sábado, 3 de setembro de 2011

O ESPIRITISMO INDEPENDENTE


Uma carta que nos foi escrita há tempos falava do projeto de dar a uma publicação periódica o título de Jornal do Espiritismo Independente. Sendo essa o corolário da do Espiritismo sem os Espíritos, vamos, evidentemente, tentar colocar a questão no seu verdadeiro terreno.
Antes de mais, o que é o Espiritismo independente?
Independente de quê? Uma outra carta o diz claramente: é o Espiritismo liberto, não só da tutela dos Espíritos, mas de toda direção ou supremacia pessoal, de toda subordinação às instruções de um chefe, cuja opinião não pode fazer lei, considerando-se que não é infalível.
Isto é a coisa mais fácil do mundo: existe de fato, uma vez que o Espiritismo, proclamando a liberdade absoluta de consciência, não admite nenhum constrangimento em matéria de crença, nem jamais contestou a alguém o direito de crer à sua maneira em matéria de Espiritismo, como em qualquer outra coisa.
Deste ponto de vista, nós mesmos nos achamos perfeitamente independente e queremos aproveitar esta independência. Se há subordinação, ela é, pois, inteiramente voluntária; mais ainda, não é subordinação a um homem, mas a uma idéia, que se adota porque convém, que sobrevive ao homem se é justa, que cai com ele ou antes dele se é falsa.
Para nos libertarmos das idéias alheias é preciso, necessariamente, que tenhamos as nossas próprias idéias; naturalmente a gente procura fazer que estas prevaleçam, sem o que as guardaríamos para nós; proclamamo-las, sustentamo-las, defendemo-las, porque cremos sejam a expressão da verdade; porque admitimos a boa-fé, e não o único desejo de derrubar o que existe. O objetivo é congregar maior número possível de partidários; e aquele que não admite chefe se faz, ele mesmo, chefe de seita, buscando subordinar os outros às suas próprias idéias.
Aquele que diz, por exemplo: “Não devemos mais receber instruções dos Espíritos”, não emite um princípio absoluto? Não exerce uma pressão sobre os que as querem, desviando-os de as receber? Se funda uma reunião nesta base, deve excluir os partidários das comunicações, porque, se estes últimos constituíssem maioria, a tornariam lei. Se os admite e recusa obtemperar aos seus desejos, atenta contra a liberdade que têm de a reclamar. Que inscreva em seu programa: “Aqui não se dá a palavra aos Espíritos” e, então, os que desejem ouvi-los se conformarão à ordem e não se apresentarão.
Sempre dissemos que uma condição essencial de toda reunião espírita é a homogeneidade, sem o que haverá dissensão.
Quem fundasse uma na base da rejeição das comunicações estaria no seu direito; se aí só admitir os que pensam com ele, faz bem, mas não tem o direito de dizer que, porque não o quer, ninguém o deve querer. Certamente é livre para agir como entender; mas, se quer a liberdade para si, deve querê-la para os outros; já que defende suas idéias e critica as dos outros, se for conseqüente consigo mesmo, não deve achar ruim que os outros defendam as suas e critiquem as dele.
Geralmente muitos esquecem que, acima da autoridade do homem, outra há, à qual quem quer que se faça representante de uma idéia não pode subtrair-se: é a de todo o mundo. A opinião geral é a suprema jurisdição, que sanciona ou derruba o edifício dos sistemas; ninguém pode livrar-se da subordinação que ela impõe.
Esta lei não é menos onipotente no Espiritismo. Quem quer que fira o sentimento da maioria e a abandone deve esperar ser por ela abandonado. Aí está a causa do insucesso de certas teorias e de certas publicações, abstração feita do mérito intrínseco destas últimas, sobre a qual por vezes se tem ilusão.
Não se deve perder de vista que o Espiritismo não está submetido a um indivíduo, nem a alguns indivíduos, nem a um círculo, nem mesmo a uma cidade, mas que seus representantes estão no mundo inteiro e que entre eles há uma opinião dominante profundamente acreditada; julgar-se forte contra todos, porque se tem o apoio de seu grupo, é expor-se a grandes decepções.
