sexta-feira, 4 de outubro de 2013

INDEPENDÊNCIA DO ESPÍRITO


0025 / LE

 

25. O Espírito independe da matéria, ou é apenas uma propriedade desta, como as cores o são da luz e o som o é do ar?

“São distintos uma do outro; mas, a união do Espírito e da matéria é necessária para intelectualizar a matéria.”

a) - Essa união é igualmente necessária para a manifestação do Espírito?

(Entendemos aqui por espírito o princípio da inteligência, abstração feita das individualidades que por esse nome se designam.)

“É necessária a vós outros, porque não tendes organização apta a perceber o Espírito sem a matéria. A isto não são apropriados os vossos sentidos.”

 

COMENTARIOS

O Espírito não é uma propriedade da matéria. São duas coisas distintas, e a resposta de “O Livro dos Espíritos” revela um segredo de difícil compreensão para os homens, dizendo que o Espírito se serve da matéria para intelectualizá-la. Sem o Espírito, a matéria não alcançaria esse empuxo espiritual e essa dinâmica inenarrável. Compreende-se, pois, que o estímulo do Espírito no reino das coisas materiais a eleva, de sorte a colocá-la acima do estado de inércia.

O Espírito é luz que vibra em alta ressonância na purificação do próprio ambiente e, se ele intelectualiza a matéria, o seu atributo desperta nela algo que dormia na profundidade física. A morada divina é o agente direto da

Divindade onde quer que seja, na missão elevada de acender luzes e despertar valores.

Se o Espírito fosse uma das propriedades da matéria, seria de menor valor que esta. E o contrário que ocorre: a matéria é serva do Espírito em todos os ângulos da criação, é um instrumento do qual ele se serve, como condição ao seu aprendizado.

As coisas físicas constituem, para a alma, um regime agressivo, de maneira a despertar qualidades quietas na intimidade do ser espiritual. Foi esta a vontade de Deus quando a criou. A matéria é energia concentrada e a energia é a matéria em estado rarefeito. Existem muitas coisas entre um estado e outro, que escapam às nossas sensibilidades. Não devemos comparar nem dizer que a alma é filha da matéria. Espírito é Espírito, matéria é matéria.

Nossa independência é que nos caracteriza como individualidades mais ou menos livres de determinadas peias, criadas pela falta de liberdade, como os conglomerados físicos.

No amanhã serão conhecidos outros valores do Espírito, acima dos que já conhecemos e que dormem ainda no imo d’alma, no berço da consciência, esperando o chamado divino da Divina Luz, que desperta os talentos mais valiosos, que a excelência da vida proporciona aos seres que completaram o curso do amor na faculdade da Terra, para começarem outro em dimensão mais pura.

O Espírito vai ficando cada vez mais independente das coisas inferiores, e integrado na dependência de Deus, como médium da luz, com a missão de transformar as trevas por onde venha a passar, divulgando conceitos altamente espiritualizados e ensinando pelo exemplo, para a concretização da harmonia em todos os corações e em tudo o que existe.

O Espírito não perde a sua individualidade como muitos pensam, ele é cada vez mais ele, na ascensão que deve percorrer e, o que é seu, é intransferível. Todavia, o celeiro de tesouros armazenados no seu coração espiritual é como que fonte doadora de recursos em todas as direções, como um sol a ajudar a vida e a enriquecer o ambiente, para que as vidas da retaguarda se conscientizem dos seus valores e acordem com as suas próprias forças.

Tudo que temos é conquista na direção que a Luz Maior nos capacitou a caminhar, porém, nunca conquistamos algo sem Deus. Ele é, por lei, o nosso motivo de viver. A matéria é um dos corpos do Espírito, intermediária dos outros na sutileza das afinidades, para que se complete uma unidade com várias divisões independentes.

O Espírito deve ser Espírito na luz de todos os entendimentos, e cada um, encarnado e desencarnado, deve se colocar naquela esperança da felicidade individual como também no esplendor do amor coletivo. Roguemos a Deus que nos ajude a compreender cada vez mais a independência da alma, pelo menos no tamanho em que ela se encontra, referindo-se a nós mesmos.

 

MIRAMEZ

domingo, 29 de setembro de 2013

JEHANNE D'ARC EM TORNELLES


O DIREITO DE VIVER


É cediço que o ser humano recebe do supremo Dispensador do universo incontáveis recursos naturais que compõem a essência de sua vida.

Entre tais recursos destaca-se o direito de viver como o mais fundamental entre todos, por ser o pressuposto dos demais recursos passíveis de serem usufruídos pelo ser humano.

Antes, porém, de adentrar na análise do tema propriamente dito, para maior clareza desta relevante questão, convém perguntar o que seria mesmo o ser humano ou, por outra, quais são seus componentes.

Ser humano é o ente que resulta da união entre o Espírito e o corpo humano, sendo aquele o ser essencial para o qual a vida humana é o objeto, e este último, o corpo, o ser instrumental, destinado a proporcionar ao Espírito os meios de atingir seus elevados fins: a perfeição. À frente do direito de viver na matéria, pressupõe-se o acesso à vida física, como a mais rica experiência do Espírito numa determinada fase de sua trajetória evolutiva, à semelhança de enorme parcela de Espíritos reencarnados no planeta Terra.

No atual estágio evolutivo da humanidade terrestre, não se pode mais realizar a análise deste tema – o direito de viver –, com o mínimo de profundidade, se não se levar em conta o ser espiritual que anima o corpo humano e que é, sem contradita, o ser real, essencial e o verdadeiro destinatário da vida humana na Terra.

Assim, por meio da indução, somos racionalmente levados à mais elementar conclusão de que a vida terrena não se restringe à mera satisfação das necessidades inerentes ao corpo físico, sob pena de reduzirmos os mais elevados, fundamentais e altruísticos sentimentos e valores humanos a uma quimera a ser decomposta pelas reações químicas num túmulo fétido ou reduzida a cinzas num forno de cremação, em que as mais caras e puras afeições não passariam de momentos fugazes e não valeriam mais do que um apetitoso prato de iguarias, solapando pelas raízes qualquer fio de esperança; reduzindo o ser humano a uma vida de cálculo, sem a menor perspectiva; embrutecendo todas as relações, em que o certo e o errado, o bem e o mal, perderiam qualquer razão de ser.

Por isso, o que levaremos em conta na nossa reflexão será principalmente o Espírito e não o corpo físico, porque nossa singela abordagem será realizada pela ótica eminentemente espírita, apesar do nosso mais profundo respeito a todos os ramos do conhecimento humano, que também oferecem fundamentados argumentos sobre o assunto, principalmente se ventilado sob ótica diferente.

O Espiritismo tem em seu conteúdo, como fonte principal, as revelações feitas pelos Espíritos superiores, encarregados por Jesus Cristo de resgatar o real sentido, a pureza e a simplicidade de sua mensagem divina e confirmá-la, em consonância com os avanços intelectuais, alcançados pela humanidade do nosso tempo. Assim, na questão 880, de O livro dos espíritos, Kardec pergunta aos Espíritos encarregados das revelações:

Qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem?

“O de viver. Por isso é que ninguém tem o direito de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal.”

Os Espíritos deixam claro que, ao se tirar a vida de alguém, o mal maior não é o de simplesmente eliminar o fio da vida física, mas os incalculáveis prejuízos decorrentes desse ato, conforme se pode extrair da resposta dada à pergunta 746:

É crime aos olhos de Deus o assassínio?

“Grande crime, pois aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão. Aí é que está o mal.”

Isso se explica porque é fato que todos morreremos um dia, sendo, porém, necessário que a morte ocorra, em qualquer circunstância, no tempo prescrito por Deus, para que o Espírito possa atingir seus objetivos predeterminados a realizar no corpo, usufruindo integralmente dos seus benefícios.

O grau de maturidade moral e intelectual que o homem mediano atingiu na Terra não mais permite conceber que a vida humana seja a manifestação de um fenômeno fortuito, sem objetivo e sem justa causa, por isso é imprescindível e urgente aprofundar a visão.

Na questão 132, pergunta-se aos Espíritos:

Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?

“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da Criação. Para executá-la é que, em cada mundo, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.”

Importa destacar que os Espíritos responderam às perguntas de acordo com o grau de progresso atual da humanidade terrena, pois o planeta Terra encontra-se num grau evolutivo em que a reencarnação do Espírito tem objetivos delimitados e voltados para atender as suas necessidades atuais, razão por que, na questão 167, os Espíritos esclarecem sobre o fim que se objetiva com a reencarnação, nos seguintes termos:

Qual o fim objetivado com a reencarnação?

