domingo, 19 de agosto de 2012

ANO 2012, O FATOR MAIA E NOSTRADAMUS, MUITAS CRENDICES E PARANÓIAS

 

 Analisemos a seguinte matéria: “Você temeria o futuro se levasse a vida de Tom Cruise, com mais de US$ 300 milhões no banco e presença garantida na lista de celebridades mais ricas do mundo elaborada pela revista "Forbes"? Então imagine o impacto da notícia, divulgada no ano passado, de que o superastro estaria construindo um abrigo subterrâneo de US$ 10 milhões no subsolo de sua mansão no Colorado. Segundo o relato publicado pela revista "Star", Cruise estaria convicto de que a Terra experimentará um contato potencialmente devastador com uma raça alienígena em 2012. Acredita o ator que a vida em nosso planeta vai mudar, para pior ou para melhor, em 21/12/2012. Nessa data se encerra um calendário que era usado pelos antigos maias no auge da sua civilização. Por isso, todo o movimento envolvendo o ano de 2012 é chamado genericamente também de "profecia maia".(1)

Essa crendice estúpida é o ponto culminante de um processo que começou há duas décadas. Em 1984, o americano José Arguelles publicou "O Fator Maia". Nele mesclava seus estudos sobre o fim do calendário maia com suas próprias idéias agourentas. O autor se inspirou em um livro de ficção. Arguelles disse que a data marcaria o fim do ciclo do Homo sapiens e o início de uma época ecologicamente mais harmoniosa. E conclamou os leitores a se reunirem em várias partes do mundo nos dias 16 e 17 de agosto de 1987 para meditar e rezar, dando um pontapé inicial para o grande dia que ainda estava 25 anos no futuro. Esse evento, batizado de Convergência Harmônica, atraiu grande atenção da mídia americana e ganhou o apoio de celebridades como a atriz Shirley McLaine.”(2) Mas sabemos que “os bons Espíritos nunca determinam datas. Portanto, a previsão de qualquer acontecimento para uma época determinada é indício de mistificação.

Convivemos atualmente com uma “hecatombe” de informações agourentas, passíveis de causar muita confusão. Para escrever este texto li um estranho livro destinado exclusivamente a profecias de magos, videntes, advinhos e profetas de várias religiões e seitas. O enfoque do livro foi o ano 2012 como data fatídica em que a humanidade irá sucumbir por catástrofes terrestres ou vindas do espaço. Entre outras “pérolas” no livro encontrei que , segundo previsão dos maias, a Quinta Era do Sol que vivemos acabará em 20 de dezembro de 2012, em meio a catástrofes naturais”. Em estudos realizados por astrônomos sobre aproximações perigosas de asteróides há uma referência para 2029 em que a força gravitacional da Terra pode atrair um grande asteróide de nome 2004 MN4, o que poderá provocar uma forte colisão entre ambos por volta de 2034. (sic...)

Na Idade Média eram comuns previsões esquisitíssimas provindas da Igreja, enfocadas em catástrofes climáticas, miséria, epidemias, eclipses e cometas imprevistos. Ressalte-se que maremotos, ciclones, erupções vulcânicas, asteróides, cometas, mudanças climáticas e o aquecimento global tanto em evidência hoje, são catástrofes naturais que fazem parte da história do planeta. Existiram em todas as épocas.

Atualmente profecias, notadamente as de Nostradamus, são lembradas e citadas até o limite do intolerável. Um mau agouro paira sobre as mentes mais frágeis. E nesse frenesi cada seita com seu cortejo de fanáticos já estabeleceu sua agenda para o tal “juízo final.”

As “revelações” nostradâmicas foram escritas no século XVI quase sempre pessimistas estão reunidas em volumes numa linguagem empolada intitulada “As Centurias”. Alguns nostradâmicos plantonistas interpretaram nelas destruição e fome marcada para setembro de 1999. Outros neurastênicos acreditam que o ano 2012 será palco de destruição inimaginável. Outros alienados dizem que Nostradamus prevê o fim do mundo somente no ano 3797.

