quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

LIMPAR A MENTE

 
Os bons costumes tornam a mente límpida e clareiam o verbo, enriquecendo-o, para que os ouvintes sejam estimulados ao exercício do bem eterno. A poluição mental turva a consciência e conturba o raciocínio, deixando a alma trôpega no vaso da carne. O homem civilizado não tem o costume diário de higienizar o corpo? Pois a mente, na verdade, tem grande necessidade de limpeza, tanto quanto o corpo, por ser o centro da vida que comanda toda a massa somática.

E esse trabalho começa como a chuva: divide-se em bilhões de gotículas, mas farta a humanidade e a natureza, limpa a atmosfera e destampa as minúsculas aberturas das árvores, de onde promana o oxigênio puro, no vigor da própria existência. Assim, a chuva, para a mente, há de surgir nessas mesmas proporções: bilhões ou trilhões de pequenos esforços, somando uma torrente de energias vivas, conduzindo todo o entulho da consciência por canais apropriados. E a pureza do raciocínio faz nascer um clima enriquecido para as belezas imortais do amor, da alegria e da fraternidade. Sugestiona o ser à procura de Deus e a obedecer às leis.

A castidade mental é obra de grande importância para a nossa supremacia espiritual, sem as sutilezas da arrogância e as manobras do orgulho. Devemos nos esforçar todos os dias, a partir do momento em que nos alistamos no exército do Cristo. Como espíritos, mesmo no mundo, mas à procura da luz, compreendamos, na urgência das nossas necessidades, que renovação é tema central da alma - ovelha que reconhece o pastor, atendendo os seus magnânimos convites, pela inteligência e pelo coração.

A elegância dos pensamentos ajusta o meio ambiente em que viveis, para chamados fraternos e para uma conversação sadia, desamarrando do núcleo da vida, a expressão do amor, de modo a participar, na mesma freqüência, a razão. Para que tudo isso se faça, o esforço próprio é imprescindível, dia a dia. A auto-educação haverá de se processar passo a passo, e a vigilância deve arregimentar todas as forças possíveis nessa imensurável batalha que somente termina na pureza espiritual, para começar outros labores, em escalas que escapam ao raciocínio humano.

A vida é um turbilhão de vidas sucessivas, que se associam por lei de esforços e de obediências correlatas. No homem, o começo do sofrimento é princípio de maturidade. É, pois, a força do progresso atingindo a sua farda física, para que o corpo espiritual se atualize nas necessidades maiores. Os grandes golpes na alma clareiam seu caminho para certas mudanças na arte de viver melhor.

Escrevemos para todos, é certo. No entanto, endereçamos nossas mensagens, com mais intimidade, aos despertos, aos companheiros conscientes dos seus deveres ante a escalada do Mestre. Se começais hoje a vos renovar na vida que levais, amanhã sereis torturados impiedosamente pelas forças contrárias, donde resulta a desistência de muitos estudantes da verdade, por ignorarem que o ataque, a maledicência, a injúria, o desprezo são outras tantas forças do bem, revestidas aparentemente de inimigos. Todavia, o que Jesus disse nos conforta sobre maneira: “Aquele que perseverar até o fim, será salvo”.

Associemos nossos esforços aos regimes das leis de Deus, respeitando-as em todas as suas nuances. Se algo faltar de nossa parte, nunca haverá de ser a persistência, como onda de luz a transformar as nossas boas intenções em realidades.

Higienizemos a nossa mente, sem afrontá-la agressivamente. A experiência nos aconselha que o trabalho paciente e constante vencerá obstáculos que se nos afiguram em posição irremovível. Na verdade, a mente plasma o que os olhos vêem como máquina fotográfica pronta para disparar tendo em mira o objetivo visado. Não obstante, poderemos fechar o diafragma. Assim sucede com os ouvidos, assim se processa na formação das idéias. Orar e vigiar é atitude certa para que a mente não se suje mais. E o trabalho de limpeza deve ser eficiente, diminuindo a carga corrosiva acumulada em muitos séculos. Um pouco de boa vontade vos colocará, com habilidade, nesse saneamento, e os conceitos que propomos nesse livro são, um tanto um quanto, companheiros da limpeza espiritual, convidando a todos para a libertação.



Extraído: do livro ”Horizontes da Mente”, de João Nunes Maia e ditado pelo espírito Miramez ( Editora Espírita Cristã Fonte Viva).

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

DEPRESSÃO E INFLUÊNCIA ESPIRITUAL


Acompanhei um caso interessante de depressão com um componente espiritual presente. Um rapaz de vinte e dois anos, universitário, revelou a sua mãe seu descontentamento com seu curso e sua vontade de deixá-lo. Mesmo com os conselhos contrários da mãe ele abandonou a faculdade. Passou a ficar muito tempo em casa, em seu quarto e a falar de forma monossilábica.

 Emagreceu, pois comia muito pouco e passou a se demorar por muito tempo em frente à televisão. Ele morava só com a mãe. Seu pai havia falecido quando ele tinha doze anos e isso não abalou sua vida, pois sempre demonstrou disposição para viver e estudar.

 Sempre foi bom aluno e não apresentou, desde a morte do pai, nenhum sintoma de qualquer transtorno. Porém, de repente, já adulto, passou a ter um comportamento não habitual e de isolamento progressivo. Conduzido a um médico, a muito custo, pela mãe, foi diagnosticada a depressão. Passou a tomar remédios, porém sem alteração nos sintomas.

 A alguns quilômetros de sua casa, numa das reuniões mediúnicas do Centro Espírita Harmonia, apresentou-se um espírito dizendo-se sem fé e sem perspectiva em sua vida. Sabia que havia falecido há cerca de quarenta anos, vítima de falência múltipla dos órgãos. Disse ter se dedicado à religião, tornando-se padre, mas que não tinha muita convicção em suas pregações e em sua fé. Fora levado à religião por influência da tradição familiar, que reservava um dos filhos para o ministério de evangelizar o próximo.

 Ele fora escolhido por ser o caçula. Mesmo aceitando o ofício, nunca se entusiasmou com a tarefa. Cometeu muitos desatinos, vivendo de forma moralmente condenável. Seus familiares se afastaram dele e seus fiéis não se sentiam bem ao seu lado nem o procuravam para conselhos. Achavam-no despreparado e evasivo em seus sermões. Viveu seus últimos dias doente, sem visitas e sem amigos. Faleceu com pouco mais de quarenta anos num hospital público, sem nenhum familiar próximo e sem que ninguém se lembrasse dele. Morreu como viveu, isolado e sem vínculos afetivos. Como a vida continua, perambulou pelo mundo dos espíritos em torno do ambiente religioso que viveu desnorteado procurando por Jesus e pelos santos da Igreja. Depois de algum tempo, sem encontrar o que esperava e sem saber o que fazer, à procura de algum referencial familiar, refugiou-se numa igreja distante daquela em que outrora pregara. Um dia, passados alguns anos desde seu falecimento, atraído por uma senhora que passou a ir àquela igreja, seguiu-a até sua casa. Lá encontrou um jovem universitário cheio de vida. Automaticamente ligou-se a ele por se sentir atraído pela sua jovialidade e disposição de viver.