“Expiação, melhoramento progressivo da humanidade. Sem isto, onde a justiça?”

Assim, quem tem um objetivo, um propósito, uma necessidade de viver na Terra não é o corpo físico, mas o Espírito que o anima e que necessita dar mais um passo na direção do seu aperfeiçoamento. Quando, portanto, se impede que um corpo nasça na Terra, frustram-se os objetivos do Espírito que necessita reencarnar. Para melhor compreensão, lembremos que a Terra, no atual estágio evolutivo, é uma escola, um hospital, uma oficina de trabalho, um campo de pesquisa, uma sagrada oportunidade de convivência social, psicológica e sentimental do mais alto valor para a evolução moral e intelectual do Espírito.

Diante do exposto, impedir um ser humano de nascer é fechar, para o Espírito que deseja e necessita ardentemente aprimorar-se, as portas de acesso ao conhecimento, à saúde, ao trabalho, à convivência social, ao exercício do amor que a vida num corpo físico pode proporcionar.

A propósito, respondendo à pergunta 357, os Espíritos elucidam nos seguintes e precisos termos:

Que consequências tem para o Espírito o aborto?

“É uma existência nulificada e que ele terá de recomeçar.”

Observamos que o mal decorrente desta ação não se resume em simplesmente impedir a manifestação da vida, por matar um corpo, mas arruinar, comprometer toda uma existência de alvissareiras perspectivas para o Espírito, o que torna a ação muitíssimo mais grave.

Assim, inúmeras consequências poderão advir para os responsáveis pela prática do aborto. Porque é necessário indagar, também, qual será a atitude que adotará o Espírito que é rejeitado, impedido covarde e egoisticamente de exercer o legítimo direito que Deus lhe outorgou. Não se trata de ameaças, mas de convite à responsável reflexão, porque não somos mais uma sociedade de Espíritos primitivos. Temos o dever de assegurar ao outro o direito que nos foi garantido.

Imaginemos uma sociedade que impedisse suas crianças de ter acesso à escola, seus doentes de receber o auxílio hospitalar, seus cidadãos da oportunidade do trabalho dignificante? Por mais passivas que sejam essas criaturas, nada impedirá que gravíssimas e naturais consequências destas atitudes recaiam sobre seus responsáveis, bem como sobre toda a sociedade, não significando de modo algum castigo de Deus, mas reação pura e simples da lei natural de causa e efeito.

Estamos num estágio de evolução, repetimos, em que não mais podemos sequer cogitar de corrigir um mal praticando outro igualmente hediondo e muito mais irracional, cruel e monstruoso, num verdadeiro atestado de incapacidade ou mesmo de má vontade de buscar as soluções pela aplicação do amor ao bem, sob as luzes infinitas da sabedoria, filha direta da inteligência...

 Somente conhecendo a natureza, os fins, as causas e os efeitos que regem a vida, seremos capazes de preservá-la, agindo de conformidade com os superiores objetivos do Criador, baseados no amor, na sabedoria e no bem.

 

REFORMADOR SETEMBRO 2013

 

Referência:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 1. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2013. q. 132, 167, 357, 746 e 880

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O CORPO DE JESUS



Jesus não possuía o organismo tangível ou carnal - sujeito às contingências fisiológicas - mas um organismo sideral, de sensibilidade quintessenciada, no qual os pensamentos cruéis de seus adversários atuavam maleficamente, ocasionando-lhe sofrimentos e torturas morais indefinidos.

Como, porém, já estava de posse de todos os atributos, Ele os exteriorizava como se, realmente, os seus tecidos fossem materiais: apresentava equimoses, chagas, perfurações nos membros superiores e inferiores. Tudo isso, que não passava de reprodução psíquica, Ele o padeceu, porque seu corpo tangível estava em contato com o ambiente terreno. Se Ele o quisesse, não sofreria nenhuma dor, insulando-o pelo poder da volição, que, logo, eliminou todos os vestígios dos martírios por que passou, novamente patenteados na presença do incrédulo Tomé, mas a sua missão era bem outra, não a de convencer pelos olhos, qual se fora um mago, mas pelo coração e pela Fé; e, ao mesmo tempo, deixou o eterno exemplo de como se pode conquistar a redenção; praticando o bem, padecendo injustiças, calúnias, traições, tendo na alma piedade infinita por todos os delinquentes; e, em permuta, receber escárnios e bofetadas, sem ter, no plano material, dedicados amigos que com Ele sofressem e que ficassem vigilantes após momentos de dor infinita... Tudo isso, Pedro, se passou diante de teus olhos... E não ouviste: Também tu o abandonaste e lhe foste infiel... o que ora relembro, não para te censurar, mas apenas avivando o passado e a realidade. Não te comovas assim, até as lágrimas, irmão! Escuta-me: de Jesus foi encerrado no sepulcro apenas seu corpo condensado ou materializado, amortecido voluntariamente, e, mal se achou insulado, logo despertou.

Jesus não era um ser igual aos entes humanos, porquanto, quando baixou ao Planeta do Sofrimento, já possuía todos os atributos espirituais, muitos dos quais ainda ignorados pelos que o conheceram. Mais tarde, porém, todos os sucessos relativos ao nascimento e à morte, isto é, ao início e ao termo da missão do Nazareno; serão elucidados plenamente, na Terra. Algo direi sobre o que tanta admiração te causa: a derradeira cena do Calvário.

Não conheces, Pedro, a vida do pequeno inseto que fabrica a seda, a maravilha dos tecidos, feitos com elementos gerados nas entranhas de uma das espécies do bombyx-mori? Pois bem, não fica ele entorpecido, durante algum tempo, no próprio estojo que engenhou, o que os homens mais cultos e inteligentes procuram vãmente imitar? Onde se ocultam as suas asas que, durante a letargia, se desagregam de seu próprio organismo, pétalas que desabrochassem em um cálice de flor, para, então, a falena já desperta, ansiosa por liberdade, ébria de amplidão, corroendo o envoltório que a constringia, expandir os seus adejos, sobre as mais encantadoras filhas dos jardins e dos prados?

Assim, Pedro, no paralelo do mágico produtor da seda, calcula o que se passou com o Mestre bem-amado que já era um dos Emissários divinos.

Tomado o seu corpo de um torpor ou de um esmorecimento que Lhe deu a aparência de rígido cadáver, foi levado ao sepulcro. Mas, realizado seu despertar, dissolveu-se o envoltório materializado, recobrando o Espírito todas as suas portentosas faculdades.

 

Reformador 1946

Extraído da obra “Dor Suprema” - Livro VIII, obra  de Victor Hugo, Espírito.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

PERDOAR PODE PRESERVAR NOSSA SAÚDE



No livro No Mundo Maior, cap. X, diz Calderaro, um sábio mentor: “O ódio diariamente extermina criaturas no mundo, com intensidade e eficiência mais arrasadoras que as de todos os canhões da Terra troando a uma vez. É mais poderoso, entre os homens, para complicar os problemas e destruir a paz, que todas as guerras conhecidas pela humanidade no transcurso dos séculos.” Mas, essas observações, não são só para os que revidam as ofensas, mas também para os que ficam na vontade de revidar, de esganar o ofensor, mas que acabam engolindo a própria ira. Bebendo seu próprio veneno, destilado pelo ódio, causando-lhe grandes desequilíbrios. O ressentimento vai minando (diminuindo) nossas energias e enfraquecendo os mecanismos imunológicos (que nos deixam imunes, protegidos, das doenças). Há uma quantidade imensa de males físicos e psíquicos resultantes do auto-envenenamento, resultado do cultivo de mágoas no lar, na rua, no local de trabalho, na escola . . . O ódio produz reações perturbadoras em nosso comportamento e nos enferma. O campo de vibração é tão negativa que a espiritualidade não consegue se aproximar para ajudar. Divaldo P. Franco diz que o perdão, deixou de ser uma virtude teológica (religiosa) para ser uma terapia. Muitas pessoas afirmam perdoar, mas a maioria que faz esta afirmativa, faz só da boca para fora, e que mais cedo ou mais tarde acabam mostrando variadas formas de revide, porque não é sincero, não é do fundo do coração. Por exemplo, aquele perdão onde dizemos: - Perdoo, mas não esqueço o mal que me fez! - (rancor) - Perdoo, mas não quero vê-lo nunca mais! – (condenação) - Perdoo, mas lamento ter me envolvido com esse (a) infeliz! – (menosprezo) - Perdoo, mas Deus há de castigá-lo! – (maldição) - Perdoo, mas antes lhe direi umas verdades! – (pretensão) - Perdoo, mas deixa ela (e) vir me pedir alguma coisa! – (vingança) Em qualquer dessas alternativas estamos destilando o nosso ressentimento que vai nos envenenando. O melhor mesmo é não ter que perdoar. E para não precisar perdoar, é só usarmos a fórmula mágica que chama-se COMPREENSÃO. Porque ninguém é propriamente mau. Somos todos filhos de Deus. Não podemos exigir das pessoas mais do que podem dar. Há mais fragilidade que intencionalidade nos prejuízos que estas pessoas nos causam. A compreensão dispensa o perdão. Porque, quem compreende não se ofende, entende as limitações humanas, e enche-se de misericórdia (compaixão).

