domingo, 9 de janeiro de 2011

INVIGILÃNCIA: A PORTA PARA A OBSESSÃO

‘Estai de sobreaviso, vigiai e orai; por¬que não sabeis quando será o Tempo.” —Jesus. (Marcos, capítulo 13, versículo 33.)

A existência dos fatores predisponentes — causas cármicas —facilitam a aproximação dos obsessores, que, entretanto, necessitam descobrir o momento propicio para a efetivação da sintonia completa que almejam.
Este momento tem o nome de invigilância. É a porta que se abre para o mundo intimo, facilitando a incursão de pensamentos estra¬nhos, cuja finalidade é sempre o conúbio degradante entre mentes desequilibradas, o inevitável encontro entre credor e devedor, os quais não conseguiram resolver suas divergências pelos caminhos do perdão e do amor.
É o instante em que o cobrador, finalmente, bate às portas da alma de quem lhe deve. E, sempre o faz, nessas circunstâncias, pela agressão, que poderá vir vestida de sutilezas, obedecendo a um plano habilmente traçado ou de maneira frontal para atordoar e desequi¬librar de vez a vitima de hoje.
Momentos de invigilância existem muitos. Todos os temos em incontáveis ocasiões.
Citaremos alguns dos estados emocionais que representam invi¬gilância em nossa vida: revolta, ódio, idéias negativas de qualquer espécie, depressão, tristeza, desânimo, pessimismo, medo, ciúme, avareza, egoísmo, ociosidade, irritação, impaciência, maledicência, calúnia, desregramentos sexuais, vícios — fumo, álcool, tóxicos, etc.
Adverte-nos Scheilla: “Toda vez que um destes sinais venha a surgir no trânsito de nossas idéias, a Lei Divina está presente, reco-mendando-nos a prudência de parar no socorro da prece ou na luz do discernimento.” (1)
Um momento de invigilância pode ocasionar sérios problemas, se este for o instante em que o obsessor tentar conseguir a sintonia de que necessita para levar avante os seus planos de vingança.
Convém ressaltar que um minuto ou um instante de medo, re-volta, impaciência, etc., não significa necessariamente que a pessoa esteja obsidiada. Mas, sim, que uma ocasião destas poderá ser utili-zada pelo obsessor como ensejo que ele aguarda para insuflar na vitima as suas idéias conturbadas. Desde que estes estados de invigi¬lância passem a ser constantes, repetindo-se e tornando-se uma ati¬tude habitual, aí obviamente estará configurada a predisposição para o processo obsessivo.
RecordemO-nos de que qualquer idéia fixa negativa que venha nos perturbar emocionalmente, é sempre sinal de alarme, ante o qual deveremos fazer valer em nossa vida o sábio ensinamento do Mestre: “Estai de sobreaviso, vigiai e orai; porque não sabeis quando será o tempo.”

(1) Ideal Espírita, Autores Diversos, psicografia de Francisco Cândido Xavier, capítulo 27, 7ª edição CEC.

OBSESSÃO E DESOBSESSÃO
SUELY CALDAS SCHUBERT

sábado, 8 de janeiro de 2011

EM QUE DEGRAU ESTAMOS


Os Espíritos pertencem a diferentes ordens, conforme o grau de perfeição a que tenham alcançado; Espíritos puros, que atingiram a perfeição máxima; bons Espíritos, nos quais o desejo do bem é o que predomina; Espíritos imperfeitos, caracterizados pela ignorância, pelo desejo do mal e pelas paixões inferiores.
(Folheto institucional da Campanha ESPIRITISMO, UMA NOVA ERA PARA A HUMANIDADE, da FEB.)

