próprio de desenvolvimento intelectual e que o uso da inteligência tem nítidas e inelutáveis implicações morais? Confere, portanto, mais este aspecto.
Enquanto isso, no entanto, os cientistas desligados das correntes espiritualistas continuam a pesquisar as razões das dessemelhanças intelectuais entre gêmeos, partindo do pressuposto de que, gerados simultaneamente, teriam de ser pelo menos semelhantes em inteligência, senão idênticos, o que está longe de ser verdadeira pois cada um deles é um Espírito diferente, em diferente estágio evolutivo.
Vejamos, porém, um pouco mais além, já que falamos em estágio evolutivo.
Ao que indica a observação apoiada no conhecimento espiritual, a inteligência é a resultante do conhecimento acumulado ao longo dos milênios e das inúmeras encarnações. (2) Não somos inteligentes por causa de uma combinação genética particularmente feliz, ou porque nos desenvolvemos em ambiente adequado, mas porque, no passado, já nos habituamos a manipulação e apropriação do conhecimento, através do estudo e do aprendizado. As noções que adquirimos, as experiências porque passamos, as coisas que descobrimos incorporam-se à nossa memória, cujos registros básicos se encontram no perispírito, e, embora armazenadas na zona crespuscular do chamado inconsciente, estão ali, à nossa disposição. Quanto mais conhecimento tenhamos adquirido no passado, mais fácil se torna “resolver com êxito situações novas”, porque temos um banco de dados mais vasto, contra o qual confrontamos analogicamente os fatos novos, as novas proposições, os novos aprendizados. É sempre mais fácil construir em cima do alicerce já consolidado.
Seria interessante, por exemplo, desdobrar ainda mais este aspecto para examinar o papel que desempenha nisso tudo a memória, ou, ainda, a intuição, mas seria ir muito longe num artiguete como este, que pretende apenas levantar questões para estudo, sem a tola pretensão de resolvê-la.
Há, também, por aqui, analogias notáveis com a cibernética, pois os computadores modernos não passam de cérebros artificiais, ainda muito primitivos e limitados em comparação com o cérebro humano. São meros bancos de dados que decidem entre duas opções, segundo um programa preestabelecido e de acordo com o acervo de informações que têm armazenado em suas memórias. É claro que não desejamos dizer que o computador seja inteligente, nem que tenha instinto, mas é certo que se utiliza de um dos dispositivos da inteligência humana, isto é, a memória.
Fiquemos aqui mesmo, para concluir.
Creio ter conseguido evidenciar, com estas reflexões, o que se costuma ter em mente ao se dizer que inúmeros conceitos formulados pelos Espíritos dentro da Codificação estão à espera de desdobramento e aplicação, sem, no entanto, mutilar a Doutrina. Esse desdobramento, no correr do tempo, há de deslocar, rearrumar e tornar obsoletos muitos dos mais caros conceitos da ciência moderna, não apenas na Psicologia, mas em todos os ramos do conhecimento, naquilo que concerne ao ser humano, como unidade social. É justo admitir, no entanto, que muitas das noções catalogadas pela ciência, serão aproveitadas e iluminadas sob um novo ângulo, com uma nova luz e acabarão por oferecer uma visão nítida do homem e do mundo que o cerca, objetivo multimilenar da especulação humana.
Que estamos esperando? Onde estão os pensadores espíritas? Os psicólogos, sociólogos, biólogos, médicos, enfim, os artífices espiritualizados e evangelizados da sociedade futura? Os temas aí estão, e a Ciência aguarda aqueles que irão conciliar conhecimento e moral, razão e fé, o homem e Deus.
(2) Relembremos o sentido da expressão noesis escolhida por Aristóteles e que quer dizer conhecimento.

Herminio C. Miranda
Obreiros do Bem - Agosto de 1976

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

PERSEVERANÇA E SERIEDADE

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA


Pelo estudo anterior (VII), vimos que o verdadeiro caráter do Espiritismo é o de ser uma Ciência. Essa característica permite que homens de todas as crenças se encontrem. Nesse campo não há dissensões, desavenças, discrepância, uma vez que seus princípios são independentes das questões dogmáticas.
Como Ciência filosófica que é suas conseqüências e aplicação é moral... "terreno onde todos os cultos podem se reencontrar, a bandeira sob a qual todos podem se abrigar, quaisquer que sejam suas crenças, porque jamais foi objeto de disputas religiosas"...
... "a parte moral que exige a reforma de si mesmo. Para os homens em particular, é uma regra de conduta abrangendo todas as circunstâncias da vida, privada ou pública, o princípio de todas as relações sociais, fundadas sobre a mais rigorosa justiça"...
Para chegar a essas conclusões ocupou-se:
da observação dos fatos e não das particularidades desta ou daquela crença
da pesquisa das causas
da explicação que os fatos podem dar, dos fenômenos conhecidos tanto na ordem moral como na ordem física
não impõe nenhum culto aos seus partidários
pela formação e uso da razão leva perceber sistemas enganosos, fruto da interpretação falha, pessoal, unilateral
desperta no homem o desejo de renovar-se pela antevisão do futuro
reconduz à religiosidade, isto é, a viver os objetivos maiores da crença, pois na lógica de seus raciocínios leva a enxergar a finalidade da vida, o porque das dores, acalmando desesperos e ensinando os homens a se amarem como irmãos.
Um estudo com essas características, não pode ser feito por aqueles que se aproximem com julgamentos precipitados, com prejulgamentos ou levianamente, detendo-se no que ouviram falar, sem se disporem a tudo ver, analisar, deduzir, comparar, etc.
Estes se limitarão a acreditar, a a admirar, a se deter nas manifestações, uma vez que nada mais buscam além do fenômeno. Para estes, o Espiritismo se fecha como uma série de fatos mais ou menos interessantes.
Outros, nessa mesma faixa, até perceberão o alcance filosófico; admiram a moral dele decorrente, mas não se encontram interessados na prática.
Quem se dispuser a perceber-lhe a essência há que se caracterizar pelo espírito aberto, sem predisposição, sem opiniões já formadas, com inteireza de caráter, constante, firme, isento de prevenções na busca ininterrupta não só da causa, da mecânica, do fato em si, mas, e principalmente, na dedução das conseqüências, na aplicação desse conhecer renovador dos sentimentos que burila, melhora, sutiliza, renova a essência, o ser espiritual.
Na decorrência desse processo, surgirá, despontará, caracterizar-se-á o espírito sincero que compreende a Doutrina sob seu verdadeiro ponto de vista. Estes não se contentam admirar a beleza da proposta moral: - praticam-na e aceitam todas as conseqüências que essa opção atrair.
Convencidos de que a existência terrena é passagem, detalhe transitório, buscam a melhor forma para fazer de cada acontecimento, de cada estímulo que a Vida propicia, momentos de progresso. Vigilantes, alegres, descontraídos, felizes, esforçam-se, através dos procedimentos naturais, por fazer o Bem, educando inclinações inferiores, estudando tendências e preferências, para renová-las, agora, sob objetivos maiores, transcendentes.
Nesse sentido ou sob esses objetivos, as relações e posições tomadas, passam a ser seguras, pois as convicções reais, ligam-no as fontes propulsoras da Vida, na caridade onde amar e servir, passam a ser a preocupação de suas decisões e atos, objetivo enfim, de conduta ... "estes são os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos"...
Sem precisar de muitos argumentos, percebe-se que só se atingirá tal meta, aqueles que imprimam a seus estudos, pesquisa, continuidade, seqüência; que sem interrupção dê seguimento, com regularidade, de modo metódico, desde o início, buscando conhecer o que já existe a respeito, as opiniões responsáveis que tratam do assunto, prosseguir, encadeando idéias no conhecimento que se estrutura e forma.
Nesse campo mental, não se detém, nem no questionamento, nem na resposta isolada, pessoal, justamente porque entende que o conhecimento se forma através de vinculações que comporão o todo.
Estes, são alguns dos sinais ou o caminho que atrai a simpatia dos bons Espíritos, presentes onde a pureza das intenções, a fé, o fervor, a confiança, os sentimentos nobres estão unidos à razão, na pesquisa perseverante e séria que busca e conduz ao Bem.
Sem esses cuidados, sem essas qualidades, ficar-se-á a mercê dos levianos que, atraídos a campo próprio, permanecem justamente porque encontraram meio livre, gerados pela irresponsabilidade, pelo personalismo, oportunismo, ociosidade, brincadeiras, falta de circunspeção, seriedade enfim.
... "se quereis respostas sérias, sede sérios vós mesmos, em toda a extensão do termo e mantende-vos nas condições necessárias: somente então, obtereis grandes coisas. Sede além, disso laboriosos e perseverantes em vossos estudos para que os Espíritos superiores não vos abandonem como faz um professor com os alunos negligentes."
Ainda:
... "o Espiritismo não pode considerar crítico sério, senão aquele que tudo tenha visto, estudando e aprofundando com a paciência e a perseverança de um observador consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto qualquer adepto instruído, que haja por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não nos romances da Ciência; aquele que não se possa opor fato algum que lhe seja desconhecido, nenhum argumento de que já não tenha cogitado e cuja refutação faça, não por mera negação, mas por meio de outros argumentos mais peremptórios; aquele finalmente, que possa indicar, para os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhes aponta o Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer.".

