domingo, 19 de agosto de 2012

ANO 2012, O FATOR MAIA E NOSTRADAMUS, MUITAS CRENDICES E PARANÓIAS

 

 Analisemos a seguinte matéria: “Você temeria o futuro se levasse a vida de Tom Cruise, com mais de US$ 300 milhões no banco e presença garantida na lista de celebridades mais ricas do mundo elaborada pela revista "Forbes"? Então imagine o impacto da notícia, divulgada no ano passado, de que o superastro estaria construindo um abrigo subterrâneo de US$ 10 milhões no subsolo de sua mansão no Colorado. Segundo o relato publicado pela revista "Star", Cruise estaria convicto de que a Terra experimentará um contato potencialmente devastador com uma raça alienígena em 2012. Acredita o ator que a vida em nosso planeta vai mudar, para pior ou para melhor, em 21/12/2012. Nessa data se encerra um calendário que era usado pelos antigos maias no auge da sua civilização. Por isso, todo o movimento envolvendo o ano de 2012 é chamado genericamente também de "profecia maia".(1)

Essa crendice estúpida é o ponto culminante de um processo que começou há duas décadas. Em 1984, o americano José Arguelles publicou "O Fator Maia". Nele mesclava seus estudos sobre o fim do calendário maia com suas próprias idéias agourentas. O autor se inspirou em um livro de ficção. Arguelles disse que a data marcaria o fim do ciclo do Homo sapiens e o início de uma época ecologicamente mais harmoniosa. E conclamou os leitores a se reunirem em várias partes do mundo nos dias 16 e 17 de agosto de 1987 para meditar e rezar, dando um pontapé inicial para o grande dia que ainda estava 25 anos no futuro. Esse evento, batizado de Convergência Harmônica, atraiu grande atenção da mídia americana e ganhou o apoio de celebridades como a atriz Shirley McLaine.”(2) Mas sabemos que “os bons Espíritos nunca determinam datas. Portanto, a previsão de qualquer acontecimento para uma época determinada é indício de mistificação.

Convivemos atualmente com uma “hecatombe” de informações agourentas, passíveis de causar muita confusão. Para escrever este texto li um estranho livro destinado exclusivamente a profecias de magos, videntes, advinhos e profetas de várias religiões e seitas. O enfoque do livro foi o ano 2012 como data fatídica em que a humanidade irá sucumbir por catástrofes terrestres ou vindas do espaço. Entre outras “pérolas” no livro encontrei que , segundo previsão dos maias, a Quinta Era do Sol que vivemos acabará em 20 de dezembro de 2012, em meio a catástrofes naturais”. Em estudos realizados por astrônomos sobre aproximações perigosas de asteróides há uma referência para 2029 em que a força gravitacional da Terra pode atrair um grande asteróide de nome 2004 MN4, o que poderá provocar uma forte colisão entre ambos por volta de 2034. (sic...)

Na Idade Média eram comuns previsões esquisitíssimas provindas da Igreja, enfocadas em catástrofes climáticas, miséria, epidemias, eclipses e cometas imprevistos. Ressalte-se que maremotos, ciclones, erupções vulcânicas, asteróides, cometas, mudanças climáticas e o aquecimento global tanto em evidência hoje, são catástrofes naturais que fazem parte da história do planeta. Existiram em todas as épocas.

Atualmente profecias, notadamente as de Nostradamus, são lembradas e citadas até o limite do intolerável. Um mau agouro paira sobre as mentes mais frágeis. E nesse frenesi cada seita com seu cortejo de fanáticos já estabeleceu sua agenda para o tal “juízo final.”

As “revelações” nostradâmicas foram escritas no século XVI quase sempre pessimistas estão reunidas em volumes numa linguagem empolada intitulada “As Centurias”. Alguns nostradâmicos plantonistas interpretaram nelas destruição e fome marcada para setembro de 1999. Outros neurastênicos acreditam que o ano 2012 será palco de destruição inimaginável. Outros alienados dizem que Nostradamus prevê o fim do mundo somente no ano 3797.

Subliminarmente alguns desavisados ficam assustados com a passagem do tempo, esquecendo que nossa contagem cronológica é totalmente arbitrária. O universo está pouco se lixando com a maneira de como nós dividimos e contamos o tempo. Para os fanáticos que fixam datas para acontecimentos futuros preste atenção para o seguinte fato real: O nascimento de Jesus é o episódio que, tradicionalmente, demarca o início da era cristã. Porém, em face de um erro de cálculo, cometido no século 6 d.C., pela Igreja, as datas não coincidem. Sabe-se, atualmente, que Jesus nasceu antes do ano 1, provavelmente, entre 6 e 5 a.C. Pode-se afirmar isso, com razoável segurança, graças à narrativa muito precisa do Evangelho de Lucas. Segundo o evangelista, o fato aconteceu na época do recenseamento, ordenado pelo imperador romano César Augusto. Esse censo, o primeiro realizado na Palestina, tinha por objetivo regularizar a cobrança de impostos. Os historiadores estão de acordo em situar tal fato político no período que vai de 8 a 5 A.C..

Curiosamente, a enciclopédia O Mundo do Saber, Editora Delta-Volume I,(3) registra: Jesus nasceu em Belém-Judéia, em 4 a.C. Ante muitas controvérsias sobre a questão, colhemos informes no seio da própria Igreja, quando, no século VI (525 a D.), o sacerdote Dionísio, fanático por matemática, recebendo a incumbência para "descobrir" a data exata do nascimento do Cristo, fixou-a no ano 754, do calendário romano,(4) e que foi aceita pela cúpula da Igreja Católica. Mas, o clérigo Dionísio começou a pesquisa partindo de uma premissa equivocada, pois, manteve como referência o batismo do Mestre, ocorrido no 150 ano do governo do Imperador Tibério César(5) e tinha absoluta convicção (à época) de que o imperador romano iniciou o governo no ano 14; a conclusão foi "lógica", 14+15=29, onde tentou buscar confirmação no Novo Testamento, quando Lucas, no Capítulo III, versículo 23, registra ter sido Jesus batizado com 29 anos de idade (!!?...).

Outro fato histórico relevante, é que Tibério César governava o Império desde o ano 9 d. C. ; logo, o equívoco do padre matemático subtraiu, de 4 a 5 anos, da história cristã, cronologicamente regida pelo calendário gregoriano.(6) Aliás, erro já devidamente assumido pelo Vaticano.(7)

Existe outro fator que comprova o erro de cálculo de Dionísio: sabemos, pela tradição dos textos das escrituras, que Herodes, o Grande, quando teve notícia do nascimento do Cristo, ordenou a matança de todas as crianças nascidas, nos dois últimos anos, em Belém e cercanias da Judéia. Na ocasião, Maria e José, pais de Jesus, refugiaram-se em outro país (Egito). Ora, a História se encarrega de registrar que Herodes morreu, exatamente, no ano que nasceu Jesus (mesmo ano da ordem do infanticídio generalizado), logo, pelos dados que possuímos, considerando-se o calendário de Roma, e se Jesus era, de fato, um recém-nascido à época da matança, atualmente estaríamos pelo menos em 2014 pós-Jesus.

É bem verdade que o século XX foi marcado por grandes tragédias ligadas ao apocalipse. Começou em 1910:a Terra iria (como aconteceu) atravessar a cauda do cometa Halley e a presença do mortífero gás cianogênio mataria todos. Ninguém morreu intoxicado com o gás. Sob o pavor do final dos tempos , na noite de 18/11/1978, em Jonestown Guiana, 900 pessoas cabrestadas pelo pastor Jim Jones, líder da seita Templo do Povo, morreram ao ingerir suco com cianureto. Em Uganda o líder de uma seita, Joseph Kibweteere prognosticou que o mundo acabaria no dia 31/12/1999. Como isso não ocorreu, adiou para o ano seguinte. No dia e hora marcados, o templo bem como todas as pessoas foram envolvidas em combustível e 470 pessoas inclusive 50 crianças foram carbonizadas. No ano de 1993, em Waco,Texas, EUA 70 seguidores da seita Ramo Davidiano morrem carbonizados no Rancho do Apocalipse. Em 1995, um culto do Juízo Final, liderado por Shoko Asahara do grupo Verdade Suprema, obcecado pela idéia do fim do mundo, lançou um gás tóxico no metrô de Tóquio envenenando centenas de pessoas inocentes, estranhos à seita. Em março de 1997, dezenas de corpos de homens e mulheres que pertenciam à seita Higher Source, liderados pelo pastor Marshall Applewhite se suicidaram acreditando que suas almas encontrariam uma nave voadora esperando por eles na cauda do cometa Hale Bopp e que os levariam a outro planeta.

