sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ENGENHARIA GENÉTICA



O desenvolvimento científico, que se vem apresentando nos mais diferentes campos do conhecimento, demonstra que o ser humano progride e diminui a carga dos próprios sofrimentos, que são por ele mesmo programados como resultado da incúria ou da inépcia para lidar com os necessários desafios existenciais.

A busca da superação da dor e de todos os sequazes que a acompanham tem sido um constante buscar, desde os audaciosos sonhos da conquista da pedra filosofal, na Idade Média, até às ambições que se podem transformar em tristes pesadelos, quais as que dizem respeito à incursão na intimidade do DNA para clonagem de seres como outros tantos delírios antiéticos do momento.

Não obstante, a Divindade tem facultado que as aflições mais rudes, em razão do progresso que a criatura tem conseguido, particularmente na área moral, embora o muito que ainda lhe falta alcançar, venham diminuindo a pouco e pouco, abrindo espaços no seu processo orgânico e psíquico para mais saúde, mais bem-estar e mais alegria de viver.

Desde quando foram descobertos o éter, o clorofórmio e outros fármacos, como também os analgésicos, inúmeros sofrimentos hebetadores foram abrandados expressivamente, assim como o concurso das cirurgias e microcirurgias, que facultaram melhores meios para continuar no corpo sem as injunções penosas e deformadoras que eram habituais.

Certamente, ainda há muito para fazer nessa área, e, por isso mesmo, os avanços tecnológicos não cessam, surgindo cada dia com mais amplos e abençoados recursos terapêuticos.

Na genética, por exemplo, desde a descoberta dos genes e cromossomos, por G. Mendel, que experimentou reproche e desconsideração dos seus coevos, os logros são catalogados com cuidado, de forma a melhor entender-se os mecanismos da vida nas suas origens, facultando mais amplas possibilidades de auxílio ao ser em formação como posteriormente às resultantes do seu comportamento.

Graças às quase infinitas possibilidades de penetração nas organizações moleculares através dos microscópios eletrônicos e dos estudos acurados dos genes, os cientistas empenham-se em bem definir as ocorrências da vida física e mental, descobrindo como surgem os fenômenos biológicos, a aparência humana e os seus detalhes, desde a configuração até a cor dos olhos, a dos cabelos, examinando as estruturas íntimas do DNA e estabelecendo normas para corrigir algumas das anomalias que se apresentem.

O desconhecimento dos mecanismos superiores da Vida, por parte desses nobres pesquisadores, leva alguns a sonhos fantásticos, pelo menos para o momento, tais o de evitar futuras enfermidades degenerativas como o câncer, a AIDS, trabalhando nos códigos genéticos que tragam deficiências propiciatórias ao surgimento ou à instalação dos mesmos.

Ao lado dessa busca respeitável, sem dúvida, mas que foge ao programa da reencarnação de muitos Espíritos endividados que, se liberados da injunção aflitiva, incidirão em outros mecanismos depuradores, apresentam-se alguns entusiastas da engenharia genética pensado na possibilidade de trabalharem a complexidade desses microcomputadores orgânicos, para alterarem por exemplo, o sexo do zigoto, ou mais tarde do feto, mesmo que este já se encontre em processo de formação física.

O corpo, sob qualquer condição que se expresse, é resultado da conduta anterior do Espírito, que programa as suas necessidades na forma, a fim de crescer e evoluir, transformando conflitos em paz, débitos em créditos, mazelas em esperanças.

Sem duvidarmos da ingerência do ser humano no projeto, recordaremos que ao abuso do conhecimento em qualquer área sempre correspondem danos equivalentes.

Vejamos, por exemplo, o que vem ocorrendo no Ecossistema. O desrespeito à Natureza, por ignorância inicial e por interesses mesquinhos e argentários no momento, tem produzido diversos efeitos graves para a própria existência humana. A destruição da camada de ozônio vem ampliando o número de portadores de câncer da pele de forma assustadora; o abuso dos adubos químicos no solo tem gerado problemas orgânicos lamentáveis; a aplicação de hormônios nas aves e nos animais de abatimento vem facultando doenças desconhecidas no ser humano; a diminuição do volume de água ameaça regiões onde a vida se encontra e começa a perecer, a presença do mercúrio nos rios enseja-lhes o envenenamento, destruindo a flora e a fauna, bem como as populações ribeirinhas; o aumento das áreas desérticas e o degelo dos pólos constituem ameaças que estão preocupando alguns governos e nações do Planeta que temem pelo futuro, momentaneamente sombreado por angústias...

A vida é trabalhada por um princípio de ética divina, que não pode ser manipulada ao prazer da insensatez, sem que disso decorram conseqüências imprevisíveis para os seus infratores.

Fascinados com as possibilidades teóricas que lhes propicia a engenharia genética, muitos pesquisadores pensam em burlar as leis Universais tornando-se pequenos deuses com possibilidades inimagináveis, o que é, aliás, compreensível, dentro dos seus devaneios materialistas através dos quais pensam em tudo reduzir ao nada do princípio em que se apoiam.

Parece a esses investigadores dos emaranhados segredos da existência planetária que lhes é facultado brincar de Deus, alterando os códigos genéticos e criando aberrações para atendimento do seu luxo criativo. Compreendesse que o ser humano ainda não saiba sequer brincar de homem, desde que, na maioria das vezes, quando o intenta, seu jogo se transforma em conflito de guerra com destruição à vista.

A partir de 1990 vários países, compreendendo as possibilidades imensas que lhes estavam ao alcance, reuniram em um projeto ousado inúmeros cientistas do mundo objetivando decodificar os quase três bilhões de caracteres que se encontram nas células humanas como decorrência do seu código genético.

Trata-se de um nobre trabalho que tem por meta essencialmente compreender a estrutura molecular do ser humano, e mesmo curar as enfermidades afligentes que se instalam devorando vidas. Foi denominado Projeto Genoma Humano que, entre outras descobertas, confirma que o homem se originou na África de onde emigrou para toda a Terra através dos tempos.

Entre outras conquistas maravilhosas se está conseguindo demonstrar que não existem raças superiores nem inferiores, já que as variações nos grupos étnicos é infinitamente maior do que se pensava a princípio, a tal ponto que indivíduos da mesma raça apresentam-se geneticamente muito diferentes entre si. Outrossim, confirmou-se que a epiderme negra tem sua origem em região onde o Sol é muito forte, responsabilizando-se pela pigmentação escura que lhe serve de defesa e proteção, clareando à medida que diminui o calor, tornando-a clara a fim de sintetizar a vitamina D indispensável ao desenvolvimento dos músculos e ossos...

