segunda-feira, 30 de abril de 2012

DEUS NÃO PERDOA


A frase “Deus não perdoa” parece estranha, à primeira vista. Mas, como veremos de fato Deus não perdoa, pois só perdoa quem é ofendido. E ninguém consegue ofender a Deus, pois Ele é um ser infinito, e que, por isso mesmo, jamais poderia ser atingido ou molestado por nós, seres finitos, limitados. Se pudéssemos ser capazes de prejudicarmos Deus, não seria Ele Deus.

Com efeito, só um outro ser infinito - outro Deus - poderia ofender a Deus. E, ao admitirmos essa hipótese, estaríamos enveredando-nos pelo caminho do Politeísmo, ou seja, o da doutrina que aceita mais de um Deus.

Destarte, podemos afirmar que o chamado pecado, de que falam as religiões, está para as Leis de Deus, assim como o crime está para as Leis dos Homens. Note-se que nem Deus nem a autoridade civil sofrem, pois, quando cometemos um pecado, estamos praticando uma ação que infringe as Leis de Deus, do mesmo modo que infringimos as leis humanas, quando praticamos um crime. Entretanto, em ambos os casos - pecados e crimes - sempre quem sofre as conseqüências deles, direta ou indiretamente, são as suas vítimas, que são, também, inclusive, os próprios autores desses atos, pois um infrator das Leis - quer sejam elas divinas ou humanas - está sujeito a problemas e a penas.

Realmente, o responsável por um pecado ou crime sempre sofrerá, também, as conseqüências dos seus atos, podendo ser ele, inclusive, o único prejudicado diretamente, como no caso de suicídio ou tentativa de suicídio.

E continuemos as nossas elucubrações sobre esta matéria: Deus não perdoa.

Alguém poderia objetar dizendo que a Bíblia afirma o contrário disso. E é verdade. Porém, não podemos interpretar tudo que ela diz, literalmente. São Paulo até nos advertiu dizendo que a letra mata. E a Bíblia teria mesmo que falar que Deus perdoa, para que O tivéssemos como sendo o nosso modelo de bondade e de amor, além do que as pessoas daqueles longínquos tempos somente poderiam entender esse tipo de linguagem.

Na verdade, entretanto, Deus é inofendível. E o que tem esse estado de inofendibilidade, nada tem que perdoar, pois só perdoa quem é ofendido.

E é para esse estado que estamos caminhando, à proporção que, espiritualmente, vamos evoluindo.

No final da vida de Gandhi, essa grande alma de escol indiana, perguntaram-lhe se ele perdoou todos os seus inimigos. E ele respondeu que não perdoou ninguém, pois que ninguém o havia ofendido.

E eis algumas das muitas máximas conhecidas do Homem de Nazaré, que nos deixam clara essa questão de quem já está na fase de inofendibilidade: “Se alguém tomar-lhe a capa dê-lhe, também, a túnica.” “Se alguém lhe bater numa das faces, apresente-lhe a outra”. “Se alguém obrigá-lo a andar uma milha, ande duas”. E esta última: “Não resistais ao maligno”.

Ora, se nós, com nossa perfeição relativa, podemos atingir esse estado de inofendíveis, e, conseqüentemente, de não termos que perdoar, com mais razão, com sua perfeição absoluta, Deus não perdoa!



José Reis Chaves é autor do livro, entre outros, “A Face Oculta das Religiões”, Editora Martin Claret.

domingo, 29 de abril de 2012

MEDO



Depois disto, que nos resta a dizer? Se deus está conosco, quem estará contra nós? - (Romanos,  8:31.)



O medo pode ser definido como um estado psíquico de inquietação constante, agitação ou impaciência diante de um perigo real ou imaginário.

O medo racional é saudável e necessário em nossa vida. Ele nos protege de nossa impulsividade e de nossos atos irrefletidos.

No entanto, quando o medo é patológico, torna-se destrutivo e tem como resultado a imobilidade de nossas forças mais íntimas.

Eis alguns sintomas emocionais de temores que nos complicam a existência:

Agitação mental – incapacidade de relaxar e silenciar internamente, sendo preciso reler a mesma página diversas vezes.

Pessimismo e insegurança – hesitação pertinaz em face não só das grandes como também das pequenas decisões existenciais.

Dissociação mental – esquecimento constante das coisas mais naturais e simples do cotidiano.

Agressividade exagerada – irritação contínua com tendência a atacar gratuitamente os outros com ofensas e insultos.

Vulnerabilidade – sensação freqüente de melancolia, como choro fácil e atmosfera de perseguição contumaz.

Comportamento compulsivo – uso de atos ritualísticos propensos ao perfeccionismo; início de várias atividades ao mesmo tempo sem termino de nenhuma.

Aura de fracasso – desculpa por qualquer coisa e sentimento de humilhação constante na frente dos outros.

Falta de motivação – crises de perda de interesse pela vida, sensação de desânimo.

Mente exaurida – isolação da vida social. A criatura só executa o que é estritamente necessário para a sua manutenção diária.

Não podemos afirmar que todos esses sintomas estão relacionados apenas como medo, mas, quando algum deles ocorrer, é necessário estarmos alerta, pois o medo pode está servindo de base às nossas emoções e atitudes perante a vida.