 Seu interesse pela senhora se deu por causa da persistente oração que fazia em favor do filho. Ela notara que seu filho estava vivendo algum processo difícil, que não compreendia, então resolveu buscar auxílio nos santos de sua devoção. Seus pensamentos e a projeção mental da imagem do rapaz atraíram o padre desencarnado.



Ele a seguiu à saída da igreja sem saber ao certo aonde ia, porém algo o levava a ela. Seu desejo era mais forte do que sua consciência do ato. No íntimo achava que iria encontrar uma resposta para sua vida, que se achava paralisada. Chegando à casa dela, ao ver o rapaz, sentiu-se atraído a ele. Estremeceu como se estivesse diante de alguém muito importante em sua vida. Sentiu um frio dentro de si e leve tremor no corpo. Teve ímpetos de abraçá-lo, mas se conteve, temendo uma reação contrária por parte do rapaz. Naquele momento constatou que o conhecia de algum lugar e que ele era alguém muito querido seu. Por sua vez, o rapaz, ante a situação, sem saber da presença do espírito em sua casa, sentiu uma sensação de pesar e tristeza, aliadas a certa alegria íntima simultânea. Levantou-se da cama e foi à sala, na qual sua mãe acabara de entrar. Ali estavam os três num mesmo ambiente, porém só o espírito tinha consciência do fato. Os outros dois acreditavam estar sozinhos. O rapaz, ao cumprimentar sua mãe, sem perceber a presença do espírito, disse-lhe não estar se sentindo bem naquele momento e pediu-lhe que fizesse uma oração. Feita a oração, acompanhada pelo padre desencarnado, que se sentiu muito bem ali, o rapaz melhorou e voltou ao seu quarto.

 A partir daquele dia, por conta da presença de seu amigo padre desencarnado, sem disso ter consciência, foi se tornando uma pessoa isolada e sem ânimo para fazer o que habitualmente fazia. Depois de alguns dias sua mãe o levou a um médico.

 Um dia, a vizinha, após a mãe lhe ter contado que seu filho não passara bem no dia anterior, convidou-a a levá-lo a um Centro Espírita, pois acreditava que a ocorrência poderia estar associada a alguma influência espiritual. Provavelmente a vizinha agira sob inspiração de espíritos, inclusive quando conseguiu levá-los ao Centro Espírita dias depois. Após insistentes convites da mãe, o rapaz se decidiu a ir, mesmo contrariado.

 Lá chegando, acompanhado pelo espírito, que mesmo tendo consciência do lugar para onde estava indo, não se incomodou, o rapaz assistiu a uma palestra e tomou passes. Disse à mãe que se sentiu bem e que retornaria lá na semana seguinte. Por sua vez, durante o passe, o padre se sentiu desligado dele e permaneceu na instituição, interessado no que lá ocorria. Viu que ali se falava de religião de forma diferente da que se acostumara a pregar, sem dogmatismo nem subserviência. A palestra da noite discorreu sobre o Cristo-homem, que realizou sua vida de acordo com seus firmes propósitos de educar as pessoas a também realizarem seu próprio destino. O Cristo era mostrado como uma pessoa e não como um Deus. Como alguém que era capaz de aceitar o outro com suas deficiências, sem lhes exigir santidade. Isso lhe foi muito útil e recebido como um alento, pois se sentia culpado pelo seu passado. Era como se o próprio Cristo o absolvesse, sendo mostrado simplesmente um ser humano como ele.

 Permaneceu ali naquela Instituição por alguns dias, até ser admitido numa de suas reuniões mediúnicas para o diálogo com aqueles que fazem parte do mundo do qual ele ainda não havia se desligado completamente.

 Na reunião mediúnica, questionado sobre os motivos pelos quais se ligara àquele rapaz, disse não saber, bem como não se lembrar de nada que se referisse aos dois. Passou a acompanha-lo como se o fizesse a um grande amigo. Gostava do rapaz, sentindo-se bem ao seu lado, porém sem perceber que estaria prejudicando sua vida. Sua ligação psíquica com o rapaz desencadeou os sintomas da depressão. Não entendia que seu próprio estado mental contaminava o do outro.

 Interessante como a influência espiritual, ou proximidade entre um espírito e outro que esteja em dimensão diferente, promove alterações psíquicas. Neste caso, pelo estado mental do padre falecido, a influência era negativa. Seria o que se chama de obsessão não intencional, por não haver desejo de domínio sobre o outro. Esse tipo de influência, que no caso específico contribuiu para a instalação da depressão, também é comum nos casos de síndrome de pânico. A proximidade psíquica entre espíritos desencarnado e encarnado pode provocar uma série de reações orgânicas concomitantemente a alterações no estado de consciência e em sua invasão pelo inconsciente.

 O estudo dos processos psicogênicos certamente conduzirá a uma percepção das influências espirituais, além de uma melhor compreensão a respeito do inconsciente.

 Passados alguns dias, após o desligamento voluntário do padre da companhia do rapaz, este veio a melhorar e a voltar à sua habitual jovialidade e ao interesse pelos estudos.

 Muitos casos de depressão possuem um componente espiritual de difícil percepção. Às vezes se trata de parentes desencarnados que se ligam, por laços afetivos, ao encarnado, mas que lhe contaminam com seus pensamentos derrotistas. Outras vezes, o depressivo pode perder a motivação para a vida, por saber de antemão que enfrentará grandes desafios decorrentes de seu passado culposo. Parece que ele quer recuar da prova ou expiação a enfrentar. Ao se aproximar o período em que enfrentará seu próprio passado, acercam-se dele, espíritos que, pelo estado em que se encontram, influenciam sobremaneira seu psiquismo.

 Depressivos desencarnados, quando se aproximam de pessoas pessimistas e frágeis psicologicamente, facilmente transmitem seus estados mentais. O processo de transferência se dá de períspirito a perispírito, de mente a mente, como num sistema de radiofrequência.

