sábado, 15 de maio de 2010

O MÊS DE JOANA D'ARC

Maio de 1915

Depois do longo sono do inverno torno, a terra a vestir-se de suas galas.

No vasto jardim publico que se estende sob minhas janelas, às moitas de flores brilhantes alternam com as verdes folhagens. Os cisnes deslizam majestosamente no tranqüilo lençol das águas, e, nos altos ramos, as aves canoras, como que inebriadas, se entregam a intermináveis concertos. Uma suave claridade envolve todos as coisas, enquanto ao longe, na linha de frente, o fumo da peleja rasteja o sol, e encobre o céu.

Estamos em Maio, mês de Joana d’Arc, assim chamados porque nele se reúnem as datas dos mais memoráveis acontecimentos da vida da heroína: 7 e 8, libertação de Orleans ; 24, sua prisão em Compiègne; 30 o seu martírio em Ruão.

Nesta época do ano, meu pensamento comovido se dirige sempre à Virgem Lorena como a um tipo de força e beleza moral. Nela se reúnem as qualidade mais antagônicas na aparência: energia e sensibilidade, firmeza e candura, idealismo e senso pratico. Invoco-lhe o espírito; medito no seu sacrifício.

Nos dolorosos transes por que passa a França, essa invocação toma caráter geral e grandioso; é o supremo apelo de uma nação ameaçado, calcado aos pés por sanguinário inimigo; é o grito de angustia de um povo que não quer sucumbir e que implora o auxilio dos poderes celestes, das forças invisíveis.

Antes da guerra praticava-se, sem duvida, o culto de Joana; numerosos eram os fieis; mas, entre estes, muitos consideravam os fatos de sua vida como coisas vagas, longínquas, quase lendárias, esbatidas pelo remoto do tempo.

As tentativas de monopolização da heroína pelo clero católica tinham levantado contra ela um partido político inteiro.

A proposta de criar uma festa nacional para comemoram-lhe a memória dormia ha mais décadas no arquivo da Câmara. Um enxame de críticos meticulosos e malévolos atirou-se aos pormenores de sua historia, para contesta-os, denegri-los, ou pelo menos lhes empanar o brilho.

Um Anatole France a apresentava aos nossos contemporâneos como uma mística quase idiota; Thalamas chegava mesmo a injuria-a. Hanotaux referia-se a ela mais dignamente, mas queria fazê-la passar por instrumento das ordens religiosas mendicantes, o que era pura fantasia.

O Messias da nossa terra, admirado e glorificado pelo mundo inteiro, chegaram os Franceses a transformar em assunto de polemica e discórdia.

A mutação hoje é completa. Sob a tempestade de ferro e fogo que a esmaga, na angustia que a estrangula, a França em peso volve: o pensamento para Joana e lhe invoca o socorro.

Escoram-lhe que salve segunda vez a pátria invadida.

A esses apelos acudindo do seio do espaço, ela paira sobre nossas misérias e dores para as atenuar e consolar.Faz mais: á frente de um exercito invisível, opera na linha de frente, transmitindo aos nossos soldados a chama sagrada que a abrasa, arrastando-os ao combate, á Vitória.

Entre os espíritos que a rodeiam, há poderosos e bem-aventurados; ela, porém, a todos domina com a sua sublime energia. A filha de Deus tomou a peito a nossa causa. Certa de tal auxilio na terrível luta em que se empenhou, a França não sucumbira.

E sabe-se tudo quanto devem sofrer esses nobres Espíritos com o contacto da terra? A natureza deles, sutil, purificada lhes torna aflitivas a permanência em nosso mundo inferior. Precisam de constante esforço de vontade para se manterem na sua atmosfera saturada de mãos pensamentos e de fluidos grosseiros, agravados ainda pelas vibrações das paixões violentas desencadeadas pela atual guerra.

Acrescentai a isso o espetáculo das chacinas, os montes de cadáveres, os estertores dos moribundos, os gritos lancinantes dos feridos, a vista das medonhas chagas produzidas pelos explosivos por todas as maquinas de morte que consigo acarretam os exércitos modernos.

Que de pungentes emoções por conter, por dominar! Joana presenciou, sem duvida, na idade media, cenas desse gênero, mas em proporções muito menores!

Ela reagirá energicamente contra qualquer falecimento, pois, diz ela, tudo se torna secundário, tudo desaparece ante o fim essencial, o fim por alcançar: a libertação da pátria.

