quarta-feira, 9 de maio de 2012

ILUSÕES


Durante milênios foi normal a associação entre poder humano e religião, constituindo o Estado leigo uma conquista recente em termos históricos.

Contudo, mesmo em nações modernas, cujas constituições a partir do século XVIII passaram a consagrar a liberdade de culto, a religião da maioria prosseguiu durante largo período desfrutando ainda de privilégios em relação às demais, influenciando, inclusive, nos atos do governo.

Mencione-se, a propósito, que em nossos dias existem ainda Estados teocráticos nos quais é difícil, senão impossível, a presença de outras crenças que não a oficial.

Por outro lado e contrariando os ensinamentos que elas próprias divulgam – que afirmam a igualdade de todos perante a Divindade –, estabeleceram-se em várias correntes religiosas distinções em favor dos poderosos e dos que desfrutassem de destaque social, agraciados com títulos e comendas e com a promessa de condições especiais de ajuda e proteção, inclusive na vida espiritual, onde, conforme sabemos, as situações são definidas exclusivamente em função do mérito pessoal e da capacidade de servir. Lugares separados nos templos e a idéia de favoritismo após o túmulo condicionavam, assim, muitos detentores de vantagens materiais que, dominados por essa ilusão, despediram-se da vida física aguardando tratamento de exceção na espiritualidade e se desiludiam terrivelmente ao constatar a falsidade daquela expectativa. Alguns se revoltavam, então, contra seus antigos pastores e procuravam vingar-se, prejudicando-os, enquanto outros atravessavam períodos de abatimento e humilhação até se reajustarem, retomando a marcha de progresso em condições de simplicidade e esforço próprio.

Poder, riqueza ou influência constitui preocupação central na vida de muitos, que não medem esforços nem selecionam caminhos para alcançá-los, despreocupados das responsabilidades a eles naturalmente associadas. Graças à Doutrina Espírita estamos informados de que todos renascemos com determinada programação de atividades cujos itens e características se apresentarão espontaneamente pelo mecanismo das circunstâncias e que poderá sempre ser convenientemente atendida se procurarmos pôr em prática a recomendação do Mestre para darmos “a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus” (Mateus, 22:21). O relevo em qualquer campo da vida social, com a possibilidade de influenciar outras pessoas, representa valiosa oportunidade para extensão de benefícios em âmbito maior, envolvendo, contudo, sérios riscos caso o egoísmo se torne o móvel principal das ações. Devemos reconhecer, no entanto, que sempre houve, e há quem se conduza com dignidade nessas posições, ambicionadas por muitos que apenas observam as vantagens materiais comumente a elas associadas.

No movimento espírita observamos o tratamento fraterno dispensado a todos, sem distinções, procedimento de absoluta correção e que tem, aliás, por modelo, o próprio Codificador que, falando aos espíritas de Lyon, sua cidade natal, em 1862, afirmou: “Homens da mais alta posição honram-me com sua visita, porém nunca, por causa deles, um proletário ficou na antecâmara”. Muitas vezes, em meu salão, o príncipe se assenta ao lado do operário.

Se se sentir humilhado, dir-lhe-ei simplesmente que não é digno de ser espírita.

Mas, sinto-me feliz em dizer, eu os vi, muitas vezes, apertaram-se as mãos, fraternalmente, e, então, um pensamento me ocorria:

‘Espiritismo, eis um dos teus milagres, este é o prenúncio de muitos outros prodígios!’ ”



“O Evangelho segundo o Espiritismo” (capítulo 2, item 8); “Viagem espírita em 1862” (Discurso pronunciado nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux, parte I, edição “O Clarim”).



SEI 2046

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