 Um emite e o outro capta, estando ambos na mesma freqüência psíquica. Como em todos os casos, vale a pena selecionar as companhias que se quer ter. Quem sintoniza com a depressão atrairá depressivos e desiludidos nos dois lados da vida: material e espiritual.

 A influência espiritual é fato normal, pois espíritos existem em toda parte. Alguns, mais adiantados, se estruturam em organizações espirituais que se assemelham às cidades, outros, ainda presos à sociedade terrena, permanecem vinculados ao que aqui ocorre. Estes últimos vivem e convivem com os encarnados, como se ainda estivessem no corpo físico. Transmitem e recebem fluidos, pensamentos e emoções. Adoecem e fazem adoecer.

 Parece uma sociedade dentro da outra, numa incrível comunhão de idéias e de sentimentos. Pode-se observar que algumas atitudes resultam de intenções de um lado e de outro.

 A depressão causada exclusivamente por influência espiritual, via de regra, apresenta sintomas mais perturbadores ao indivíduo, principalmente quanto à confusão mental que provoca.

 Neste caso, será imprescindível o tratamento espiritual, para o esclarecimento também do espírito que a desencadeia.

 A maneira mais adequada de identificar quando a depressão é causada por obsessão espiritual é verificar a existência de seus sintomas típicos. Os sintomas típicos da obsessão espiritual são:



1. Falhas freqüentes no curso, conteúdo ou forma do pensamento, com conseqüentes perturbações no contato com a realidade;

 

2. Alterações freqüentes de comportamento à revelia da pessoa, gerando constrangimentos e dificuldades em viver a normalidade cotidiana;



 3. Perturbações psicóticas (alucinações, delírios persecutórios, audição de vozes, etc.), que provoquem dificuldades de conciliação com a normalidade do ego;



 4. Alterações constantes da senso-percepção, promovendo constantes distorções na qualidade e quantidade do que é captado pelos cinco sentidos;



 5. Sintomas característicos da Síndrome de Pânico (taquicardia, sensação de asfixia, medo sem causa aparente, suor frio nas extremidades, medo de sair sozinho, etc.), provocando alterações na vida diária;

 

6. Sensações típicas da mediunidade não educada, perturbando a vida e as relações da pessoa;

 

7. Alterações constantes na quantidade e qualidade do sono, provocando insônias ou dormir em quantidade além do habitual;

 

8. Recorrências em distúrbios descritos pela Psiquiatria como Transtornos Mentais, exceto aqueles cujas causas se devem a problemas neurológicos e aos congênitos.

 Adenáuer Novaes

 Do livro: Alquimia do Amor, Depressão, Cura e Espiritualidade, 1ª Edição - Fundação Lar Harmonia

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A ALMA

A alma já não é formada com todas as peças por um Deus caprichoso, que distribui, ao acaso e bel-prazer, o vício ou a virtude, a imbecilidade ou o gênio. Criada simples e ignorante, ela se eleva pelas próprias obras, a si mesma se enriquece, colhendo no presente o que em vidas anteriores semeou. E continua semeando para as futuras encarnações.

A alma, por conseguinte, constrói o próprio destino; degrau a degrau, sobe do estado rudimentar e inferior a mais alta personalidade; da inconsciência do selvagem ao estado desses sublimes seres que iluminam a rota da História e passam pela Terra como lampejo divino.

Assim considerada, a reencarnação torna-se consoladora e fortificante verdade, um símbolo de paz entre os homens; a todos indica a senda do progresso, a grande eqüidade de um Deus que não pune eternamente, mas permite ao culpado resgatar-se pela dor. Posto que inflexível, essa lei sabe proporcionar a reparação à falta e, depois do resgate, faculta a reabilitação. Fortalece a fraternidade humana, ensinando aqueles a quem pudessem causar estranheza às desigualdades sociais e as diferenças de condição, que os homens todos têm, realmente, a mesma origem e o mesmo futuro. Não há deserdados nem privilegiados, pois o resultado final será o mesmo para todos, desde que o saibam conquistar.

A lei de reencarnação põe um freio às paixões, mostrando as conseqüências dos nossos atos, das nossas palavras, dos nossos pensamentos a recaírem sobre a nossa vida atual e sobre as futuras vidas, nelas semeando germens de felicidade ou de infortúnio. Graças a ela cada qual aprende a vigiar-se a si mesmo, a acautelar-se, a preparar cuidadoso o seu futuro.

O homem que uma vez compreendeu toda a grandeza dessa doutrina, não mais poderá acusar Deus de injustiça e parcialidade. Saberá que caga qual, no mundo, ocupa o seu lugar, que toda alma está sujeita às provações que mereceu ou desejou. Agradecerá ao Eterno o lhe proporcionar, com os renascimentos; o meio de reparar as faltas e adquirir, mediante trabalho constante, uma parcela do seu poder, um reflexo da sua sabedoria, uma centelha do seu amor.

Tal o destino da alma humana, nascida na fraqueza, na penúria das faculdades e dos meios de ação, mas chamada, elevando-se, a realizar a vida em si mesma, em toda a plenitude; a alcançar todas as riquezas da inteligência, todas as delicadezas do sentimento, tornando-se um dia colaboradora de Deus.

Essa a missão do ser e o seu grandioso objetivo: colaborador de Deus, isto é, destinado a realizar em torno de si, em missões cada vez mais grandiosas, a ordem, a justiça, a harmonia; a atrair seus irmãos inferiores, a conduzi-los às divinas eminências; a subir com eles, de esfera em esfera, para o supremo objetivo, para Deus - o Ser perfeito, lei viva e consciente do Universo, eterno foco de vida e de amor.

Essa participação na obra infinita é, de começo, assaz inconsciente; o ser colabora sem o saber e, às vezes, até sem o querer, na ordem universal; depois, à medida que percorre a rota, essa colaboração se torna cada vez mais consciente. Pouco a pouco a razão se lhe esclarece; a alma apreende a profunda harmonia das coisas, penetra as suas leis, a elas se associa intimamente por seus atos.

Quanto mais se desenvolvem as suas faculdades e aumentam as suas qualidades afetivas, tanto mais se afirma e acentua a sua participação no divino concerto dos seres e dos mundos.