O mundo atual dominado por incerteza, insegurança, pobreza e desigualdades sociais , continuará a alimentar seitas apocalípticas, passíveis de causar grandes tragédias. Fanáticos religiosos utilizando da Internet, poderão estabelecer um clima de apreensão e pavor. Mas, aprendemos com o genial lionês Allan Kardec que “os grandes fenômenos da Natureza, aqueles que são considerados como uma perturbação dos elementos, não são de causas imprevistas, pois "tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus. E os cataclismos algumas vezes têm uma razão de ser direta para o homem. Entretanto, na maioria dos casos, têm por objetivo o restabelecimento do equilíbrio e da harmonia das forças físicas da natureza."(8)

Os pessimistas insistem sempre em considerar que a maneira negativa e sombria de perceber as coisas do mundo é uma maneira realista de viver. Não concordo. Na verdade, se olharmos a vida com muita emoção (distantes do raciocínio) vamos encontrar motivos que nos abatem os ânimos em qualquer lugar e em qualquer situação; crianças carentes, fome universal, guerras, violência urbana, sequestros, carestia, insegurança social, corrupção, acidentes catastróficos e por aí à fora. Entretanto, é um dever para com nosso bem-estar estarmos adaptados à vida, com tudo que ela tem de bom e de ruim, sem obviamente cruzarmos os braços diante das situações.

Em verdade, a “forma empregada até agora nas predições faz delas verdadeiros enigmas, as mais das vezes indecifráveis.[absurdos] Hoje, as circunstâncias são outras; as predições nada têm de místicas. São antes advertências do que predições propriamente ditas. A humanidade contemporânea também conta seus profetas. Mais de um escritor, poeta, literário, historiador ou filósofo hão traçado, em seus escritos, a marcha futura de acontecimentos a cuja realização agora assistimos.”(9)

Recordemos sempre que a prática dos códigos evangélicos é a condição intransferível que determinará a grande transformação sócio, político e econômico do porvir. Nessa esteira, haverá de ser o final do “mundo velho”, desse mundo regido pela desmesurada ambição, pela corrupção, pelo aniquilamento dos preceitos éticos, pelo orgulho, pelo egoísmo e pela incredulidade. Por isso, cremos que a Terra não terá de transformar-se por meio de um cataclismo e outras tragédias que destrua de súbito uma geração. A atual sociedade desaparecerá, gradualmente, e a nova lhe sucederá sem derrogação das leis naturais, conforme preceitua o Espiritismo.



Jorge Hessen



Referências:

(1) Fonte: Revista Galileu – Edição 206 – Setembro de 2008 – Por Pablo Nogueira

(2) Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001

(3) Enciclopédia O Mundo do Saber, Editora Delta-Volume 1

(4) 2761 anos já se transcorreram a partir da fundação de Roma

(5) Cf. Luc. 3: 1 a 6

(6) O calendário gregoriano, aceito nos nossos dias em praticamente todo o mundo, só passou a vigorar a partir de 1582, quando foi promulgado pelo Papa Gregório XIII, tendo posteriormente sido gradualmente aceite por todos os países.

(7) Tibério César sucedeu Augusto que morreu no dia 19 de agosto do 767 da fundação de Roma, 14 da nossa era, quando assumiu de fato o título de César e começou a governar. Portanto, João começou a pregar no ano 28. O batismo de Jesus, antes da Páscoa de 29, estava com 35 anos. E na crucificação ocorrido no ano 31 da nossa era, 784 da fundação de Roma, Jesus tinha 38 anos de idade.

(8) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2004

(9) Kardec, Allan “A Gênese”, Cap. XVI, item 17, 16ª ed., FEB/a973-RJ.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

É PERMITIDO REPREENDER OS OUTROS?

Com este título, Kardec propõe três questões que são respondidas pelo Espírito S. Luís, em Paris, no ano de 1860.

Na primeira delas é que vamos nos deter por agora, quando Kardec pergunta: - "Ninguém sendo perfeito, seguir-se-á que ninguém tem o direito de repreender o seu próximo?" Resposta - "Certamente que não é essa a conclusão a tirar-se, porquanto cada um de vós deve trabalhar pelo progresso de todos e, sobretudo, daqueles cuja tutela vos foi confiada. Mas, por isso mesmo, deveis fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não, como as mais das vezes, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a repreensão é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda seja cumprida com todo o cuidado possível. Ao demais, a censura que alguém faça a outrem deve ao mesmo tempo dirigi-la a si próprio, procurando saber se não a terá merecido.”.

É bom lembrar que Jesus, tipo mais perfeito para servir de guia e modelo à Humanidade, enviado por Deus, como na primeira parte da resposta acima, jamais deixou de mostrar o erro nos quais os curados por Ele estavam inseridos, quando dizia: - "(...) de futuro não tornes a pecar". Mas, também, nunca repreendeu alguém com o intuito de desacreditá-lo junto à sociedade; ao contrário, como no caso da mulher surpreendida em adultério, disse: -"Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra." Fez, como está no final da resposta de S. Luís, que antes de julgarmos os outros, devemos verificar se esse julgamento não nos cabe também.

Sem dúvida alguma, a crítica irresponsável, o notar as imperfeições alheias, a maledicência fazem parte do cotidiano da grande massa da população terrena, fruto, ainda, das nossas imperfeições que nos acompanham há milênios. É uma anormalidade que com freqüência praticamos como se fosse normal, já que automatizamos tais pensamentos, palavras e ações infelizes sem nos conscientizarmos do mal que proporcionamos aos nossos semelhantes. Vemos, com muita tristeza, como os meios de comunicação, nas suas mais variadas formas, se utilizam dessas prerrogativas infelizes, sabedoras de que coisas dessa natureza é que vendem e dão altos índices de audiência. O que mostra como ainda estamos atrasados moralmente.

Lemos outro dia, numa coluna de jornal, pequeno artigo que contava uma história mais ou menos assim: "Cada pessoa caminha na vida carregando duas sacolas, uma no peito e outra nas costas. Na do peito estão contidas as virtudes, e na das costas, os vícios. Cada um de nós só vê as costas dos que vão à frente, portanto, só os defeitos dos outros, esquecendo-nos de que os que vêm atrás de nós vêem os nossos defeitos também."

Atitudes dignas para com os semelhantes deveriam ser rotineiras e não fatos isolados que chegam a ser destacados como coisas extraordinárias.

Costumamos dizer em nossas palestras que cada pessoa deveria ter um disjuntor moral na língua, que desarmasse automaticamente, quando fôssemos falar mal de alguém e, assim, ficaríamos mudos, só retornando a voz quando fôssemos falar coisas boas daquela pessoa. Mas o disjuntor deveria ficar mesmo era no cérebro, para que toda vez que um pensamento infeliz com relação a uma pessoa surgisse, ele se desligasse e nós não indignificaríamos a ninguém. Esse disjuntor chama-se autocontrole sobre o que pensamos, para que não falemos ou ajamos em desfavor dos nossos semelhantes.

O Espiritismo nos mostra a necessidade da renovação pessoal na busca do ser integral, principalmente agora, nesta era da Humanidade, norteada pelo amor que deve unir a todas as criaturas.

Lutemos por corrigir os nossos defeitos e, como diz a parábola do Argueiro e da Trave no olho, retiremos primeiro as nossas imperfeições, para só depois vermos como poderemos "auxiliar" os outros a removerem as suas.



Reformador - Dezembro de 2001

terça-feira, 7 de agosto de 2012

SALVAÇÃO? NÃO OBRIGADO.


O homem primitivo, intimamente ligado à natureza que o rodeava, expressava de forma espontânea e verdadeira sua espiritualidade. Através de seu instinto sentia a existência do transcendental, sentimento esse que pulsava, de forma nítida, na essência energética daqueles seres simples e ignorantes, vazios de conhecimento, porém plenos de autenticidade. À medida que a civilização humana começou a galgar novos degraus da escala do progresso, deixando cada vez mais de ser instintiva, passou a reprimir para os porões do inconsciente as percepções inatas e verdadeiras. Deixando para trás a infância histórica, passou a humanidade a uma fase da contestação sistemática tal qual o adolescente que recusa a priori os conceitos estabelecidos. Na procura de respostas para as inúmeras indagações que acometem a mente humana, passa a duvidar até mesmo de seus instintos. A crença no extra físico, antes alicerçada na própria naturalidade dos sentimentos inatos, passa a ser substituída pela dúvida e, sobretudo, a exigir participação do racional.

