quinta-feira, 29 de março de 2012

JEHANNE D’ARC

Cavalgava a frente do rei, armada dum arnês completo, com o estandarte desfraldado. Quando desarmada, trazia vestuário de cavaleiro, sapa­tos atados acima dos pés, gibão e calções justos, um capuz na cabeça; usava trajes muito nobres, de brocado de ouro e de seda, bastante grossos.

   Ela era bela e bem feita, robusta e infati­gável, tendo ao mesmo tempo um ar risonho e as lágrimas fáceis. Tem bom porte quando em armas e o busto belo. Suas sobrancelhas fina­mente desenhadas, sombreando belos olhos pardos, davam-lhe unia expressão de doçura infinita ao olhar inspirado. Os cabelos eram pretos e cortados curtos “em escudela”, de maneira a formarem na cabeça uma espécie de calota, se­melhante a um tecido de seda escura. O sem­blante da heroína, de traços regulares, tinha o cunho da doçura e da modéstia. Modelavam-lhe o corpo linhas cheias e harmoniosas. Desde os primeiros dias, surpreendem e encantam seus gestos desembaraçados de menina, sua graciosa flexibilidade em todas as circunstâncias e particularmente em trajes guerreiros a cavalo, empunhando a lança ou a bandeira. Enfim, o cân­dido fulgor de sua virgindade e a chama da inspiração lhe espargiam por sobre o conjunto “uma virtude secreta, que afastava os desejos carnais”, impondo respeito e atenção aos mais sensuais. Cobrem-na brilhantes atavios de guer­ra. As vestes e a bandeira são de alvos e preciosos tecidos como convinham, para lembrarem sua castidade e a missão angélica a que esta se achava ligada. Um suave reflexo lhe irradiava do semblante iluminado por um pensamento ín­timo. A alma, até certo ponto, esculpe os traços de seu invólucro. Por aí podemos fazer idéia da beleza daquele ser excepcional, do luzeiro nele oculto e que, fulgurando-lhe na fisionomia, em todos os seus atos rebrilha. Dela emanava uma serenidade, um eflúvio que envolvia todos os que se lhe aproximavam, acalmando os mais insubmissos. No torvelinho das batalhas e dos acampamentos, conserva sempre a calma, que é o apanágio das almas superiores. Aparece como uma flor das campinas da França, esbelta e ro­busta, fresca e perfumada.

Em seu caráter se casam e se fundem as qualidades aparentemente mais contraditórias: a força e a brandura, a energia e a meiguice, a providência e a sagacidade, o espírito arguto, engenhoso, penetrante, que em poucas palavras, nítidas e precisas, deslinda as mais difíceis ques­tões, aclara as situações mais ambíguas.

Uma influência do Além lhe aureola a fronte bela e grave e à emoção que incute se  agrega ­um sentimento de respeito. Sempre ponderada e circunspecta, alia a humildade da camponesa à nobreza da rainha, uma pureza absoluta a uma extrema audácia. A glória que a cinge pa­rece-lhe tão natural que nunca lhe ocorre envai­decer-se dela.

Sob uma certa ingenuidade gaulesa que a enfaixa, nela se expande um senso profundo dos seres e das coisas, o qual, nos momentos decisivos, lhe sugere as inflexões capazes de atear o ardor nas almas e de, nos corações, rea­vivar os sentimentos fortes e generosos.

Era muito circunspecta e pouco loquaz, mas, quando falava, sua voz tinha vibrações que pe­netravam no íntimo dos ouvintes, nos quais sen­sibilizava fibras que lhes eram desconhecidas e que nenhum poder lograva ainda espertar a tal ponto.

Simples e despretensiosa, preferia esqui­var-se às “adorações” da multidão. Tinha paixão pelas belas armaduras e revelava um esmero muito puro e distinto nas mais insignificantes minudências do trato de sua pessoa e de seu vestuário. Os cortesãos lhe admiravam esses cuidados e as próprias damas muito natural­mente a houveram tomado por uma de sua hierarquia, tais a graça e a distinção que se lhe notavam.

Valente ao ponto de, nos combates, desafiar alegremente a morte, sem jamais dá-la a quem quer que fosse adoravelmente mulher, não dis­simulava o contentamento por possuir brilhantes armas e belos cavalos negros, sobretudo por serem estes tais e tão maliciosos que ninguém se atreveria a montá-los.            

Seu misticismo, de ordem elevada, asso­ciando o sentimento do belo ao do bem, nada tinha de comum com essa espécie de ascetismo que faz da negligência com o corpo e do exte­rior sórdido uma virtude e que parece ter por ideal o feio.

Tinha a pureza duma virgem e a intrepidez de um capitão; o recolhimento com que ora no templo e a viveza jovial nos acampamentos; a simplicidade de uma campônia e os gostos deli­cados de uma dama de alta estirpe; a graça, a bondade, de par com a audácia, a força, o gênio. Era uma missionária, uma enviada, um médium de Deus e, como em todos os missionários do Céu, para salvação dos povos, três grandes coisas nela preponderam: a inspiração, a ação e, por fim, a paixão, o sofrimento, que é o fecho, a apoteose de toda existência digna.

O que na sua personalidade, porém, predo­mina, é o espírito de sacrifício, é a bondade, o perdão, a caridade.·.



Léon Denis

(Do livro “Joana D’Arc” (Médium), de Léon Denis, págs. 245, 244, 245, 247, 248, 249, 252, 255, 255, 256 e 258 da 6ª edição da FEB. Trata-se apenas de elementos retirados do próprio processo de Joana D’Arc, configuran­do, pois, descritivas e pareceres absolutamente históricos.).

         Revista: Reformador, número 1, Janeiro 1972. 

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