Subliminarmente alguns desavisados ficam assustados com a passagem do tempo, esquecendo que nossa contagem cronológica é totalmente arbitrária. O universo está pouco se lixando com a maneira de como nós dividimos e contamos o tempo. Para os fanáticos que fixam datas para acontecimentos futuros preste atenção para o seguinte fato real: O nascimento de Jesus é o episódio que, tradicionalmente, demarca o início da era cristã. Porém, em face de um erro de cálculo, cometido no século 6 d.C., pela Igreja, as datas não coincidem. Sabe-se, atualmente, que Jesus nasceu antes do ano 1, provavelmente, entre 6 e 5 a.C. Pode-se afirmar isso, com razoável segurança, graças à narrativa muito precisa do Evangelho de Lucas. Segundo o evangelista, o fato aconteceu na época do recenseamento, ordenado pelo imperador romano César Augusto. Esse censo, o primeiro realizado na Palestina, tinha por objetivo regularizar a cobrança de impostos. Os historiadores estão de acordo em situar tal fato político no período que vai de 8 a 5 A.C..

Curiosamente, a enciclopédia O Mundo do Saber, Editora Delta-Volume I,(3) registra: Jesus nasceu em Belém-Judéia, em 4 a.C. Ante muitas controvérsias sobre a questão, colhemos informes no seio da própria Igreja, quando, no século VI (525 a D.), o sacerdote Dionísio, fanático por matemática, recebendo a incumbência para "descobrir" a data exata do nascimento do Cristo, fixou-a no ano 754, do calendário romano,(4) e que foi aceita pela cúpula da Igreja Católica. Mas, o clérigo Dionísio começou a pesquisa partindo de uma premissa equivocada, pois, manteve como referência o batismo do Mestre, ocorrido no 150 ano do governo do Imperador Tibério César(5) e tinha absoluta convicção (à época) de que o imperador romano iniciou o governo no ano 14; a conclusão foi "lógica", 14+15=29, onde tentou buscar confirmação no Novo Testamento, quando Lucas, no Capítulo III, versículo 23, registra ter sido Jesus batizado com 29 anos de idade (!!?...).

Outro fato histórico relevante, é que Tibério César governava o Império desde o ano 9 d. C. ; logo, o equívoco do padre matemático subtraiu, de 4 a 5 anos, da história cristã, cronologicamente regida pelo calendário gregoriano.(6) Aliás, erro já devidamente assumido pelo Vaticano.(7)

Existe outro fator que comprova o erro de cálculo de Dionísio: sabemos, pela tradição dos textos das escrituras, que Herodes, o Grande, quando teve notícia do nascimento do Cristo, ordenou a matança de todas as crianças nascidas, nos dois últimos anos, em Belém e cercanias da Judéia. Na ocasião, Maria e José, pais de Jesus, refugiaram-se em outro país (Egito). Ora, a História se encarrega de registrar que Herodes morreu, exatamente, no ano que nasceu Jesus (mesmo ano da ordem do infanticídio generalizado), logo, pelos dados que possuímos, considerando-se o calendário de Roma, e se Jesus era, de fato, um recém-nascido à época da matança, atualmente estaríamos pelo menos em 2014 pós-Jesus.