LÉON DENIS

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O OUTRO LADO DA FESTA



Os preparativos para a grande festa estão sendo providenciados há meses.
As escolas de samba preparam, ao longo do ano, as fantasias com que os integrantes irão desfilar nas largas avenidas, em meio às arquibancadas abarrotadas de espectadores.
Os foliões surgem de diversos pontos do planeta, trazendo na bagagem um sonho em comum: “cair na folia”.
Pessoas respeitáveis, cidadãos dignos, pessoas famosas, se permitem “sair do sério”, nesses dias de carnaval.
Trabalhadores anônimos, que andam as voltas com dificuldades financeiras o ano todo, gastam o que não têm para sentir o prazer efêmero de curtir dias de completa insanidade.
Malfeitores comuns se aproveitam da confusão para realizar crimes nefastos, confundidos com a massa humana que pula freneticamente.
Jovens e adultos se deixam cair nas armadilhas viscosas das drogas alucinantes.
Esse é o lado da festa que podemos observar deste lado da vida. Mas há outro lado dessa festa tão disputada: o lado espiritual.
Narram os Espíritos superiores que a realidade do carnaval, observada do além, é muito diferente e lamentavelmente mais triste. Multidões de Espíritos infelizes também invadem as avenidas num triste espetáculo de grandes proporções. Malfeitores das trevas se vinculam aos foliões pelos fios invisíveis do pensamento, em razão das preferências que trazem no mundo íntimo.
A sintonia, no Universo, como a gravitação, é lei da vida. Vive-se no lugar e com quem se deseja psiquicamente. Há um intercâmbio vibratório em todos e em tudo. E essa sintonia se dá pelos desejos e tendências acalentados na intimidade do ser e não de acordo com a embalagem exterior.
E é graças a essa lei de afinidade que os espíritos das trevas se vinculam aos foliões descuidados, induzindo-os a orgias deprimentes e atitudes grotescas de lamentáveis conseqüências.
Espíritos infelizes se aproveitam da onda de loucura que toma conta das mentes, para concretizar vinganças cruéis planejadas há muito tempo.
Tramas macabras são arquitetadas no além túmulo e levadas a efeito nesses dias em que momo reina soberano sobre as criaturas que se permitem cair na folia.
Nem mesmo as crianças são poupadas ao triste espetáculo, quando esses foliões das sombras surgem para festejar momo.
Quantos crimes acontecem nesses dias...quantos acidentes, quanta loucura...
Enquanto nossos olhos percebem o brilho dos refletores e das lantejoulas nas avenidas iluminadas, a visão dos espíritos contempla o ambiente espiritual envolto em densas e escuras nuvens criadas pelas vibrações de baixo teor.
E as conseqüências desse grotesco espetáculo se fazem sentir por longo prazo. Nos abortos realizados alguns meses depois, fruto de envolvimentos levianos, nas separações de casais que já não se suportam mais depois das sensações vividas sob o calor da festa, no desespero de muitos, depois que cai a máscara...
Por todas essas razões vale a pena pensar se tudo isso é válido. Se vale a pena pagar o alto preço exigido por alguns dias de loucura.
Os noticiários estarão divulgando, durante e após o carnaval, a triste estatística de horrores, e esperamos que você não faça parte dela.

Você sabia?
Você sabia que muitas das fantasias de expressões grotescas são inspiradas pelos espíritos que vivem em regiões inferiores do além?
É mais comum do que se pensa, que os homens visitem esses sítios de desespero e loucura durante o sono do corpo físico, através do que chamamos sonho.
Enquanto o corpo repousa o espírito fica semiliberto e faz suas incursões no mundo espiritual, buscando sempre os seres com os quais se afina pelas vibrações que emite.
Assim, é importante que busquemos sintonizar com as esferas mais altas, onde vivem espíritos benfeitores que têm por objetivo nos ajudar a vencer a difícil jornada no corpo físico.
Equipe de redação do Momento Espírita, baseado nos capítulos 6 e 23 do livro “Nas Fronteiras da Loucura”, ed. Leal.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

DESCOBRINDO O PASSADO


Muitas pessoas afirmam desejar conhecer suas encarnações anteriores.

Uma boa parte delas espera ter animado importantes personalidades históricas.

Reis e santos, poetas e intelectuais, sumidades as mais diversas não faltam no imaginário dos candidatos à recordação.

Entretanto, é preciso lembrar que a lei do progresso vigora em toda a sua plenitude.

Ela impede o retrocesso moral e intelectual.

As condições sociais podem variar significativamente ao longo dos séculos.

É possível passar-se da extrema riqueza a mais abjeta pobreza, de uma encarnação a outra.

Esse movimento pendular presta-se a viabilizar a realização da justiça Divina.

Mediante ele, o poderoso que elaborou leis iníquas para o povo, posteriormente a elas se submete.

Quem lesou o patrimônio público terá oportunidade de se ressentir da falta de educação e segurança públicas eficientes.

O mau patrão poderá experimentar a condição de empregado oprimido.

Essa oscilação nas condições materiais também auxilia o despertar da sensibilidade.

O homem que olha insensível a dor alheia candidata-se a experimentá-la.

Nem toda dor é uma expiação.

O sofrimento é corolário da imperfeição.

Todo vício, toda insensibilidade, toda rudeza atrai a dor como um remédio necessário.

Somente a perfeição moral e intelectual livra a criatura de experiências dolorosas.

A partir de certo nível de desenvolvimento, o espírito desvincula-se das experiências materiais.

Sem necessidade de vivências terrenas, a elas retorna por espírito de amor e serviço.

Cumprindo missões, dá exemplo de genuína elevação moral e intelectual.

Mas o relevante é que a evolução conquistada jamais é perdida.

Nenhuma alma generosa de repente se torna mesquinha.

O homem intelectualmente superior não perde suas habilidades intelectuais.

Por certo, quem utilizou mal a inteligência pode renascer na condição de idiota.

Ou viver em condições difíceis que não lhe possibilitem adquirir cultura.

Contudo, ordinariamente a alma expressa o seu potencial.

Assim, a criatura pode ter certeza de que se encontra no ápice de sua evolução.

Ninguém jamais foi tão bondoso e inteligente como é hoje.

Esse raciocínio auxilia a perder ilusões quanto ao próprio passado espiritual.

Quem atualmente detesta estudar, certamente nunca foi um intelectual.

O homem egoísta ou fútil de hoje pode ter como certo jamais ter sido um santo, na acepção da palavra.

Raras pessoas têm recordações precisas do que viveram nos séculos precedentes.

Entretanto, se a recordação detalhada não é possível, nem por isso é inviável ter uma noção do que se viveu.

Para ter uma idéia do que se fez, basta analisar as tendências atuais.

E pensar que ocorreu uma melhora, ao longo do tempo.

As suas idéias inatas revelam o seu nível evolutivo e o caminho que você trilhou.

Para se conhecer, preste atenção nos impulsos mais naturais de seu coração.

Caso seu agir e seu sentir instintivos tenham algo de egoísta, insensível ou vulgar, convém refletir sobre isso.

