domingo, 11 de setembro de 2011

OS SETE AIS


Mateus 13:13-36                                            
13  "Mas ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque fechais diante dos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar os que estão entrando.                                                       
15  Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque rodeais o mar e a terra para fazerdes um prosélito; e quando feito, o tornais filho da geena o dobro de vós.                                                                     
16  Ai de vós, guias cegos! Que dizeis: quem jurar pelo templo, nada é; mas quem jurar pelo ouro do templo, fica obrigado.
17  Néscios e cegos! Pois qual é o maior, o ouro ou o templo que santifica o ouro?
18  E quem jurar pelo altar, nada é; mas quem jurar pela oferta que está sobre ele, fica obrigado.
19  Tolos e cegos! Pois qual é o maior, a oferta ou o altar que santifica a oferta?
20  Quem, pois, jura pelo altar, jura por ele e por tudo o que está sobre ele.
21  Quem jura pelo templo, jura por ele e por quem nele habita.
22  E quem jura pelo céu, jura pelo trono de Deus e por quem nele se senta.
23  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dizimais a hortelã, o endro e o caminho, e negligenciais os preceitos mais importantes da lei, que são o discernimento, a misericórdia e a felicidade; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitirdes aquelas.
24  Guias cegos! Que coais um mosquito e engolis um camelo.
25  Ai de vós, escribas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estais cheios de rapina e injustiça.
26  Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também seu exterior se purifique.
27  Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque vos assemelhais a sepulcros branqueados que, por fora, parecem realmente vistosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de todas as impurezas.
28  Assim também vós, exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de ilegalidade.
29  Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque construís os sepulcros dos profetas e adornais os túmulos dos justos e dizeis:
30  Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos       profetas.
31  Assim testificais a vós mesmos que sois filhos dos assassinos dos profetas:
32  enchei, pois, a medida de vossos pais!
33  Serpentes, filhos de víboras! Como escapareis da discriminação de geena?
34  Por isso é que vos envio profetas, sábios e escribas: a uns matareis, e crucificareis; a outros, açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade,
35  de tal forma que venha sobre vós todo o sangue justo que se derrama sobre a Terra, desde o sangue de Abel o justo, até o sangue de Zacarias, a quem matastes entre o santuário e o altar.
36  Em verdade vos digo, que tudo isto virá sobre esta geração".

 Lucas 11:42-52
42  "Mas ai de vós, fariseus! Porque dais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as  hortaliças, e desprezais o discernimento e o amor de Deus: estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitirdes aquelas.
43  Ai de vós fariseus! Porque gostais das primeiras cadeiras nas sinagogas e das saudações nas praças.
44  Ai de vós! Porque sois semelhantes aos Túmulos invisíveis, sobre os quais passeiam os homens sem o saberem".
45  Então lhe disse um dos doutores da lei: "Mestre, falando assim, a nós também insultas".
46  Respondeu ele: "Ai de vós, também, doutores da lei! Porque carregais os homens com fardos opressivos e vós, nem com um dedo vosso, os tocais.
47  Ai de vós! Porque construís os túmulos dos profetas que vossos pais mataram.
48  e assim testificais e consentis nas obras de vossos pais, porque eles, sem dúvida, os mataram, e vós lhes construís os túmulos.
49  Por isso também disse a sabedoria de Deus: enviar-lhes-ia profetas e emissários, e a alguns eles matarão, a outros perseguirão.
50  para que a esta geração se peça o sangue de todos  os profetas derramado desde a fundação do mundo.
51  desde o sangue de Abel, até o sangue de Abel, até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e a casa; sim, eu vos digo, que se pedirá a esta geração.
52  Ai de vós, doutores da lei! Porque tirastes a chave da gnose; vós mesmos não entrais, e impedistes aos que entravam".


Antes de começarmos a análise, impõe-se algumas considerações genéricas, para comparação dos dois textos.

Evidente, à primeira vista, que se trata do mesmo episódio, mas cada narrador o apresenta à sua maneira.

Mateus entra ex-abrupto na matéria ("falando à multidão e aos discípulos", 23:1) e enumera SETE ais seguidos, todos assestados contra "escribas e fariseus", tachados sempre de "hipócritas".

