terça-feira, 13 de abril de 2010

A VERDADE SOBRE JOANA D'ARC

Foi no meio dos debates sobre o caso Miller que apareceu "A Verdade sobre Joana D'Arc".
Léon Denis, apoiado em revelações de caráter pessoal, que o haviam fortemente esclarecido, jamais cessara, desde sua juventude, de meditar sobre o mistério da vida e da morte da heroína nacional francesa.
Desde 1877, abordava em suas palestras esse apaixonante assunto: "As Grandes Cenas da História da França.
Retornou ao tema, alguns anos após, em "O Patriotismo na Idade Média", "O Gênio da Gália" e "Nossas Verdadeiras Tradições Nacionais."
Em 1896, em Agen e, depois, no Havre, desenvolveu sua tese sobre a missão da "Donzela", em três grandes conferências: "Joana D'Arc, sua vida, seu processo e sua morte", "Joana D'Arc, suas Vozes" e "Joana D'Arc e o Espiritualismo Moderno".
De novo, voltou ao assunto em sua palestra sobre "Joana D'Arc em Touraine" e "O Papel da Mediunidade na História". Era o momento de condensar tudo em capítulos definitivos, fazendo um livro que trouxesse uma contribuição nova ao estudo desse grande tema.
No começo do novo século, muito se falava de Joana D'Arc e, como de costume na França, haviam subordinado a preocupação pela verdade histórica a preferências de ordem política ou religiosa.
Obras e ensaios contraditórios nasceram desse apaixonado movimento de idéias e de sentimentos, dos quais a memória da "Boa Lorena" mais sofria do que ganhava.
Depois de Thalamas e Anatole France, que só fizeram confundir a questão, Léon Denis abordou essa página da História com um novo método.
Nossos grandes historiadores tinham perfeita compreensão de que, com Joana D'Arc, se achavam diante de um fato excepcional, dificilmente explicável pelos processos habituais. "Jamais a História se aproximou tão perto do milagre", disse um deles, que não era místico. "Quer a Ciência queira ou não, será preciso admitir suas visões", afirmava o sábio e probo Quicherat. A Ciência nada tem a perder, reconhecendo a verdade.
A mediunidade é um fato patente.
Ao afirmar que toda a epopéia de Joana se baseia nessa faculdade ainda mal definida, Léon Denis tentou uma obra certamente audaciosa, mas de forma alguma anticientífica.
A novidade desse método era de ordem psicológica. Somente os conhecimentos psíquicos aprofundados possibilitam encontrar o "fio condutor que orientará os historiadores, no meio dos episódios daquela incomparável existência.
Eis porque os escritores, que se basearam exclusivamente nos documentos dos arquivos, nada compreenderam dos prodígios de uma tal vida.
Os historiadores ou hagiógrafos católicos modernos fazem de Joana uma visionária, uma santa.
A Igreja a canonizou; os escritores materialistas anticlericais, baseados numa tese médica perigosa, fazem dela uma histérica.
Em quem acreditar? Como preencher essa lacuna?
"A maior parte dos fenômenos dos passados afirmados em nome da fé, negados em nome da razão, podem, agora, receber umas explicações lógicas, científicas.
Os fatos extraordinários que marcam a existência da Virgem de Orléans são dessa ordem.
Somente seu estudo, tornado mais fácil pelo conhecimento de fenômenos idênticos, observados, classificados e registrados, em nossos dias, pode nos explicar a natureza e a intervenção de forças que atuavam nela, em seu derredor e que orientaram sua vida para um nobre fim."
Tal é a tese que o escritor espírita vai sustentar.
De qual natureza são essa forças? Eis o primeiro ponto a estabelecer. O Espiritismo demonstrou, disse Denis:
“Que laços poderosos unem a Humanidade terrena ao mundo invisível, que uma ação recíproca exerce nos dois sentidos, por seus efeitos, uma estreita solidariedade”.
É por uma incessante ação dos Espíritos sobre a Humanidade, combinada com os efeitos da lei superior de justiça, que se explicam o fato da História.
O aparecimento, no meio das tempestades sociais, de seres especialmente dotados, de missionários encarnados para um objetivo previamente traçado, dá, igualmente a chave de fatos prodigiosos, incríveis, se, para julgá-los, nos limitamos em ver neles o lado puramente terrestre."
E isto é tão verdadeiro para certos povos, como para certos seres predestinados.