Enquanto não burilar o seu íntimo, você permanecerá tendo experiências dolorosas.

Então, é de seu interesse mais direto modificar o próprio comportamento e livrar-se de velhas fissuras morais.

Afinal, mais importante do que saber o que você já viveu, é garantir que o seu futuro seja pleno de felicidade e bem-estar.

Pense nisso.



Redação do Momento Espírita. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A ALEGRIA DE SER ESPÍRITA



“Querem escravos para os sistemas falaciosos que mentalizam, quando Jesus deseja te faças livre para a conquista da própria felicidade.” – Emmanuel1



“Mãe estou aqui!” A psicografia, assinada por uma garota que desencarnara aos 14 anos e voltava para amparar a inconsolável mãezinha, é o retrato da era que começa a se delinear na Terra.

O próprio Allan Kardec fez a evocação e registrou a conversa na edição de lançamento da Revista Espírita,2 em janeiro de 1858.

Ante as provas contundentes da identidade de Júlia, o Codificador indagou aos leitores: “[...] quem ousaria falar do vazio do túmulo, quando a vida futura se nos revela assim tão palpável?”.

O Espiritismo é o sol de nossas vidas. Alegremo-nos em saber que não estamos sós, pois a morte foi desmistificada e todos os dias – na bendita seara espírita – temos provas da justiça e da perfeição absoluta das leis divinas. Cansados do vazio secular que nos invadia a alma em turvação, entre erros crassos, viciações e crimes, ora desperdiçando encarnações, ora malbaratando o tempo na erraticidade, fomos chamados à iluminação de nós mesmos. Eis a fonte de alegria perene dos nossos dias...

Retirados dos escombros morais, resgatados por almas afins ou mentores espirituais, percorremos longos caminhos e estudos para estarmos aqui hoje, irmanados no grande ideal tão bem expressado nas obras básicas da Codificação. O Evangelho hoje, renasce das cinzas a que foi relegado pela nossa própria ignorância, em tempos não tão longínquos...

Incitam-nos Emmanuel e Bezerra de Menezes, entre outros benfeitores, a aplicarmos as lições de Jesus a nós, primeiramente, depois ao lar, por fim ao mundo...

Quanta alegria em saber que até os espinhos colaboram em nossa ascensão, ainda quando provenientes dos que mais amamos!

A mentora do médium Divaldo Pereira Franco, Joanna de Ângelis, na obra Alegria de Viver, 3 nos faz um apelo sublime, mas não pela alegria estúrdia dos que riem sem saber o porquê. A referida obra concita-nos à alegria existencial, inspirada nas bem-aventuranças que o Cristo proclamou. A alegria do dever cumprido, da quitação, de conviver em sociedade, de saber obedecer a Deus.

A bandeira de luz que levamos adiante é rota segura. Ainda nos momentos de dor suprema, termo inspirado em obra homônima do Espírito Victor Hugo,4 a misericórdia do Pai estende-se aos filhos sequiosos do pão da vida. Não há existência sem motivo, não há um homem sequer criado para a inutilidade, nada que nos alcance sem objetivo providencial e útil, quando vemos o mundo pela ótica espírita. As aflições são justas, ensina-nos O Evangelho segundo o Espiritismo, mas não cultuemos a dor e a expiação.

Que falar da justiça? O escritor Vinícius (Pedro de Camargo) escreveu que a lei mosaica era “prelúdio de justiça”,5 limitando a vingança a ato equivalente ao mal sofrido. Ou seja, visava impedir reações desproporcionais. “Nosso orbe [...] não chegou sequer a integrar-se no vetusto e rude dispositivo da legislação hebraica”, diz. Quanta alegria em conhecermos a justiça mais branda, inspirada na lição inesquecível do Mestre de nossas vidas, de fazer ao próximo o que gostaríamos que nos fizessem!

Que estejamos sendo veículos do prelúdio dessa outra justiça, mais espiritualizada, a do Cristo!

Amando e reconstruindo vidas, em vez de apenas cumprir leis e regras para cercear e punir. Cultuando pensamentos, palavras e atos voltados ao bem, ainda que por ora sejamos meros vasos de barro, na acepção evangélica. Façamo-nos a pergunta: servimos a quem, sob a luz retumbante que rasgou os dogmas e o academicismo, iluminando-nos como ao peixinho vermelho, citado por Emmanuel em Libertação?6

Quanta gratidão à Doutrina de nossas vidas, que nos elucidou, após séculos de procuras infrutíferas, o verdadeiro sentido da caridade que salva! A definição surge em O Livro dos Espíritos, questão 886: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”.7 Aprendemos que a caridade não se faz apenas com a moeda que sobra nos bolsos e aplicações financeiras, mas também no sorriso generoso, que se torna verdadeiro cartão de visita do espírita e dos ideais que professa.

Quantas benesses e quanto refrigério em saber que nossa elevação não depende de indulgências e favores, mas apenas de nós mesmos!

Quanta justiça! Não se compra um céu de fantasias nem se herda um inferno injusto, mas se conquista a evolução, dia a dia, com a renovação moral. Que importam, então, as pequenas diferenças?

Aprendamos a servir amando, unidos, como uma família disciplinada ante o “dirigente” maior, Jesus.

Quantas bênçãos temos colhido tão-só com o Evangelho no lar, evitando desastres!...

Tenhamos em mente o desfavor das queixas. Quanto deixamos de sofrer com isso! Há uma justiça subliminar que a tudo permeia, em tudo conspirando a nosso favor... Kardec abriu a trincheira pela qual tantos bandeirantes da nossa Doutrina, abusando do codinome aplicado ao precursor paulista Cairbar Schutel, semearam ou estão semeando um futuro melhor para a humanidade terrena. Hoje, como nos tempos de Jesus, tudo parece desvirtuado, incorrigível. Mas o exército do bem nos sustentará, firmemente.

Os benfeitores estão por todos os lados, amparando-nos. Nunca estivemos sós. Quanta consolação nessa verdade! Quanto a isso, a plêiade do Espírito de Verdade não deixa dúvidas, em O Evangelho segundo o Espiritismo: Os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos Céus, qual imenso exército que se movimenta ao receber as ordens do seu comando, espalham-se por toda a superfície da Terra e, semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar os caminhos e abrir os olhos aos cegos.8

Os que não alcançaram o oásis do Evangelho são os cegos, como já fomos um dia. Irmãos estorcegam aniquilados, outros zombam da realidade espiritual, mas no íntimo amargam o vazio existencial, sinal dos tempos que varrerão o egoísmo e o orgulho do planeta-escola.