Lucas, ao contrário, ambienta a cena com o almoço oferecido pelo fariseu, e os três primeiros ais (do total da SEIS) verberam apenas os fariseus. Quando um "doutor da lei" - que eram os diretores espirituais do povo - toma as dores, protestando que também eles são insultados, o Mestre se volta para ele acrescentando outros três ais contra os doutores.

Dos sete ais de Mateus, Lucas cita quatro: o 1o., o 4o., o 6o. e o 7o., que ele coloca como, respectivamente, 6o., 1o., 3o e 5o. Os restantes aparecem em Mateus, mas sem o anátema do "ai de vós". Ao todo, portanto, somando os "ais" de ambos os evangelistas, encontramos NOVE condenações diretas e taxativas, da maneira de agir dos escribas, fariseus e doutores da lei.

Digna de nota a coragem carismática do Mestre, em verberar o comportamento errado de cara, de corpo presente, sem subterfúgios, sem "mandar recados", não com "indiretas", nem com amaciamentos, mas categoricamente; e isso, é bom assinalar, na casa de um deles, sentado à mesa dele, num almoço em que era o convidado de honra. Em tal situação, difícil se tornaria a um homem comum tomar essa atitude, reveladora de coragem, de segurança dos próprios atos e da justiça de suas palavras: a posição incômoda de "convidado", sentado à mesa do almoço, talvez nos fizesse pelo menos adiar a reprimenda, numa falsa idéia de gentileza e cortesia, pois nosso espírito fora "comprado" por um gesto de generosidade da parte do transgressor da lei. Ou talvez usássemos de outro expediente: não aceitar o convite, para não comprometer-nos. Jesus age de modo diverso: convidado, aceitou. Mas nem por isso escondeu a verdade: disse claramente o que sabia, condenou o erro, verberou a hipocrisia, definiu as posições, impôs sua autoridade.

Passemos à análise do texto, começando pelo vers. 14 de Mateus: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque devorais as casas das viúvas sob pretextos de longas orações: por isso receberais mais pesada condenação". Aparece em alguns manuscritos da Vulgata, é atestado por Taciano e pela versão copta bohaírica (alto Egito), é aceito por Merck e Gramática. Mas a maioria dos críticos (p. ex.: White, Hetzenauer, Nestle, Bover, Pirot, etc) o recusa, pois se trata apenas de uma transcrição de Marcos (12:40), indevidamente acrescentado a Mateus: pura redundância. Vejamos, agora, os "ais", conforme aparecem. Também nós o omitimos no texto.

1o. de Mateus, 6o. de Lucas: condena a hipocrisia de modo genérico. Segundo Strack & Billerbeck (o.c. vol. 1, pág. 921), Rabbi Nathan (160 A.D.) escreveu: "há dez partes de hipocrisia no mundo: nove em Jerusalém , e uma  no resto do universo". Em Lucas se assinala com mais precisão o sentido: os doutores se julgam os únicos capazes de interpretar as escrituras, "tem a chave do santuário", onde se guardam os livros, e portanto o conhecimento, a gnose. Mas, interpretando mal, não "entram" nem deixam que os outros entrem.

2o. de Mateus: Embora não haja, no Talmud, notícia de atividades proselitistas, sabemos por Josefo (Ant. Jud. 20, 2, 4) que o judeu Eleazar fez o rei Izate e sua corte de Adiabene, circuncidar-se. E nas viagens de Paulo encontramos acenos aos prosélitos pagãos, que ingressavam no judaísmo. A expressão "mar e terra"(literalmente: "mar e sólido": tên thálassan kaì tên xêrán). "Filho da geena" (hebraíco: benê gêhinnom) era a filiação metafórica que exprimia dependência ou natureza comum (ver vol. 2o., pág. 139).

3o. de Mateus: Não é repetida a fórmula "escribas e fariseus hipócritas", que vem substituída por "guias cegos" (hodêgoí typhloí) ou seja, diretores espirituais incompetentes. Realmente Jesus proibira qualquer espécie de juramento (Mat. 5:33-37); vol. 2o., pág. 149). Mas os fariseus desobrigavam de juramento pelo templo e pelo altar, mas exigiam seu cumprimento se fosse pelo ouro do templo ou pela oferta que estava sobre o altar. Volta a invectiva: môroi kaì typhloí, tolos e cegos, que vale mais (que é maior, meízon)? O ouro é santificado por estar no templo e a oferta por estar sobre o altar, e não o contrário. Ora, o que mais vale, é o que tem o poder de santificar-se.