No livro No Mundo Maior, cap. X, diz Calderaro, um sábio mentor:

“O ódio diariamente extermina criaturas no mundo, com intensidade e eficiência mais arrasadoras que as de todos os canhões da Terra troando a uma vez. É mais poderoso, entre os homens, para complicar os problemas e destruir a paz, que todas as guerras conhecidas pela humanidade no transcurso dos séculos.”

 Mas, essas observações, não são só para os que revidam as ofensas, mas também para os que ficam na vontade de revidar, de esganar o ofensor, mas que acabam engolindo a própria ira. Bebendo seu próprio veneno, destilado pelo ódio, causando-lhe grandes desequilíbrios.

O ressentimento vai minando (diminuindo) nossas energias e enfraquecendo os mecanismos imunológicos (que nos deixam imunes, protegidos, das doenças).

Há uma quantidade imensa de males físicos e psíquicos resultantes do auto-envenenamento, resultado do cultivo de mágoas no lar, na rua, no local de trabalho, na escola. . .

O ódio produz reações perturbadoras em nosso comportamento e nos enferma. O campo de vibração é tão negativa que a espiritualidade não consegue se aproximar para ajudar. Divaldo P. Franco diz que o perdão, deixou de ser uma virtude teológica (religiosa) para ser uma terapia.

Muitas pessoas afirmam perdoar, mas a maioria que faz esta afirmativa, faz só da boca para fora, e que mais cedo ou mais tarde acabam mostrando variadas formas de revide, porque não é sincero, não é do fundo do coração. Por exemplo, aquele perdão onde dizemos:

- Perdoo, mas não esqueço o mal que me fez! - (rancor)

- Perdoo, mas não quero vê-lo nunca mais! – (condenação)

- Perdoo, mas lamento ter me envolvido com esse (a) infeliz! – (menosprezo)

- Perdoo, mas Deus há de castigá-lo! – (maldição)

- Perdoo, mas antes lhe direi uma verdade! – (pretensão)

- Perdoo, mas deixa ela (e) vir me pedir alguma coisa! – (vingança)

 

Em qualquer dessas alternativas estamos destilando o nosso ressentimento que vai nos envenenando.

O melhor mesmo é não ter que perdoar.

E para não precisar perdoar, é só usarmos a fórmula mágica que chama-se COMPREENSÃO. Porque ninguém é propriamente mau. Somos todos filhos de Deus. Não podemos exigir das pessoas mais do que podem dar. Há mais fragilidade que intencionalidade nos prejuízos que estas pessoas nos causam.

A compreensão dispensa o perdão.

Porque, quem compreende não se ofende, entende as limitações humanas, e enche-se de misericórdia (compaixão). Jesus sabia disso, por isso disse no instante derradeiro: "PAI, PERDOA-LHES, ELES NÃO SABEM O QUE FAZEM.".

terça-feira, 24 de setembro de 2013

É PERMITIDO REPREENDER OS OUTROS?


 

Com este título, Kardec propõe três questões que são respondidas pelo Espírito S. Luís, em Paris, no ano de 1860.

 

Na primeira delas é que vamos nos deter por agora, quando Kardec pergunta: - "Ninguém sendo perfeito, seguir-se-á que ninguém tem o direito de repreender o seu próximo?" Resposta - "Certamente que não é essa a conclusão a tirar-se, porquanto cada um de vós deve trabalhar pelo progresso de todos e, sobretudo, daqueles cuja tutela vos foi confiada. Mas, por isso mesmo, deveis fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não, como as mais das vezes, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a repreensão é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda seja cumprida com todo o cuidado possível. Ao demais, a censura que alguém faça a outrem deve ao mesmo tempo dirigi-la a si próprio, procurando saber se não a terá merecido.”.

É bom lembrar que Jesus, tipo mais perfeito para servir de guia e modelo à Humanidade, enviado por Deus, como na primeira parte da resposta acima, jamais deixou de mostrar o erro nos quais os curados por Ele estavam inseridos, quando dizia: - "(...) de futuro não tornes a pecar". Mas, também, nunca repreendeu alguém com o intuito de desacreditá-lo junto à sociedade; ao contrário, como no caso da mulher surpreendida em adultério, disse: -"Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra." Fez, como está no final da resposta de S. Luís, que antes de julgarmos os outros, devemos verificar se esse julgamento não nos cabe também.

Sem dúvida alguma, a crítica irresponsável, o notar as imperfeições alheias, a maledicência fazem parte do cotidiano da grande massa da população terrena, fruto, ainda, das nossas imperfeições que nos acompanham há milênios. É uma anormalidade que com freqüência praticamos como se fosse normal, já que automatizamos tais pensamentos, palavras e ações infelizes sem nos conscientizarmos do mal que proporcionamos aos nossos semelhantes. Vemos, com muita tristeza, como os meios de comunicação, nas suas mais variadas formas, se utilizam dessas prerrogativas infelizes, sabedoras de que coisas dessa natureza é que vendem e dão altos índices de audiência. O que mostra como ainda estamos atrasados moralmente.

Lemos outro dia, numa coluna de jornal, pequeno artigo que contava uma história mais ou menos assim: "Cada pessoa caminha na vida carregando duas sacolas, uma no peito e outra nas costas. Na do peito estão contidas as virtudes, e na das costas, os vícios. Cada um de nós só vê as costas dos que vão à frente, portanto, só os defeitos dos outros, esquecendo-nos de que os que vêm atrás de nós vêem os nossos defeitos também."

Atitudes dignas para com os semelhantes deveriam ser rotineiras e não fatos isolados que chegam a ser destacados como coisas extraordinárias.

Costumamos dizer em nossas palestras que cada pessoa deveria ter um disjuntor moral na língua, que desarmasse automaticamente, quando fôssemos falar mal de alguém e, assim, ficaríamos mudos, só retornando a voz quando fôssemos falar coisas boas daquela pessoa. Mas o disjuntor deveria ficar mesmo era no cérebro, para que toda vez que um pensamento infeliz com relação a uma pessoa surgisse, ele se desligasse e nós não indignificaríamos a ninguém. Esse disjuntor chama-se autocontrole sobre o que pensamos, para que não falemos ou ajamos em desfavor dos nossos semelhantes.

O Espiritismo nos mostra a necessidade da renovação pessoal na busca do ser integral, principalmente agora, nesta era da Humanidade, norteada pelo amor que deve unir a todas as criaturas.

Lutemos por corrigir os nossos defeitos e, como diz a parábola do Argueiro e da Trave no olho, retiremos primeiro as nossas imperfeições, para só depois vermos como poderemos "auxiliar" os outros a removerem as suas.

 

Reformador - Dezembro de 2001

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

“CURANDEIROS ENDEUSADOS”, CIRURGIÕES DO ALÉM – SOB OS NARCÓTICOS INSENSATOS DO COMÉRCIO.


 
Após leitura de intrigante reportagem da Revista “VEJA”, deliberamos reproduzir e contextualizar alguns trechos da matéria publicada. Intitulada “A face humana do mais endeusado médium brasileiro”(1) , a “VEJA” destacou a capacidade do famigerado médium de atrair gente do mundo inteiro para um município próximo do Distrito Federal. Afirma a reportagem que o “santificado médium” convive o cotidiano sob o manto da contradição entre o “espírito e a carne”, a “cura e a doença”, o “desprendimento e a vaidade”, os gestos de “generosidade , os arroubos de cólera” e os negócios terrenos(2) [é milionário], os amores [tem onze filhos com dez mulheres diferentes]. A cada dois anos, o “curandeiro-endeusado do cerrado” troca a frota de carros da família. O dele é um Mohave Kia, avaliado em 170 000 reais..”