Espíritas, herdeiros dos mártires à excelsa Codificação, amparemos o próximo! Felizes pelo despertar gradual, mas compungidos ante a dor alheia, recordemos a menina Júlia e Kardec, há 152 anos, testemunhando:

Jesus! Estou aqui!



Reformador Junho 2010



1XAVIER, Francisco C. Palavras de vida eterna. Pelo Espírito Emmanuel. 34. ed. Uberaba, MG: Comunhão Espírita Cristã, 2007. p. 134.

2KARDEC, Allan. Evocações Particulares – Mãe, estou aqui! In: Revista espírita: jornal de estudos psicológicos, ano 1, p. 42-45, jan. 1858. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

3FRANCO, Divaldo P. Alegria de viver. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL.

4GAMA, Zilda. Dor suprema. Pelo Espírito Victor Hugo. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

5VINÍCIUS (Pedro de Camargo). Na escola do mestre. 7. ed. São Paulo: FEESP. Cap. 3, p. 27-35.

6XAVIER, Francisco C. Libertação. Pelo Espírito André Luiz. 31. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Ante as portas livres.

7KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 91. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

8Idem. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro. 129. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Prefácio.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A FUNÇÃO DA DOR


“Mas se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus nesta parte.”
 – Pedro  (I Pedro, 4: 16)

         Deus ama a todos os Seus filhos igualmente, mas, é justamente por amar, que Ele permite a dor para que a evolução se realize.

         A dor traz despertamento interior, levando o ser, em qualquer estágio evolutivo em que se encontre, a buscar corrigir em si próprio aquilo que precisa ser melhorado.

         Ninguém veio a este mundo para sofrer. Contudo, se passas por momentos dolorosos ou se tens uma existência repleta de dificuldades ou de aflições, naturalmente é por resultado da tua própria imperfeição.

         Deus, na Sua Onipotência e Onisciência, jamais condenaria um filho Seu ao sofrimento, apenas com o intuito de puni-lo. Ninguém em sã consciência, castigaria uma criança por ainda não saber agir como um adulto. Cada um a seu tempo e do modo que puder, conseguirá aos poucos, renovar-se para melhor e vencer as próprias fraquezas, inseguranças e outras imperfeições.

         A dor é o santo remédio que o Pai da Vida, por Sua Misericórdia, a todos nós oferece para que tenhamos “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir”, diante das situações da vida que nos impulsionem a uma renovação de atitudes e, conseqüentemente, a um crescimento interior.

         A evolução do espírito se faz de lutas, de esforço constante, de superação das dificuldades, mas também de aquisição de virtudes, a fim de que se consiga transformar em bem, o que estaria sendo um mal dentro de nós mesmos.

         Não te atormentes pois, filho querido, se a vida hoje para ti se faz tão difícil! Seca as tuas lágrimas, apazigua o teu coração, reveste-te de paciência e coragem e, buscando dentro de ti mesmo uma vontade imensa de crescer, encontrarás a humildade suficiente para tudo saberes aceitar e suportar sem revolta, mas confiante de que tudo são nuvens passageiras em tua vida. Reconhecerás, com certeza, que a dor que hoje possas estar atravessando, são ensinamentos preciosos que te proporcionarão uma vida futura melhor.

         Algo certamente, ainda precisas aprender. Analisa a ti mesmo e perceberás o que em ti precisa ser modificado. E, acima de tudo reconhecerás que a função maior da dor, é a de ensinar-nos a amar.

 Irmã Maria do Rosário – médium: Lucia Cominatto 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A FÉ TRANSPORTA MONTANHAS


 Capítulo XIX

O Evangelho Segundo o Espiritismo

Poder da fé. - A fé religiosa. Condição da fé inabalável. - Parábola da figueira seca. - Instruções dos Espíritos: A fé: mãe da esperança e da caridade. - A fé humana e a divina. Poder da fé



1. - Quando ele veio ao encontro do povo, um homem se lhe aproximou e, lançando-se de joelhos a seus pés, disse: Senhor, tem piedade do meu filho, que é lunático e sofre muito, pois cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água. Apresentei-o aos teus discípulos, mas eles não o puderam curar.

Jesus respondeu. Dizendo: Ó raça incrédula e depravada, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei? Trazei-me aqui esse menino. - E tendo Jesus ameaçado o demônio, este saiu do menino, que no mesmo instante ficou são. Os discípulos vieram então ter com Jesus em particular e lhe perguntaram: Por que não pudemos nós outros expulsar esse demônio? - Respondeu-lhes Jesus: Por causa da vossa incredulidade. Pois em verdade vos digo, se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha: Transporta-te daí para ali e ela se transportaria, e nada vos seria impossível. (S. MATEUS, cap. XVII, vs. 14 a 20.)

2.  - No sentido próprio, é certo que a confiança nas suas próprias forças toma o homem capaz de executar coisas materiais, que não consegue fazer quem duvida de si. Aqui, porém unicamente no sentido moral se deve entender essas palavras. As montanhas que a fé desloca são as dificuldades, as resistências, a má-vontade, em suma, com que se deparam da parte dos homens, ainda quando se trate das melhores coisas. Os preconceitos da rotina, o interesse material, o egoísmo, a cegueira do fanatismo e as paixões orgulhosas são outras tantas montanhas que barram o caminho a quem trabalha pelo progresso da Humanidade. A fé robusta dá a perseverança, a energia e os recursos que fazem se vençam os obstáculos, assim nas pequenas coisas, que nas grandes. Da fé vacilante resultam a incerteza e a hesitação de que se aproveitam os adversários que se tem de combater; essa fé não procura os meios de vencer, porque não acredita que possa vencer.

3. Noutra acepção, entende-se como fé a confiança que se tem na realização de uma coisa, a certeza de atingir determinado fim. Ela dá uma espécie de lucidez que permite se veja, em pensamento, a meta que se quer alcançar e os meios de chegar lá, de sorte que aquele que a possui caminha, por assim dizer, com absoluta segurança. Num como noutro caso, pode ela dar lugar a que se executem grandes coisas. A fé sincera e verdadeira é sempre calma; faculta a paciência que sabe esperar, porque, tendo seu ponto de apoio na inteligência e na compreensão das coisas, tem a certeza de chegar ao objetivo visado. A fé vacilante sente a sua própria fraqueza; quando a estimula o interesse, toma-se furibunda e julga suprir, com a violência, a força que lhe falece. A calma na luta é sempre um sinal de força e de confiança; a violência, ao contrário, denota fraqueza e dúvida de si mesmo.