Prosseguindo nessa linha de observações será inevitável a constatação de que todo esse mecanismo providencial à vida humana organizada tem os seus moldes nos campos energéticos do perispírito, esse envoltório delicado do Espírito, que é o agente real da vida.

Simultaneamente se apresenta como necessidade inadiável a presença de uma ética estribada nos limites que devem ser impostos à pesquisa, a fim de os governos arbitrários e as pessoas alucinadas não se utilizem do conhecimento genético para experiências macabras, quais aquelas muitas ocorridas em tempos próximos passados nos campos de concentração, onde milhões de vidas pereceram longe de qualquer dignidade ou compaixão, ou mesmo sentimento de humanidade, sob mãos de cientistas loucos que pretendiam criar uma raça superior, na vã presunção de submeter aqueloutras que consideravam inferiores.

A inexorável marcha do tempo, ou passagem do ser pelo rio infinito das horas presentes, vem demonstrando que somente as conquistas que objetivam o bom, o belo, o nobre, o dignificante permanecem, enquanto as utopias da loucura se diluem como brumas espessas de um momento que o calor do dia termina por desfazer.

A engenharia genética será, naturalmente, um instrumento para dignificação do ser humano e entendimento da vida nas suas mais profundas expressões, jamais recurso para submetê-lo às paixões e desmandos de outros que dela planejam utilizar-se para tais nefandos fins. .



JOANNA DE ÂNGELIS

(Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, em reunião de 14 de julho de 1997, em San Juan, Porto Rico).

domingo, 11 de setembro de 2011

OS SETE AIS


Mateus 13:13-36                                            
13  "Mas ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque fechais diante dos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar os que estão entrando.                                                       
15  Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque rodeais o mar e a terra para fazerdes um prosélito; e quando feito, o tornais filho da geena o dobro de vós.                                                                     
16  Ai de vós, guias cegos! Que dizeis: quem jurar pelo templo, nada é; mas quem jurar pelo ouro do templo, fica obrigado.
17  Néscios e cegos! Pois qual é o maior, o ouro ou o templo que santifica o ouro?
18  E quem jurar pelo altar, nada é; mas quem jurar pela oferta que está sobre ele, fica obrigado.
19  Tolos e cegos! Pois qual é o maior, a oferta ou o altar que santifica a oferta?
20  Quem, pois, jura pelo altar, jura por ele e por tudo o que está sobre ele.
21  Quem jura pelo templo, jura por ele e por quem nele habita.
22  E quem jura pelo céu, jura pelo trono de Deus e por quem nele se senta.
23  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dizimais a hortelã, o endro e o caminho, e negligenciais os preceitos mais importantes da lei, que são o discernimento, a misericórdia e a felicidade; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitirdes aquelas.
24  Guias cegos! Que coais um mosquito e engolis um camelo.
25  Ai de vós, escribas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estais cheios de rapina e injustiça.
26  Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também seu exterior se purifique.
27  Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque vos assemelhais a sepulcros branqueados que, por fora, parecem realmente vistosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de todas as impurezas.
28  Assim também vós, exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de ilegalidade.
29  Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque construís os sepulcros dos profetas e adornais os túmulos dos justos e dizeis:
30  Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos       profetas.
31  Assim testificais a vós mesmos que sois filhos dos assassinos dos profetas:
32  enchei, pois, a medida de vossos pais!
33  Serpentes, filhos de víboras! Como escapareis da discriminação de geena?
34  Por isso é que vos envio profetas, sábios e escribas: a uns matareis, e crucificareis; a outros, açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade,
35  de tal forma que venha sobre vós todo o sangue justo que se derrama sobre a Terra, desde o sangue de Abel o justo, até o sangue de Zacarias, a quem matastes entre o santuário e o altar.
36  Em verdade vos digo, que tudo isto virá sobre esta geração".

 Lucas 11:42-52
42  "Mas ai de vós, fariseus! Porque dais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as  hortaliças, e desprezais o discernimento e o amor de Deus: estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitirdes aquelas.
43  Ai de vós fariseus! Porque gostais das primeiras cadeiras nas sinagogas e das saudações nas praças.
44  Ai de vós! Porque sois semelhantes aos Túmulos invisíveis, sobre os quais passeiam os homens sem o saberem".
45  Então lhe disse um dos doutores da lei: "Mestre, falando assim, a nós também insultas".
46  Respondeu ele: "Ai de vós, também, doutores da lei! Porque carregais os homens com fardos opressivos e vós, nem com um dedo vosso, os tocais.
47  Ai de vós! Porque construís os túmulos dos profetas que vossos pais mataram.
48  e assim testificais e consentis nas obras de vossos pais, porque eles, sem dúvida, os mataram, e vós lhes construís os túmulos.
49  Por isso também disse a sabedoria de Deus: enviar-lhes-ia profetas e emissários, e a alguns eles matarão, a outros perseguirão.
50  para que a esta geração se peça o sangue de todos  os profetas derramado desde a fundação do mundo.
51  desde o sangue de Abel, até o sangue de Abel, até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e a casa; sim, eu vos digo, que se pedirá a esta geração.
52  Ai de vós, doutores da lei! Porque tirastes a chave da gnose; vós mesmos não entrais, e impedistes aos que entravam".


Antes de começarmos a análise, impõe-se algumas considerações genéricas, para comparação dos dois textos.

Evidente, à primeira vista, que se trata do mesmo episódio, mas cada narrador o apresenta à sua maneira.

Mateus entra ex-abrupto na matéria ("falando à multidão e aos discípulos", 23:1) e enumera SETE ais seguidos, todos assestados contra "escribas e fariseus", tachados sempre de "hipócritas".

Lucas, ao contrário, ambienta a cena com o almoço oferecido pelo fariseu, e os três primeiros ais (do total da SEIS) verberam apenas os fariseus. Quando um "doutor da lei" - que eram os diretores espirituais do povo - toma as dores, protestando que também eles são insultados, o Mestre se volta para ele acrescentando outros três ais contra os doutores.

Dos sete ais de Mateus, Lucas cita quatro: o 1o., o 4o., o 6o. e o 7o., que ele coloca como, respectivamente, 6o., 1o., 3o e 5o. Os restantes aparecem em Mateus, mas sem o anátema do "ai de vós". Ao todo, portanto, somando os "ais" de ambos os evangelistas, encontramos NOVE condenações diretas e taxativas, da maneira de agir dos escribas, fariseus e doutores da lei.