Leda Marques Bighetti

Bibliografia
Kardec, Allan - O Livro dos Espíritos - Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita VIII.
Kardec, Allan - O Evangelho Segundo o Espiritismo - I - Introdução
Kardec, Allan - Revista Espírita - Maio - 1859 Outubro - 1860
Kardec, Allan - O Livro dos Médiuns - Cap II - 14

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A LUZ DO MUNDO



Disse Jesus em Jo. 8-32 "... e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará".

O próprio Pilatos, durante o julgamento do Cristo perguntou (Jo. 18-38) "Que é a verdade?".
Não nos conta o Evangelho se foi Pilatos que não esperou a resposta à pergunta feita, ou se foi o Mestre que sabendo de antemão que nada adiantaria, se negou a respondê-la.
De qualquer maneira que queiramos entender esse episódio é de interesse puramente do nosso irmão Pilatos e dos judeus daquela época.
Para nós, cristãos convictos, cabe hoje buscarmos conhecer essa verdade a fim de que ela possa nos tornar livres.
Ora, somente Jesus, autor desse ensinamento é que também poderá nos fornecer a solução do problema.
Se isto for verdade, então somente o Evangelho nos poderá socorrer e indicar o caminho que estamos percorrendo. Isto é bem verdade pois que nesse mesmo capítulo nos dá o Mestre mais uma indicação segura para nossa incerteza e desconhecimento (Jo. 8-12) "Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, pelo contrário, terá a luz da vida".
Se Ele se declara a luz do mundo por certo os ensinamentos contidos no Evangelho devem conter a solução da proposição que estamos examinando.
Ora, não é o Evangelho o repositório de todos os seus ensinamentos? Portanto nele certamente encontraremos a solução, é só questão de buscar e encontrar. Vamos pois procurar.
É Jesus, o Cristo, o guia, o mestre, o salvador, o libertador da humanidade terrena, portanto os seus ensinamentos devem conter todos os elementos necessários para que o estudioso neles encontre as condições precisas para se salvar e também se libertar.
Logo, no estudo, interpretação e vivência do Evangelho deveremos encontrar tudo quanto for necessário à nossa libertação. Sendo o Evangelho um repositório das Leis Cósmicas, Lei de Deus, que nos foram transmitidas por Jesus, o Cristo, neles estão contidos todos os elementos que necessitamos para conhecer a verdade que nos libertará.
O próprio Cristo diz: "Eu sou a luz do Mundo". Ora, se Ele é a luz do mundo, logo a luz para nós se fará, se transformarmos os seus ensinamentos em nosso guia, nosso roteiro; para isso basta conhecer, seguir, viver o Evangelho, pois que para nós o Cristo é o ensinamento que nos legou. Como estudar tão precioso legado?
São Paulo nos adverte em II Cor. 3-6 "o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança não da letra morta, mas do espírito que vivifica".
Aí está a sábia fórmula para entendermos os ensinamentos do Mestre amado. É preciso que nos despojemos de todo orgulho, vaidade, pretensão e que nos tornemos pequeninos diante de nós mesmos para que possamos entender tão sábios ensinamentos.
Só o humilde é capaz de bem interpretar, porque despido de todas as pretensões permitirá ao ensinamento entrar em seu coração onde se estabelecerá e produzirá frutos, pela vivência dos preceitos.
Só realmente pode sentir quem puder viver a verdade e só pode conhecer a verdade quem realmente estiver liberto de todos os vícios que ensombram a moral evangélica e esta nos é ensinada pelo próprio Mestre: (Mat. 5-24) "deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro, reconcilia-te com teu irmão, e então voltando faze a tua oferta". Exige a Lei que não guardemos qualquer mágoa em nossos corações para que possamos viver integralmente os Evangelhos.
Não basta que sigamos este ou aquele ensinamento, é necessário que sigamos os ensinamentos do Evangelho para sermos livres, uma vez que somos igualmente importantes diante de Deus. Se assim não fosse o Cristo não teria perdido tempo em ensiná-lo.
Quando Jesus nos transmitiu o preceito "e conhecereis a verdade...". Ele nos quis dizer a verdade integral, total, não as verdades parciais a que estamos acostumados a conhecer, digo verdades parciais pois que cada religião, seita ou doutrina se apega a uma determinada verdade exposta no Evangelho e mal interpretada, e em base dessa interpretação, como diz Paulo, segundo a letra, luta encarniçadamente, às vezes por encarnações sucessivas, perfeitamente convictos de estarem de posse da verdade total. Este é o estado evolutivo da humanidade que assim se deixa levar até o momento de despertar para uma verdade maior, até que através de verdades parciais, cada vez maiores, atinja a verdade total, quando após inúmeras reencarnações consiga aproximar-se do Cristo e assim entendê-lo em sua plenitude. Mas tomemos tento, que quando o Cristo enunciou no seu Evangelho: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida", Ele clara e insofismavelmente nos deixou patenteado que a Verdade que liberta só poderá ser encontrada por quem estuda, interpreta e vive todos os preceitos evangélicos que nos legou.
Só assim é que poderemos nos libertar totalmente das peias que nos mantêm presos a este mundo tornando-nos cidadãos universais, pois que a lei evangélica é a Lei de Deus.