4o. de Mateus, 1o. de Lucas: Exemplos concreto de hipocrisia, que faz questão de preceitos leves, como o dízimo das plantas comestíveis e vulgares, desprezando os preceitos graves e importantes. A menta ( hortelã , hêdyosmon) porque aromatiza os alimentos e servia de remédio para as taquicardias (eram comidos três ovos: um com menta, um com cominho e o terceiro com sésamo); o endro (ánêthon), comestível muito usado; e o cominho (kyminon) também empregado como tempero e remédio. No entanto, negligenciavam o discernimento (krísis), a misericórdia (éleos) e a fidelidade (pístis). E é acrescentada a fórmula: "devíeis fazer estas coisas, sem omitir aquelas", ou seja, não é que a primeira esteja errada: é que deve ser mantida em sua posição real, em segundo lugar. Em Lucas são citadas: a hortelã, a arruda (pêganon), planta aromática e as hortaliças em geral (láchanon), e, como negligenciadas, o discernimento e o amor de Deus (agápên tou theoú). No final de Mateus há uma daquelas ironias próprias de Jesus e originais: "guias cegos coais um mosquito e engulis um camelo" (hoi díulízontes ton kônôpa, tên dè kámêlon katapínontes). Figura metafórica das mais felizes, para sublimar o ensinamento dado.

5o. de Mateus: neste se condena o zelo de limpar o exterior do copo e do prato, embora eles por dentro estejam cheios de (gémousin ex) rapina e injustiça (akrasía). O sentido é alegórico, já o vimos no estudo do capítulo precedente, ao comentarmos esta condenação em Lucas 11:39-41, onde desenvolvemos o assunto. A seqüência confirma-o: limpa primeiro (kathársin prôton) o interior, o Espírito, e todos os atos materiais  que este realizar serão puros por si mesmos. Não são os ritos, as cerimonias, as observâncias, a aparência de santidade que dão pureza ao Espírito. É exatamente o inverso: se o Espírito for puro, "todas as coisas são lícitas, embora nem todas convenham", porque "nem todas dão o bom exemplo" (1a. Cor. 6:12 e 10:23).

6o. de Mateus, 3o. de Lucas: São comparados os fariseus e escribas aos sepulcros "caiados de branco". Refere-se ao costume da época. Desde o dia 15 de Adar (um mês antes do 15 de Nisan, quando se comemorava a páscoa), os sepulcros eram caiados de branco, para que ninguém, por descuido, tivesse contato com um túmulo, já que a lei (Núm. 19:16) atribuía impureza legal a esse contato. Branqueados, todos os viam e evitavam. Mas por dentro, continuavam cheios de ossos (gémousin ostéôn) de cadáveres e impurezas de toda espécie. Continua o sentido metafórico, mas já agora explicitamente traduzido: "assim vós pareceis justos aos homens, mas internamente estais cheios de hipocrisia e ilegalidade (anomías). Em Lucas, a comparação  toma sentido mais forte ainda: "sois semelhantes aos túmulos que não são percebidos, e sobre os quais os homens andam sem perceber", ou seja, a aproximação com os fariseus constitui sério perigo para os homens desprevenidos que julgam estar lidando com homens justos, e no entanto internamente estão cheios de podridão.

7o. de Mateus, 5o. de Lucas: Aqui aparecem duas divisões: profetas e justos, cujos túmulos e monumentos são eregidos e ornamentados. A argumentação de Jesus é de lógica cerrada e irrespondível. Com a costumeira hipocrisia, dizem os fariseus: "se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos concordado com o assassínio deles". Ora, isso é uma confissão de que eles são os "Filhos dos assassinos", e não os filhos dos profetas e justos. A estirpe deles se prende aos inimigos dos bons, não os bons. Houve quem tivesse visto aí um aceno à reencarnação: hoje, mais evoluídos, não teriam feito o que fizeram outrora: e isso é uma confissão de arrependimento de um ato realizado em vida anterior, na condição em que estavam de ascendentes da geração atual.