No espiritismo, encontramos as ferramentas essenciais e as técnicas sensatas para utilizar o medo na proporção certa e apropriada diante de cada fato ou acontecimento que tivermos de enfrentar.

O temor pode ser um ácido que venha consumir desnecessariamente nossas energias vitais. Entretanto não podemos esquecer que “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?”.

 Pelo Espírito Hammed

sábado, 28 de abril de 2012

JOANA D’ARC E A GUERRA DOS CEM ANOS - França - Orleans



 Joana D’Arc nasceu em Domrémy, na região de Lorena na França. Posteriormente a cidade foi renomeada como Domrémy-la-Pucelle em sua homenagem (pucelle; donzela em português).

A data do seu nascimento é imprecisa, de acordo com o seu interrogatório em 24 de Fevereiro de 1431, Joana teria dito que na época tinha 19 anos portanto teria provavelmente nascido em 1412. Não se sabe a idade correcta de Joana pois naquela época não importava a idade exacta, por isso o termo certo a usar seria "mais ou menos". Joana declarou uma vez, quando interrogada sobre a sua idade, ("tenho 19 anos, mais ou menos").

Movida por uma fé inquebrável, Joana d'Arc contribuiu de forma decisiva para mudar o rumo da guerra dos cem anos, entre a França e a Inglaterra. Filha de Jacques d'Arc e Isabelle Romée tinha mais quatro irmãos: sendo ela a mais nova de todos. O seu pai era agricultor e a sua mãe ensinou-lhe todos os afazeres de uma menina da época, como fiar e costurar. Joana também era muito religiosa ia muito a igreja e frequentemente fugia do campo para ir orar na igreja da sua cidade. No seu julgamento, Joana afirmou que desde os treze anos ouvia vozes divinas. Segundo ela, a primeira vez que as escutou, vinham da direcção da igreja acompanhadas de uma claridade e sensações de medo. Dizia que às vezes não as entendia muito bem e que as ouvia duas ou três vezes por semana. Entre as mensagens que ela recebeu estavam conselhos para frequentar a igreja, e que deveria travar o domínio que havia na cidade de Orleães. Posteriormente ela identificaria as vozes como sendo do Arcanjo São Miguel, Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida. Desde que o Duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador, se apoderou da Inglaterra em 1066, os monarcas ingleses passaram a controlar extensas terras no território francês. Com o tempo, passaram a ter vários ducados franceses: Aquitânia, Gasconha, Poitou e a Normandia, entre outros. Os duques, apesar de vassalos do rei de França, acabaram por tomar este pais. Quando a França tentou recuperar os territórios perdidos para a Inglaterra, deu origem a um dos mais longos e sangrentos conflitos da história da humanidade: a Guerra dos Cem Anos, que durou na realidade 116 anos, e que provocou milhões de mortes e a destruição de quase toda a França setentrional. O início da guerra aconteceu em 1337. Os interesses mais que evidentes de unificar as coroas concretizaram-se com a morte do rei francês Carlos IV em 1328. Filipe VI, sucessor graças à lei sálmica (Carlos IV não tinha descendentes masculinos), foi proclamado rei da França em 27 de Maio de 1328. Felipe VI reclamou em 1337 o feudo da Gasconha ao rei inglês Eduardo III, e no dia 1 de Novembro este respondeu plantando-se às portas de Paris mediante o bispo de Lincoln, declarando que ele era o candidato adequado para ocupar o trono francês. A Inglaterra ganharia batalhas como a Crécy (1346) e a de Poitiers (1356). Mas uma grave enfermidade do rei francês originou uma luta pelo poder entre o seu primo João I de Borgonha ou João sem Medo, e o irmão de Carlos VI, Luís de Orleães. No dia 23 de Novembro de 1407, nas ruas de Paris e por ordem do borgonhês comete-se o assassinato de Luís de Orleães. A família real francesa estava dividida entre os que davam suporte ao duque da Borgonha e os que o davam a Carlos VII, herdeiro de França ligados à causa de Orleães. Com o assassinato de Luís de Orleães ambos os lados enfrentaram-se numa guerra civil, onde buscaram o apoio dos ingleses.