No livro Gênesis, na Bíblia, capítulo 28, há uma passagem famosa que envolve a figura de Jacó, um dos patriarcas do povo judeu.
Certa feita, em viagem, chegando à noite num local desconhecido, deitou-se para descansar.
Dormiu e sonhou que a partir dali se erguia uma escada que se estendia até o Céu, por onde anjos subiam e desciam.
Ao lado estava Jeová, o deus bíblico, que lhe concedeu e à sua descendência a terra onde repousava e renovou suas promessas de que ampararia o povo judeu, que haveria de se estender por toda a Terra como o pó do chão.
A concessão não deu muito certo.
Os judeus, na maior parte de sua história, permaneceram sob domínio estrangeiro e a partir do ano 70 da Era Cristã, quando o general romano Tito arrasou Jerusalém e os descendentes de Jacó espalharam-se pelo Mundo, não eram triunfadores - apenas egressos de uma nação que perdera seu território.
*
Bastante sugestiva, nesta passagem, é a escada de Jacó, que se estende da Terra ao Céu.
Simboliza a jornada do Espírito rumo à perfeição.
Na medida em que desenvolvemos nossas potencialidade criadoras e aprimoramos nossos sentimentos, superando as próprias limitações, galgamos degraus, aproximando-nos cada vez mais do Céu, a plena realização como filhos de Deus na geografia da consciência.
Os anjos que sobrem e descem a escada simbolizam os Espíritos superiores, que amparam e ajudam seus irmãos em evolução, já que a solidariedade é sua característica mais expressiva.
Por isso costuma-se dizer que a felicidade do Céu é socorrer a infelicidade da Terra.
*
Em “O Livro dos Espíritos”, na questão 97, Kardec pergunta ao mentor espiritual se há um número determinado de ordens ou graus de perfeição dos Espíritos.
O mentor responde que esse número é ilimitado.
É a mesma idéia da escada que se estende ao Infinito. Impossível contar os degraus, por onde subimos rumo à perfeição. Mas, em linhas gerais, observando as características individuais, diz o mentor que poderiam reduzir-se a três ordens:
Na Primeira Ordem, os Espíritos puros, que atingiram a perfeição máxima.
Observe leitor, que o mentor não fala em perfeição absoluta. Se a atingíssemos estaríamos nos igualando a Deus.
Certa feita, adolescente ainda, ouvi dois confrades discutindo a respeito do assunto. Chegaram à conclusão de que o progresso é infinito e que o próprio Criador também evolui. Somente assim seria sempre superior às suas criaturas.
Aquilo me parecia muito estranho e hoje entendo que os dois companheiros estavam equivocados.
Deus está no absoluto - o Criador incriado.
Nós estaremos sempre no relativo - suas criaturas.
Como tais há um limite para nosso desenvolvimento, que o mentor chama de perfeição máxima.
Poderíamos situá-la como o pleno desenvolvimento de nossas potencialidades criadoras e o pleno conhecimento e observância das leis divinas.
Atingido esse estágio o Espírito será um proposto de Deus, Co-partícipe na obra da Criação, mas sempre o relativo diante do Absoluto.
Na Segunda ordem, os Espíritos que chegaram ao meio da escala.
Predomina neles o desejo do bem. Não obstante suas imperfeições, orientam-se pelo anseio de servir, de ajudar, de estudar, de resolver seus enigmas e contradições.
Na Terceira Ordem, os Espíritos que ainda se acham na parte inferior.
A ignorância, o envolvimento com o mal, as paixões e os vícios, são suas características marcantes.
*
Kardec traça oportunos comentários sobre o assunto, estabelecendo subdivisões para essas ordens, mostrando como podemos identificar a natureza de um Espírito por seu comportamento e suas palavras.
Particularmente em “O Livro dos Médiuns”, um manual sobre as manifestações mediúnicas, o Codificador enfatiza o cuidado que devemos ter no trato com os Espíritos, procurando identificar a que ordem pertencem, a fim de não incorrermos em perigosos enganos na apreciação do que dizem.
Situa, por exemplo, uma classe de Espíritos que chama de pseudossábios.
Estes podem discorrer com facilidade sobre muitos assuntos, demonstram erudição, mas apresentam conceitos equivocados que exprimem seus próprios preconceitos e idéias sistemáticas, distanciados da verdade.
O grande problema no meio espírita é a lamentável tendência de se acolher Espíritos dessa natureza, travestidos em mentores, cujas opiniões são aceitas sem discussão.
O pior é que as pessoas se habituam a consultá-los tomando-os à conta de infalíveis. Situam-se como cegos guiados por outros cegos, conforme a expressão evangélica.
Há casos exemplares:
Uma mulher abandonou marido e filhos porque o “mentor” lhe disse que um homem por quem se apaixonara era sua “alma gêmea” que viera para programada experiência em comum...
Um diabético entrou em coma e quase morreu, porque o “guia” lhe recomendou que substituísse a insulina por determinado chá...
Uma empresa foi à falência porque seus proprietários seguiam a orientação de um “mentor” que, certamente, não entendia nada de finanças...
Um homem cortou relações com um vizinho, porque o “guia” lhe disse que, por inveja, o referido fizera um “despacho” para prejudicá-lo...
Um grupo mediúnico uniu-se em torno do ideal de publicar livros psicografados por um de seus integrantes, todos mal alinhavados, linguagem pobre, ortografia precária, flagrantes erros doutrinários, porque o autor espiritual, ninguém menos que o próprio “guia”, afirmava tratar-se de importante contribuição em favor da Doutrina Espírita.
*
Todos que mourejamos na Terra somos, obviamente, Espíritos.
Uma única diferença nos distingue - estamos encarnados.
Assim, a escala espírita se aplica a nós também.
Também estamos num determinado degrau da imensa escada evolutiva que nos conduzirá ao Céu.
Haverá entre nós Espíritos da Primeira Ordem, puros, perfeitos?
Houve um apenas:
Jesus.
*
Espíritos da Segunda ordem, que se orientam exclusivamente pelo desejo de fazer o bem, têm transitado em número razoável pelas paragens terrestres.
São os grandes idealistas, que não obstante suas limitações, trabalham em favor do progresso humano. Ainda que em posições de subalternidade, destacam-se pelo seu comportamento, empenhados em cuidar do próximo, esquecendo-se de si mesmos.
Muitos nem precisariam reencarnar na Terra. Deixam os patamares mais altos em que se encontram para estimular à ascensão os irmãos que se demoram em degraus mais baixos.
*
Perto da base situamo-nos todos nós, pobres humanos ainda orientados pelo egoísmo.
Sonhamos altos vôos de espiritualidade, mas temos os pés chumbados no chão.
Admiramos a virtude, mas não conseguimos vencer o vício.
Exaltamos a palavra mansa, mas freqüentemente caímos na expressão agressiva.
Como diz Paulo, queremos o bem, mas nos envolvemos com o mal.
Nossa evolução primária evidencia-se no trato com as pessoas que se comprometem com o crime.
Se lemos no jornal que rapazes incendiaram um mendigo ou alguém estuprou e matou uma criança, logo pensamos que a pena de morte seria pouco para essa gente, e que todos deveriam ser submetidos às piores torturas, numa clara alusão ao olho por olho, da anacrônica legislação mosaica que Jesus revogou há dois mil anos.
Será que um Espírito da Segunda Ordem pensaria assim? Ou enxergaria, nesses criminosos, doentes necessitados de tratamento, como está no ensino evangélico?
O nosso anseio de justiça cheira a vingança.
Se alguém nos faz um desaforo, logo “soltamos os cachorros”, para “colocar o imbecil em seu devido lugar”. Os que, por um prodígio de disciplina, silenciam, não fazem melhor, consumindo-se em rancor.
*
A escada de Jacó situa-se em nosso próprio coração. Para galgar seus degraus até o Céu da Consciência tranqüila, da inalterável serenidade que sustenta a alegria de viver, é preciso aprimorar nossos sentimentos, aprender a cultivar os valores da compreensão, da misericórdia, do respeito, habilitando-nos a estagiar, intimamente, em ordens cada vez mais elevadas, nos caminhos da perfeição.
É algo como está numa interessante história relatada por Daniel Goleman, em seu famoso livro “Inteligência Emocional”:
Um guerreiro samurai certa vez desafiou um mestre Zen a explicar o conceito de céu e inferno. Mas o monge respondeu-lhe com desprezo.
- Não passas de um rústico... Não vou desperdiçar meu tempo com gente da tua laia!
Atacado na própria honra, o samurai teve um acesso de fúria e, sacando a espada da bainha, berrou:
-Eu poderia te matar por tua impertinência.
- Isso - respondeu calmamente o monge - é o inferno.
Espantado por reconhecer como verdadeiro o que o mestre dizia acerca da cólera que o dominara, o samurai acalmou-se, embainhou a espada e fez uma mesura, agradecendo ao monge a revelação.
- E isso - disse o monge - é o céu.

