sábado, 21 de agosto de 2010

ANTE O AMIGO SUBLIME DA CRUZ


Hoje, Senhor, ajoelho-me diante da cruz onde expiraste entre ladrões...
Amigo Sublime, digna-Te abençoar as cru-zes que mereço!...
De Ti anunciou o profeta que Te levanta-rias, junto do povo de Deus, como arbusto verde em solo árido ; que não permanecerias, entre nós, como os príncipes acastelados na glória humana, e sim como homem de dor, experimentado nos trabalhos e sofrimentos ; que passarias na Terra, ocultando Tua grandeza aos nossos olhos, à maneira de leproso humilhado e desprezível, mas que, nas Tuas chagas e nas Tuas pisaduras, sararíamos as nossas iniqüidades, redimindo nossos crimes; que poderias revelar ao mundo a divindade de Tua ascendência, demonstrando o Teu infinito poder e que, no entanto, preferirias a suprema renúncia, caminhando como a ovelha muda para o matadouro ; e que, embora assinalado como o Escolhido Celeste, serias sepultado como ladrão comum... Acrescentou Isaias, porém, que, depois de Teu derradeiro sacrifício, novas esperanças desabrochariam no plano escuro da Terra, através daqueles que seriam os Teus continua dores, na abnegação santificante!...
E as Tuas lágrimas, Senhor, orvalharam o deserto de nossos corações e as abençoadas sementes de Teus ensinamentos vivos germinaram no solo ingrato do mundo.
Mais de dezenove séculos passaram e tenho ainda a impressão de ouvir-Te a voz compassiva, suplicando perdão para os algozes...
Ah! Jesus, compadece-Te de minhas franquezas e vem, ainda, balsamizar-me o coração ferido e desalentado! ensina-me a despir a ultima roupagem de mundana esperança, dá-me forças para olvidar as últimas ilusões!
Sem que merecesses, atravessaste o caminho de dor, suportando o madeiro da ignomínia! Ajuda-me, pois, a suportar o madeiro de lágrimas que mereço, no resgate de meus imensos débitos!
Amigo Sublime, que subiste o monte da crucificação, redimindo a alma do mundo, ensinando-nos, do cume, a estrada de Teu Reino, auxilia-me a descer para o vale fundo do anonimato, a fim de que eu veja as minhas próprias necessidades, na solidão dos pensamentos humildes.
Mestre, que representa minha dor, diante da Tua? Quem sou eu, mísero pecador, e quem és Tu, Mensageiro da Luz Eterna?
De quantas chagas necessita o meu frágil coração para expungir os cancros seculares do egoísmo, e de quantos açoites precisarei para exterminar o orgulho impenitente?
Abre-me a porta de tuas consolações deteve, para que me renove à luz de Tua bênção!
Não Te peço, Senhor, como o rico da Parábola, a permissão de voltar ao mundo, a fim de anunciar aos que ainda amo a grandeza de Teu poder; entretanto, rogo o Teu auxílio, para que me não falte visão no caminho redentor. Não posso precipitar-me no abismo que separa a minha fragilidade da Tua magnificência; todavia, posso atravessá-lo, passo a passo, como peregrino de Tua misericórdia. Coração oprimido e cansado pelas sombras de minha própria alma, dá que me desfaça, sem custo, dos derradeiros enganos, antes de seguir mais firmemente a Teu encontro! Despojado de meus transitórios tesouros, mãos limpas das jóias que me fugiram dos dedos trêmulos, concede-me o bordão dos caminheiros, aparentemente sem rumo por se destinarem aos países ignorados do Céu!
Rendo-me, agora, sem condições, ao Teu amor infinito, confio-Te minhas ansiedades supremas e meus sonhos mais ternos de lutador, e já que é necessário abandonar o meu velho cântaro de fantasias, troca-me a túnica das ultimas vaidades literárias pelo burel humilde do viajor, interessado em atingir o berço distante, embora os atalhos difíceis e pedregosos!
Enche a solidão de meu espírito com a Tua luz, como encheste de perdão, um dia, a noite de nossa ignorância! Desvenda-me a Tua vontade soberana, para que eu me retive, sem esforço, das grades infelizes do capricho terrestre! Ainda que eu não possa divisar todos os escaninhos da nova senda, dá-me Tua claridade misericordiosa, para que meus olhos imperfeitos não andem apagados.
Mestre, atende ao peregrino solitário que Te fala, ao pé da cruz, com a dor sem revolta e com a amargura sem desesperação!
Amigo Sublime, Tu, que preferiste o madeiro do sacrifício, entre o mundo que Te repelia e o Céu que Te reclamava, por amor aos homens e obediência ao Pai, orienta-me na jornada nova! Se é possível, retira da cruz a, destra generosa, que cravamos no lenho duro da ingratidão com as nossas maldades milenárias, e abençoa-me para o longo roteiro a percorrer!
Tenho a alma sombria e enregelado o corarão!
E enquanto passam, inquietas, as multidões ociosas do mundo, no turbilhão de poeira venerada, fala-me, Senhor, como falavas aos paralíticos e cegos de Teu caminho:
– “Levanta-te e vai em paz! A tua fé te salvou!...”

Irmão X
Livro “Lázaro Redivivo”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

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