DESPERTADOR - setembro/outubro de 1980

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

OS INIMIGOS DO INVISÍVEL


Além dos nossos desafetos do plano material, é importante que não nos esqueçamos de que também os temos no outro lado da vida, ou seja na vida espiritual, e que dessa forma, é prudente que desde já busquemos entrar em contato com os nossos irmãos que por qualquer motivo não têm conosco uma boa convivência em nossa atual romagem terrena, para se possível desfazermos os motivos de tais desarmonias e nos guiar pelas instruções do Mestre de Nazaré para que façamos nossos acertos enquanto estamos à caminho com eles, para que não aumentemos ainda mais o número deles no outro lado da vida.
A doutrina espírita nos esclarece que espíritos equivocados e ignorantes existem em grande número a nos influenciar a todo o instante, e que precisamos estar bastante atentos para não nos deixar levar por suas maléficas influências.
Informam-nos os Instrutores da Espiritualidade Superior que alguns desses nossos irmãos, em estado de total desrespeito por tudo e por todos, não se deixam influenciar nem mesmo diante da invocação do nome de Deus nosso Pai, e que somente aqueles que possuem elevado conceito de moralidade poderão obter resultado positivo diante dessas criaturas infelizes, exatamente porque já vivenciam os ensinamentos do mestre de Nazaré em pensamentos, palavras e obras, trabalhando incansavelmente pelo alastramento e implantação do bem no coração dos seus irmãos, ajudando a levantar os caídos na estrada da vida, única condição de impor respeito ante essas entidades perversas e ignorantes.
Em o evangelho Segundo o Espiritismo, encontramos as instruções dos Imortais da Vida Maior, sobre o assunto, conforme segue:
Os inimigos desencarnados
“Ainda outros motivos tem o espírita para ser indulgente com os seus inimigos. Sabe ele, primeiramente, que a maldade não é um estado permanente dos homens; que ela decorre de uma imperfeição temporária e que, assim como a criança se corrige dos seus defeitos, o homem mau reconhecerá um dia os seus erros e se tornará bom.
Sabe também que a morte apenas o livra da presença material do seu inimigo, pois que este o pode perseguir com o seu ódio, mesmo depois de haver deixado a Terra; que, assim, a vingança, que tome, falha ao seu objetivo, visto que, ao contrário, tem por efeito produzir maior irritação, capaz de passar de uma existência a outra. Cabia ao Espiritismo demonstrar, por meio da experiência e da lei que rege as relações entre o mundo visível e o mundo invisível, que a expressão: extinguir o ódio com o sangue é radicalmente falsa, que a verdade é que o sangue alimenta o ódio, mesmo no além-túmulo. Cabia-lhe, portanto, apresentar uma razão de ser positiva e uma utilidade prática ao perdão e ao preceito do Cristo: Amai os vossos inimigos. Não há coração tão perverso que, mesmo a seu mau grado, não se mostre sensível ao bom proceder. Mediante o bom procedimento, tira-se, pelo menos, todo pretexto às represálias, podendo-se até fazer de um inimigo um amigo, antes e depois de sua morte. Com um mau proceder, o homem irrita o seu inimigo, que então se constitui instrumento de que a justiça de Deus se serve para punir aquele que não perdoou.
Pode-se, portanto, contar inimigos assim entre os encarnados, como entre os desencarnados. Os inimigos do mundo invisível manifestam sua malevolência pelas obsessões e subjugações com que tanta gente se vê a braços e que representam um gênero de provações, as quais, como as outras, concorrem para o adiantamento do ser, que, por isso; as deve receber com resignação e como conseqüência da natureza inferior do globo terrestre. Se não houvesse homens maus na Terra, não haveria Espíritos maus ao seu derredor. Se, conseguintemente, se deve usar de benevolência com os inimigos encarnados, do mesmo modo se deve proceder com relação aos que se acham desencarnados.
Outrora, sacrificavam-se vítimas sangrentas para aplacar os deuses infernais, que não eram senão os maus Espíritos. Aos deuses infernais sucederam os demônios, que são a mesma coisa. O Espiritismo demonstra que esses demônios mais não são do que as almas dos homens perversos, que ainda se não despojaram dos instintos materiais; que ninguém logra aplacá-los, senão mediante o sacrifício do ódio existente, isto é, pela caridade; que esta não tem por efeito, unicamente, impedi-los de praticar o mal e, sim, também o de os reconduzir ao caminho do bem e de contribuir para a salvação deles. É assim que o mandamento: Amai os vossos inimigos não se circunscreve ao âmbito acanhado da Terra e da vida presente; antes, faz parte da grande lei da solidariedade e da fraternidade universais”. ¹

Francisco Rebouças
Fonte:
1) O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XII, itens 5 e 6 (Grifos nossos).

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O PERISPÍRITO



"Há corpo animal e há corpo espiritual" diz São Paulo (1 Cor. 15:44). Com efeito, esse corpo espiritual de São Paulo é o perispírito dos espíritas de hoje. O perispírito, aliás, não é coisa nova.
No Antigo Egito os sacerdotes ensinavam que além do ka", o Espírito, emanação divina, havia uma forma imaterial "sahu", o fantasma propriamente, que reproduzia exatamente os traços do corpo físico e que se manifestava aos encarnados.
Na Grécia antiga, a doutrina inspirada pelos hinos órficos ensinava: "Amai a luz, e não as trevas. Lembrai-vos da finalidade da vossa viagem. Quando as almas voltam ao mundo espiritual trazem marcadas sobre os seus corpos etéreos, em manchas horrendas, todas as faltas da sua vida e, para as apagar, é necessário voltar à Terra. Mas os puros e os fortes se vão para o sol de Dionísio".
Na Índia se fala também desse corpo espiritual, porque ele próprio se impõe como uma realidade incontestável.
Mas não desejamos deter-nos em detalhes nem em considerações dos antigos filósofos. Preferimos abordar rapidamente as importantes funções do perispírito no plano material, assim como as suas conseqüências no plano espiritual.
O corpo espiritual, isto é, o perispírito está em cada. um de nós intimamente ligado ao corpo físico e é tanto mais sutil quanto mais elevado se acha o ser na escala da perfectibilidade. Vaporoso para nós encarnados é, no entanto, bem grosseiro ainda para os desencarnados; contudo, os Espíritos purificados podem elevar-se com ele na atmosfera e transportar-se aonde queiram.
As suas funções no corpo físico são múltiplas e preside a todos os fenômenos fisiológicos da respiração, da alimentação e assimilação dos alimentos, extraindo toda a matéria aproveitável, afeiçoando-a a cada órgão e eliminando do corpo todos os elementos que lhe sejam inúteis ou nocivos. Com efeito, o nosso organismo é uma complicada máquina que funciona à nossa revelia, sem que, nem de leve, suspeitemos da sua complexidade.
Um elevado Espírito, respondendo numa sessão a um jornalista inglês que lhe perguntara sobre o perispírito, disse: "Tenho um corpo que é uma reprodução do que tive na Terra: as mesmas mãos, pernas e pés, que se movem como o fazem os vossos. Na Terra eu tinha o corpo físico interpenetrado do corpo etéreo que ora tenho. O etéreo é o corpo real e é cópia perfeita do corpo terreno. Por ocasião da morte, emergimos de nossa cobertura de carne e continuamos a nossa vida no mundo etéreo, funcionando aqui por meio do corpo etéreo, exatamente como funcionávamos na Terra, metidos no corpo físico. O corpo etéreo é aqui tão substancial para nós como o era o corpo físico quando vivíamos na Terra. Temos as mesmas sensações. Sentimos e vemos como na Terra. Embora não sejam materiais, conforme entendeis esta palavra, os nossos corpos têm forma, aspecto e expressão".
É ainda no perispírito que ficam registradas as nossas ações e os nossos atos, bons ou maus. De fato, todos os acontecimentos da nossa vida são maravilhosamente registrados em nosso perispírito, nos seus mínimos detalhes; nada se perde.
Segundo recente declaração do Dr. Wilder Penfield, diretor do Instituto de Neurologia de1 Montreal, Canadá, o nosso perispírito grava, como num filme, todos os acontecimentos da nossa vida. A recordação é de tal modo viva que é como se o indivíduo voltasse a reviver as mesmas cenas, os mesmos fatos.
Pelos fatos registrados nas obras espíritas já sabíamos que em momentos críticos, como nos acidentes graves, nas quedas perigosas, na asfixia por afogamento, etc., o indivíduo pode rever, com incrível nitidez, a sua vida até aquele momento, como se assistisse a um filme no qual ele próprio tomasse parte.
Naturalmente os seus atos bons são motivos de satisfação para o seu Espírito, enquanto os atos maus são motivo de tristeza e arrependimento. Por aí se pode avaliar a situação dolorosa de certos Espíritos libertos da carne, tendo diante de si, permanentemente, os acontecimentos deploráveis que desejariam esquecer.
Eis um fato significativo que comprova as afirmações do Dr. Penfield. O almirante Beaufort, quando ainda jovem, caiu de um navio à água do porto de Portsmouth. Antes que fosse possível ir em seu socorro, desapareceu; ia morrer afogado.
Depois de algumas considerações sobre a angústia do primeiro momento, diz ele:

"Com o enfraquecimento dos sentidos coincidiu uma superexcitação extraordinária da atividade intelectual; as idéias sucediam-se com rapidez prodigiosa. O acidente que acabara de dar-se, o descuido que o motivara, o tumulto que se lhe deveria ter seguido, a dor que iria alcançar meu pai e outras circunstâncias intimamente ligadas ao lar doméstico, foram o objeto das minhas primeiras reflexões. Depois, veio-me à memória o último cruzeiro, viagem acidentada por um naufrágio; a seguir, a escola, os progressos que nela fizera e também o tempo perdido, finalmente, as minhas ocupações e aventuras de criança. Em suma, a subida de todo o rio da vida, e quão pormenorizada e precisa"! E acrescenta: "Cada incidente da minha vida atravessava-me sucessivamente a memória, não como simples esboço, mas com as particularidades e acessórios de um quadro completo! Por outras palavras, toda a minha existência desfilava diante de mim numa espécie de vista panorâmica, cada fato com a sua apreciação moral ou reflexões sobre suas causas e efeitos. Pequenos acontecimentos sem conseqüências, há muito tempo esquecidos, se acumulavam em minha imaginação como se tivessem passado na véspera. E tudo isso sucedeu em dois minutos"
(Léon Denis, "O Problema do Ser", pág. 173)

Com efeito, todos os atos da nossa vida e são maravilhosamente registrados em nosso perispírito. Os menores detalhes são cuidadosamente guardados para, no momento preciso, na aflorarem nítidos, inconfundíveis - Eis porque Jesus, estabelecendo a nossa responsabilidade diante da vida, diz: "Até os cabelos da vossa da cabeça estão contados."

Fonte: Reformador - julho/1970 - pg. 161

domingo, 24 de janeiro de 2010

RESPEITO AO PRÓXIMO

Deus não nos fez desligados da Humanidade. Somos elos da grande corrente universal e as energias divinas que vão alcançar os outros devem passar por nós, beneficiando-nos e ao nosso próximo. Carecemos dos outros, qual eles de nós na imensa vinha do nosso Pai Celestial. Portanto, o nosso segundo dever é amar o próximo, como nos aconselha o Mestre por intermédio do Seu Evangelho de Luz. E amar é acatar os direitos daqueles que andam conosco no mesmo caminho. Nada fazemos sem a participação dos nossos irmãos. Cada um nos ajuda em algo de que carecemos. Somos devedores da humanidade, como também emprestamos a ela o nosso concurso, e a fraternidade é o caminho mais desejado na área do Bem, ao tratarmos com os nossos companheiros.
As exigências devem ser feitas a nós para com nós mesmos; o apreço, esse deve ser dirigido aos nossos semelhantes.
A imposição é o modo de nos educarmos; a consideração, o ambiente que deve ser feito aos companheiros de labor.
O mando deve ser a disposição na disciplina dos nossos instintos. A cortesia haverá de ser o meio de comunicar mais agradável com os nossos irmãos.
A imposição é o caminho interno quando nos indica o bem, a fraternidade nos faz atrair companheiros para o mesmo convívio.
A crítica encontra campo frutífero quando exercida no nosso mundo interno.
E a ponderação cresce e faz crescer a nossa amizade em todos os rumos. O mal merecedor de comentário é aquele que fazemos; em referência aos outros, o resguardo nos traz confiança de que todos se esforçam para o melhor.
Se tens alguma educação, aplica-a diante dos outros, e se isso te falta, lembra-te de ti mesmo. O nosso mundo interno é uma lavoura grandiosa que poderá dar muitos frutos e flores compatíveis com o nosso comportamento. Trabalhemos nele.
Quando deixamos o nosso sítio íntimo para analisar e falar mal do que não nos pertence, cresce em nós a erva daninha capaz de sufocar o trigo do Bem, que já havíamos plantado. A energia que nos foi dada deve ser usada na auto-educação, estabelecendo assim, no nosso reino, a verdadeira harmonia espiritual, que se refletirá em todos os outros corpos. Mas, com respeito aos outros, a maior cota que poderemos fornecer para os seus corações é o exemplo dignificante, é a vivência no Amor nos caminhos da Caridade.
Se deres a devida importância ao teu próximo, nunca perderás. Receberás, pelos meios que por vezes ignoras, a atenção que te agradará e te fará feliz. respeita os direitos dos outros, que eles, certamente, e por lei, respeitarão os teus; e ainda, a harmonia do Universo compartilhará contigo no Bem que estimas fazer, por necessidade de amar, utilizando o comportamento elevado para ajudar a construir o reino de Deus nos corações, como também o Céu em qualquer lugar em que estiveres.
Confiemos nas forças superiores e também nas nossas, que elas crescerão de acordo com as nossas disposições de melhorar, sem nunca nos esquecermos da deferência para com aqueles que nos seguem, instruindo-nos e aqueles que nos instruem, seguindo-nos.
O respeito é luz, porque ajuda a transformar as trevas em claridades imortais.

