sábado, 9 de julho de 2011

VENTANIA ACALMADA


Mat. 8:18 e 23-27
18. Ora, vendo Jesus a multidão em redor de si, mandou
passar para a outra margem (do lago).
. . . . . . . . . . . . . . . . .
23. E entrando ele no barco, acompanharam-no seus discípulos.
24. Surgiu então no mar tão grande agitação que as ondas cobriam o barco; mas Jesus dormia.
25. Aproximando-se, os discípulos o acordaram dizendo:
"Salva-nos Senhor, que perecemos"!
26. Ele lhes disse: "Por que temeis, homens de pequena fé'? Então erguendo-se, repreendeu os ventos e o mar, e fez-se grande calmaria.
27. E os homens se maravilharam, dizendo: “Quem é esse, que até os ventos e o mar lhe obedecem"?
 
Marcos. 4:35-41
35. Naquele dia, ao cair da tarde, lhes disse: "Passemos para o outro lado (do lago)".
36. Deixando eles a multidão, levaram-no assim como estava no barco; e estavam com eles outros barcos.
37. E levantou-se grande turbilhão de vento e as ondas caíram no barco, de modo que já se enchia.
38. E ele estava dormindo na popa sobre o travesseiro; e eles o acordaram e lhe perguntaram: "Mestre, não te importas que pereçamos"?
39. Tendo ele acordado, repreendeu o vento e disse ao mar: "Cala-te! Fica amordaçado"! E cessou o vento e houve grande calmaria.
40. Então lhes perguntou: Por que sois tão medrosos? Como ainda não tendes confiança"?
41. E eles, cheios de medo, diziam uns aos outros: "Quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem"?
Lucas. 8:22-25
22. E aconteceu que, num daqueles dias, entrou num barco com seus discípulos e disse-lhes: "Passemos para o outro lado do lago". E partiram.
23. Enquanto eles navegavam, ele adormeceu. E desabou um turbilhão de vento sobre o lago e o barco se encheu e estavam em perigo.
24. Aproximando-se, despertaram-no, dizendo: "Mestre, Mestre, perecemos"! Tendo ele acordado, repreendeu o vento e a fúria da água, e cessaram, e houve calmaria.
25. Então lhes perguntou: "Onde está vossa confiança"? Eles, aterrorizados, admiraram-se, dizendo uns aos outros: "Quem é este, afinal, que manda aos ventos e à água e eles lhe obedecem"?

