quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O PROGRESSO NA IMORTALIDADE


Embora a humanidade avance pouco a pouco na estrada do progresso, pode-se dizer que a imensa maioria de seus membros marcha através da vida como em meio de uma noite obscura, ignorando de onde vem, não sabendo para onde vai, não tendo jamais sonhado com o objetivo real da existência.
Espessas trevas dominam a razão humana; os raios destes poderosos focos, que são a Justiça e a Verdade, só chegam a ela, pálidos, enfraquecidos, e insuficientes para aclarar os caminhos sinuosos por onde as inúmeras legiões seguem em marcha, para fazer brilhar a seus olhos o objetivo ideal e distante.
Ignorante de seus destinos, indeciso entre o preconceito e o erro, o homem maldiz por vezes a vida. Desfalecendo ao peso do seu fardo, lança sobre seus semelhantes a causa das provas que ele sofre e engendra, muitas vezes por sua imprevidência. Revoltado contra Deus, que ele acusa de injusto, em sua loucura e seu desespero chega mesmo, algumas vezes, a desertar do combate salutar, da luta que só pode fortificar sua alma, aclarar seu julgamento, prepará-lo para trabalhos de uma ordem mais elevada.
Por que é assim? Por que o homem desce frágil e desarmado na grande arena onde se trava, sem tréguas e sem descanso, a eterna e gigantesca batalha? É que este globo terrestre é simplesmente um dos degraus inferiores da escala dos mundos e nele moram apenas espíritos novos, isto é, almas nascidas recentemente com a razão.
A matéria reina soberana em nosso mundo e curva sob seu jugo até os melhores dentre nós; limita nossas faculdades, paralisa nossos anseios para o bem e nossas aspirações para o ideal.
Assim, para discernir o porquê da vida, para conhecer sua razão de ser, para entrever a lei suprema que rege as almas e os mundos é preciso saber libertar-se dessas pesadas influências, liberar-se das preocupações de ordem material, de todas essas coisas passageiras e volúveis que acobertam nosso espírito, dificultando nossos julgamentos. Somente nos elevando algumas vezes pelo pensamento, acima dos próprios
horizontes da vida, fazendo abstração do tempo e do espaço, e planando, de certa forma, acima dos pormenores da existência, é que perceberemos a verdade.
Com um esforço de vontade, abandonemos por um instante a Terra e subamos essas encostas sublimes. Do alto dos cumes intelectuais, se desenrolará, para nós, o imenso panorama dos tempos sem fim e dos espaços sem limite. Do mesmo modo que o soldado perdido na luta só vê confusão em seu derredor, enquanto que o general, cujo olhar alcança todas as peripécias da batalha, calcula e prevê seus resultados; da mesma forma que o viajante, perdido nas dobras do terreno, subindo a montanha, pode vê-las se fundir numa planície grandiosa, assim a alma humana, dos cumes onde ela plana, longe dos ruídos da Terra, longe dos recantos obscuros, descobre a harmonia universal. O que embaixo lhe parecia confuso, inexplicável e injusto, visto do alto, se liga e se aclara.
As sinuosidades da existência se endireitam. Tudo se une, tudo se encadeia. Ao espírito deslumbrado aparece a ordem majestosa que regula o curso das existências e a marcha dos universos.
Dessas alturas iluminadas, a vida não é mais aos nossos olhos como aos da multidão, a busca vã de satisfações efêmeras, porém um meio de aperfeiçoamento intelectual, de elevação moral, uma escola onde se aprende a doçura, a paciência e o dever.
Esta vida, para ser eficaz, não pode ser isolada. Fora de seus limites, além do nascimento e da morte, vemos, numa espécie de penumbra, desenrolar-se uma multidão de existências através das quais, à custa do trabalho e do sofrimento, conquistamos, peça por peça, pedaço por pedaço, o pouco de saber e de qualidade que possuímos e pelos quais também conquistaremos o que nos falta: uma razão perfeita, uma ciência sem limites e um amor infinito por tudo quanto vive.
A imortalidade, semelhante a uma cadeia sem fim, se desenrola para cada um de nós na imensidade dos tempos. Cada existência é um elo que se liga para trás e para frente, em uma cadeia distinta, a uma vida diferente, porém solidária com as outras.
O futuro é a conseqüência do passado e, de degrau em degrau, o ser se eleva e cresce. Artífice de seus próprios destinos, o homem, livre e responsável, escolhe seu caminho, e se essa rota é difícil, as quedas que terá, os calhaus e os espinhos que irão dilacerá-lo, terão como efeito desenvolver sua experiência e fortificar sua razão nascente.