Contudo, o homem moderno, esteja ele ligado à ciência ou à filosofia, procura cruzar a fronteira do racional e integrar-se aos valores percebidos por seu próprio psiquismo, de forma subjetiva. O paradigma mecanicista de Newton vem cedendo lugar à concepção de um universo energético aberto a outras dimensões. Não mais a atitude infantil do homem primitivo que apenas, por via inconsciente, aceitava a existência espiritual, nem tampouco a postura adolescente da rejeição preconceituosa de qualquer referência à espiritualidade. Estamos no alvorecer não só de um novo século, mas de um novo milênio. As perspectivas futuras apontam para uma ciência e uma religião não mais estanques, dogmáticas, preconceituosas e onipotentes. O universo passa a ser observado e sentido, não mais como uma matéria tridimensional. A multidimensionalidade da matéria, já admitida pela física moderna, abre as portas para a percepção da existência do mundo espiritual.

A humanidade já não se satisfaz com os preceitos rígidos das religiões dominantes. O homem é um ser que indaga e quer saber, afinal, quem é, de onde vem e para onde vai. A dissociação existente entre a ciência e religião, verdadeiro abismo criado pelos homens, levou os indivíduos a ter uma visão fragmentária da vida. Os conselhos religiosos, tão úteis em épocas remotas, hoje se tornam defasados em relação à evolução contemporânea. As orientações dos ministros religiosos foram substituídas pelos médicos, psicólogos, pedagogos etc... O que frequentemente observamos é a deficiência de respostas às ansiedades íntimas do indivíduo ou da própria sociedade. O que lhes falta? Por que profissionais extremamente capacitados, sérios e estudiosos se sentem limitados para compreender o sofrimento humano?

Por que pessoas justas às vezes sofrem tanto, e concomitantemente, outras, egoístas, que se comprazem no sofrimento do próximo, prosperam tanto? Há quem viva semanas, meses ou poucos anos, enquanto outros vivem quase um século! Por quê? Por que para uns a felicidade constante e para outros a miséria e o sofrimento inevitável? Por que alguns seriam premiados pelo acaso com as mais terríveis malformações congênitas? Por que certas tendências inatas são tão contrastantes com o meio onde surgem? De onde vêm?

Não há como responder a essas questões, conciliando a crença em uma Lei Universal justa e sábia, se considerarmos apenas uma vida para cada criatura. O ateísmo e o materialismo são consequências inevitáveis da rejeição às crenças tradicionais, surgindo, naturalmente, pela recusa inteligente a uma fé cega em  um Ser que preside os fatos da vida sem qualquer critério de sabedoria, e justiça. A cosmovisão espiritista, alicerçada no conhecimento das vidas sucessivas, onde residem as causas mais profundas de nossos problemas atuais, traz-nos respostas coerentes. O conceito de reencarnação propicia uma ampla lente através da qual poderemos enxergar a problemática das vidas. As aparentes desigualdades, vivenciadas momentaneamente pelas criaturas, têm justificativa nos graus diferentes de evolução em que se encontram no momento. Além disso, sabe-se, pelas leis da reencarnação, que cabe a todas as criaturas um único destino: a felicidade. A evolução inexorável é feita pelas experiências constantes e o aprendizado decorrente. Os atos da criatura ocasionam uma sequência de causas e efeitos que determinam as necessidades da reencarnação, a si própria, em tal meio ou situação; nunca existe punição; existe, sim, consequência lógica. Há colheita obrigatória, decorrente da livre semeadura, e sempre novas oportunidades de semear.

Cada ser leva para a vida espiritual a sementeira do passado, trazendo-a inconscientemente consigo ao renascer. Se uma existência não for suficiente para corrigir determinadas distorções, diversas serão necessárias para resolver uma determinada tendência a longa caminhada da vida. Nossos atos do dia-a-dia por sua vez, são também novos elementos que se juntam a nosso patrimônio energético, pois os arquivos que criamos são sempre no nível de campos de energia, influenciando intensamente, atenuando ou agravando as desarmonias energéticas estabelecidas pelas vivências anteriores.

A teia de nosso destino, portanto, não é exclusivamente determinada por nosso passado. O livre-arbítrio que possuímos tece também os fios dessa teia a cada momento, num dinamismo sempre renovado. A diversidade infinita das aptidões, ao nível das faculdades e dos caracteres, tem fácil compreensão. Nem todos os espíritos que reencarnam têm a mesma idade; milhares de anos ou séculos podem haver na diferença de idade entre dois homens. Além disso, alguns galgam velozmente os degraus da escada do progresso, enquanto outros sobem lenta e preguiçosamente.

A todos será dada a oportunidade do progresso pelos retornos sucessivos. Necessitamos passar pelas mais diversas experiências, aprendendo a obedecer para sabermos mandar; sentir as dificuldades na pobreza para sabermos usar a riqueza. Repetir muitas vezes para absorver novos valores e conhecimentos. Desenvolver a paciência, a disciplina e o desapego aos valores materiais. São necessárias existências de estudo, de sacrifícios, para crescermos em ética e conhecimento. Voltamos ao mesmo meio, frequentemente ao mesmo núcleo familiar, para reparar nossos erros com o exercício do amor. Deus, portanto, não pune nem premia; é a própria lei da harmonia que preside à ordem das coisas. Agirmos de acordo com a natureza, no sentido da harmonia, é prepararmos nossa elevação, nossa felicidade.

Não usamos o termo "salvação", pois historicamente está vinculado ao salvacionismo igrejista, uma solução que vem de fora. Na realidade aceitamos a evolução, a sabedoria e a felicidade para todas as criaturas. "Nenhuma das ovelhas se perderá", disse Jesus. Fazendo-nos conhecer os efeitos da lei da responsabilidade, demostrando que nossos atos recaem sobre nós mesmos, estaremos permitindo o desenvolvimento da ordem, da justiça e da solidariedade social tão almejada por todos.

 Ricardo Di Bernardi

(publicado originalmente no Boletim do GEAE - 459)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A FORÇA DA HUMILDADE

 A humildade é cheia de excelência e de uma certa nobreza, que o homem material ignora, que os mundanos de alto e baixo coturnos não podem perceber.

Por isso mesmo, conceitua o Evangelho: aquele que se humilhar será exaltado.

O amor, virtude única, da qual as demais são meras cambiantes, é humilde.

Na dedicação com que a mãe vela pelo filho, predomina um cunho indelével de humildade. Ela desiste de prazeres, priva-se de conforto, abre mão de tudo, quanto possa proporcionar-lhe satisfação aos sentidos, em benefício daquele em quem concentra os seus afetos.

Dessa submissão de ‘eu’ ao ‘ser’ amado desprende-se a luz suave e doce da humildade como complemento do Amor. Nessa concentração de cuidados e desvelos, nessa consagração de todas as faculdades, visando um só e único objeto, com esquecimento de si própria, está a renúncia verdadeira, que só a humildade, na expansão do seu poder incoercível, pode gerar.

A humildade é uma força que se disfarça na fraqueza. Só os fortes podem ser humildes. Jesus comprovou, para os que tem olhos de ver, a sua fortaleza varonil através dos mais nobres gestos de humildade, em várias conjunturas que enfrentou durante o seu atribulado contato com a fátua e orgulhosa sociedade humana.

Dentre os vários episódios que com ele se passaram, citaremos um que, por sua natureza, revela eloquentemente o alto valor moral que caracteriza o meigo Rabino.

No decurso do sumaríssimo processo a que o submeteram, era levado, ora à presença de Anás e Caifás, sumos sacerdotes, ora para Pilatos, ora ainda para Herodes. Numa das vezes que o conduziam, certo esbirro deu-lhe uma bofetada. O Cordeiro de Deus, calmo e sereno, volta-se para o seu grosseiro agressor e o adverte do seguinte modo: Se agi mal, dize em que; se, porém, tenho procedido bem, porque me feres?

Semelhante atitude, diante de tão brutal agressão, atesta a varonilidade do Mestre, num grau elevadíssimo. Sua energia, nesse caso, é sobre-humana. A força despendida em suportar a ofensa é muito maior do que a revelada na represália ou na vingança. Demais, o deixar de reagir, quando não podemos, quando o nosso adversário é mais forte e mais poderoso do que nós, é medida de prudência. Deixar de reagir por motivos subalternos e razões de interesse é covardia e vileza. Abster-se, porém, de reação, dispondo de todos os meios e possibilidades de derrotar e confundir o ofensor, é divino. Só os anjos e os deuses procedem assim.