Esta versão, examinada sem partidarismo, não deixa de aclarar, singularmente, o "Caso Joana D'Arc". Todavia, quando da publicação da obra, tanto quanto hoje, ela não poderia agradar nem a católicos, nem a ateus.
Léon Denis afirmava, comprovadamente, que Joana não admitia intermediários entre "suas vozes" e Deus; que, mesmo observando os ritos e práticas religiosas de seu tempo, ela se colocava acima de todas as autoridades estabelecidas neste mundo, repetindo, inúmeras vezes, que só se dirigia ao Criador.
O autor foi violentamente marginalizado pelos escritores "bem pensantes". Por essa razão encontrou defensores do lado oposto. "Le Journal", "Eclair" e "Le Matin" o sustentaram, vigorosamente.
"Espiritualistas e científicos, dizia Denis, se estenderão as mãos, por causa dessa interpretação? Pelo menos é uma oportunidade que se lhes oferece, apresentando lhes essa nova tese."
Notou-se que "A Verdade sobre Joana D'Arc" havia tido alguma repercussão, porém, foi em 1912, quando o livro reapareceu com novo título , que obteve inesperados elogios de um alto professor universitário: Desdevizes du Désert, então decano da Faculdade de Letras de Clermont-Ferrand.
Em um magistral artigo de alta crítica, publicado no "Lien", órgão dos "crentes livres", ele apreciava a obra com uma serena imparcialidade.
"Os Orléans de 1429 - escrevia ele - viram em Joana uma santa enviada por Deus, um anjo salvador; os ingleses quiseram que ela fosse uma bruxa. Apesar de toda a nossa vaidade moderna, ficamos limitados a essas duas opiniões primitivas, um pouco modificados."
Fazer da boa Lorena, robusta e valente, de juízo perfeitamente sadio, uma histérica é fora do mais elementar bom-senso. A explicação do escritor espírita é ainda a melhor que pode explicar "suas vozes".
Quanto ao processo, o eminente crítico afirmava que:
“O julgamento iníquo do tribunal eclesiástico pesa igualmente sobre a Igreja, a coroa da Inglaterra e a coroa da França”.
Foi, acrescentava ele, um belo processo da Inquisição, igual a tantos outros.
O mais odioso do processo não foi a fogueira e sim a abjuração arrancada de Joana pelo terror e mais tarde falsificada.
O mais sublime da história da "Donzela" foi a retratação, foi a retomada de consciência, após um instante de fraqueza, foi a coragem com a qual ela exclama diante da fogueira: "A voz me disse que era uma traição abjurar. A verdade foi que Deus me enviou.
O que eu fiz, está bem feito."
O professor assim terminava:
"Aí está porque Joana nos deve ser tão cara: é que ela não admitia nenhum intermediário entre ela e Deus; certa de tê-lo consigo, enfrentou o mundo inteiro unido para a sua condenação."
Não é uma brilhante confirmação do que Léon Denis escrevera?
Quanto à segunda parte da obra, referente às "mensagens", o crítico respeitava, sem querer discutir esses fatos que não interessavam à História, porém, assinalava as páginas de "Jerônimo" sobre o futuro da Igreja, "que são certamente, as mais elevadas e mais nobres do livro." Terminava sua conclusão com uma firmeza perfeita, onde ele opunha a obra do escritor espírita à de Anatole France sobre o mesmo tema:
"A obra de Anatole France está aí para demonstrar a impotência radical do criticismo irônico para compreender o heroísmo e o ideal; e sejam quais forem os exageros dos místicos, é a eles que cabe louvar aqueles que foram grandes pela alma, pelo desinteresse e pela virtude.
Por estranho que possa parecer, por certos aspectos, o livro do sr. Denis é um belo e bom livro, como o livro do sr. Anatole France é um livro mau e feio."
Isto é que é falar claro.
Todavia, houve uma coisa que os críticos não destacaram suficientemente: foi o cuidado carinhoso do autor ao nos apresentar um retrato físico e moral tão real quanto possível, só lhe faltando falar. Para tanto, de nada se esqueceu. Não consultou apenas os textos, como um bom historiador, porém, quis impregnar-se na medida do possível, do ambiente no qual se escoou a curta vida da "Donzela".
E foi a Domrémy que ele se dirigiu, inicialmente.
"Filho de Lorena e, como Joana, nascido no Vale do Mosa, minha infância foi embalada pelas lembranças que ela ali deixou.
Já homem, quis seguir, através da França, as pegadas de seus passos. Repeti a dolorosa caminhada, quase que etapa por etapa. Não ficou lugar algum, por onde ela houvesse passado, que eu não tivesse visitado para meditar, orar e chorar, em silêncio.