 Com a morte de Carlos VI, em 1422, Henrique VI da Inglaterra foi coroado rei francês, mas os de Orleães não desistiram e mantiveram-se fiéis ao filho do rei, Carlos VII, coroando-o também em 1422. Aos 16 anos, Joana foi a Vaucouleurs, cidade vizinha de Domrèmy. Recorreu a Robert de Baudricourt, capitão da guarnição armagnac estabelecida em Vaucouleurs para lhe ceder uma escolta até Chinon, onde estava o herdeiro da coroa francesa, já que teria que atravessar todo o território hostil defendido pelos aliados ingleses e borgonheses. Quase um ano depois, Baudricourt aceitou enviá-la escoltada até ao herdeiro. A escolta iniciou-se aproximadamente em 13 de Fevereiro de 1429. Entre os seis homens que a acompanharam estavam Poulengy e Jean Nouillompont (conhecido como Jean de Metz). Jean esteve presente em todas as batalhas posteriores de Joana d'Arc. Vestindo roupas masculinas até á sua morte, Joana atravessou as terras dominadas por Borgonheses, chegando a Chinon, onde finalmente iria encontrar-se com Carlos, após uma apresentação de uma carta enviada por Baudricourt. Chegada a Chinon, Joana já dispunha de uma grande popularidade, porém Carlos tinha ainda desconfianças sobre a moça. Decidiram passá-la por algumas provas. Segundo a lenda, com medo de apresentar Carlos diante de uma desconhecida que talvez pudesse matá-lo, eles decidiram oculta-lo numa sala cheia de nobres antes de a receber, Joana então teria reconhecido o rei disfarçado entre os nobres sem que jamais o tivesse visto antes. Joana teria ido até ao verdadeiro rei, curvando-se e dito: "Senhor, vim conduzir os seus exércitos à vitória". Sozinha na presença do rei, ela convenceu-o a entregar-lhe um exército com o intuito de libertar Orleães. Porém, o rei ainda a fazia passar por provas diante dos teólogos reais. As autoridades eclesiásticas em Poitiers submeteram-na a um interrogatório, averiguaram a sua virgindade e suas intenções. Convencido do discurso de Joana, o rei entrega-lhe às mãos uma espada, um estandarte e o comando das tropas francesas, para seguir rumo à libertação da cidade de Orleães, que havia sido invadida e tomada pelos ingleses há oito meses. Munida de uma bandeira branca, Joana chega a Orleães em 29 de Abril de 1429. Comandando um exército de 4000 homens ela consegue a vitória sobre os invasores no dia 9 de Maio de 1429. O episódio é conhecido como a Libertação de Orleães (e na França como a Siège d'Orléans). Os franceses já haviam tentado defender Orleães mas não obtiveram sucesso. Existem histórias paralelas a esta que informam que a figura de Joana era diferente. Ela teria chegado para a batalha num cavalo branco, com armadura de aço, e segurando um estandarte com a cruz de Cristo, circunscrita com o nome de Jesus e Maria. Segundo esta outra versão, Joana teria sido apenas arrastada pelo fascínio sobrenatural dos seus sonhos e disposta a cumprir a missão segundo a vontade divina e sem saber nada sobre a arte da guerra comandou os soldados rudes, com ar angelical, e na sua presença ninguém se atrevia a dizer ou contrariar fosse o que fosse. Pois ela apresentava-se extremamente disciplinada. Após a libertação de Orleães, os ingleses pensaram que os franceses iriam tentar reconquistar Paris ou a Normandia, e ao invés disto, Joana convenceu Carlos a iniciar uma campanha sobre o rio Loire. Isso já era uma estratégia de Joana para conduzir Carlos a Ruão. Joana dirigiu-se a vários pontos fortificados sobre pontes do rio Loire. Em 11 e 12 de Junho de 1429 venceu a batalha de Jargeau. No dia 15 de Junho foi a vez da batalha de Meung-sur-Loire. A terceira vitória foi na batalha de Beaugency, nos dias 16 e 17 de Junho do mesmo ano. Um dia após a sua última vitória dirigiu-se a Patay, onde a sua participação foi pouca. A batalha de Patay, a única batalha em campo aberto, já se desenrolava sem a presença de Joana d'Arc. Na primavera de 1430, Joana D'Arc retomou a campanha militar e passou a tentar libertar a cidade de Compiègne, onde acabou sendo dominada e capturada pelos borgonheses, aliados dos ingleses, em 1430. Foi presa em 23 de Maio do mesmo ano. Entre os dias 23 e 27 foi conduzida à Beaulieu-lès-Fontaines. Joana foi entrevistada entre os dias 27 e 28 pelo próprio Duque de Borgonha, Felipe, o Belo. Naquele momento Joana era propriedade do Duque de Luxemburgo. Joana foi levada ao Castelo de Beaurevoir, onde permaneceu todo o verão, enquanto o duque de Luxemburgo negociava a sua venda. Ao vendê-la aos ingleses, Joana foi presa numa cela escura e vigiada por cinco homens. Em contraste com o bom tratamento que recebera na sua primeira prisão, Joana agora vivia os seus piores tempos. O processo contra Joana teve início no dia 9 de Janeiro de 1431, sendo chefiado pelo bispo de Beauvais, Pierre Cauchon. Foi um processo que passaria à posteridade e que converteria Joana em heroína nacional, pelo modo como se desenvolveu e trouxe o final da jovem, e da lenda que ainda nos dias de hoje associa a realidade com a fantasia.