Reformador Jul.98

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

JEHANNE D'ARC SEGUNDO LÉON DENIS

EM HOMENAGEM A DATA DE NASCIMENTO DE JEHANNE D'ARC OCORRIDA EM 06.01.1412


Em 1839 — escreve Régine Pernoud — o erudito escritor Vallet de Viriville estimou em 500 as obras dedicadas a Joana d’Arc; cinqüenta anos depois o número havia quintuplicado. “Contudo, o interesse que ela suscitou no século XIX nada é comparado com o que tem despertado desde então.”
É verdade isso. Poucas figuras humanas como a legendária menina de Domrémy reúnem em si mesmas tão extraordinários atributos e, por isso, continuam a surgir textos acerca da “Pucelle”, explorando, quanto possível, aspectos novos da sua trajetória, ou lançando novas teorias acerca do fenômeno Joana d’Are, a despeito da existência de obras exaustivas, como os cinco volumes de Quicherat, os quatro de Lefêvre-Pontalis, os quatro de Dunand, e quantos mais...
Seria inexplicável tal interesse por uma adolescente executada há quase cinco séculos e meio, não fossem as circunstâncias que envolveram o lamentável e doloroso episódio. Ao comentar os depoimentos recolhidos durante o processo de reabilitação, Régine Pernoud escreve que cada um contribuiu...
... “com pequenos traços, para o desenho do mais espantoso re¬trato existente na história da França: o de uma Jovem de 20 anos incompletos, que não sabia distinguir o A do B, mas que restaurou um reinado e escolheu o seu rei.”.
Mas, não somente isso, porque ela realizou o prodígio contra as mais inconcebíveis resistências e dificuldades para depois ser abandonada, inclusive pelo homem em cuja cabeça depositou a coroa da França, restaurada na sua glória e poder. Por outro lado, foram precisamente os representantes da religião, que ela honrou com a pureza imácula das suas práticas devotadas, os que se in¬vestiram da pretensa autoridade para condená-la em nome do mesmo Cristo que diziam amar e ser¬vir da única maneira certa...
— “Que língua falou a voz?” — pergunta um dos inquisidores.
— “Melhor do que a vossa — responde Joana, que notara o forte sotaque do dialeto limosino que falava o dominicano.”
E outro:
— Você crê em Deus?”
— “Melhor do que vós — é a resposta.”
Já no início dessa barragem de perguntas, em Poitiers, formuladas pelos mais cultos e ardilosos “doutores da lei” à época, ela fizera a sua afirmativa de que não sabia “A nem B”, mas quanto ao que vinha, isto sim:
— “Venho da parte do Rei do Céu para levantar o sítio de Orléans e para conduzir o rei a Reims, para que sei a coroado e consagrado.”
Para explicar esse fenômeno que aturdia os generais e confundia os teólogos, faltava na vastíssima bibliografia histórica uma interpretação vazada em ter¬mos de Doutrina Espírita.
Essa tarefa coube ao filósofo-poeta do Espiritismo: LÉON DE¬NIS. E nas homenagens que tão merecidamente lhe são prestadas nesta oportunidade, convém relembrar o notável estudo sua autoria, que explica e define a posição de Joana d’Arc como médium e evidencia a indiscutível interferência dos poderes espirituais no curso da História.
— “A vida de Joana — escreve Denis — é uma das manifestações mais brilhantes da Providência na História.”
Não se trata, porém, de mais uma tese sobre a “Pucelle”: é obra de pesquisa, de carinho, de inteligência e de lucidez. Mais do que isso ainda: a própria Joana, das alturas rarefeitas da luz, acompanha o trabalho do incansável batalhador da verdade.
— “Por Isso mesmo — escreve Denis — é que, votando-lhe ardente simpatia, consagrando-lhe terna veneração e vivo reconhecimento, escrevi este livro. Concebi-o em horas de recolhimento, longe das agitações do mundo. A medida que o curso de minha vida se precipita, mais triste se torna o aspecto das coisas e as sombras se condensam à volta de mim. Mas, vindo do alto, um raio de luz me ilumina todo o ser e esse raio emana do Espírito de Joana. Foi ele quem me esclareceu e guiou na minha tarefa.” (Destaque desta transcrição.)
E, mais adiante, para concluir:
— Estas páginas são a expressão fiel do seu pensamento, do seu modo de ver.”
O livro não é, pois, um mero levantamento histórico com base em documentos preexistentes e suposições mais ou menos engenhosas; ele contém testemunhos vivos recebidos mediunicamente da própria Joana, como este:
— “É-me doce e delicioso volver aos momentos em que pela primeira vez ouvi minhas vozes. Não posso dizer que me amedrontei. Fiquei grandemente admirada e mesmo um pouco surpreendi¬da de me ver objeto da misericórdia divina” — diz ela em mensagem datada de 15 de julho de 1909.
Vem de remotas eras o aprendizado desse valoroso Espírito, segundo revelou em outra mensagem ditada, em Paris, em 1898. Vivera existências proveitosas na Armórica , entre os celtas, aprendendo com os sacerdotes druídas as verdades da sobrevivência do Espírito, da comunicabilidade e da reencarnação.
É provável até que seus caminhos tenham se cruzado aí com os de Kardec. Em mensagem dita¬da em 1909, lembrou o Codificador:
— “Fui sacerdote, diretor das sacerdotisas da Ilha de Sein e vivi nas costas do mar furioso, na ponta extrema do que chamais a Bretanha.”
Denis deixa entrever que Joana teria também experimentado “existências de patrícia” romana e de grande dama, “amante de vestes suntuosas e belas armaduras”.
