sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O IDIOTA

ENTRE AS DOENÇAS MENTAIS avultam, pela sua gravidade, as oligofrenias - enfermidades devidas a lesões do cérebro e caracterizadas por graus diversos de deficiência mental. Os mais leves são representados pelos casos de simples debilidade mental; os graus médios - pelos de imbecilidade; e o máximo grau é representado pelos casos graves de idiotia.
Cabem dentro dessa classificação geral, constituindo formas clínicas especiais, os casos de mongolismo e de cretinismo, em que intervêm causas endócrinas ligadas a perturbações das glândulas pituitária e tireóide. Final­mente, há ainda a idiotia amaurótica, em que, num supremo requinte de mi­séria física e mental, ao déficit da mente vem juntar-se a cegueira ou amaurose.
A idiotia é, pois, o grau máximo de deficiência mental e realiza, em patologia da mente, aquilo que se poderia designar pela palavra amência (falta da mente). Enquanto o louco ou demente levou uma boa parte da sua vida em atividade mental normal e equilibrada, somente mais tarde, na mocidade, na. maturidade ou mesmo na velhice, manifestando-se o desequilíbrio - o idiota, ao contrário, nunca teve atividade mental normal, pois já nasceu com o tremendo déficit que caracteriza o oligofrênico grave, ou adquiriu-o muito cedo, nos primeiros meses ou primeiros anos de vida, por traumatismo ou infecção, encefalite ou heredo-sífilis, ou por outras causas que, lesando grave e irremissivelmente o cérebro, comprometeram, no próprio instrumento da sua manifestação, o desenvolvimento da inteligência,, da afetividade e até da motilidade.
Os idiotas nada entendem e, por isso, nada aprendem. Não aprendem a escrever nem a falar, .isto é, não adquirem o maravilhoso instrumento da manifestação do Espírito, que é a linguagem, quer para fazer-se entender, quer para entender os semelhantes. Seus sentimentos não podem manifestar-se adequadamente, dando, mesmo, a impressão de que nem existem. Pouco se movimentam e, se o fazem, seus movi­mentos são desconexos, desordenados, ineficientes para uma locomoção normal. Se tentam falar, emitem apenas alguns sons guturais, ininteligíveis. São almas que não brilham, cuja inteligência não pode resplandecer, sem lampejos de razão ou de raciocínio. Não possuem autodeterminação e a sua inutilidade social é completa.
Pobres idiotas! Que destino tão trágico vos colheu em suas malhas? Por que existis, já que a Divina Bondade existe? Como se explica a vossa desventurada existência, totalmente destituída de luz?
— Só o Espiritismo é capaz de responder a estas angustiosas perguntas que brotam natural e espontaneamente da consciência de toda criatura sensível e racional. E a resposta que o Espiritismo dá é esta: O idiota é um Espírito em expiação dolorosa num corpo deficiente, cujo órgão mais nobre, aquele que coordena e governa as funções corporais, ao mesmo tempo que serve de instrumento apropriado ao exercício de todas as funções psicológicas — o cérebro —, é imperfeito, inacabado, impo­tente para receber e transmitir os estímulos de que resulta, inteira, a vida psíquica. É o antigo sábio que empregou sua ciência para o mal, para enaltecer o seu orgulho e ofender o seu Criador; é o artista da pena ou do pincel, ou do som, que empregou o seu talento, ou quiçá o seu gênio, somente para perverter e alimentar as paixões inferiores da humanidade materializada; é o antigo esplêndido tribuno, que soube empregar a sua eloqüência somente para liderar movimentos de subversão e de maldade.
A existência, no mundo, do idiota, existindo um Deus todo bondade e todo justiça, é um sério argumento a opor a todos que, crendo em Deus e no Espírito, consideram herético e inadmissível o princípio da reencarnação e das vidas sucessivas, pois aceitar uma vida de escuridão e trevas como única imposta à alma que habita aquele disforme e es­torvado corpo é, “ipso facto”, conceituar Deus como a expressão mesma da parcialidade e da injustiça, do sadismo e da maldade superlativa.
Ninguém há mais desgraçado que o idiota, pois ele tem uma alma e é como se não a tivesse; é, em essência, um Espírito, mas vive como se não o fosse; entre homens dotados de inteligência e razão e sentimentos, capazes de ações amplas e livres, vive sem tudo isso, como um ser inferior; um, animal biologicamente superior, é certo, mas psicologicamente da mais baixa e desconhecida espécie, bruto, bronco, quase inerte.
O idiota chegou a ser comparado pelos psiquiatras a um vegetal! E, de fato, ele quase só tem vida vegetativa! Oh! esse quadro, representando a só e única existência de uma alma, criada por Deus, não se coaduna com a Suprema Bondade e só por si seria a negação mais gritante da própria existência da Divindade! Mas não! O idiota não vive pela primeira vez neste mundo! É um Espírito em angustioso estágio expiatório, redimindo-se no calabouço tenebroso do seu corpo, ao mesmo tempo que aprendendo a lição tremenda de que acima do nosso mísero poder há um poder mais alto, que todo poder e liberdade do homem é outorga divina, e que importa à criatura saber como usar a liberdade plena que lhe é concedida pelo Criador, pois que, se abusivo e mau for esse uso, um dia vem em que o dedo de Deus se levanta sobre a orgulhosa cabeça e sua voz sentencia: Basta! Começa, então, a trajetória forçada de escravidão e de opróbrio, de um Espírito criado para ser livre e livremente manifestar as luminosas faculdades e poderes de que foi dotado: depois de ser luz passa a viver em trevas; sendo já águia para altear-se na amplidão, é forçado a rastejar como os répteis e a movimentar-se apenas na viscosa lentidão e inconsciência dos vermes!
Terrível é, vê-se, a sorte futura dos que mal empregam os divinos dons da inteligência, o raciocínio, a palavra, a pena, a ciência, a arte, pois que, abroquelando-se no orgulho e na vaidade, na perversão e na maldade, insensibilizando e enegrecendo a própria alma e as de seus semelhantes, preparam e alicerçam a horrenda escravidão da mas­morra que representa o pobre corpo de um idiota!

Fonte: Reformador nº 4 – abril, 1972

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