É bem verdade que o século XX foi marcado por grandes tragédias ligadas ao apocalipse. Começou em 1910:a Terra iria (como aconteceu) atravessar a cauda do cometa Halley e a presença do mortífero gás cianogênio mataria todos. Ninguém morreu intoxicado com o gás. Sob o pavor do final dos tempos , na noite de 18/11/1978, em Jonestown Guiana, 900 pessoas cabrestadas pelo pastor Jim Jones, líder da seita Templo do Povo, morreram ao ingerir suco com cianureto. Em Uganda o líder de uma seita, Joseph Kibweteere prognosticou que o mundo acabaria no dia 31/12/1999. Como isso não ocorreu, adiou para o ano seguinte. No dia e hora marcados, o templo bem como todas as pessoas foram envolvidas em combustível e 470 pessoas inclusive 50 crianças foram carbonizadas. No ano de 1993, em Waco,Texas, EUA 70 seguidores da seita Ramo Davidiano morrem carbonizados no Rancho do Apocalipse. Em 1995, um culto do Juízo Final, liderado por Shoko Asahara do grupo Verdade Suprema, obcecado pela idéia do fim do mundo, lançou um gás tóxico no metrô de Tóquio envenenando centenas de pessoas inocentes, estranhos à seita. Em março de 1997, dezenas de corpos de homens e mulheres que pertenciam à seita Higher Source, liderados pelo pastor Marshall Applewhite se suicidaram acreditando que suas almas encontrariam uma nave voadora esperando por eles na cauda do cometa Hale Bopp e que os levariam a outro planeta.

O mundo atual dominado por incerteza, insegurança, pobreza e desigualdades sociais , continuará a alimentar seitas apocalípticas, passíveis de causar grandes tragédias. Fanáticos religiosos utilizando da Internet, poderão estabelecer um clima de apreensão e pavor. Mas, aprendemos com o genial lionês Allan Kardec que “os grandes fenômenos da Natureza, aqueles que são considerados como uma perturbação dos elementos, não são de causas imprevistas, pois "tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus. E os cataclismos algumas vezes têm uma razão de ser direta para o homem. Entretanto, na maioria dos casos, têm por objetivo o restabelecimento do equilíbrio e da harmonia das forças físicas da natureza."(8)

Os pessimistas insistem sempre em considerar que a maneira negativa e sombria de perceber as coisas do mundo é uma maneira realista de viver. Não concordo. Na verdade, se olharmos a vida com muita emoção (distantes do raciocínio) vamos encontrar motivos que nos abatem os ânimos em qualquer lugar e em qualquer situação; crianças carentes, fome universal, guerras, violência urbana, sequestros, carestia, insegurança social, corrupção, acidentes catastróficos e por aí à fora. Entretanto, é um dever para com nosso bem-estar estarmos adaptados à vida, com tudo que ela tem de bom e de ruim, sem obviamente cruzarmos os braços diante das situações.

Em verdade, a “forma empregada até agora nas predições faz delas verdadeiros enigmas, as mais das vezes indecifráveis.[absurdos] Hoje, as circunstâncias são outras; as predições nada têm de místicas. São antes advertências do que predições propriamente ditas. A humanidade contemporânea também conta seus profetas. Mais de um escritor, poeta, literário, historiador ou filósofo hão traçado, em seus escritos, a marcha futura de acontecimentos a cuja realização agora assistimos.”(9)

Recordemos sempre que a prática dos códigos evangélicos é a condição intransferível que determinará a grande transformação sócio, político e econômico do porvir. Nessa esteira, haverá de ser o final do “mundo velho”, desse mundo regido pela desmesurada ambição, pela corrupção, pelo aniquilamento dos preceitos éticos, pelo orgulho, pelo egoísmo e pela incredulidade. Por isso, cremos que a Terra não terá de transformar-se por meio de um cataclismo e outras tragédias que destrua de súbito uma geração. A atual sociedade desaparecerá, gradualmente, e a nova lhe sucederá sem derrogação das leis naturais, conforme preceitua o Espiritismo.



Jorge Hessen



Referências:

(1) Fonte: Revista Galileu – Edição 206 – Setembro de 2008 – Por Pablo Nogueira

(2) Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001

(3) Enciclopédia O Mundo do Saber, Editora Delta-Volume 1

(4) 2761 anos já se transcorreram a partir da fundação de Roma

(5) Cf. Luc. 3: 1 a 6

(6) O calendário gregoriano, aceito nos nossos dias em praticamente todo o mundo, só passou a vigorar a partir de 1582, quando foi promulgado pelo Papa Gregório XIII, tendo posteriormente sido gradualmente aceite por todos os países.

