sexta-feira, 11 de junho de 2010

UMA VIDA DE EQUÍVOCOS

“Por intermédio de um amoroso instrutor desta casa, utilizo-me da escrita para dar meu testemunho de vida, a fim de que sirva de exemplo para muitos dos que se perdem nos caminhos negros da vida. Fui um jovem de abastada condição material, tendo absolutamente tudo o que sonhara como menino mimado que era e depois na adolescência, vivenciando experiências as mais vibrantes no sentido do prazer. Freqüentei as melhores escolas e vestia-me com a indumentária ditada pela moda, sempre desejoso de ostentar minha condição social.

Meus pais, em sua ingênua ignorância, supunham que a mim bastava a satisfação dos desejos e sequer exigiam um bom desempenho na escola. Fui o último filho, o mais desejado de todos, portanto, tive em vida todas as regalias que pode ter uma criatura em sua sede de prazer e sonhos.

Bem cedo descobri o mundo. Buscava em meus amigos, nas noites quentes de minha cidade, as aventuras que pudessem me saciar. Por não ter tido nenhuma formação religiosa ou instrução no sentido moral, não via nenhuma razão para não vivenciar as experiências que julgava prazerosas. Sem limites, procurava a cada dia novas e ardentes aventuras, no que pude deleitar-me com mulheres e homens, mas principalmente com estes últimos, o que me trazia enorme prazer e satisfação íntima. Descobri, a partir de um certo tempo, um novo mundo íntimo e procurei por todos os meios encontrar minha felicidade nessa nova condição. Entretanto, já me encontrava em um meio promíscuo e ali mesmo permaneci, permitindo-me as mais torpes vivências que, se me traziam a felicidade momentânea, mortificava minha alma nos dias subsequentes.

Experimentei tudo nesse meio, das drogas lícitas às ilícitas, naturalmente. Estas, tendo um tráfego livre nas reuniões sociais de pessoas consideradas de bem pela sociedade, em um ambiente aonde a hipocrisia campeia e a necessidade dos infelizes, como eu, de ter sobre si os holofotes da fama, trazem à tona comportamentos que parecem saídos do mais primitivo dos homens.

Com uma vida em completo desequilíbrio em todos os sentidos, logo adquiri a pavorosa moléstia que, em princípio, todos supunham não ter tanta gravidade. Ainda em fase incipiente das pesquisas sobre ela, não pude me beneficiar de quase nenhum tratamento e em pouco tempo vi meu corpo ser devorado, meus músculos desaparecerem e a evidência de meus ossos no espelho me fez refletir duramente sobre o que havia feito de minha vida. De meus amigos, apenas um permaneceu comigo até o fim. Parte de minha família acusava-me em silêncio, porém, guardo com carinho a doce expressão de tolerância e perdão de minha mãe, que em meu leito de morte disse: “Quisera ser eu em seu lugar, meu filho”.

Amigos, já faz alguns anos do meu desencarne e, após permanecer por muito tempo nas regiões de sofrimento em contato com os que desvalorizaram a vida, fui atendido em minhas preces de desespero por equipes de socorro desta casa. Estou em um lugar de recuperação por um tempo que não sei precisar muito bem, mas o instrutor me diz que pode ser contabilizado em dois anos. Aguardo ocasião de servir mais, instruindo-me sempre para que um dia possa ter a ventura de retornar à carne e refazer toda uma vida perdida na ilusão da matéria, da riqueza, do poder, do brilho do vil metal, da hipocrisia e da ilusão de que tudo se acaba com a morte”. – Um irmão arrependido


Espírito: Um irmão arrependido
Sociedade de Estudos Espíritas Allan Kardec

quinta-feira, 10 de junho de 2010

UM ÍDOLO DE BARRO



Não era ela que me pedia nada: era eu que lhe dava tudo que possuía.

Era eu que não via, senão com seus olhos; não ouvia senão com seus ouvidos; não pensava, não sentia, senão pela sua cabeça e seu coração; meus lábios sorriam, se ela estava alegre; meus olhos choravam, se ela estava triste... E minha vida era vazia, porque eu não era eu; eu era ela. E ela partiu para não mais voltar. E eu fiquei morto... completamente morto ...

Meu corpo se movimentava, eu falava, andava, mas em mim havia um cadáver ... Eu deixara de existir ...

Um dia também parti e me encontrei nas trevas.

Tateava naquela imensa escuridão, mas não percebia nada onde me encontrava e o que era feito de mim.

Uma voz doce e amiga balbuciou o meu nome ... e eu acordei. E vi ao meu lado um rosto iluminado e chio de bondade.

Não compreendi por que estava ali, num ambiente estranho, e perguntei àquela figura refulgente – “Quem sois? Que lugar é este? Por que estou aqui?”

Aquele personagem olhou-me comovido e numa voz que mais parecia um sussurro, assim falou – “Sou teu irmão, Estás na fronteira da Terra com o espaço. Deixaste do outro lado aquele corpo morto, e agora acordaste. Vou te dizer, irmão, que na realidade não viveste um só dia na Terra. Tua vida foi desperdiçada, porque te fizeste idólatra de ‘Um ídolo de barro’. Tua vida não foi acrescida de um milésimo de aproveitamento e além de tudo, destruíste outra vida. Aquele que se sabe centro de atenção, o objeto de idolatria, em geral, torna-se um ser despótico , egoísta e perverso. Perdeste a tua vida e destroçaste outra que carregou consigo a maldição de outras vidas sacrificadas pelo seu despotismo.

“És suicida, assassino e ladrão.

“Pena, meu irmão, que carregues um fardo tão pesado e que tenhas que arrastar contigo pelas vidas afora, até a ajudares a refazer tudo que por inércia e ignorância arruinaste.

“Estou aqui porque é esta a minha missão. Tu és meu irmão, seja qual for a tua culpa.

‘Queres seguir-me?”

Fiquei aterrado, ante a exposição de tudo que fizera! No entanto eu me julgava a melhor criatura do mundo! Eu não fizera mal a ninguém! Vivera só para ela e morrera quando seu corpo tombara sem vida, embora meu fantasma continuasse ainda por alguns anos envolto nas vestes da matéria.

***

São passados séculos desde então.

Hoje, com a ajuda de Deus, através daquele amigo que me acolheu, eu me reabilitei.

Se não sou um iluminado, sou um espírito liberto conscientemente de algumas algemas que aprisionam o ser encarnado. Posso pois, Ter a alegria de trazer alguns conselhos àqueles que ainda só vêem com os olhos da carne.

Não vos apegueis demasiado a alguém nem a coisa alguma.

Libertai-vos da idolatria. Adora a Deus nas Suas infinitas manifestações . Mas adorar não é se aprisionar, não é se sentir amedrontado ante as coisas ou as pessoas. É se entrosar na vida, é vivê-la integralmente, conscientemente , a tudo se dedicando amorosamente com o fito de se aperfeiçoar e de ajudar a tudo que tocarmos ou estiver no nosso caminho.

Se não nos restringirmos a um ambiente limitado, mas expandirmos em pensamentos de amor; a toda a humanidade, poderemos penetrar nos infinitos mundos a que devemos aspirar.

Não vos restrinjais a um ‘ídolo de barro’.

Cenyra Pinto
Do livro “Levanta-te e anda ...”

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O PROBLEMA DA INSATISFAÇÃO


A insatisfação, que medra, assustadora, numa avalanche crescente em todos os arraiais da Sociedade terrena, procede, de certo modo, da programática educacional das criaturas que, desde cedo, recebem orientação e adestramento em moldes eminentemente imediatistas, como se a vida devesse abraçar, apenas, o estreito limite entre o berço e o túmulo...

Centralizando todas as aspirações no trâmite carnal, o triunfo, conforme os padrões hedonistas, tem como finalidade à aquisição de valores para o gozo, o destaque na comunidade, a tranqüilidade que decorra de um estômago saciado, um sexo atendido e as vaidades estimuladas...

No entanto, mesmo quando tal ocorrência vem de ser lograda, acompanhada de emoções estésicas, eis que o sonhador da roupagem carnal se depara com outro tipo de necessidade que deflui do espírito, no seu processo de reeducação pelo impositivo reencarnacionista.

O homem não é, exclusivamente, as suas necessidades orgânicas e emocionais que se enquadram na argamassa fisiopsicológica.

O berço e o túmulo representam, no processo da evolução, meios de que se utiliza a Sabedoria Divina para que o ser indestrutível entre e saia do corpo, adquirindo experiências. fixando aprendizagem, modelando caracteres, crescendo na fraternidade e santificando o amor, que arranca das expressões do instinto de posse para a sublimação através da renúncia e do sacrifício...

Concebendo a vida como um jogo fugaz de sensações, em que o homem dotado de recursos amoedados mais é feliz porque mais consegue, coloca todas as ambições no estreito condicionamento da posse material, que amargura, quando escassa e frustra, quando farta.

De forma alguma os valores da rápida aquisição conseguem produzir no homem a verdadeira harmonia, tendo-se em vista que, impelido pelo próprio instinto de preservação da espécie, se não vigia, mais ambiciona, quanto mais detém.

A posse, no entanto, de forma alguma faculta equilíbrio emocional. Quando é abundante, produz o receio da perda, estimulando a existência dos fantasmas do medo de perder a posição e os recursos que lhe significam a vida... E, quando é exígua, favorece a escravidão ao que se gostaria de possuir, como fuga psicológica às inquietações quase sempre injustificáveis.

O homem deve arrimar-se nos valores éticos, que ele próprio constrói a pouco e pouco em si e à sua volta, compensando-se no ideal altruísta, com que desata as emoções superiores que lhe jazem em gérmen, crescendo moralmente e superando as injunções do cárcere físico, mediante cuja ascensão consegue a lucidez que lhe dá a perfeita visão da vida e lhe dilata os horizontes em torno do que lhe convém e do que deve fazer.

Situando as metas da existência além dos prazeres transitórios e frustrantes, irmanado à fé libertadora, com que se arma de resistências para a dor, para o mal, para os distúrbios de qualquer natureza, logra superar-se e planar além de quaisquer vicissitudes negativas, através de cujo comportamento fruirá a real felicidade.

Não cobiçando mais do que lhe é lícito reter; não se afadigando em demasia pelas aquisições transitórias; não se antecipando sofrimentos advindos do receio do futuro; não vivendo exclusivamente para o corpo, os insucessos aparentes são convertidos em lições que amadurecem para os próximos empreendimentos, fixando o bem em si mesmo, com que se ala nos rumos do Bem Incessante após a vilegiatura orgânica, libertando-se das vestes físicas com a alegria do escafandrista que retorna à tona, concluída a tarefa feliz no seio das águas profundas...

A insatisfação que a tantos amargura, enferma e conduz a distonias de largo porte, pode e deve ser combatida através de uma pauta salutar de objetivos e de diretrizes evangélicas, conforme Allan Kardec extraiu dos conceitos morais das insuperáveis lições do Cristo, fazendo do Espiritismo o mais completo compêndio de otimismo e de sabedoria conhecido nos tempos hodiernos.

Reflexionando em torno dos valores reais, como dos aparentes, o homem de bem, inteligente, que sente necessidade de mais profundas e nobres aspirações para ser feliz, mergulha a mente e o sofrimento no exercício do amor, em seu sentido mais elevado, defrontando a grandeza da vida e realizando-se por fim em paz.