livro: Cirurgia Moral
Lancellin

sábado, 23 de janeiro de 2010

ESPÍRITOS PROTETORES

Jehul, elevada entidade de uma das mais belas regiões da vida espiritual, foi chamado pelo caricioso apelo de um nobre mensageiro da Verdade e do Bem, que lhe falou nestes termos:
- Uma das almas a que te vens devotando particularmente, de há muitos séculos, vai agora ressurgir nas tarefas da reencarnação sobre a Terra. Seus destinos foram agravados de muito em virtude das quedas a que se condenou pela ausência de qualquer vigilância, mas o Senhor da Vida concedeu-lhe nova oportunidade de resgate e elevação.
Jehul sorriu e exclamou, denunciando sublimes esperanças:
- É Laio?
- Sim - replicou o generoso mentor -, ele mesmo, que noutras eras te foi tão amado na Etrúria. Atendendo às tuas rogativas, permite Jesus que lhe sejas o guardião desvelado, através de seus futuros caminhos. Ouve, Jehul ! - serás seu companheiro constante e invisível, poderás inspirar-lhe pensamentos retificadores, cooperar em suas realizações proveitosas, auxiliando-o em nome de Deus; mas, não esqueças que tua tarefa é de guardar e proteger, nunca de arrebatar o coração do teu tutelado das experiências próprias, dentro do livre-arbítrio espiritual, a fim de que construa suas estradas para o Altíssimo com as próprias mãos.
Jehul agradeceu a dádiva, derramando lágrimas de reconhecimento.
Com que enlevo pensou nas possibilidades de conchegar ao seio aquele ser amado que, havia tanto tempo, se lhe perdera do caminho!... Laio lhe fora filho idolatrado na paisagem longínqua. É certo que não lhe compreendera a afeição, na recuada experiência. Desviara-se das sendas retas, quando ele mais esperava de sua mocidade e inteligência; seu coração carinhoso, porém, preferira ver no fato um incidente que o tempo se encarregaria de eliminar. Agora, tomá-lo-ia de novo nos braços fortes e o reconduziria à Casa de Deus. Suportaria, corajosamente, por ele, a pesada atmosfera dos fluidos materiais. Toleraria, de bom grado, os contrastes da Terra. Todos os sofrimentos eventuais seriam poucos, pois acabava de alcançar a oportunidade de erguer, dentre as dores humanas, um irmão muito amado, que fora se\! filho inesquecível.
O generoso amigo espiritual atravessou as paisagens maravilhosas que o separavam do ambiente terrestre. Ficaram para trás de seus passos os jardins suspensos, repletos de flores e de luz. As melodias das regiões venturosas distanciavam-se-lhe dos ouvidos.
Esperançoso, desassombrado, o solícito emissário penetrou a atmosfera terrestre e achou-se diante de um leito confortável, onde se identificava um recém-nascido pelo seu brando choramingar. Os Espíritos amigos, encarregados de velar pela transição daquele nascimento, entregaram-lhe o pequenino, que Jehul beijou, tomado de profunda emoção, apertando-o de encontro ao peito afetuoso.
E era de observar-se, daí em diante, o devotamento com que o guardião se empenhou na tarefa de amparar a débil criança. Sustentou, de instante a instante, o espírito maternal, solucionando, de maneira indireta, difíceis problemas orgânicos, para que não faltassem os recursos da paz aos primeiros tempos do inocentinho humano. E Jehul ensinou-lhe a soletrar as primeiras palavras, reajustando-lhe as possibilidades de usar novamente a linguagem terrestre. Velou-lhe os sonos, colocou-o a salvo das vibrações perniciosas do invisível, guiou-lhe os primeiros movimentos dos pés. O generoso protetor nada esqueceu, e foi com lágrimas de emoção que inspirou ao coração materno as necessidades da prece para a idolatrada criancinha. Depois das mãos postas para pronunciar o nome de Beus, o amigo desvelado acompanhou-a a escola, a fim de restituir-lhe, sob as bênçãos do Cristo, a luz do raciocínio.
Jehul não cabia em si de contentamento e esperança, quando Laio se abeirou da mocidade.
Então, a perspectiva dos sentimentos transformou-se.
De alma aflita, observou que o tutelado regressava aos, mesmos erros de outros tempos, na, recapitulação das experiências necessárias. Subtraía-se, agora, à vigilância afetuosa dos pais, inventava pretextos desconcertantes e, por mais que ouvisse as advertências preciosas e doces do mentor espiritual, no santuário da consciência, entregava-se, vencido, aos conselheiros de rua, caindo miseravelmente nas estações do vício.
Se Jehul lhe apontava o trabalho como recurso de elevação, Laio queria facilidades criminosas; se alvitrava providências da virtude, o fraco rapaz desejava dinheiro com que se desvencilhasse dos esforços indispensáveis e justos. Entre sacrifícios e dores ásperas, o prestimoso guardião viu-o gastar, em prazeres condenáveis, todas as economias do suor paternal, assistindo aos derradeiros instantes de sua mãe, que partia, da Terra, ferida pela ingratidão filial. Laio relegara todos os deveres santos ao abandono, entregando-se à ociosidade destruidora. Não obstante os cuidados do mentor carinhoso, procurou o álcool, o jogo e a sífilis, que lhe sitiaram ,a existência consagrada por ele ao desperdício. O dedicado amigo, entretanto, não desanimava.
Após o esgotamento dos recursos paternos, Jehul cooperou junto de companheiros prestigiosos, para que o tutelado alcançasse trabalho.
Embora contrafeito e subtraindo-se, quanto possível, ao cumprimento das obrigações, Laio tornou-se auxiliar de urna empresa honesta, que, às ocultas, era objeto de suas críticas escarnecedoras. Quem se habitua à ociosidade criminosa costuma caluniar os bens do espírito de serviço.
De nada valiam os conselhos do guardião, que lhe falava, solícito, nos quais profundos recessos do ser.
Daí a pouco tempo, menos por amor que por necessidade, Laio buscou uma companheira. Casou-se. Mas, no desregramento que se entregava de muito tempo, não encontrou matrimônio senão sensações efêmeras que terminavam em poucas semanas, como a potencialidade de um fósforo que se apaga em alguns segundos. Jehul, no entanto, alimentou a esperança de que talvez a união conjugal lhe proporcionasse oportunidade para ser convenientemente ou não. Isso, todavia, não aconteceu. O tutelado não sabia tratar a esposa senão entre desconfianças e atitudes violentas. Sua casa era uma seção do mundo inferior a que havia confiado seus ideais. Recebendo três filhinhos para o jardim do lar, muito cedo lhes inoculava no coração as sementes do vício, segregando-os num egoísmo cruel.
Quando viu o infeliz envenenando outras almas que chegavam pela bondade infinita de Deus para a santa oportunidade de serviços novos, Jehul sentiu-se desolado e, reconhecendo que não poderia prosseguir sozinho naquela tarefa, solicitou o socorro dos Anjos das Necessidades. Esses mensageiros de educação espiritual lhe atenderam atenciosamente aos rogos, começando por alijar o tutelado do emprego em que obtinha o pão cotidiano. Entretanto, em lugar de melhorar-se com a experiência buscando meditar como convinha, Laio internou-se por uma rede de mentiras, fazendo-se de vítima para recorrer às leis humanas e ferir as mãos de antigos benfeitores. Acusou pessoas inocentes, exigiu indenizações descabidas, tornou-se odioso aos amigos de outros tempos.
Jehul foi então mais longe, pedindo providências aos Anjos que se incumbem do Serviço das Moléstias úteis, os quais o auxiliaram de pronto, conduzindo Laio ao aposento da enfermidade reparadora, a fim de que o mísero pudesse refletir na indigência da condição humana e na generosa paternidade do Altíssimo; aquele homem rebelde, contudo, pareceu piorar cem por cento. Tornou-se irascível e insolente, abominava o nome de Deus, sujava a boca com inúmeras blasfêmias. Foram necessários verdadeiros prodígios de paciência para que Jehul lhe lavasse do cérebro esfogueado e caprichoso os propósitos de suicídio. Foi aí que, desalentado quanto aos recursos postos em prática, o bondoso guardião implorou os bons ofícios dos Anjos que se encarregam dos Trabalhos da Velhice Prematura. Os novos emissários rodearam Laio com atenção, amoleceram-lhe. as células orgânicas, subtraíram-lhe do rosto a expressão de firmeza e resistência, alvejaram-lhe os cabelos e enrugaram-lhe o semblante. No entanto, o infeliz não cedeu. Preferia ser criança ridícula nas aparências de um velho, a entrar em acordo com o programa da Sabedoria Divina, a favor de si mesmo.
Enquanto blasfemava, seu amigo orava e desdobrava esforços incessantes; enquanto praticava loucuras, o guardião duplicava sacrifícios e esperanças.
O tempo passava célere, mas, um dia, o Anjo da Morte veio espontaneamente ao grande duelo e falou com doçura:
- Jehul, chegou a ocasião da tua retirada!. . .
O generoso mentor abafou as lágrimas de angustiosa surpresa. Fixou o mensageiro com olhos doridos e súplices; o outro, no entanto, continuou:
- Não intercedas por mais tempo! Laio agora me pertence. Conduzi-lo-ei aos meus domínios, mas podes rogar a Deus que o teu tutelado recomece, mais tarde, outra vez...
Terminara a grande partida. A Morte decidira no feito, pelos seus poderes transformadores, enquanto o guardião recolhia, entre lágrimas, o tesouro de suas esperanças imortais. .
E, grafando esta história, lembro-me que quase todos os Espíritos encarnados têm algum traço do Laio, ao passo que todos os Espíritos protetores têm consigo os desvelos e os sacrifícios de Jehul.

