segunda-feira, 1 de agosto de 2011

CIÚME: TRAMA ESCURA DO SENTIMENTO


“Escutai e compreendei bem isto: não é o que entra na boca que macula o homem; o que sai da boca do homem é que o macula. O que sai da boca procede do coração e é o que torna impuro o homem.” (Mateus, 15:17-18.)


O Mestre, ao enunciar esse significativo ensinamento, de inapreciável valor, também registrado no Evangelho de Marcos (7: 18 a 21), espera de nós uma mudança íntima e radical mediante a purificação do nosso coração, não de reforma externa. A passagem evangélica impele-nos a pensar sobre o tema do presente artigo, identificando, nas doenças da alma, o momento em que o ciúme converte a palavra em açoite desesperador.
O assunto sugere vasta abordagem, mas gostaríamos de nos deter em alguns aspectos desse sentimento que tem danificado moralmente muitas almas irmãs que se deixam levar pelo receio e pela incerteza nos relacionamentos afetivos entre casais.
Como aniquilar o ciúme do coração para fugir de aflitivas tentações que nos assaltam o pensamento?
Se o sentimento precede, em nós, toda e qualquer elaboração de ordem mental, por que não conseguimos mantê-los equilibrados, pacificando-os, tanto quanto possível, em benefício das experiências amorosas que usufruímos?
Ao interpretar o ciúme, o Mentor espiritual Emmanuel, esclarece:
– O ciúme, propriamente considerado nas suas expressões de escândalo e violência, é um indício de atraso moral ou de estacionamento no egoísmo, dolorosa situação que o homem somente vencerá a golpes de muito esforço, na oração e na vigilância, de modo a enriquecer o seu íntimo com a luz do amor universal, começando pela piedade para com todos os que sofrem e erram, guardando também a disposição sadia para cooperar na elevação de cada um.1
Nossas ideias se exteriorizam todos os dias e somos identificados pelas vibrações que irradiamos. É imprescindível, portanto, observar as condições emocionais que se originam de nossas reflexões e raciocínios – nem sempre vigilantes – e que nos conduzem à derrota no campo de lutas cotidianas.
Ao examinar os relacionamentos perturbadores, o Espírito Joanna de Ângelis mostra-nos que “o amor é uma conquista do espírito maduro, psicologicamente equilibrado; usina de forças para manter os equipamentos emocionais em funcionamento harmônico”2 e refere-se às características daqueles que agem em desacordo com esse amor:
Os indivíduos de temperamento neurótico, tornam-se incapazes de manter um relacionamento estável. Pela própria constituição psicológica, são portadores de afetividade obsessiva e, porque inseguros, são desconfiados, ciumentos, por consequência, depressivos ou capazes de inesperadas irrupções de agressividade.
[...] Creem não merecer o amor de outrem, e, se tal acontece, assumem o estranho comportamento de acreditar que os outros não lhes merecem a afeição, podendo traí-los ou abandoná-los na primeira oportunidade. Quando se vinculam, fazem-se absorventes, castradores, exigindo que os seus afetos vivam em caráter de exclusividade para eles [...].3
Afirma o preclaro Espírito, que o amor-compreensão “não se escora em suspeitas, nem exigências infantis; elimina o ciúme e a ambição de posse, proporcionando inefável bem-estar ao ser amado que, descomprometido com o dever de retribuição, também ama”.3 De fato, esse amor, contrário ao amor-paixão, vence obstáculos para manifestar a sua afeição com maior intensidade a cada dia. Assim, no entender de Vinícius: “A paixão pode conduzir o homem à loucura e ao crime. O amor equilibra as faculdades, consolida o caráter, apura os sentimentos e torna o homem capaz dos mais belos sacrifícios”.4
O monstro do ciúme, contudo, devora-nos o equilíbrio; torna-nos frágeis emocionalmente frente às dúvidas e às desconfianças que nos atormentam o coração.
Nossas suspeitas, fruto do egoísmo que nos assinala a personalidade, convertem-se em profundas aflições fazendo-nos sofrer desnecessariamente, causando-nos inúmeros transtornos físicos e morais; padecimentos buscados na vida presente, “consequência natural do caráter e do proceder dos que os suportam”.5 Sobre o problema, Allan Kardec explica-nos, objetivamente:
Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida; remontem passo a passo à origem dos males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer: Se eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria em semelhante condição.