Digna de nota a coragem carismática do Mestre, em verberar o comportamento errado de cara, de corpo presente, sem subterfúgios, sem "mandar recados", não com "indiretas", nem com amaciamentos, mas categoricamente; e isso, é bom assinalar, na casa de um deles, sentado à mesa dele, num almoço em que era o convidado de honra. Em tal situação, difícil se tornaria a um homem comum tomar essa atitude, reveladora de coragem, de segurança dos próprios atos e da justiça de suas palavras: a posição incômoda de "convidado", sentado à mesa do almoço, talvez nos fizesse pelo menos adiar a reprimenda, numa falsa idéia de gentileza e cortesia, pois nosso espírito fora "comprado" por um gesto de generosidade da parte do transgressor da lei. Ou talvez usássemos de outro expediente: não aceitar o convite, para não comprometer-nos. Jesus age de modo diverso: convidado, aceitou. Mas nem por isso escondeu a verdade: disse claramente o que sabia, condenou o erro, verberou a hipocrisia, definiu as posições, impôs sua autoridade.

Passemos à análise do texto, começando pelo vers. 14 de Mateus: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque devorais as casas das viúvas sob pretextos de longas orações: por isso receberais mais pesada condenação". Aparece em alguns manuscritos da Vulgata, é atestado por Taciano e pela versão copta bohaírica (alto Egito), é aceito por Merck e Gramática. Mas a maioria dos críticos (p. ex.: White, Hetzenauer, Nestle, Bover, Pirot, etc) o recusa, pois se trata apenas de uma transcrição de Marcos (12:40), indevidamente acrescentado a Mateus: pura redundância. Vejamos, agora, os "ais", conforme aparecem. Também nós o omitimos no texto.

1o. de Mateus, 6o. de Lucas: condena a hipocrisia de modo genérico. Segundo Strack & Billerbeck (o.c. vol. 1, pág. 921), Rabbi Nathan (160 A.D.) escreveu: "há dez partes de hipocrisia no mundo: nove em Jerusalém , e uma  no resto do universo". Em Lucas se assinala com mais precisão o sentido: os doutores se julgam os únicos capazes de interpretar as escrituras, "tem a chave do santuário", onde se guardam os livros, e portanto o conhecimento, a gnose. Mas, interpretando mal, não "entram" nem deixam que os outros entrem.

2o. de Mateus: Embora não haja, no Talmud, notícia de atividades proselitistas, sabemos por Josefo (Ant. Jud. 20, 2, 4) que o judeu Eleazar fez o rei Izate e sua corte de Adiabene, circuncidar-se. E nas viagens de Paulo encontramos acenos aos prosélitos pagãos, que ingressavam no judaísmo. A expressão "mar e terra"(literalmente: "mar e sólido": tên thálassan kaì tên xêrán). "Filho da geena" (hebraíco: benê gêhinnom) era a filiação metafórica que exprimia dependência ou natureza comum (ver vol. 2o., pág. 139).

3o. de Mateus: Não é repetida a fórmula "escribas e fariseus hipócritas", que vem substituída por "guias cegos" (hodêgoí typhloí) ou seja, diretores espirituais incompetentes. Realmente Jesus proibira qualquer espécie de juramento (Mat. 5:33-37); vol. 2o., pág. 149). Mas os fariseus desobrigavam de juramento pelo templo e pelo altar, mas exigiam seu cumprimento se fosse pelo ouro do templo ou pela oferta que estava sobre o altar. Volta a invectiva: môroi kaì typhloí, tolos e cegos, que vale mais (que é maior, meízon)? O ouro é santificado por estar no templo e a oferta por estar sobre o altar, e não o contrário. Ora, o que mais vale, é o que tem o poder de santificar-se.

4o. de Mateus, 1o. de Lucas: Exemplos concreto de hipocrisia, que faz questão de preceitos leves, como o dízimo das plantas comestíveis e vulgares, desprezando os preceitos graves e importantes. A menta ( hortelã , hêdyosmon) porque aromatiza os alimentos e servia de remédio para as taquicardias (eram comidos três ovos: um com menta, um com cominho e o terceiro com sésamo); o endro (ánêthon), comestível muito usado; e o cominho (kyminon) também empregado como tempero e remédio. No entanto, negligenciavam o discernimento (krísis), a misericórdia (éleos) e a fidelidade (pístis). E é acrescentada a fórmula: "devíeis fazer estas coisas, sem omitir aquelas", ou seja, não é que a primeira esteja errada: é que deve ser mantida em sua posição real, em segundo lugar. Em Lucas são citadas: a hortelã, a arruda (pêganon), planta aromática e as hortaliças em geral (láchanon), e, como negligenciadas, o discernimento e o amor de Deus (agápên tou theoú). No final de Mateus há uma daquelas ironias próprias de Jesus e originais: "guias cegos coais um mosquito e engulis um camelo" (hoi díulízontes ton kônôpa, tên dè kámêlon katapínontes). Figura metafórica das mais felizes, para sublimar o ensinamento dado.

5o. de Mateus: neste se condena o zelo de limpar o exterior do copo e do prato, embora eles por dentro estejam cheios de (gémousin ex) rapina e injustiça (akrasía). O sentido é alegórico, já o vimos no estudo do capítulo precedente, ao comentarmos esta condenação em Lucas 11:39-41, onde desenvolvemos o assunto. A seqüência confirma-o: limpa primeiro (kathársin prôton) o interior, o Espírito, e todos os atos materiais  que este realizar serão puros por si mesmos. Não são os ritos, as cerimonias, as observâncias, a aparência de santidade que dão pureza ao Espírito. É exatamente o inverso: se o Espírito for puro, "todas as coisas são lícitas, embora nem todas convenham", porque "nem todas dão o bom exemplo" (1a. Cor. 6:12 e 10:23).

6o. de Mateus, 3o. de Lucas: São comparados os fariseus e escribas aos sepulcros "caiados de branco". Refere-se ao costume da época. Desde o dia 15 de Adar (um mês antes do 15 de Nisan, quando se comemorava a páscoa), os sepulcros eram caiados de branco, para que ninguém, por descuido, tivesse contato com um túmulo, já que a lei (Núm. 19:16) atribuía impureza legal a esse contato. Branqueados, todos os viam e evitavam. Mas por dentro, continuavam cheios de ossos (gémousin ostéôn) de cadáveres e impurezas de toda espécie. Continua o sentido metafórico, mas já agora explicitamente traduzido: "assim vós pareceis justos aos homens, mas internamente estais cheios de hipocrisia e ilegalidade (anomías). Em Lucas, a comparação  toma sentido mais forte ainda: "sois semelhantes aos túmulos que não são percebidos, e sobre os quais os homens andam sem perceber", ou seja, a aproximação com os fariseus constitui sério perigo para os homens desprevenidos que julgam estar lidando com homens justos, e no entanto internamente estão cheios de podridão.

