quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A VIDA NÃO É UMA DROGA



Há livros que marcam a vida da gente. E quanto mais eles são relidos, mais aprofundam essa relação de osmose que têm com o leitor. Algumas frases, citações ou afirmações são tão fortes que é inevitável carregá-las para sempre conosco, fazendo com que sejam repetidas nos momentos apropriados, como se fossem de nossa criação (e passam de um certa forma a ser, porque a identificação faz com que a teoria se transforme em ação em nossa vida prática).
Um desses livros importantes para mim é “Adolescência normal”, dos psicólogos Arminda Aberastury e Maurício Knobel. Eles analisam o que chamam de síndrome normal da adolescência, um conjunto de características da vida do adolescente que, se não chega a determinar um aspecto doentio, é marcante enquanto hábito que os que passam por esta faixa etária vivenciam intensamente.
No livro, são citadas dez situações existenciais, dentre elas a relação muito próxima entre um ateísmo absoluto e um fervor religioso intenso, além de um progressivo afastamento da autoridade dos pais e paulatina transferência dessa submissão ao líder do grupo, passagem do auto-erotismo para a heterossexualidade.
Dentre outros itens, destaco um de importância fundamental para este artigo: a necessidade de o jovem se identificar com grupos relacionais, sejam eles o da escola, o de amigos do esporte, da música ou os que se reúnem em pontos de encontro, em shoppings, boates ou cinemas.
Este é um dos aspectos citados por jovens que foram entrevistados para uma pesquisa da Associação Parceria contra Drogas, entidade não oficial destinada a prevenir o vício entre jovens.
O trabalho da Associação foi realizado no ano passado e apresentou resultados reveladores, sobretudo no que toca à responsabilidade dos pais no crescimento do consumo de drogas na adolescência.
Setecentos jovens de 9 a 21 anos de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre e Campo Grande deram respostas profundamente esclarecedoras.
Elas revelam que famílias desestruturadas, tumultuadas e agressivas aproximam os filhos do controle dos traficantes.
O motivo básico para a procura por drogas, segundo os entrevistados, foi “fugir de problemas com a família/pais” (35%). Logo depois, com boa diferença, veio “querer ser aceito num grupo de amigos” (15%), e em terceiro, “experimentar sensações novas”. O item que citamos no início do artigo, o da necessidade de agir conforme as exigências do(s) grupos(s) para ser aceito por ele(s), ganhou destaque porque efetivamente é muito importante. Qual jovem não deseja ser admirado e querido, num momento de construção da própria identidade, como o que ocorre na adolescência?
O que falta, muitas vezes, é maior presença amorosa e educativa da família nesse momento, para que a pressão dos diversos grupos não seja perniciosa a ponto de levar o frágil homem em elaboração para a experiência perigosa das drogas.
O que alguns analistas concluíram a respeito da pesquisa é duro de ouvir ou de assumir, mas é importante para os pais. Muitas vezes, pais e traficantes agem como se fossem aliados. E isto não é exagero.
A pesquisa tentou estabelecer uma relação concreta entre os níveis de consumo de drogas lícitas e ilícitas com a relação familiar. Os dados indicaram que tanto os pais extremamente repressores e agressivos quanto os liberais acabam, no fim, dando-se as mãos.
Gente que não sabe dialogar, de ouvir os conflitos dos filhos ou de captar os sinais que eles dão a todo momento do que se passa em seu íntimo estão caminhando lado a lado com os permissivos, os chamados “pais adolescentes”, que não sabem definir limites para os filhos porque não conhecem a importância dos limites em suas próprias vidas.
Conheçamos um pouco mais do resultados para elaborar uma opinião de colorido espírita, a fim de reforçarmos nossa visão de mundo com a contribuição valiosa que a Doutrina dos Espíritos tem a nos oferecer.
Os jovens entrevistados foram divididos em três categorias, a partir do contato com as drogas: mais próximo, intermediário e mais afastado.
Os “mais próximos” são os que têm amigos usuários e que declararam que já experimentaram alguma droga ou fumaram maconha no último mês.
De cada 100 entrevistados, 27 afirmaram estar nessa categoria.
Para filhos de pais desunidos, essa porcentagem sobe para 34%. Entre os que se sentem rejeitados pelos pais, o índice sobe para 37%.
