sábado, 8 de janeiro de 2011

EM QUE DEGRAU ESTAMOS


Os Espíritos pertencem a diferentes ordens, conforme o grau de perfeição a que tenham alcançado; Espíritos puros, que atingiram a perfeição máxima; bons Espíritos, nos quais o desejo do bem é o que predomina; Espíritos imperfeitos, caracterizados pela ignorância, pelo desejo do mal e pelas paixões inferiores.
(Folheto institucional da Campanha ESPIRITISMO, UMA NOVA ERA PARA A HUMANIDADE, da FEB.)

No livro Gênesis, na Bíblia, capítulo 28, há uma passagem famosa que envolve a figura de Jacó, um dos patriarcas do povo judeu.
Certa feita, em viagem, chegando à noite num local desconhecido, deitou-se para descansar.
Dormiu e sonhou que a partir dali se erguia uma escada que se estendia até o Céu, por onde anjos subiam e desciam.
Ao lado estava Jeová, o deus bíblico, que lhe concedeu e à sua descendência a terra onde repousava e renovou suas promessas de que ampararia o povo judeu, que haveria de se estender por toda a Terra como o pó do chão.
A concessão não deu muito certo.
Os judeus, na maior parte de sua história, permaneceram sob domínio estrangeiro e a partir do ano 70 da Era Cristã, quando o general romano Tito arrasou Jerusalém e os descendentes de Jacó espalharam-se pelo Mundo, não eram triunfadores - apenas egressos de uma nação que perdera seu território.
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Bastante sugestiva, nesta passagem, é a escada de Jacó, que se estende da Terra ao Céu.
Simboliza a jornada do Espírito rumo à perfeição.
Na medida em que desenvolvemos nossas potencialidade criadoras e aprimoramos nossos sentimentos, superando as próprias limitações, galgamos degraus, aproximando-nos cada vez mais do Céu, a plena realização como filhos de Deus na geografia da consciência.
Os anjos que sobrem e descem a escada simbolizam os Espíritos superiores, que amparam e ajudam seus irmãos em evolução, já que a solidariedade é sua característica mais expressiva.
Por isso costuma-se dizer que a felicidade do Céu é socorrer a infelicidade da Terra.
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Em “O Livro dos Espíritos”, na questão 97, Kardec pergunta ao mentor espiritual se há um número determinado de ordens ou graus de perfeição dos Espíritos.
O mentor responde que esse número é ilimitado.
É a mesma idéia da escada que se estende ao Infinito. Impossível contar os degraus, por onde subimos rumo à perfeição. Mas, em linhas gerais, observando as características individuais, diz o mentor que poderiam reduzir-se a três ordens:
Na Primeira Ordem, os Espíritos puros, que atingiram a perfeição máxima.
Observe leitor, que o mentor não fala em perfeição absoluta. Se a atingíssemos estaríamos nos igualando a Deus.
Certa feita, adolescente ainda, ouvi dois confrades discutindo a respeito do assunto. Chegaram à conclusão de que o progresso é infinito e que o próprio Criador também evolui. Somente assim seria sempre superior às suas criaturas.
Aquilo me parecia muito estranho e hoje entendo que os dois companheiros estavam equivocados.
Deus está no absoluto - o Criador incriado.
Nós estaremos sempre no relativo - suas criaturas.
Como tais há um limite para nosso desenvolvimento, que o mentor chama de perfeição máxima.
Poderíamos situá-la como o pleno desenvolvimento de nossas potencialidades criadoras e o pleno conhecimento e observância das leis divinas.
Atingido esse estágio o Espírito será um proposto de Deus, Co-partícipe na obra da Criação, mas sempre o relativo diante do Absoluto.
Na Segunda ordem, os Espíritos que chegaram ao meio da escala.
Predomina neles o desejo do bem. Não obstante suas imperfeições, orientam-se pelo anseio de servir, de ajudar, de estudar, de resolver seus enigmas e contradições.
Na Terceira Ordem, os Espíritos que ainda se acham na parte inferior.
A ignorância, o envolvimento com o mal, as paixões e os vícios, são suas características marcantes.
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Kardec traça oportunos comentários sobre o assunto, estabelecendo subdivisões para essas ordens, mostrando como podemos identificar a natureza de um Espírito por seu comportamento e suas palavras.
Particularmente em “O Livro dos Médiuns”, um manual sobre as manifestações mediúnicas, o Codificador enfatiza o cuidado que devemos ter no trato com os Espíritos, procurando identificar a que ordem pertencem, a fim de não incorrermos em perigosos enganos na apreciação do que dizem.
Situa, por exemplo, uma classe de Espíritos que chama de pseudossábios.
Estes podem discorrer com facilidade sobre muitos assuntos, demonstram erudição, mas apresentam conceitos equivocados que exprimem seus próprios preconceitos e idéias sistemáticas, distanciados da verdade.