Ao cair da tarde, já tendo terminado o ensino, Jesus ordena que se passe “para o outro lado". A frase era suficiente, num país como a Palestina, dividido ao meio de norte a sul pelo rio Jordão e seus lagos (Mar Morto e Lago de Genesaré, o qual, no domínio romano, passara a denominar-se Mar de Tiberíades), formando a faixa ocidental (Cisjordânia) e a oriental (Transjordânia).
O evangelista anota o pormenor de que Jesus foi "assim como estava", ou seja, não desceu à terra para apanhar o manto, recomendável numa travessia do lago durante o frio da noite, a 200 metros abaixo do nível do mar, onde as variações climáticas são bruscas.
O lugar de honra situava-se na popa, perto do leme, e o passageiro sentava-se geralmente num tapete velho, apoiando-se num travesseiro de couro. Recostando-se, cansado - embora a elevação espiritual extraordinária, possuía um corpo físico, e portanto estava sujeito ao cansaço - adormeceu para refazer as células fatigadas pelo trabalho exaustivo dos últimos dias, sobretudo pelo magnetismo gasto nas curas. Note-se que esta é a única vez em que os Evangelhos nos apontam Jesus a dormir.
O barco seguia normalmente sua rota para a margem oriental, quer impelida pelos remos, quer, mais possivelmente, pela vela que aliviava os braços dos discípulos.
A agitação violenta das águas do Tiberíades, provocada por correntes de ar que descem pelo vale do Jordão, são, ainda hoje, tão repentinas, que é difícil prevê-las. Marcos e Lucas a chamam lailaps, isto é, um "turbilhão de vento".
Os barcos aprumam-se na crista das vagas de até dois metros, abatendo-se a seguir nos sorvedouros, enquanto os vagalhões passam por cima do barco, "cobrindo-o" literalmente e perigosamente adernando-o. Não é incomum, porém, terminar como começou: rapidamente. Pelas palavras dos três evangelistas, é disso que se trata, e não propriamente de "tempestade" com chuvas e trovoadas. Era, pois, um vendaval mais violento que os comuns, de modo a assustar os pescadores, tão acostumados ao seu lago, que lhes dava o sustento.
Segurando-se nos bancos, chegaram até Jesus e o despertaram do sono, bastante pesado, a ponto de não ter sentido a ventania. Após pequena repreensão aos discípulos pela falta de confiança manifestada, usando um termo que era corrente entre os rabinos e no linguajar de Jesus (oligópistoi), Jesus ergue-se e comanda aos ventos, em primeiro lugar, por serem a causa; e em seguida ao mar; e imediatamente fez-se acalmaria (em grego foi usado o termo técnico, galéné).
As ordens, citadas só por Marcos, são curtas. Ao vento: cala-te; ao mar, fica amordaçado. É difícil traduzir exatamente o termo grego pephimôso, que é o imperativo perfeito passivo de phimôo, tempo que não possuímos nas línguas românticas, nem mesmo havia em latim.
Mesmo habituados a uma bonança relativamente rápida, o inesperado da cena ataranta os discípulos; embora familiarizados com as curas e as desobsessões (também praticadas em larga escala pelos essênios-terapeutas), não sabem explicar o poder de uma criatura humana sobre os elementos desencadeados em fúria, amainando-os de súbito. E vem-lhes a dúvida: "quem será, afinal, esse carpinteiro? Era bom e compassivo, dominava as enfermidades e os espíritos, mas ... comandar assim a natureza? Isso superava-lhes a capacidade de compreensão.
As interpretações mais comuns do trecho vêm da antiguidade (cfr. Agostinho, Sermão 68, Patrol. Lato, vol. 38 col. 424), de que a cena simboliza:
a) a igreja cristã que, mesmo na tempestade, tem Cristo ao leme e, embora este pareça dormir, na hora oportuna despertará e salvará;
b) a alma humana que, mesmo agitada pelas provações, não sucumbirá se recorrer a Cristo que nela se encontra, embora no silêncio do sono.
Outras aplicações ainda poderiam ser feitas, para situações semelhantes, mas o sentido profundo do fato é o segundo, dado por Agostinho.
O espírito está viajando no barco do corpo, atravessando o lago deste mundo com seus veículos (discípulos) e com frequência repentinamente se levantam turbilhões de vento que ameaçam o naufrágio total. O Eu Profundo jaz adormecido na popa, deitado no travesseiro no imo do coração. Quando, entretanto, as circunstâncias se tornam desesperadoras, os veículos recorrem aos gritos ao Cristo Interno - embora, muitas vezes, por ignorância, se voltem para fora, a fim de recorrer ao "santo" externo.
No entanto, DEUS EM NÓS está atento a nossas necessidades e "sabe melhor do que nós aquilo de que necessitamos" (cfr. Mat. 6:8) e socorre-nos sempre a tempo. E com direito, ao presenciar nossa aflição, nos repreende docemente: "por que és medroso? como ainda não tens confiança"?
Mas quão dificilmente se corrige o homem, adquirindo a impassibilidade da confiança inabalável de quem SABE que CRISTO está conosco, está DENTRO DE NÓS, e que vivemos a própria vida Dele e que, portanto, nenhum furacão externo poderá atingir-nos!
Outra lição aí vemos ainda. Quando nosso Espírito se vê envolvido pelo vendaval das paixões, originadas em nossos veículos inferiores; quando percebe, por exemplo, que as violentas emoções de uma paixão ilógica o envolvem, prestes a fazê-lo soçobrar, nenhum auxílio melhor pode ser-nos trazido: o recurso ao Pai que em nós habita é o único que consegue acalmar as ondas de desejo desenfreado, trazendo bonança aos veículos etérico, astral e intelectual. O ensino é de profundo alcance e mostra-noso caminho certo: ligação com o Cristo Interno, fazendo-O “despertar" em nós, para que Ele, com Sua palavra autoritária, faça cessar os desordenados e perturbadores ímpetos do tufão borrascoso que esses corpos provocam, arriscando matar espiritualmente nosso "espírito", por fazê-lo afogar-se em terríveis convulsões de longos e penosos carmas.

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