segunda-feira, 22 de março de 2010

O ESCRAVO

Gostaria de deixar uma mensagem aos homens do mundo, onde vivi, outrora, sob difíceis condições. Carreguei um pesado fardo, o qual hoje bendigo, que limitou a minha ânsia de poder e de prazeres fugazes.

Fui escravo nos trópicos, mais precisamente em terras brasileiras. Sob a veste física negra, segui vivo por longos 70 anos, quando, chegar até esta idade, era algo raro.

Trabalhei em canaviais, cujas moendas eram movidas pela força do gado. O caldo da cana era transformado no açúcar, que era o ouro da então província portuguesa. Permaneci por longo tempo lavrando a terra fértil, a regá-la com o meu suor.

Dura disciplina marcou a minha vida, que resumia-se a despertar do sono para trabalhar, alimentar-me mal e dormir poucas horas, para, em seguida, tornar ao trabalho. A senzala apresentava péssimas condições de higiene e suas acomodações para o repouso eram desprezíveis. Por tudo isso, o ódio era sentimento comum, que mantinha-se contido pelas próprias limitações a que estávamos submetidos. Qualquer palavra ou movimento que denunciasse a insatisfação que ia no nosso íntimo, resultava em castigo imediato, quase sempre através da chibata e do pelourinho.

Desta forma, minha mocidade se esvaiu e, junto com ela, as boas lembranças da terra natal, na mãe África, donde fui levado quando criança ainda. Parentes meus, como pai e mãe, há muito perdera, pois a expectativa de vida naquela época era de 30 a 40 anos no máximo, normalmente. Eu, já estando nesta faixa etária, não esperava mais nada da vida. Acolhia a idéia da morte com certa alegria, porque, intuitivamente, percebia que ela consistia numa espécie de libertação. Além disso, o meu povo de origem acreditava que os espíritos dos ancestrais falecidos, ainda vivessem numa outra forma, a espreitar seus descendentes sobre a terra. Portanto, eu concluía que estava prestes a me juntar à legião de espíritos que me antecederam na morte física.

Contudo, a minha vida material prolongou-se além do esperado. Até mesmo o senhor do engenho que me viu chegar àquelas plagas, já havia deixado o mundo. Assim, não fui mais aproveitado nos trabalhos sob o sol, permanecendo na senzala, prestando serviços menores aos escravos mais jovens, ou, ainda, realizando pequenas benfeitorias na casa-grande.

Eu era tido como um negro bondoso, mas, na verdade, era apenas um ser resignado.

Fazia as coisas com serenidade porque tinha a esperança de ser feliz no mundo dos espíritos, o que era corroborado por uma sensibilidade especial que desenvolvera na maturidade. Esta sensibilidade me permitia vislumbrar o outro lado da vida, enxergando antigos companheiros de lida, já falecidos, a sorrir-me ou simplesmente a fitar-me.

Quando a morte veio recolher-me ao seu regaço, fui em paz, mas surpreendi-me com tanta festa que fizeram a minha humilde pessoa, no plano espiritual. Fiquei sabendo que em outra época eu havia sido escravagista, quando apresentava-me num corpo de pele branca e traços faciais aquilinos. Pude rememorar que havia sido frio como um abutre e esperto como uma serpente. Barganhava seres humanos como se fossem simples peças de comércio. Nada valiam além do que algumas moedas de cobre, prata ou ouro. Separei famílias e destruí vidas para usufruir de um bem estar que foi passageiro e ilusório, pois minha vida acabou sendo

ceifada por um infeliz escravo, que tentava fugir de minha propriedade.

Naquela oportunidade, revoltei-me pelo desencarne, para mim prematuro. Por isso, não absorvi praticamente nada da lição que me era dada pelas forças superiores. Assim, necessitei voltar como escravo, sob condições muito difíceis, para compreender o que é ter a sua vida dirigida por vontade alheia. Sofri, mas agora estava recebendo a dor de forma diferente. A revolta perdeu a força em meu coração e a longa estadia na Terra permitiu-me refletir e solidarizar-me com meus irmãos de jornada e de infortúnio.

Por isso, hoje, agradeço ao Pai a grande oportunidade que tive de evoluir espiritualmente, ao ter minha liberdade tolhida. Ainda envergo no espaço astral a roupagem negra, que muito respeito e estimo como símbolo da minha libertação espiritual. Espero, em Cristo, que meu relato seja útil aos irmãos do plano físico e despeço-me deixando os melhores votos de boa sorte.

Rubem

03/05/1995

Mensagem do livro: Depoimentos do Além

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