quinta-feira, 4 de março de 2010

JESUS PERANTE A HISTÓRIA

Como se sabe, a vinda de Jesus a este velho planeta de expiações e provas, para o cumprimento de sua missão radiosa, foi anunciada pelos grandes profetas do Antigo Testamento. A Alta Espiritualidade não fez segredo disso, e tudo foi predito até com precisão de detalhes.
Miquéias assinala o lugar onde ele devia nascer. Zacarias vaticina a sua entrada festiva em Jerusalém montado num jumento e o seqüestro por trinta dinheiros (era o preço de um escravo ... ). Davi antevê a flagelação e o martirológio no madeiro infamante. Isaías prediz a sua crucificação entre dois ladrões. O fel e o vinagre, a lançada no peito, a túnica e os dados, as zombarias e o escárnio e, por último, a rogativa ao Pai pelos que não sabem o que fazem - tudo prenunciado e registrado no hebraico. Como se vê, as profecias foram cumpridas religiosamente.
A título de curiosidade, recordemos que o nascimento, a vida e os milagres de Jesus foram anunciados por uma das mais famosas sibilas da Antigüidade: Sambeth. Ela possuía o dom da profecia a um grau elevadíssimo. Deixou vinte e quatro livros de profecias e diversos de seus oráculos foram referidos por Santo Agostinho.
Lancemos agora um olhar sobre a vida pública de Jesus. Além da autoridade dos Evangelhos, quais os documentos históricos que tratam da vida do Divino Mestre? Rigorosamente nenhum. Allan Kardec exclui qualquer documento fora dos Evangelhos: "Nenhum historiador profano, seu contemporâneo, havendo falado a seu respeito, nenhum documento mais existe, além dos Evangelhos, sobre a sua vida e a sua doutrina."
A famigerada passagem de Flávio Josefo na "Antiguidades Judaicas”, citada por Eusébio, foi Lançado à conta de uma interpolação. Maurice Goguel considera que o silêncio de Josefo não foi o silêncio da ignorância, e sim da prudência, e do medo. Teria havido naquela época de tirania uma conspiração de silêncio em torno de Jesus, como observou Gaston Boissier?
Alberto Nin Frias ilustra o argumento de gênios ignorados na sua época com o exemplo de Shakespeare no florescente reinado de Isabel. Ele .passava tão obscuramente que até hoje há quem duvide tenha sido, efetivamente, o autor do 'Hamlet" e outros dramas imortais. Chegou-se a ponto de atribuir a paternidade de suas obras a lorde Bacon, o filósofo de "Novum Organum". Ainda se discute a existência de Homero. Refere o visconde de Benalcanfor que "Valeio Paterculo, escrevendo a história de Roma alguns anos depois da morte de Hordoio, cita - como os três máximos poetas do seu tempo - Virgílio, TibuIlo e Ovídio. Nem uma palavra sequer a respeito de Horácio! Pobre poeta, tão injustamente olvidado, embora a posteridade lhe vingasse a fama imorredoira!'
O original padre jesuíta Jean Hardouin (1646-1729), uma das criaturas mais sábias do seu tempo, "o mais paradoxal dos homens”, negava a pés juntos a autenticidade de quase todas as obras gregas e latinas, a começar pela "Eneida”. Segundo ele, elas haviam sido escritas pelos monges beneditinos da Idade Média, o que levou Boileau a comentar, ironicamente, que muito gostaria encontrar-se com irmão Virgílio e irmão Horácio...
Creio que o padre Hardouin não falava a sério. Ele apenas se comprazia em sustentar as opiniões mais estapafúrdias. E certamente causava impressão. Impressionava porque era senhor de respeitável erudição.
Mas voltemos a Jesus. Falávamos ainda agora da pobreza franciscana de documentos autênticos sobre Jesus. Pois é muito natural que assim sei . a, quando se sabe que a História tem isto de singular: não registra os acontecimentos transcendentais. A chamada memória da humanidade sofre desses eclipses. Fomos encontrar no filósofo russo Chestov ("As revelações da morte") o esclarecimento que procurávamos sobre essa falência mnemônica da História. Diz ele: "O que justamente caracteriza a história é a arte admirável, quase humana e consciente com que apaga os rastros de tudo quanto no mundo sobrevém de estranho, de extraordinário" (os destaques são nossos). E complementa: "O objetivo principal da história consiste em restabelecer o passado sob o aspecto de uma série de acontecimentos ligados entre si pela causalidade. Sócrates, para os historiadores, é apenas um “homem comum”. O que havia nele de especificamente "socrático', não existe aos olhos do historiador.'
Quanto a Jesus, é fácil concluir: se os historiadores de seu tempo falassem nele, Jesus não seria Jesus. Não seria o autor destas frases cintilantes que revelam a natureza de s» missão sublime: 'Todo poder me foi dado no Céu e na Terra; "Eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou"; "Quem crê em mim tem a vida eterna"; "Eu sou a luz do mundo”; “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai sendo por mim”; “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado”.
E se disséssemos que a maior prova da presença de Jesus neste mundo reside, precisamente, na sua ausência da História ?

REFORMADOR, FEVEREIRO, 1979

Um comentário: