terça-feira, 1 de junho de 2010

JUDAS ISCARIOTE/JOANA D’ARC



Nota do compilador: Trecho do romance "Solar de Apolo" que narra a vivência de um grupo familiar há centenas de anos.

Após o convite filial que Políbio dirigiu a seus protetores da infância, decorreram algumas semanas e, por uma tarde hibernal, chegaram aqueles dois amigos ao Solar de Jesus, sendo recebidos com o maior acatamento e carinho por todos os presentes. Nereu e sua consorte já haviam partido para o além.

Depois de refeitas as forças orgânicas, esgotadas em aspérrimas lutas, tendo ambos sido substituídos no templo de Delfos, e, com a recepção afetuosa que lhes fora dispensada, alguns dias após sentiam-se reanimados, embora envelhecidos e algo abatidos.

- Estamos nas proximidades do Solar de Minerva, que pertenceu a meus pais, e, logo depois de sua morte, era meu e de minha desditosa irmã, disse Samuel a seu filho adotivo.

- Quereis ir vê-lo, pai? Mandarei aprestar a sela para vos levar.

- Não, filho, não o quero ver, jamais. Era também meu desejo, Políbio, jamais penetrar neste castelo, ou antes, nesta região, onde tanto padecemos eu e meus entes queridos, mas o Destino impeliu-me a agir de modo contrário, para minha humilhação, ou meu maior conforto. É sempre caprichosa a nossa sina! Temos que nos curvar sob o seu império inexorável!

- Não, pai, respondeu-lhe o jovem inspirado. Em bendita hora vós me levastes ao templo de Delfos onde desabrochou a faculdade psíquica que me salvou do mais bárbaro delito e do suicídio. As luzes que lá me foram transmitidas, em hora oportuna, foram-me preciosas, pois, após haver sido decepado meu braço direito, compreendi que assim foi decretado pelo Juiz Supremo para não cometer um revoltante crime que iria ofender esfacelar os corações que, até então, tinham sido mais generosos para comigo.

Pois, pensaste filho, em exterminar teu companheiro de infância? Interpelou-o Samuel admirado.

- Sim, pai, e, neste momento, eu vos imploro perdão, como já o fiz, inúmeras vezes, ao Magistrado universal. Eu fui preterido por aquela que eu já julgava noiva e, embora não vos houvesse revelado, agora confesso toda a verdade: quase enlouqueci de desespero e quis impedir que outrem fruísse a felicidade que eu desejava para mim. Tudo se passou no recesso de minha alma e, foi quando ouvi um amigo invisível bradar a meus ouvidos: - “Foge, desventurado Políbio, para que não apunhales corações amigos e paternais!”

Obedeci ao imperativo da voz tutelar e quanto tenho agradecido ao Pai celestial o haver me proporcionado tão desvelados inspiradores! Deus tudo remediou nos momentos angustiosos. Nunca havia sonhado com a pose deste Solar que, se já foi o palco de cenas condenáveis, hoje é o refúgio dos desventurados, o conforto dos discípulos de Jesus!

Eu, que já perpetrei diversos homicídios em vidas anteriores e, para que não fosse também assassino na que decorre, o alfanje da Tamis divina decepou o meu braço direito! Ao princípio, nos primeiros dias do martírio moral eu me revoltei contra o Destino, mas, depois, quanto o tenho bendito! O Destino, pois, pai, não é arbitrário, mas baseado no Código celestial.

Tudo quanto nos sucede tem uma base real na vida presente ou nas outras peregrinações planetárias, já transcorridas. Por mais que nos atormente essa verdade, devemos nos resignar com os sucessos dolorosos de nossas existências materiais e agradecer ao Sumo Juiz por nos ter proporcionado o ensejo de resgate de uma dívida penosa.

- Muito te agradeço filho, as elucidações que acabo de receber! Exclamou Samuel, apertando a mão de Políbio. Não duvidarei, jamais, de que tens recebido as inspirações dos Mensageiros celestes!

- Obrigado, pai! Todos os nossos esforços devem tender para culminar este objetivo: nossa Redenção espiritual!

- Dizei-me, pai, como deixastes a missão que desempenháveis em Delfos.

Samuel deixou transparecer profunda melancolia no olhar, e respondeu:

- Por enquanto, prossegue a obra de paz e espiritualização que tem por centro de forças aquele Santuário, mas fomos informados pelos nossos mentores de que as condições de trabalho se tornam cada vez mais difíceis e que talvez tenhamos de cessar as nossas atividades no plano físico, lá, por longos séculos. As trevas preparam uma aliança nefanda com os bispos cristãos, em conseqüência da qual eles abandonarão os princípios da sua religião, para participar do governo material do mundo. Prevê-se um demorado período de deturpação dos ensinos de Jesus. Fadado a desaparecer da superfície da Terra, o império romano tentará sobreviver na consciência dos homens pelo terror. Não será possível impedi-lo porque a humanidade em conjunto adora ao bezerro de ouro, evolui lentamente e não está apta a apreciar em seu justo valor as lições de Jesus. Durante muitos séculos os homens ainda buscarão os gozos efêmeros da matéria, o poder temporal, esquecidos do espírito e desprezando as revelações cristãs. Mas a dor e a desilusão os acompanharão e um dia todos serão despertos para a Verdade. Até lá, deveremos trabalhar sem desfalecimento, hora a hora, minuto a minuto, sem indagar se chegaremos a ver os frutos do nosso labor. Todos os homens estão fadados a se tornar gênios do bem, por muito que se transviem e retardem. Herodes, o autor da matança dos inocentes, virá a ser mais tarde o protetor da infância desvalida com o nome de Vicente de Paulo. Judas Iscariotes renascerá como Joana D’Arc; os sumos sacerdotes que condenaram Jesus serão os maiores defensores e divulgadores da sua doutrina, futuramente. Portanto, não há razão para o pessimismo. Só o Bem é eterno, porque emana de Deus; o mal é apenas o Bem ainda imperfeito, como o diamante é o brilhante ainda não lapidado.

(Espírito de Victor Hugo - Obra: O Solar de Apolo - Zilda Gama).

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