terça-feira, 15 de novembro de 2011

JUDAS


“Segundo várias comunicações, recebidas em ocasiões e lugares diversos, de elevados espíritos a serviço da verdade divina, este infeliz apóstolo, que tão desastrosamente faliu na missão que com instância solicitara, conseguiu, depois de múltiplas encarnações sofridas através de séculos, reparar todo o seu passado de triste memória, transformando-se, afinal, em Espírito de Luz, digno de volver a ocupar o posto que deixara vago no Colégio Apostólico, a sentar-se no trono de onde devera estar de há muito, como os seus companheiros de apostolado, exercendo o governo de uma das doze tribos de Israel, conforme a palavra evangélica. Tornou-se, em suma, digno do amor de Jesus que, por mais de uma vez afirmou que nenhuma se perderia das ovelhas que o Pai lhe dera para apascentar.
Tendo pago a sua dívida até o último centil, como o exige a Lei: a ovelha que tão gravemente desgarra, havendo alijado de si o pesado fardo da ambição que tantas desgraças lhe ocasionara, voltou ao aprisco, perlustrando a estrada das tarefas e missões humildes e dolorosas e elevando-se assim, gradativamente, aos olhos daquele que nunca deixara de amá-lo com entranhado amor.
Judas passou a História como símbolo da Traição. Só agora, decorridos quase dois milênios, graças à revelação espírita, os fatos se nos apresentam claramente compreensíveis, através de mensagens explicativas de Espíritos que foram seus contemporâneos e que, certamente com o propósito de nos advertirem, a nós que tivemos a felicidade, como aquele apóstolo, de conhecer o Cristo, na sua excelsitude espiritual e na grandiosidade do seu messianato, de que os tempos atuais são semelhantes, senão idênticos aos desse messianato e que, portanto, muito nos devemos precatar, para que não tenhamos de passar pelas mesmas dores e sofrimentos, pelas mesmas expiações e provas, a que se condenou o mesmo Judas pelo seu desvario. Dizem-nos as mensagens ou comunicações a que aludimos que ele foi vítima da sua tresloucada ambição.
Espírito inteligente, de grande desenvolvimento intelectual, ambicionou constituir-se elemento de grande prestígio social, capaz de resolver o problema do seu povo e de alça-lo a uma posição de completo domínio político.
Não concordava, pois, com a mansuetude, a humildade e o desinteresse do Mestre, com a sua preferência pelo convívio dos pequeninos, dos párias, dos oprimidos, dos que os grandes e poderosos exploravam, entendendo que tudo isso obstaria sempre a que o Senhor ascendesse ao fastígio a que ele, Judas o julgava com inconcusso direito. Achava que, pela força moral que demonstrava, pelo poder extraordinário de que dispunha o meigo Rabi, este seria precioso elemento para que ele, seu apóstolo, realizasse a conquista da posição de destaque e de mando com que sonhava.
Indubitavelmente, Judas não necessitava dos trinta dinheiros do seu trato com os príncipes dos sacerdotes. Que valor teria essa importância pecuniária, para ele que era o depositário do dinheiro da comunidade? O que queria, e a que visava era guindar-se ao mando supremo. Essa idéia o obsidiava e faz imaginar que Jesus não se entregaria e consentiria em ser proclamado Rei da Judéia; que lhe daria a ele o posto de seu primeiro ministro, investido, de modo absoluto, na direção política do país.
Logo, no entanto, viu que se enganara redondamente, que nada do que concebera se realizava que nada mais fizera do que sacrificar o Mestre amado ao ódio dos seus piores inimigos e perseguidores. Caindo então em si, foi presa de pavoroso remorso do mal que a sua ambição o levara a praticar contra aquele que tantas provas de amor lhe dera, depois de o haver admitido na companhia dos seus escolhidos. Desvairado, pois, alucinado, com a razão inteiramente obliterada, novo crime cometeu, maior talvez do que o primeiro, visto que, em face das leis divinas, acarreta conseqüências bem mais aflitivas e prolongadas do que qualquer outro, visto que se estendem quase sempre por múltiplas encarnações sucessivas.