Vianna de Carvalho

terça-feira, 8 de junho de 2010

NÃO ANDEIS COMO CEGOS


“Somos enviados do Alto, para vos falar das coisas necessárias ao melhoramento de vossas almas e crescimento de vossos Espíritos. Já possuís em mãos este valioso compêndio de ensinamentos morais e filosóficos, que vos foi oferecido pelo Espírito de Verdade. Tendes à vossa disposição os instrumentos necessários ao processo de burilamento das vossas consciências e desenvolvimento racional de vossas inteligências.

Em nossas andanças pelas regiões terrenas temos visto homens, mulheres, crianças e famílias em profundo estado de sofrimento. E não falamos aqui apenas da dor provocada pela fome e pela ausência de bens de ordem material, desgraça de continentes inteiros. Mas, e sobretudo, do sofrimento moral provocado pelas ilusões do materialismo, que agiganta-se todos os dias, espalhando-se como uma praga.

Viveis num tempo de transformações profundas, onde vossa sociedade começa a dar os primeiros passos no caminho da regeneração. Dores, porém, ranger de dentes, ainda serão constantes por anos a fio, até que a humanidade reconheça a mão de Deus que lhe fere o orgulho. Quero, no entanto, vos falar de um tipo de sofrimento particular, que nos causa tristeza: o sofrimento dos espíritas. Sois milhões de adeptos e quão poucos compreende o sentido verdadeiro dos ensinamentos.

Espíritas, deixastes de lado o estudo das obras reveladas para vos entregar à prece sem razão, balbuciada apenas com os lábios, distante do coração. Vos acomodastes em freqüentar as instituições espíritas, sem despenderdes esforços no rumo do auto conhecimento e educação do vosso personagem. Atentai para a verdade. Ouvi a voz dos que clamam pelo vosso progresso. Se reservásseis ao menos um dia da semana, ou pelo menos parte dele, para vossos estudos, para a meditação dos conceitos, para a prática da beneficência junto aos vossos parentes e mesmo aos estranhos, tudo seria diferente. Viveríeis menos atormentados pelas preocupações terrenas. Dormiríeis em melhores condições. Vosso trabalho profissional apresentaria surpreendentes resultados.

Mas, seguis atormentados como a cegos. Limitai-vos à presença física nas assembléias. Colocastes com freqüência vossa confiança nas coisas que são acessórias, mantendo-vos esquecidos das que são essenciais. Acreditais, por exemplo, que o passe é para vossos males como se fosse um recurso mágico. Não. Deus fortalece as almas cansadas, enviando dos planos superiores as energias benfazejas. Mas faz-se necessário compreenderdes que vossa paz virá, acima de tudo, da observância das Leis Espirituais. E, não podereis observá-las sem o estudo, sem a meditação constante, sem vos esforçardes em praticar o Evangelho libertador. Despertai, irmãos espíritas. Buscai contato com a Luz Divina, mas permiti que Ela possa incandescer na vossa intimidade.

Jesus, Senhor e Mestre, preside o Movimento de Renovação que se opera nesta humanidade. Prometeu enviar a seus seguidores um espírito de ensinamento e conforto. Vós fostes militantes das escolas católicas e protestantes em encarnações passadas. Hoje tendes a missão de dar vida a uma nova e definitiva organização, capaz de exercer influência no campo da moralidade, da ciência, da filosofia e da religião. Mas o que tem sido feito entre vós? Não estaríeis envolvidos em demasia com vosso atavismo religioso? Olhai para o vosso movimento e buscai os sinais da vossa decadência. Tendes, entre vós, médiuns e oradores que são reverenciados como santos. Tendes os vossos santos. Promoveis romarias. Posturas compreensivas entre irmãos de outras crenças cristãs, mas não nos que são verdadeiramente espíritas.

Estais envolvidos pela irracionalidade. A cada dia, assemelhai-vos mais e mais aos que ainda hoje são guiados pela fé que não pensa, que não compreende, que mata. Alertai-vos, para que não piseis as coisas santas, colocadas ao vosso alcance. Procurai examinar os livros espíritas com cautela. Muitos dos que circulam em vosso meio trazem mensagens prejudiciais ao crescimento espiritual, despertando e fortalecendo o fanatismo e a idolatria. Não creiais em todos os Espíritos, mas provai se são de Deus, disse João em sua Epístola Primeira. Hoje, como em nenhum outro tempo, necessitais observar tal princípio. Interesses financeiros e personalistas grassam por toda parte sob o nome da Doutrina dos Espíritos. Atentai, para que não sejais vítimas do mal.

Podereis indagar como é possível separar o joio do bom grão. Eu vos digo: estudai a mensagem kardequiana. Exaltai a importância do exame cuidadoso de O Evangelho Segundo o Espiritismo e de O Livro dos Espíritos. Serão essas obras para vós outros, o referencial para julgardes se a semente é boa ou má. Não deis ouvidos aos que afirmam estar esses ensinamentos fora de época. Quem são eles? Onde estão suas obras? Pelos seus frutos os conhecereis. O orgulho é o guia desses que pretendem olhar a Obra de Deus com se pudesse julgá-la pelo seu próprio entendimento.

Terra, vale de lágrimas, de provas, de ilusões. Assim será, até que os homens entendam que fora do exercício constante do Bem e da Justiça Divina, não há salvação, nem destino feliz. Espíritas: observai e vivei as lições do Senhor. A vós foi dado mais, muito mais, que a vossos irmãos. Mais, muito mais, vos será cobrado. Paz e coragem. A marca do Cristo repousa sobre aqueles que depositam fé e confiança nos Seus ensinos”. – Constantino, um Espírito protetor”

Espírito: Constantino
Grupo Espírita Bezerra de Menezes

segunda-feira, 7 de junho de 2010

FALTA-LHES UM ESPÍRITO DA VERDADE



“Queridos filhos. Que Deus, nosso bondoso Pai, possa fortalecer vosso ânimo em torno da realização do nobre trabalho de divulgar a Doutrina da Verdade. Vendo-vos na luta árdua com a ignorância e contra a idolatria de vivos que predomina em vosso meio, fico tocado de compaixão e venho dizer-vos que deveis ter paciência com vossos irmãos, dominados pelo espírito mundano que neles alimenta amor próprio e vaidade.