E que Jesus podia, se quisesse, aniquilar os seus gratuitos inimigos, verificamos no que se deu com Ele no momento da sua prisão, no Jardim das Oliveiras.

Judas ia à frente, capitaneando a soldadesca armada de espadas e varapaus. O Filho do Homem, saindo de retiro onde se achava em oração, apresenta-se e interroga a malta alvoroçada: A quem procurais? Respondem os guardas: A Jesus de Nazaré. Retruca o Senhor: Eis-me aqui, sou eu mesmo. Logo em seguida, usando do poder que possuía de deixar e reassumir a forma corpórea, dissipou esta, mostrando-se em todo o magnífico esplendor do seu Espírito refulgente. Diante da luz intensa que então se irradiou daquele que é o caminho, a verdade e a vida, a soldadesca toda, confusa, perturbada e trêmula, cai por terra, inerte, incapaz do mínimo movimento.

De novo Jesus encobre o seu divino ‘ser’ ocultando aquilo que é nele, como aliás em todos nós, a centelha procedente do Pai, e, só então, os beleguins romanos, voltando a si, lograram aprisioná-Lo.

Portanto, Jesus, sem tocar em nenhum deles, podia inutilizá-los; mas não o fez, para que se cumprisse a soberana vontade de Deus.

Tal é a força da humildade, da qual os homens, em sua orgulhosa fraqueza, vivem divorciados, deixando que, a cada passo, se confirme, entre eles, a sabedoria do provérbio: Quer conhecer o vilão, ponha-lhe o bastão na mão.



Vinícius

Reformador (FEB)  Julho 1938

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O ESPIRITISMO PRECISA VOLTAR À SUA ORIGEM – A SIMPLICIDADE

A Doutrina Espírita, como princípio de uma Nova Ordem mundial, no campo dos projetos espirituais, é inexpugnável em qualquer quadrante do Orbe. Porém, lamentavelmente, o movimento Espírita é muito fracionado. Cada qual quer fazer um “espiritismo particular”.

Muitas lideranças doutrinárias complicam conteúdos que deveriam ser simples.

Coincidentemente, o Cristianismo, durante os três primeiros séculos, era, absurdamente, diferente do Cristianismo oficializado pelo Estado Romano, no Século V. O brilho translúcido, nascido na Galiléia, aos poucos, foi esmaecendo, até culminar nas densas brumas medievais. O que observamos, no movimento Espírita atual, é a reedição da desfiguração do projeto inicial, de 1857. Os comprometidos com o princípio unificacionista brasileiro precisam manter cautela para não perderem o foco do Projeto Espírita Codificado por Allan Kardec, engendrando motivos à separatividade entre os adeptos da doutrina. Recordemos que a alma do Cristianismo puro estava estuante nas cidades de Nazaré, Jericó, Cafarnaum, Betsaida, dentre outras, e era diferente daquele Cristianismo das querelas e intrigas de Jerusalém.

O Espiritismo está sendo invadido pelo joio, extremamente prejudicial à realidade que a doutrina encerra, uma vez que vários pretensos seguidores/dirigentes introduzem perigosos modismos à prática Espírita, com inócuas terapias desobsessivas e, como se não bastasse, por mera vaidade, ostentam a insana idéia de superioridade sobre Kardec, alegando que o Codificar está ultrapassado. Será crível que Kardec imaginou esse tipo de movimento Espírita?

Ah! Que falta nos fazem os baluartes da simplicidade kardeciana, Bezerra, Eurípedes, Zilda Gama, Frederico Junior, Sayão, Bitencourt Sampaio, Guillon Ribeiro, Manoel Quintão!

Estamos convencidos de que o Espiritismo sonhado por Kardec era o mesmo Espiritismo que Chico Xavier exemplificou por mais de setenta anos, ou seja, o Espiritismo do Centro Espírita simples, muitas vezes iluminado à luz de lampião; da visita aos necessitados, da distribuição do pão, da “sopa fraterna”, da água fluidificada, do Evangelho no Lar. Sim! O grande desafio da Terceira Revelação deve ser o crescimento, sem perder a simplicidade que a caracteriza como revelação.

O evangelho é a frondosa árvore fornecedora dos frutos do amor. Urge entronizar a força da mensagem de Jesus, sem receio dos “kardequiólogos de plantão”, os chamados “intelectuais” de nossas fileiras, sem medo das críticas dos espíritas de “gabinete”, dos patrulheiros ideológicos que pretendem assumir ou assenhorear as rédeas do movimento Espírita na Pátria do Cruzeiro do Sul.

O movimento Espírita não deveria se organizar à maneira dos movimentos sociais de hoje, sob pena de incentivar hierarquização com recaídas na pretensão vaticanista de infalibilidade. O que os Espíritas precisam é atentar, com mais critério, para os fundamentos doutrinários que nos impele à íntima reforma moral.

Nessa tarefa, individual, intransferível e impostergável, está a nossa melhor e obrigatória colaboração para com o avanço moral do Planeta em que vivemos, pois, moralizando-se cada unidade, moraliza-se o conjunto.

Um grande exemplo de espírita anti-burocrático foi Chico Xavier, considerado ultrapassado por muitos pretensos cientificistas ressurgidos das cinzas, do Século XIX, que tiveram, em Torterolli, a enfadonha liderança. Atualmente, jactam-se quais pretensos inovadores, porém, não conseguem acrescentar, sequer, uma palavra nova à Codificação. É urgente, pois, que preservemos o Espiritismo tal qual nos entregaram os Mensageiros do amor, bebendo-lhe a água pura, sem macular-lhe a cristalina fonte. A maior frustração do “Convertido de Damasco” se deu, exatamente, no Aerópago de Atenas, quando os intelectóides, de então, o dispensaram, alegando que haveriam de ouvi-lo em outra oportunidade.

O Espiritismo desejável é aquele das origens, o que nos faz lembrar Jesus, ou seja, o Espiritismo Consolador prometido, o Espiritismo em sua feição pura e simples, o Espiritismo do povo (que hoje não pode pagar taxas e ingressar nos pomposos Congressos que só aguça vaidades), o Espiritismo dos velhos, o Espiritismo das crianças, o Espiritismo da natureza, o Espiritismo “céu aberto”. Que tal?

A rigor, a Doutrina Espírita é o convite à liberdade de pensamento, tem movimento próprio, por isso, urge deixar fluir naturalmente, seguindo-lhe a direção que repousa, invariavelmente, nas mãos do Cristo. Chico Xavier já advertia, em 1977, que "É preciso fugir da tendência à ‘elitização’ no seio do movimento espírita (...) o Espiritismo veio para o povo. É indispensável que o estudemos junto com as massas mais humildes, social e intelectualmente falando, e deles nos aproximarmos (...). Se não nos precavermos, daqui a pouco, estaremos em nossas Casas Espíritas, apenas, falando e explicando o Evangelho de Cristo às pessoas laureadas por títulos acadêmicos ou intelectuais (...)." (1)

Louvemos os congressos, simpósios, seminários, encontros necessários à divulgação e à troca de experiências, mas nunca nos esqueçamos de que a Doutrina Espírita não se tranca nos salões luxuosos, não se enclausura nos anfiteatros acadêmicos e nem se escraviza a grupos fechados. À semelhança do Cristianismo dos tempos apostólicos, o Espiritismo é dos Centros Espíritas simples, localizados nos morros, nas favelas, nos subúrbios e não nos venham com a retórica vazia de que estamos propondo o “elitismo às avessas”!

Graças a Deus (!), há muitos Centros Espíritas bem dirigidos em vários municípios do País. Graças a esses Espíritas e médiuns humildes, o Espiritismo haverá de se manter simples e coerente, no Brasil e, quiçá, no Mundo, conforme os Benfeitores do Senhor o entregaram a Allan Kardec.