Um dia, em passado distante, aquela que se¬ria Joana adormeceu e teve a visão de combates sangrentos que, infelizmente, eram impossíveis de serem evitados, em virtude do livre-arbítrio de cada um, mas, especialmente, porque eram motivados pelo “amor ao ouro e à dominação, os dois flagelos da Humanidade”. A visão prosseguia, mostrando-lhe a grandeza futura da França e o papel que caberia a essa nação no processo civilizador da Terra.
— “Deliberei consagrar-me multo particularmente a essa obra. Logo me vi rodeada de uma multidão simpática que na maior parte chorava e deplorava a minha perda. Em seguida, o veneno, o cadafalso, a fogueira passam vagarosamente por diante de mim. Senti as labaredas devorando-me as carnes e desmaiei!”
A missão era, pois, importante, mas extrema¬mente penosa. Havia, porém, um trabalho a realizar, e a tarefa, ao mesmo tempo em que objetivava introduzir uma correção deliberada no curso da História, representava para Joana uma oportunidade redentora que ela não deveria recusar, embora pudesse fazê-lo.
Havia, ademais, valioso prêmio, se a empreitada fosse bem realizada, pois os amigos espirituais procuraram imediatamente neutralizar o seu susto:
— “Espera! A falange celeste que tem por mis¬são velar sobre esse globo te escolheu para secundá-la em seus trabalhos e assim acelerar o teu progresso espiritual. Mortifica tua carne — ensinavam eles —, a fim de que suas leis não possam ser obstáculo a teu Espírito. A provação será curta, porém, rude.”
Nesse encontro lhe foi, dessa forma, assegurado todo o apoio de que precisasse, e anunciado até o processo de que se utilizariam, ou seja, a instrumentação da mediunidade, como elo de ligação com os componentes da equipe celestial. Ela devia estar preparada para “resistir aos homens e obedecer a Deus”.
— “Seguindo estes conselhos, os mensageiros do céu virão a ti, ouvirás suas vozes e te aconselharão; podes ficar tranqüila, não te hão de abandonar!”
Assim foi, muito embora, para Joana encarnada, esse abandono parecesse, às vezes, caracterizado em situações extremamente críticas, a partir da sua prisão e entrega aos ingleses. As vozes calaram-se por algum tempo e quando lhe falavam era para dizer que não se afligisse tanto, pois que a libertação vinha próxima. Interpretando a seu modo a promessa, Joana pensava que seria posta em liberdade ainda na carne. Tratava-se, porém, da libertação da carne e não na carne.
Nem aí, porém, seus amigos a abandonaram.
— “Terá Joana sofrido muito?” — pergunta Léon Denis. Ela própria nos assegura que não. “Poderosos fluidos, diz-nos, choviam sobre mim. Por outro lado, minha vontade era tão forte que dominava a dor.”
Cumprira fielmente a sua tarefa gigantesca, a qual, segundo Denis, se desdobrara em dois aspectos distintos: o renascimento político da França, é certo, mas também “a revelação do mundo invisível e das forças que ele encerra”. Pela primeira vez, documentava-se na História, sem contestação possível, que essas forças podem inter¬ferir e o fazem quando necessário.
“Quando o Céu intervém — escreve Denis —, quando Deus manda seus mensageiros à Terra, podem opor-se-lhe à ação resistências e obstáculos?”
Sobre este delicado aspecto, o eminente pensador espírita expende comentários de grande oportunidade e profundeza, pois tanto o homem, individualmente, é livre, quanto a Humanidade, como um todo, o é. Livres, mas responsáveis. O exercício do arbítrio, num como noutra, acarreta inelutáveis conseqüências ao longo do tempo.
— Também o cego é livre — diz Denis — e, contudo, sem guia, de que lhe serve a liberdade?
— “Quando o cego marcha para o abismo, é preciso que o guia interfira com o cuidado possível, mas, também, com a energia necessária”.
— “A missão de Joana é dificílima. Nenhum ser, por mais elevado que sei a seu gabarito evolutivo, seria capaz de realizar aquela tarefa gigantesca sem estar solidamente articulada com as equipes espirituais que o sustentam.”
— A situação da França é desesperadora. A luta com a Inglaterra arrasta-se há quase cem anos. Sucessivas derrotas esmagaram a nobreza e destroçaram o moral das tropas. A economia desorganizou-se; há destruição por toda parte, fome, peste, ausência de autoridade e de liderança, traições, acomodações e desespero. De vitória em vitória, o inimigo aproxima-se do coração da França. Paris já se encontra em poder dos ingleses. Falta Orléans, que, não obstante, está sob penoso sítio, quase nos limites da resistência. O mato cresce nos campos de cultivo, as aldeias foram abandonadas, imperam por toda parte a desolação, o banditismo, a morte.
— “Nesse angustioso cenário, uma nação, outro¬ra valente e gloriosa, aguarda o último ato de sua soberania. A um canto, encurralado em Chinon, o delfim assiste, impotente e apático, à agonia de sua pátria.”
Aliás, em todo esse episódio doloroso, a figura mais trágica é a desse príncipe aturdido.
O julgamento da História não lhe é absolutamente pacífico. Muitos são os que o tratam com impiedosa dureza, especialmente porque foi dos primeiros a abandonar a jovem guerreira à sua própria sorte. Marcel Grosdidier de Matons tenta oferecer-nos uma visão mais simpática do pobre delfim, cuja posição, na verdade, não era das mais fáceis. De fato, o tratado de Troyes, nascido das maqui¬nações de sua própria mãe, Isabeau, e do Duque de Bourgogne, declarava-o sumariamente bastar¬do. Num regime de sucessão por direito divino, como o da França, como poderia uma criatura nessas condições aspirar ao trono?