Humberto de campos
Livro Reportagens do Além Túmulo- Psicografia Chico Xavier

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O PODER DA PRECE

Uma das mais expressivas mensagens de Jesus encontra-se no evangelho de Marcos, capítulo XI, v.24: "O que quer seja que pedirdes na prece, crede que o obtereis, e vos será concedido."
É a famosa expressão: "pedi e obtereis".
Entretanto, muitas pessoas, incluindo membros de ordens religiosas, inclusive espíritas, têm dificuldade de acreditar na eficácia da prece. Isto ocorre porque talvez não saibam realmente o que é uma prece.
O estudo da doutrina espírita permite adquirir visão mais clara do poder da oração e dos pedidos ao Pai celestial.
O grande objetivo desta doutrina é a reforma íntima de seus adeptos, particularmente a elevação da qualidade da maneira de pensar.
Na questão de número 459 de " O Livro dos Espíritos" , Kardec nos explica que vivemos constantemente sob a influência dos habitantes do mundo espiritual.
Existe um intercâmbio intenso entre nós, espíritos encarnados, e aqueles já desencarnados.
Estes, habitantes do plano espiritual, podem ser evoluídos ou ainda se encontrarem em estágios inferiores da evolução.
A prece permite obter a influenciação da parcela mais evoluída e mais amorosa do mundo espiritual. Segundo Kardec, a prece é uma invocação, através da qual um ser se coloca em comunicação mental com outro ser, ao qual se dirige. Pode ter como objetivos fazer pedidos ou agradecimentos ou simplesmente para glorificação de Deus, em ato de humildade.
Segundo vários autores, o governo espiritual é muito bem organizado e se preocupa com o bem estar e o progresso dos espíritos encarnados. Existem numerosas equipes que vivem para socorrer.
As preces dirigidas a Deus são ouvidas pelos espíritos encarregados da execução das suas vontades.
Podemos orar para outros seres, na qualidade apenas de intermediários. Mas, Deus é o grande receptor das vibrações das preces. É a autoridade maior, absoluta e amorosa.
Para entendermos os mecanismos de ação da prece precisamos lembrar que nos encontramos mergulhados no que Kardec denominou de fluido cósmico universal, que ocupa todos espaços do universo. Este fluído recebe os impulsos da vontade. Ele é o veículo das vibrações do pensamento, como o ar é o veículo das vibrações do som. A diferença está no fato de que no ar as vibrações sonoras são limitadas. No fluído cósmico universal as vibrações do pensamento se estendem ao infinito.
Assim, as preces sempre são ouvidas pelos espíritos em quaisquer lugares onde se encontrem. Víctor Hugo refere-se aos "centros de registros e avaliação das rogativas humanas " espalhados pelas províncias próximas da Terra, que recebem as solicitações, examinam a importância e urgência dos pedidos, respondendo conforme o caso.
O espírito Patrícia nos informa que em todas colônias espirituais, espalhadas pelo mundo espiritual em torno da terra, existe um "Departamento de pedidos" em que cada prece é anotada, analisada e classificada para se decidir sobre seu atendimento.
Víctor Hugo explicou que o espírito que ora, emite vibrações teledinâmicas que se dirigem ao mundo espiritual e retornam para este mesmo espírito. O benefício da prece pode ser instantâneo, no momento exato da prece, por receber ondas benéficas, reconfortantes e de pensamento otimista. A vibração da mente em oração sincroniza com as ondas teledinâmicas do mundo espiritual superior, atraindo atenção e interesse dos espíritos encarregados do equilíbrio na terra.
A prece harmoniza o tom vibratório do indivíduo, revitaliza o metabolismo perispiritual, reorganizando o campo das moléculas, resultando em ação salutar.
Assim a prece evita doenças originárias de vibrações desorganizadas da mente desequilibrada.
Recentemente, a imprensa brasileira divulgou resultados de estudos que concluíram que, pessoas acostumadas à prática da oração gozam de mais saúde.
Na realidade os efeitos benéficos da prece podem ser observados no indivíduo, nas pessoas que com ele mais se relacionam e no ambiente que fica mais harmonizado, com psicosfera balsâmica, agradável e calmante.
De fato é agradável o ambiente de templos, de mosteiros e de casas espíritas onde se pratica a prece autentica.
Os locais de oração são bem vistos pelo plano espiritual.
Entretanto é importante lembrar que o poder da prece está no pensamento.
A energia da corrente depende do vigor do pensamento e da vontade de quem ora.
Ela não depende de palavras, de vestimentas, nem de cerimoniais. Preces decoradas, sem sentimento, são pouco eficazes.
Mas, a prece não pode ter por efeito mudar os desígnios de Deus, nem derrogar as leis divinas. Entretanto, o espírito que ora encontra sempre alívio, conforto e forças para viver as experiências de que necessita para sua evolução.
A prece é importante para tudo. Ajuda no trabalho. Socorre na família. Serve para apaziguar inimigos, arrefecer adversários e tornar agradáveis pessoas antipáticas.
Ao invés de combater deveríamos orar.
A prece quebra a desarmonia. Fazer uma súplica a Deus pelo bem estar de um inimigo, seria mostra de boa disposição para seguir a Jesus, que pediu que déssemos amor para nossos inimigos.
Segundo Víctor Hugo "Orar é inundar-se de forças poderosas do mundo invisível para atuar com segurança no mundo das formas visíveis".
Menciona esse habitante iluminado do espaço, o chamado efeito bumerangue de nossos atos e pensamentos: as vibrações que emitimos retornam para nós, às vezes com intensidade maior. Vibrações de ódio e desequilíbrio retornam avassaladoras . A prece amorosa retorna calmamente , confortadora .
Precisamos nos educar para o hábito da prece antes de dormir , no lar , no trabalho . Ao trabalhar com amor , ao servir com desvelo, estamos fazendo a vontade do pai. É oração .
Joanna de Ângelis recomenda que seria ótimo se conseguíssemos viver sempre em estado de prece. Seria uma grande reforma intima . imprimir em nosso pensamento teor vibratório permanente de equilíbrio, de paz, de amor, de prece..

Bibliografia
KARDEC, Allan - O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XXVIII, IDE, 185ª. Edição, 1978
Divaldo P Franco/Vítor Hugo - Calvário de libertação. Segunda Parte, capítulo 2. L.E.Alvorada
Editora, 3ªedição. 1988.
Divaldo P. Franco/Joanna de Angelis. Lampadário Espírita
Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho/ Patrícia - Vivendo no Mundo dos Espíritos Cap XIII. Petit Editora e Distribuidora. 6a Reimpressão - 1994.

UENF( Grupo de Estudo da Filosofia Espírita Cristã, da Universidade Estadual do Norte Fluminense ).

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

E DEPOIS?!

Em diversas oportunidades, temo-nos referido ao esforço solidário dos componentes da Instituição Espírita, como prerrogativa de êxito e crescimento de realizações.
De fato, quando predomina o espírito de equipe estruturado, fundamentalmente, na fraternidade e na compreensão, na tolerância e na renúncia, a união de todos presidirá o trabalho progressivo e enobrecedor.
O Grupo, então, caminhará em suas destinações, indene de embaraços e desencontros, personalismos e melindres.
Enfatizamos, desta feita, o funcionamento do Centro Espírita com base na formação de grupos de tarefeiros que se especializem, com tempo e perseverança, nas diversas atividades inerentes aos objetivos precípuos da comunidade religiosa.
A descentralização administrativa proporciona, decerto, o surgimento de novos valores nos domínios da cooperação fraternal.
Alertamos, assim, nossos companheiros de fé quanto à crise iminente das Instituições apoiadas tão-só no devotamento e dedicação de equipe reduzida de operários idealistas, principalmente quando chegam ao extremo de se firmarem sobre um único elemento condutor.
Seja o médium com apostolado no Bem, seja o administrador com fidelidade ao ideal, seja o pregador com exuberância de luz na palavra, seja o líder do serviço social com ampla folha de serviços, jamais o Grupo Espírita deve caminhar sob o comando de um único elemento, ainda que excelente distribuidor de tarefas com os diversos aprendizes do Evangelho, conservados tíbios e inseguros ante o excesso de diretividade.
As surpresas do inevitável, muita vez, têm proporcionado a núcleos bastante operosos, quão prósperos, o definhamento de suas realizações, a paralisação da marcha, o esvaziamento da célula produtiva, ombreando-se com o total despreparo dos que permanecem na retaguarda das comunidades cristãs.
Não devemos favorecer a solução de continuidade em nossas realizações espíritas.
Imprescindível reconhecermos que nem mesmo Jesus se exonerou do concurso de colaboradores prestimosos na divulgação da Boa Nova.
Convocou participantes solidários com a renúncia e o devotamento ao próximo, instituindo o colegiado apostólico que abraçaria, com êxito e fidelidade, os compromissos evangélicos.
Acentuou, junto a cada servidor de perto, tarefas específicas segundo as potencialidades de seus corações.
Em diversas ocasiões, ocupou-se o Mestre em convocar Simão Pedro, Tiago e João a maiores observações e aprendizado, conclamando-os a escutar e entender, ver e sentir para servir com êxito dentre o grupo dos doze.
Paulo, o cooperador póstumo, vislumbrou a Luz Divina, na estrada de Damasco, para, em seguida, ser encaminhado a responsabilidades e testemunhos na comunidade evangélica, ao lado de outros corações não menos enobrecidos no amor. A partir de então, de tempos em tempos, os séculos receberam a visita dos auxiliares de Jesus na obra de defesa e perpetuação de seu Evangelho no mundo.
Observando o precioso exemplo do Mestre por excelência, defendamos as Instituições Espíritas do aniquilamento de suas mais nobres destinações, perante a ausência de seus pilares de responsabilidade e desvelo, convocados, subitamente, ao regresso à Pátria Espiritual.
Muitos dirigentes e diretores de Centros Espíritas têm amargado remorso e arrependimento no retorno ao mundo das realidades essenciais, contemplando, a distância, seus continuadores na Causa desertando, ante os encargos que lhes ficaram, por incapacidade de servir ou por inexperiência na adoção de compromissos maiores junto ao movimento renovador.
Alertemo-nos, assim, preservando nossos núcleos espiritistas da condenação peremptória ao estiolamento ou destruição por falta de cooperadores ciosos de seus encargos.
Tarefeiros do Bem não se improvisam de hora para outra. Surgem ao longo da experiência e participação, sob o apoio afetivo e estimulador da equipe enobrecia no trabalho fiel.
Defender o patrimônio espírita é ação que principia na fraternidade universal para ampliar-se no reconhecimento de que o dono legitimo da obra é Nosso Senhor Jesus-Cristo.
Cada um de nós, no aprendizado eficiente, é simples servidor do Mestre, matriculado na escola da Terra, sob as vistas do Tempo, que, de momento para outro, nos convocará ao retorno à Pátria Verdadeira.
Sem plasmar trabalhadores para a obra erigida agora, que sucederá com ela depois?

