quinta-feira, 10 de junho de 2010

UM ÍDOLO DE BARRO



Não era ela que me pedia nada: era eu que lhe dava tudo que possuía.

Era eu que não via, senão com seus olhos; não ouvia senão com seus ouvidos; não pensava, não sentia, senão pela sua cabeça e seu coração; meus lábios sorriam, se ela estava alegre; meus olhos choravam, se ela estava triste... E minha vida era vazia, porque eu não era eu; eu era ela. E ela partiu para não mais voltar. E eu fiquei morto... completamente morto ...

Meu corpo se movimentava, eu falava, andava, mas em mim havia um cadáver ... Eu deixara de existir ...

Um dia também parti e me encontrei nas trevas.

Tateava naquela imensa escuridão, mas não percebia nada onde me encontrava e o que era feito de mim.

Uma voz doce e amiga balbuciou o meu nome ... e eu acordei. E vi ao meu lado um rosto iluminado e chio de bondade.

Não compreendi por que estava ali, num ambiente estranho, e perguntei àquela figura refulgente – “Quem sois? Que lugar é este? Por que estou aqui?”

Aquele personagem olhou-me comovido e numa voz que mais parecia um sussurro, assim falou – “Sou teu irmão, Estás na fronteira da Terra com o espaço. Deixaste do outro lado aquele corpo morto, e agora acordaste. Vou te dizer, irmão, que na realidade não viveste um só dia na Terra. Tua vida foi desperdiçada, porque te fizeste idólatra de ‘Um ídolo de barro’. Tua vida não foi acrescida de um milésimo de aproveitamento e além de tudo, destruíste outra vida. Aquele que se sabe centro de atenção, o objeto de idolatria, em geral, torna-se um ser despótico , egoísta e perverso. Perdeste a tua vida e destroçaste outra que carregou consigo a maldição de outras vidas sacrificadas pelo seu despotismo.

“És suicida, assassino e ladrão.

“Pena, meu irmão, que carregues um fardo tão pesado e que tenhas que arrastar contigo pelas vidas afora, até a ajudares a refazer tudo que por inércia e ignorância arruinaste.

“Estou aqui porque é esta a minha missão. Tu és meu irmão, seja qual for a tua culpa.

‘Queres seguir-me?”

Fiquei aterrado, ante a exposição de tudo que fizera! No entanto eu me julgava a melhor criatura do mundo! Eu não fizera mal a ninguém! Vivera só para ela e morrera quando seu corpo tombara sem vida, embora meu fantasma continuasse ainda por alguns anos envolto nas vestes da matéria.

***

São passados séculos desde então.

Hoje, com a ajuda de Deus, através daquele amigo que me acolheu, eu me reabilitei.

Se não sou um iluminado, sou um espírito liberto conscientemente de algumas algemas que aprisionam o ser encarnado. Posso pois, Ter a alegria de trazer alguns conselhos àqueles que ainda só vêem com os olhos da carne.

Não vos apegueis demasiado a alguém nem a coisa alguma.

Libertai-vos da idolatria. Adora a Deus nas Suas infinitas manifestações . Mas adorar não é se aprisionar, não é se sentir amedrontado ante as coisas ou as pessoas. É se entrosar na vida, é vivê-la integralmente, conscientemente , a tudo se dedicando amorosamente com o fito de se aperfeiçoar e de ajudar a tudo que tocarmos ou estiver no nosso caminho.

Se não nos restringirmos a um ambiente limitado, mas expandirmos em pensamentos de amor; a toda a humanidade, poderemos penetrar nos infinitos mundos a que devemos aspirar.

Não vos restrinjais a um ‘ídolo de barro’.

Cenyra Pinto
Do livro “Levanta-te e anda ...”

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