(7) Tibério César sucedeu Augusto que morreu no dia 19 de agosto do 767 da fundação de Roma, 14 da nossa era, quando assumiu de fato o título de César e começou a governar. Portanto, João começou a pregar no ano 28. O batismo de Jesus, antes da Páscoa de 29, estava com 35 anos. E na crucificação ocorrido no ano 31 da nossa era, 784 da fundação de Roma, Jesus tinha 38 anos de idade.

(8) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2004

(9) Kardec, Allan “A Gênese”, Cap. XVI, item 17, 16ª ed., FEB/a973-RJ.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

É PERMITIDO REPREENDER OS OUTROS?

Com este título, Kardec propõe três questões que são respondidas pelo Espírito S. Luís, em Paris, no ano de 1860.

Na primeira delas é que vamos nos deter por agora, quando Kardec pergunta: - "Ninguém sendo perfeito, seguir-se-á que ninguém tem o direito de repreender o seu próximo?" Resposta - "Certamente que não é essa a conclusão a tirar-se, porquanto cada um de vós deve trabalhar pelo progresso de todos e, sobretudo, daqueles cuja tutela vos foi confiada. Mas, por isso mesmo, deveis fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não, como as mais das vezes, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a repreensão é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda seja cumprida com todo o cuidado possível. Ao demais, a censura que alguém faça a outrem deve ao mesmo tempo dirigi-la a si próprio, procurando saber se não a terá merecido.”.

É bom lembrar que Jesus, tipo mais perfeito para servir de guia e modelo à Humanidade, enviado por Deus, como na primeira parte da resposta acima, jamais deixou de mostrar o erro nos quais os curados por Ele estavam inseridos, quando dizia: - "(...) de futuro não tornes a pecar". Mas, também, nunca repreendeu alguém com o intuito de desacreditá-lo junto à sociedade; ao contrário, como no caso da mulher surpreendida em adultério, disse: -"Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra." Fez, como está no final da resposta de S. Luís, que antes de julgarmos os outros, devemos verificar se esse julgamento não nos cabe também.

Sem dúvida alguma, a crítica irresponsável, o notar as imperfeições alheias, a maledicência fazem parte do cotidiano da grande massa da população terrena, fruto, ainda, das nossas imperfeições que nos acompanham há milênios. É uma anormalidade que com freqüência praticamos como se fosse normal, já que automatizamos tais pensamentos, palavras e ações infelizes sem nos conscientizarmos do mal que proporcionamos aos nossos semelhantes. Vemos, com muita tristeza, como os meios de comunicação, nas suas mais variadas formas, se utilizam dessas prerrogativas infelizes, sabedoras de que coisas dessa natureza é que vendem e dão altos índices de audiência. O que mostra como ainda estamos atrasados moralmente.

Lemos outro dia, numa coluna de jornal, pequeno artigo que contava uma história mais ou menos assim: "Cada pessoa caminha na vida carregando duas sacolas, uma no peito e outra nas costas. Na do peito estão contidas as virtudes, e na das costas, os vícios. Cada um de nós só vê as costas dos que vão à frente, portanto, só os defeitos dos outros, esquecendo-nos de que os que vêm atrás de nós vêem os nossos defeitos também."

Atitudes dignas para com os semelhantes deveriam ser rotineiras e não fatos isolados que chegam a ser destacados como coisas extraordinárias.

Costumamos dizer em nossas palestras que cada pessoa deveria ter um disjuntor moral na língua, que desarmasse automaticamente, quando fôssemos falar mal de alguém e, assim, ficaríamos mudos, só retornando a voz quando fôssemos falar coisas boas daquela pessoa. Mas o disjuntor deveria ficar mesmo era no cérebro, para que toda vez que um pensamento infeliz com relação a uma pessoa surgisse, ele se desligasse e nós não indignificaríamos a ninguém. Esse disjuntor chama-se autocontrole sobre o que pensamos, para que não falemos ou ajamos em desfavor dos nossos semelhantes.