Segui realizando a obra do Bem, conforme vos apresenta o Consolador Prometido, na obra revelada ao mundo pelo codificador do Espiritismo. Ensinai aos que buscam a seriedade das práticas, mostrando-lhes a gravidade do momento.

Não vos deixeis envolver pela influência maléfica que por todo o Movimento Espírita cria bolsões de falsas alegrias e gloríolas. A esses supostos mestres faltam os caracteres do verdadeiro cristão. Não é preciso ir longe para compreenderdes a demência que os envolve. Fascinados por Espíritos pseudo-sábios, oradores, escritores e dirigentes deslumbrados não conseguem enxergar suas inadequadas condutas. Conhecereis as árvores pelos frutos, ensinou o grande Professor da humanidade. E que frutos são esses que se apresentam? Engrandecimentos? Elogios desmedidos? Trocas públicas de amabilidades? Valorização de títulos? Cegos, eis o que são. Esquecem-se de que os verdadeiros espíritas se distinguem pelo altruísmo, abnegação e pela total negação do sentimento de personalidade.

Encontros e congressos têm sido promovidos sem que deles sejam retiradas qualquer coisa que provoque nos seus frequentadores, mudanças reais no seu mundo moral. Em alguns casos, os discursos são mera expressão da cultura, que os bons memorizadores podem guardar na mente com facilidade. Homens que profetizam com palavras do próprio coração. Falta-lhes um espírito de verdade vibrando na intimidade da alma.

O momento que viveis demanda cautela. Vós, trabalhadores, estejais cuidadosos com vossas obrigações. Vigiai e orai para que os Espíritos imperfeitos não venham interferir naquilo que fazem em nome do Criador. Orientai-vos pelas instruções da Doutrina codificada, pois ela é o alicerce que futuramente sustentará o edifício do novo mundo. Sois poucos, bem o sabemos, mas somos muitos que, enviados de Deus, seguimo-vos os passos.

Vós, freqüentadores das casas e simpatizantes da Doutrina Espírita, acautelai-vos, pois entre os que se dizem espíritas, muitos o são apenas de nome. Imaturos, encontraram no movimento dos espíritas, as condições necessárias para utilizá-lo como pedestal onde edificam altares ao próprio ego. Não confieis em todos os que se dizem seguidores de Allan Kardec. Não depositeis confiança irrestrita nesses que vos falam em nome da caridade com falas mansas, para melhor serem aceitos. Acima de tudo, verificai se esses espíritas são de Deus. Se falam deles próprios ou dos homens que idolatram, não lhes dêem ouvidos. Assim procedem para conquistar os fracos de coração.

Só quem fala pelo espírito de Deus e pelo espírito de Jesus está a serviço do Bem. Desconfiai, porque no mundo moderno existem muitos profetas de aparências. Não vos entregueis a eles. Prossigais com vossas vidas, estudando o Evangelho e permitindo-lhe operar na vossa intimidade, as mudanças necessárias para elevar-vos na senda do progresso. Meditai profunda e calmamente nos ensinamentos revelados em O Livro dos Espíritos. Com eles, aprendereis a discernir o bom do mau grão.

Vosso mundo se envolve a cada dia em desajustes profundos. Não, não há castigos do bom Deus. O que acontece na verdade, é a colheita de uma semeadura ruim, feita por longos períodos de distanciamento da lei natural. Não se pode viver em equilíbrio se não se pratica a Lei do Amor e da Caridade. Praticai, pois, o Bem indistintamente e instrui-vos uns aos outros como a irmãos.

Não vos compactueis com os hipócritas, que se comprazem em longos discursos decorados e em receber honrarias de homens. Como disse o Senhor, eles já receberam o seu galardão. Pagarão caro pela insanidade de envolverem os mais simples em ilusões e fantasias.

Que das regiões superiores da Vida, possam cair bênçãos a todos os que seguem a Doutrina dos Espíritos com a devida seriedade e cautela, divulgando-a ao povo carente. Estaremos ao vosso lado, dando-vos sustentação para vencer as dificuldades comuns a esse tempo de transformações.”


Espírito: Um Espírito Protetor
Grupo Espírita Bezerra de Menezes

domingo, 6 de junho de 2010

O EGOISMO

O egoísmo é Irmão do orgulho e procede das mesmas causas. É uma das mais terríveis enfermidades da alma, é o maior obstáculo ao melhoramento social. Por si só ele neutraliza e torna estéreis quase todos os esforços que o homem faz para atingir o bem. Por isso, a preocupação constante de todos os amigos do progresso, de todos os servidores da justiça deve ser a de combatê-lo.

O egoísmo é a persistência em nós desse Individualismo feroz que caracteriza o animal, como vestígio do estado de inferioridade pelo qual todos já passamos. Mas, antes de tudo, o homem é um ser social. Está destinado a viver com os seus semelhantes; nada pode fazer sem o concurso destes.

Abandonado a si mesmo, ficaria impotente para satisfazer suas necessidades, para desenvolver suas qualidades.