GUILLON RIBEIRO

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

CARIDADE

Eu sou o Sol que aquece a Vida, em nome da Vida que criou o Sol.
Sou eu que reverdeço o campo, em beijos cálidos, após a demorada invernia.
Eu sou a força que sustenta as criaturas tombadas, a fim de que se ergam, e as desiludidas, para que recomecem a faina do próprio crescimento.
Eu sou o pão que alimenta os corpos e as almas, impedindo-as de experimentar deperecimento.
Sou eu a música que enternece o revoltado e sou o poema de esperança que canta alegria, onde houver devastação.
Por onde passo, um rastro luminoso fica, vencendo a sombra que cede lugar à claridade libertadora.
Eu sou o medicamento que restaura as energias combalidas e sou o bálsamo que suaviza o ardor das chagas purulentas que levam ao estertor e à alucinação.
Sou eu a gentileza que ouve, pacientemente, a narrativa do sofrimento e nunca se cansa de ser solidária, enquanto a aflição se espraia entre as criaturas.
Eu sou o fermento que leveda a massa e dá forma para assenhorear-se do sabor.
Eu sou a paz que visita a charneca desolada e faz nascer flores que bordam o chavascal, adornando-lhe a paisagem lúgubre.
Eu sou o perfume carreado pela brisa mansa, para aromatizar os seres e o vergel.
Eu sou a consolação que circia palavras de fé aos ouvidos da amargura e soergue aqueles que já não confiam em ninguém, aturdidos pelas frustrações e feridos pelas dores excruciantes.
Eu sou a madrugada que ressuscita todos aqueles que são tidos como mortos ou que estão adormecidos, a fim de que possam voltar ao convívio dos familiares saudosos e em angustias devastadas.
Eu sou a água refrescante que sacia a sede de todas as necessidades e limpa as sugidades da alm deteriorada, preparando-as para os renascimentos felizes.
Eu sou o hálito divino, sustentando a criação e penetrando todas as partículas de que se constitui.
Convido minha irmã, a Fé, para que ofereça resistência ao viajor cansado e ao alente em cada passo, concedendo-lhe combustível, para nunca desistir.
E me apoio na irmã Esperança que possui o encanto de reerguer e amenizar as asperezas das provações.
Quando elas chegam, o prado queimado se renova, porque se me associam, fazendo que arrebentem flores e frutos, onde a morte parecia dominar...
As duas, a Fé e a Esperança, constituem os elementos vitais da minha alma, a fim de que o amor permaneça conduzindo todos os seres.
O Senhor enviou-nos em seu nome, com a missão de lembrar-lhes a presença no mundo, desde quando me usou para que as criaturas que Lhe desafiarem a justiça e a misericórdia, pudessem recomeçar o processo de evolução.
Vinde comigo ao banquete suntuoso da ação contínua do Bem e embriagai-vos de felicidade.

Cáritas
Médium: Divaldo Pereira Franco

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O EVANGELHO NO LAR


PRINCIPAIS FINALIDADES DE "O EVANGELHO NO LAR"

1º) Estudar o Evangelho à Luz da Doutrina Espirita, a qual possibilita compreendê-lo em "espirito e verdade", facilitando, assim, pautar nossas vidas segundo a vontade de Mestre.
2º) Criar em todos os lares, o hábito salutar de reuniões evangélicas, para que os mesmos despertem e acentuem o sentimento de fraternidade que deve existir em cada criatura.
3º) Pelo momento de paz e de compreênsão que ele oferece, unir mais as criaturas, proporcionando-lhes uma vivência mais tranquila.
4º) Tornar o Evangelho melhor compreendido, sentido e exemplificado.
5º) Higienizar o lar pelos nossos pensamentos e sentimentos elevados, permitindo assim, mais fácil influência dos Mensageiros do Bem.
6º) Ampliar o conhecimento literal espiritual do Evangelho, para oferecê-lo, com maior segurança a outras criaturas.
7º) Facilitar no lar ou fora dele, o amparo necessário para enfrentar as dificuldades materiais e espirituais, mantendo, operantes, os princípios da oração e da vigilância.
8º) Elevar o padrão vibratório dos componentes do lar, a fim de que ajudem, com mais eficiência, o Plano Espiritual na obtenção de um mundo melhor.

ROTEIRO PARA A REALIZAÇÃO "O EVANGELHO NO LAR"

1º) Escolher um dia e uma hora da semana em que seja possível a presença de todos os elementos da família, ou da maior parte deles. Observar, rigorosamente, esse dia e essa hora da reunião, para facilitar a assistência espiritual.

2º) Iniciar a reunião com uma preçe, simples e espontânea, em que, mais que as palavras, tenham valor os sentimentos, não devendo, portanto, ser decoradas.

3º) Fazer a leitura, metódica e sequente, de "O Evangelho Segundo o Espiritismo".

4º) Fazer comentários breves sobre o trecho lido, buscando sempre a essência dos sentimentos de Jesus, para a sua aplicação na vida diária. A reunião poderá ser dirigida pelo chefe da casa, ou pela pessoa que tiver maiores conhecimentos doutrinários, a qual deverá incentivar a participação de todos os presentes, colocando as lições ao alcance dos de menor compreensão.

5º) Fazer vibrações pelo lar onde o Evangelho está sendo estudado, para os presentes, seus parentes e amigos.

6º) Relembrar sempre que é dever de todos os que procuram viver o Evangelho, concorrer, sem esmorecimento:
a) para a Paz da terra;
b) para a implantação e a vivencia do Evangelho em todos os lares;
c) para o entendimento fraternal entre todas as Religiões;
d) para a cura ou melhoria de todos os enfêrmos, do corpo ou da alma, minimizando seus sofrimentos e suas vicissitudes;
e) para o incentivo dos trabalhadores do bem e da Verdade;

7º) Fazer a prece de encerramento.