O Espiritismo nos mostra a necessidade da renovação pessoal na busca do ser integral, principalmente agora, nesta era da Humanidade, norteada pelo amor que deve unir a todas as criaturas.

Lutemos por corrigir os nossos defeitos e, como diz a parábola do Argueiro e da Trave no olho, retiremos primeiro as nossas imperfeições, para só depois vermos como poderemos "auxiliar" os outros a removerem as suas.



Reformador - Dezembro de 2001

terça-feira, 7 de agosto de 2012

SALVAÇÃO? NÃO OBRIGADO.


O homem primitivo, intimamente ligado à natureza que o rodeava, expressava de forma espontânea e verdadeira sua espiritualidade. Através de seu instinto sentia a existência do transcendental, sentimento esse que pulsava, de forma nítida, na essência energética daqueles seres simples e ignorantes, vazios de conhecimento, porém plenos de autenticidade. À medida que a civilização humana começou a galgar novos degraus da escala do progresso, deixando cada vez mais de ser instintiva, passou a reprimir para os porões do inconsciente as percepções inatas e verdadeiras. Deixando para trás a infância histórica, passou a humanidade a uma fase da contestação sistemática tal qual o adolescente que recusa a priori os conceitos estabelecidos. Na procura de respostas para as inúmeras indagações que acometem a mente humana, passa a duvidar até mesmo de seus instintos. A crença no extra físico, antes alicerçada na própria naturalidade dos sentimentos inatos, passa a ser substituída pela dúvida e, sobretudo, a exigir participação do racional.

Contudo, o homem moderno, esteja ele ligado à ciência ou à filosofia, procura cruzar a fronteira do racional e integrar-se aos valores percebidos por seu próprio psiquismo, de forma subjetiva. O paradigma mecanicista de Newton vem cedendo lugar à concepção de um universo energético aberto a outras dimensões. Não mais a atitude infantil do homem primitivo que apenas, por via inconsciente, aceitava a existência espiritual, nem tampouco a postura adolescente da rejeição preconceituosa de qualquer referência à espiritualidade. Estamos no alvorecer não só de um novo século, mas de um novo milênio. As perspectivas futuras apontam para uma ciência e uma religião não mais estanques, dogmáticas, preconceituosas e onipotentes. O universo passa a ser observado e sentido, não mais como uma matéria tridimensional. A multidimensionalidade da matéria, já admitida pela física moderna, abre as portas para a percepção da existência do mundo espiritual.

A humanidade já não se satisfaz com os preceitos rígidos das religiões dominantes. O homem é um ser que indaga e quer saber, afinal, quem é, de onde vem e para onde vai. A dissociação existente entre a ciência e religião, verdadeiro abismo criado pelos homens, levou os indivíduos a ter uma visão fragmentária da vida. Os conselhos religiosos, tão úteis em épocas remotas, hoje se tornam defasados em relação à evolução contemporânea. As orientações dos ministros religiosos foram substituídas pelos médicos, psicólogos, pedagogos etc... O que frequentemente observamos é a deficiência de respostas às ansiedades íntimas do indivíduo ou da própria sociedade. O que lhes falta? Por que profissionais extremamente capacitados, sérios e estudiosos se sentem limitados para compreender o sofrimento humano?

Por que pessoas justas às vezes sofrem tanto, e concomitantemente, outras, egoístas, que se comprazem no sofrimento do próximo, prosperam tanto? Há quem viva semanas, meses ou poucos anos, enquanto outros vivem quase um século! Por quê? Por que para uns a felicidade constante e para outros a miséria e o sofrimento inevitável? Por que alguns seriam premiados pelo acaso com as mais terríveis malformações congênitas? Por que certas tendências inatas são tão contrastantes com o meio onde surgem? De onde vêm?