Antes de passar ao final, examinemos rapidamente, as duas condenações restantes de Lucas:

8o. (2o. de Lucas): Salienta o orgulho e convencimento desmedidos dos fariseus, que fazem questão dos primeiros lugares nas sinagogas e de serem saudados por todos; essa condenação aparece em Mat. 23:6, texto que no Evangelho, aparece logo antes do que comentamos, mas que, na realidade, foi proferido cronologicamente em época posterior.

9o.  (4o. de Lucas): Acusa-os de sobrecarregar a humanidade com fardos opressivos e obrigações insuportáveis, embora não queiram para si nenhum trabalho; também aparece a mesma condenação em Mat. 23:4.

Como final, vem um apóstrofe violenta: "enchei a medida de vossos pais", fazendo-as transbordar. Rabbi Hammuna escreveu: "Deus não castiga o homem antes que sua medida esteja cheia. Quando se enche, vem sobre ele a necessidade" (cfr. Strack & Billerbeck, o.c.m vol. 1, pág. 939).

Volta aqui a expressão "serpentes filhos de víboras", numa exclamação inflamada de justa indignação pela falsidade que clama aos céus. E a pergunta: "como escapareis da discriminação da geena"? (cfr. em Mat. 3:7 as palavras do Batista).

Contudo, o Cristo ainda envia profetas (médiuns que falam sob ditado); sábios (sophoús. Hebr. Hakkâmim) que falam por sua própria sabedoria, e escribas (grammatéis) interpretes que explicam os textos de uns e de outros. Nada porém adiante: continuarão as matanças  iníquas "em nome e para maior glória de Deus", sendo todos perseguidos de cidade em cidade. Nunca, talvez, uma profecia se tenha cumprido tão à risca e durante tantos séculos seguidos!... A metáfora, na visão  plena, inespacial e atemporal do Cristo, engloba os fariseus de todas as religiões, em todas as épocas, de todas as raças.

Depois considera os presentes: vós! "sobre vós é que recairá ( élthé, sem a partícula duplicativa) o sangue inocente (haíma dikaíon), expressão muito usada mesmo em hebraico (dâm nâqi) que se derrama (em grego ekchynnómenon, particípio presente) sobre a terra (epì tês gês, não sobre o kósmou, mas sobre o chão). Esta frase retoma a hipótese da reencarnação, acima aventada: esses fariseus aí presentes eram realmente, a reencarnação dos antigos assassinos, tantos que eles (vós!) eram os responsáveis por todos os crimes, desde o sangue de Abel (narrado em Gên. 4:8) até o de Zacarias. Eles, aí, presentes, eram os assassinos: eles, aí presentes, responderiam por todos esses crimes: "tudo isto virá sobre ESTA geração". E ai deles, que continuaram reencarnando séculos afora, e continuaram assassinados, já agora "em nome" desse Cristo que os advertira tão claramente!

Quem era esse Zacarias, que Jesus diz ser o filho de baraquias, morto entre o santuário e o altar?

Esse fato é narrado em 2o. Crôn. 24:20-22. O livro das crônicas é o último livro histórico da Bíblia Judaica, e Jesus demonstra aceitar a historicidade bíblica desde o Gênesis até Crônicas, deixando de fora os livros de Macabeus. Portanto, anotemos, os livros dos Macabeus, considerados canônicos pelo igreja de Roma, e recusada pelos judeus e pelos protestantes, também não foram ratificados por Jesus. Realmente, Jesus poderia ter citado os assassinos dos irmãos Macabeus, exemplares de fidelidade e de coragem. Mas, para salientar "todos os crimes narrados nas Escrituras", limita-se a citar "do Gênesis ao livro das Crônicas". Digno de registro.

Acontece que Zacarias, segundo o livro das Crônicas, é filho de Joiadas, e foi assassinado pelo rei Joas 2o.; não era filho de Baraquias. Jerônimo (Patrol. Lat. Vol. 26, col. 174) esclarece: in Evangelio quo utuntur, Nazaraeni, pro filio Barachiae, filium Joiadae reperimus, isto é: "no Evangelho usado pelos nazarenos, encontramos filho de Joiada, em lugar de filho de Baraquias". O mesmo Jerônimo e João Crisóstomo (Patrol. Graeca, vol. 58, col. 681) pensam que talvez se tratasse de dois nomes ( diônymos), conforme glosa de um masnuscrito.