Dez sessões foram feitas sem a presença da acusada, apenas com a apresentação de provas, que resultaram na acusação de heresia e assassinato. No dia 21 de Fevereiro Joana foi ouvida pela primeira vez. A princípio ela negou-se a fazer o juramento da verdade, mas sobre forte pressão logo cedeu. Joana foi interrogada sobre as vozes que ouvia, sobre a igreja militante, e sobre seus trajes masculinos. No dia 27 e 28 de Março, Thomas de Courcelles fez a leitura dos 70 artigos da acusação de Joana, e que depois foram resumidos a 12. Precisamente no dia 5 de Abril, estes artigos sustentavam a acusação formal para a Donzela procurando a sua condenação. No mesmo dia 5, Joana começou a perder saúde por causa de ingestão de alimentos venenosos que a fez vomitar. Isto alertou Cauchon e os ingleses, que lhe trouxeram um médico. Queriam mantê-la viva, principalmente os ingleses, porque planeavam executá-la. Durante a visita do médico, Jean d’Estivet acusou Joana de ter ingerido os alimentos envenenados conscientemente para cometer suicídio. No dia 18 de Abril, quando finalmente ela se viu em perigo de morte, pediu para se confessar. Os ingleses impacientaram-se com a demora do julgamento. O Conde de Warwick disse a Cauchon que o processo estava demasiado demorado. Até o primeiro proprietário de Joana, Jean de Luxemburgo, se apresentou a Joana fazendo-lhe a proposta de pagar pela sua liberdade se ela prometesse não atacar mais os ingleses. A partir do dia 23 de Maio, as coisas aceleraram, e no dia 29 de Maio ela foi condenada por heresia. Joana D’Arc foi queimada viva em 30 de Maio de 1431, com apenas dezanove anos. A cerimónia da execução aconteceu na Praça do Velho Mercado às 9 horas, em Ruão. Antes da execução ela confessou-se com Jean Totmouille e Martin Ladvenu, que lhe administraram os sacramentos da Comunhão. Entrou, vestida de branco, na praça cheia de gente, e foi colocada na plataforma montada para a sua execução. Após lerem o seu veredicto, Joana foi queimada viva. As suas cinzas foram atiradas ao rio Sena, para que não se tornassem objecto de veneração pública.

 Era o fim da heroína francesa. A revisão do seu processo começou a partir de 1456, quando foi considerada inocente pelo Papa Calisto III, e o processo que a condenou foi considerado inválido, sendo que, em 1909 a Igreja Católica autoriza a sua beatificação. Em 1920, Joana d'Arc é canonizada pelo Papa Bento XV 489 anos depois de ter sido queimada viva como herética. Como é possível que o Cristianismo que deveria ser intemporal nos seus princípios consegue mudar de opinião tantas vezes consoante os interesses que nada tem de Cristãos?... Existe uma outra versão que nos informa que vinte anos após a sua condenação à fogueira, os pais de Joana d'Arc pediram que o Papa da época, Calisto III, autorizasse uma comissão que, numa pesquisa serena e profunda, reconheceu a nulidade do processo por vício de forma e de conteúdo. Joana d´Arc desta maneira teve a sua honra reabilitada, e o nome de feiticeira, e bruxa foi apagado para que ela fosse reconhecida pelas suas virtudes heróicas, provenientes de uma missão divina.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

PAGAR O QUE? PARA QUEM?


Somente o desconhecimento dos princípios espíritas pode gerar a idéia de que temos que pagar com sofrimentos, e para alguém, dívidas de existências passadas. Eis o equívoco.

O que ocorre é que a existência do espírito é única; as existências corpóreas é que são múltiplas, mas o ser integral é sempre o mesmo. As múltiplas existências corpóreas cumprem a finalidade de estágios de aprendizado, na verdade degraus de aperfeiçoamento.

Como estamos todos em aprendizados, cometemos equívocos. Tais equívocos geram conseqüências. Tais conseqüências podem redundar em prejuízos para nós mesmos ou para terceiros. E tais prejuízos devem ser reparados. Isto é das Leis Divinas.

Tais reparações nós as devemos à nossa própria consciência, à vida. E, neste processo, podemos nos encontrar em situações aflitivas, decorrentes todas dos equívocos que nos envolvemos.

Porém, tudo isso, não se refere a outro ser que viveu noutro tempo e que, aparentemente nenhum vínculo com ele mantemos. Não! Somos nós mesmos que agíamos nesta caminhada de aprendizados e que trazemos nas lembranças e registros, ainda que inconscientes, a necessidade dessas reparações que ora se apresentam na atualidade consciente que estamos vivendo.

Assim funciona a Lei da Reencarnação. Os filhos de Deus estagiam em diversas existências corpóreas (visando o próprio progresso, repetimos), habitando países e corpos diferentes, mas a individualidade é a mesma, razão pela qual carrega consigo seu patrimônio moral e intelectual, bem como as reparações devidas aos equívocos praticados com prejuízos para si mesmo ou para terceiros.

Então, não se trata de uma questão de pagar, mas de conquistar a paz de consciência. Quando constatamos, antes da presente encarnação, que prejudicamos alguém ou a nós mesmos, solicitamos que a próxima encarnação propicie os mecanismos de reparação.

Esses mecanismos podem apresentar-se com a aparência de enfermidades, limitações físicas, dificuldades materiais, obsessões, entre outras.

E a visão distorcida sobre os princípios espíritas gera a errônea idéia de que estamos no mundo para pagar... Renascemos simplesmente para dar continuidade ao processo evolutivo. Mas, como ontem (aqui significado existências corpóreas) nos alimentamos em excesso, hoje (atualidade que estamos vivendo da presente encarnação) poderemos estar enfrentando uma forte dor de estômago ou até uma incômoda diarréia, simplesmente como conseqüência imediata da gula. Agora peço ao leitor substituir o exagero da alimentação pelas diversas situações que podem ser imaginadas, em outros exemplos. O exemplo da alimentação é apenas comparativo.

Assim também nos prejuízos, de qualquer ordem, causados a terceiros.

Criamos vínculos com eles e os trazemos em nós através de conseqüências que também podem ser apresentar com diversas aparências. Isto é apenas a reação de uma ação.

E o assunto ainda pode ser ampliado na visão dos aprendizes negligentes.