Não há como responder a essas questões, conciliando a crença em uma Lei Universal justa e sábia, se considerarmos apenas uma vida para cada criatura. O ateísmo e o materialismo são consequências inevitáveis da rejeição às crenças tradicionais, surgindo, naturalmente, pela recusa inteligente a uma fé cega em  um Ser que preside os fatos da vida sem qualquer critério de sabedoria, e justiça. A cosmovisão espiritista, alicerçada no conhecimento das vidas sucessivas, onde residem as causas mais profundas de nossos problemas atuais, traz-nos respostas coerentes. O conceito de reencarnação propicia uma ampla lente através da qual poderemos enxergar a problemática das vidas. As aparentes desigualdades, vivenciadas momentaneamente pelas criaturas, têm justificativa nos graus diferentes de evolução em que se encontram no momento. Além disso, sabe-se, pelas leis da reencarnação, que cabe a todas as criaturas um único destino: a felicidade. A evolução inexorável é feita pelas experiências constantes e o aprendizado decorrente. Os atos da criatura ocasionam uma sequência de causas e efeitos que determinam as necessidades da reencarnação, a si própria, em tal meio ou situação; nunca existe punição; existe, sim, consequência lógica. Há colheita obrigatória, decorrente da livre semeadura, e sempre novas oportunidades de semear.

Cada ser leva para a vida espiritual a sementeira do passado, trazendo-a inconscientemente consigo ao renascer. Se uma existência não for suficiente para corrigir determinadas distorções, diversas serão necessárias para resolver uma determinada tendência a longa caminhada da vida. Nossos atos do dia-a-dia por sua vez, são também novos elementos que se juntam a nosso patrimônio energético, pois os arquivos que criamos são sempre no nível de campos de energia, influenciando intensamente, atenuando ou agravando as desarmonias energéticas estabelecidas pelas vivências anteriores.

A teia de nosso destino, portanto, não é exclusivamente determinada por nosso passado. O livre-arbítrio que possuímos tece também os fios dessa teia a cada momento, num dinamismo sempre renovado. A diversidade infinita das aptidões, ao nível das faculdades e dos caracteres, tem fácil compreensão. Nem todos os espíritos que reencarnam têm a mesma idade; milhares de anos ou séculos podem haver na diferença de idade entre dois homens. Além disso, alguns galgam velozmente os degraus da escada do progresso, enquanto outros sobem lenta e preguiçosamente.

A todos será dada a oportunidade do progresso pelos retornos sucessivos. Necessitamos passar pelas mais diversas experiências, aprendendo a obedecer para sabermos mandar; sentir as dificuldades na pobreza para sabermos usar a riqueza. Repetir muitas vezes para absorver novos valores e conhecimentos. Desenvolver a paciência, a disciplina e o desapego aos valores materiais. São necessárias existências de estudo, de sacrifícios, para crescermos em ética e conhecimento. Voltamos ao mesmo meio, frequentemente ao mesmo núcleo familiar, para reparar nossos erros com o exercício do amor. Deus, portanto, não pune nem premia; é a própria lei da harmonia que preside à ordem das coisas. Agirmos de acordo com a natureza, no sentido da harmonia, é prepararmos nossa elevação, nossa felicidade.

Não usamos o termo "salvação", pois historicamente está vinculado ao salvacionismo igrejista, uma solução que vem de fora. Na realidade aceitamos a evolução, a sabedoria e a felicidade para todas as criaturas. "Nenhuma das ovelhas se perderá", disse Jesus. Fazendo-nos conhecer os efeitos da lei da responsabilidade, demostrando que nossos atos recaem sobre nós mesmos, estaremos permitindo o desenvolvimento da ordem, da justiça e da solidariedade social tão almejada por todos.

 Ricardo Di Bernardi

(publicado originalmente no Boletim do GEAE - 459)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A FORÇA DA HUMILDADE

 A humildade é cheia de excelência e de uma certa nobreza, que o homem material ignora, que os mundanos de alto e baixo coturnos não podem perceber.

Por isso mesmo, conceitua o Evangelho: aquele que se humilhar será exaltado.