Depois de Deus, é à sociedade que ele deve todos os benefícios da existência, todos os proventos da civilização. De tudo aproveita, mas precisamente esse gozo, essa participação dos frutos da obra comum lhe Impõe também o dever de cooperar nela. Estreita solidariedade liga-o a esta sociedade, como parte integrante e mutuante. Permanecer inativo, improdutivo, inútil, quando todos trabalham, seria ultraje à lei moral e quase um roubo; seria o mesmo que lucrar com o trabalho alheio ou recusar restituir um empréstimo que se tomou.

Como parte integrante da sociedade, o que o atingir também atinge a todos.

É por essa compreensão dos laços sociais, da lei de solidariedade que se mede o egoísmo que está em nós. Aquele que souber viver em seus semelhantes e por seus semelhantes não temerá os ataques do egoísmo.

Nada fará sem primeiro saber se aquilo que produz é bom ou mau para os que o rodeiam, sem indagar, com antecedência, se os seus atos são prejudiciais ou proveitosos à sociedade que integra. Se parecerem vantajosos para si só e prejudiciais para os outros, sabe que em realidade eles são maus para todos, e por Isso se abstém escrupulosamente.

A avareza é uma das mais repugnantes formas do egoísmo, pois demonstra a baixeza da alma que, monopolizando as riquezas necessárias ao bem comum, nem mesmo sabe delas aproveitar-se. O avarento, pelo seu amor do ouro, pelo seu ardente desejo de adquirir, empobrece os semelhantes e torna-se também indigente; pois, ainda maior que essa prosperidade aparente, acumulada sem vantagem para pessoa alguma, é a pobreza que lhe fica, por ser tão lastimável como a do maior dos desgraçados e merecer a reprovação de todos.

Nenhum sentimento elevado, coisa alguma do que constitui a nobreza da criatura pode germinar na alma de um avarento. A inveja e a cupidez que o atormentam sentenciam-lhe uma existência penosa, um futuro mais miserável ainda. Nada lhe Iguala o desespero, quando vê, de além-túmulo, seus tesouros serem repartidos ou dispersados.

Vós que procurais a paz do coração, fugi desse mal repugnante e desprezível. Mas, não caiais no excesso contrário. Não desperdiceis coisa alguma. Sabei usar de vossos recursos com critério e moderação.

O egoísmo traz em si o seu próprio castigo. O egoísta só vê a sua pessoa no mundo, é indiferente a tudo o que lhe for estranho. Por Isso são cheias de aborrecimento as horas de sua vida. Encontra o vácuo por toda parte, na existência terrestre assim como depois da morte, porque, homens ou Espíritos, todos lhe fogem.

Aquele que, pelo contrário, aproveitando-se do trabalho já encetado por outros, sabe cooperar, na medida de suas forças, para a obra social, e vive em comunhão com seus semelhantes, fazendo-os compartilhar de suas faculdades e de seus bens, ou espalhando ao seu redor tudo o que tem de bom em si, esse se sente mais feliz. Está consciente de ter obedecido à lei e sabe que é um membro útil à sociedade. Interessa-lhe tudo o que se realiza no mundo, tudo o que é grande e belo sensibiliza-o e comove; sua alma vibra em harmonia com todos os espíritos esclarecidos e generosos; o aborrecimento e o desânimo não têm nele acesso.

Nosso papel não é, pois, o da abstenção, mas, sim, o de pugnar continuamente pela causa do bem e da verdade. Não é sentado nem deitado que nos cumpre contemplar o espetáculo da vida humana em suas perpétuas renovações: é de pé, como campeão ou como soldado, pronto a participar de todos os grandes trabalhos, a penetrar em novos caminhos, a fecundar o patrimônio comum da Humanidade.

Embora se encontre em todas as classes sociais, o egoísmo é mais apanágio do rico que do pobre. Muitíssimas vezes a prosperidade esfria o coração; no entanto, o infortúnio, fazendo conhecer o peso da dor, ensina-nos a compartilhar dos males alheios. O rico saberá ao menos a preço de que trabalhos, de que duros labores se obtêm as mil coisas necessárias ao seu luxo?

Jamais nos sentemos a uma mesa bem servida sem primeiro pensar naqueles que passam fome.

Tal pensamento tornar-nos-á sóbrios, comedidos em apetites e gostos.

Meditemos nos milhões de homens curvados sob os ardores do estio ou debaixo de duras intempéries e que, em troca de deficiente salário, retiram do solo os produtos que alimentam nossos festins e ornam nossas moradas. Lembremo-nos de que, para iluminar os nossos lares com resplandecente luz ou para fazer brotar chama benfeitora em nossas cozinhas, homens, nossos semelhantes, capazes como nós de amar, de sentir, trabalham nas entranhas da terra, longe do céu azul ou do alegre sol, e, de picareta em punho, levam toda a vida a perfurar a espessa crosta deste planeta. Saibamos que, para ornar os salões com espelhos, com cristais brilhantes, para produzir os inumeráveis objetos que constituem o nosso bem-estar, outros homens, aos milhares, semelhantes ao demônio em volta de uma fogueira, passam sua vida no calor calcinante das grandes fornalhas das fundições, privados de ar, extenuados, consumidos antes do tempo, só tendo por perspectiva uma velhice achacosa e desamparada. Sim, saibamo-lo, todo esse conforto de que gozamos com indiferença é comprado com o suplicio dos humildes e com o esmagamento dos fracos. Que esse pensamento se grave em nós, que nos siga e nos obsidie; como uma espada de fogo, ele enxotará o egoísmo dos nossos corações e forçar-nos-á a consagrar nossos bens, lazeres e faculdades à melhoria da sorte dessas criaturas.