Negligência no passado ou mesmo no presente. Tarefas adiadas, desprezadas, abandonadas... Tudo traz reflexos. Afinal colhemos hoje as ações de ontem e estamos continuamente semeando para o amanhã.

Por outro lado, a título de ilustração do assunto, solicito ao leitor considerar também que nem todo equívoco passado pode apresentar-se atualmente através de dificuldades. Muitas vezes, equívocos podem ser reparados através de trabalho e dedicação a causas e pessoas. Isto tudo porque, conforme já sabemos, "o amor cobre a multidão de pecados".

 Orson Peter Carrara


terça-feira, 24 de abril de 2012

PRÁTICA ESPÍRITA


TENDO EM VISTA QUE COMUMENTE SURGEM INFORMAÇÕES RELACIONANDO A DOUTRINA ESPÍRITA COM AS ATIVIDADES DE JOGOS DE TARÔ, CARTAS, QUIROMANCIA E OUTRAS, A FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA ESCLARECE COMO SE DESENVOLVE A PRÁTICA ESPÍRITA:

* Toda a prática espírita é GRATUITA, como orienta o princípio moral do Evangelho: “Dai de graça o que de graça recebestes”.

* A prática espírita é realizada com simplicidade, SEM NENHUM CULTO EXTERIOR, dentro do princípio cristão de que Deus deve ser adorado em espírito e verdade.

* O Espiritismo NÃO TEM SACERDOTES e NÃO ADOTA E NEM USA EM SUAS REUNIÕES E EM SUAS PRÁTICAS: ALTARES, IMAGENS, ANDORES, VELAS, PROCISSÕES, SACRAMENTOS, CONCESSÕES DE INDULGÊNCIA, PARAMENTOS, BEBIDAS ALCOÓLICAS OU ALUCINÓGENAS, INCENSO, FUMO, TALISMÃS, AMULETOS, HORÓSPOCOS, CARTOMANCIA, PIRÂMIDES, CRISTAIS OU QUAISQUER OUTROS OBJETOS, RITUAIS OU QUAISQUER OUTROS OBJETOS, RITUAIS OU FORMAS DE CULTO EXTERIOR.

* O Espiritismo NÃO IMPÕE os seus princípios. Convida os interessados em conhecê-lo a submeterem os seus ensinos ao crivo da razão, antes de aceitá-los.

* A mediunidade, que permite a comunicação dos Espíritos com os homens, é uma faculdade que muitas pessoas trazem consigo ao nascer, independentemente da religião ou da diretriz doutrinária de vida que adotem.

* Prática mediúnica espírita só é aquela que é exercida com base nos princípios da Doutrina Espírita e dentro da moral cristã.

* O Espiritismo respeita todas as religiões e doutrinas, valoriza todos os esforços para a prática do bem e trabalha pela confraternização e pela paz entre todos os povos e entre todos os homens, independentemente de sua raça, cor, nacionalidade, crença, nível cultural ou social.  Reconhece, ainda, que “o verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza”.


“Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei.”

quinta-feira, 12 de abril de 2012

JUSTIÇA E RESPONSABILIDADE – O PROBLEMA DO MAL


A lei dos renascimentos, dissemos, rege a vida universal. Com alguma atenção, poderíamos ler em toda a Natureza, como num livro, o mistério da morte e da ressurreição.

As estações sucedem-se no seu ritmo imponente. O inverno é o sono das coisas; a primavera é o acordar; o dia alterna com a noite; ao descanso segue-se a atividade; o Espírito ascende às regiões superiores para tornar a descer e continuar com forças novas a tarefa interrompida.

As transformações da planta e do animal não são menos significativas. A planta morre para renascer, cada vez que volta a seiva; tudo murcha para reflorir. A larva, a crisálida e a borboleta são outros tantos exemplos que reproduzem, com mais ou menos fidelidade, as fases alternadas da vida imortal.

Como seria, pois, possível que só o homem ficasse fora do alcance dessa lei? Quando tudo está ligado por laços numerosos e fortes, como admitir que nossa vida seja como um ponto atirado, sem ligação, para os turbilhões do tempo e do espaço? Nada antes, nada depois! Não. O homem, como todas as coisas, está sujeito à lei eterna. Tudo o que tem vivido reviverá em outras formas para evoluir e aperfeiçoar-se. A Natureza não nos dá a morte senão para dar-nos a vida. Em conseqüência da renovação periódica das moléculas do nosso corpo, que as correntes vitais trazem e dispersam, pela assimilação e desassimilação cotidianas, já habitamos um sem-número de invólucros diferentes numa única vida. Não é lógico admitir que continuaremos a habitar outros no futuro?

A sucessão das existências apresenta-se-nos, pois, como uma obra de capitalização e aperfeiçoamento. Depois de cada vida terrestre, a alma ceifa e recolhe, em seu corpo fluídico, as experiências e os frutos da existência decorrida. Todos os seus progressos refletem-se na forma sutil da qual é inseparável, no corpo etéreo, lúcido, transparente, que, purificando-se com ela, se transforma no instrumento maravilhoso, na harpa que vibra a todos os sopros do Infinito.