Como os cristãos, que percorrem, passo a passo, o caminho que conduz ao Calvário, eu segui a via dolorosa que conduzia ao suplício a grande mártir."
Deduz-se que semelhante método, e um tal amor pelo tema deram uma profunda capacidade de penetração a uma alma dessa envergadura!
Denis percorria esses sagrados lugares, tão caros a toda a alma francesa.
"Revi a humilde cabana, onde ela nasceu, o quarto com estreito respiradouro, onde seu corpo virginal, destinado à fogueira, roçou as paredes; o armário rústico onde ela guardava suas roupas e o lugar onde, empolgada, em êxtase, ouvia suas vozes; depois, a igreja onde tantas vezes orou."
A capela de Bermont, por onde Joana vinha, seguindo pela vereda de Greux; Vouthon, a aldeia natal de sua mãe, Burey, onde se encontra a casa de seu tio Durand Laxart, o Bois-Chenu mais próximo; por todos os cantos ele passou, com o coração cheio de lembranças e o espírito aberto às vozes misteriosas do Alto.
Não foi assim, com essa efusão de alma, que deveria surgir, num passeio vespertino, a primeira comunicação de Joana com seu amigo?
"O ar tremia; tudo parecia iluminado em meu derredor; asas invisíveis vibravam no crepúsculo, uma melodia desconhecida descia dos espaços, embalando meus sentidos e fazendo jorrar minhas lágrimas."
Lembramo-nos desse prelúdio na bela página que abre esse livro.
Os historiadores, os poetas e os artistas tentaram, em oportunidades diferentes, traçar um retrato fiel da "Donzela".
Tarefa difícil, já que não possuímos qualquer desenho, nem a menor pintura autêntica.
Reunindo alguns fragmentos de documentos escritos que chegaram até nós, Léon Denis conseguiu nos apresentar, aos poucos, uma imagem verossímil, bem viva, da heroína.
Quanto ao físico, temos a seu respeito dados bem precisos:
"Ela era bonita e bem feita de corpo", "robusta e incansável", "tendo boa aparência sob as armas", e um "ar risonho e olhos fáceis para as lágrimas."
Os lances do processo nos dizem que seus cabelos eram negros, curtos "em forma de tigela, de modo a formar sobre sua cabeça uma espécie de calota, parecida com um tecido de seda escura."
"Vestida de branco, menos a cabeça, trazia na mão uma machadinha e montava um corcel negro", é como nos aparece Joana, segundo as descrições da época.
Ao demais, possuía uma elegância de maneiras e uma distinção natural, de fazer admiração aos senhores e damas da Corte.
De todos os pintores e escultores que tentaram reconstituir sua imagem, apenas Barrias e Antonin Mercié agradaram a Léon Denis.
Os outros, por ignorância ou falta de compreensão, fracassaram totalmente.
O retrato moral que Denis traça de Joana D'Arc é uma obra- prima de penetração.
"O que mais nos surpreende nela não é sua tarefa heróica, embora única na História, é o caráter admirável, onde se unem e se fundem as qualidades aparentemente mais contraditórias: a força e doçura, a energia e a ternura; a previdência, a sagacidade, o espírito vivo, engenhoso e penetrante, que sabe, em poucas palavras, nítidas e exatas, resolver as mais difíceis questões e as mais ambíguas das situações.
"Era muito confortador conversar com ela", diziam as pessoas de Orléans, chamadas como testemunhas, no processo de reabilitação.
Sua existência toda foi sempre um ensinamento, porque "Joana é tão admirável em suas idéias como em seus atos. Aqueles lábios de 18 anos proferiram afirmativas que merecem figurar ao lado dos mais belos preceitos da Antiguidade."
Ingenuidade e sabedoria, humildade e altivez, ardor varonil, pureza angelical e, acima de tudo, uma infinita bondade. Ela possuía todas as virtudes.
Foi, todavia, na prisão e no correr do processo e até na fogueira que essas virtudes brilharam com um fulgor sobre-humano.
O historiador espírita, tendo seguido Joana, durante sua maravilhosa epopéia, agora a acompanha na prisão e, depois, perante o tribunal.
Sabe-se que Joana ficou, durante meses, "a mercê de mercenários brutais, estúpidos e lúbricos", que tentaram violentá-la e a espancaram; que Stafford e o miserável Loyseleur buscaram comprometê-la.