Jorge Hessen

Fonte:

(1) Entrevista concedida ao Dr. Jarbas Leone Varanda e publicada no jornal uberabense O Triângulo Espírita, de 20 de março de 1977, e publicada no Livro intitulado Encontro no Tempo, org. Hércio M.C. Arantes, Editora IDE/SP/1979

sábado, 14 de julho de 2012

LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE

Lembramos que no dia 14 esta sendo comemorado mais um aniversário da Revolução Francesa, representada pela Queda da Bastilha, revolução que veio mudar muitas coisas no mundo e que levantou uma flâmula capaz de incendiar o pensamento.
Liberdade, igualdade e fraternidade, eis um dístico que orgulharia a humanidade de qualquer época e lugar, flâmula que fez vibrar os franceses na revolução que levou a derruir a pavorosa prisão chamada Bastilha. Entretanto, as bastilhas continuam de pé nos corações egoístas.
O homem lentamente vai se livrando da sua belicosidade. Mas gostaríamos, como todos, de vê-lo trilhando os caminhos da paz. Os grandes aglomerados humanos parece neurotizar os seus habitantes, e a violência, estimulada pelos desníveis sociais, leva os homens ao desespero, e no desespero se armam, e no se armarem constroem as tragédias que os cronistas descrevem com sensibilidade.
Liberdade, palavra bonita e procurada com empenho. Liberdade de ir e vir, liberdade de expressão, liberdade de ser gente. Há quem se sinta prisioneiro, mesmo flutuando numa asa delta, e há quem, preso a um leito ou a uma cadeira de rodas, voa pelo espaço infinito qual condor dos Andes.
Igualdade. Utopia, pois sempre existirá as diferenças de méritos. Mas a igualdade aproximada é possível. O direito de viver corresponde ao direito de se ter dignidade de vida. Direito à alimentação, moradia, propriedade, escola, assistência médica, bem estar físico e mental.
Fraternidade. Ah, se existisse fraternidade, quão mais fácil seria a liberdade e a igualdade. Fraternidade que faria com que os homens se sentissem irmãos, se compreendessem, se amassem. Impossível? Não! Pois muitos já provaram que é possível amar o seu próximo.
É por isso que acreditamos que a sociedade de São Paulo, Rio ou de qualquer lugar poderá reverter a violência. É por isso que a Rede Boa Nova de Rádio mantém o programa Campanha Boa Nova Pela Paz, e convida seus ouvintes contra o mal, mas com amor no coração. Podemos conseguir a paz trabalhando por ela, mesmo sem sermos super-heróis, políticos, militares, ou prêmio Nobel da paz.
O homem que traz a paz no seu coração, é filho da paz, e sua presença acalma, tranquiliza. Assim foi Gandhi, assim foi Francisco de Assis, assim foi Hellen Keller, Madre Teresa, Francisco Cândido Xavier, Jesus de Nazaré... Estes e muitos outros que caminhando pelas trilhas do mundo, deixaram cair de suas sandálias poeira de estrelas, para iluminar o roteiro de quem quiser seguir por ele.
Lógico que precisamos mudar muita coisa. Precisamos cuidar das crianças abandonadas, precisamos corrigir as injustiças sociais, combater a miséria, criar empregos, e sobretudo combater as drogas, dando à nossa juventude uma razão maior e mais bela para se viver, colocando a droga no seu devido lugar, o lixo.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

VICISSITUDES DA VIDA MATERIAL.


Breve análise do significado da palavra “vicissitude” em face da questão 132 de O Livro dos Espíritos, bem como do “Prefácio” à Prece Pelos Doentes, do Capítulo XXVIII, item 77, de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

 Em O Livro dos Espíritos (1), Kardec indaga sobre o objetivo da encarnação dos Espíritos em corpos materiais. Os Espíritos Superiores respondem apontando duas finalidades: a primeira para que os Espíritos cheguem à perfeição a segunda para que cumpram sua parte na obra da Criação.

Analisaremos, apenas a primeira parte da resposta que foi nos seguintes termos: “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisto é que consiste a expiação.”

Na mesma ordem de ideias, em O Evangelho Segundo o Espiritismo (2), , Allan Kardec ensina que: “As doenças pertencem às provas e vicissitudes da vida terrena. São inerentes à grosseria da nossa natureza material e à inferioridade do mundo que habitamos.”

Mais uma vez temos o vocábulo “vicissitude”

Dizem os Espíritos que a expiação consiste em sofrer todas as vicissitudes da existência corporal. A expiação não é só uma reparação de erros como se pensa. É muito mais do que isto.

Para entendermos as lições acima indicadas, necessário verificarmos os significados da palavra “vicissitude”. São estas as acepções: 1. Sucessão de mudanças ou de alternâncias. Exemplo: acompanhar as vicissitudes das estações. Meu dia foi uma vicissitude de notícias tristes e alegres. 2. Sequência de coisas que se sucedem. Exemplo: As vicissitudes das gerações através dos séculos. 2.1. Variação decorrente de tais mudanças. Exemplo: Aos mais velhos desagradam certas vicissitudes. 3 instabilidade que conduz à imprevisibilidade eventualidade, acaso. Exemplo: É preciso ter persistência para enfrentar as vicissitudes da existência. 4. Condição que contraria, ou é desfavorável a algo ou alguém insucesso revés. Exemplo: Peço-lhe que me ajude nessa vicissitude. Etimologia. Do Latim: vicissitúdo,ìnis mudança, alteração troca de favores. (3).

Portanto, vicissitude significa as mudanças das coisas através do tempo. E, principalmente, as consequências destas mudanças.

Assim, um exemplo de vicissitude é o envelhecimento do corpo carnal. E a expiação consiste no desconforto que experimentamos com este envelhecimento. As dificuldades de se locomover, de se enxergar e as doenças decorrentes da idade avançada são exemplos de vicissitudes e de expiação, vez que a expiação consiste nas alterações físicas e psicológicas da existência corporal.

Urge meditemos sobre este conceito de expiação. Na condição de Espíritos encarnados estamos ligados a um corpo material que envelhece (vicissitude), criando para nós Espíritos desconforto em utilizá-lo, e, com isto ficamos submetidos à verdadeira expiação.

Finalizando, não devemos esquecer que mesmo sofrendo as vicissitudes da vida (expiação) Deus nos proporciona vários lenitivos. Assim é que temos a medicina, que com suas várias terapias elimina muitos dos desconfortos causados pelo envelhecimento (vicissitude). E na área propriamente humana temos várias providências legislativas para minimizar a expiação decorrente da vicissitude envelhecimento.

Concluindo, mesmo na expiação, Deus sempre está nos ajudando para que o desconforto expiatório não seja além do necessário para a nossa evolução.



Bibliografia:

(1) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.. 43ª ed. São Paulo:Livraria Allan Kardec EditoraLake, 1984. Questão 132.

(2) KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, 43ª ed. São Paulo:Livraria Allan Kardec EditoraLake, 1984. Capítulo XXVIII, V-Preces Pelos Doentes e Obsedados. Item 77. Prefácio da Prece Pelos Doentes

(3) HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa. 1ª ed. Rio de Janeiro:Editora Objetiva, 2000.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

DEVE-SE PUBLICAR TUDO QUANTO DIZEM OS ESPÍRITOS?


Esta questão nos foi dirigida por um de nossos correspondentes e a ela respondemos por meio de outra pergunta:

Seria bom publicar tudo quanto dizem e pensam os homens?

Quem quer que possua uma noção do Espiritismo, por mais superficial que seja, sabe que o mundo invisível é composto de todos os que deixaram na Terra o envoltório visível. Entretanto, pelo fato de se haverem despojado do homem carnal, nem por isso os Espíritos se revestiram da túnica dos anjos. Encontramo-los de todos os graus de conhecimento e de ignorância, de moralidade e de imoralidade; eis o que não devemos perder de vista. Não esqueçamos que entre os Espíritos, assim como na Terra, há seres levianos, estouvados e zombeteiros; pseudo-sábios, vãos e orgulhosos, de um saber incompleto; hipócritas, malvados e, o que nos pareceria inexplicável, se de algum modo não conhecêssemos a fisiologia desse mundo, existem os sensuais, os ignóbeis e os devassos, que se arrastam na lama. Ao lado disto, tal como ocorre na Terra, temos seres bons, humanos, benevolentes, esclarecidos, de sublimes virtudes; como, porém, nosso mundo não se encontra nem na primeira, nem na última posição, embora mais vizinho da última que da primeira, resulta que o mundo dos Espíritos compreende seres mais avançados intelectual e moralmente que os nossos homens mais esclarecidos, e outros que ainda estão abaixo dos homens mais inferiores.

Desde que esses seres têm um meio patente de comunicar-se com os homens, de exprimir os pensamentos por sinais inteligíveis, suas comunicações devem ser o reflexo de seus sentimentos, de suas qualidades ou de seus vícios. Serão levianas, triviais, grosseiras, mesmo obscenas, sábias, sensatas e sublimes, conforme seu caráter e sua elevação. Revelam-se por sua própria linguagem; daí a necessidade de não se aceitar cegamente tudo quanto vem do mundo oculto, e submetê-lo a um controle severo.