4. Cumpre não confundir a fé com a presunção. A verdadeira fé se conjuga à humildade; aquele que a possui deposita mais confiança em Deus do que em si próprio, por saber que, simples instrumento da vontade divina, nada pode sem Deus. Por essa razão é que os bons Espíritos lhe vêm em auxílio. A presunção é menos fé do que orgulho, e o orgulho é sempre castigado, cedo ou tarde, pela decepção e pelos malogros que lhe são infligidos.

5. O poder da fé se demonstra de modo direto e especial, na ação magnética; por seu intermédio, o homem atua sobre o fluido, agente universal, modifica-lhe as qualidades e lhe dá uma impulsão por assim dizer irresistível. Daí decorre que aquele que a um grande poder fluídico normal junto ardente fé, pode, só pela força da sua vontade dirigida para o bem, operar esses singulares fenômenos de cura e outros, tidos antigamente por prodígios, mas que não passam de efeito de uma lei natural. Tal o motivo por que Jesus disse a seus apóstolos: se não o curastes, foi porque não tínheis fé.

A fé religiosa. Condição da fé inabalável:

6. Do ponto de vista religioso, a fé consiste na crença em dogmas especiais, que constituem as diferentes religiões. Todas elas têm seus artigos de fé. Sob esse aspecto, pode a fé ser raciocinada ou cega. Nada examinando, a fé cega aceita, sem verificação, assim o verdadeiro como o falso, e a cada passo se choca com a evidência e a razão. Levada ao excesso, produz o fanatismo. Em assentando no erro, cedo ou tarde desmorona; somente a fé que se baseia na verdade garante o futuro, porque nada tem a temer do progresso das luzes, dado que o que é verdadeiro na obscuridade, também o é à luz meridiana. Cada religião pretende ter a posse exclusiva da verdade; preconizar alguém a fé cega sobre um ponto de crença é confessar-se impotente para demonstrar que está com a razão.

7. Diz-se vulgarmente que a fé não se prescreve, donde resulta alegar muita gente que não lhe cabe a culpa de não ter fé. Sem dúvida, a fé não se prescreve, nem, o que ainda é mais certo, se impõe. Não; ela se adquire e ninguém há que esteja impedido de possuí-la, mesmo entre os mais refratários. Falamos das verdades espirituais básicas e não de tal ou qual crença particular. Não é à fé que compete procurá-los; a eles é que cumpre ir-lhe, ao encontro e, se a buscarem sinceramente, não deixarão de achá-la. Tende, pois, como certo que os que dizem: "Nada de melhor desejamos do que crer, mas não o podemos", apenas de lábios o dizem e não do íntimo, porquanto, ao dizerem isso, tapam os ouvidos. As provas, no entanto, chovem-lhes ao derredor; por que fogem de observá-las? Da parte de uns, há descaso; da de outros, o temor de serem forçados a mudar de hábitos; da parte da maioria, há o orgulho, negando-se a reconhecer a existência de uma força superior, porque teria de curvar-se diante dela. Em certas pessoas, a fé parece de algum modo inata; uma centelha basta para desenvolvê-la. Essa facilidade de assimilar as verdades espirituais é sinal evidente de anterior progresso. Em outras pessoas, ao contrário, elas dificilmente penetram, sinal não menos evidente de naturezas retardatárias. As primeiras já creram e compreenderam; trazem, ao renascerem, a intuição do que souberam: estão com a educação feita; as segundas tudo têm de aprender: estão com a educação por fazer. Ela, entretanto, se fará e, se não ficar concluída nesta existência, ficará em outra. A resistência do incrédulo, devemos convir, muitas vezes provém menos dele do que da maneira por que lhe apresentam as coisas. A fé necessita de uma base, base que é a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer. E, para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega já não é deste século (1), tanto assim que precisamente o dogma da fé cega é que produz hoje o maior número dos incrédulos, porque ela pretende impor-se, exigindo a abdicação de uma das mais preciosas prerrogativas do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio. É principalmente contra essa fé que se levanta o incrédulo, e dela é que se pode, com verdade, dizer que não se prescreve. Não admitindo provas, ela deixa no espírito alguma coisa de vago, que dá nascimento à dúvida. A fé raciocinada, por se apoiar nos fatos e na lógica, nenhuma obscuridade deixa. A criatura então crê, porque tem certeza, e ninguém tem certeza senão porque compreendeu. Eis por que não se dobra. Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade. A esse resultado conduz o Espiritismo, pelo que triunfa da incredulidade, sempre que não encontra oposição sistemática e interessada.



Parábola da figueira seca:



8. Quando saiam de Betânia, ele teve fome; e, vendo ao longe uma figueira, para ela encaminhou-se, a ver se acharia alguma coisa; tendo-se, porém, aproximado, só achou folhas, visto não ser tempo de figos. Então, disse Jesus à figueira: Que ninguém coma de ti fruto algum, o que seus discípulos ouviram. - No dia seguinte, ao passarem pela figueira, viram que secara até á raiz. - Pedro, lembrando-se do que dissera Jesus, disse: Mestre, olha como secou a figueira que tu amaldiçoaste. - Jesus, tomando a palavra, lhes disse: Tende fé em Deus. - Digo-vos, em verdade, que aquele que disser a esta montanha: Tira-te daí e lança-te ao mar, mas sem hesitar no seu coração, crente, ao contrário, firmemente, de que tudo o que houver dito acontecerá, verá que, com efeito, acontece. (S. MARCOS, cap. Xl, vs. 12 a 14 e 20 a 23.)

9. A figueira que secou é o símbolo dos que apenas aparentam propensão para o bem, mas que, em realidade, nada de bom produzem; dos oradores que mais brilho têm do que solidez, cujas palavras trazem superficial verniz, de sorte que agradam aos ouvidos, sem que, entretanto, revelem, quando perscrutadas, algo de substancial para os corações. E de perguntar-se que proveito tiraram delas os que as escutaram. Simboliza também todos aqueles que, tendo meios de ser úteis, não o são; todas as utopias, todos os sistemas ocos, todas as doutrinas carentes de base sólida. O que as mais das vezes falta é a verdadeira fé, a fé produtiva, a fé que abala as fibras do coração, a fé, numa palavra. que transporta montanhas. São árvores cobertas de folhas porém, baldas de frutos. Por isso é que Jesus as condena à esterilidade, porquanto dia virá em que se acharão secas até à raiz. Quer dizer que todos os sistemas, todas as doutrinas que nenhum bem para a Humanidade houverem produzido, cairão reduzidas a nada; que todos os homens deliberadamente inúteis, por não terem posto em ação os recursos que traziam consigo, serão tratados como a figueira que secou.

