sábado, 28 de abril de 2012

JOANA D’ARC E A GUERRA DOS CEM ANOS - França - Orleans



 Joana D’Arc nasceu em Domrémy, na região de Lorena na França. Posteriormente a cidade foi renomeada como Domrémy-la-Pucelle em sua homenagem (pucelle; donzela em português).

A data do seu nascimento é imprecisa, de acordo com o seu interrogatório em 24 de Fevereiro de 1431, Joana teria dito que na época tinha 19 anos portanto teria provavelmente nascido em 1412. Não se sabe a idade correcta de Joana pois naquela época não importava a idade exacta, por isso o termo certo a usar seria "mais ou menos". Joana declarou uma vez, quando interrogada sobre a sua idade, ("tenho 19 anos, mais ou menos").

Movida por uma fé inquebrável, Joana d'Arc contribuiu de forma decisiva para mudar o rumo da guerra dos cem anos, entre a França e a Inglaterra. Filha de Jacques d'Arc e Isabelle Romée tinha mais quatro irmãos: sendo ela a mais nova de todos. O seu pai era agricultor e a sua mãe ensinou-lhe todos os afazeres de uma menina da época, como fiar e costurar. Joana também era muito religiosa ia muito a igreja e frequentemente fugia do campo para ir orar na igreja da sua cidade. No seu julgamento, Joana afirmou que desde os treze anos ouvia vozes divinas. Segundo ela, a primeira vez que as escutou, vinham da direcção da igreja acompanhadas de uma claridade e sensações de medo. Dizia que às vezes não as entendia muito bem e que as ouvia duas ou três vezes por semana. Entre as mensagens que ela recebeu estavam conselhos para frequentar a igreja, e que deveria travar o domínio que havia na cidade de Orleães. Posteriormente ela identificaria as vozes como sendo do Arcanjo São Miguel, Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida. Desde que o Duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador, se apoderou da Inglaterra em 1066, os monarcas ingleses passaram a controlar extensas terras no território francês. Com o tempo, passaram a ter vários ducados franceses: Aquitânia, Gasconha, Poitou e a Normandia, entre outros. Os duques, apesar de vassalos do rei de França, acabaram por tomar este pais. Quando a França tentou recuperar os territórios perdidos para a Inglaterra, deu origem a um dos mais longos e sangrentos conflitos da história da humanidade: a Guerra dos Cem Anos, que durou na realidade 116 anos, e que provocou milhões de mortes e a destruição de quase toda a França setentrional. O início da guerra aconteceu em 1337. Os interesses mais que evidentes de unificar as coroas concretizaram-se com a morte do rei francês Carlos IV em 1328. Filipe VI, sucessor graças à lei sálmica (Carlos IV não tinha descendentes masculinos), foi proclamado rei da França em 27 de Maio de 1328. Felipe VI reclamou em 1337 o feudo da Gasconha ao rei inglês Eduardo III, e no dia 1 de Novembro este respondeu plantando-se às portas de Paris mediante o bispo de Lincoln, declarando que ele era o candidato adequado para ocupar o trono francês. A Inglaterra ganharia batalhas como a Crécy (1346) e a de Poitiers (1356). Mas uma grave enfermidade do rei francês originou uma luta pelo poder entre o seu primo João I de Borgonha ou João sem Medo, e o irmão de Carlos VI, Luís de Orleães. No dia 23 de Novembro de 1407, nas ruas de Paris e por ordem do borgonhês comete-se o assassinato de Luís de Orleães. A família real francesa estava dividida entre os que davam suporte ao duque da Borgonha e os que o davam a Carlos VII, herdeiro de França ligados à causa de Orleães. Com o assassinato de Luís de Orleães ambos os lados enfrentaram-se numa guerra civil, onde buscaram o apoio dos ingleses.