Assim, o ser psíquico, em todas as fases de sua ascensão, encontra-se tal qual a si mesmo se fez. Nenhuma aspiração nobre é estéril, nenhum sacrifício baldado. E na obra imensa todos são colaboradores, desde a alma mais obscura até o gênio mais radioso. Uma cadeia sem fim liga os seres na majestosa unidade do Cosmo. É uma efusão de luz e amor que, das cumeadas divinas, jorra e se derrama sobre todos, para regenerá-los e fecundá-los. Ela reúne todas as almas em comunhão universal e eterna, em virtude de um princípio que é a mais esplêndida revelação dos tempos modernos.

A alma deve conquistar, um por um, todos os elementos, todos os atributos de sua grandeza, de seu poder, de sua felicidade, e para isso precisa do obstáculo, da natureza resistente, hostil mesmo, da matéria adversa, cujas exigências e rudes lições provocam seus esforços e formam sua experiência. Daí, também, nos estádios inferiores da vida, a necessidade das provações e da dor, a fim de que se inicie sua sensibilidade e ao mesmo tempo se exerça sua livre escolha e cresçam sua vontade e sua consciência. É indispensável a luta para tornar possível o triunfo e fazer surgir o herói. Sem a iniqüidade, a arbitrariedade, a traição, seria possível sofrer e morrer por amor da justiça?

Cumpre que haja o sofrimento físico e a angústia moral para que o espírito seja depurado, limpe-se das partículas grosseiras, para que a débil centelha, que se está elaborando nas profundezas da inconsciência, se converta em chama pura e ardente, em consciência radiosa, centro de vontade, energia e virtude.

Verdadeiramente só se conhecem, saboreiam e apreciam os bens que se adquirem à própria custa, lentamente, penosamente. A alma, criada perfeita, como o querem certos pensadores, seria incapaz de aquilatar e até de compreender sua perfeição, sua felicidade. Sem termos de comparação, sem permutas possíveis com seus semelhantes, perfeitos quanto ela, sem objetivo para sua atividade, seria condenada à inação, à inércia, o que seria o pior dos estados; porque viver, para o espírito, é agir, é crescer, é conquistar sempre novos títulos, novos méritos, um lugar cada vez mais elevado na hierarquia luminosa e infinita. E para merecê-lo é necessário ter penado, lutado, sofrido. Para gozar da abundância é preciso ter conhecido as privações. Para apreciar a claridade dos dias é mister haver atravessado a escuridão das noites. A dor é a condição da alegria e o preço da virtude, sendo esta última o bem mais precioso que há no universo.

Construir o próprio “eu”, sua individualidade através de milhares de vidas, passadas em centenas de mundos e sob a direção de nossos irmãos mais velhos, de nossos amigos do espaço, escalar os caminhos do Céu, arrojarmo-nos cada vez mais para cima, abrir um campo de ação cada vez mais largo, proporcionado à obra feita ou sonhada, tornarmo-nos um dos atores do drama divino, um dos agentes de Deus na obra eterna, trabalhar para o universo, como o universo trabalha para nós, tal é o segredo do destino!

Assim, a alma sobe de esfera em esfera, de círculos em círculos, unida aos seres que tem amado; vai, continuando as suas peregrinações, em procura das perfeições divinas. Chegada às regiões superiores, está livre da lei dos renascimentos; a reencarnação deixa de ser para ela obrigação para tornar-se somente ato de sua vontade, o cumprimento de uma missão, obra de sacrifício.

Depois que atingiu as alturas supremas, o Espírito diz, às vezes, de si para si:

“Sou livre; quebrei para sempre as algemas que me acorrentavam aos mundos materiais. Conquistei a ciência, a energia, o amor. Mas o que granjeei quero repartir com meus irmãos, os homens, e para isso irei de novo viver entre eles, irei oferecer-lhes o que de melhor há em mim, retomarei um corpo de carne, descerei outra vez para junto daqueles que penam, que sofrem, que ignoram, para os ajudar, consolar e esclarecer.”

E, então, temos Lao-Tse, Buda, Sócrates, Cristo, numa palavra, todas as grandes almas que têm dado sua vida pela humanidade!



Léon Denis

Livro: O problema do ser, do destino me da dor

sábado, 7 de abril de 2012

JUDAS DE KERIOTH E JEHANNE D’ARC

A lei da reencarnação é um claro e insofismável ensinamento que encontramos no Evangelho de Jesus, no capítulo XVI:13 a 20, de Mateus ("Quem diz o povo ser o filho do homem?"); em João, III:1 a 12 (colóquio com Nicodemos), e IX:1 a 7 (cura de um cego de nascença).

Segundo Anatole France, a Universidade de Paris, então corporação eclesiástica, foi a principal responsável pela prisão e condenação de Joana d’Arc. Foi vendida pelo conde de Luxemburgo, por proposta da universidade, aos ingleses que a odiavam, por 10.000 libras, além de uma pensão vitalícia ao soldado que a prendera.

Pedro Cauchon, bispo de Beauvais e aliado dos ingleses, dirigiu o processo de Rouen, constituído o tribunal de padres católicos, que não permitiram nenhuma defesa.

Léon Denis afirma que Joana d’Arc declarava ouvir de suas vozes: "Tem coragem! Serás libertada por uma grande vitória"; e também: "Sofrer é engrandecer-se, é elevar-se."