O grande problema no meio espírita é a lamentável tendência de se acolher Espíritos dessa natureza, travestidos em mentores, cujas opiniões são aceitas sem discussão.
O pior é que as pessoas se habituam a consultá-los tomando-os à conta de infalíveis. Situam-se como cegos guiados por outros cegos, conforme a expressão evangélica.
Há casos exemplares:
Uma mulher abandonou marido e filhos porque o “mentor” lhe disse que um homem por quem se apaixonara era sua “alma gêmea” que viera para programada experiência em comum...
Um diabético entrou em coma e quase morreu, porque o “guia” lhe recomendou que substituísse a insulina por determinado chá...
Uma empresa foi à falência porque seus proprietários seguiam a orientação de um “mentor” que, certamente, não entendia nada de finanças...
Um homem cortou relações com um vizinho, porque o “guia” lhe disse que, por inveja, o referido fizera um “despacho” para prejudicá-lo...
Um grupo mediúnico uniu-se em torno do ideal de publicar livros psicografados por um de seus integrantes, todos mal alinhavados, linguagem pobre, ortografia precária, flagrantes erros doutrinários, porque o autor espiritual, ninguém menos que o próprio “guia”, afirmava tratar-se de importante contribuição em favor da Doutrina Espírita.
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Todos que mourejamos na Terra somos, obviamente, Espíritos.
Uma única diferença nos distingue - estamos encarnados.
Assim, a escala espírita se aplica a nós também.
Também estamos num determinado degrau da imensa escada evolutiva que nos conduzirá ao Céu.
Haverá entre nós Espíritos da Primeira Ordem, puros, perfeitos?
Houve um apenas:
Jesus.
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Espíritos da Segunda ordem, que se orientam exclusivamente pelo desejo de fazer o bem, têm transitado em número razoável pelas paragens terrestres.
São os grandes idealistas, que não obstante suas limitações, trabalham em favor do progresso humano. Ainda que em posições de subalternidade, destacam-se pelo seu comportamento, empenhados em cuidar do próximo, esquecendo-se de si mesmos.
Muitos nem precisariam reencarnar na Terra. Deixam os patamares mais altos em que se encontram para estimular à ascensão os irmãos que se demoram em degraus mais baixos.
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Perto da base situamo-nos todos nós, pobres humanos ainda orientados pelo egoísmo.
Sonhamos altos vôos de espiritualidade, mas temos os pés chumbados no chão.
Admiramos a virtude, mas não conseguimos vencer o vício.
Exaltamos a palavra mansa, mas freqüentemente caímos na expressão agressiva.
Como diz Paulo, queremos o bem, mas nos envolvemos com o mal.
Nossa evolução primária evidencia-se no trato com as pessoas que se comprometem com o crime.
Se lemos no jornal que rapazes incendiaram um mendigo ou alguém estuprou e matou uma criança, logo pensamos que a pena de morte seria pouco para essa gente, e que todos deveriam ser submetidos às piores torturas, numa clara alusão ao olho por olho, da anacrônica legislação mosaica que Jesus revogou há dois mil anos.
Será que um Espírito da Segunda Ordem pensaria assim? Ou enxergaria, nesses criminosos, doentes necessitados de tratamento, como está no ensino evangélico?
O nosso anseio de justiça cheira a vingança.
Se alguém nos faz um desaforo, logo “soltamos os cachorros”, para “colocar o imbecil em seu devido lugar”. Os que, por um prodígio de disciplina, silenciam, não fazem melhor, consumindo-se em rancor.
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A escada de Jacó situa-se em nosso próprio coração. Para galgar seus degraus até o Céu da Consciência tranqüila, da inalterável serenidade que sustenta a alegria de viver, é preciso aprimorar nossos sentimentos, aprender a cultivar os valores da compreensão, da misericórdia, do respeito, habilitando-nos a estagiar, intimamente, em ordens cada vez mais elevadas, nos caminhos da perfeição.
É algo como está numa interessante história relatada por Daniel Goleman, em seu famoso livro “Inteligência Emocional”:
Um guerreiro samurai certa vez desafiou um mestre Zen a explicar o conceito de céu e inferno. Mas o monge respondeu-lhe com desprezo.
- Não passas de um rústico... Não vou desperdiçar meu tempo com gente da tua laia!
Atacado na própria honra, o samurai teve um acesso de fúria e, sacando a espada da bainha, berrou:
-Eu poderia te matar por tua impertinência.
- Isso - respondeu calmamente o monge - é o inferno.
Espantado por reconhecer como verdadeiro o que o mestre dizia acerca da cólera que o dominara, o samurai acalmou-se, embainhou a espada e fez uma mesura, agradecendo ao monge a revelação.
- E isso - disse o monge - é o céu.

Reformador Jul.98

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