Sabemos que a mediunidade não guarda relação com o desenvolvimento moral, seu funcionamento independe das qualidades morais, assim como o coração pulsa independentemente dos sentimentos bons ou maus que a pessoa alimente. O fato é que os médiuns de tais “cirurgiões do além” sempre seduzem grande número de fregueses, estabelecendo, não raro, com a mediunidade, um negócio rendoso, uma polpuda fonte de captação de dólares e reais. Para comprovar, consideremos o fato aqui comentado. Chequemos o seguinte: o PIB – Produto Interno Bruto do município onde “médium-feiticeiro do cerrado” comercializa disfarçada e generosamente a “cirurgia transcendental” é de 15 milhões de reais ao ano. No mesmo período, a instituição dirigida por tal “deus da mediunidade de cura” “ tem faturamento de ,no mínimo, 7,2 milhões de reais, levando-se em conta exclusivamente o comércio de passiflora, preparado à base de maracujá, produzido ali mesmo, vendido a 50 reais o frasco e receitado a uma média de 3 000 visitantes semanais.” (4) Por sérias razões não apreciamos e sequer indicamos esse tipo de mediunidade, embora, excepcionalmente, acatemos os efeitos mediúnicos atingidos por alguns poucos médiuns humildes e honestos. Infelizmente alguns “deuses dos bisturis”, que promovem cirurgias com auxílio de supostos médicos do além, conseguem robustecer suas contas bancárias. Há algumas décadas Chico Xavier advertiu: “Creio que isto deva ser fruto da educação da pessoa simplória, acreditar que, pagando bem, irá conseguir curas espirituais. O verdadeiro Espiritismo não pode cobrar, nem mesmo os remédios que receita aos doentes. Também sou contra essa estória de meter instrumentos cortantes no corpo dos outros, sem ser clínico. O médico estudou bastante anatomia, patologia e, por isso, está habilitado a fazer uma cirurgia. Por que eu, sendo médium, vou agora pegar uma faca e abrir o corpo de um cristão sem ser considerado um criminoso?” (5)

O médium de Pedro Leopoldo disse que foi operado pelos médicos terrenos cinco vezes, e vários médiuns lhe ofereceram seus serviços. “O Espírito Emmanuel lhe repreendeu: Você deveria ter vergonha até em pensar em receber esse tipo de cura, porque todos os outros doentes vertem sangue, usam éter, tomam determinados remédios para melhorar. Como você pretende se curar numa cadeira de balanço?”(6)

Do exposto, indagamos o seguinte: como ajuizarmos atualmente esses “curandeiros e cirurgiões do além”? Chico Xavier quando estava para se submeter a uma cirurgia, em 1968, de um tumor na próstata, Zé Arigó [que não era espírita], mandou lhe avisar que estava pronto para realizar a operação. Chico respondeu: “como é que eu ficaria diante de tanto sofredor que me procura e que vai a caminho do bisturi, como o boi vai para o matadouro? E eu, sabendo disso, vou querer facilidades? Eu tenho é que operar [com médicos encarnados] como os outros, sofrendo com eles! (7) Por isso, o Espírito André Luiz advertiu para “aceitar o auxílio dos missionários e obreiros da medicina terrena, não exigindo proteção e responsabilidade exclusivos dos médicos desencarnados”. (8) É deplorável os médiuns evocarem “Espíritos” para que lhes atendam como “cirurgiões do além”, a fim de retalhar e perfurar corpos em nome de “operações espirituais”; que lhes prescrevam placebos. É lamentável essa tendência de subestimar a contribuição da medicina humana, entregando nossas enfermidades aos Espíritos “curandeiros do além” (preferencialmente com nome germânico ou hindu) para que “curem” doenças. Precisamos “aproveitar a moléstia como período de lições, sobretudo como tempo de aplicação de valores alusivos à convicção religiosa. A enfermidade pode ser considerada por termômetro da fé”. (9)

Não desconhecemos a plausível intervenção dos desencarnados nos processos terapêuticos na Terra, mas não se pode dar proeminência a esse tipo de trabalho, na suposição de curas ou na pérfida ideia de robustecimento do Espiritismo por esses meios. É urgente não abrirmos mão da precaução! Ainda mesmo que o excesso em tudo seja prejudicial, contudo, Kardec endossa nossa atitude dizendo que “em semelhante caso, vale mais pecar por excesso de prudência do que por excesso de confiança”.(10)

Acreditamos que as “terapias alternativas”, “curandeirismos” e a fascinação na prática mediúnica, são fatores que têm desestabilizado o plano [da união] entre os espíritas e da unidade doutrinária.(11) É pouco significante que um “cirurgião do além túmulo” faça desaparecer anomalias inibidoras ou deformantes do corpo. Até porque o perispírito conservará a patologia, que vai se projetar para reencarnações futuras, exceto que nos ajustemos com a lei da justiça, cobrindo com amor a “multidão de pecados” que carregamos. Jamais olvidemos que a cirurgia transcendente pode até mesmo refrear temporariamente as doenças físicas, mas o amor, trabalhando nos tecidos sutis da alma, cura, purifica e redime para a eternidade.

Segundo Divaldo Franco “É UMA TEMERIDADE TRANSFORMAR O CENTRO ESPÍRITA EM PEQUENO HOSPITAL PARA ATENDIMENTO DE TODAS AS MAZELAS, ISSO É UMA LOUCURA. É UM DESVIO DA FINALIDADE DA PRÁTICA DO ESPIRITISMO. PODEMOS, SIM, FAZER UMA ATIVIDADE DE ATENDIMENTO A DOENTES QUE SÃO PORTADORES DE PROBLEMAS NA ÁREA DA SAÚDE ESPIRITUAL. PODEREMOS APLICAR-LHES PASSES, DOAR-LHES A ÁGUA FLUIDIFICADA, SE FOR O CASO, MAS A FUNÇÃO PRINCIPAL DO CENTRO ESPÍRITA É ILUMINAR A CONSCIÊNCIA DAQUELES QUE O BUSCAM. (12)

Ressalta o tribuno baiano que certa vez o Espírito do “Dr. Fritz” quis operar Chico Xavier, em 1965, através do médium não espírita Zé Arigó: – “Eu te ponho bom desse olho. Faço-te a cirurgia agora!

Pronunciou Arigó e Chico Xavier respondeu-lhe: – “Não, isso é um karma. Eu sei que o senhor pode consertar o meu olho. Mas como o karma continuará, vai aparecer-me outra doença. Como eu já estou acostumado com essa, eu a prefiro. Por que eu iria querer uma doença nova?”. (13)

Os Espíritos não estão a disposição para promoverem curas de patologias que não raro representam providências corretivas para nosso crescimento espiritual no buril expiatório.

Nesse sentido, os dirigentes de núcleos espíritas deveriam promover bases de estudos e reflexões sobre as propostas filosóficas, científicas e religiosas do Espiritismo ao invés de encetarem trabalhos espirituais para os inócuos “curanderismos”.

 

Jorge Hessen

 

Referências bibliográficas:
(1) Disponível em http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/joao-do-ceu-e-da-terra-508 acesso em 14/09/2013
(2) Suas economias vêm do garimpo. Ele é dono de fazendas na região, é proprietário de apartamentos em Brasília, Goiânia, Anápolis e Abadiânia.
(3) Disponível em http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/joao-do-ceu-e-da-terra-508 acesso em 14/09/2013
(4) Idem
(5) Entrevista, concedida aos jornalistas goianos Batista Custódio — Diário da Manhã — e Consuelo Nasser — Revista Presença — publicado no jornal “Goiás Espírita” — órgão de divulgação da Federação Espírita do Estado de Goiás — edição 284, de janeiro/fevereiro de 1988
(6) Idem
(7) Idem
(8) Vieira, Waldo. Conduta Espírita, Ditado pelo Espírito André Luiz, Cap.35. RJ: Editora FEB, 1977-5ª edição
(9) Idem
(10) Kardec, Allan. Viagem Espírita-1862, Brasília, Ed. Edicel, 2002, pág. 33
(11) Franco. Divaldo. Publicado no jornal Alavanca – abril/maio-2000
(12)Entrevista com Divaldo Franco publicado no jornal “A Gazeta do Iguaçu” em julho de 1997
(13)Idem

domingo, 22 de setembro de 2013

JOANA D'ARC


 

I - O GÊNIO CÉLTICO E O MUNDO INVISÍVEL - LEON DENIS : Joana d'Arc, espírito céltico, anunciada por Jules Michelet.