 Com a morte de Carlos VI, em 1422, Henrique VI da Inglaterra foi coroado rei francês, mas os de Orleães não desistiram e mantiveram-se fiéis ao filho do rei, Carlos VII, coroando-o também em 1422. Aos 16 anos, Joana foi a Vaucouleurs, cidade vizinha de Domrèmy. Recorreu a Robert de Baudricourt, capitão da guarnição armagnac estabelecida em Vaucouleurs para lhe ceder uma escolta até Chinon, onde estava o herdeiro da coroa francesa, já que teria que atravessar todo o território hostil defendido pelos aliados ingleses e borgonheses. Quase um ano depois, Baudricourt aceitou enviá-la escoltada até ao herdeiro. A escolta iniciou-se aproximadamente em 13 de Fevereiro de 1429. Entre os seis homens que a acompanharam estavam Poulengy e Jean Nouillompont (conhecido como Jean de Metz). Jean esteve presente em todas as batalhas posteriores de Joana d'Arc. Vestindo roupas masculinas até á sua morte, Joana atravessou as terras dominadas por Borgonheses, chegando a Chinon, onde finalmente iria encontrar-se com Carlos, após uma apresentação de uma carta enviada por Baudricourt. Chegada a Chinon, Joana já dispunha de uma grande popularidade, porém Carlos tinha ainda desconfianças sobre a moça. Decidiram passá-la por algumas provas. Segundo a lenda, com medo de apresentar Carlos diante de uma desconhecida que talvez pudesse matá-lo, eles decidiram oculta-lo numa sala cheia de nobres antes de a receber, Joana então teria reconhecido o rei disfarçado entre os nobres sem que jamais o tivesse visto antes. Joana teria ido até ao verdadeiro rei, curvando-se e dito: "Senhor, vim conduzir os seus exércitos à vitória". Sozinha na presença do rei, ela convenceu-o a entregar-lhe um exército com o intuito de libertar Orleães. Porém, o rei ainda a fazia passar por provas diante dos teólogos reais. As autoridades eclesiásticas em Poitiers submeteram-na a um interrogatório, averiguaram a sua virgindade e suas intenções. Convencido do discurso de Joana, o rei entrega-lhe às mãos uma espada, um estandarte e o comando das tropas francesas, para seguir rumo à libertação da cidade de Orleães, que havia sido invadida e tomada pelos ingleses há oito meses. Munida de uma bandeira branca, Joana chega a Orleães em 29 de Abril de 1429. Comandando um exército de 4000 homens ela consegue a vitória sobre os invasores no dia 9 de Maio de 1429. O episódio é conhecido como a Libertação de Orleães (e na França como a Siège d'Orléans). Os franceses já haviam tentado defender Orleães mas não obtiveram sucesso. Existem histórias paralelas a esta que informam que a figura de Joana era diferente. Ela teria chegado para a batalha num cavalo branco, com armadura de aço, e segurando um estandarte com a cruz de Cristo, circunscrita com o nome de Jesus e Maria. Segundo esta outra versão, Joana teria sido apenas arrastada pelo fascínio sobrenatural dos seus sonhos e disposta a cumprir a missão segundo a vontade divina e sem saber nada sobre a arte da guerra comandou os soldados rudes, com ar angelical, e na sua presença ninguém se atrevia a dizer ou contrariar fosse o que fosse. Pois ela apresentava-se extremamente disciplinada. Após a libertação de Orleães, os ingleses pensaram que os franceses iriam tentar reconquistar Paris ou a Normandia, e ao invés disto, Joana convenceu Carlos a iniciar uma campanha sobre o rio Loire. Isso já era uma estratégia de Joana para conduzir Carlos a Ruão. Joana dirigiu-se a vários pontos fortificados sobre pontes do rio Loire. Em 11 e 12 de Junho de 1429 venceu a batalha de Jargeau. No dia 15 de Junho foi a vez da batalha de Meung-sur-Loire. A terceira vitória foi na batalha de Beaugency, nos dias 16 e 17 de Junho do mesmo ano. Um dia após a sua última vitória dirigiu-se a Patay, onde a sua participação foi pouca. A batalha de Patay, a única batalha em campo aberto, já se desenrolava sem a presença de Joana d'Arc. Na primavera de 1430, Joana D'Arc retomou a campanha militar e passou a tentar libertar a cidade de Compiègne, onde acabou sendo dominada e capturada pelos borgonheses, aliados dos ingleses, em 1430. Foi presa em 23 de Maio do mesmo ano. Entre os dias 23 e 27 foi conduzida à Beaulieu-lès-Fontaines. Joana foi entrevistada entre os dias 27 e 28 pelo próprio Duque de Borgonha, Felipe, o Belo. Naquele momento Joana era propriedade do Duque de Luxemburgo. Joana foi levada ao Castelo de Beaurevoir, onde permaneceu todo o verão, enquanto o duque de Luxemburgo negociava a sua venda. Ao vendê-la aos ingleses, Joana foi presa numa cela escura e vigiada por cinco homens. Em contraste com o bom tratamento que recebera na sua primeira prisão, Joana agora vivia os seus piores tempos. O processo contra Joana teve início no dia 9 de Janeiro de 1431, sendo chefiado pelo bispo de Beauvais, Pierre Cauchon. Foi um processo que passaria à posteridade e que converteria Joana em heroína nacional, pelo modo como se desenvolveu e trouxe o final da jovem, e da lenda que ainda nos dias de hoje associa a realidade com a fantasia.