Não haverá paz entre os homens, não haverá segurança, felicidade social enquanto o egoísmo não for vencido, enquanto não desaparecerem os privilégios, essas perniciosas desigualdades, a fim de cada um participar. Pela medida de seus méritos e de seu trabalho, do bem-estar de todos. Não pode haver paz nem harmonia sem justiça. Enquanto o egoísmo de uns se nutrir dos sofrimentos e das lágrimas de outros, enquanto as exigências do eu sufocarem a voz do dever, o ódio perpetuar-se-á sobre a Terra, as lutas de interesse dividirão os ânimos, tempestades surgirão no seio das sociedades.

Graças, porém, ao conhecimento do nosso futuro, a Idéia de solidariedade acabará por prevalecer. A lei da reencarnação, a necessidade de renascer em condições modestas, servirão como aguilhões a estimular o egoísta. Diante dessas perspectivas, o sentimento exagerado da personalidade atenuar-se-á para dar lugar a uma noção mais exata da situação e papel do homem no Universo. Sabendo-nos ligados a todas as almas, solidários no seu adiantamento e felicidade, Interessar-nos-emos com ardor pela sua condição, pelos seus progressos, pelos seus trabalhos.

E, à medida que esse sentimento se estender pelo mundo, as instituições, as relações sociais melhorarão, a fraternidade, essa palavra repetida banalmente por tantos lábios, descerá aos corações e tornar-se-á uma realidade. Então nos sentiremos viver nos outros, para fruir de suas alegrias e sofrer de seus males. Não mais haverá queixume sem eco, uma só dor sem consolação. A grande família humana, forte, pacifica e unida, adiantar-se-á com passo rápido para os seus belos destinos.

Léon Denis
Depois da Morte

quarta-feira, 2 de junho de 2010

AMIGOS ESPIRITUAIS

Providência Divina manifesta-se, incessantemente, em todas as situações e lugares, proporcionando vasta gama de recursos, com vistas à proteção, ao futuro e ao progresso das criaturas.

Esse amparo acontece de infinitos modos. Um deles dá-se por intermédio de tutores espirituais, conhecidos, no meio espírita, pelo nome de guias ou amigos espirituais.

É grandiosa e sublime a doutrina dos guias espirituais, pois revela a providência, a bondade e a justiça do Criador para com seus filhos, provendo-os de meios para o aperfeiçoamento.

Para efeitos didáticos, Kardec classificou os guias espirituais em três categorias: Espíritos protetores, Espíritos familiares e Espíritos simpáticos. (1)

O Espírito protetor, ou anjo guardião, é sempre um bom Espírito, mais evoluído. Trata-se de um orientador principal e superior.

Sua missão assemelha-se à de um pai com relação aos filhos: a de orientar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo em suas aflições, levantar-lhe o ânimo nas provas da vida. Os Espíritos protetores não constituem seres privilegiados, criados puros e perfeitos, mas sim “[...] Espíritos que chegaram à meta, depois de terem percorrido a estrada do progresso [...]”. (2)

São as almas que já trilharam as experiências de diferentes reencarnações – as mesmas pelas quais estamos passando –, e conquistaram, pelo próprio esforço, uma ordem elevada. (3)

A missão dos Espíritos protetores tem duração mais prolongada, pois estes acompanham o protegido desde o renascimento até a desencarnação, e muitas vezes durante várias existências corpóreas. Entretanto, a atuação do protetor espiritual não é de intervenção absoluta, pois, apesar de influir em nossa vontade, evita tomar decisões por nós e contra o nosso livre-arbítrio.

Sente-se feliz quando acertamos e sofre quando erramos, embora esse sofrimento não seja revestido das mesmas paixões humanas, porque ele sabe que, mais cedo ou mais tarde, o seu tutelado voltará ao bom caminho.

Os Espíritos protetores dedicam-se mais à orientação de uma pessoa, em particular, não deixando, entretanto, de velar por outros indivíduos, embora o façam com menos exclusividade. Exercem supervisão geral sobre nossas existências, tanto no aspecto intelectual, incluindo as questões de ordem material, (4) quanto moral, emprestando ênfase a esta última, por ser a que tem preponderância em nosso futuro de seres imortais.

Os Espíritos protetores, em realidade, jamais abandonam os seus protegidos, apenas se afastam ou “dão um tempo” quando estes não ouvem os seus conselhos.

Desde, porém, que chamados, voltam para os seus pupilos, a fim de auxiliá-los no recomeço.

Por isso, atentemos aos conselhos de Joanna de Ângelis:

Tem cuidado para que te não afastes psiquicamente do teu anjo guardião.

Ele jamais se aparta do seu protegido, mas este, por presunção ou ignorância, rompe os laços de ligação emocional e mental, debandando da rota libertadora.

Quando erres e experimentes a solidão, refaze o passo e busca-o pelo pensamento em oração, partindo de imediato para a ação edificante. (5)

Momento chega, porém, em que o aprendiz deixa de ser tutelado.

Isso acontece quando o Espírito atinge o ponto de guiar-se a si mesmo, estágio que, por enquanto, não se dá na Terra, planeta de expiação e provas. (6)

Os Espíritos familiares(7) são orientadores secundários. Embora menos evoluídos, igualmente querem o nosso bem. Podem ser os Espíritos de nossos parentes, familiares ou amigos. Seu poder é limitado e sua missão é mais ou menos temporária junto ao protegido.

Ocupam-se com as particularidades da vida íntima do protegido e só atuam por ordem ou com permissão dos Espíritos protetores, como, por exemplo, quando o socorrido está recalcitrante e não ouve os conselhos superiores ou apresenta comportamento enigmático. Nessa hipótese, o Espírito familiar, por ter mais intimidade e vínculos sentimentais com o protegido, é aceito como colaborador, de modo a auxiliar na solução de problemas específicos.

Podem, por exemplo, influenciar na decisão de um casamento, (8) nas atividades profissionais(9) ou mesmo na tomada de decisões importantes que envolvam o cumprimento da lei de causa e efeito, (10) conforme a necessidade do atendido.