7o. de Mateus, 5o. de Lucas: Aqui aparecem duas divisões: profetas e justos, cujos túmulos e monumentos são eregidos e ornamentados. A argumentação de Jesus é de lógica cerrada e irrespondível. Com a costumeira hipocrisia, dizem os fariseus: "se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos concordado com o assassínio deles". Ora, isso é uma confissão de que eles são os "Filhos dos assassinos", e não os filhos dos profetas e justos. A estirpe deles se prende aos inimigos dos bons, não os bons. Houve quem tivesse visto aí um aceno à reencarnação: hoje, mais evoluídos, não teriam feito o que fizeram outrora: e isso é uma confissão de arrependimento de um ato realizado em vida anterior, na condição em que estavam de ascendentes da geração atual.

Antes de passar ao final, examinemos rapidamente, as duas condenações restantes de Lucas:

8o. (2o. de Lucas): Salienta o orgulho e convencimento desmedidos dos fariseus, que fazem questão dos primeiros lugares nas sinagogas e de serem saudados por todos; essa condenação aparece em Mat. 23:6, texto que no Evangelho, aparece logo antes do que comentamos, mas que, na realidade, foi proferido cronologicamente em época posterior.

9o.  (4o. de Lucas): Acusa-os de sobrecarregar a humanidade com fardos opressivos e obrigações insuportáveis, embora não queiram para si nenhum trabalho; também aparece a mesma condenação em Mat. 23:4.

Como final, vem um apóstrofe violenta: "enchei a medida de vossos pais", fazendo-as transbordar. Rabbi Hammuna escreveu: "Deus não castiga o homem antes que sua medida esteja cheia. Quando se enche, vem sobre ele a necessidade" (cfr. Strack & Billerbeck, o.c.m vol. 1, pág. 939).

Volta aqui a expressão "serpentes filhos de víboras", numa exclamação inflamada de justa indignação pela falsidade que clama aos céus. E a pergunta: "como escapareis da discriminação da geena"? (cfr. em Mat. 3:7 as palavras do Batista).

Contudo, o Cristo ainda envia profetas (médiuns que falam sob ditado); sábios (sophoús. Hebr. Hakkâmim) que falam por sua própria sabedoria, e escribas (grammatéis) interpretes que explicam os textos de uns e de outros. Nada porém adiante: continuarão as matanças  iníquas "em nome e para maior glória de Deus", sendo todos perseguidos de cidade em cidade. Nunca, talvez, uma profecia se tenha cumprido tão à risca e durante tantos séculos seguidos!... A metáfora, na visão  plena, inespacial e atemporal do Cristo, engloba os fariseus de todas as religiões, em todas as épocas, de todas as raças.

Depois considera os presentes: vós! "sobre vós é que recairá ( élthé, sem a partícula duplicativa) o sangue inocente (haíma dikaíon), expressão muito usada mesmo em hebraico (dâm nâqi) que se derrama (em grego ekchynnómenon, particípio presente) sobre a terra (epì tês gês, não sobre o kósmou, mas sobre o chão). Esta frase retoma a hipótese da reencarnação, acima aventada: esses fariseus aí presentes eram realmente, a reencarnação dos antigos assassinos, tantos que eles (vós!) eram os responsáveis por todos os crimes, desde o sangue de Abel (narrado em Gên. 4:8) até o de Zacarias. Eles, aí, presentes, eram os assassinos: eles, aí presentes, responderiam por todos esses crimes: "tudo isto virá sobre ESTA geração". E ai deles, que continuaram reencarnando séculos afora, e continuaram assassinados, já agora "em nome" desse Cristo que os advertira tão claramente!

Quem era esse Zacarias, que Jesus diz ser o filho de baraquias, morto entre o santuário e o altar?

Esse fato é narrado em 2o. Crôn. 24:20-22. O livro das crônicas é o último livro histórico da Bíblia Judaica, e Jesus demonstra aceitar a historicidade bíblica desde o Gênesis até Crônicas, deixando de fora os livros de Macabeus. Portanto, anotemos, os livros dos Macabeus, considerados canônicos pelo igreja de Roma, e recusada pelos judeus e pelos protestantes, também não foram ratificados por Jesus. Realmente, Jesus poderia ter citado os assassinos dos irmãos Macabeus, exemplares de fidelidade e de coragem. Mas, para salientar "todos os crimes narrados nas Escrituras", limita-se a citar "do Gênesis ao livro das Crônicas". Digno de registro.

Acontece que Zacarias, segundo o livro das Crônicas, é filho de Joiadas, e foi assassinado pelo rei Joas 2o.; não era filho de Baraquias. Jerônimo (Patrol. Lat. Vol. 26, col. 174) esclarece: in Evangelio quo utuntur, Nazaraeni, pro filio Barachiae, filium Joiadae reperimus, isto é: "no Evangelho usado pelos nazarenos, encontramos filho de Joiada, em lugar de filho de Baraquias". O mesmo Jerônimo e João Crisóstomo (Patrol. Graeca, vol. 58, col. 681) pensam que talvez se tratasse de dois nomes ( diônymos), conforme glosa de um masnuscrito.

Alguns críticos (Klostermann, Lagrange, Loisy, Durand, Prat, etc) consideram a frase "filho de Baraquias" como uma glosa posterior ao Evangelho de Mateus, já que não existe no códice sinaítico nem no trecho correspondente de Lucas. Realmente, quem era filho de Baraquias era o profeta Zacarias, que nada tem que ver com este aqui citado por Jesus. Mas algum escriba, que já tinha no ouvido o nome do profeta Zacarias, filho de Baraquias, achou por bem acrescentar esse esclarecimento ao texto de Mateus, o que é qualificado de "glosa antiga" (Loisy, Les Évangile selon Synoptiques, Paris, 1907, tomo 2, pág. 386) e "glosa errada" (Durand, Évangile Selon St. Matthieu, Paris, 1924, pág. 374).

Que significa exatamente a expressão final "tudo isso (tauta panta) virá sobre esta geração"? Jouon (L'Évangile de N.S. Jésus Christ Traduction et Commentaire du texte original, compte tenue du substrat sémitique, Paris, 1930, pág. 46) acha que é "o sangue"; Legrange, (o. c., pág. 452) diz ser "o crime"; Buzy (Évangile selon St. Matthieu, Paris, 1946, pág. 310) prefere ver aí "o castigo".

A lição é, ainda uma vez, preciosa: o discípulo, que segue o Mestre, que é dirigido pela individualidade, não pode ser covarde. Deve enfrentar com a Verdade os poderosos da Terra que estejam errados. Qualquer acomodação com o erro é cumplicidade. A verdade precisa ser dita corajosamente, mesmo à custa da vida física - já que a do Espírito ninguém na pode tirar: é eterna. E a verdade participa da eternidade do Espírito. Calar é consentir; omitir-se é concordar; deixar fazer é participar da injustiça. Nada disso faz parte da humildade. Humildade não é passividade: é ação justa, no momento justo. Humildade e coragem não se repelem, não se opõem, não se anulam; ao invés disso, uma corrobora a outra quem tem o conhecimento, tem a obrigação de ensina-lo; quem possui a chave, tem que abrir a porta; quem está com a verdade é coagido a demonstrá-la.