Com as comunicações de certos Espíritos, do mesmo modo que com os discursos de certos homens, poderíamos fazer uma coletânea muito pouco edificante. Temos sob os olhos uma pequena obra inglesa, publicada na América, que é a prova disto, e cuja leitura, podemos dizer, uma mãe não recomendaria à filha. Eis a razão por que não a recomendamos aos nossos leitores. Há pessoas que acham isso engraçado e divertido. Que se deliciem na intimidade, mas que o guardem para si mesmas. O que é ainda menos concebível é se vangloriarem de obter comunicações indecorosas; é sempre indício de simpatias que não podem ser motivo de vaidade, sobretudo quando essas comunicações são espontâneas e persistentes, como acontece a certas pessoas. Sem dúvida isto nada prejulga em relação à sua moralidade atual, porquanto encontramos criaturas atormentadas por esse gênero de obsessão, ao qual de modo algum se pode prestar o seu caráter.

Entretanto, este efeito deve ter uma causa, como todos os efeitos; se não a encontramos na existência presente, devemos buscá-la numa vida anterior. Se não estiver em nós, estará fora de nós, mas sempre nos achamos nessa situação por algum motivo, ainda que seja pela fraqueza de caráter. Conhecida a causa, depende de nós fazê-la cessar.

Ao lado dessas comunicações francamente más, e que  chocam qualquer ouvido delicado, outras há que são simplesmente triviais ou ridículas. Haverá inconvenientes em publicá-las? Se forem dadas pelo que valem, serão apenas impróprias; se o forem como estudo do gênero, com as devidas precauções, os comentários e os corretivos necessários, poderão mesmo ser instrutivas, naquilo que contribuírem para tornar conhecido o mundo espiritual em todos os seus aspectos. Com prudência e habilidade tudo pode ser dito; o mal é dar como sérias coisas que chocam o bom-senso, a razão e as conveniências. Neste caso, o perigo é maior do que se pensa. Em primeiro lugar, essas publicações têm o inconveniente de induzir em erro as pessoas que não estão em condições de aprofundá-las nem de discernir o verdadeiro do falso, especialmente numa questão tão nova como o Espiritismo. Em segundo lugar, são armas fornecidas aos adversários, que não perdem tempo em tirar desse fato argumentos contra a alta moralidade do ensino espírita; porque, insistimos, o mal está em considerar como sérias coisas que constituem notórios absurdos. Alguns mesmos podem ver uma profanação no papel ridículo que emprestamos a certas personagens justamente veneradas, e às quais atribuímos uma linguagem indigna delas.

Aqueles que estudaram a fundo a ciência espírita sabem como se portar a esse respeito. Sabem que os Espíritos galhofeiros não têm o menor escrúpulo de se adornarem de nomes respeitáveis; mas sabem também que esses Espíritos não abusam senão daqueles que gostam de se deixar abusar, e que não sabem ou não querem desmascarar as suas astúcias pelos meios de controle que conhecemos. O público, que ignora isso, vê apenas um absurdo oferecido seriamente à sua admiração, o que faz com que diga: Se todos os espíritas são assim, merecem o epíteto com que foram agraciados. Sem sombra de dúvida, esse julgamento não pode ser levado em consideração; vós os acusais com justa razão de leviandade. Dizei a eles: Estudai o assunto e não examineis apenas uma face da moeda. Entretanto, há tantas pessoas que julgam a priori, sem se darem ao trabalho de virar a folha, sobretudo quando falta boa vontade, que é necessário evitar tudo quanto possa dar motivos a decisões precipitadas, porquanto, se à má vontade vier juntar-se a malevolência, o que é muito comum, ficarão encantadas de encontrar o que criticar.

Mais tarde, quando o Espiritismo estiver mais vulgarizado, mais conhecido e compreendido pelas massas essas publicações não terão maior influência do que hoje teria um livro que encerasse heresias científicas. Até lá, nunca seria demasiada a circunspeção, visto haver comunicações que podem prejudicar essencialmente a causa que querem defender, em intensidade superior aos ataques grosseiros e às injúrias de certos adversários; se algumas fossem feitas com tal objetivo, não alcançariam melhor êxito. O erro de certos autores é escrever sobre um assunto antes de tê-lo aprofundando suficientemente, dando lugar, desse modo, a uma crítica fundamentada. Queixam-se do julgamento temerário de seus antagonistas, sem se darem conta de que muitas vezes são eles mesmos que exibem uma falha na couraça. Aliás, malgrado todas as precauções, seria presunção julgarem-se ao abrigo de toda crítica: primeiro, porque é impossível contentar a todo o mundo; em segundo lugar, porque há pessoas que riem de tudo, mesmo das coisas mais sérias, uns por seu estado, outros por seu caráter. Riem muito da religião, de sorte que não é de admirar que riam dos Espíritos, que não conhecem. Se pelo menos suas brincadeiras fossem espirituosas, haveria compensação. Infelizmente, em geral não brilham nem pela finura, nem pelo bom gosto, nem pela urbanidade e muito menos pela lógica. Façamos, então, o que de melhor estiver ao nosso alcance. Pondo de nosso lado a razão e as conveniências, poremos de lado também os trocistas.

Essas considerações serão facilmente compreendidas por todos. Há, porém, uma não menos importante, que diz respeito à própria natureza das comunicações espíritas, e que não devemos omitir: Os Espíritos vão aonde acham simpatia e onde sabem que serão ouvidos. As comunicações grosseiras e inconvenientes, ou simplesmente falsas, absurdas e ridículas, não podem emanar senão de Espíritos inferiores: o simples bom-senso o indica. Esses Espíritos fazem o que fazem os homens que são ouvidos complacentemente: ligam-se àqueles que admiram as suas tolices e, freqüentemente, se apoderam deles e os dominam a ponto de os fascinar e subjugar. A importância que, pela publicidade, é concedida às suas comunicações, os atrai, excita e encoraja. O único e verdadeiro meio de os afastar é provar-lhes que não nos deixamos enganar, rejeitando impiedosamente, como apócrifo e suspeito, tudo que não for racional, tudo que desmentir a superioridade que se atribui ao Espírito que se manifesta e de cujo nome ele se reveste. Quando, então, vê que perde seu tempo, afasta-se.

Acreditamos ter respondido suficientemente à pergunta do nosso correspondente sobre a conveniência e a oportunidade de certas publicações espíritas. Publicar sem exame, ou sem correção, tudo quanto vem dessa fonte seria, em nossa opinião, dar prova de pouco discernimento. Tal é, pelo menos, a nossa opinião pessoal, que submetemos à apreciação daqueles que, estando desinteressados pela questão, podem julgar com imparcialidade, pondo de lado qualquer consideração individual. Como todo mundo, temos o direito de externar a nossa maneira de pensar sobre a ciência que constitui o objeto de nossos estudos, e de tratá-la à nossa maneira, sem pretender impor nossas idéias a quem quer que seja, nem apresentá-las como leis. Os que partilham a nossa maneira de ver é porque crêem, como nós, estar com a verdade. O futuro mostrará quem está errado ou quem tem razão.



Allan Kardec

Revista Espírita Novembro 1859

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ALERTA AOS NEÓFITOS

Entre os espíritas, há sempre muita preocupação com as doutrinas que atacam o Espiritismo.

Para desfazer equívocos ou defender-se das críticas, os espíritas participam de reuniões ecumênicas. Isso nos surpreende, porque o Espiritismo tem propostas que conflitam com os demais credos. São leis que fazem a espinha dorsal da doutrina espírita. A reencarnação, uma delas, única justificativa para as desigualdades do mundo, se aceitarmos que Deus é todo justiça, amor e caridade, é menosprezada pelas outras seitas cristãs.

A lógica do Espiritismo atrai mais e mais adeptos, a cada dia. Encontramos hoje nas casas espíritas doutores de todas as áreas e jovens que sempre contestaram as religiões, porque são dogmáticas e agridem a racionabilidade.

Depois de um culto na igreja, ao ouvir uma palestra espírita, a pessoa de bom senso percebe logo a diferença. Enquanto os primeiros oferecem o céu com facilidade, o Espiritismo cobra do praticante um esforço titânico de melhoramento individual. Dá-lhe receitas para o sucesso da tarefa e mostra-lhe as conseqüências dessa luta íntima. É mais justo, porque representa a colheita do que é plantado e não um favorecimento com privilégios de merecimento duvidoso.