— “Vive ele em Chinon, despreocupado de seu infortúnio — diz Denis —, absorvido pelos prazeres, cercado de cortesãos, que o traem e secretamente pactuam com o inimigo.”
A esse homem, que nem em si mesmo acredita, é que compete a Joana colocar sobre um trono, que lhe cabe reerguer dos escombros de uma nação aviltada por derrotas e traições, e que se prepara para aceitar o inevitável. Já a essa altura, Henri¬que VI, da Inglaterra, se proclamara rei também da França.
Por isso, observa Léon Denis:
— “E vede que mistério admirável! Uma criança é quem vem tirar a França do abismo. Que traz consigo? Algum socorro militar? Algum exército? Não, nada disso. Traz apenas a fé em si mesma, a fé no futuro da França, a fé que exalta os corações e desloca as montanhas. Que diz a quantos se apinham para vê-la passar? “Venho da parte do rei do céu e vos trago o socorro do céu”!”
— “Nenhum poder da Terra é capaz de realizar este prodígio: a ressurreição de um povo que se abandona. Há, porém, outro poder, invisível, que vela pelo destino das nações.”
Joana é a representante viva desse poder, e o instrumento que torna possível o prodígio, a que alude Denis, é precisamente a mediunidade que, segundo o escritor espírita, raras vezes tem ocorri¬do assim tão variada, completa e cristalina. Ela vê e ouve seus companheiros espirituais. Fala com eles, recebe instruções, avisos, estímulos e conselhos. Transmitem-lhe intuições exatas no momento e preciso. Levantam para ela, aqui e ali, o véu que ainda encobre o futuro. Seguem-lhe os passos por toda parte, desde Domrémy, quando abandona a casa paterna, no silêncio da noite, até Rouen, onde seu corpo se consome em chamas. Não chegou a durar dois anos a epopéia da menina admirável a que se deixa guiar, com bravura, pelos seus amigos de cima e enfrenta, destemidamente, todos os ardilosos comparsas das sombras que se atravessam no seu caminho. Quase todos vêm vestidos de mansos cordeiros ou trazem as insígnias coloridas do poder temporal, principalmente religioso, para oprimirem exatamente a ela, que fala em nome a dos amigos de Jesus!
Vencendo dificuldades sobre-humanas, chega afinal a Chinon porque as vozes insistem em que e ela fale com o delfim. Dois dias se arrastaram antes que fosse concedida a almejada entrevista. Nada intimida aquela jovem e iletrada camponesa. Parece habituada a mover-se nas cortes dos reis, pois, como escreve Denis, “em épocas que lhe precederam ao nascimento, freqüentou moradas mais gloriosas do que a corte de França e disso guardou a intuição”.
É chegado o grande momento. Entra no salão imenso, onde se reúnem 300 pessoas da mais alta nobreza, ricamente trajadas. Ainda desconfiado e hesitante, o delfim misturou-se à multidão, e colocando outra pessoa no trono. Joana não se deixa enganar: dirige-se a ele, com firmeza e deliberação, ajoelha-se aos seus pés e depois lhe fala longamente, em voz baixa, ante a estupefação geral e não poucos sorrisos de mofa e incredulidade.
Traz-lhe o recado de mais alto, que a História não documentou. Sabe-se, porém, que confirmou, da parte dos poderes que a enviavam, que ele era filho do rei e herdeiro legítimo da coroa, restituindo-lhe a confiança em si mesmo.
Continuaria, pela sua curta e momentosa existência, a dar testemunho dos seus dons e das suas indiscutíveis credenciais. Inúmeras vezes enfrentaria o poder transitório da Terra, sob as mais adversas condições, com a segurança que lhe em¬prestavam seus amigos invisíveis.
“Quando, porém, vos levarem às sinagogas - ensinara Jesus (Lucas, 12:11 e 12) —, perante os magistrados e as autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de responder para a vossa defesa, porque o Espírito Santo vos inspirará naquela hora o que deveis dizer.”
Assim foi. Ante a saraivada de questões, das mais capciosas, ela se manteve firme, confundindo a todos com as suas respostas corajosas.
Um exemplo: quanto ao Espírito que se identifica aos seus olhos como São Miguel, o pobre Cauchon lhe. pergunta:
— “Ele estava despido?”
— “O senhor pensa que Deus não tem com que vestí-lo?”
— “Tinha cabelos?”
— “Por que lhe seriam cortados os cabelos?”
Apresentavam-se, pois, seus amigos, completamente apreensíveis à sua visão espiritual.
Por fim, a penosa paixão que se arrastaria por seis meses. A Léon Denis revelou pormenores dolorosos:
—“Mandaram forjar para mim—diz ela— uma espécie de gaiola em que me meteram e na qual fiquei extremamente comprimida; puseram-me ao pescoço uma grossa corrente, uma na cintura e outras nos pés e nas mãos. Teria sucumbido a tão horrível aflição, se Deus e meus Espíritos não me houvessem prodigalizado consolações. Nada é capaz de pintar a tocante solicitude deles para comigo e os inefáveis confortos que me deram. Morrendo de fome, seminua, cercada de imundícies, machucada pelos ferros, tirei de minha fé a coragem para perdoar os meus algozes.”