Já os Espíritos simpáticos podem ser bons ou maus, conforme a natureza das nossas disposições íntimas. Ligam-se a nós por uma certa semelhança de gostos, de acordo com nossas inclinações pessoais. A duração de suas relações, que também são temporárias, se acha subordinada a determinadas circunstâncias, vinculadas à persistência dos desejos e do comportamento de cada um. Se simpatizam com nossos ideais, com nossos projetos, procuram nos ajudar e,muitas vezes, tomam nossas dores contra nossos adversários, situação em que não contam com o beneplácito dos Espíritos protetores.

Portanto, ninguém, absolutamente ninguém, está desamparado.

Entretanto, Deus não nos atende pessoalmente, conforme nossos caprichos, mas por intermédio das suas leis imutáveis e de seus mensageiros, isto é, Deus auxilia as criaturas por intermédio das criaturas. Apesar disso, os orientadores espirituais não fazem por nós o trabalho que nos compete para o nosso crescimento moral e intelectual. Não existe parcialidade nem privilégio nas leis divinas, ou seja, cada um recebe de acordo com o seu merecimento, de conformidade com seus esforços.

O amigo espiritual comparece quando é invocado, por meio de uma simples prece.

Para ele, não há distância, lugar, tempo ou barreiras que o impeçam de atender a um apelo sincero, seja onde for: no lar, nos hospitais, nas ruas, no trabalho, nos cárceres e mesmo nas furnas da devassidão.

A ação dos orientadores espirituais é oculta, porque, se nos fosse permitido contar sempre com eles, seríamos tolhidos em nossa livre iniciativa e não progrediríamos.

Nisso também está a sabedoria divina, porque assim desenvolvemos melhor nossa inteligência e ganhamos mais experiência. Do contrário, permaneceríamos estacionados, como no caso de certos pais que sempre fazem tudo para os filhos, poupando-os de aborrecimentos e dificuldades, e, com isso, tirando deles a oportunidade do aprendizado e da experiência, com graves prejuízos para a sua formação moral.

Os Espíritos infelizes, ainda presos nas malhas da ignorância, que se empenham em nos desviar do bom caminho, por meio dos maus pensamentos e de outras estratégias que encontram motivação em nossas próprias fraquezas, não têm missão de fazer o mal.

Praticam esses atos por sua própria conta e responsabilidade e um dia terão que resgatar seus erros.

São Espíritos ainda atrasados moralmente, quais fomos um dia – de cujas mazelas também não nos libertamos integralmente –, e que, por sua vez, igualmente despertarão para o bem. Sua presença, entre nós, é útil, porque permite o adestramento de nossas faculdades, constituindo mesmo um campo de provas ou expiações, cujos obstáculos nos compete superar, na busca de caminhos alternativos para a libertação de nossas imperfeições que, na realidade, são o chamariz desses supostos adversários.

Como visto o Pai não nos cria a esmo, sem proteção, planejamento e finalidade. Dá-nos, em plenitude, todos os suprimentos necessários ao nosso desenvolvimento, tendo nos Espíritos protetores “[...] os mensageiros de Deus, encarregados de velar pela execução de seus desígnios em todo o Universo, que se sentem ditosos com o desempenho dessas missões gloriosas [...]”, (11) protetores esses que se utilizam do auxílio ou assessoramento dos guias espirituais das classes menos elevadas.

Os anjos ou protetores espirituais de hoje são os homens de ontem, que evoluíram, deixando para trás a animalidade. Essa ligação e interdependência entre os Espíritos das diversas faixas evolutivas, em permanente contato com o plano físico, formam o caleidoscópio da grande família universal, evidenciando as leis da unidade da Criação e da solidariedade entre os seres.

Deus, nosso Pai, não nos quer como autômatos, mas sim como parceiros, cocriadores, coparticipes, que temos a ventura de alcançar a perfeição pelas próprias forças, desfrutando o mérito da vitória sobre nós mesmos.

Lembremo-nos, finalmente, de que cada um de nós, encarnados, também pode e deve amparar o próximo, de acordo com a nossa capacidade e independente de nosso estágio evolutivo.

Assim procedendo, estaremos, por nossa vez, atuando como auxiliares dos guias espirituais, para o cumprimento dos desígnios divinos, na infinita escala que dá acesso aos cumes evolutivos.



(1) KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Ed. Comemorativa do Sesquicentenário. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Q. 489-521.
(2) Idem. A gênese. 52. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 1, item 30.
(3)Idem. O céu e o inferno. 60. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. P. 1, cap. 8.
(4)Idem. Obras póstumas. 40. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2207. P. 2, A minha primeira iniciação no Espiritismo, item Meu Guia espiritual, p. 304.
(5)FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos enriquecedores. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador, BA: LEAL, 1994.
(6)KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Ed. Comemorativa do Sesquicentenário. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Q. 500.
(7)Entenda-se “familiares” num sentido mais amplo e não apenas no sentido da parentela corporal.
(8)XAVIER, Francisco C. E a vida continua... Pelo Espírito André Luiz. Ed. Especial. 1. Reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008.Cap. 25.
(9)Idem. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 34. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 15.
(10)Idem. Missionários da luz. 43. ed. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Cap. 12.
(11)KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007. P. 1, cap. 1, item 2, p. 22.

CHRISTIANO TORCHI
Reformador Jun/09

terça-feira, 1 de junho de 2010

JUDAS ISCARIOTE/JOANA D’ARC



Nota do compilador: Trecho do romance "Solar de Apolo" que narra a vivência de um grupo familiar há centenas de anos.