 

 Amei a França e minh'alma foi iluminada por um ideal superior. Consignei meu modo de ver na minha obra Histoire de France. Com o auxílio de Joana d'Arc, que glorifiquei, este ideal me ajudou a desencarnar, a achar a minha estrada na luz celeste. Este espírito que, até o momento, chamais de "Espírito Azul" é sinônimo para vós de espírito de luz, de patriotismo e de amor. Ao pronunciar o seu nome, senti eflúvios radiantes que me indicam que Joana D'Arc tinha a possibilidade de vir até vós e participar da vossa próxima sessão.

O Celtismo, no meu parecer, é a centelha embrionária absolutamente necessária à irradiação da vida nacional francesa. É graças a esse esplendor da essência divina que a molécula que se transmite através das gerações francesas não está aniquilada. A alternância dos retornos de cepticismo e de materialismo com as efusões de luz idealista constitui um jogo de leis da reencamação.

Joana d'Arc encarna no mais alto grau esta alma céltica que, de modo fundamental, se inspira em três grandes elementos: a fé na força divina, a fé na vida renascente através do espaço e a sensação de seus reflexos sobre a criatura francesa. O que se traduz pelo patriotismo nacional e pelo amor de Deus criador. Joana d'Arc recebeu durante toda a sua vida de missionária a irradiação provinda das moléculas de ordem divina. Se os olhos de seu corpo se recusavam a ver a luz astral, o seu subconsciente estava esclarecido pela via celeste. É por isso que ela teve uma força genial e que obteve a inspiração num ideal de beleza e amor.

Joana, como missionária e como francesa, veio trazer para os povos bárbaros, desorientados e desagregados, a iniciação que lhes devia servir de ajuda indispensável. No decorrer do tempo e das gerações é preciso que, de vez em quando, um pólo tão poderoso quanto puro receba as vibrações que formam a corrente da vida universal. Desde as épocas mais remotas, grandes iniciados vieram para os mundos; vós tivestes sobre vossa Terra: Buda, Cristo e Joana d'Arc.

O Celtismo é uma das formas da vontade divina visto que sua doutrina emana diretamente dos focos superiores e que os druidas foram, sobre vosso solo, os primeiros seres capazes de compreender e de transmitir as impressões e os ensinos recebidos pela iniciação, capazes, também, pela irradiação, de espalhar um ensino salutar para as massas populares.

Joana d'Arc foi inspirada por suas vozes do Bosque Chenu. Ela recebeu de espíritos superiores os ensinos que fizeram dela a heroína sagrada. O druida, com sua foice de ouro nas mãos, não via os anjos do Bosque Chenu, mas recebia o pensamento através da luz divina, em uma só palavra, eis a impressão sentida pelo druida. Ele entrava em êxtase inspirando-se na natureza, e via, num certo momento, todo seu ser entrar em vibração. Ele se sentia como que acima do chão e sua personalidade física estava cercada de uma auréola de eflúvios ora quentes, suaves ou fortes, fato este que vós podeis traduzir em linguagem moderna por atração extática, vibração constante e recepção de ondas radiantes em todo ser humano. O druida era, na realidade, um médium dotado de faculdades psíquicas e morais bem desenvolvidas.

Em certos momentos, o druida, não somente sentia a influência astral, mas via também luzes, vapores e condensações fluídicas. Se vivesse em vossa época atual, em razão do progresso da ciência, ele poderia explicar melhor e assimilar todos esses fenômenos, mas no seu tempo tudo lhe parecia maravilhoso. Quando via apenas condensações de vapores, tinha a impressão de que um primeiro círculo ocultava outras luzes. E quando sentia uma transmissão do ponto de vista da iniciação, parecia-lhe que um ciclo encoberto encerrava a presença da força das forças e que ele devia se inclinar ante essa vontade desconhecida.

Pelo desaparecimento dessas impressões, uma espécie de torpor, de desalento, de embotamento sucedia ao êxtase, e a vontade do ser humano, animada por um desejo formado antes do nascimento, levava ao druida a força de continuar o ensino e de espalhar em seu redor a fé nascente. Ademais, em geral, o druida tinha o dom de exteriorizar as radiações que influenciavam os seres que o cercavam. Joana d'Arc recebeu as mesmas impressões que o druida, mas num sentido ainda mais elevado.

O reconhecimento dos três ciclos alterava-se em planos bem distintos: o plano da ordem divina que espalha sua luz e anima os grandes espíritos; o todo envolvido de uma luz mais ou menos viva que toca as criaturas sob a forma de graça; o terceiro plano, perto da Terra, é mais humano. Joana d'Arc foi, então, na sua época, a grande iniciadora celta, pois ela veio em missão para disseminar em seu redor a fé que devia salvar na abnegação, a dor e a renúncia; sua irradiação humana foi grande, sua irradiação espiritual é imensa. Cada parcela fluídica que emana de sua alma tem o dom de guardar, através dos espaços, os raios de luz superior que representam o astral divino, e, quando o pensamento de Joana toca um ser humano, ela fica como ornada de uma palheta de ouro sobre a qual brilha uma gota de luz divina.

Joana veio na hora para restaurar uma atmosfera viciada pela frouxidão, pelo prazer e pelo materialismo. Se o druida deu o toque inicial, Joana d'Are revivificou, no seu tempo, o brilho de uma luz que se escurecia, peneirada por vitrôs, obscurecida pela franja da paixão e da matéria. É preciso, então, associar a luz de Domremy às luzes da Armorique. Aliás, os druidas não somente permaneceram na Bretagne, mas foram até as vertentes dos Vosges.

Eu concluo prostemando-me ante Joana, pois que ela obteve de seu solo regional a herança céltica transmitida por gerações. A fé divina está acima de tudo; os grandes missionários devem vos fazer compreender que o amor a Deus, o amor à humanidade e o amor à pátria são as essências das vibrações célticas.

 Jules Michelet

 

 

II - O LIVRO DOS MEDIUNS - ALLAN KARDEC - CAP. XXXI

 

Deus me encarregou de sua missão, que devo cumprir junto aos crentes favorecidos pelo mediunato. Quanto mais graças eles recebem do alto, mais perigos enfrentam e esses perigos são tanto maiores, quanto provêm dos próprios favores que Deus lhes concede. As faculdades de que gozam os médiuns lhes atraem os elogios dos homens, os cumprimentos e as adulações: eis o seu tropeço.

Esses mesmos médiuns que deviam sempre lembrar-se de sua incapacidade anterior, a esquecem. Fazem ainda mais: aquilo que só devem a Deus, atribuem ao seu próprio mérito. Que acontece com isso? Os Espíritos bons os abandonam e eles se tornam joguetes dos maus, não dispondo mais da bússola para se guiarem.

Que acontece com isso? Os Espíritos bons os abandonam e eles se tornam joguetes dos maus, não dispondo mais da bússola para se guiarem. Quanto mais se tornam capazes, mais são levados a se atribuírem um mérito que não lhes pertence, até que Deus os castigue, retirando-lhes uma faculdade que já, então, só lhes poderia ser fatal.

Nunca seria demais lembrar-vos de pedir assistência ao vosso anjo da guarda, para que ele vos ajude a estar sempre vigilantes contra o vosso mais cruel inimigo, que é o orgulho. Lembrai-vos bem, vós que tendes a felicidade de ser intérpretes entre os Espíritos e os homens, que, sem o amparo do nosso Divino Mestre, seríeis punidos ainda mais severamente, porque fostes mais favorecidos.

 Espero que esta comunicação produzirá os seus frutos e desejo que ela possa ajudar os médiuns a se manterem vigilantes contra o escolho em que poderiam quebrar-se. Esse escolho, como já vos disse, é o orgulho.

 

Joana D'Arc

sábado, 21 de setembro de 2013

O ESPIRITISMO AMPARA E ORIENTA SEMPRE




O Espiritismo desempenha importantíssimo papel na vida humana, pela facilidade que oferece à intercomunicação do mundo invisível com o mundo físico. Sua Doutrina, simples, confortadora e compreensível, esclarece, orienta, educa e ampara a criatura humana através das complexidades terrenas. Estabelece ambiente propício ao intercâmbio de ideias entre os dois mundos, favorecendo o trabalho mútuo, regulando e dando aos homens a ajuda ostensiva dos Espíritos, ao mesmo tempo que a estes faculta a contribuição dos trabalhadores terrícolas.