Há duas partes no Espiritismo: a dos fatos materiais e a de suas conseqüências morais. A primeira é necessária como prova da existência dos Espíritos, de modo que foi por ela que os Espíritos começaram; a segunda, dela decorrente, é a única que pode levar à transformação da Humanidade pelo melhoramento individual. O melhoramento é, pois, o objetivo essencial do Espiritismo. É para ele que deve tender todo espírita sério. Tendo deduzido essas conseqüências das instruções dos Espíritos, definimos os deveres que impõe esta crença; o primeiro deles inscrevemos na bandeira do Espiritismo: Fora da caridade não há salvação, máxima aclamada, em seu aparecimento, como a luz do futuro, e que logo deu a volta ao mundo, tornando-se a palavra de ligação de todos quantos vêem no Espiritismo algo mais que um fato material. Por toda parte foi acolhida como o símbolo da fraternidade universal, como penhor de segurança nas relações sociais, como a aurora de uma nova era, onde devem extinguir-se os ódios e as dissensões. Compreende-se tão bem a sua importância, que já se colhem seus frutos; entre os que a tomaram como regra de conduta, reinam a simpatia e a confiança, que fazem o encanto da vida social. Em todo espírita de coração vê-se um irmão com o qual a gente se sente feliz de encontrar, porque sabe que aquele que pratica a caridade não pode fazer nem querer o mal.
Foi, pois, por nossa autoridade privada que promulgamos esta máxima? E ainda que o tivéssemos feito, quem poderia encontrá-la má? Não; ela decorre do ensino dos Espíritos, e eles mesmos a colheram nos do Cristo, onde está escrita com todas as letras, como pedra angular do edifício cristão, mas onde ficou enterrada durante dezoito séculos. O egoísmo dos homens não se dispunha a fazê-la sair do esquecimento e torná-la explícita, porque teria sido pronunciar sua própria condenação; preferiram buscar sua própria salvação nas práticas mais cômodas e menos desagradáveis.
E, contudo, todo o mundo havia lido e relido o Evangelho e, com pouquíssimas exceções, ninguém tinha visto esta grande verdade relegada a segundo plano. Ora, eis que, pelo ensino dos Espíritos, ela se tornou subitamente conhecida e compreendida por todos.
Quantas outras verdades encerra o Evangelho e que surgirão a seu tempo! (O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XV).
Inscrevendo no frontispício do Espiritismo a suprema lei do Cristo, nós abrimos o caminho do Espiritismo cristão; temos, pois, motivos para desenvolver os seus princípios, bem como os caracteres do verdadeiro espírita sob esse ponto de vista.
Que outros possam fazer melhor que nós; não iremos contra, porque jamais dissemos: “Fora de nós não há verdade.”
Nossas instruções, pois, são para os que as acham boas; são aceitas livremente e sem constrangimento; traçamos uma rota e a segue quem quer; damos conselhos aos que no-los pedem, e não aos que julgam deles não precisar; não damos ordens a ninguém, pois não temos qualidades para tanto.
Quanto à supremacia, ela é toda moral e na adesão dos que partilham nossa maneira de ver; não estamos investidos, mesmo por aqueles, de nenhum poder oficial; não solicitamos nem reivindicamos nenhum privilégio; não nos conferimos nenhum título, e o único que tomaríamos com os partidários de nossas idéias é o de irmão em crença. Se nos consideram como seu chefe, é devido à posição que nos dão nossos trabalhos, e não em virtude de uma decisão qualquer. Nossa posição é a que qualquer um de nós poderia tomar antes de nós; nosso direito, o que tem todo mundo de trabalhar como entende e de correr o risco do julgamento do público.