Foi queimada viva em praça pública de Rouen, em 30 de maio de 1431. Quando as labaredas começaram a atingi-la, bradou em estado de êxtase: "E as minhas vozes não me enganaram, estou sendo libertada por uma "grande vitória". Vislumbrava uma bela cena espiritual em que via Jesus vindo pessoalmente ao seu encontro, acompanhado dos onze apóstolos e grande número de espíritos de luz, que a felicitaram, embora ela no momento ainda ignorasse que tivesse sido a reencarnação de Judas de Kerioth. Aliás, Judas era oleiro e natural de Kerioth, povoado situado a 35 quilômetros ao sul de Jerusalém. Era o único judeu entre os doze apóstolos.

A igreja católica, após muitos anos, por pressão do povo francês, sob o comando de Calixto III, mandou rever o processo, em 1455, reabilitando Joana d’Arc. Mais tarde, em abril de 1909, beatificou-a, canonizando-a, finalmente, em 16 de maio de 1920. O bispo Pedro Cauchon foi excomungado "post-mortem".

No 3º volume de Os Quatro Evangelhos, de J.-B. Roustaing, p. 207, 7ª edição, temos as palavras probantes de Jesus de que o apóstolo Judas viria a estar em situação idêntica à dos outros (Mateus, XIX: 28):

"Em verdade vos digo que vós que Me seguistes, quando vier o Filho do Homem, ao tempo da regeneração, estiver assentado no trono da sua glória, também estareis assentados em doze tronos a julgar as doze tribos de Israel.

"Estas palavras, cujo sentido ora conheceis, despojando o espírito da letra, Jesus as dirigiu: tanto aos onze apóstolos que se conservariam fiéis, como a Judas Iscariote que, sabia-o ele de antemão, viria a traí-lo, falindo gravissimamente à sua missão. Provam elas, portanto, que, nos séculos futuros, ao tempo da regeneração, Judas estará em situação igual à dos outros onze, provando, conseguintemente, que vias e meios de purificação e de progresso moral e intelectual lhe estavam reservados e lhe seriam proporcionados, com o auxílio do tempo, como a todos os Espíritos culpados, consistindo na expiação e na reencarnação que, conforme já dissemos, constituem o inferno, o purgatório, a reparação e o progresso.

"Aquelas palavras proclamaram previamente a falsidade do dogma humano, ímpio e monstruoso, da eternidade das penas para o Espírito culpado; desse inferno eterno que, segundo a Igreja romana, tragou para toda a eternidade a Judas Iscariote, que essa mesma Igreja considera o maior dos réprobos, condenado eternamente ao inferno eterno que ela instituiu."

Dentro da lei de Justiça, Amor e Caridade, Joana d’Arc foi a última reencarnação expiatória de Judas de Kerioth.

No livro Joana d’Arc Médium, Léon Denis assim descreve:

"Ela então se dirige a Isambard de la Pierre e diz: Eu vos peço, ide buscar-me a cruz da igreja mais próxima; quero tê-la erguida bem defronte de meus olhos, até o último instante. Quando lhe apresentaram a cruz, cobre-a de beijos e de pranto. No momento em que vai morrer de uma morte horrível, abandonada por todos, quer ter diante de si a imagem desse outro supliciado que, nos confins do Oriente, no cume de um monte, deu a vida em holocausto à verdade.

"Os carrascos põem fogo à lenha e turbilhões de fumaça se enovelam no ar. A chama cresce, corre, serpeia por entre as pilhas de madeira. O Bispo de Beauvais acerca-se da fogueira e grita-lhe: Abjura! Ao que Joana, já envolvida num círculo de fogo, responde: "Bispo, morro por vossa causa, apelo do vosso julgamento para Deus!"

"Alguns minutos depois, em voz estridente, lança à multidão silenciosa, aterrorizada, estas retumbantes palavras: "Sim, minhas vozes vinham do Alto. Minhas vozes não me enganaram. Minhas revelações eram de Deus." Ecoa um grito sufocado, supremo apelo da mártir de Rouen ao Mártir do Gólgota: "Jesus".

Examinando a obra literária Crônicas de Além-Túmulo, psicografada por Francisco Cândido Xavier, em bela passagem de uma entrevista do espírito Humberto de Campos com Judas Iscariote, este, ao ser questionado por aquele se "chegou a salvar-se pelo arrependimento", responde:

- "Não. Não consegui. O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores. Depois de minha morte trágica, submergi-me em séculos de sofrimentos expiatórios da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minha provas culminaram em uma fogueira inquisitorial onde, imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição, deixei na Terra os derradeiros resquícios de meu crime, na Europa do século XV. Desde esse dia, em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentido na fronte o ósculo do perdão da minha própria consciência."

Conforme se vê, Judas de Kerioth ou Joana d’Arc é de há muito, no plano espiritual, um espírito liberto, dotado de imensa humildade, comprovando que as vidas sucessivas no processo evolutivo nos dão a oportunidade de retornar ao caminho, conhecer a verdade religiosa para a vida em plenitude que o Mestre Jesus traçou (O Livro dos Espíritos, q. 625).