O conceito de que a humildade se esconde e sofre calada, só vale para os casos pessoais, que não afetem a comunidade. O discípulo tem que ser corajoso e enfrentar as feras do circo, quando se trata de testificar a verdade de suas convicções; tem que crescer diante das autoridades, quando estas se encontram no caminho errado; em resumo, tem que revestir-se da couraça do herói e brandir a espada candente da verdade, para verberar os erros que a desfigurem, zurzindo a hipocrisia e a falsidade, o orgulho e a vaidade, a mentira e a injustiça.

O exemplo de Jesus é valioso para todas as épocas, em todos os climas. E desde então até hoje os imitadores do Mestre não tem faltado. A história registra casos sem conta de discípulos dignos, que pagaram com perseguições e com a vida a coragem de arrostar a ira dos poderosos.

Também a linguagem forte serve de modelo. A verdade não precisa nem deve ser mascarada nem edulcorada com a desculpa de uma caridade mal interpretada. Dizem que a verdade fere; absolutamente. O que fere é a injustiça, é a calúnia, é a mentira.

Os artistas representam a verdade nua, embora alguns defendam que deve ser recoberta "com o manto diáfano da fantasia". Mas isso pode referir-se aos ensinamentos que não devem ser dados aos profanos; a estes se fala em parábolas, "para que vendo, não vejam, e ouvindo não ouçam" (cfr. Mat. 13:15; Marc. 4:12; At. 28:27; Rom. 11:8), a fim de "não serem dadas coisas santas aos cães" (Mat. 7:6). Mas quando se trata de restaurar a pureza do ensino, a nudez forte da verdade deve aparecer em toda a sua pujança, com os termos próprios, com o sentido exato, sem temores nem subterfúgios.

No entanto, podemos entender as invectivas de Jesus, como símbolo que é da individualidade nossa, quais advertências e reprimendas dirigidas à personagem.

Muito comum, em todos nós, é que a personagem encarnada, com seu intelecto maroto, crie numerosas desculpas para escapar ao controle do Espírito. Enquanto este quer levar uma vida correta e dirigir-se diretamente à meta prefixada por sua linha evolutiva, a personagem iventa situações , forja planos, imagina fugas, envereda por desvios, tudo para sobrepor-se e aparecer, para brilhar e resplandecer, para ofuscar e embair os incautos.

Mergulhada na matéria densa, tendo perdido o contato com o Eu Profundo, volta-se para as exterioridades, onde busca o reconforto dos aplausos externos, das bajulações, das posições elevadas, dos elogios e das falsidades. Não possuindo força interna, não SENDO, procura "aparentar" o que não é, por atos, palavras, posições, afirmativas vazias que não concordam com o âmago. O exterior torna-se brilhante e ofusca a vista dos que só vêem a superfície, enquanto o interior é podridão corrupta.

Para sanar esses males, a Individualidade não deve agir com subterfúgios, mas comabter diretamente, empunhando as armas mais eficazes. O Bhagavad-Gita já o ensinara, quando Arjuna demonstra receio de combater "seus próprios familiares" e Krishna, o "cocheiro" (o Eu interno que guia o carro da personagem), o incita a não temer; esses familiares são exatamente os vícios da personagem. A personagem é o "filho único" da individualidade, mas precisa ser corrigido com rigor, para não desviar-se da rota certa. Se acaso se desvia, precisa ser de novo trazido ao caminho certo, embora mediante severidades drásticas.

O simbolismo do trecho ora analisado confirma plenamente a tese do Bhagavad_Gita. Aqui Jesus, a Individualidade, verbera corajosa e veementemente as personalidades cheias de falsidade e hipocrisia. Diz abertamente todos os defeitos e vícios, põe a nú todos os enganos e mentiras, desvela todas as manhas e artimanhas, e revela que "sobre essa geração" (ou seja, nessa mesma personagem, encarnada ou desencarnada) virão todas as conseqüências dos atos praticados. Diz à psychê e ao pneuma que eles são os responsáveis de todas as ações anteriores, desta e de outras vidas passadas, e de todas as ações erradas colherão os resultados amargos, pela Lei de Causa e Efeito.

Isto porque toda criatura humana é, inegavelmente, um "fariseu" e escriba hipócrita", e só depois de muita violência contra a personagem é que conseguirá anulá-la, para que brilhe a luz pura do Eu Profundo.

Esse exame sincero e honesto é indispensável seja feito  antes de qualquer promoção nos graus iniciáticos. E se o resultado for negativo, está garantida a permanência no mesmo ponto... Só se já houver vitórias expressivas, poderá haver promoção. Enquanto a personagem tiver esses defeitos atribuídos aos "fariseus e escribas hipócritas", não há acesso a graus superiores da iniciação. Que isto seja bem meditado por todos aqueles que, impensadamente, recebem títulos e rótulos de mãos incompetentes, sem que tenham, no profundo de si mesmos, a maturidade indispensável obtida com a anulação dos personalismos. Nesses casos, os títulos se tornarão um agravante de farisaísmo, e não uma realidade evolutiva.

O Mestre que tem por encargo "iniciar" os candidatos, em cujas mãos se encontra a responsabilidade pesada e intransferível de verificar a possibilidade de cada um, não pode ser medroso nem tímido: precisa dizer tudo com a franqueza mais rude, a fim de "provar" ou "experimentar" as reações emotivas dos que lhe forem entregues. Jesus ensinou, na prática, como temos que agir, e como tem que agir conosco os encarregados de nossa evolução.

A "caridade" e a "humildade", geralmente interpretadas como emprego apenas de palavras e fórmulas dulçurosas, consistem, ao contrário, em saber agir com firmeza e desassombro, verberando-se os erros de frente e sem subterfúgios, revelando-se os defeitos e deficientes com segurança e até mesmo com certa rispidez, para que se sinta a gravidade dos mesmos. Se não é "com vinagre que se pegam moscas, mas com mel", não é todavia com mel que se corrigem espíritos inveterados nos erros do mundo: "quem ama o filho, não lhe poupa a vara"(cfr. Prov. 13:24). Se referirmos essa verdade em relação à Individualidade diante da personagem, ao Espírito (pneuma) diante do "espírito" (psychê), teremos compreendido toda a tese desenvolvida no Bhagavad-Gita e também aqui, nos "ais" dirigidos por Jesus, o Mestre, a nós todos.

