sábado, 2 de fevereiro de 2013

A JUSTIÇA DE DEUS


O dia do juízo final transforma o Deus bom e justo dos Evangelhos no terrível e vingativo Jeová bíblico.
A criação da alma, na ocasião do nascimento de um novo ser, só poderia comprometer a justiça divina. Que mérito teria um Espírito que apenas animou um corpo por poucos dias, ou meses apenas? Não teve ele nenhum conhecimento do mundo onde esteve; sua virtude não foi experimentada; sua vontade não teve razão de existir; sua liberdade não foi posta em prova. E após o desencarne precoce, irá ele gozar eternamente num paraíso problemático, ou eternamente sofrer no inferno, cuja existência é mais problemática ainda?
Quais os motivos dessas irremediáveis consequências? Respondem-nos o bom senso e a razão que não há efeito sem causa. Logo, esse Espírito não poderia deliciar-se no Éden, nem padecer dentro das "Caldeiras de Pedro Botelho", uma vez que nenhum bem praticou e nenhum dano causou a seu próximo. Não! Deus não pode ser injusto. O destino da alma humana depende de seus atos e das leis de Deus, que regem o Universo.
A alma humana não poderá ficar sujeita a ritos humanos que obriguem a Deus recebe-la ou rejeita-la. O homem não poderá, jamais, ter interferência alguma no que só a Deus pertence. Do contrário, estaria decretada a falência da autoridade divina.
O batismo ritualístico, de nenhuma forma modificará o destino do Espirito. Jesus nunca batizou ninguém. Só seremos batizados racionalmente, isto é, iniciados nas questões espirituais, quando as compreendermos suficientemente e quando as professarmos conscientemente, depois de sabermos apartar o joio do trigo.
O Espírito, uma vez desencarnado, não tem sexo, nem idade, nem parentesco algum; todos são irmãos, filhos de um mesmo e único Pai comum, que é Deus - esse mesmo Deus que muitos teólogos querem transformar no mais desapiedado dos padrastos.
A ressurreição do corpo é simplesmente absurda, é ridícula: tudo se transforma. O corpo separado do Espírito, dará origem a outras vidas vegetais e animais e fornecerá elementos, que existem no ar, que respiramos. Tudo se transforma dentro da vida. Um corpo, para se recompor, deveria buscar seus elementos dispersos nos três reinos da natureza. Só uma alquimia de "Pedro Botelho" conseguiria realizar tão disparatada e impossível combinação.
Cristovam Camargo em seu livro "O Subconciente", que nós consideramos uma verdadeira bíblia moral, falando sobre a reencarnação, diz: "O mundo é uma imensa escola e a vida uma interminável lição. A infinita aprendizagem das leis eternas, toda a nossa evolução, não é natural que se processe, inteira, dentro do prazo curtíssimo de quarenta, sessenta ou oitenta anos. Sem falarmos nos que morrem cedo, nos que morrem com alguns minutos de vida e não têm tempo de aprender, que nada saberiam se a escola das verdades eternas se encerrasse dentro do âmbito estreitíssimo da vida no planeta."
"Não, quando chegamos à vida, quando nascemos, vimos de dezenas, de centenas de vidas anteriores neste mesmo ou em outros planetas, e continuaremos, depois, em dezenas, em centenas, em milhares de vidas, neste ou em outros planetas, desdobrando-se cada uma dessas - que todas se fundem em uma só - na eternidade, de acordo com os preparativos feitos e as direções tomadas na vida imediatamente anterior."
"Novas perspectivas abre a reencarnação ante nossos olhos fatigados, dando-nos as razões das aparentes injustiças desta vida. A desigualdade verificada na sorte dos homens, nela encontra a única explicação aceitável."
"Esse desnivelamento de situações entre os habitantes da Terra, que entibia os corações,. faz desconfiar de uma justiça superior, levando muitas vezes ao desespero, à blasfêmia e ao ódio à divindade. aparece então como consequência natural - se nem sempre, de nossas ações no presente transcurso de tempo, como corolários de atos mais ou menos meritórios ou censuráveis das diversas criaturas, em existências anteriores".
Aproveitando ainda as inspiradas palavras de Cristovam Camargo, continuamos a transcreve- Ias: "Não há várias vidas, passadas na Terra, no céu, neste ou naquele planeta. A vida é uma só - a vida eterna - e esses marcos divisórios que estabelecemos, dos quais o mais importante, talvez o único para nós, seja o túmulo, só por um velho preconceito arraigado secciona o panorama ininterrupto da eternidade em dois ou mais períodos, que consideramos diferentes e autônomos. Aqueles que, de uma esfera à parte, pudessem contemplar a seus pés o desenvolver nos espaços siderais, aprenderia a vida, desde as vibrações apagadas e recônditas dos minerais, à refulgência dos santos, como o desdobrar harmônico do plano divino, sem soluções de continuidade, hiatos ou mudanças."
"Viveremos sempre, atravessaremos outras numerosíssimas vidas. progrediremos sem cessar e a intuição e o simples bom senso nos afiançam que todos, sem exceção, seremos um dia inteiramente felizes."
Eis em que se resume a mais sábia, a mais justa e a mais generosa de todas as leis que revelam a justiça de Deus no princípio reencarnacionista.
Parodiando Augusto Comte que disse: “Toda a sucessão dos homens, durante a longa sequência dos séculos, deve ser considerada como um só homem, que subsiste sempre, e que continuamente aprende”, dizemos nós: Toda a sucessão de vidas, durante a longa sequência das reencarnações, deve ser considerada como uma só vida, que subsiste sempre e pela qual o Espírito continuadamente aprende e evolui.


As Vidas Sucessivas
por  Adauto de Oliveira Serra
Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira -  1943

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