Quanto à sua desesperada obstinação em usar roupas masculinas, esclarece Denis que foi para se defender melhor dos incessantes atentados ao seu pudor, não apenas da parte dos soldados que a vigiavam noite e dia, mas até mesmo do lamentável Conde de Stafford, que, “levado tanto pela superstição quanto por uma paixão hedionda —escreve Denis —, entrou no cárcere de Joana e tentou violentá-la”.
Acreditavam aqueles pobres Espíritos atormentados que, com isso, quebrariam o encantamento que sustentava aquela vontade férrea e a desliga¬riam dos poderes em que se apoiava.
Enfrentava, na época, cerca de 70 juizes temíveis, sob o comando de Pierre Cauchon, que recebeu, como recompensa, o bispado de Lisieux. Mais tarde, segundo lembra Denis, seria excomungado, não pela atuação no processo de Joana, mas “simplesmente porque recusou satisfazer a um paga¬mento que o Vaticano exigia”.
Esses foram os homens que julgaram a menina de Domrémy, esses eram os métodos de que se serviam para alcançar seus fins.
Por isso, a tarefa de Joana prossegue ainda hoje. Léon Denis informa que, ao escrever seu livro, muitos dos atores daquele drama tenebroso estavam reencarnados na Terra sob a proteção de Joana.
— Carlos VII — escreve Denis — reencarnado num desconhecido burguês, acabrunhado de enfermidades, foi muitas vezes distinguido com a visita da “filha de Deus”. Iniciado nas doutrinas espiritualistas, pôde comunicar com ela, receber seus conselhos, seus incitamentos. Uma única palavra de censura lhe ouviu: “A nenhum, disse-lhe um dia Joana, me custou tanto perdoar como a ti.”
A antiga “Pucelle” conseguira reunir em um só ponto da Terra seus inimigos de outrora, inclusive seus algozes. Procurou guiá-los em direção à luz, tentando fazê-los “defensores e propagandistas da nova fé”. Era de ver-se o devotamento da antiga vítima pelos seus torturadores, mas Denis se vê na contingência de confessar, em nome da verdade, que os resultados foram medíocres. Assim que se dissipavam, no envolvimento do mundo, as emoções daqueles contactos sublimes, eles se deixavam levar pelas suas paixões ainda ativas. Em breve, cessaram as manifestações.
Joana jamais se revelou senão a poucos, prossegue Denis. Os outros não souberam adivinhá-la. Raros puderam compreendê-la. Sua linguagem era muito perfeita; vertiginosas as alturas a que tentava atraí-los. “Esses estigmatizadores da História, que se ignoram a si mesmos, ainda não estavam amadurecidos para semelhante papel.”
A supliciada de Rouen, porém, não abandonou os seus tutelados. Ainda hoje, por muito tempo ainda, há de seguir amorosamente os seus passos, na esperança sempre renovada de conduzi-los ao coração do Mestre. Quando, onde e como despertarão, esses Espíritos atormentados, para as belezas do amor?
Resta uma palavra final. Não escaparia a Denis, certamente, o paralelo entre os sofrimentos de Jesus e as agonias de Joana. Tal como ele, ela foi traída, vendida, abandonada e sacrificada ao ódio desvairado dos donos do poder temporal. Tal como ele, sofreu heroicamente o suplício, perdoou a todos e seguiu amando. Tal como ele, inúmeras vezes tem voltado sobre seus passos para tentar o resgate daquelas almas tão fundamente marca¬das pela aflição e que se prestaram ao papel dolo¬roso de instrumentos da sua agoniada paixão.
Consta que Joana teria vivido ao lado de Jesus a personalidade controvertida e dramática de Judas. Em “Crônicas de Além-Túmulo”, obra escrita pelas mãos abençoadas de Chico Xavier, Humberto de Campos, Espírito, deixa entrever essa hipótese, ao reproduzir, em sua entrevista, a informação de Judas:
— “Depois da minha morte trágica, submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde, imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição, deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV.”
Não importa, porém, que Joana tenha ou não vivido como Judas; o que importa, hoje, é o seu exemplo de bravura, de absoluta confiança nos poderes que nos guiam os passos vacilantes pelos caminhos da vida. Foi uma pioneira da mediunidade a serviço total da Humanidade. Por intermédio dela, uma criança analfabeta, os Espíritos do Senhor provaram que podem mudar o rumo da História e que os homens não estarão para sempre entregues aos seus desatinos.
É bom relembrar isso, hoje, quando muitos acham que toda a civilização moderna disparou desabaladamente num processo de autodestruição. Não é isso o que informam as profecias. Não é isso o que dizem os mensageiros do Senhor. Ao contrário, asseguram eles uma era de paz e de re¬construção, que se iniciará precisamente a partir do momento em que tudo parece mergulhar no caos. E como não será preciso demonstrar nova¬mente que isso é possível, é absolutamente necessário que não nos coloquemos ao lado daqueles que, num supremo esforço cio desespero, está desafiando uma vez mais as forças irresistíveis da luz. A hora final da treva está chegando. Qual será a nossa opção?
Nesse dramático contexto em que forças antagônicas se defrontam, a advertência de Leon Denis deve ser reexaminada em toda a sua tremenda significação, ou seja, a de que a trajetória evolutiva da Humanidade não se desenvolve ao longo do tortuoso traçado dos nossos caprichos. Acima de nós, e por nós, velam prepostos de Deus e do Cristo, iluminados pela visão majestosa dos planos divinos. No momento certo, esses poderes entrarão em ação. E tormentosos séculos aguardarão os que insistirem em se opor à marcha irresistível do bem coletivo.