Ora, pensando nesses acontecimentos, em que foi saliente protagonista o Iscariotes, cuja ambição de poder e mando o fez perder o muito que havia recebido à mente nos vem o que se passa nos dias de hoje, em que o Cristo nos envia, conforme prometera o Consolador, para relembrar e ampliar os seus ensinamentos. E o temor nos assalta, enchendo-nos de tristeza e amargura o espírito, de que também agora surjam, como desgraçadamente parece que já vai acontecendo, personalidades qual a do apóstolo que traiu, com ambições semelhantes às que o cegava, dominados igualmente pelo personalismo, pela vaidade, pela presunção, a quererem, na sua cegueira, valerem-se do Espiritismo para se colocarem em evidência, não só entre os companheiros que, por menos cautelosos, lhes sancionam, sem ponderação maior, as atitudes, senão ainda entre os profanos, induzindo-os a supor que o Espiritismo é uma seita, como tantas outras, onde o que domina é a política religiosa, servindo o Evangelho apenas de entorpecente espiritual empregado em doses adrede preparadas convenientemente. Aflige-nos a possibilidade de que tal se dê, porque esses se constituirão assim, sem disso muitas vezes se aperceberem por falta de vigilância e oração, elementos de perturbação e discórdia, de desarmonia e separatividade, num meio onde tudo deve ser união, bonomia, fraternidade e benignidade, já que ainda não pode ser amor.
Lamentabilíssimo que tal aconteça como lamentável foi o ato irrefletido do ambicioso irmão que supôs fácil utilizar-se do Cristo para execução de seus projetos de criatura falível, ainda carente do espírito da doutrina que lhe era pregada e exemplificada, ainda bem longe de compreender, em espírito e verdade, as palavras daquele que se dizia que era e será sempre - Caminho, Verdade e Vida.
Lamentabilíssimo sim, porque esses tais se condenarão a mais longa, penosa e árdua caminhada, para atingir a meta que todos havemos de alcançar, embora tenhamos a consoladora certeza de que lá chegarão como chegou o filho de Iscariotes; de que todos um dia nos reuniremos, pela misericórdia do Pai, em torno do Pastor divino, como se reuniu Judas aos onze companheiros que permaneceram fiéis aos compromissos que haviam assumido para com o mesmo Pastor.
Essa certeza não somente no-la dá a revelação atual, em seus desenvolvimentos da revelação anterior, como o próprio Judas, nas suas comunicações ou mensagens, dentre as quais destacaremos, pela sua tocante beleza e expressividade, a seguinte, que se encontra à pág. 392 do terceiro volume da grandiosa obra - “Os Quatro Evangelhos” de J. -B. Roustaing.:
“Segundo as explicações que os homens deram desses fatos (os da traição), Judas houvera sido de antemão escolhido e entregue ao ‘demônio’; fora criado para cometer o crime que praticou; sua alma fora vil, baixa, invejosa, cupidez, sanguinária, unicamente para que se cumprissem as profecias do Antigo Testamento. Quão manifesta, entretanto, é a justiça de Deus no ato do Espírito presunçoso, que pede para cooperar na grande obra e que, apesar de todas as observações, de todos os conselhos, se obstina em levar por diante a orgulhosa tentativa, confiando mais na sua presunção, do que na presciência daquele sob cuja inspiração seus guias lhe declaravam: Tu vais falir. Quão patente se mostra, ao mesmo tempo, naquele ato, a mão paternal sempre estendida para o filho indócil, a fim de levantá-lo após a queda, que lhe serviria de ensinamento e lhe faria germinar no coração a salutar humildade, que aí até então não encontrara acesso!
Oh! Como é grande esse Deus que permite que o filho culpado encontre, na sua própria indignidade, o ponto de apoio que o ajudará a subir para a perfeição! Oh! Quanto é bom aquele que está sempre pronto a perdoar ao que sinceramente se arrepende que pensa com suas mãos benfazejas as chagas dos nossos corações culpados, que nelas derrama o bálsamo da esperança e as cicatriza com o auxílio da expiação!
Bendito sejas tu, meu Deus!”

Antônio Wantuil de Freitas que publicou, no Reformador (FEB) de Abril de 1943.

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