sábado, 13 de novembro de 2010

O ESPIRITISMO OBRIGA

O Espiritismo é uma ciência essencialmente moral. Então os que se dizem seus adeptos não podem, sem cometer uma grave inconseqüência, subtrair-se às obrigações que impõe.

Essas obrigações são de duas sortes.

A primeira concerne o indivíduo que, ajudado pelas claridades intelectuais, que a doutrina espalha, pode melhor compreender o valor de cada um de seus atos, melhor sondar todos os retalhos de sua consciência, melhor apreciar a infinita bondade de Deus, que não quer a morte do pecador mas que se converta e viva e, para lhe deixar a possibilidade de erguer-se de suas quedas, lhe deu a longa série de existências sucessivas, a cada uma das quais, levando o peso de suas faltas passadas, pode adquirir novos conhecimentos e novas forças, fazendo-o evitar o mal e praticar o que é conforme à justiça, à caridade. Que dizer daquele que, assim esclarecido quanto aos seus deveres para com Deus, para com os irmãos, fica orgulhoso, cúpido, egoísta? Não parece que a luz o tenha esquecido, porque não estava preparado para a receber? Desde então marcha nas trevas, posto esteja em meio à luz. Só é Espírita de nome. A caridade fraterna dos que vêem realmente deve esforçar-se por curá-lo dessa cegueira intelectual. Mas para muitos dos que lhe parecem, será preciso a luz que o túmulo traz, porque seu coração está muito ligado aos prazeres materiais e seu espírito não está maduro para receber a verdade. Numa nova encarnação compreenderão que os planetas inferiores, como a Terra, não passam de uma espécie de escola mútua, onde a alma começa a desenvolver suas faculdades, suas aptidões, para em seguida as aplicar ao estudo dos grandes princípios da ordem, da justiça, do amor e da harmonia, que regem as relações das almas entre si, e as funções que desempenham na direção do Universo. Eles sentirão que, chamada a uma tão alta dignidade, qual a de se tornar mensageira do Altíssimo, a alma humana não deve aviltar-se, degradar-se ao contato dos prazeres imundos da volúpia; das ignóbeis tentações da avareza, que subtrai a alguns filhos de Deus o gozo dos bens que deu a todos; compreenderão que o egoísmo, nascido do orgulho, cega a alma e a faz violar os direitos da justiça, da humanidade, desde que gera todos os males que fazem da terra um lugar de dores e de expiações. Instruídos pelas duras lições da adversidade, seu espírito será amadurecido pela reflexão, e seu coração, depois de ter sido ralado pela dor, tornar-se-á bom e caridoso. É assim que o que vos parece um mal, por vezes é necessário para reconduzir os endurecidos. Esses pobres retardatários, regenerados pelo sofrimento, esclarecidos por esta luz interior, que se pode chamar o batismo do Espírito, velarão com cuidado sobre si mesma, isto é, sobre os movimentos do coração e o emprego de suas faculdades. Compreenderão que não são apenas obrigados a eles próprios se melhorarem, cálculo egoísta que impede atingir o objetivo visado por Deus, mas que a segunda ordem de obrigação do Espírita, decorrendo necessariamente da primeira e a completando, é a do exemplo, que é o melhor dos meios de propagação e de renovação.
Com efeito, aquele que está convencido da excelência dos princípios que lhe são ensinados, e devem, se a eles conforme a sua conduta, lhe proporcionar uma felicidade duradoura, não pode, se estiver verdadeiramente animado desta caridade fraterna, que está na essência mesma do Espiritismo, senão desejar que sejam compreendidos por todos os homens. Daí, a obrigação moral de conformar sua conduta com a sua crença e ser um exemplo vivo, um modelo, como o Cristo o foi para a humanidade.
Vós, fracas centelhas partidas do eterno foco do amor divino, certamente não podeis pretender uma tão vasta radiação quando a do Verbo de Deus encarnado na Terra, mas cada um, na vossa esfera de ação, podeis espalhar os benefícios do bom exemplo. Podeis fazer amar a virtude, cercando-a do encanto dessa benevolência constante, que atrai, cativa e mostra, enfim, que a prática do bem é coisa fácil, faz a felicidade íntima da consciência que se colocou sob sua lei, pois ela é a realização da vontade divina, que nos fez dizer por seu Cristo: Sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.
Ora, o Espiritismo não é senão a aplicação verdadeira dos princípios de moral ensinada por Jesus, porque não é senão com o objetivo de a fazer por todos compreendida, a fim que por ela todos progridam mais rapidamente, que Deus permite esta universal manifestação do Espírito, vindo vos explicar o que vos parecia obscuro e vos ensinar toda a verdade. Vem, como o cristianismo bem compreendido, mostrar ao homem a absoluta necessidade de sua renovação interior pelas conseqüências mesmas que resultam de cada um de seus atos, de cada um de seus pensamentos. Porque nenhuma emanação fluídica, boa ou má, escapa do coração ou do cérebro do homem sem deixar um sinal em qualquer parte. O mundo invisível que vos cerca á para vós esse Livro de vida, onde tudo se inscreve com uma incrível fidelidade, e a Balança da Justiça divina não é senão uma figura, exprimindo que cada um dos vossos atos, cada um dos vossos sentimentos é, de certo modo, o peso que carrega a vossa alma e a impede de se elevar, ou que traz o equilíbrio entre o bem e o mal.
Feliz aquele cujos sentimentos partem de um coração puro: espalha em seu redor como uma suave atmosfera, que faz amar a virtude e atrai os bons Espíritos; seu poder de radiação é tanto maior quanto mais humilde for, isto é, mais desprendido das influências materiais que atraem a alma e a impedem de progredir.
As obrigações impostas pelo Espiritismo são, pois, de uma natureza essencialmente moral; são uma conseqüência da crença; cada um é juiz e parte em sua própria causa; mas as claridades intelectuais que traz a quem realmente quer conhecer-se a si mesmo e trabalhar em seu melhoramento são tais que amedrontam os pusilânimes e, por isto, ele é rejeitado por tão grande número. Outros tratam de conciliar a reforma que sua razão lhes demonstra ser uma necessidade, com as exigências da sociedade atual. Daí uma mistura heterogênea, uma falta de unidade, que faz da época atual um estado transitório. É tão difícil à vossa pobre natureza corporal se despojar de suas imperfeições para revestir o homem novo, isto é, o homem que vive segundo os princípios de justiça e de harmonia queridos por Deus. Com esforços perseverantes, nada obstante, lá chegareis, porque as obrigações impostas à consciência, quando suficientemente esclarecida, têm mais força que jamais terão as leis humanas, baseadas no constrangimento de um obscurantismo religioso que não suporta o exame. Mas se, graças às luzes do alto, fordes mais instruídos e compreenderdes mais, também deveis ser mais tolerantes e não empregar, como meio de propagação, senão o raciocínio, porque toda crença sincera é respeitável. Se vossa vida, for um belo modelo em que cada um possa achar bons exemplos e sólidas virtudes, onde a dignidade se alia a uma graciosa amenidade, rejubilai-vos, porque tereis, em parte, compreendido a que obriga o Espiritismo.

Espírito de Luís de França - Revista Espírita de 1866

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