quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

PARA QUE EDUCAR?

A educação constitui a base senão todo o fundamento do progresso e desenvolvimento moral de um povo ou nação. Infelizmente, as sociedades humanas não têm sabido valorizar o papel da educação. Na maioria das nações, a educação é limitada à escola instrucional, cingindo-se a um papel mais informativo. Apenas a História, aqui ou ali, oferece-nos um testemunho inequívoco de povos que souberam valorizar o processo educacional e conseguiram colher dele indeléveis resultados. Como exemplo, não devemos deixar de mencionar o chamado século de Péricles, na Grécia ateniense, e o século de Augusto, em Roma, ou a velha China de tão sadio e puro misticismo na alma de Lao-Tseu, Confúcio, Mêncio e tantos outros.
Claro que não estamos ignorando outras grandes civilizações do passado, é que o nosso propósito, o móvel do presente trabalho é a educação como fator de desenvolvimento e de espiritualização, ainda que, na maioria dos casos, não tenha ti­do sustentação por mais de um século, mas que é o bastante para garantir a veracidade de nossa tese. Sabemos o que era Roma quando Caio Júlio César assumiu o poder e o que este imperador teve de enfrentar e sofrer para manter a sua dignidade. Mas deixou a sua marca para todo o sempre. Já a Grécia foi mais feliz. Não houve apenas Péricles. A própria índole do povo heleno favorecia a presença de homens extraordinários que sabiam respeitar o princípio da aretê, não obstante tratar-se de povo adorador de deuses dos pés de barro, como mais tarde acentuaria Sócrates.
Nosso propósito, já o disse­mos, é salientar o papel da educação que, conforme consta do dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, é “processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social”. E quando acrescentamos à ação de educar o atributo espiritual, tal conceituação assume, de imediato, uma profundidade bem maior, porque fica acrescida, também, do desenvolvi­mento da capacidade espiritual do ser.
O próprio conceito — não dizemos definição — assegura-nos que educação demanda um longo processo de realização. Por conseguinte, ela não se adquire de um salto, não se aprende numa aula, não se desenvolve durante uma palestra nem sequer incute-se num ser­mão, conforme tantas vezes se esforçou por demonstrar o velho Vieira. Educação é também um processo que se estabelece através de múltiplos passos, técnicas, princípios e muita dedicação, onde entram, como condições principais, a motivação e a vontade. A motivação pode ser função do educador. Mas a vontade, que pode ser salientada ou incentivada pela motivação, esta precisa ser cultivada na alma do educando. Se ele não estiver convencido do valor e da importância da educação, nada fará por desenvolvê-la em si mesmo.
A conceituação fala ainda em desenvolvimento da capacidade, o que compreende exercitação. Qualquer capacidade só se desenvolve, no indivíduo, através do exercício, que constitui o fundamento ou alicerce do hábito, que para muitos é uma nova natureza no indivíduo. Convém, por isso mesmo, não alimentar ilusões a respeito dos hábitos antes de conhecer bem a sua força e poder, bem como saber distinguir entre um hábito positivo e um hábito negativo. No processo educacional, quando o educando atinge o nível da auto percepção, ele passa a se firmar e robustecer-se na distinção dos hábitos, reforçando aqueles que são bons e procurando esquecer aqueles que a cons­ciência desaprova. E a partir daí que o educando se inicia num patamar mais adiantado do processo: o conhecimento de si mesmo. Paulo, o Apóstolo dos gentios, conheceu a importância desse estágio quando afirmou: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém” (1 Cor., 6:12).
Diz ainda a conceituação de educação que sua meta é a melhor integração individual e social do educando. Isto significa bem-estar, felicidade, alegria e condiz com o pensamento do Prof. Huberto Rohden em seu “Educação do Homem Integral”:
“A felicidade não consiste em que o homem goze aqui todos os prazeres — a felicidade consiste em que o homem viva em perfeita harmonia com as leis cósmicas, que regem o Uni­verso inteiro e também a vida do homem.” (*)