10. Os médiuns são os intérpretes dos Espíritos; suprem, nestes últimos, a falta de órgãos materiais pelos quais transmitam suas instruções. Daí vem o serem dotados de faculdades para esse efeito. Nos tempos atuais, de renovação social, cabe-lhes uma missão especialíssima; são árvores destinadas a fornecer alimento espiritual a seus irmãos; multiplicam-se em número, para que abunde o alimento; há-os por toda a parte, em todos os países em todas as classes da sociedade, entre os ricos e os pobres, entre os grandes e os pequenos, a fim de que em nenhum ponto faltem e a fim de ficar demonstrado aos homens que todos são chamados. Se porém, eles desviam do objetivo providencial a preciosa faculdade que lhes foi concedida, se a empregam em coisas fúteis ou prejudiciais, se a põem a serviço dos interesses mundanos, se em vez de frutos sazonados dão maus frutos se se recusam a utilizá-la em beneficio dos outros, se nenhum proveito tiram dela para si mesmos, melhorando-se, são quais a figueira estéril. Deus lhes retirará um dom que se tornou inútil neles: a semente que não sabem fazer que frutifique, e consentirá que se tornem presas dos Espíritos maus.





INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS - 



A fé: mãe da esperança e da caridade:

11. Para ser proveitosa, a fé tem de ser ativa; não deve entorpecer-se. Mãe de todas as virtudes que conduzem a Deus, cumpre-lhe velar atentamente pelo desenvolvimento dos filhos que gerou. A esperança e a caridade são corolários da fé e formam com esta uma trindade inseparável. Não é a fé que faculta a esperança na realização das promessas do Senhor? Se não tiverdes fé, que esperareis? Não é a fé que dá o amor? Se não tendes fé, qual será o vosso reconhecimento e, portanto, o vosso amor? Inspiração divina, a fé desperta todos os instintos nobres que encaminham o homem para o bem. É a base da regeneração. Preciso é, pois, que essa base seja forte e durável, porquanto, se a mais ligeira dúvida a abalar que será do edifício que sobre ela construirdes? Levantai, conseguintemente, esse edifício sobre alicerces inamovíveis. Seja mais forte a vossa fé do que os sofismas e as zombarias dos incrédulos, visto que a fé que não afronta o ridículo dos homens não é fé verdadeira. A fé sincera é empolgante e contagiosa; comunica-se aos que não na tinham, ou, mesmo, não desejariam tê-la. Encontra palavras persuasivas que vão à alma. ao passo que a fé aparente usa de palavras sonoras que deixam frio e indiferente quem as escuta. Pregai pelo exemplo da vossa fé, para a incutirdes nos homens. Pregai pelo exemplo das vossas obras para lhes demonstrardes o merecimento da fé. Pregai pela vossa esperança firme, para lhes dardes a ver a confiança que fortifica e põe a criatura em condições de enfrentar todas as vicissitudes da vida.

Tende, pois, a fé, com o que ela contém de belo e de bom, com a sua pureza, com a sua racionalidade. Não admitais a fé sem comprovação, cega filha da cegueira. Amai a Deus, mas sabendo porque o amais; crede nas suas promessas, mas sabendo porque acreditais nelas; segui os nossos conselhos, mas compenetrados do um que vos apontamos e dos meios que vos trazemos para o atingirdes. Crede e esperai sem desfalecimento: os milagres são obras da fé. - José, Espírito protetor. (Bordéus, 1862.)



A fé humana e a divina:

12. No homem, a fé é o sentimento inato de seus destinos futuros; é a consciência que ele tem das faculdades imensas depositadas em gérmen no seu íntimo, a princípio em estado latente, e que lhe cumpre fazer que desabrochem e cresçam pela ação da sua vontade. Até ao presente, a fé não foi compreendida senão pelo lado religioso, porque o Cristo a exalçou como poderosa alavanca e porque o têm considerado apenas como chefe de uma religião. Entretanto, o Cristo, que operou milagres materiais, mostrou, por esses milagres mesmos, o que pode o homem, quando tem fé, isto é, a vontade de querer e a certeza de que essa vontade pode obter satisfação. Também os apóstolos não operaram milagres, seguindo-lhe o exemplo? Ora, que eram esses milagres, senão efeitos naturais, cujas causas os homens de então desconheciam, mas que, hoje, em grande parte se explicam e que pelo estudo do Espiritismo e do Magnetismo se tornarão completamente compreensíveis? A fé é humana ou divina, conforme o homem aplica suas faculdades à satisfação das necessidades terrenas, ou das suas aspirações celestiais e futuras. O homem de gênio, que se lança à realização de algum grande empreendimento, triunfa, se tem fé, porque sente em si que pode e há de chegar ao fim colimado, certeza que lhe faculta imensa força. O homem de bem que, crente em seu futuro celeste, deseja encher de belas e nobres ações a sua existência, haure na sua fé, na certeza da felicidade que o espera, a força necessária, e ainda aí se operam milagres de caridade, de devotamento e de abnegação. Enfim, com a fé, não há maus pendures que se não chegue a vencer. O Magnetismo é uma das maiores provas do poder da fé posta em ação. É pela fé que ele cura e produz esses fenômenos singulares, qualificados outrora de milagres. Repito: a fé é humana e divina. Se todos os encarnados se achassem bem persuadidos da força que em si trazem, e se quisessem pôr a vontade a serviço dessa força, seriam capazes de realizar o a que, até hoje, eles chamaram prodígios e que, no entanto, não passa de um desenvolvimento das faculdades humanas. - Um Espírito Protetor. Paris, l863. (A FÉ TRANSPORTA MONTANHAS, Capítulo XIX - O Evangelho Segundo o Espiritismo.)



(1) Kardec escreveu essa palavras no século XIX. Hoje, o espírito humano tornou-se ainda mais exigente: a fé cega está abandonada; reina descrença nas Igrejas que a impunham. As massas humanas vivem sem ideal, sem esperança em outra vida e tentam transformar o mundo pela violência. As lutas econômicas engendraram as mais exóticas doutrinas de ação e reação. Duas guerras mundiais assolaram o planeta, numa ânsia furiosa de predomínio econômico. Toda a esperança da Humanidade hoje se apóia no Espiritismo, na restauração do Cristianismo, baseada em fatos que demonstram os princípios básicos da Doutrina cristã: eternidade da vida, responsabilidade ilimitada de pensamentos, palavras e atos. Sem a Terceira Revelação o mundo estaria irremediavelmente perdido pelo choque das mais desencontradas ideologias materialistas e violentistas. - A Editora da FEB, em 1948