"SUGESTÕES"
1º) Recomenda-se, depois do estudo de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", a leitura de livros, de comentários evangélicos, de autores idôneos.
2º) Fazer vibrações especiais, em casos concretos que preocupem os presentes e a sociedade.
3º) Embora a assitência do Plano Espiritual seja indispensável para o andamento normal de "O Evangelho no Lar", acautelar-se para não transformar a reunião em trabalho mediúnico: a mediunidade e a assistência espiritual devem ser atendidas em Sociedade Espírita idônea.
4º) Evitar comentários em desdouro às religiões ou pessoas, e não manter conversação menos edificante.
5º) Não suspender a prática de "O Evangelho no Lar" em virtude de visitas, passeios adiáveis, ou acontecimentos fúteis.
6º) Orientação para o caso de haver crianças na reunião: As crianças só devem participar de "O Evangelho no Lar" quando tiverem idade ou mentalidade suficientes para acompanhar os trabalhos, sem inquietação ou fadiga. Elas podem e devem colaborar ativamente, segundo sua capacidade, quer nas preces, quer nos comentários.
7º) A duração da reunião deverá ser de trinta minutos, aproximadamente.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

PRECE PELOS DESENCARNADOS HAITIANOS



Senhor! Deus Todo-poderoso! Permiti que vossa misericórdia baixe sobre os Espíritos de nossos irmãos Haitianos, que à vossa presença acabais de chamar. Oxalá possam ser-lhe contadas as provações que ele na terra sofreu, bem como as nossas preces suavizarem ou abreviarem as penas que tenha a sofrer, como espírito. Bons Espíritos que viestes recebê-lo, e vós meu Anjo da Guarda, auxiliai-o a despojar-se da matéria; iluminai sua consciência, para que ele conheça o seu estado e saia da perturbação que acompanha a passagem da vida corporal à vida espiritual; inspirai-lhe o arrependimento de suas faltas e o desejo de as reparar para abreviar o seu adiantamento e poder ascender à mansão dos bem-aventurados.
....Acabais de entrar no mundo dos Espíritos e, contudo, podeis estar aqui presente, podeis ver-nos e ouvir-nos, porque a única diferença que entre nós existe é apenas a do corpo efêmero que deixastes e que em breve, se reduzirá a pó. Abandonastes o grosseiro envoltório que já está sujeito às vicissitudes e leis de transformação e já conservais só o invólucro etéreo e imortal, inacessível aos sofrimentos terrestres. Não viveis a vida do corpo, mas viveis a do Espírito, que é a verdadeira vida - isenta das misérias que afligem a humanidade
Aos vossos olhos dissipou-se o véu que a nós oculta ainda os esplendores da vida do Além; podeis contemplar melhor as maravilhas da criação, ao passo que nós, com dificuldade, nos arrastamos na Terra, presos ao corpo material. Permita Deus que ante vós se desenrole o horizonte do Infinito, para que, em presença de tanta grandeza, possais compreender a futilidade das vaidades e desejos da terra, das ambições e gozos mundanos, de que os homens fazem constituir alegrias.
A morte, à luz das verdades reveladas, é simplesmente uma separação material de curtos momentos. Desde o exílio, onde nos retém ainda a vontade de Deus, e por ela, os deveres a cumprir, nós vos seguiremos com o pensamento, até que nos seja permitido ajudar-nos mutuamente, assim como vós já vos reunistes aos que vos precederam. Vinde visitar os que vos amam e amastes; sustentai-os nas suas provações, velai pelos que vos são caros, protegei-os conforme vosso poder, adoçai-lhes os pesares, firmai seus passos na prática do bem e transmiti-lhes pelo pensamento a certeza de que mais feliz sois agora e de que, um dia, a eles vos reunireis em um melhor planeta.
No mundo para onde evoluistes, todos os sentimentos terrestres devem extinguir-se. Esforçai-vos, por interesse de vossa felicidade futura, pra que o mal vos não seja acessível e, para que Deus vos possa perdoar, perdoai vós, sinceramente, aos que nos ofenderam, assim como eles vos perdoam.

domingo, 17 de janeiro de 2010

CARNAVAL - UMA FALSA ALEGRIA


Entre o Espiritismo e o carnaval não existem barreiras intransponíveis, mas, sim, a possibilidade abençoada de a criatura exercitar uma de suas prioridades existenciais, isto é, saber escolher o que mais lhe convém, o que realmente priorizar como verdadeira diversão.
Podemos, neste ensejo, buscar a palavra de Paulo de Tarso, quando ele afirmou de forma a não deixar dúvidas sobre a questão aqui enfocada: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém” (I Cor.,10: 23).
As “alegrias” experimentadas nos dias de carnaval costumam deixar resíduos morais nocivos na alma, tornando-os traumáticos, permanentes, marcantes. A história desta festividade mostra as sobras da amargura, da tristeza, dos aborrecimentos, dos desajustes familiares, dos desequilíbrios financeiros, das violências de todos os tipos, dos casos e mais casos das gestações indesejáveis, entre outras cruéis e dolorosas situações deixadas como rastros dessa mascarada, mentirosa alegria. Os tempos de as famílias inocentemente sentarem-se nas calçadas para ver os blocos passarem ficou na saudade. Em substituição, surgiu não só a necessidade cada vez maior de uma comercialização insaciável, com lucros exorbitantes, como também o extravasamento sempre audacioso do instinto sexual, da sensualidade, tema este largamente trabalhado com fins comerciais, tanto interna quanto externamente.
Vale ressaltar, na oportunidade, que o homem é o mesmo, carregando dentro de si o desejo do prazer genesíaco como objetivo a ser alcançado na vida.
O carnaval de hoje destrói a saúde física e moral, desnatura a pureza dos sentimentos nobres e impede maior expansão e expressão da caridade.
Nenhum Espírito que já desfrute do verdadeiro equilíbrio de sentimentos e emoções e logicamente do bom senso, condições estas que presidem o destino das criaturas, pode escolher, como alegria, a loucura do carnaval que adormece o ser, em detrimento daquelas outras formas de alegria, as quais levam as pessoas ao deleite de um bem estar espiritual, e que podem ser assim enumeradas: a leitura de uma página doutrinária espírita; a convivência e conversação com pessoas que aspiram a absorção dos valores espirituais, o passeio no campo ou na praia, enfim, tudo que tenha como cenário de fundo a Natureza, que expressa o canto celeste da Vida em sua real dimensão – a espiritual.
Dentro da atualidade tecnológica, quando novos conhecimentos felicitam a mentalidade humana, falta a compreensão precisa do que seja alegria, felicidade, bem-estar moral/espiritual. É exatamente o Espiritismo que procura descerrar as belezas da vida do espírito e os objetivos sagrados da reencarnação, direcionando o homem para sua realidade de Espírito reencarnado, aprendendo a não nos reincidir mesmos erros do passado.
Nos dias atuais, mais ainda nos dos festejos carnavalescos, o que se presencia é a licenciosidade campeando assustadoramente; são momentos danosos que afetam o moral, fazendo com que o ser humano esqueça as inapreciáveis oportunidades de progresso espiritual.
O que mais nos intranqüiliza e constrange é saber que há, nesses momentos de indisciplina sentimental – os dias de carnaval –, toda uma influenciação das forças das trevas espirituais nos corações das pessoas desassisadas, levando-as a ter que reparar, através de várias reencarnações, alguns instantes de prazer ilusório.
Enquanto tais pessoas se entregam a esses “prazeres” provocadores de desgastes físicos e morais, superlotando os salões ricamente decorados, os miseráveis da vida, de estômagos vazios e corações sedentos de amor, multiplicam-se nas ruas e estendem suas mãos súplices à caridade.
São cegos, enfermos, crianças abandonadas, mães aflitas e sofredoras que desfilam ao lado dos mascarados da pseudo-alegria.
Cada ano mais e mais contribuições abarrotam os cofres dos que lograram materializar essas festas.
Que nos preocupemos com os problemas nobres da vida, porque só assim poderemos transformar o supérfluo gasto nesses fugidios folguedos na migalha abençoada capaz de suprir as reais necessidades dos mais carentes.
Enquanto houver um mendigo abandonado junto aos exuberantes gastos com o carnaval, somente se poderá registrar que continuamos passando a nós mesmos um eloqüente atestado da nossa miséria moral.
Terminamos estas singelas considerações sobre a falsa alegria que o carnaval propicia, lembrando, Humberto de Campos em Novas Mensagens (Ed. FEB), quando afirmou:
“Os três dias de Momo são integralmente destinados ao levantamento das máscaras com que todo sujeito sai à rua nos demais dias do ano”.
 
Reformador Fevereiro 2005.Pagina 30