O amor, virtude única, da qual as demais são meras cambiantes, é humilde.

Na dedicação com que a mãe vela pelo filho, predomina um cunho indelével de humildade. Ela desiste de prazeres, priva-se de conforto, abre mão de tudo, quanto possa proporcionar-lhe satisfação aos sentidos, em benefício daquele em quem concentra os seus afetos.

Dessa submissão de ‘eu’ ao ‘ser’ amado desprende-se a luz suave e doce da humildade como complemento do Amor. Nessa concentração de cuidados e desvelos, nessa consagração de todas as faculdades, visando um só e único objeto, com esquecimento de si própria, está a renúncia verdadeira, que só a humildade, na expansão do seu poder incoercível, pode gerar.

A humildade é uma força que se disfarça na fraqueza. Só os fortes podem ser humildes. Jesus comprovou, para os que tem olhos de ver, a sua fortaleza varonil através dos mais nobres gestos de humildade, em várias conjunturas que enfrentou durante o seu atribulado contato com a fátua e orgulhosa sociedade humana.

Dentre os vários episódios que com ele se passaram, citaremos um que, por sua natureza, revela eloquentemente o alto valor moral que caracteriza o meigo Rabino.

No decurso do sumaríssimo processo a que o submeteram, era levado, ora à presença de Anás e Caifás, sumos sacerdotes, ora para Pilatos, ora ainda para Herodes. Numa das vezes que o conduziam, certo esbirro deu-lhe uma bofetada. O Cordeiro de Deus, calmo e sereno, volta-se para o seu grosseiro agressor e o adverte do seguinte modo: Se agi mal, dize em que; se, porém, tenho procedido bem, porque me feres?

Semelhante atitude, diante de tão brutal agressão, atesta a varonilidade do Mestre, num grau elevadíssimo. Sua energia, nesse caso, é sobre-humana. A força despendida em suportar a ofensa é muito maior do que a revelada na represália ou na vingança. Demais, o deixar de reagir, quando não podemos, quando o nosso adversário é mais forte e mais poderoso do que nós, é medida de prudência. Deixar de reagir por motivos subalternos e razões de interesse é covardia e vileza. Abster-se, porém, de reação, dispondo de todos os meios e possibilidades de derrotar e confundir o ofensor, é divino. Só os anjos e os deuses procedem assim.

E que Jesus podia, se quisesse, aniquilar os seus gratuitos inimigos, verificamos no que se deu com Ele no momento da sua prisão, no Jardim das Oliveiras.

Judas ia à frente, capitaneando a soldadesca armada de espadas e varapaus. O Filho do Homem, saindo de retiro onde se achava em oração, apresenta-se e interroga a malta alvoroçada: A quem procurais? Respondem os guardas: A Jesus de Nazaré. Retruca o Senhor: Eis-me aqui, sou eu mesmo. Logo em seguida, usando do poder que possuía de deixar e reassumir a forma corpórea, dissipou esta, mostrando-se em todo o magnífico esplendor do seu Espírito refulgente. Diante da luz intensa que então se irradiou daquele que é o caminho, a verdade e a vida, a soldadesca toda, confusa, perturbada e trêmula, cai por terra, inerte, incapaz do mínimo movimento.

De novo Jesus encobre o seu divino ‘ser’ ocultando aquilo que é nele, como aliás em todos nós, a centelha procedente do Pai, e, só então, os beleguins romanos, voltando a si, lograram aprisioná-Lo.

Portanto, Jesus, sem tocar em nenhum deles, podia inutilizá-los; mas não o fez, para que se cumprisse a soberana vontade de Deus.

Tal é a força da humildade, da qual os homens, em sua orgulhosa fraqueza, vivem divorciados, deixando que, a cada passo, se confirme, entre eles, a sabedoria do provérbio: Quer conhecer o vilão, ponha-lhe o bastão na mão.



Vinícius

Reformador (FEB)  Julho 1938