Alguns críticos (Klostermann, Lagrange, Loisy, Durand, Prat, etc) consideram a frase "filho de Baraquias" como uma glosa posterior ao Evangelho de Mateus, já que não existe no códice sinaítico nem no trecho correspondente de Lucas. Realmente, quem era filho de Baraquias era o profeta Zacarias, que nada tem que ver com este aqui citado por Jesus. Mas algum escriba, que já tinha no ouvido o nome do profeta Zacarias, filho de Baraquias, achou por bem acrescentar esse esclarecimento ao texto de Mateus, o que é qualificado de "glosa antiga" (Loisy, Les Évangile selon Synoptiques, Paris, 1907, tomo 2, pág. 386) e "glosa errada" (Durand, Évangile Selon St. Matthieu, Paris, 1924, pág. 374).

Que significa exatamente a expressão final "tudo isso (tauta panta) virá sobre esta geração"? Jouon (L'Évangile de N.S. Jésus Christ Traduction et Commentaire du texte original, compte tenue du substrat sémitique, Paris, 1930, pág. 46) acha que é "o sangue"; Legrange, (o. c., pág. 452) diz ser "o crime"; Buzy (Évangile selon St. Matthieu, Paris, 1946, pág. 310) prefere ver aí "o castigo".

A lição é, ainda uma vez, preciosa: o discípulo, que segue o Mestre, que é dirigido pela individualidade, não pode ser covarde. Deve enfrentar com a Verdade os poderosos da Terra que estejam errados. Qualquer acomodação com o erro é cumplicidade. A verdade precisa ser dita corajosamente, mesmo à custa da vida física - já que a do Espírito ninguém na pode tirar: é eterna. E a verdade participa da eternidade do Espírito. Calar é consentir; omitir-se é concordar; deixar fazer é participar da injustiça. Nada disso faz parte da humildade. Humildade não é passividade: é ação justa, no momento justo. Humildade e coragem não se repelem, não se opõem, não se anulam; ao invés disso, uma corrobora a outra quem tem o conhecimento, tem a obrigação de ensina-lo; quem possui a chave, tem que abrir a porta; quem está com a verdade é coagido a demonstrá-la.

O conceito de que a humildade se esconde e sofre calada, só vale para os casos pessoais, que não afetem a comunidade. O discípulo tem que ser corajoso e enfrentar as feras do circo, quando se trata de testificar a verdade de suas convicções; tem que crescer diante das autoridades, quando estas se encontram no caminho errado; em resumo, tem que revestir-se da couraça do herói e brandir a espada candente da verdade, para verberar os erros que a desfigurem, zurzindo a hipocrisia e a falsidade, o orgulho e a vaidade, a mentira e a injustiça.

O exemplo de Jesus é valioso para todas as épocas, em todos os climas. E desde então até hoje os imitadores do Mestre não tem faltado. A história registra casos sem conta de discípulos dignos, que pagaram com perseguições e com a vida a coragem de arrostar a ira dos poderosos.

Também a linguagem forte serve de modelo. A verdade não precisa nem deve ser mascarada nem edulcorada com a desculpa de uma caridade mal interpretada. Dizem que a verdade fere; absolutamente. O que fere é a injustiça, é a calúnia, é a mentira.

Os artistas representam a verdade nua, embora alguns defendam que deve ser recoberta "com o manto diáfano da fantasia". Mas isso pode referir-se aos ensinamentos que não devem ser dados aos profanos; a estes se fala em parábolas, "para que vendo, não vejam, e ouvindo não ouçam" (cfr. Mat. 13:15; Marc. 4:12; At. 28:27; Rom. 11:8), a fim de "não serem dadas coisas santas aos cães" (Mat. 7:6). Mas quando se trata de restaurar a pureza do ensino, a nudez forte da verdade deve aparecer em toda a sua pujança, com os termos próprios, com o sentido exato, sem temores nem subterfúgios.

No entanto, podemos entender as invectivas de Jesus, como símbolo que é da individualidade nossa, quais advertências e reprimendas dirigidas à personagem.

Muito comum, em todos nós, é que a personagem encarnada, com seu intelecto maroto, crie numerosas desculpas para escapar ao controle do Espírito. Enquanto este quer levar uma vida correta e dirigir-se diretamente à meta prefixada por sua linha evolutiva, a personagem iventa situações , forja planos, imagina fugas, envereda por desvios, tudo para sobrepor-se e aparecer, para brilhar e resplandecer, para ofuscar e embair os incautos.

