sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O CORPO DE JESUS



Jesus não possuía o organismo tangível ou carnal - sujeito às contingências fisiológicas - mas um organismo sideral, de sensibilidade quintessenciada, no qual os pensamentos cruéis de seus adversários atuavam maleficamente, ocasionando-lhe sofrimentos e torturas morais indefinidos.

Como, porém, já estava de posse de todos os atributos, Ele os exteriorizava como se, realmente, os seus tecidos fossem materiais: apresentava equimoses, chagas, perfurações nos membros superiores e inferiores. Tudo isso, que não passava de reprodução psíquica, Ele o padeceu, porque seu corpo tangível estava em contato com o ambiente terreno. Se Ele o quisesse, não sofreria nenhuma dor, insulando-o pelo poder da volição, que, logo, eliminou todos os vestígios dos martírios por que passou, novamente patenteados na presença do incrédulo Tomé, mas a sua missão era bem outra, não a de convencer pelos olhos, qual se fora um mago, mas pelo coração e pela Fé; e, ao mesmo tempo, deixou o eterno exemplo de como se pode conquistar a redenção; praticando o bem, padecendo injustiças, calúnias, traições, tendo na alma piedade infinita por todos os delinquentes; e, em permuta, receber escárnios e bofetadas, sem ter, no plano material, dedicados amigos que com Ele sofressem e que ficassem vigilantes após momentos de dor infinita... Tudo isso, Pedro, se passou diante de teus olhos... E não ouviste: Também tu o abandonaste e lhe foste infiel... o que ora relembro, não para te censurar, mas apenas avivando o passado e a realidade. Não te comovas assim, até as lágrimas, irmão! Escuta-me: de Jesus foi encerrado no sepulcro apenas seu corpo condensado ou materializado, amortecido voluntariamente, e, mal se achou insulado, logo despertou.

Jesus não era um ser igual aos entes humanos, porquanto, quando baixou ao Planeta do Sofrimento, já possuía todos os atributos espirituais, muitos dos quais ainda ignorados pelos que o conheceram. Mais tarde, porém, todos os sucessos relativos ao nascimento e à morte, isto é, ao início e ao termo da missão do Nazareno; serão elucidados plenamente, na Terra. Algo direi sobre o que tanta admiração te causa: a derradeira cena do Calvário.

Não conheces, Pedro, a vida do pequeno inseto que fabrica a seda, a maravilha dos tecidos, feitos com elementos gerados nas entranhas de uma das espécies do bombyx-mori? Pois bem, não fica ele entorpecido, durante algum tempo, no próprio estojo que engenhou, o que os homens mais cultos e inteligentes procuram vãmente imitar? Onde se ocultam as suas asas que, durante a letargia, se desagregam de seu próprio organismo, pétalas que desabrochassem em um cálice de flor, para, então, a falena já desperta, ansiosa por liberdade, ébria de amplidão, corroendo o envoltório que a constringia, expandir os seus adejos, sobre as mais encantadoras filhas dos jardins e dos prados?

Assim, Pedro, no paralelo do mágico produtor da seda, calcula o que se passou com o Mestre bem-amado que já era um dos Emissários divinos.

Tomado o seu corpo de um torpor ou de um esmorecimento que Lhe deu a aparência de rígido cadáver, foi levado ao sepulcro. Mas, realizado seu despertar, dissolveu-se o envoltório materializado, recobrando o Espírito todas as suas portentosas faculdades.

 

Reformador 1946

Extraído da obra “Dor Suprema” - Livro VIII, obra  de Victor Hugo, Espírito.

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