sábado, 5 de novembro de 2011

A CHARRUA DA EXISTÊNCIA TERRENA


 Uma fazenda serpenteada por caudaloso rio... Ventos suaves balsamizavam o ambiente naquela manhã outonal. Flores silvestres, multicores, formavam lindo tapete. Pássaros canoros iam e vinham. Musicalidade sublime patenteava na Natureza. Escreveu o Espírito Vianna de Carvalho: “A Natureza é um templo, no qual o coração se faz altar, convidando o ser à comunhão com a vida.”
Encostado na cerca de madeira, observava eu, com o olhar lúcido, um trabalhador que movimentava a charrua (arado grande de ferro) no amanho da terra, destinada ao plantio de arroz. Uma lembrança penetrou rapidamente o meu pensamento.
Certa vez, meu guia espiritual, solidário com o cipoal de dificuldades com o qual me deparava, disse-me afetuosamente: “Pegue a sua charrua e siga em frente, pois eu não o abandonarei nunca.” Viandantes da estrada terrena, cada um de nós possui a sua charrua particular, nascida da herança dos próprios atos. Olhando aquele quadro, de meu inconsciente brotou uma frase, anotada de algum livro: “O bem que distendemos pelo caminho é eterna semente de luz que plantamos no solo do futuro, por onde um dia chegarão nossos pés.” O homem e a charrua continuavam na sua faina...
Minha mente percorreu os hospitais, os cárceres, as favelas, os cortiços, os leprosários, os asilos, os orfanatos, os manicômios. São os portadores da charrua da dor e do sofrimento. Despontou em meu íntimo uma frase lapidar, emanada de um grande Espírito: “O rio das lágrimas tem suas nascentes no pretérito espiritual. Há dores que funcionam como reparação de culpas, reeducação disciplinadora e dores que constituem o aguilhão, impelindo-nos para frente.”
O trabalhador suarento movimentava a charrua e afastava os pedregulhos encontrados.
(...) Devemos converter as pedras do nosso orgulho em pães da humildade e do amor fraternal – recordava-me naquele instante de um escrito do Espírito Victor Hugo.
Um sabiá-laranjeira saltitava alegremente à procura de alimento, embelezando o ambiente. Ao longe, o gado passeava molemolente na pradaria. Pouco além, os silos guardavam as sementes que logo seriam plantadas. Outro magnífico ensinamento, retirado de um romance espírita, eclodiu-me no cérebro: “Armazena os grãos da vida, aprimorando a terra íntima do espírito para fecundá-los oportunamente.” Agradável aroma de terra revolvida era aspirado a plenos pulmões.
Leve chuva começava a cair, misturada aos raios de sol no horizonte. Educativa frase de um mentor espiritual surgiu-me na tela mental: “No terreno arroteado das nossas almas, as sementes, aquecidas pelo sol do amor deverão germinar com maior pujança, sob a chuva das bênçãos divinas.” E a charrua sulcava a terra... sacos de adubos lá estavam para serem depositados no terreno. “É sábio todo aquele que da luta retira os benefícios que o dignificam e deixa como adubo para outras conquistas os cadáveres das paixões vencidas”, escreveu o Espírito Victor Hugo. Meditando sobre aquele instrumento de trabalho, dou meia volta e sigo outros caminhos, relembrando palavras do Mentor Espiritual Emmanuel: “É necessário que o homem sincero tome lições com o Divino Cultivador, abraçando-se ao arado da responsabilidade, na luta edificante, sem dele retirar as mãos, de modo a evitar prejuízos à ‘terra de si mesmo’.”

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