A irradiação da sua força fluídica estende sobre todos, até sobre os ingleses, ora nossos irmãos de armas. Entre os nossos soldados, alguns, dotados de faculdades psíquicas, a vêem passar no fumo das pelejas; todos, porém, intuitivamente, sentem a presença e nela põem a sua suprema esperança. Dai as qualidades heróicas desenvolvidas, qualidades essas que causam decepção aos alemães, assombro a todos os que, não sem razão aferente, acreditavam na irremediável decadência de nossa raça.

*

Assim como dominou ela o décimo quinto século, assim o vulto de Joana d'Arc dominará o nosso tempo. E nela e por ela que se fará à união da pátria.

Ontem ainda, como no tempo Carlos VII, a França estava desunida, dilacerada por facções políticas geradas pela cobiça, por apetites inconfessáveis. Na hora do perigo, tudo o se desfez em fumo e calou-se, para deixar que pais fizesse ouvir sua voz e seus apelos aos poderes do alto.

Os próprios sectários do radicalismo, que ainda combatiam Joana d'Arc no Palais-Bourbon, se voltam para ela reverentemente.

A 26 de Abril, o senador Fabre escrevia; Mauricio Barres: Acabo de receber uma carta do Sr. Leon Bourgeois em que me diz: Podeis contar com a minha cordial adesão á festa nacional de Joana d'Arc e acrescentava: Eis, pois, conquistados Hervé, Clemenceau e Bourgeois. Joana d'Arc nos protege. todos. Certos políticos já vêem próxima a hora em que o governo, apoiando-se em todos os partidos, glorificará em Joana essa sagrada união que tornou possível a obra libertadora. Em compensação, outros objetam que nada se pode dizer nem fazer em honra de Joana enquanto os Ingleses estiverem no solo francês. Para assim se exprimirem, é mister bem pouco conheçam o sentimento de nossos aliados para com a heroína. Desde Shakespeare, ele lhe tributou admiração sempre crescente. Todos os anos, nas festas de Ruão, figura uma delegação inglesa e agora, que ele estabeleceram uma de suas bases de operação nessa cidade, não deixam de manter na praça do « Vieux-Marché», no próprio lugar do suplicio, braçadas de flores atadas por uma faixa com as cores britânicas.

A 16 de maio findo, o Reverendo A. Blunt. Capelão da embaixada da Inglaterra, ao depor uma coroa aos pés da estatua eqüestre da praça alas Pirâmides, dizia:

Vimos, como membros da colônia britânica de Paris, depor algumas flores aos pés da estatua Joana d'Arc, a intrépida guerreira de França.

Reconhecemos que seu espírito de patriotismo. Coragem e de sublime abnegação anima o exercito francês de hoje e estamos convencidos de que esse espírito o levará á Vitória.

O grande periódico de Londres, o Times, consagrava á memória da

Virgem Lorena, ha alguns dias, um notável artigo que resume todo o pensamento inglês sobre esse nobre assunto.

Não ha em toda a idade media, historia mais singela e mais portentosa, mais dolorosa tragédia do que a pobre pastorinha que, pela fé ardente, ergueu a pátria das profundezas da humilhação e do desespero, para sofrer a mais cruel e a mais infamante das mortes pela mão cruel de seus inimigos. A elevação e a beleza moral do caráter de Joana lhe granjearam o coração de todos; os Ingleses se lembram com vexame do crime e que ela foi vitima.

Não é, porém, nem pelo amor da pátria, nem pela coragem na peleja, nem pelas visões místicas, que o mundo inteiro glorifica Joana Arc, é porque, em época triste e dolorosa, ela provou, por palavras e obras, que o espírito da mulher cristã vivia ainda entre os humildes e os oprimidos e produzia profusamente incomparáveis frutos. Algum dia houve natureza mais reta, terna, mais cândida, mais profundamente piedosa?

Antes mesmo que tivesse tido acesso junto ao rei e que lhe tivesse arvorado a bandeira, o povo, por toda a parte, nela acreditava. A força da vontade, a elevação dos pensamentos, a intensidade do entusiasmo venceram todas as oposições.

E meiga e complacente para com os prisioneiros. Até para os Ingleses sua alma se mostra repleta de piedade. Convida-os a que a ela unam para uma grande cruzada contra o inimigo da cristandade.

E quando, com o auxilio de alguns traidores, que os houve entre seus compatriotas, ele, a colheram numa cilada e a fizeram condenaram á morte horrível, suas ultimas palavras foram de perdão para seus algozes.