Extraído do Livro "Sabedoria do Evangelho" - Carlos Torres Pastorino


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SÚPLICAS INDEVIDAS


Temos observado, de forma regular, o comportamento de pessoas, quando necessitam pedir ajuda e, por vezes, temos nos surpreendido com algumas reações.
Assim foi há alguns dias, quando uma adolescente, na saída do colégio, contou as moedas que portava e constatou que não eram suficientes para o que desejava.
Virou-se, de maneira brusca, e pediu a um rapaz que transitava pela rua para que lhe completasse a quantia.
Fosse porque ele não entendesse a questão ou porque a rudeza do gesto o surpreendesse, o jovem desviou-se da garota e seguiu o seu caminho.
Ela o seguiu, zangada, puxou-o pelo braço e passou a lhe dirigir palavras agressivas, recheadas de rancor e desrespeito:
Você é surdo? Não entende o meu drama? Se estou pedindo é porque preciso e você tem que me dar.
Ante a cena inusitada, passamos a refletir se não temos nos portado de forma semelhante, quando nos dirigimos a Deus.
Alguns, ao dirigirmos as nossas súplicas ao Pai, o fazemos com certa arrogância, exigindo que Ele nos ouça e nos atenda, esquecidos de que Seu amor a todos envolve e que cada qual recebe o de que tem necessidade.
Outros, optamos por tentativas de negociação com o Criador, como se Ele dependesse de nós e não nós da Sua proteção e misericórdia.
Dessa forma, pedimos o de que carecemos, seja saúde, emprego, afeto, afirmando que, se formos atendidos, abandonaremos os vícios de que somos portadores.
Novamente não nos damos conta de que libertarmo-nos das paixões inferiores é benefício próprio.
Ou então dizemos que, atendidos, haveremos de prestar socorro aos mais pobres e doentes, olvidando que fazer o bem beneficia a quem o pratica.
E atender o irmão em necessidade é dever que nos compete.
Assim agimos, desconsiderando as lições do Mestre Nazareno que estabeleceu: tudo que pedirdes ao Pai, em Meu nome, Ele vos dará.
Ora, para pedir em nome do Cristo, necessário se faz proceder como se Ele suplicasse. E não se pode conceber Jesus a exigir do Pai, ou impor condições.
Pelo contrário, no episódio do Horto das Oliveiras, Ele deixa claro que o Pai O atenda, se for da Divina vontade e encerra com a frase:
Cumpra-se em tudo a Tua vontade e não a Minha.
Aprendamos com quem Se evidenciou como o Caminho da Verdade e da Vida. Com o Divino Pastor que Se apresentou como manso e humilde de coração.
Dirijamo-nos ao Pai com a humildade do Espírito que se reconhece devedor e carente de aprendizado. De quem padece dores e almeja o alívio, mesmo que se faça por período breve.
Finalmente, como quem guarda a certeza de que o Pai, amoroso e bom, a todos os filhos dispensa os tesouros das Suas bênçãos.

*   *   *

Orando, chega-se ao Senhor, que nos deu, na prece, um meio seguro de comunicação com Sua infinita bondade.
Após as tarefas exaustivas junto ao povo, era hábito do Senhor Jesus orar em profundo silêncio, buscando a companhia do Pai.
A prece pode ser comparada a um interfone por meio do qual o homem fala com a Divindade e por cujos fios recebe as respostas.


Redação do Momento Espírita, com frases finais baseadas no verbete Oração, do livro Repositório de sabedoria, v. 2, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal.