Não é assim que procedem alguns credos superados pelos preconceitos que criaram, ao se escravizarem dogmaticamente ou descontrolados por ambições mundanas e políticas. O Catolicismo, por exemplo, proíbe a comunicação do mundo físico com o mundo espiritual, proibição estulta e inútil. Um católico que perde qualquer pessoa da família ou de suas relações mais afetivas está impedido de senti-la perto de si. Para o Catolicismo, morreu, acabou. Não se fala mais nisso, salvo em missas ao preço da tabela. É desdobrar sobre aquele que desencarnou o manto do esquecimento, que significa ingratidão e desamor, e pensar em outra coisa. No Espiritismo, não. Nós não cultivamos morbidamente os mortos, porque os sabemos tão vivos quanto nós, embora não revestidos do corpo carnal. Nós cultivamos o Espírito e por isso compreendemos que o ambiente espírita favorece a manutenção do sentimento de amor que não é rompido pela morte. O Espírito a ela sobrevive e busca as reuniões espíritas na esperança de suavizar as saudades daqueles a quem amaram na Terra. Portanto, o Espiritismo não sufoca esse sentimento afetivo, tão útil à evolução moral da criatura humana: conserva-o, consolando simultaneamente os Espíritos, esclarecendo-os e ajudando-os a compreender o novo estado a que chegaram a obediência a inelutáveis leis de Deus.

O Catolicismo procede de modo inverso, pondo uma barreira de intransigência entre os dois mundos, evitando de todas as maneiras que o Espírito possa consolar-se da separação verificada com a perda do corpo somático e proibindo, à criatura ferida pela dor de ver partir para o Além um parente ou um amigo, que busque o lenitivo que o Espiritismo oferece e dá. O mais que o Catolicismo apresenta é uma promessa sombria de purgatório e inferno, porque o prêmio da vida contemplativa no céu, essa ideia absurda que a teologia cristã herdou do paganismo, só existe para um número muito reduzido de crentes.

Se outras diferenças fundamentais não houvesse, demonstrando a superioridade doutrinária do Espiritismo sobre o Catolicismo, esse fato - o da intercomunicação de encarnados e desencarnados - serviria de exemplo do quanto a nossa Religião atende mais ao sentimento afetivo da criatura humana, aproximando o que a morte distanciou, permitindo entendimentos e contatos que atenuam o sofrimento da separação provocada pela morte. Graças ao Espiritismo, essa morte não é absoluta, porque podem os chamados mortos comunicar-se com os vivos. Geralmente, depois de desencarnar, o Espírito anseia por voltar à companhia de parentes e amigos, frequentando os lugares a que se habituara quando encarnado. Em vez de o Espiritismo persegui-lo, desprezá-lo, escorraçando-o friamente, recebe-o com bondade, esclarecendo-o, buscando confortá-lo e reduzir suas aflições, assim como assiste e ampara os encarnados, consolando-os em virtude da ausência física dos entes amados que transpuseram a imaginária fronteira do Além. O Catolicismo, que persegue o Espiritismo e os espíritas, não respeita os sagrados sentimentos da criatura humana, impondo-lhes atitudes que não condizem com a caridade cristã, e rechaça os desencarnados, em vez de ampará-los, quando mais sofrem as consequências da separação material. O Espiritismo dá conforto e favorece a reaproximação consoladora, ao mesmo tempo que, por sua Doutrina, opera a elucidação gradual das duas partes, sobre a natureza da vida física, a razão da morte, a vida depois do abandono do corpo carnal. Os que foram e os que ficam aprendem a razão de todas essas coisas e passam a encará-las -com uma serenidade exemplar, adotando a atitude mais razoável em cada caso.

O Espiritismo não força, persuade pela razão dos próprios fatos e pelo poder da sua Doutrina de paz, amor e caridade. Não estimula a credulidade fácil, pois não deseja que ninguém abdique a liberdade de raciocinar e julgar por si mesmo o que vê, sente, observa e analisa. O Espiritismo não quer autômatos nem fanáticos, que creiam sem compreender no que creem. Esta é outra diferença profunda que há entre o Espiritismo e o Catolicismo.

Léon Denis, em "No Invisível", um de seus magníficos livros, chama-nos a atenção para este pormenor importante: "As revelações de além-túmulo são concordes em um ponto capital: depois da morte, como no vasto encadeamento de nossas existências, tudo é regulado por uma lei suprema." E acrescenta: "Com o Espiritismo, coração e razão, tudo tem sua parte. O círculo dos afetos se dilata. Sentimo-nos melhor amparados na prova, porque aqueles que em vida nos amavam, nos amam ainda além do túmulo e nos ajudam a carregar o fardo das misérias terrestres. Não estamos deles separados senão em aparência. Na realidade, os humanos e os invisíveis caminham muitas vezes lado a lado, através das alegrias e das lágrimas, dos êxitos e reveses. O amor das almas que nos são diletas nos envolve, nos consola e reanima. Cessaram de nos acabrunhar os terrores da morte." (Capítulo XI - Aplicação moral e frutos do Espiritismo, ob. cit.)

 

Boanerges das Rocha (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Nov 1958
 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A “HEREGE” QUE ALCANÇOU A “SANTIDADE”


 
Sua comovente história tem inspirado numerosos escritores e cineastas.

Limito-me, neste trabalho, à citação de uns poucos, mais em evidência através dos anos.

De início, entre os primeiros, Schiller com "A donzela de Orléans", drama que inspirou a ópera do conhecido compositor russo Tchaikovski; George Bernard Shaw, que escreveu "Santa Joana", trabalho composto de seis cenas e um epílogo; Christine de Pisan, com "Balada de Joana d' Arc''; Chapelain, autor de "A PuceIa" e CIaudel, com a obra "Joana na fogueira", um oratório, com música de Honegger.

Entre os segundos, destaco Victor Fleming - "Joana d'Arc"; Otto Preminger - "Santa Joana"; Roberto Bresson - "O processo de Joana d' Arc" - e Carl Dreyer - "A paixão de Joana d' Arc".

 Com referência à literatura espírita, quem desconhece a extraordinária obra de Léon Denis, "Joana d' Arc"?

Aqueles que tiveram ensejo de ler o volume nº 12, referente ao ano de 1869, da Revista Espírita, na parte índice Biobibliográfico, encontram estes dados bem sintéticos:

"Joana d'Arc - Heroína francesa, nascida em 1412 em Domrémy, filha de modestos operários, levou vida humilde na infância, permanecendo analfabeta. Diz o seu confessor que era ignorante a ponto de apenas saber o Pai Nosso. Guardava o rebanho do pai e ajudava a mãe nos trabalhos domésticos. Piedosa, sensível, alma ardente; era patriota. (...) Ouvia vozes, que dizia serem de São Miguel, de Santa Catarina e Santa Margarida, que se manifestavam quando tinha ela 13 anos, mandando-a marchar em auxílio do Delfim. Foi nomeada "chefe de guerra".

Então intimou os ingleses a entregar as chaves dos lugares ocupados, em nome do rei do céu. Atacou-os, entrou em Orléans a 29 de abril e em pouco tempo os derrotou completamente.

Lutou contra os inimigos internos. Processada, foi queimada na praça do Vieux-Marché, em Ruão, a 30 de maio de 1431." (...)

(Nota - A entrada de Joana d' Arc com seu exército em Orléans, deu-se a 29 de abril de 1429.)

 A missão da donzela (fr. pucelle) de Orléans foi tão marcante que chegou a inspirar Gabrielle Jeffery, em 25 de março de 1911, a fundar a Sociedade Sufragante de Mulheres Católicas, a qual em 1923 mudaria o nome para Santa Aliança Internacional.

De acordo com dados colhidos, urna organização sem qualquer filiação política, de mulheres, a atribuir à situação geral de inferioridade reservada à mulher os grandes males do mundo.

Seu objetivo: o princípio cristão da equivalência dos sexos, pretendendo, assim, valorizar o trabalho e a eficácia da mulher católica, tornando-a útil à comunidade. No caso específico de Joana d' Arc, cujos feitos chegaram ao conhecimento de todos os países, sabemos que somente em 1894, por decreto do Papa Leão XIII, seria considerada venerável; em 1909 proclamada beata por Pio X e, finalmente, em 1920, inscrito seu nome no álbum dos santos.