Um patriota francês não se exprimiria melhor Com certeza, não, Joana não tinha ódio aos Ingleses; queria simplesmente po-los fora do território da França. Como o diz o «Times», pensava mesmo em associa-os aos Franceses numa grande empresa cuja direção ela tomaria. Escrevia lhes se derdes satisfação ao rei de França, poderá ainda vir em companhia dele, onde quer que os Franceses pratiquem o mais belo feito que jamais foi praticado pela cristandade.

*

Sua clara visão, atravessando os séculos, referiria aos sucessos presentes, a essas gigantes luta da civilização contra a barbaria, na qual tencionava intervir?

Pela violência, pelo terror, a Alemanha quis impor ao mondo a sua horrível cultura, essas teorias implacáveis do super-homem, de que Nietzsche se constituiu profeta e que suprimem o que ha de mais nobre, mais poético, mais belo na alma humana, isto é, as dualidades fidalgas e com elas a compaixão, a piedade, a bondade. O Deus do Evangelho, que Jesus nos ensinou a amar, os Alemães quiseram substituía-o por não se sabe que divindade lôbrega e cruel, que muito menos se assemelha ao Deus dos cristãos do que ao Odin escandinavo em seu Vahala maculado de sangue.

A essas concepções de outras eras, onde ao mais grosseiro materialismo se une um misticismo bárbaro, devemos opor, sob a égide da Virgem de Lorena, uns espiritualismos claros e adiantados, feitos de luz, justiça e amor.

Esse espiritualismo revelará ao mundo a lei eterna que estabelece a liberdade, a responsabilidade de todos os entes e que lhes impõe o dever de reparar, através de existenciais sucessivas e dolorosas, todo o mal por ele praticado.

Depois da expiação ela assegura o ressurgimento e a partilha de todas as alegrias e bens celestes, na justa proporção dos méritos conquistados e dos progressos realizados.

Esta é a doutrina que Joana preconiza; pois não se ocupa somente da libertação da pátria. De há muitos anos coopera também no seu ressurgimento moral. Todos aqueles que frequentam os centros em que ela se manifesta sabem com que carinho vela por esta doutrina, anima-lhes o defensor e trabalha pela sua difusão no mundo.

Esta virgem inspirada cumpriu outrora missão que, rio decorrer dos séculos, havia de servir de exemplo para todos. Vê-se hoje que o papel da mulher poderia ser o de fortalecer o animo do homem e excitar-lhe a dedicação á pátria. De fato, no seio da família é, sua missão mais modesta: mas a educação que dá ao filho deve despertar-lhe atriz a energia e o valor, aumentarem-lhe o amor por todas as virtudes que dele decorrem. Destarte se verá desenvolverem-se as energias da nação; a fusão dos partidos tornar-se-á mais fácil, bem como a missão de todos, unidos por um nobre ideal comum.

*

Desunidos na paz, os Franceses, se reconciliaram ante o perigo. Cépticos ontem, hoje já fazem apelos ás forças divinas e humanas capazes de regenerar a raça, aos bafejos do alto que vivi ficam as almas e despertam as adormecidas qualidades viris.

Estamos certos de que persistirá este estado de espírito. Ha, no atual momento, em a nossa linha de frente, cerca de três milhões de homens que experimentam iguais fadigas e afrontam perigos iguais. E impossível que as provações passadas não constituam poderoso elo e que, unidos pelo coração e pelo pensamento não trabalhem em comum para o ressurgimento da pátria.

Joana os auxiliará na obtenção desse desideratum. Por seu intermédio, afirmamos nós, far-se-á a união de todos os partidos, porque ela não é propriedade de nenhum deles; pertence a todos, pois todos acharão em sua vida razão para a venerar. Os realistas glorificarão a heroína fiel que e, sacrificou pelo rei; os crentes, a enviada providencial que apareceu na hora dos desastres. Os filhos do povo amarão a camponesa que se armou para a salvação da pátria. Os soldados se lembrarão de que, como eles, ela sofreu e por duas vezes foi ferida: os infelizes, que suportou todas as amarguras, todas as provações e bebeu o cálice das dores até a lia. Nela verão todos uma manifestação da força superior, da força eterna encarnada em urra ser humano para executar obras capazes de levantar as inteligências e reconciliar todos os corações.

Léon Denis
O mundo invisível e a guerra

Nenhum comentário:

Postar um comentário