Nenhum dos itens, no entanto, foi maior que o de filhos de pais permissivos: 40%. Eis a confirmação dos perigos de uma educação sem limites, de filhos que se impõem ditatorialmente aos pais, aproveitando-se do medo que eles têm de aborrecê-los e acabar assumindo conflitos para os quais não se vêem preparados.
Resultado desta situação: está crescendo uma geração que não sabe se frustrar, que quer transformar o desejo em realidade a qualquer custo. São aqueles que não aprenderam a ouvir os outros, acham que são mais importantes do que qualquer coisa que existe na vida, que podem tirar a vida de adversários a qualquer contrariedade que estes lhes imponham, seja numa briga em uma festa, ou no trânsito, ou na rua.
Transferir esta situação para a realidade das drogas é possível, e as  conseqüências são muito parecidas, ou até piores.
O Espiritismo nos pede que estejamos muito atentos a tudo que diga respeito à vida íntima dos adolescentes, sejam eles nossos filhos, amigos de nossos filhos ou apenas nossos amigos ou conhecidos.
Nada de autoritarismo ou repressão injustificáveis. Se não sabemos agir diferente, é hora de abraçar a humildade e procurar um terapeuta para resolver essa questão. Quem acha que sempre está com a razão está na verdade a um passo da fascinação obsessiva.
É momento de oferecer ao jovem a compreensão de que a juventude é valiosa estação de aprendizado do Espírito reencarnado, rumo a conquistas definitivas no exercício da maturidade. É preciso ajudá-lo a entender que os anos fogosos da adolescência não existem apenas para que ele se deleite com a beleza física e a arte de seduzir, mas também como trampolim para amadurecimentos efetivos, para os quais o uso adequado das forças pessoais é imprescindível.
O Espiritismo pensa também que é necessário definir as formas, sejam elas psíquicas, intelectuais ou intuitivas, que devem caracterizar uma nova encarnação.
Esta foi uma preocupação de Allan Kardec, quando perguntou aos Espíritos o motivo da mudança que se opera no caráter da pessoa a uma certa idade, particularmente ao sair da adolescência. O Codificador quis saber se é o Espírito que se modifica, e o Benfeitor respondeu que isto ocorre porque o Espírito retorna, depois do período da infância, à sua natureza e se mostra tal qual era (questão 385, cap. VII – 2a parte).
Nesse retorno à influência do que trazem de características pessoais do passado, nossos filhos se mostram como integrantes do mundo, membros de grupos com os quais se afinizam, amigos de pessoas que podem ser dependentes de drogas e capazes de estabelecer com eles vínculos afetivos que vão merecer cuidadosos debates na intimidade do lar.
Os pais espíritas que se cuidem, portanto, tratando de evitar o tradicional mecanismo de defesa que teima em afirmar: “graças a Deus, aqui em casa isso não acontece”. A pergunta é: será que não acontece mesmo?
O que será melhor: forçá-los a se afastar das pessoas ditas “perigosas” ou colaborar com eles a todo momento, desde a infância, para que saibam efetivamente discernir o joio do trigo em todas as circunstâncias relacionais?
Eis aí uma situação muito difícil e delicada para todos. É nossa a chance de pelo menos refletir sobre ela ou continuar pensando que conosco nada disso acontece, mesmo que acreditemos piamente que já estamos dando tudo que é possível para evitar o problema dentro do lar.
Apenas para reflexão: 46% dos jovens entrevistados disseram que é muito fácil comprar cocaína, mesma facilidade encontrada por 36% dos que, eventualmente, buscassem crack e, mais surpreendente, por 26% dos que preferem heroína.
A proposta espírita continua, portanto, de pé. Não é possível permitir que o jovem transforme sua encarnação em uma droga de vida.
Nesse contexto, os pais devem se preocupar não só com o que os traficantes estão fazendo nas ruas, mas sobretudo com o que eles, pais, estão fazendo ou deixando de fazer dentro de casa. Desta atenção depende o futuro da geração em que nossos filhos estão inseridos e, por conseqüência, o mundo que eles vão dirigir dentro em breve.
Sugestão de leitura: O livro “Juventude Espírita” reúne excelentes artigos sobre a adolescência, trazendo resultados de pesquisas científicas atualíssimas, analisadas por psicólogos, educadores, sociólogos e assistentes sociais, todos espíritas, sobre a importância desse período na vida do ser humano. O livro é uma coletânea de ensaios inéditos escritos por autores como Hermínio Miranda, Elaine C. Ramazzini, Richard Simonetti e Heloísa Pires, dentre outros.
Reformador Agosto 2000

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