Como se percebe, longos anos escoariam na ampulheta do tempo para que a heroína francesa tivesse o reconhecimento do trabalho realizado à frente de um exército, objetivando a libertação de sua pátria.

A par de inúmeras obras descritivas desse vulto que continua a ter um número cada vez maior de admiradores, duas merecem atenção mais particularizada em nos referindo à literatura espírita. Faço menção aos trabalhos "A história de Joana d' Arc ditada por ela mesma", recebida pela mediunidade de Ermance Dufaux, urna menina de 14 anos que também recebera obras referentes a Luís XI e Carlos VIII, e "Joana d' Arc", de autoria de Léon Denis, um dos mais completos trabalhos sobre a donzela de Orléans que a estante espírita possui.

Segundo podemos ler na obra de Canuto de Abreu, "O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária" (pág. 88), Ermance de Ia Jonchére Dufaux "colaborou, como médium, com Kardec, na elaboração da segunda edição de

'O Livro dos Espíritos', de 1860, que se popularizou. O seu guia espiritual deu grande incentivo a Kardec para publicar a 'Revue Spirite' e Ermance, com seu pai, o Senhor Dufaux, se tornou sócia fundadora da 'Societé Parisienne des Études Spirites', Podemos, também, considerá-Ia uma heroína espírita, pois, o seu livro - 'Histoire de Jeanne D'Arc, dictée par elle-même' (edição original de Meluu, Paris, 1855) - foi consumido na mesma fogueira em que arderam as obras de Kardec e de outros, acesa pelo auto-de-fé em Barcelona, Espanha, no dia 9 de outubro de 1861. 'Revue Spirite', dos meses de março, maio e junho de 1858, reproduz o seu manuscrito de 1857 'Confections de Louis XI. Histoire de sa vie dictée par lui meme'. 'Passou-se com ela (Ermance) um curioso fenômeno. A princípio era bom médium psicógrafo e escrevia com grande facilidade; pouco a pouco tornou-se médium falante (de incorporação ou psicofônico) e, à medida que esta nova faculdade se desenvolve, a primeira se atenua...' (registra Kardec, in 'Revue Spirite', janeiro de 1858)".

Conforme esclareci em Reformador de março de 1990, Kardec, que teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a senhorita Ermance Dufaux, fez questão de frisar que “os incrédulos farão sempre mil e uma objeções; mas para nós, que vimos o médium, a origem do livro não poderia ser posta em dúvida”.

(...) sua instrução era a das meninas de família decente, educadas com cuidado, mas, ainda quando tivesse uma memória fenomenal, não seria nos livros clássicos que iria encontrar documentos íntimos, dificilmente encontradiços nos arquivos da época".

Infelizmente o livro não chegou até nós.

O que é de lamentar, porquanto seria interessante fonte de estudo.

Por outro lado, a obra de Léon Denis teve merecida divulgação por parte da Federação Espírita Brasileira. Trata-se de excelente biografia sobre a jovem que projetou Domrémy - sua cidade natal -, a todos os quadrantes. Além de apresentar dados biográficos, contém as opiniões favoráveis ou antagônicas àquela que fez coroar Carlos VII, em Reims, em 1429, e que, depois de repelir o exército inglês, teve sua condenação à fogueira por um tribunal camuflado de eclesiástico. Ainda na mesma obra fala o autor a respeito das vozes que a despertaram para sua missão. Vozes que a mantiveram firme durante longo tempo à frente das tropas francesas e que finalmente a sustentaram no momento do suplício das chamas.

Já na Introdução de seu livro cita Denis os que foram acordes em exaltá-la, considerando-a uma heroína de gênio, uma espécie de messias nacional: Michelet, Wallon, Quicherat, Henri Martin, Siméon Luce, Joseph Fabre, Vallet de Viriville, Lanéry d'Arc.

Mas não deixa passar a oportunidade para dizer:

"Enquanto de um lado, exaltando-a sobremaneira, procuram monopolizá-la e encerrar-lhe a personalidade no paraíso católico, de outro, por uma tática, ora brutal com Thalamas e Henri Bérenger, ora hábil e erudita, servida por um talento sem par, com Anatole France, esforçam-se por lhe amesquinhar o prestígio e reduzir-lhe a missão às proporções de um simples fato episódico.'

A par de todas as opiniões catalogadas por Léon Denis à figura de Joana d' Arc, dos comentários sobre as vozes que a assistiam e da missão cumprida à frente dos homens de armas, uma das páginas que muito nos elucida e conforta do ponto de vista espiritual é aquela expressa pela própria comunicação que ela deu por via mediúnica.

Confessa Denis que ele mesmo se esforçara no sentido de conseguir essa mensagem.

Escreveu ele: (Cap. XVIII)

"Cedendo aos nossos rogos, consentiu (Joana d'Arc) em resumir todo o seu pensamento numa mensagem, que nos consideramos no dever de reproduzir com escrupulosa fidelidade," (...)

Adianta ele que a mensagem possuía todas as garantias desejáveis de autenticidade:

"O Espírito que a ditou escolheu para intérprete um médium que vivera no décimo quinto século e conservava, no seu "eu" profundo, lembranças, reminiscências daquela época. Por esta circunstância, possível lhe foi imprimir à linguagem, dentro de certos limites, o cunho do tempo."

Nesse sentido, o autor, ou seja, Léon Denis, teve o cuidado de colocar uma nota no rodapé da página para alertar os leitores:

"Objetar-me-ão, talvez, que Joana não sabia ler, nem escrever. Responderei que depois de sua morte trágica, ao regressar para o espaço, ela recobrou todos os seus conhecimentos anteriores."

A mensagem foi recebida no dia 15 de julho de 1909.  Não a transcreverei toda, limitando-me, apenas, a alguns tópicos.

Bastará, porém, para que percebamos a inteligência do Espírito comunicante.

A respeito da responsabilidade das encarnações, escreveu:

"(...) as vidas que o Senhor nos dá devem ser utilizadas santamente, a fim de estarmos em sua graça.(...)

Sobre a curiosa outorga de forças aos fracos, assim se expressou "Ele (ou seja Deus) sempre escolheu os fracos para realizar seus desígnios, porquanto sabe dar força ao cordeiro, conforme o prometeu;" (...)

Confessando com humildade a fraqueza e o medo que a assaltaram no dia-a-dia de sua vida, sobretudo, depois de estar consciente de sua missão, considerou:

"Ele me ocultou, por seus enviados, o fim doloroso que tive, compadecido da minha fraqueza e do medo que o sofrimento me causava; porém, chegada a hora, recebi, por intermédio daqueles enviados, toda a força e toda a coragem."

Com referência à alegria que experimentava ao ouvir as vozes que sempre a sustentaram no decorrer de seu trabalho missionário, de forma clara e objetiva escreveu:

"Dizer-vos o que se passava então em mim não é possível, porque eu não vos poderia descrever a minha alegria calma e intensa;" (...)

Finalmente, abrindo seu coração para manifestar o amor que dedicava à Igreja - à sombra da qual se criara -, mas ao mesmo tempo deixando perceber sua desilusão quanto a essa mesma Igreja, através da conduta dos adeptos que haviam plantado o ódio em suas fileiras no decurso dos anos, desabafou de forma muito incisiva:

- "Choro o ódio que plantaram entre seus irmãos, o mau grão que semearam no campo da Igreja e que levou esta mãe que tanto amei a procurar mais a fé do que o amor do perdão. É-me grato, entretanto, vê-los emendar-se a confessar um pouco o erro que cometeram; porém, não o fizeram como eu desejara e a minha afeição à Igreja se desligará cada vez mais desta antiga reitora de almas, para se dar tão-somente ao nosso doce e gracioso Senhor."

A comovente quão instrutiva mensagem, assinada com o nome Jehanne, é, assim, o espelho a refletir, ao mesmo tempo, a humildade e a superioridade moral da camponesa que um dia, acolhendo o chamado do Alto, partiu de sua quase desconhecida aldeia para libertar a França do jugo da Inglaterra!

*

No volume referente ao ano de 1869, da Revista Espírita, na mesma parte que trata dos dados biográficos de Joana d' Are lemos esta curiosa informação:

"(...) Dizia uma lenda que a realeza, perdida por uma mulher, seria salva por uma virgem. A mulher nefasta era Isabel da Baviera; a virgem libertadora - Joana D' Arc." (...)

Uma lenda que na verdade passou a constituir uma realidade, consoante os próprios dados fornecidos pela História.

Isabel da Baviera, rainha de França, nasceu em 1371,  tendo desencarnado em 1435.