"Pensemos nos horrores de semelhante situação, em seus pensamentos de mulher, nos receios dessa virgem, exposta a todas as surpresas, a todos os ultrajes a uma contínua privação do repouso e do sono, que lhe quebrantavam suas forças, no meio de ansiedades e incessantes agonias.
Como suportar semelhantes provações, sem a assistência fiel de seus amigos invisíveis, que ela denomina como seus "irmãos do paraíso"?
São eles que lhe dão as forças necessárias e a sustentam nessa hora extrema.
Depois, Denis nos mostra Joana diante do Tribunal do Santo Ofício:
"De um lado, tudo quanto o espírito do mal pode destilar de negra hipocrisia, astúcia, perfídia e ambição servil. Setenta e um padres e doutores, fariseus de coração insensível, todos membros de igreja, porém, para os quais a religião é apenas uma máscara para encobrir ardentes paixões: a cupidez, o espírito de intriga e o fanatismo radical.
Do outro lado, sozinha, sem apoio, sem conselheiro e sem defensor, uma menina de 19 anos, inocente, a pureza encarnada, uma alma heróica num corpo de virgem, um coração sublime e terno, pronto a todos os sacrifícios, para salvar seu país, cumprir com fidelidade sua missão e dar o exemplo da virtude, dentro do dever."
As páginas que Léon Denis consagra à prisão, ao processo e ao suplício são nítidas, incisivas, vingadoras e pungentes, como imagens gravadas em água-forte.
Uma bela luz ardente e serena ali se projeta, emanando um profundo tom de nobreza e de verdade.
Se a memória da Lorena ficou por muito tempo mergulhada em pérfidas sombras, agora se eleva ao seu verdadeiro lugar, que é o da glória imaculada.
"A justiça foi demorada para ela, mas, finalmente, surgiu, brilhante, absoluta e universal."
Será preciso relembrar aqui as singulares apreciações e os ultrajes de jornalistas e de universitários franceses, cegos pela paixão política e religiosa?
Não devem, hoje, envergonhar-se das ímpias palavras saídas outrora de sua pena imprudente?
Léon Denis lhes disse o que pensava deles.
Não apenas alteraram a verdade histórica conscientemente, porém, cometeram, como franceses, uma ação muito vil.
Deviam ler, para se conscientizarem, os autores estrangeiros, em particular os ingleses: Richard Green, Carlyle, John Stirling, Andrew Lang e Bernard Shaw.
Quanto ao seu próprio livro, pode-se afirmar que ele completa admiravelmente os de Michelet, Henri Martin e Lavisse, não quanto a aspectos da História, que não eram de sua obrigação, mas sobre a interpretação de fatos relativos ao milagre.
Esta interpretação tem algo semelhante com a tese católica, mas é, certamente, menos radical.
De qualquer forma, é a mais completa que se possa dar e a mais verossímil.
"Somente vós - escrevia-lhe Albin Valabrégue, depois da leitura de seu livro apresentastes Joana D'Arc em sua verdade total."
Não há sequer um admirador da boa Lorena que não subscreva tal julgamento.
Não é um fato significativo ver-se hoje os ingleses homenagearem aquela que, no passado, queria "enxotá-los para fora da França"?
Os descendentes dos bretões, em particular, os reconheceriam um parentesco espiritual do rei Artur com Joana D'Arc, a Velleda Lorena?
Será isto um novo milagre, um alma céltica?
Não obstante os desentendimentos passageiros, mais aparentes que reais, a fulgurante glória de Joana D'Arc trabalhou pela reaproximação de dois grandes povos, destinados a se entenderem e a se unirem numa tarefa civilizadora comum e também o radioso arcanjo, mais do que nunca vivo e atuante nos planos superiores da existência, se dedica, asseguranos o Mestre, a desarmar os tolos ressentimentos e a acalmar os corações furiosos dos homens.
"Por que eu odiaria os ingleses? disse ela, em uma de suas mensagens; eu lhes devo uma bela coroa de luz." Assim, Jehanne de Domrémy continua sua missão de mediadora acima de nossas paixões e de nossas disputas, geralmente tolas ou imprudentes.
Escrevendo esse livro irradiante de fé espírita, Léon Denis só vislumbrava um objetivo: basear-se nos testemunhos históricos para refazer a verdadeira e sublime imagem da Santa da Pátria.
Devemos à sua filosofia tão humana, tão compreensiva e tão prudente uma obra profunda e de uma beleza que não será jamais ultrapassada.

Léon Denis

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