segunda-feira, 1 de novembro de 2010

OS ATALHOS E O DEVER ESPÍRITAS

"... E farão grandes prodígios e maravilhas tais, que enganarão a muitos".

Assistimos, nos dias que correm, numa confirmação do que está previsto nos Evangelhos, e com maior lucidez nas obras codificadoras do Espiritismo, ao desfilar dos escândalos em torno de certos fenômenos que nem sempre podem ser levados à conta de mediúnicos. Em nome da Mediunidade, quantos exploradores da fé cometem aventuras, expondo ao ridículo um dom concedido por Deus para que o Homem pudesse se aprimorar na trilha do cristianismo redivivo, principalmente pela prática da caridade verdadeira.

Em "O Livro dos Médiuns" Allan Kardec refere-se claramente aos sistemas de charlatanismo, alertando-nos sobre as parvoíces que adviriam. E aduz que "abusa-se de tudo, mesmo das coisas santas, porque não se abusaria do Espiritismo?" Rivail lembra, a seguir, que o mau uso que se pode fazer de uma coisa não pode fazer prejulgar nada contra esta própria coisa, "pois o controle que se pode ter quanto à boa fé das pessoas, está nos motivos que as fazem agir". E arremata sabiamente: "onde não há especulação, o charlatanismo nada tem a fazer".

Evidentemente, toda esta gama de acontecimentos lastimáveis rotulados de Espíritas pela falta de vigilância da imprensa, nada têm de Espíritas. A morte de um médium desviado, por exemplo, que se deslocava quinzenalmente para a Guanabara ou São Paulo e de onde regressava ao seu Estado com alguns milhões na valise, resultado das operações (dizendo que mantinha obras filantrópicas), está rendendo nos jornais ávidos pela multiplicação dos leitores. E envolvendo irresponsavelmente a Doutrina Espírita no balaio-de-gatos em que se constitui a mediunidade destes cidadãos. O Espiritismo também não tem culpa pela exploração que se faz do espírito do Dr. Fritz, atualmente "baixando" aqui, ali e acolá, como "guia" dos mais anímicos "cavalos", em ambientes revestidos do primitivismo que aquele Dr. Adolf Fritz verdadeiro de Congonhas do Campo condenava, recomendando a todos as obras de Kardec.

E tudo isto vai ocorrendo numa escala cada vez mais assustadora, principalmente porque os desesperados, os afligidos pelas doenças correm logo para os curandeiros, esquecendo-se de que a cura pode vir com o simples e poderoso recurso da prece sincera dirigida ao Alto de coração. O desconhecimento do que seja realmente o Espiritismo corrobora para este quadro desolador, em que os inescrupulosos empresários das imagens que sangram o ano todo e dos "professores" que operam, estabelecem verdadeiro mercantilismo com a dor alheia. Se muitos tivessem paciência para folhearem mesmo esparsamente as obras espíritas, desde Kardec a Chico Xavier, encontrariam o roteiro seguro a seguir. A afoita busca de milagres, entretanto, os conduzem aos becos sem saídas dos charlatães. Quantos não se dizem até possuídos pelo Espírito da Verdade para a substituição do Espiritismo pelas suas vaidosas e confusas fórmulas de despotismo e enriquecimento, enquanto outros vêm com revelações obsessoras e grotescas também apregoando que "o Espiritismo nada mais tem a fazer", ilaqueando os desavisados que lhes compram livros vazios, onde a irracionalidade pinta de "Racional Superior", nova barafunda surgida no mercado?

A mediunidade curadora tem sido pedra de toque de muitos escândalos por aí afora. Em virtude da proliferação dos charlatães que costumam alugar palacetes para as "consultas", cercados de um assessoramento bem remunerado e receitando medicamentos fora de série (porque de fato não figuram nas séries da farmacologia) - os médiuns verdadeiros, apóstolos da mediunidade, e numerosas instituições espíritas, se vêem vez por outra perturbados pelos equívocos de autoridades constituídas ou das citações da imprensa. Lembra muito bem o confrade Dr. Noraldino de Melo Castro: "o médium espírita, imbuído do amor ao semelhante, tem plena consciência da divindade do mandato apostólico e o exerce por meio da mediunidade curadora, com devoção e sacrifício. Não anuncia a cura de ninguém, nem recorre à propaganda para esse fim. Não explora a boa fé pública na acepção vulgar, e tampouco distribui drogas e as expõe à venda, apregoando-lhes as virtudes". (Abrimos aqui um parêntesis para lembrar aos confrades de doutrina a imperiosa necessidade de se imprimir e distribuir as mensagens espíritas, sistematicamente, onde reinem a dor, o desespero, a dúvida, a confusão, a sede de verdades libertadoras).