De que autoridade incômoda entendem libertar-se os que querem o Espiritismo independente, uma vez que não há poder constituído nem hierarquia vedando a porta a quem quer que seja, e levando-se em conta que não temos sobre eles nenhuma jurisdição e que, se lhes aprouver afastar-se de nossa rota, ninguém poderá constrangê-los a nela entrar? Alguma vez já nos fizemos passar por profeta ou messias? Levariam eles a sério os títulos de sumo-sacerdote, de soberano pontífice, mesmo de papa, com que a crítica se deleitou em nos gratificar? Não só jamais os tomamos, como os espíritas jamais no-los deram. – É do ascendente de nossos escritos? O campo lhes está aberto, como a nós, para cativarem a simpatia do público. Se há pressão, ela não vem de nós, mas da opinião geral que põe o seu veto naquilo que não lhe convém e porque ela própria sofre o ascendente do ensino geral dos Espíritos. É, pois, a estes últimos que, em última análise, se deve atribuir o estado de coisas, e é talvez o que faz que não mais os queiram escutar. – É das instruções que damos? Mas ninguém é forçado a se submeter a elas. – Devem lamentar-se de nossa censura? Jamais citamos alguém, a não ser para elogiar, e nossas instruções são dadas sob forma geral, como desenvolvimento de nossos princípios, para uso de todos. Se, aliás, são más, se nossas teorias são falsas, em que isto os pode ofuscar? O ridículo, se ridículo há, será para nós. Levam tão a sério os interesses do Espiritismo, que temem vê-los periclitar em nossas mãos? – Somos absolutos demais em nossas idéias? Somos um cabeça dura com quem nada se pode fazer? Ah! meu Deus! cada um tem os seus pequenos defeitos; temos o de não pensar ora branco, ora preto; temos uma linha traçada e dela não nos desviaremos para agradar a quem quer que seja. É provável que sejamos assim até o fim.
É nossa fortuna que invejem? Onde os nossos castelos, as nossas equipagens e os nossos lacaios? Certamente, se tivéssemos a fortuna que nos atribuem, não seria dormindo que ela teria vindo e muitas pessoas amontoam milhões, num labor menos rude. – Que fazemos, então, do dinheiro que ganhamos? Como não pedimos contas a ninguém, a ninguém temos que as dar; o que é certo é que não serve para os nossos prazeres. Quanto a empregar para pagar agentes e espiões, devolvemos a calúnia à sua origem.
Temos que nos ocupar com coisas mais importantes do que saber o que faz este ou aquele. Se fazem bem, não devem temer nenhuma investigação; se fazem mal, isso é lá com eles. Se há os que ambicionam a nossa posição, é no interesse do Espiritismo ou no deles? Que a tomem, pois, com todos os seus encargos, e provavelmente não acharão que seja uma sinecura tão agradável quanto supõem. Se acham que conduzimos mal o barco, quem os impedia de tomar o leme antes de nós? e quem os impede ainda hoje? – Lamentam-se de nossas intrigas para fazermos partidários?
Nós esperamos que venham a nós, pois não vamos procurar ninguém; nem sequer corremos atrás dos que nos deixam, porque sabemos que não podem entravar a marcha das coisas; sua personalidade se apaga diante do conjunto. Por outro lado, não somos bastante presunçoso para crer que seja por nossa pessoa que se ligam a nós; evidentemente é pela idéia de que somos o representante. É, pois, a esta idéia que reportamos os testemunhos de simpatia que hão por bem nos dar.
Em suma, o Espiritismo independente seria aos nossos olhos uma insensatez, porque a independência existe de fato e de direito e não há disciplina imposta a ninguém. O campo de exploração está aberto a todos; o juiz supremo do torneio é o público; a palma é para quem sabe conquistá-la. Tanto pior para os que caem antes de atingir a meta.
Falar dessas opiniões divergentes que, em última análise, se reduzem a algumas individualidades, e em parte alguma formam corpo, não será, talvez digam algumas pessoas, ligar a isto muita importância, assustar os adeptos fazendo-os crer em cisões mais profundas do que realmente o são? Não é, também, fornecer armas aos inimigos do Espiritismo?
É precisamente para prevenir esses inconvenientes que disto falamos. Uma explicação clara e categórica, que reduz a questão ao seu justo valor, é mais adequada para assegurar do que para amedrontar os adeptos; eles sabem como proceder e aí encontram argumentos para a réplica. Quanto aos adversários, já exploraram o fato muitas vezes, e foi por terem exagerado o seu alcance que é útil mostrar como a coisa funciona.
Revista Espírita de Abril de 1866

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