Dez sessões foram feitas sem a presença da acusada, apenas com a apresentação de provas, que resultaram na acusação de heresia e assassinato. No dia 21 de Fevereiro Joana foi ouvida pela primeira vez. A princípio ela negou-se a fazer o juramento da verdade, mas sobre forte pressão logo cedeu. Joana foi interrogada sobre as vozes que ouvia, sobre a igreja militante, e sobre seus trajes masculinos. No dia 27 e 28 de Março, Thomas de Courcelles fez a leitura dos 70 artigos da acusação de Joana, e que depois foram resumidos a 12. Precisamente no dia 5 de Abril, estes artigos sustentavam a acusação formal para a Donzela procurando a sua condenação. No mesmo dia 5, Joana começou a perder saúde por causa de ingestão de alimentos venenosos que a fez vomitar. Isto alertou Cauchon e os ingleses, que lhe trouxeram um médico. Queriam mantê-la viva, principalmente os ingleses, porque planeavam executá-la. Durante a visita do médico, Jean d’Estivet acusou Joana de ter ingerido os alimentos envenenados conscientemente para cometer suicídio. No dia 18 de Abril, quando finalmente ela se viu em perigo de morte, pediu para se confessar. Os ingleses impacientaram-se com a demora do julgamento. O Conde de Warwick disse a Cauchon que o processo estava demasiado demorado. Até o primeiro proprietário de Joana, Jean de Luxemburgo, se apresentou a Joana fazendo-lhe a proposta de pagar pela sua liberdade se ela prometesse não atacar mais os ingleses. A partir do dia 23 de Maio, as coisas aceleraram, e no dia 29 de Maio ela foi condenada por heresia. Joana D’Arc foi queimada viva em 30 de Maio de 1431, com apenas dezanove anos. A cerimónia da execução aconteceu na Praça do Velho Mercado às 9 horas, em Ruão. Antes da execução ela confessou-se com Jean Totmouille e Martin Ladvenu, que lhe administraram os sacramentos da Comunhão. Entrou, vestida de branco, na praça cheia de gente, e foi colocada na plataforma montada para a sua execução. Após lerem o seu veredicto, Joana foi queimada viva. As suas cinzas foram atiradas ao rio Sena, para que não se tornassem objecto de veneração pública.

 Era o fim da heroína francesa. A revisão do seu processo começou a partir de 1456, quando foi considerada inocente pelo Papa Calisto III, e o processo que a condenou foi considerado inválido, sendo que, em 1909 a Igreja Católica autoriza a sua beatificação. Em 1920, Joana d'Arc é canonizada pelo Papa Bento XV 489 anos depois de ter sido queimada viva como herética. Como é possível que o Cristianismo que deveria ser intemporal nos seus princípios consegue mudar de opinião tantas vezes consoante os interesses que nada tem de Cristãos?... Existe uma outra versão que nos informa que vinte anos após a sua condenação à fogueira, os pais de Joana d'Arc pediram que o Papa da época, Calisto III, autorizasse uma comissão que, numa pesquisa serena e profunda, reconheceu a nulidade do processo por vício de forma e de conteúdo. Joana d´Arc desta maneira teve a sua honra reabilitada, e o nome de feiticeira, e bruxa foi apagado para que ela fosse reconhecida pelas suas virtudes heróicas, provenientes de uma missão divina.

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