(Transcrito de O Franciscano, editado pela Associação Espírita Francisco de Assis, Rio de Janeiro, RJ, no período de 1996 a 1998, revisto pelo autor.) 

domingo, 1 de abril de 2012

LIVRE ARBÍTRIO


Um dos problemas que mais preocuparam os filósofos e os teólogos é o do livre arbítrio: conciliar a vontade e a liberdade do homem com o fatalismo das leis naturais e com a vontade divina parecia tanto mais difícil quanto um cego acaso parecia pesar, aos olhos de muitos, sobre o destino humano. O ensinamento dos espíritos esclareceu o problema: a fatalidade aparente que semeia de males o caminho da vida, não é mais que a conseqüência lógica do nosso passado, um efeito que se refere a uma causa, é o cumprimento do destino por nós mesmos aceitos antes de renascer, e que nossos guias espirituais nos sugerem para nosso bem e nossa elevação.

Nas camadas inferiores da criação, o ser não tem ainda consciência; apenas a fatalidade do instinto o impele, e não é senão nos tipos superiores da animalidade que surgem, timidamente, os primeiros sintomas das faculdades humanas. A alma, jungida ao ciclo humano, desperta para a liberdade moral, o juízo e a consciência desenvolvem-se cada vez mais no curso de sua imensa parábola: colocada entre o bem e o mal, ela faz o confronto e escolhe livremente, tornada sábia pelas quedas e pela dor; e na prova, sua experiência forma-se e sua força mental se afirma.

A alma humana, livre e consciente, não pode mais recair na vida inferior: suas encarnações sucedem-se na dos mundos, até que, ao fim de seu longo trabalho, tenha conquistado a sabedoria, a ciência e o amor, cuja posse a emancipará para sempre das encarnações e da morte, abrindo-lhe a porta da vida celeste.

A alma alcança seus destinos, prepara suas alegrias ou dores, exercendo sua liberdade, porém, no curso de sua jornada, na prova amarga e na ardente luta das paixões, a ajuda superior não lhe será negada e, se ela mesma não a afasta, por parecer indigna dela, quando a vontade se afirma para retomar o caminho do bem, o bom caminho, a providência intervém e propicia-lhe ajuda e apoio, Providência é o espírito superior, o anjo que vigia na desventura, o Consolador invisível cujas inspirações aquecem o coração enregelado pelo desespero, cujos fluidos vivificadores fortalecem o peregrino cansado; providência é o farol aceso na noite para salvação daqueles que erram no oceano proceloso da existência; providência é, ainda e, sobretudo, o amor divino que se derrama sobre suas criaturas. E quanta solicitude, quanta previdência neste amor. Não suspendeu os mundos no espaço, acendeu os sois, formou os continentes, os mares, para servir de teatro à alma, de campo aos seus progressos? Esta grande obra de criação cumpre-se somente para a alma, para ela combinam-se as forças naturais, os mundos deixam as nebulosas.

A alma é nascida para o bem, mas para que ela possa apreciá-lo na justa medida, para que possa conhecer-lhe todo o valor, deve conquistá-lo desenvolvendo livremente as próprias potencialidades: a liberdade de ação e a responsabilidade aumentam com sua elevação, pois quanto mais ela se ilumina mais pode e deve conformar a sua obra pessoal às leis que regem o universo.

A liberdade do ser é exercida, pois, em um círculo limitado, parte pelas exigências da lei natural que não sobre violações ou desordens neste mundo, parte pelo passado do próprio ser, cujas conseqüências se refletem sobre ele através dos tempos, até a completa reparação.

Assim o exercício da liberdade humana não pode obstar, em caso algum, a execução do plano divino, sem o que a ordem das coisas seria continuamente perturbada: acima de nossas vistas limitadas e variáveis, permanece e continua a ordem imutável do universo. Somos quase sempre maus juízes daquilo que é nosso verdadeiro bem; se a ordem natural das coisas devesse dobrar-se aos nossos desejos, que espantosas perturbações não resultariam disto?

A primeira coisa que o homem faria se possuísse liberdade absoluta, seria afastar de si todas as causas de sofrimento, e assegurar para si uma vida plena de felicidade: ora, se existem males que a inteligência humana tem o dever e os meios de conjurar e destruir, como os que provêm do ambiente terrestre, outros existem que são inerentes à nossa natureza, como os vícios, que somente a dor e a repressão podem domar.

Neste caso a dor torna-se uma escola, ou antes, um remédio indispensável, pelo qual as provas são apenas uma repartição equânime da infalível justiça: é por ignorar os fins desejados por Deus, que nos tornamos rebeldes à ordem do mundo e às suas leis, e se elas são suscetíveis de nossas críticas, é apenas porque ignoramos o seu oculto poder.

O destino é conseqüência de nossos atos e de nossas livres resoluções: no suceder-se das existências, na vida espiritual, mais esclarecidos sobre nossas imperfeições e preocupações com os meios de eliminá-las, aceitamos a vida material sob a forma e nas condições que nos parecem adequadas a atingir esta finalidade. Os fenômenos do hipnotismo e da sugestão mental explicam-nos o que acontece em tais casos, sob a influência de nossos protetores espirituais; no estado de sonambulismo, a alma empenha-se a realizar certa ação em certo momento, por sugestão do magnetizador, e, despertada, sem recordar aparentemente a promessa, executa com exatidão o ato imposto. Assim o homem não conserva lembrança das resoluções que tomou antes de renascer, mas, chegada a hora, afronta os acontecimentos previstos, e participa deles na medida necessária ao seu progresso, ou ao cumprimento da lei inexorável.



Livro: Depois da Morte