Após o convite filial que Políbio dirigiu a seus protetores da infância, decorreram algumas semanas e, por uma tarde hibernal, chegaram aqueles dois amigos ao Solar de Jesus, sendo recebidos com o maior acatamento e carinho por todos os presentes. Nereu e sua consorte já haviam partido para o além.

Depois de refeitas as forças orgânicas, esgotadas em aspérrimas lutas, tendo ambos sido substituídos no templo de Delfos, e, com a recepção afetuosa que lhes fora dispensada, alguns dias após sentiam-se reanimados, embora envelhecidos e algo abatidos.

- Estamos nas proximidades do Solar de Minerva, que pertenceu a meus pais, e, logo depois de sua morte, era meu e de minha desditosa irmã, disse Samuel a seu filho adotivo.

- Quereis ir vê-lo, pai? Mandarei aprestar a sela para vos levar.

- Não, filho, não o quero ver, jamais. Era também meu desejo, Políbio, jamais penetrar neste castelo, ou antes, nesta região, onde tanto padecemos eu e meus entes queridos, mas o Destino impeliu-me a agir de modo contrário, para minha humilhação, ou meu maior conforto. É sempre caprichosa a nossa sina! Temos que nos curvar sob o seu império inexorável!

- Não, pai, respondeu-lhe o jovem inspirado. Em bendita hora vós me levastes ao templo de Delfos onde desabrochou a faculdade psíquica que me salvou do mais bárbaro delito e do suicídio. As luzes que lá me foram transmitidas, em hora oportuna, foram-me preciosas, pois, após haver sido decepado meu braço direito, compreendi que assim foi decretado pelo Juiz Supremo para não cometer um revoltante crime que iria ofender esfacelar os corações que, até então, tinham sido mais generosos para comigo.

Pois, pensaste filho, em exterminar teu companheiro de infância? Interpelou-o Samuel admirado.

- Sim, pai, e, neste momento, eu vos imploro perdão, como já o fiz, inúmeras vezes, ao Magistrado universal. Eu fui preterido por aquela que eu já julgava noiva e, embora não vos houvesse revelado, agora confesso toda a verdade: quase enlouqueci de desespero e quis impedir que outrem fruísse a felicidade que eu desejava para mim. Tudo se passou no recesso de minha alma e, foi quando ouvi um amigo invisível bradar a meus ouvidos: - “Foge, desventurado Políbio, para que não apunhales corações amigos e paternais!”

Obedeci ao imperativo da voz tutelar e quanto tenho agradecido ao Pai celestial o haver me proporcionado tão desvelados inspiradores! Deus tudo remediou nos momentos angustiosos. Nunca havia sonhado com a pose deste Solar que, se já foi o palco de cenas condenáveis, hoje é o refúgio dos desventurados, o conforto dos discípulos de Jesus!

Eu, que já perpetrei diversos homicídios em vidas anteriores e, para que não fosse também assassino na que decorre, o alfanje da Tamis divina decepou o meu braço direito! Ao princípio, nos primeiros dias do martírio moral eu me revoltei contra o Destino, mas, depois, quanto o tenho bendito! O Destino, pois, pai, não é arbitrário, mas baseado no Código celestial.

Tudo quanto nos sucede tem uma base real na vida presente ou nas outras peregrinações planetárias, já transcorridas. Por mais que nos atormente essa verdade, devemos nos resignar com os sucessos dolorosos de nossas existências materiais e agradecer ao Sumo Juiz por nos ter proporcionado o ensejo de resgate de uma dívida penosa.

- Muito te agradeço filho, as elucidações que acabo de receber! Exclamou Samuel, apertando a mão de Políbio. Não duvidarei, jamais, de que tens recebido as inspirações dos Mensageiros celestes!

- Obrigado, pai! Todos os nossos esforços devem tender para culminar este objetivo: nossa Redenção espiritual!

- Dizei-me, pai, como deixastes a missão que desempenháveis em Delfos.

Samuel deixou transparecer profunda melancolia no olhar, e respondeu:

- Por enquanto, prossegue a obra de paz e espiritualização que tem por centro de forças aquele Santuário, mas fomos informados pelos nossos mentores de que as condições de trabalho se tornam cada vez mais difíceis e que talvez tenhamos de cessar as nossas atividades no plano físico, lá, por longos séculos. As trevas preparam uma aliança nefanda com os bispos cristãos, em conseqüência da qual eles abandonarão os princípios da sua religião, para participar do governo material do mundo. Prevê-se um demorado período de deturpação dos ensinos de Jesus. Fadado a desaparecer da superfície da Terra, o império romano tentará sobreviver na consciência dos homens pelo terror. Não será possível impedi-lo porque a humanidade em conjunto adora ao bezerro de ouro, evolui lentamente e não está apta a apreciar em seu justo valor as lições de Jesus. Durante muitos séculos os homens ainda buscarão os gozos efêmeros da matéria, o poder temporal, esquecidos do espírito e desprezando as revelações cristãs. Mas a dor e a desilusão os acompanharão e um dia todos serão despertos para a Verdade. Até lá, deveremos trabalhar sem desfalecimento, hora a hora, minuto a minuto, sem indagar se chegaremos a ver os frutos do nosso labor. Todos os homens estão fadados a se tornar gênios do bem, por muito que se transviem e retardem. Herodes, o autor da matança dos inocentes, virá a ser mais tarde o protetor da infância desvalida com o nome de Vicente de Paulo. Judas Iscariotes renascerá como Joana D’Arc; os sumos sacerdotes que condenaram Jesus serão os maiores defensores e divulgadores da sua doutrina, futuramente. Portanto, não há razão para o pessimismo. Só o Bem é eterno, porque emana de Deus; o mal é apenas o Bem ainda imperfeito, como o diamante é o brilhante ainda não lapidado.

(Espírito de Victor Hugo - Obra: O Solar de Apolo - Zilda Gama).