Ao chegar no Centro Espírita, o novo praticante, pela lógica, conclui que o Espiritismo detém a perfeição. Procura adaptar-se e participar das atividades da casa para poder, na prática, chegar à almejada evolução.

Nesse momento, esbarra no nosso comportamento de espíritas com anos de casa, fincados nos velhos hábitos, sem que o Espiritismo possa modificar-nos. Da teoria que conhecemos, pouco praticamos.

Allan Kardec advertiu que, por sua natureza, o homem quer ligar seu nome às obras e que no Espiritismo nada seria diferente. E o que vemos nos nossos agrupamentos é exatamente isso. Pessoas vaidosas, desgastadas pela luta dos cargos, pelas honras, pelos títulos, pelas palmas e todo tipo de evidência, sem perceber que afrontam a doutrina e são mau exemplo. Especialmente para os recém-chegados, que têm uma visão do espírita como homem de virtude, com destaque para a humildade. Diante desse comportamento, desiludem-se.

O alerta que fazemos aos noviços, apesar de ainda sermos dos que navegam entre a teoria e a prática, é para que não se desencantem com a doutrina com base nos espíritas. O Espiritismo é divino e os espíritas, humanos. E estão entre os maiores devedores, corrigindo erros por meio de repetidas provas e expiações. Mas, apesar dos obstáculos que lhe criamos, o Espiritismo seguirá sua trajetória. Na Parte III do seu livro “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”, A. Wantuil de Freitas declara: “Sejam quais forem as barreiras que os homens lhe oponham, o Espiritismo cumprirá sua missão de transformação do mundo: com os homens sem os homens ou apesar dos homens”.

Não aconselhamos a que alguém que não se sinta bem num agrupamento ali permaneça em nome da caridade, em auto-agressão. Se vamos ao Centro preocupados com certo alguém com quem não simpatizamos, por falha dele ou nossa, devemos tomar alguma providência. Primeiro, verificar o que é possível fazer para harmonizar-nos. Quase sempre temos sucesso. Mas se for impossível, busquemos outro grupo para colaborar porque os espíritos do bem  não trabalham em lugares onde há desarmonia.

O objetivo deste comentário é dizer que se buscamos  santos nos agrupamentos espíritas, seguramente ali não os encontraremos. Jamais confundir o Espiritismo com o espírita, deixando que as atitudes de dirigentes, oradores, aconselhadores, professores,  médiuns e pessoas em geral, interfiram nos propósitos de buscar o conhecimento doutrinário, porque à medida que avançamos no saber espírita, melhor compreenderemos a imperfeição dos companheiros de jornada e também a nossa. Somos todos espíritos inferiores em luta contra as imperfeições.

Diante do fracasso do confrade, não abandone o Espiritismo, porque o prejuízo será seu. O outro continuará ouvindo as lições e conseguirá, mais dia menos dia, o almejado progresso. Se fizer o mesmo, cuidando de melhorar-se antes de tentar consertar o mundo, receberá do Espiritismo tudo o que ele pode nos dar.

Rogue a Jesus que ampare cada um de nós, velhos ou novos de casa, para que colaboremos com esta notável revelação que é a Doutrina dos Espíritos. Tenha paciência e, com o tempo, verá que valeu a pena.

Olho 1 – A lógica do Espiritismo atrai mais e mais adeptos, a cada dia. Encontramos hoje nas casas espíritas doutores de todas as áreas e jovens que sempre contestaram as religiões, porque são dogmáticas e agridem a racionabilidade.

Olho 2 - Allan Kardec já advertiu que, por sua natureza, o homem quer ligar seu nome às obras e que no Espiritismo nada seria diferente. E o que vemos nos nossos agrupamentos é exatamente isso. Pessoas vaidosas, desgastadas pela luta dos cargos, pelas honras, pelos títulos, pelas palmas, e todo tipo de evidência, sem perceber que afrontam a doutrina e são mau exemplo.

  (Artigo originalmente publicado na Revista Internacional do Espiritismo, Março de 2003)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

MINHA HOMENAGEM AOS 581 ANOS DA DESENCARNAÇÃO DE JOANA D’ARC

 O motivo que nos leva a escrever sobre a Donzela de Orleans, não é o de pormenorizar a sua vida, cheia de heroísmo e estoicidade, porque se acha descrita de modo magnífico na obra monumental de Léon Denis, que se intitula "Joana D'Arc Médium".  Essa obra é toda apoiada em documentos insofismáveis, da qual respigamos alguns dados para a elaboração desta despretensiosa monografia.

Foi com vistas ao período agudo por que passa a humanidade, pejada de sofrimentos e apreensões, que achamos de bom alvitre lembrar, aqui, a figura da grande guerreira que foi Joana D'Arc.

Os seus feitos nobilíssimos na expulsão dos ingleses da França, no século XV, foram decisivos para a independência e liberdade desta grande e portentosa nação, graças ao feliz desempenho da sua mediunidade.

O que torna mais admirável esta jovem extraordinária é a evidência das faculdades mediúnicas de que era possuidora, quais sejam: as da visão, audição e premonição, às quais obedecia sem discrepância.

Sem tais faculdades, de per si ela nada teria realizado, tendo-se em vista a sua pouca idade e a sua nenhuma cultura.

Joana D'Arc nasceu em Domremy (França) em 1412. Era filha de pobres lavradores. Quando não fiava a lã junto de sua mãe, apascentava o rebanho às margens do Vale do Mosa, tendo, muitas vezes, ladeado seu pai no manejo da charrua.

Joana era morena, alta, forte e bela; a sua voz era suave, a expressão graciosa, o todo modesto.

Em uma moça como quase todas de sua idade, sonhadora. Comprazia-se em contemplar o céu, à noite, quando pontilhado de estrelas; apreciava vaguear pelas frescas campinas, pelas manhãs e, à tarde, sentar-se sob o carvalho anoso, fronteiriço à sua casa, onde ouvia, embevecida, o tanger dos sinos da igreja de sua aldeia.

Joana frequentava assiduamente essa igreja, onde orava com devoção.

Próximo à sua casa havia um jardim, bem cuidado, onde igualmente costumava orar.

A sua primeira visão, segundo Léon Denis, teve-a ela nesse local, quando se achava em prece.

Nessa visão, aparece-lhe um espírito de grande formosura, cujo esplendor deslumbra-a. Em seguida, é S. Miguel que lhe surge com urna corte de espíritos puros, que lhe fala da situação angustiosa de seu país e lhe revela a missão que lhe estava destinada de salvá-la.

A princípio, Joana reluta, confessando sua incapacidade para tão alto desígnio, sendo encorajada com a promessa de ajuda dos bons espíritos que a guiariam nesse arrojado empreendimento.

As entidades que mais frequentemente se comunicavam com ela, eram os espíritos boníssimos de Santa Catarina, Santa Margarida e S. Miguel, assim designados por ela, em virtude dos ensinamentos católicos, adquiridos naquela época em que o Catolicismo Romano imperava quase absoluto.

É de se notar que Joana jamais saiu de sua aldeia. Adorava seus pais, aos quais ajudava dedicadamente nos seus misteres e nunca ia deitar-se sem antes depositar-lhes na fronte seu ósculo filial.



JOANA ACEITA A MISSÃO

Um dia, na sua visão, reaparece-lhe S. Miguel que lhe diz: "Filha de Deus, tu conduzirás o Delfim a Reims, a fim de que receba aí sua digna sagração". A essas palavras Joana junta-lhes ação. Assim, antes do romper da aurora, em plena estação hibernal, Joana se levanta da cama e, pé ante pé, sem fazer ruído para não trair o sono de seus pais que a impediriam, por certo, de realizar seu intento divino, faz uma mala de roupas, salta a janela de seu quarto e vai para onde mandam suas vozes.

Quando sua fuga se deu, para cumprimento dessa missão, contava Joana a idade de 17 anos.

Só, ignorante, contando unicamente com o auxílio de seus espíritos, nos quais depositava toda a fé, ela deixa a aldeia que muito amava e onde nascera, e que não veria mais. Deixa ainda, o seu rebanho do qual nunca se tinha apartado e, conforme suas vozes, segue em direção a Paris, passando, antes, por Vaoucoleres, onde põe seu tio ao par do que lhe cumpria fazer por determinação do Alto.

Até então, sua vida havia transcorrido entre o trabalho, que muito amava, e o repouso.