Fonte: Reformador

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

AS VIDAS SUCESSIVAS


Dissemos que, para esclarecer o seu futuro, o homem devia antes de tudo aprender a conhecer-se. Para se caminhar com segurança, é necessário saber aonde se vai. É conformando seus atos com as leis superiores que o homem trabalhará eficazmente pelo seu próprio melhoramento e pelo da sociedade. O que precisamos é discernir essas leis, determinar os deveres que lhes são inerentes, prever as conseqüências das nossas ações.
Quando se compenetrar da grandeza da sua missão, o ser humano saberá desprender-se melhor daquilo que o rebaixa e abate; saberá governar-se criteriosamente, preparar pelos seus esforços a união fecunda dos homens numa grande família de irmãos.
Mas, quão longe estamos desse estado de coisas!
Ainda que a Humanidade avance na via do progresso, pode-se entretanto dizer que a imensa maioria de seus membros caminha através da vida como no meio duma noite escura, ignorando-se a si mesma, nada sabendo do fim real da existência.
Trevas espessas velam a razão humana. Os pálidos e enfraquecidos raios da verdade que lhe chegam, são impotentes para esclarecer as vias sinuosas percorridas pelas inumeráveis legiões que estão em caminho, e não conseguem fazer resplandecer a seus olhos o alvo ideal e longínquo.
Ignorante dos seus destinos, vacilando sem cessar entre o prejuízo e o erro, o homem maldiz às vezes a vida. Curvado ao seu fardo, inculpa os seus semelhantes das provações que suporta e que são quase sempre ocasionadas pela sua imprevidência. Revoltado contra Deus, a quem acusa de injustiça, ele chega algumas vezes, na sua loucura e no seu desespero, a desertar do combate salutar, da única luta que pode fortificar sua alma, esclarecer seu julgamento, prepará-lo para trabalhos de ordem mais elevada. Por que o homem desce, fraco e desarmado, à grande arena onde se entrega sem repouso, sem descanso, à eterna e gigantesca batalha? É porque a Terra é um degrau inferior na escala dos mundos. Nela residem apenas espíritos principiantes, isto é, almas nas quais a razão começa a despontar. A matéria reina soberanamente sobre o mundo. Curva-nos ao seu jugo, limita nossas faculdades, refreia nossos impulsos para o bem, nossas aspirações para o ideal.
Assim, para discernir o porquê da vida, para perceber a lei suprema que rege as almas e os mundos, é necessário saber libertar-se das influências grosseiras, desligar-se das preocupações de ordem material, de todas as coisas passageiras e mutáveis que encobrem nosso espírito, obscurecem nossas apreciações. É elevando-nos, pelo pensamento, acima dos horizontes da vida, fazendo abstração do tempo e do espaço, pairando de alguma sorte acima das minúcias da existência, que entreveremos a verdade.
Por um esforço da vontade, abandonemos por um instante a Terra, elevemo-nos a essas alturas extraordinárias. Então se desenrolará para nós o imenso panorama das idades inumeráveis e dos espaços ilimitados. Assim como o soldado, perdido no meio da peleja, só vê confusão ao seu redor, enquanto que o general, cujo olhar abrange todas as peripécias da batalha, calcula e prevê os resultados; assim como o viajante extraviado nos desfiladeiros pode, ao subir a montanha, vê-los formar um conjunto grandioso, assim também a alma humana, das alturas elevadas em que paira, longe dos ruídos da Terra, longe das suas misérias, descobre a harmonia universal.
A mesma coisa que lhe parecia aqui contraditória, inexplicável, injusta, então se harmoniza e o esclarece; as sinuosidades do caminho desaparecerão; tudo se une, se encadeia; ao espírito deslumbrado aparece a ordem majestosa que regula o curso das existências e a marcha do Universo.
Dessas alturas luminosas, a vida não é mais, aos nossos olhos, como o é para os da multidão, a vã procura de satisfações efêmeras, mas sim um meio de aperfeiçoamento intelectual, de elevação moral; uma escola onde se aprendem a docilidade, a paciência, o dever. E essa vida, para ter proveito, não pode ser isolada. Fora dos seus limites, antes do nascimento e depois da morte, vemos, numa espécie de penumbra, desdobrar-se multidão de existências através das quais, à custa do trabalho e do sofrimento, conquistamos gradualmente, palmo a palmo, o diminuto saber e as qualidades que possuímos, assim também conquistaremos o que nos falta: uma razão perfeita, uma ciência sem lacunas, um amor infinito por tudo o que vive.
A imortalidade, semelhante a uma cadeia sem-fim, desenrola-se para cada um de nós na imensidade dos tempos. Cada existência liga-se, pela frente e por detrás, a vidas distintas e diferentes, porém solidárias umas das outras. O futuro é a conseqüência do passado. Gradualmente o ser se eleva e engrandece. Artista dos seus próprios destinos, o espírito humano, livre e responsável, escolhe sua estrada e, se esta é má, as pedras e os espinhos que o ferem produzirão o desenvolvimento da sua experiência, fortificarão a razão que vai despontando.