Era filha de Estêvão Il, Duque da Baviera.

Possuidora de grande beleza, casou-se aos 15 anos com Carlos VI, sendo coroada em 1389.

Amava, de início, o marido, contudo, a corte corrupta que a cercava acabou por modificar sua vida: tomou-se frívola e imediatista.

Quando o marido enlouqueceu, separou-se dele, dedicando-se a Luís de Orléans. Após a célebre carnificina dos Armagnacs, tomou Isabel partido contra o próprio filho, o Delfim Carlos. Por sua vez, o assassinato de João sem Medo, que já a libertara anteriormente quando fora ela para o desterro, lançou-a nas mãos dos ingleses. Por conselho então de Filipe de Borgonha, entregou o reino ao então rei da Inglaterra: Henrique V!

Essa a França encontrada por Joana d' Are.

Esse o país do qual condoeram-se as "vozes".

Essa a terra que a menina nascida em Dornrémy haveria de libertar do jugo dos ingleses, afrontando a descrença e o escárnio de seus contemporâneos!

Que jamais poderiam acreditar em sua forças.

Que jamais poderiam julgá-la habilitada a vencer o exército inglês!

A história de Joana d' Arc é parte, afinal, da história que durou um século, entre a França e a Inglaterra, a partir do ano de 1337.

Não se tratava exatamente de um conflito entre dois povos constituídos em nações nitidamente diferenciadas.

Senão, vejamos.

Muitos "ingleses" eram normandos, isto é, franceses que chegaram à Inglaterra com Guilherme, o Conquistador, no ano de 1066. Por outro lado, muitos "franceses" eram bretões, ou seja, ingleses habitando há muitas décadas o norte da França!..

De qualquer forma, os ingleses obtiveram em 1415 uma vitória decisiva e, por um tratado assinado em Troyes, metade da França passou para o domínio de Henrique V, rei da Inglaterra, ficando a outra metade sob o governo de Carlos VI.

Morrendo Carlos VI, foi coroado rei da França o filho de Henrique V, um inglês, portanto! Para os franceses, todavia, rei mesmo era Carlos VII, filho do falecido monarca.

Entre os franceses que não aceitavam o domínio inglês estava a camponesa Joana.

A moça que haveria de enfrentar a Inglaterra!

Bastaria o ter ganho ela - distanciada de todo e qualquer conhecimento militar - uma simples batalha para já merecer o elogio de seu país. Entretanto, o que a História haveria de registrar em suas páginas, para espanto de todos, é que a Pucela venceria muitas batalhas, libertando o seu povo dos grilhões do domínio inglês. Tudo isso, lançando mão de incríveis táticas de guerra!

Esses feitos extraordinários, aliás, inspiraram na época inúmeras representações teatrais.

Por exemplo, numa teatralização ocorrida em 1456, em Orléans, um dos atores exclamava em determinado ponto da peça:

- Um só de nós vale por cem sob o estandarte da Pucela!

Afirmava Joana d'Arc possuir muito medo da traição. E foi justamente a traição que a levou à fogueira, após ter passado por um julgamento que a História registraria como inteiramente irregular, onde os gestos de traição surgiam a cada instante! 

Entre parênteses, devemos considerar que uma série de triunfos coroou esse martírio.

Em 1435, pelo Tratado de Arras, a região da Borgonha voltaria às mãos da França

Um ano mais tarde Paris foi reconquistada, seguindo-se a Guiena e a Normandia.

A tomada de Bordéus em 1453, na batalha de Castillon, pôs termo à guerra e dos outrora extensos domínios ingleses na França, só restaria o porto de Calais!

Mas, a respeito do julgamento irregular de Joana d' Are, da traição que a envolveu, um espírita da cidade de Antuérpia, ao tempo de Kardec, correspondente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, teve a lembrança de enviar ao Codificador um artigo escrito por Natalis de Wailly. A esse mesmo artigo o correspondente teve igualmente o cuidado de juntar uma nota que segundo Kardec era fruto das pesquisas pessoais do remetente.

Dizia a nota (Revista Espirita, dezembro/1867):

"(...) Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, e um inquisidor chamado Lemaire, assistidos por sessenta assessores, foram os juízes de Jeanne. Seu processo foi instruído segundo as formas misteriosas e bárbaras da Inquisição, que havia jurado a sua perda. Ela quis louvar-se no julgamento do Papa e do Concílio de Bâle, mas o bispo se opôs. Um sacerdote, L'Oyseleur, a enganou, abusando da confissão, e lhe deu funestos conselhos. Por força de intrigas de toda sorte, ela foi condenada em 1431, a ser queimada viva como mentirosa, perniciosa, enganadora do povo, adivinha, blasfemadora de Deus, descrente na fé de Jesus-Cristo, gabola, idólatra, cruel, dissoluta, invocadora dos diabos, sistemática e herética."

A verdade sobre sua pessoa haveria, entretanto, de aparecer.

No ano de 1456, um quarto de século portanto depois de seu julgamento e condenação, o Papa Calixto Il, através de uma comissão eclesiástica, fez pronunciar a reabilitação de Joana d' Are, e por intermédio de solene sentença foi declarado que ela morrera mártir em defesa de seu rei, de sua pátria e de sua religião.

As condições de venerável, beata e santa só seriam admitidas pela Igreja a partir de quatro séculos mais tarde, conforme vimos anteriormente. Mais precisamente, nos anos de 1894, 1909 e 1920.

Quanto às reações à morte de Joana na fogueira, houve muitas que ficaram nas páginas da História.

Na Alemanha, em 1800, Schiller, através de trágico poema vingava Joana d' Are das insânias de Voltaire.

Goethe, reconhecendo o valor da obra de Schiller, escrevia a ele:

"Sua obra é tão boa, tão boa, e tão bela, que não vejo o que se lhe possa comparar."

Por sua vez A. W. Schlegel, um crítico eminente e amigo de Madame de Staël, consagrava uma peça em verso ao suplício da heroína, enquanto a própria Madame de Staël escrevia em seu livro "Da Alemanha":

"Só os franceses permitiram que se insultasse a memória de Joana."

A Itália também se incorporou, nessa época, ao grupo dos países que fizeram referências a Joana d' Arc. Destaca-se nesse particular a figura de Antônio Morosini, nobre veneziano e negociante armador. Com o título "A Crônica Geral de Veneza" ou "Diário", publicou um jornal mantido sem interrupção desde 1404 até 1434, a respeito do qual a Revue Hebdomadaire fez um comentário:

"Observador perspicaz e judicioso, Morosini intercalou no texto vinte e cinco cartas ou grupos de cartas, em que se relatavam as ações da PuceIa, à medida que iam sendo praticadas." (...)

Na Inglaterra, Sir Edward CIarke escrevia:

"(...) Consideramos Joana a maior heroína que o mundo já conheceu; lamentamos quanto com ela fizeram, o que tudo foi muito malfeito." (...)

Nesse mesmo país, James Darmester, em sua obra "Nouvelles Études Anglaises", deixaria uma curiosa observação:

"(...) Na Inglaterra, a vida de Joana d'Arc, a partir de sua morte até nossos dias, se divide em três períodos: feiticeira, heroína, santa; primeiramente, dois séculos de insultos e ódio; depois, um século de justiça humana; finalmente, em 1793, uma era de adoração e de apoteose!"

De minha parte, acrescento que à acusação de feiticeira, soube Joana d' Arc demonstrar ao mundo a confiança irrestrita que depositava nas vozes do céu que a assistiam, isto é, nos Espíritos que se postaram a seu lado, sustentando-a em todos os momentos; muitos anos depois, já na Espiritualidade, à expressão heroína, buscaria o cultivo da humildade de coração; e à designação de santa, manteria o raciocínio de que tanto ela quanto todos nós, não passamos, em verdade, de simples viajores na eterna caminhada em busca de novos estágios evolutivos ...

Em consequência, nenhuma criatura de bom senso poderá reclamar para si qualquer expressão de santidade, uma vez que "puro", na real acepção do termo, o Planeta somente conheceu um Espírito: - Jesus!

Difícil a alusão a todas as circunstâncias que cercaram a donzela de Orléans.

Difícil a consideração - em simples artigo -, a todos os segmentos correlacionados com as teses espíritas.

Desta forma é de grande proveito para o estudioso do Espiritismo a leitura da obra de Léon Denis, insistentemente mencionada neste trabalho.

 

Kleber Halfeld

Reformador (FEB) Janeiro 1995