Realmente, o homem de nos­sos dias não é feliz, seu bem­ estar não é eficaz e sua alegria é um simulacro porque ele não se educou para a vida em sociedade, que requer abnegação e altruísmo. Preparou-se para competir e a base da com­petição é a escassez, cujas conseqüências são frustrações em cadeia.
Em verdade, nós completamos o conceito de educação encontrado no dicionário do Prof. Aurélio Buarque ao acrescentar o atributo espiritual, isto é, “visando à sua melhor integração individual, social e espiritual”. Realmente, nenhum homem deve desvincular-se de sua condição espiritual. Enquanto se mantiver subordinado à crença de que após a morte física nada mais lhe restará, o homem continuará egoísta e infeliz, portanto em oposição a si mesmo. E, conseqüentemente, um desajustado.
Para que educar? ou para que educarmo-nos? E possível que alguém faça a si mesmo uma ou outra indagação. E quando esse alguém é espiritista, isto é, estuda e vive o Espiritismo, ele tem resposta para as duas indagações por­quanto educa e educa-se. Se é pai, nunca se descura da educação dos filhos que o Pai verdadeiro colocou sob a sua tutela, nem se olvida quanto à necessidade da própria educação. E nesse sentido que Jesus assim se expressou, no Monte: “Sede vós pois perfeitos como é per­feito o vosso Pai que está nos Céus”, consoante as anotações cuidadosas de Mateus, no fecho do Capítulo Quinto. Não consta que o Mestre Jesus era algum momento de seu apostolado haja empregado o termo educação, todavia é expressiva a maneira como encerra o Segundo Capítulo do Sermão da Montanha: “Sede vós pois per­feitos...” Ora, ninguém será capaz de atingir a perfeição sem muito esforço desenvolvi­do, sem dedicação ao Bem, sem muita abnegação, sem muita violência sobre si mesmo e com absoluta perseverança. A perseverança é aquele estado interior de quem decidiu escalar o infinito e não permite que nada modifique a sua disposição. Dentre muitos exemplos notáveis na história do Evangelho, pelo menos dois possuem características intraduzíveis: a conversão de Saulo e a reforma íntima de Maria Madalena. Saulo rompe de vez com todo o manancial de suas velhas crenças. Não discute com Jesus nem lhe pede explicação. Sua postura foi a de quem entendeu tudo, e deixa escapar da mente através dos lábios uma autêntica indagação de humildade: “Senhor, que queres que eu faça?” (Atos, 9:6). Quanto a Maria Madalena, uma mulher do mundo, uma filha do chamado pecado, não sabia quem era Jesus, mas recebera o desafio de tentá-lo, de seduzi-lo como a tantos outros fizera. Mas não lhe suporta o olhar pleno de ternura, como nunca conhecera em nenhum outro momento de sua tumultuada existência. E Maria capitula, e muda, e se transforma, e despe-se para sempre de tudo, do apogeu de luxos e de vícios, de luxúria e de paixões.
Ao acrescentarmos ao conceito de educação o atributo espiritual, ou melhor, o desenvolvimento da capacidade espiritual, estamos colocando a educação no âmbito do quase inimaginável. Isto significa que ao desenvolver a capacidade espiritual, estará atingindo o educando níveis extraordinários de sua evolução, começando, em primeiro lugar, pelo desenvolvimento da capa­cidade volitiva, conquistando poder decisório e perseverança: em segundo lugar, desenvolve o domínio do próprio organismo e o comando da saúde; vem a seguir o domínio do Bem sobre o mal, e a partir daí nada mais realizará sem o exa­me antecipado da conseqüência de seus atos; segue-se a conquista do controle da mente e do pensamento, já passando a desenvolver uma certa autoridade sobre os Espíritos pequeninos ou atrasados.
É indispensável não esquecer a importância do desenvolvimento da humildade, vacina especial contra os germens da vaidade e do personalismo.
Não é por acaso que o Espiritismo está no Mundo. Ele atende ao cumprimento de uma promessa. O momento é propício. E não podemos perder tempo uma vez que o tempo urge. Eduquemo- nos, pois, porquanto educar, à luz do Espiritismo, é agilizar o processo de nossa reforma interior com vistas à perfeição e conquista dos valores essenciais do Espírito que se liberta das cadeias de si mesmo para atender àquele mandamento contido no Versículo 12 do Capítulo 15 de João:

“O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como vos amei.”

Inaldo Lacerda Lima
Fonte: Reformador – agosto, 1989

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