Mergulhada na matéria densa, tendo perdido o contato com o Eu Profundo, volta-se para as exterioridades, onde busca o reconforto dos aplausos externos, das bajulações, das posições elevadas, dos elogios e das falsidades. Não possuindo força interna, não SENDO, procura "aparentar" o que não é, por atos, palavras, posições, afirmativas vazias que não concordam com o âmago. O exterior torna-se brilhante e ofusca a vista dos que só vêem a superfície, enquanto o interior é podridão corrupta.

Para sanar esses males, a Individualidade não deve agir com subterfúgios, mas comabter diretamente, empunhando as armas mais eficazes. O Bhagavad-Gita já o ensinara, quando Arjuna demonstra receio de combater "seus próprios familiares" e Krishna, o "cocheiro" (o Eu interno que guia o carro da personagem), o incita a não temer; esses familiares são exatamente os vícios da personagem. A personagem é o "filho único" da individualidade, mas precisa ser corrigido com rigor, para não desviar-se da rota certa. Se acaso se desvia, precisa ser de novo trazido ao caminho certo, embora mediante severidades drásticas.

O simbolismo do trecho ora analisado confirma plenamente a tese do Bhagavad_Gita. Aqui Jesus, a Individualidade, verbera corajosa e veementemente as personalidades cheias de falsidade e hipocrisia. Diz abertamente todos os defeitos e vícios, põe a nú todos os enganos e mentiras, desvela todas as manhas e artimanhas, e revela que "sobre essa geração" (ou seja, nessa mesma personagem, encarnada ou desencarnada) virão todas as conseqüências dos atos praticados. Diz à psychê e ao pneuma que eles são os responsáveis de todas as ações anteriores, desta e de outras vidas passadas, e de todas as ações erradas colherão os resultados amargos, pela Lei de Causa e Efeito.

Isto porque toda criatura humana é, inegavelmente, um "fariseu" e escriba hipócrita", e só depois de muita violência contra a personagem é que conseguirá anulá-la, para que brilhe a luz pura do Eu Profundo.

Esse exame sincero e honesto é indispensável seja feito  antes de qualquer promoção nos graus iniciáticos. E se o resultado for negativo, está garantida a permanência no mesmo ponto... Só se já houver vitórias expressivas, poderá haver promoção. Enquanto a personagem tiver esses defeitos atribuídos aos "fariseus e escribas hipócritas", não há acesso a graus superiores da iniciação. Que isto seja bem meditado por todos aqueles que, impensadamente, recebem títulos e rótulos de mãos incompetentes, sem que tenham, no profundo de si mesmos, a maturidade indispensável obtida com a anulação dos personalismos. Nesses casos, os títulos se tornarão um agravante de farisaísmo, e não uma realidade evolutiva.

O Mestre que tem por encargo "iniciar" os candidatos, em cujas mãos se encontra a responsabilidade pesada e intransferível de verificar a possibilidade de cada um, não pode ser medroso nem tímido: precisa dizer tudo com a franqueza mais rude, a fim de "provar" ou "experimentar" as reações emotivas dos que lhe forem entregues. Jesus ensinou, na prática, como temos que agir, e como tem que agir conosco os encarregados de nossa evolução.

A "caridade" e a "humildade", geralmente interpretadas como emprego apenas de palavras e fórmulas dulçurosas, consistem, ao contrário, em saber agir com firmeza e desassombro, verberando-se os erros de frente e sem subterfúgios, revelando-se os defeitos e deficientes com segurança e até mesmo com certa rispidez, para que se sinta a gravidade dos mesmos. Se não é "com vinagre que se pegam moscas, mas com mel", não é todavia com mel que se corrigem espíritos inveterados nos erros do mundo: "quem ama o filho, não lhe poupa a vara"(cfr. Prov. 13:24). Se referirmos essa verdade em relação à Individualidade diante da personagem, ao Espírito (pneuma) diante do "espírito" (psychê), teremos compreendido toda a tese desenvolvida no Bhagavad-Gita e também aqui, nos "ais" dirigidos por Jesus, o Mestre, a nós todos.

Extraído do Livro "Sabedoria do Evangelho" - Carlos Torres Pastorino


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