sábado, 3 de setembro de 2011

O ESPIRITISMO INDEPENDENTE


Uma carta que nos foi escrita há tempos falava do projeto de dar a uma publicação periódica o título de Jornal do Espiritismo Independente. Sendo essa o corolário da do Espiritismo sem os Espíritos, vamos, evidentemente, tentar colocar a questão no seu verdadeiro terreno.
Antes de mais, o que é o Espiritismo independente?
Independente de quê? Uma outra carta o diz claramente: é o Espiritismo liberto, não só da tutela dos Espíritos, mas de toda direção ou supremacia pessoal, de toda subordinação às instruções de um chefe, cuja opinião não pode fazer lei, considerando-se que não é infalível.
Isto é a coisa mais fácil do mundo: existe de fato, uma vez que o Espiritismo, proclamando a liberdade absoluta de consciência, não admite nenhum constrangimento em matéria de crença, nem jamais contestou a alguém o direito de crer à sua maneira em matéria de Espiritismo, como em qualquer outra coisa.
Deste ponto de vista, nós mesmos nos achamos perfeitamente independente e queremos aproveitar esta independência. Se há subordinação, ela é, pois, inteiramente voluntária; mais ainda, não é subordinação a um homem, mas a uma idéia, que se adota porque convém, que sobrevive ao homem se é justa, que cai com ele ou antes dele se é falsa.
Para nos libertarmos das idéias alheias é preciso, necessariamente, que tenhamos as nossas próprias idéias; naturalmente a gente procura fazer que estas prevaleçam, sem o que as guardaríamos para nós; proclamamo-las, sustentamo-las, defendemo-las, porque cremos sejam a expressão da verdade; porque admitimos a boa-fé, e não o único desejo de derrubar o que existe. O objetivo é congregar maior número possível de partidários; e aquele que não admite chefe se faz, ele mesmo, chefe de seita, buscando subordinar os outros às suas próprias idéias.
Aquele que diz, por exemplo: “Não devemos mais receber instruções dos Espíritos”, não emite um princípio absoluto? Não exerce uma pressão sobre os que as querem, desviando-os de as receber? Se funda uma reunião nesta base, deve excluir os partidários das comunicações, porque, se estes últimos constituíssem maioria, a tornariam lei. Se os admite e recusa obtemperar aos seus desejos, atenta contra a liberdade que têm de a reclamar. Que inscreva em seu programa: “Aqui não se dá a palavra aos Espíritos” e, então, os que desejem ouvi-los se conformarão à ordem e não se apresentarão.
Sempre dissemos que uma condição essencial de toda reunião espírita é a homogeneidade, sem o que haverá dissensão.
Quem fundasse uma na base da rejeição das comunicações estaria no seu direito; se aí só admitir os que pensam com ele, faz bem, mas não tem o direito de dizer que, porque não o quer, ninguém o deve querer. Certamente é livre para agir como entender; mas, se quer a liberdade para si, deve querê-la para os outros; já que defende suas idéias e critica as dos outros, se for conseqüente consigo mesmo, não deve achar ruim que os outros defendam as suas e critiquem as dele.
Geralmente muitos esquecem que, acima da autoridade do homem, outra há, à qual quem quer que se faça representante de uma idéia não pode subtrair-se: é a de todo o mundo. A opinião geral é a suprema jurisdição, que sanciona ou derruba o edifício dos sistemas; ninguém pode livrar-se da subordinação que ela impõe.
Esta lei não é menos onipotente no Espiritismo. Quem quer que fira o sentimento da maioria e a abandone deve esperar ser por ela abandonado. Aí está a causa do insucesso de certas teorias e de certas publicações, abstração feita do mérito intrínseco destas últimas, sobre a qual por vezes se tem ilusão.
Não se deve perder de vista que o Espiritismo não está submetido a um indivíduo, nem a alguns indivíduos, nem a um círculo, nem mesmo a uma cidade, mas que seus representantes estão no mundo inteiro e que entre eles há uma opinião dominante profundamente acreditada; julgar-se forte contra todos, porque se tem o apoio de seu grupo, é expor-se a grandes decepções.
Há duas partes no Espiritismo: a dos fatos materiais e a de suas conseqüências morais. A primeira é necessária como prova da existência dos Espíritos, de modo que foi por ela que os Espíritos começaram; a segunda, dela decorrente, é a única que pode levar à transformação da Humanidade pelo melhoramento individual. O melhoramento é, pois, o objetivo essencial do Espiritismo. É para ele que deve tender todo espírita sério. Tendo deduzido essas conseqüências das instruções dos Espíritos, definimos os deveres que impõe esta crença; o primeiro deles inscrevemos na bandeira do Espiritismo: Fora da caridade não há salvação, máxima aclamada, em seu aparecimento, como a luz do futuro, e que logo deu a volta ao mundo, tornando-se a palavra de ligação de todos quantos vêem no Espiritismo algo mais que um fato material. Por toda parte foi acolhida como o símbolo da fraternidade universal, como penhor de segurança nas relações sociais, como a aurora de uma nova era, onde devem extinguir-se os ódios e as dissensões. Compreende-se tão bem a sua importância, que já se colhem seus frutos; entre os que a tomaram como regra de conduta, reinam a simpatia e a confiança, que fazem o encanto da vida social. Em todo espírita de coração vê-se um irmão com o qual a gente se sente feliz de encontrar, porque sabe que aquele que pratica a caridade não pode fazer nem querer o mal.
Foi, pois, por nossa autoridade privada que promulgamos esta máxima? E ainda que o tivéssemos feito, quem poderia encontrá-la má? Não; ela decorre do ensino dos Espíritos, e eles mesmos a colheram nos do Cristo, onde está escrita com todas as letras, como pedra angular do edifício cristão, mas onde ficou enterrada durante dezoito séculos. O egoísmo dos homens não se dispunha a fazê-la sair do esquecimento e torná-la explícita, porque teria sido pronunciar sua própria condenação; preferiram buscar sua própria salvação nas práticas mais cômodas e menos desagradáveis.
E, contudo, todo o mundo havia lido e relido o Evangelho e, com pouquíssimas exceções, ninguém tinha visto esta grande verdade relegada a segundo plano. Ora, eis que, pelo ensino dos Espíritos, ela se tornou subitamente conhecida e compreendida por todos.
Quantas outras verdades encerra o Evangelho e que surgirão a seu tempo! (O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XV).
Inscrevendo no frontispício do Espiritismo a suprema lei do Cristo, nós abrimos o caminho do Espiritismo cristão; temos, pois, motivos para desenvolver os seus princípios, bem como os caracteres do verdadeiro espírita sob esse ponto de vista.
Que outros possam fazer melhor que nós; não iremos contra, porque jamais dissemos: “Fora de nós não há verdade.”
Nossas instruções, pois, são para os que as acham boas; são aceitas livremente e sem constrangimento; traçamos uma rota e a segue quem quer; damos conselhos aos que no-los pedem, e não aos que julgam deles não precisar; não damos ordens a ninguém, pois não temos qualidades para tanto.
Quanto à supremacia, ela é toda moral e na adesão dos que partilham nossa maneira de ver; não estamos investidos, mesmo por aqueles, de nenhum poder oficial; não solicitamos nem reivindicamos nenhum privilégio; não nos conferimos nenhum título, e o único que tomaríamos com os partidários de nossas idéias é o de irmão em crença. Se nos consideram como seu chefe, é devido à posição que nos dão nossos trabalhos, e não em virtude de uma decisão qualquer. Nossa posição é a que qualquer um de nós poderia tomar antes de nós; nosso direito, o que tem todo mundo de trabalhar como entende e de correr o risco do julgamento do público.
De que autoridade incômoda entendem libertar-se os que querem o Espiritismo independente, uma vez que não há poder constituído nem hierarquia vedando a porta a quem quer que seja, e levando-se em conta que não temos sobre eles nenhuma jurisdição e que, se lhes aprouver afastar-se de nossa rota, ninguém poderá constrangê-los a nela entrar? Alguma vez já nos fizemos passar por profeta ou messias? Levariam eles a sério os títulos de sumo-sacerdote, de soberano pontífice, mesmo de papa, com que a crítica se deleitou em nos gratificar? Não só jamais os tomamos, como os espíritas jamais no-los deram. – É do ascendente de nossos escritos? O campo lhes está aberto, como a nós, para cativarem a simpatia do público. Se há pressão, ela não vem de nós, mas da opinião geral que põe o seu veto naquilo que não lhe convém e porque ela própria sofre o ascendente do ensino geral dos Espíritos. É, pois, a estes últimos que, em última análise, se deve atribuir o estado de coisas, e é talvez o que faz que não mais os queiram escutar. – É das instruções que damos? Mas ninguém é forçado a se submeter a elas. – Devem lamentar-se de nossa censura? Jamais citamos alguém, a não ser para elogiar, e nossas instruções são dadas sob forma geral, como desenvolvimento de nossos princípios, para uso de todos. Se, aliás, são más, se nossas teorias são falsas, em que isto os pode ofuscar? O ridículo, se ridículo há, será para nós. Levam tão a sério os interesses do Espiritismo, que temem vê-los periclitar em nossas mãos? – Somos absolutos demais em nossas idéias? Somos um cabeça dura com quem nada se pode fazer? Ah! meu Deus! cada um tem os seus pequenos defeitos; temos o de não pensar ora branco, ora preto; temos uma linha traçada e dela não nos desviaremos para agradar a quem quer que seja. É provável que sejamos assim até o fim.
É nossa fortuna que invejem? Onde os nossos castelos, as nossas equipagens e os nossos lacaios? Certamente, se tivéssemos a fortuna que nos atribuem, não seria dormindo que ela teria vindo e muitas pessoas amontoam milhões, num labor menos rude. – Que fazemos, então, do dinheiro que ganhamos? Como não pedimos contas a ninguém, a ninguém temos que as dar; o que é certo é que não serve para os nossos prazeres. Quanto a empregar para pagar agentes e espiões, devolvemos a calúnia à sua origem.
Temos que nos ocupar com coisas mais importantes do que saber o que faz este ou aquele. Se fazem bem, não devem temer nenhuma investigação; se fazem mal, isso é lá com eles. Se há os que ambicionam a nossa posição, é no interesse do Espiritismo ou no deles? Que a tomem, pois, com todos os seus encargos, e provavelmente não acharão que seja uma sinecura tão agradável quanto supõem. Se acham que conduzimos mal o barco, quem os impedia de tomar o leme antes de nós? e quem os impede ainda hoje? – Lamentam-se de nossas intrigas para fazermos partidários?
Nós esperamos que venham a nós, pois não vamos procurar ninguém; nem sequer corremos atrás dos que nos deixam, porque sabemos que não podem entravar a marcha das coisas; sua personalidade se apaga diante do conjunto. Por outro lado, não somos bastante presunçoso para crer que seja por nossa pessoa que se ligam a nós; evidentemente é pela idéia de que somos o representante. É, pois, a esta idéia que reportamos os testemunhos de simpatia que hão por bem nos dar.
Em suma, o Espiritismo independente seria aos nossos olhos uma insensatez, porque a independência existe de fato e de direito e não há disciplina imposta a ninguém. O campo de exploração está aberto a todos; o juiz supremo do torneio é o público; a palma é para quem sabe conquistá-la. Tanto pior para os que caem antes de atingir a meta.
Falar dessas opiniões divergentes que, em última análise, se reduzem a algumas individualidades, e em parte alguma formam corpo, não será, talvez digam algumas pessoas, ligar a isto muita importância, assustar os adeptos fazendo-os crer em cisões mais profundas do que realmente o são? Não é, também, fornecer armas aos inimigos do Espiritismo?
É precisamente para prevenir esses inconvenientes que disto falamos. Uma explicação clara e categórica, que reduz a questão ao seu justo valor, é mais adequada para assegurar do que para amedrontar os adeptos; eles sabem como proceder e aí encontram argumentos para a réplica. Quanto aos adversários, já exploraram o fato muitas vezes, e foi por terem exagerado o seu alcance que é útil mostrar como a coisa funciona.
Revista Espírita de Abril de 1866

