sexta-feira, 11 de junho de 2010

UMA VIDA DE EQUÍVOCOS

“Por intermédio de um amoroso instrutor desta casa, utilizo-me da escrita para dar meu testemunho de vida, a fim de que sirva de exemplo para muitos dos que se perdem nos caminhos negros da vida. Fui um jovem de abastada condição material, tendo absolutamente tudo o que sonhara como menino mimado que era e depois na adolescência, vivenciando experiências as mais vibrantes no sentido do prazer. Freqüentei as melhores escolas e vestia-me com a indumentária ditada pela moda, sempre desejoso de ostentar minha condição social.

Meus pais, em sua ingênua ignorância, supunham que a mim bastava a satisfação dos desejos e sequer exigiam um bom desempenho na escola. Fui o último filho, o mais desejado de todos, portanto, tive em vida todas as regalias que pode ter uma criatura em sua sede de prazer e sonhos.

Bem cedo descobri o mundo. Buscava em meus amigos, nas noites quentes de minha cidade, as aventuras que pudessem me saciar. Por não ter tido nenhuma formação religiosa ou instrução no sentido moral, não via nenhuma razão para não vivenciar as experiências que julgava prazerosas. Sem limites, procurava a cada dia novas e ardentes aventuras, no que pude deleitar-me com mulheres e homens, mas principalmente com estes últimos, o que me trazia enorme prazer e satisfação íntima. Descobri, a partir de um certo tempo, um novo mundo íntimo e procurei por todos os meios encontrar minha felicidade nessa nova condição. Entretanto, já me encontrava em um meio promíscuo e ali mesmo permaneci, permitindo-me as mais torpes vivências que, se me traziam a felicidade momentânea, mortificava minha alma nos dias subsequentes.

Experimentei tudo nesse meio, das drogas lícitas às ilícitas, naturalmente. Estas, tendo um tráfego livre nas reuniões sociais de pessoas consideradas de bem pela sociedade, em um ambiente aonde a hipocrisia campeia e a necessidade dos infelizes, como eu, de ter sobre si os holofotes da fama, trazem à tona comportamentos que parecem saídos do mais primitivo dos homens.

Com uma vida em completo desequilíbrio em todos os sentidos, logo adquiri a pavorosa moléstia que, em princípio, todos supunham não ter tanta gravidade. Ainda em fase incipiente das pesquisas sobre ela, não pude me beneficiar de quase nenhum tratamento e em pouco tempo vi meu corpo ser devorado, meus músculos desaparecerem e a evidência de meus ossos no espelho me fez refletir duramente sobre o que havia feito de minha vida. De meus amigos, apenas um permaneceu comigo até o fim. Parte de minha família acusava-me em silêncio, porém, guardo com carinho a doce expressão de tolerância e perdão de minha mãe, que em meu leito de morte disse: “Quisera ser eu em seu lugar, meu filho”.

Amigos, já faz alguns anos do meu desencarne e, após permanecer por muito tempo nas regiões de sofrimento em contato com os que desvalorizaram a vida, fui atendido em minhas preces de desespero por equipes de socorro desta casa. Estou em um lugar de recuperação por um tempo que não sei precisar muito bem, mas o instrutor me diz que pode ser contabilizado em dois anos. Aguardo ocasião de servir mais, instruindo-me sempre para que um dia possa ter a ventura de retornar à carne e refazer toda uma vida perdida na ilusão da matéria, da riqueza, do poder, do brilho do vil metal, da hipocrisia e da ilusão de que tudo se acaba com a morte”. – Um irmão arrependido


Espírito: Um irmão arrependido
Sociedade de Estudos Espíritas Allan Kardec

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