Foi-se o tempo em que era fácil confundir o curandeiro com o médium cristão. Hoje, distingue-se um do outro sem dificuldade. Já no ano de 1934 o íntegro juiz Dr. Edgard Ribas Carneiro lavrara sentença impronunciando médiuns acusados do exercício ilegal da medicina. O sábio julgador, examinando os autos dos processos - que ele esmiuçava com segurança e maestria, lógica e precisão, punha por terra todas as indevidas imputações feitas aos réus. Adentrava mesmo na Doutrina Espírita, explanando-lhe as conceituações fundamentais e defendendo-lhe os direitos de manifestação contra preconceitos e interesses escusos. Naquele ano de 1934, em sentença admirável, o Dr. Ribas Carneiro afirmava: "O Espiritismo propriamente dito é um conjunto de condições que se firmam no mais alto conceito moral, ajustando-se, a rigor, com os mais respeitáveis interesses de ordem social, sendo, como religião, das que mais fielmente se articulam com os preceitos cristãos (o grifo é nosso). Assim, ele está garantido, na sua pureza, pelos princípios constitucionais que regem o Brasil. Praticar o Espiritismo é concitar os homens a que se irmanem, se respeitem, se auxiliem, é pregar a paz e a Justiça, é estimular as inteligências ao aperfeiçoamento pelo estudo e pela meditação, é elevar o pensamento à perfeição". E arremata o magistrado desencarnado em 1962, "o que é crime, o que constitui ato ilícito, sujeito às penas da lei, é o que a própria lei denomina baixo espiritismo, que se caracteriza por meio de magias, de bruxedos, de sortilégios, "cangerê", "macumba", todas aquelas feitiçarias africanas que fogem radicalmente dos altos princípios do altruísmo, pois criam estados mentais graves, perturbações que chegam a provocar a loucura".

Os mistificadores, na atualidade, vestem diferentes roupagens, e costumam se apegar muito à Parapsicologia para descrédito do Espiritismo, esquecidos de que "O Livro dos Espíritos", primeira obra de Allan Kardec, reúne as cabais explicações que eles, hoje em dia, prometem dar aos que comparecem aos cursos que lhes proporcionam excelentes resultados financeiros, e nos quais o público assiste tão-somente prestidigitação quevediana e achincalhe aos médiuns verdadeiros. A propósito, esquecem-se estes "parapsicólogos" com ou sem batina, de que quando no governo do Brasil, o sr. Jânio Quadros baixou o decreto de nº 51.009, de 22 de Julho de 1961, proibindo espetáculos ou números isolados de hipnotismo e letargia, de qualquer tipo ou forma, em clubes, auditórios, palcos ou estúdios de rádio e de televisão. Não nos consta ter sido referido diploma legal refogado, daí estranhamos a facilidade com que certos "cientistas" andam por aí afora oferecendo espetáculos deprimentes. E, quando um pesquisador da autoridade de um Hernani Guimarães Andrade enfrenta os trevosos embusteiros, derrubando-os do pedestal da farsa, o video-tape gravado pela TV-Cultura de São Paulo deixa de ser apresentado. Felizmente, depois de várias gestões, obteve-se a gravação daquele debate que hoje pode ser visto em qualquer parte do Brasil, de preferência antes que o derrotado, o sr. Quevedo, chegue para enrolar os incautos.

Estes atalhos - na linguagem predileta de Luciano dos Anjos, de quem discordamos em parte e concordamos noutra - são de fato um atentado à evolução espiritual das criaturas. Igualmente nos causa espécie a notícia de que em São Paulo as autoridades estariam pressionando contra os Hospitais Espíritas, proibindo-os de aplicarem nos seus hospitalizados a terapêutica própria de sua doutrina. E por acaso já houve (e não desejamos tal coisa) pressão contra os hospitais protestantes e católicos? Seus métodos têm sofrido restrições? Estarrecedor o fato paulista, pois a própria administração estadual, não faz muito, consagrou a terapêutica espírita, entregando aos nossos confrades os loucos do Juqueri, que eram tratados antes como feras, mas que agora encontram no Espiritismo a recuperação devida - ressalvando é claro o determinismo cármico. Lembre-se os facciosos e fanáticos, os "donos da verdade" do que disseram Marcos e Mateus em seus Evangelhos sobre as curas dos enfermos e endemoniados... A propósito do caso paulista: como teria agido a Associação dos Médicos Espíritas de SP? A atitude, seja de quem for, não passa de uma intromissão indevida.

Isolemos a mistificação e defendamos de peito aberto a verdade mediúnica. Sejamos Espíritas dando permanente testemunho pela Doutrina em todos os instantes, em todas as épocas, recordando-nos de Vianna de Carvalho, Bezerra de Menezes, Cairbar Schutel, Eurípedes Barsanulfo e outros paladinos. Revendo Lombroso nos lembramos de que não há força que destrua uma verdade universal e eterna que tem vencido todas as formas de prova e fiscalização em todos os tempos. Hoje, mais do que nunca, a era é a do Espiritismo, pois assim o exigem os enigmas que as demais escolas não conseguem elucidar, mas que a partir de Kardec deixaram de ser a lâmpada debaixo do alqueire. Os que elaboram os códigos legais do país devem se precaver contra as capciosas interpretações a respeito do Espiritismo, que jamais poderá ser confundido com curandeirismo. Este visa a retribuição, e esta gera o escândalo. Espiritismo é sinônimo de pureza cristã.

Revista Internacional de Espiritismo - Junho/1974

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