JOANA É CONDUZIDA AO SUPLICIO

O dia 30 de Maio de 1431 assinala o término da sua gloriosa missão na Terra. Nesse dia, os sinos bimbalham o dobre fúnebre desde á 8 horas da manhã. É que anunciam a morte de uma inocente criatura, cujo único crime fora ter amado e servido fielmente à sua Pátria.

Diante de tanta injustiça, de tantos sofrimentos, que iriam, dentro em breve, culminar numa fogueira, Joana chora amargamente. Preferiria, ela própria o diz ser decapitada sete vezes, a morrer queimada.

Os monstros conduzem-na numa carreta. Oitocentos soldados ingleses escoltam-na até ao local do suplício. Grande multidão se comprime na praça onde Joana deveria receber o gênero de morte destinado aos piores assassinos.

Na Praça Vieux-Marché, em Rouen, são erguidos três palanques, para serem ocupados pelos altos dignitários. Entre eles achavam-se presentes o Cardeal de Wenchester, o Bispo de Beauvais e o de Bolonha, e todos os juízes e capitães ingleses.

Entre os palanques ergue-se um monte de lenha, de grande altura, dominando toda a praça. A intenção dos verdugos era aumentar o sofrimento de Joana, espetacularizando-Ihe a morte, a fim de que ela renegasse, pela dor, à sacrossanta missão e às suas vozes.

Nessa ocasião, é lido um libelo acusatório, composto de 70 artigos, no qual transparece todo o ódio, toda a calúnia dos seus inimigos.

Joana ora com fervor, em voz alta, e pede, nessa prece, Q Deus, que lhe dê a coragem precisa para suportar a prova final, sem queixumes, sem tergiversar.

Em seguida, implora o perdão divino aos seus algozes, tal como fizera Jesus quando pregado ao madeiro.

Em dado momento, suas palavras comovem aquela gente, em número superior a 10 mil pessoas, que soluçam ante os horrores daqueles momentos. Os próprios juízes, sentindo o remorso morder-lhes a consciência, choram diante dessa cena.

A um aceno do cardeal, Joana é amarrada ao poste fatídico, com fios de ferro.

A vítima dirige-se, então, a uma pessoa que se achava perto e pede-lhe que vá buscar uma cruz na igreja mais próxima. Ao ter o símbolo da dor entre as mãos, cobre-o de beijos e lágrimas. É que nesse momento trágico, ela queria ter diante de seus olhos a imagem do Crucificado, para inspirar-lhe a coragem de que carecia.

Naquele momento, Joana reviveu todo o seu passado de glórias, cheio de gratas recordações, que só pode acudir à mente das criaturas verdadeiramente puras, como ela, que ia, daí a instantes, sacrificar sua vida pela verdade.



QUEIMADA VIVA

Eis que o momento azado chega. Ao monte de lenha que se ergue da praça, os carrascos lançam fogo. As labaredas começam a subir atingindo a vitima. Já lambem suas carnes. O Bispo de Beanvais aproxima-se da fogueira e grita: "Joana! Abjura!" ao que lhe responde: "Bispo, morro por vossa causa, apelo de vosso julgamento para Deus!"

Quando o fogo começa a chamuscar seu corpo, Joana, estorcendo-se nos ferros onde se achava presa, grita à multidão: "Sim, minhas vozes vinham do Alto! Minhas vozes não me enganaram. Minhas revelações eram de Deus. Tudo que fiz, fi-Io por ordem de Deus!"

Seu corpo arde-se todo. Eis q:ue novo grito abafado pelo crepitar da fogueira, ecoa de dentro dela; era seu apelo ao mártir do GóIgota: "JESUS".

Seu corpo fora carbonizado nessa fogueira e reduzido a cinzas, as quais, depois foram lançadas ao Sena.

Desta forma, negaram-lhe seus inimigos uma sepultura onde pudessem seus admiradores ir pranteá-la!

Os ingleses pensavam terem vencido com a morte de Joana, Mas, enganavam-se. Carlos VII consegue reorganizar rapidamente suas tropas e ganhar as batalhas de Formigni e Castillon, findando-se, assim, a guerra com o triunfo dos franceses.

Seus inimigos mataram-na tal como queriam, isto é, lentamente, com requintes de crueldade.

 Joana morreu para os ingleses, para a Terra; porém, viveu para o céu. É a recompensa divina.



CANONIZAÇÃO DE JOANA

Alguns anos mais tarde, Joana é canonizada pela Igreja Romana, a mesma que a tinha acusado de herética. A sua santificação foi mais por conveniência política, que por outro motivo qualquer, porquanto Joana sempre inspirou à Igreja sentimento de repulsão em virtude da sua mediunidade; e por isso, era tida, pelo clero, como "feiticeira", por não querer obedecer-lhe negando a origem extraterrena da sua missão.

O processo de reabilitação de Joana, levado a efeito no século XV, marca a queda da Inquisição na França. Eis o que os franceses devem, ainda, a Joana D'Arc.

A vida de Joana D'Arc, verdadeiro martirológio, continuará sendo sempre a fonte inexaurível de supremos consolos a todos os que sofrem neste vale de dor.

Mártir da mediunidade, a sua fé em Deus, o seu amor a Jesus, cujo nome fora a sua derradeira palavra, reavivará a fé nos corações atribulados que a ela Se voltarem.

Formosa flor de Lorena! Donzela santa! Alma Lirial! Destas plagas sombrias e expiatórias, eu, humilde rabiscador destas linhas, saúdo-te ó pastora  de Domremy, heroína de Orleans, mártir de Rouen!



CONCLUSÃO

Por que, dirão, Joana teria sofrido tanto? A verdade é que, ninguém sofre se não pecou. Esta é uma das leis divinas que cabia ao Espiritismo revelar aos homens, mostrando-lhes que Deus não é um experimentador de almas, concedendo, a uns privilégios, e a outros martírios.

A reencarnação, ensinada pelo Cristo e sancionada pelo Espiritismo, veio patentear aos homens a misericórdia Divina. Assim é que se numa existência o homem vem a falir, desarmonizando-se com as leis naturais estabelecidas por Deus, outra lhe é facultada, para que ele possa resgatar (mais duramente em virtude da sua reincidência no mal) o passado delituoso, e ascender, assim, a outros mundos mais felizes, que Deus destinou a todas as suas criaturas. Deus não criou estes mundos que gravitam no espaço imensurável, inutilmente. E o Cristo dissera que "nenhuma ovelha do seu rebanho se perderá,", o que equivale dizer: não existe o tão lendário inferno com a eternidade de suas penas.

O que existe, e isto é muito justo, porque se concilia perfeitamente com a justiça de Deus, é a reparação de erros; em seguida, provação, para ficar evidenciado se o pecador incorrerá ou não no mesmo erro; após o que - redenção, uma vez triunfante da prova.



UMA REENCARNAÇÃO PASSADA DE JOANA, SEGUNDO UM ESPÍRITO.

H. de Campos, chamado com justeza o repórter do Além, lançou um pouco de luz sobre a vida da grande personagem de quem acima tratamos.

Das páginas de um de seus livros post-mortem, depreende-se que Joana fora a reencarnação do espírito de Judas Iscariotes.

Não deve causar estranheza aos espíritas, a diferença de sexos dessas duas existências, porquanto, o sexo, conforme nos ensina a Doutrina dos Espíritos, não é mais que um acidente na vida humana, necessário à execução dos desígnios divinos.

O ter sido, Joana D'Arc, a reencarnação do espírito de Judas Iscariotes, conforme revelação do espírito citado deve ser motivo de júbilo, principalmente para os espíritas, porque isso vem demonstrar que o perdão de Jesus concedido a Judas, que o traiu, não foi em vão.

Consoante a concepção católica, Judas é um espírito errante, sem probabilidades de remissão, cuja eterna existência ele arrastará penando.

Assim sendo, perguntamos, de que valeu, então, ter Jesus perdoado a Judas? Felizmente assim não é. O perdão de Jesus não foi inútil. Judas penitenciou-se, pedindo a Deus uma nova existência, cheia de renúncia e de sofrimentos dolorosos, que se epilogou numa fogueira, na pessoa de Joana D'arc.

Que o espírito de Judas Iscariotes, emancipado aos olhos de Deus pelo seu martírio de Rouen, se compadeça dessas infelizes criaturas que, desconhecedoras da lei reencarnacionista, e da misericórdia do Pai ainda queimam - "o Judas de pano" - como desagravo à sua alta traição, ocorrida no passado remoto.