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CONSCIÊNCIA RESPONSÁVEL


Responsabilidade, em bom vernáculo, é a qualidade ou condição de responsável. O ser responsável, por extensão, é aquele que se desincumbe fielmente dos deveres e encargos que lhe são conferidos, que responde pelos próprios atos ou pelos de outrem, tornando-se de caráter moral, quando defende os valores éticos pertencentes aos outros e à vida.
A responsabilidade pode ser deferida, desde quando é delegada por uma autoridade ou Lei, a fim de ser cumprido o estatuto que estabelece e caracteriza os valores e compromissos a serem considerados.
Essa é a mais comum, encontrada em toda parte. Além dela, existe aquela que é conquistada pelo amadurecimento psicológico, pela conscientização o inerente às experiências resultantes da evolução.
Muitas vezes, a responsabilidade que se torna atributo do caráter moral do indivíduo faz-se grave empecilho ao processo de engrandecimento do ser, caso o seu portador se atenha à letra ou ao limite do estabelecido, sem examinar a necessidade que lhe é apresentada, do ponto de vista da compreensão.
Graças à conceituação de responsabilidade, criminosos de guerra e servidores rudes buscam passar a imagem de inocência ante a crueldade que aplicaram, informando que cumpriam ordem na desincumbência das infelizes tarefas e que estavam sujeitos a imposições mais altas que deveriam atender.
Outros, responsáveis por massacres cruéis e atitudes agressivas, refugiam-se na transferência de responsabilidade, elucidando que deveriam agir conforme o fizeram, ou sofreriam as conseqüências da desobediência.
Nas instituições militares a responsabilidade cega o indivíduo, de modo a obedecer sem raciocinar e a cumprir ordens sem discutí-las ou justificá-las.
Diz-se que, aqueles que se lhes submetem, tornam-se pessoas responsáveis.
Nesse capítulo incluiríamos os tímidos, os medrosos, os pusilânimes, os aproveitadores, todos não necessariamente portadores de responsabilidade.
Dessa forma, seria inculpado, porque responsável, zeloso pelas suas funções e deveres, Pilatos, que condenou Jesus à morte, embora O soubesse inocente.
Posto em cheque pela astúcia dos doutores judeus, de que Jesus dizia-se rei e ele representava o imperador, que era o seu rei, não O crucificar seria crime de traição em relação ao seu representado, com esse sofisma levando o pusilânime, irresponsavelmente, a mandar crucificar o Justo, lavando as mãos para liberar-se da culpa.
Os sicários dos campos de concentração e os belicosos sistemáticos fomentadores de guerras, que as fazem com crueldade, assim procedem, dizem, para se desincumbir das determinações que recebem dos seus chefes e comandantes.
A responsabilidade, para ser verdadeira, não pode compactuar com a delinqüência, nem ignorar os mínimos deveres de respeito para com a vida e para com as demais criaturas.
A responsabilidade que resulta do amadurecimento psicológico, e que é adquirida pela vivência das experiências humanas, harmoniza o dever com a compreensão das necessidades dos outros, conciliando o cumprimento das atividades com as circunstâncias nas quais se apresentam.
Quem assim age, responsavelmente, torna-se pessoa-ponte, ao invés de assumir a postura de ser obstáculo, gerando dificuldades e perturbações.
Nesse sentido, a visão do ser imortal contribui grandemente para entender a responsabilidade que se tem no mundo, porque é deferida desde o Mais Alto, como redargüiu Jesus ao seu inquisidor, que a tinha, por que lhe fora dada... 
E poderia perdê-la, qual ocorreu pouco depois, ao ser destituído da função, e
mais tarde, quando despojado do corpo pela morte...
Para a aquisição da responsabilidade consciente os valores eternos do Espírito são indispensáveis, de modo a serem absorvidos e vivenciados, ultrapassando os limites das determinações humanas de horizontes estreitos e curtos.
Considerando-se a existência física como sendo um breve período de aprendizagem, na larga faixa das sucessivas reencarnações, o ser adiciona ao conceito da responsabilidade os contributos do amor, dessa forma identificando os melhores meios para agir, quando pode e deve - com consciência - não se precipitando a tomar decisão, quando deve, mas não pode, ou quando pode, mas não deve - responsabilidade inconsciente.

Joanna de Ângelis
Divaldo Franco – livro Autodescobrimento - Editora LEAL