Léon Denis - O porquê da vida

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

REGENERAÇÃO

Tudo que procede de Deus para a Humanidade obedece a um planejamento feito com séculos de antecedência, cujo estabelecimento é evolutivo-dependente, pois que de nada adiantaria liberar revelações ao homem sem a devida capacidade para entendê-las e guardá-las. A Inteligência Suprema nada faz de improviso.

A primeira etapa para que a Humanidade passasse a crer no Deus Único foi a escolha de um missionário, em tempos remotos e data incerta, que constituísse uma grande nação monoteísta, verdadeira ilha cercada de povos do mais variado e absurdo politeísmo. Esse missionário foi Abraão, a quem Deus abençoou e em quem pôs o seu concerto, pondo-o por pai de uma multidão de nações. (Ver Gênesis, capítulos 12 e 17.)

O segundo passo foi a concretização, não sem grandes sacrifícios probatórios, do monoteísmo por Moisés, cuja legenda e exemplo de extraordinária perseverança e inabalável fé no Senhor e nos seus superiores desígnios estão registrados no livro Êxodo. Através da mediunidade deste grande missionário e legislador, o Senhor deu a conhecer ao homem os seus Mandamentos (Primeira Revelação), seguro roteiro para o bom relacionamento entre as criaturas, entre si e entre elas e Ele, que a todas criou e ama igualmente.

Ainda com Moisés profetizou a vinda do Messias (Deuteronômio, 18:18), o que verdadeiramente ocorreu treze séculos depois. Neste ínterim, numerosos profetas foram enviados pelo Mais Alto ao povo monoteísta, aos quais cabia o chamamento para as coisas de Deus em termos diretos quando relativos às suas atualidades e, quando em relação ao futuro, em linguagem simbólica, muita vez de difícil interpretação.

A etapa seguinte foi a vinda de Jesus-Cristo, o Messias, consubstanciando diversas profecias anunciadoras desse extraordinário evento único. Jesus mudou radicalmente os conceitos sobre Deus, vigentes à sua época, chamando-o Pai sempre justo e misericordioso, que não faz acepção de nenhuma das suas criaturas e ama a todas igualmente.

O Mestre dos Mestres pregou o Amor irrestrito à exaustão, esmiuçando-o em todas as suas nuanças e dimensões. Os ensinos de Jesus, cuja exemplificação foi irreprochável, constituem a Segunda Revelação e foram dirigidos todos eles para o Espírito, o que implica renúncia às coisas da matéria. O Mestre Incomparável confirmou a crença, a Lei e os profetas.

Finalizando este encadeamento dos desígnios divinos, Jesus prometeu enviar outro Consolador, o Espírito de Verdade, que procede do Pai e que não fala de si mesmo, mas, sim, do que aprendeu d’Ele, Deus, usando de linguagem direta, sem parábolas ou simbolismos (João, 14 e 16), para retirar o véu que oculta à criatura as coisas do seu Criador (Mateus, 10:26). Esta é a Terceira Revelação, trazida ao homem, dezoito séculos depois, pelo Espírito de Verdade e sua falange de Entidades Sublimes, através da extremada dedicação de Allan Kardec, o bom senso encarnado, e que está corporificada na Doutrina Espírita.

No versículo 2 do mesmo capítulo 14 do Evangelho, acima citado, João consigna a afirmação de Jesus, segundo a qual na casa de meu Pai há muitas moradas. O Mestre de Lyon, no capítulo III de O Evangelho segundo o Espiritismo, esclarece, com base em instruções dos Espíritos Reveladores, que a casa do Pai é o Universo, e, materialmente falando, que as diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito, referindo que há dois tipos de mundos extremos.

Nos degraus mais baixos da escada evolutiva encontram-se os mundos primitivos, habitados por Espíritos brutos e materializados, recém-saídos da fase animal, predominando as paixões, sendo quase inexistente a moral. Nos patamares mais elevados estão os mundos celestiais, em que habitam Espíritos puros, experientes, bondosos e sábios, remidos da matéria por terem percorrido, com mérito, todo o carreiro evolutivo.

Entre esses mundos, há os intermediários.

Logo acima dos mundos inferiores estão os mundos de provas e de expiações, sendo a Terra um deles, nos quais o mal predomina sobre o bem e a atração pela matéria sobrepuja as coisas do Espírito.

Abaixo dos celestiais estão os mundos ditosos, nos quais a bondade reina, habitados que são por Espíritos elevados, mas ainda errantes.

No entremeio, estão os mundos regeneradores, que são mundos de transição, nos quais o bem ombreia com o mal. A classificação acima nada tem de absoluta e os diferentes tipos de mundos não são estanques, mas amplamente comunicantes entre si, sempre tendo em vista as metas evolutivas a serem alcançadas.

Na parábola do Mancebo Rico (Mateus, 19:28) está registrado: “(...) e Jesus disse-lhes [dirigindo-se aos discípulos]: ‘Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vós assentareis sobre doze tronos para julgar as doze tribos de Israel’” (destaque do autor), confirmando o que Ele havia dito anteriormente (João, 5:22): “E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo.” .

Deus não tem pressa; Ele orienta e aguardará que suas criaturas evoluam até à mansuetude para herdar este Planeta (Mateus, 5:4).

Entretanto, aqueles Espíritos obstinados no mal e refratários ao Bem serão emigrados para outros orbes, mais apropriados às suas obras, a fim de que, para dar cumprimento ao planejado, este Planeta deixe de ser mundo de provas e expiações e passe a mundo de regeneração, conforme as palavras do próprio Governador Espiritual da Terra, o nosso muito amado Mestre Jesus.

Reformador Dez/2005