A quem, então, há de o homem responsabilizar por todas essas aflições, senão a si mesmo? O homem, pois, em grande número de casos, é o causador de seus próprios infortúnios [...].6
Em nota à questão 917 de O Livro dos Espíritos, tendo como resposta a mensagem transmitida pelo Espírito Fénelon, analisa Kardec, asseverando:
[...] Quando compreender bem que no egoísmo reside uma dessas causas, a que gera o orgulho, a ambição, a cupidez, a inveja, o ódio, o ciúme, que a cada momento o magoam, a que perturba todas as relações sociais, provoca as dissensões, aniquila a confiança, a que o obriga a se manter constantemente na defensiva contra o seu vizinho, enfim a que do amigo faz inimigo, ele compreenderá também que esse vício é incompatível com a sua felicidade e, podemos mesmo acrescentar, com a sua própria segurança. [...]7
É imprescindível vigiar a palavra para que não venhamos a cometer desatinos em nome do sentimento que afirmamos ter pela pessoa amada; vigiar a boca, ao transmitir pensamentos destrutivos, exteriorizando elementos perturbadores, de acordo com as nossas intenções mais secretas e personalistas.
Dia virá em que colheremos os frutos amargos das atitudes infelizes que perpetramos.
O exemplo oferecido pelo Espírito André Luiz, retratado em uma de suas obras, alerta-nos para o fato de que, mesmo espíritas, não fugiremos dessas situações se não soubermos preservar a harmonia necessária ao lado daqueles com quem convivemos no recesso do lar: é o caso da médium Isaura Silva. O autor, em conversa com Sidônio, diretor dos trabalhos, a descreve como
[...] valorosa cooperadora, revela qualidades apreciáveis e dignas, porém, não perdeu ainda a noção de exclusivismo sobre a vida do companheiro e, através dessa brecha que a induz a violentas vibrações de cólera, perde excelentes oportunidades de servir e elevar-se. [...]8 André Luiz, orientado pelo Guardião espiritual, relata que, apesar de a cooperadora possuir vastas probabilidades de serviço ao próximo, suas condições espirituais menos nobres, influenciadas pelos sentimentos enegrecidos que cultiva, lhe encaminham, durante o sono, fora do corpo de carne, ao encontro de entidades desencarnadas, caracterizadas por aspirações de ordem inferior e de mentes pervertidas. Confabulando com esses Espíritos, a seareira encontra guarida para desabafar sobre os dramas imaginários que acalenta dentro de si. Em razão disso, os Espíritos superiores que a assistem, concluem:
– Antes de tudo, os agentes da desarmonia perturbam-lhe os sentimentos de mulher, para, em seguida, lhe aniquilarem as possibilidades de missionária.
O ciúme e o egoísmo constituem portas fáceis de acesso à obsessão arrasadora do bem. Pelo exclusivismo afetivo, a médium, nesta conversação, já se ligou mentalmente aos ardilosos adversários de seus compromissos sublimes. 9
Vivamos, pois, tranquilamente junto aos que nos cercam, mantendo uma conduta de segurança no plano afetivo; saibamos cultivar a ligação imperecível entre as almas que amamos e que nos amam, lutando contra os perigos do ciúme devastador que aniquila a estabilidade de nossos melhores sentimentos, sem esquecer que a palavra procede do coração envolvendo-nos para o bem ou para o mal.

Reformador Maio 2010

Referências:
1XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 3. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Questão 183.
2FRANCO, Divaldo P. O homem integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador, BA: LEAL, 1990. Cap. 7, Relacionamentos perturbadores, p. 114-117.
3______.______. p. 114.
4VINÍCIUS (Pseudônimo de Pedro de Camargo). Nas pegadas do mestre. 12. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. Amor e paixão, p. 126.
5KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 129. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 5, item 4, p. 107.
6______.______. p. 108.
7______. O livro dos espíritos. 91. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Comentário de Kardec à questão 917.
8XAVIER, Francisco C. Libertação. Pelo Espírito André Luiz. 2. ed. esp. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Cap. 16, p. 216.
9______.______. p. 220.

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