A lei suprema do mundo é, portanto, o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, fonte das perfeições. Das profundezas do abismo, das mais rudimentares formas da vida, por uma rota infinita e com o auxílio de transformações sem conta, nós nos aproximamos dele. No fundo de cada alma o Eterno colocou o germe de todas as faculdades e de todas as potências; cabe-nos fazê-las eclodir por nossos esforços e por nossas lutas!
Encarado por esses aspectos novos, nosso progresso, nossa vindoura felicidade é obra nossa e a graça não tem mais razão de ser, pois a Justiça brilha afinal sobre o mundo, porque se todos lutamos e sofremos, todos seremos salvos.
Igualmente se revela aqui, em toda a sua grandeza, o papel da dor e sua utilidade para o progresso dos seres. Cada globo que rola no espaço é uma vasta oficina onde a substância das almas é incessantemente trabalhada.
Assim como o grosseiro mineral, sob a ação do fogo e das águas, se transforma, pouco a pouco, em um puro metal, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor, se transforma e se fortifica. É no meio das provas que se forjam os grandes caracteres. A dor é a suprema purificação, é a fornalha onde se fundem todas as escórias impuras que corrompem a alma: o orgulho, o egoísmo e a indiferença.
É a única escola onde se afinam as sensações delicadas, onde se aprendem a piedade e a resignação estóica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação nos desligam por antecipação dessa espessa ganga e nos preparam para novas etapas e para uma ascensão mais alta. Assim a alma se eleva na escalada magnífica dos mundos e percorre o campo sem limites dos espaços e dos tempos.
A cada conquista sobre as paixões, a cada passo à frente, engrandecida e purificada, ela vê seus horizontes se alargarem, ela percebe, cada vez mais distintamente, a grande harmonia das leis e das coisas e nela participa de uma forma bem estreita e mais efetiva.
Então para ela o tempo se apaga e os séculos se escoam como segundos. Unida a suas irmãs, companheiras da erraticidade, ela prossegue sua marcha eterna no seio de uma luz cada vez maior.
De nossas buscas e de nossas meditações se destaca assim uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Nós vivemos antes do nascimento e viveremos depois da morte e esta lei nos dá a chave de problemas até agora insolúveis, pois somente ela explica a desigualdade das condições e a infinita variedade dos caracteres e das aptidões.
O tempo e o trabalho são os dois elementos de nosso progresso e a lei da reencarnação mostra, de uma forma brilhante, a soberana justiça que reina sobre todos os seres.
O déspota renasce escravo; a mulher altiva e vaidosa por sua beleza, tomará um corpo enfermo e sofredor; o preguiçoso voltará mercenário, curvado sob uma tarefa ingrata e aquele que fez sofrer, por seu turno, sofrerá. Assim, o inferno está em torno de nós e se oculta nas dobras ignoradas da alma culpada, na qual só a expiação pode fazer cessar as dores.
Entretanto, dirão, se outras vidas precederam o nascimento, por que perdemos sua lembrança e como poderemos resgatar com sucesso faltas esquecidas?
A lembrança! Ela não seria mais que um terrível grilhão atado aos nossos pés! Mal saída das idades da fúria, escapando, ontem, da bestialidade feroz, qual deve ser esse passado de cada um de nós? Pelas etapas vencidas, quantas lágrimas temos feito correr e quanto sangue temos derramado! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral essa longa perspectiva de faltas para um pobre espírito já débil e cambaleante. Depois, a lembrança de nosso próprio passado estaria ligada, de uma forma íntima, à lembrança do passado de outras pessoas. Que desagradável situação para o culpado, marcado assim com o ferro em brasa pela eternidade!
E os ódios, os erros se perpetuariam pela mesma razão, criando divisões profundas e eternas no seio dessa humanidade já tão sacrificada. Sim, Deus fez bem em apagar de nossos frágeis cérebros a lembrança de um passado perigoso. Após termos bebido as águas do Léthé(1), renascemos numa nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais ampla faz espantar os fantasmas que perturbaram outrora nosso espírito.
Se deixamos sob o esquecimento as mais perigosas lembranças, carregamos, pelo menos, conosco o fruto e as conseqüências dos trabalhos recentemente conquistados, isto é, uma consciência, um julgamento e um caráter talhados por nós próprios. O que chamamos desigualdade não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas passadas nos legam.

(Léon Denis - Obra: O Progresso).


(1) Léthé ou Lete = (mitologia grega) - Um dos rios dos infernos, cujo nome significa esquecimento. Suas águas levam o esquecimento às almas dos mortos. (Nota do compilador).

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